ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Há muitos anos atrás, quando meus filhos ainda eram crianças, costumávamos passar as férias de verão numa praia isolada e distante de Recife. Eram apenas algumas poucas casas à beira mar e uma aldeia de pescadores a uma pequena distância. A casa pertencia à família de um tio deles e este tinha também 3 filhos. Os seis tinham todos quase a mesma idade, variando em poucos anos de um para o outro. A bagunça era grande! Aventuras mil: pescarias, banhos de rio, colher frutas nos campos vizinhos, caçar passarinhos, e por aí vai. Sem falar, é claro, dos primeiros arroubos da adolescência, exercitados junto às belas filhas dos nativos.

Num desses períodos, juntou-se ao bando um garotinho local. Sabíamos apenas, àquela altura, que era filho de um morador do vilarejo. O mesmo passou a acompanha-los em tudo, inclusive nas refeições em uma grande mesa que para isso dispúnhamos. Ao final do dia, ia embora para sua casa.

Eis que, um certo dia, para nossa surpresa, ao levantarmos pela manhã, encontramos o dito garotinho dormindo todo encolhido em um canto da varanda em frente à casa e que dava para o mar. Ao ser questionado, o mesmo explicou que havia tomado uma tremenda surra de seu pai e que havia fugido. Perguntado sobre o motivo daquela violência, disse que a razão era o simples fato de seu pai, totalmente bêbado, estar transtornado pelo fato da mãe dele ter lhe abandonado e ido embora com um motorista de caminhão. Assim, todas as noites ele enchia a cara e, quando encontrava o menino, dava-lhe uma tremenda sova, sem motivo algum, apenas para tentar aliviar a dor nos chifres.

Condoídos com aquela situação, procuramos a vó do menino e solicitamos permissão para leva-lo conosco para Recife. Lá, o colocaríamos na mesma escola que os nossos filhos e o trataríamos como se nosso filho fosse também. Bem-dito, melhor realizado. Quando chegamos de volta em Recife, qual não foi a nossa surpresa ao tentarmos aquilatar o grau de conhecimento que o garoto tinha, a fim de decidir em qual classe matriculá-lo. O mesmo não sabia nem que um “O” era redondo. Nunca tinha frequentado uma escola!

O passo seguinte foi contratar uma professora particular, a fim de dar-lhe aulas intensivas que o fizessem compensar o atraso com relação às outras crianças da mesma idade, possibilitando assim integrá-lo com uma turma normal. Foi exatamente aí que os problemas começaram: Depois de muito esforço, a professora conseguia fazê-lo reconhecer o “A”, o “B” e o “C”. Só que, ao passar para as letras seguintes, o “D”, o “E” e o “F”, o mesmo esquecia, quase que instantaneamente, tudo o que havia aprendido anteriormente. Tentar alfabetizar aquela criança revelou-se um verdadeiro “Suplício de Sísifo”. Um eterno recomeçar.

A gota d´água veio quando, ao ter um pequeno desentendimento com meu filho mais novo, por um motivo banal qualquer, desses pelo qual as crianças costumam disputar, o mesmo reagiu com uma violência altamente desproporcional. Quando segurei-lhe as mãos para evitar sua violência, o mesmo parecia uma fera ferida e enjaulada. Uma cena verdadeiramente terrível. Não o tivéssemos interrompido a tempo, poderia ter ferido severamente o outro, ou até mesmo tê-lo matado. Esta era a reação à qual o mesmo havia sido acostumado.

Não tivemos mais dúvidas! Pegamos o carro e o levamos de volta para a casa da sua avó. Constatamos frustrados que havíamos retirado um gato maracajá do seu habitat natural.

Até esta altura da vida, eu acreditava piamente na conversa mole de Rousseau de que “Todos nascem bons; a sociedade é que os perverte”. Hoje, eu sei que não é bem assim! Inúmeros estudos comprovam a tremenda influência do estado nutricional e emocional da mãe durante a gravidez com relação à formação do feto, muito especialmente com relação à formação do cérebro, já que este consome fatia desproporcional dos nutrientes disponibilizados ao nascituro. Carência de proteínas na alimentação da mãe, durante a gestação, tem sido apontado como fator fundamental nas deficiências de aprendizado apresentadas pelas crianças posteriormente.

