A calçada da casa de praia na Barra do Cunhaú estava sempre animada. Sessão de conversas amenas em noites de verão.
Histórias do “Arco da Velha” vinham à tona. Lembranças e saudades das coisas de Nova-Cruz (RN) e dos nova-cruzenses que já se encontram no patamar da saudade.
A expressão “Arco da Velha” é uma forma reduzida de “arco da lei velha”, uma antiga denominação para o arco-íris. A associação com a “velha” faz referência ao Antigo Testamento (a “velha aliança” ou lei antiga): segundo o relato bíblico do livro de Gênesis, após o Dilúvio, Deus criou o arco-íris como sinal do pacto eterno com Noé e a humanidade.
As conversas envolviam muita saudade, de pessoas e de fatos.
Saudade do apito e do barulho do trem, quando a locomotiva Maria Fumaça fazia suas manobras em plena madrugada; saudade do toque do triângulo do vendedor de cavaco chinês; saudade de Seu Anísio, o vendedor de pão, gritando na porta da casa da minha avó, “Olha o pão, dona Júlia!”; saudade de quando o trem de recife parava na estação, e quando ecoava a voz do vendedor de “água doce, fria gelada, do Piquiri, servida num único copo de vidro grosso, com assepcia zero: “Olhe a água doce, fria, gelada, do Piquiri!!!”. Só havia um copo de vidro grosso, e a assepsia era zero.
Arco-da-velha é uma expressão usada, quando se quer referir a algo que existiu nos tempos antigos. Trata-se de uma forma reduzida de “Arco da lei velha”, com referência ao “Arco-íris”, que, segundo diz a Bíblia Sagrada, no Velho Testamento, Deus teria criado, em sinal da eterna aliança entre ele e os homens, após o dilúvio. O Arco-Iris era uma mensagem de esperança e de que tudo o que o dilúvio havia destruído iria renascer. Era uma visão de Fé, Esperança e Caridade. Era o renascimento da alma do homem, depois de tanto sofrimento.
Enquanto conversávamos animadamente, parou na calçada uma nativa muito desbocada, que foi logo puxando conversa:
– Feliz é a jabuticaba, que vive agarrada num pau e morre sendo chupada. Silêncio total…A nativa disse isso e passou, deixando-nos com ar de espanto, diante da sua saliência.
A Jabuticabeira é uma árvore brasileira, da família Myrtaceae. Originou-se no centro-sul do país, e depois tornou-se conhecida, passando a ser plantada em toda a América do Sul.
Aliás, a Jabuticabeira e o seu fruto fazem parte, agora, do anedotário político brasileiro, como metáfora, em relação ao crescimento econômico do País e à politicalha que se apoderou do Brasil há vários anos. Crescer igual a ela, somente a bandalheira e a ladroagem que se instalou no Brasil nos últimos anos.
Já existe até um ditado popular que diz:
“Se a coisa só existe no Brasil e não é jabuticaba, desconfie”. A jabuticabeira só existe no Brasil.
O economista Winston Fritsch, um dos formuladores do Real, em 1966, foi categórico ao dizer: “Quando falam que o Brasil tem alguma coisa diferente dos outros países, que não é jabuticaba, então é besteira.” A frase ilustra uma apropriação simbólica frequente da jabuticaba: se o país burlar os padrões do mundo globalizado, acabará mal.
Quando se diz que dois políticos são idênticos, é porque são iguais, e só sabem viver agarrados num tronco cheio de dinheiro. São farinha do mesmo saco. São cúmplices.
É característica da Jabuticabeira, o crescimento lento e a rápida velocidade com que da flor surge o fruto maduro (30 dias). Mas fenecem rapidamente. Tem vida curta.
Na feira de Nova-Cruz, jabuticaba se vendia em litro. Mas no quintal da casa da minha avó paterna, Dona Júlia, tínhamos jabuticabas à vontade, ao alcance das nossas mãos. Aliás, o suco de jabuticaba é maravilhoso.
