J.R. GUZZO

O Brasil deveria ser o país mais justo do mundo; em nenhum outro os magistrados que estão no seu supremo tribunal de justiça decidem tanta coisa como aqui, da suspensão dos mandatos de senadores que escondem dinheiro na cueca aos voos de helicópteros da polícia sobre as favelas do Rio de Janeiro. Se quem manda são os 11 cidadãos que consideram a si mesmos – e assim são considerados pela lei – como os mais qualificados, ou os únicos qualificados, para resolver o que é certo e o que é errado em quaisquer questões da vida pública, tudo deveria estar saindo muito bem. Quem saberia mais do que nossos supremos juízes o que o País deve fazer? Só que não é nada disso; é exatamente o contrário. O Brasil de hoje é um dos lugares do mundo onde mais se nega a prestação de justiça à sociedade.

Um país está seriamente doente quando todos os seus sistemas de governança, e a maioria absoluta das forças que têm influência real na condução das questões públicas, aceitam como perfeitamente normal que a lei seja usada para permitir que os marginais violem a lei – o tempo todo, e cada vez mais. Essa aberração não é apenas aceita; é ativamente incentivada pelo Congresso Nacional e pelas prateleiras mais altas do Poder Judiciário. Também não é uma exceção – é o estado normal das coisas. O resultado prático é que o Brasil vive sob um regime de vitória permanente do crime, como ficou claro mais uma vez nessa alucinante libertação de um chefe do PCC de São Paulo, condenado em segunda instância e com sentença confirmada no STJ por tráfico de drogas em escala mundial.

Estamos, aí, em plena demência. O traficante, considerado pela polícia e pelo Ministério Público como um delinquente perigoso e que ameaça a segurança social, não foi solto por um juizinho qualquer do interior, mas por ninguém menos que o mais alto tribunal de Justiça da nação brasileira. Mais: o homem foi solto, acredite se quiser, contra a vontade de nove dos dez atuais juízes do STF; bastou a decisão de um único ministro para reduzir a zero a autoridade do Supremo num episódio que ficou escancarado aos olhos de toda a população como uma fratura exposta. Se isso não é uma injustiça em estado puro, qual seria, então, a definição de justiça?

A história fica ainda pior. Como revelou o repórter Vinícius Valfré em O Estado de S. Paulo, o ministro Marco Aurélio, que mandou soltar o peixe graúdo do PCC paulista, já tinha colocado em liberdade, só neste ano de 2020, pelo menos 92 outros criminosos – também beneficiados pelas liminares que concedeu nos habeas corpus solicitados junto a ele. Não há erro neste número: são 92 mesmo, numa média de dez bandidos soltos por mês, ou um a cada três dias. Não existe nada parecido com isso em lugar nenhum do planeta.

A justificativa é a mesma: uma trapaça legal contrabandeada para dentro do recente “pacote anticrime”, em sua passagem pela Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados. Por este dispositivo de proteção explícita aos criminosos e ao crime, são consideradas ilegais todas as prisões preventivas que não forem “reavaliadas” e “justificadas” a cada 90 dias. É praticamente impossível, desse jeito, manter na cadeia qualquer marginal que tenha dinheiro para pagar advogados caros, desses que conseguem agir nas alturas do STF e sabem como utilizar o atual sistema de sorteios para fazer os seus casos caírem – por exemplo – com ministros como o dr. Marco Aurélio.

O sistema de Justiça que existe hoje no Brasil tornou-se simplesmente incompreensível para os cidadãos; faz sentido para congressistas, a OAB e o STF, e para ninguém mais. É um convite permanente ao desastre.

6 pensou em “CONVITE AO DESASTRE

  1. O estranho é que todos os HCs referente ao artigo dos 90 dias, eram dirigidos ao gabinete do Marco Narciso, ‘sem beleza”, Collor de Melo ! Há algo de podre no sistema de distribuição de HCs, no Supremo Tribunal Federal. Ministro Fux, vamos apurar essa bagaça ??

    • Não é estranho. No caso presente, o advogado entrava com mo HC e via quem tinha sido sorteado. Se não fosse o Narco, ele retirava o HC. Fez isso por 9 vezes até que caiu onde ele queria.

      O grande problema está na possibilidade de retirar o HC por qualquer motivo. Se isso fosse corrigido, ao menos minoraria os problemas.

      • Meu caro Francisco, parece que os responsáveis pela distribuição eram estagiário. O sócio da advogada impetrante do HC, era estagiário no STF até há alguns dias. Em conversa gravada pela PF, um bandido falou para o comparsa, que HC no STF ficava na casa dos três milhões de reais, Tanto dinheiro tenta até os anjos quanto mais, advogados que topam qualquer coisa por dinheiro. Sem acusar ninguém, apenas no direito de desconfiar de tudo, mormente, após uma grande cagada como foi a liberação de um chefão do crime organizado .

  2. O Brasil sempre foi e continuará sendo o “Paraíso dos Criminosos”, até nos filmes. Só pra lembrar de alguns que pra cá vieram: Ronald Biggs, Frank Morris, Carlo Ponzi ou Charles Ponei, Josef Mengele, Tommaso Buscetta, Juan Carlos Ramirez Abadia, Nicola Assisi e o Cesare Battisti com apoio político. Lógico que tem outros que esqueci. Este é o Brasil da impunidade! E será por muito tempo…

  3. E o pior que também faz sentido para a imprensa no geral .
    As TV’s só convocam advogados como ” especialistas ” para falar sobre o STF e todos são a favor das decisões dele .

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