Um relatório divulgado esta semana pela Fundação Abrinq traz dados muito triste e chocantes sobre a realidade da infância no Brasil. O levantamento aponta que, entre as crianças de zero a 14 anos, 40,2% delas estão em situação de pobreza. A porcentagem representa 17,3 milhões de menores com condições mínimas para sobreviver.

A neurociência afirma que, qualquer intervenção destinada a melhorar as condições socioeconômicas, ou a enriquecer de estímulos o ambiente onde vive uma criança, pode contribuir decisivamente para que ocorra uma grande diferença para melhor na existência dela, tanto no âmbito escolar quanto em todas as demais situações da vida. Isto parece se dar pelo fato de que, tão importante para a inteligência quanto a formação correta dos neurônios, durante a gravidez, parece ser o volume de estímulos que irão exercitar esses mesmos neurônios e criar os trilhões de sinapses que formam esta estrutura maravilhosa que, segundo alguns, tem mais conexões de sinapses que as estrelas existentes em todo o universo. (Clique aqui para ler)

O fato de nosso país ser sistematicamente inundado com milhões de pobres crianças que, devido à maldição de terem nascido de relações avulsas entre dançarinas de funk devassas e cúpidos tigrões, cuja preocupação com a criação e educação da criança é mínima, para não dizer nenhuma, projeta pelos séculos afora nossa condição atual, onde hordas de primatas descerebrados, analfabetos funcionais para efeitos práticos e animalescos em termos comportamentais, vagam desnorteados em busca de um rumo na vida por Pindorama.

Éramos “90 milhões em ação” durante a copa de 1970. Somos atualmente cerca de 210 milhões de brasileiros. Quanto estes 120 milhões adicionais (quase a população inteira da Rússia – cujo PIB é quase o dobro do nosso) estão adicionando à riqueza de nosso país através do trabalho laborioso, competente e eficaz? Quase nada! Não nos fariam a mínima falta caso não existissem. Tornariam até mais fáceis as decisões relativas ao nosso desenvolvimento. São simplesmente UM PESO MORTO que a sociedade tem que carregar.

E pior ainda: Continuam proliferando que nem bactérias, ou uma infecção virótica. É O HORROR!!!

Enquanto nossas crianças mal e porcamente aprendem a ler e escrever, e ficam cantarolando as letras tatibitate de músicas(?) de baixíssimo nível, até mesmo pornográficas; ou repetem a choradeira de sertanejos lamurientos se queixando dos chifres que levaram, vejam a educação que é dada às crianças algures:

Cinco crianças, de diversos lugares, mostrando que já nasceram praticamente sabendo.

Fantasia – Impromptu, de Chopin – Simplesmente ESPETACULAR, por Simonas Miknius. O filho duma égua que não se emocionar, pode enterrar que tá morto.

Eliseu Misin, 5 anos, tocando o Concerto para piano, de Chopin. Deslumbrante!!!!! É aquele concerto que tocou no filme O Pianista.

Carnaval de Veneza, de Paganini. Moçada estraçalhando no violino. Cada um executa estupendas variações diabólicas, à la Paganini e em forma de “Cadenza”.

Eugene Hong, Concerto para piano de Mozart!

Só para dar uma pequena ideia do tamanho do problema: Se, ao invés de termos dado todos aqueles bilhões do BNDES aos ditadores amigos de Lula, investíssemos seu custo anual de R$ 160 Bilhões todinho na educação desses 17,3 milhões de crianças pobres, daria uma média de uns R$ 8.000, reais anuais. Não dá nem para pagar a mensalidade de uma escola mais ou menos. Seria um bom começo, mas não vai ser por aí que virá a redenção da nossa pátria! Nem daqui a séculos! Sou da época em que instituições como a igreja e as escolas militares recebiam jovens humildes e os transformavam em cidadão de primeiríssima categoria. Bem diferentes das escolas de devassidão e canalhice desenvolvidas pelo PT. Precisamos retornar a elas.

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