CUBA: UMA VIAGEM AOS ANOS 50. A PRIMEIRA IMPRESSÃO

No dia 9 de outubro de 2019 eu pisava em solo cubano para conhecer aquela maravilha de país, um sonho de adolescente finalmente realizado. Ver as figuras de Che Guevara e Camilo Cienfuegos nas paredes dos prédios do Ministério do Interior e da Comunicação, e atravessar a Baia de Havana na barca de Casablanca eram meus grandes desejos, mas o maior era interagir com a população daquele país icônico.

Imagem da Plaza de la Revolucion com a imagem de Camilo Cienfuegos, vista do taxi clandestino

Quando tive a ideia de visitar a ilha de Fidel convidei minha esposa Mônica que não demonstrou interesse, depois convidei os 3 filhos: Junior, Camila e Júlio, que também não quiseram ir. Resolvi ir só, mas conversando com colegas de trabalho, os convidei para a viagem e um deles aceitou: Adeildo, e fomos lá, resolvemos passar uma semana e nos hospedarmos em casas (os moradores podem alugar 2 quartos de suas casas para turistas estrangeiros, desde que tenham autorização do governo) e apenas 1 noite em um resort all inclusive em Varadero, praia paradisíaca a uns 150 km de Havana.

Carniceria (açougue) no Centro Velho de Havana ainda fechada pela manhã

Pousamos no Aeroporto Internacional Jose Marti a noite, só a chegada já dava uma matéria completa do “Só sei que foi assim”, mas vou resumir: O aeroporto é relativamente moderno, mas mal-conservado, deve ter financiamento chinês, pois tem muita propaganda de empresas da China, os adesivos descolando, rasgados e desbotados. Na alfândega apenas 2 raios-x, um deles com uma aprendiz que ficava a toda hora chamando o operador do outro raio-x, tudo muito lento. Muitas agentes alfandegárias, umas moças bonitas, todas na faixa dos 22 a 25 anos com um uniforme elegante, com mini-saias e aquelas meias transparentes que cobrem toda a perna. Elas não se interessam muito pelo serviço, ficam conversando como estudantes na hora do recreio. Passado no raio-x, foi a vez de 2 mesas com enfermeiras conferindo o cartão de vacinação de febre amarela, achei interessante que elas usavam aqueles chapeuzinhos de filme dos anos 50, é uma pena que não podia fotografar nessa área, Adeildo demorou a achar o cartão e uma enfermeira falou: “ayudame”, ele se fez de desentendido até achar o cartão. Pediram pra eu preencher uma ficha com o endereço de onde eu ficaria hospedado e eu percebi que tinha um campo a mais e me dirigi a um grupo de agentes alfandegárias que conversavam, e tive um susto, quando perguntei se elas poderiam me dar uma informação, elas se dissiparam, só ficou uma que respondeu “sim”, muito nervosa, e respondeu muito educada que podia deixar em branco, depois eu vi que Havana é dividida em várias cidades, e era esse campo que eu não preenchi, “Habana Vieja”.

Professora guiando os cubanitos para a escola:

Na esteira muitos cubanos aguardavam as sacolas com “sulanca” embaladas com aquelas fitas durex largas em forma de bola. Na saída tivemos que trocar alguns euros por moeda cubana (tem 2 moedas lá: CUC e CUP), só havia uma CADECA (casa de câmbio) aberta no pavimento superior, de embarque de passageiros, como não havia nenhum avião a decolar, o salão estava muito esquisito e um rapaz nos abordou perguntando se queríamos taxi, respondemos que sim, ajustamos o preço em 25 CUC (1 CUC = 1 dólar americano), ele nos guiou para a troca de moeda e depois para o “ponto de taxi”, pense numa escuridão, não havia nenhum carro no ponto, mas rapidinho chegou um Lada com uns 30 anos de uso, colocamos as malas e entramos, e ai veio o susto: o guia passou para a direção do veículo e o motorista entrou no banco de trás, tudo muito rápido, e seguimos para o endereço. A rodovia é larga, quatro faixas de cada lado e um poste de luz a cada 2 km, fiquei com medo, o cara que ia atrás comigo percebeu que eu estava assustado e disse que eu ficasse despreocupado que em Cuba não há violência e muito menos com turistas. Depois de uns 20 minutos de conversa eu vi a imagem de Che Guevara iluminada e fiquei mais tranquilo. Realmente violência não há, mas a impressão que temos é que os cubanos estão sempre querendo lhe aplicar um golpe. Quando chegamos no prédio, uma espécie de cortiço, o motorista tirou o celular dele e ligou para a casa, a dona veio abrir a porta do prédio, essa “cortesia” da ligação custou 3 CUC. O prédio é antigo, dos anos 30, com o pé direito alto. Eles dividem um andar em dois, a casa era organizada: TV de tubo com programação americana, móveis e enfeites muito parecidos com os que eu via nos anos 70 em Tabira. O quarto era pequeno com um banheiro minúsculo. Enquanto Adeildo tomava banho, eu fui pra sala conversar com Dona Maykel, ela, como todo cubano, falava muito rápido e eu pouco entendia, mostrou a foto do filho e da filha com os netos e disse que moram na periferia de Havana, disse que o marido dela era músico, tocava marimba na noite, disse também que não gostava da programação da TV cubana, nem das novelas brasileiras, por isso assistia aos canais de noticias americanos em língua espanhola. Perguntou se queríamos café da manhã no dia seguinte por 3 CUC, cada, pagos por fora, encomendamos o “desayuno”.

Casario em ruínas, ‘desayuno’ e rua residencial

No dia seguinte acordamos cedo e fomos caminhar pelo Malecon, uma espécie de calçadão na beira mar e pela Baia de Havana. O Malecon é uma atração a parte da cidade, de um lado o mar ou a baia, do outro o casario antigo, uns preservados e outros em ruínas. O dia lá começa mais tarde, nem tanto pelo sol, pois 6 horas já está claro, mas as ruas ainda tem pouca gente, só os primeiros cubanos sonolentos, algo parecido com 4 e meia da manhã no Recife Antigo. Pelo mapa eu sabia que a caminhada ia até a Calle Obispo, principal rua de turismo de Havana, perguntei a uns moradores locais, mas ninguém soube informar, depois entendi, eles falam algo como “opirpo” com o primeiro “P” meio puxado pra “U”: “ouirpo”. Quando voltamos tava lá o café nos aguardando, Dona Meykel perguntou se eu queria café ou chá, preferi café. Suco, ovo frito, mortadela daquelas de 5 reais o quilo, pão e manga cortada, confesso que no Brasil eu teria comido só o pão com margarina, mas lá eu não sabia como seria o dia, tive que comer. O café tava frio, pra não ser chato pedi chá, mas ela falou que eu já havia escolhido o café. Depois disso, passamos a só comer frutas compradas nas ruas, no café da manhã.

Eu me atualizando nas noticias locais no Granma com Adeildo tomando uns mojitos (5 CUCs cada) na Bodeguita del Médio

A primeira impressão de havana era mais ou menos a esperada: muitos cubanos nas ruas, alegres como os nordestinos, que nos abordavam na rua e perguntavam se éramos brasileiros, acredito que identificavam o idioma, sempre se apresentavam dizendo que trabalhavam na região, em hotéis, teatros ou órgãos públicos, falavam sempre que tinham uma prima que morava no Brasil (so conhecem Bahia ou Rio) e que ali perto existia uma cooperativa que os funcionários recebiam 2 caixas de charuto por mês e os vendiam por um preço muito abaixo do mercado, um deles me ofereceu uma caixa de Cohiba por 200 dólares, eu perguntei quanto era nas lojas e ele me disse que era 700. Eu nunca tive a curiosidade de saber o valor real.

O cantor com cara de poucos amigos porque não comprei o CD por “apenas” 10 dólares

A moeda local é o Peso Cubano, essa moeda se paga o salario dos trabalhadores. Um médico ganha mais ou menos 1000 Pesos, ou 40 CUCs, ou 160 reais (1 CUC vale 25 Pesos ou CUPs).

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PRÁ NÃO FICAR MUITO LONGO, CONTINUO EM OUTRA SEMANA

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