CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Baratinha Ford mod. 1941, semelhante ao carro de Baby Costa

Há 70 anos, no Recife, eu apreciava com meus amiguinhos, o Circuito Autobilístico de Boa Viagem, que acontecia nas manhãs de domingo e surgiram a partir de 1949. Vibrávamos, gritando e sorrindo face às emoções do estalo dos motores com os escapes abertos.

Em função desses eventos que eram patrocinados pelo Automóvel Clube de Pernambuco, as ruas Barão de Souza Leão e Armindo Moura (atual Porta Larga) foram recapeadas, a fim de formar o quadrilátero da corrida, que se iniciava próximo à esquina da Pracinha, na Av. Boa Viagem.

Dos pilotos pernambucanos, os mais famosos foram Itagibe Chaves, Gegê Bandeira, Baby Costa, além de Chico Landi, que em sua primeira apresentação, veio do Rio de Janeiro, trazendo seu carro-de-corridas num vapor da Cia. de Navegação Costeira.

Muitos anos depois vim a conhecer pessoalmente Itagibe Chaves, o que me causou grande emoção e fiz referências às suas performances.

A Masseratti de Chico Landi

Chico Landi tinha vantagens por concorrer com carro importado da Itália, máquina típica para corridas, que já se sagrara vencedora no Circúito da Gávea, do Rio. Era uma Masseratti muito fogosa, sem capota. Ele já se apresentava com macacão, capacete e óculos especiais.

Sempre era considerado “em vantagem” porque fora participante do famosas corridas até competições fora do Brasil.

Tempo houve em que o Automóvel Clube de Pernambuco excluiu daquelas corridas os “carros especiais”, como aqueles fabricados para competições, permitindo-se os de linha esportiva, como os ingleses mais modernos, como os Subean-Talbot, que fizeram mito sucesso concorrendo sem alterações mecânicas.

Alguns carros de desenhos mais antigos se adaptavam. Competiam sem os paralamas, tampa da mala, estribos e bancos, permitindo-se alterações nos motores, que poderiam ser “envenenados”.

Os Citroen estavam chegando ao Recife e eram infernais principalmente nas curvas. Quando os pilotos do Rio de Janeiro começaram a se apresentar, as corridas o circuito perdeu parte de sua graça, porque eles participavam com carros fabricados para corridas.

Para ver o espetáculo mamãe permitia que eu fosse com Avanildo Maranhão, Pedro Geraldo, Coaraci Ferrer e outros, da faixa dos 14 anos. Ao chegar, tomávamos posição na esquina da Avenida Boa Viagem com a Rua Barão de Souza leão, bem próximo ao local de partida.

Ficávamos sentados no meio fio, sob um sol de lascar, no verão de dezembro até a corrida se iniciar. Outro local muito apreciado pelos espectadores era a curva do aeroporto, quando os motores já haviam esquentado.

O nosso ponto de observação era estratégico, por ser bem próximo da partida e por ali os carros saiam com toda a força. Faziam curvas espetaculares, salientando-se a explosão dos motores, durante as trocas de marchas, quando os escapes pipocavam, provocando grandes emoções.

Dos concorrentes do Recife um dos que mais me impressionaram foi Baby Costa, com sua “baratinha” Ford, mod. 1941, que surgia sem os paralamas, tampa do capô, da mala e os estribos.

Numa daquelas competições ficou na tribuna de honra o ex-campeão mundial argentino, Dom Juan Manuel Fângio, uma legenda das pistas internacionais.

O Recife ficou famoso por esse tipo de esporte que se realizava anualmente. Depois, essas corridas foram transferidas para as pistas da Cidade Universitária e perderam muito público, porque, quando em Boa Viagem, as pessoas iam apreciar as corridas e depois aproveitavam para tomar “banhos-salgado”, como se chamava naqueles anos.

Foram as melhores lembranças esportivas de minha mocidade as manhãs do Circuito de Boa Viagem.

4 pensou em “CIRCUITO DE BOA VIAGEM

  1. Carlos Santos!

    Artigo oportuno para lembrar momentos divertidos vividos na minha infância e adolescência no RS,quando aconteciam as corridas de carreteiras e protótipos de toda ordem,em ruas de Porto Alegre e cidades do interior,depois no autódromo de Tarumã.

    Foram outros tempos…

  2. Caro leitor-amigo.

    Grato, principalmente por sua leitura.

    Fico feliz em despertar suas lembranças.

    Pernambuco chegou a ter um autódromo custeado pelos amantes do automobilísmo, que conseguiu reunir pilotos e apreciadores de vários estamos limítrofes.

    Mas, infelizmente, com pequenos patrocínios e negativas de grana do governo estadual, a iniciativa perdeu fôlego. As pistas estão servindo para pastos de animais.

    Ainda cheguei a apreciar uma corrida por lá.

    Mas, anos depois do famoso Circuito de Boa Viagem funcionar a todo vapor, (aliás, no caso, a todo gás) os “novos ricos” moradores da avenida beira-mar pressionaram o Prefeito e tentaram fazer dois arranjos.

    O primeiro, nas pistas da Cidade Universitária que causaram dissabores, por acidentes graves, porque não havia limitação de pedestres e deu-se muita tragédia.

    Anos depois, novos improvisos. Transferiram as corridas e até botaram o nome de Autódromo de Joana Bezerra, que fica bem no Centro do Recife, mas não deu certo porque foi ficando muito utilizado por novas construções de prédios altos, ali se instalando o Centro Médico do Recife, um dos maiores do País.

    Para salvar do desaparecimento definitivo o esporte da pilotagem, inventaram o chamado “KM de Arranque”, uma porcaria que ocorria na Avenida Mascarenhas de Morais, na Imbiribeira, bairro próximo ao Centro: a avenida que vai para o Aeroporto dos Guararapes.

    Um troço sem graça.

    Os carros corriam em separads. Cada qual arrancava e corria sozinho, apenas 1 km, enquanto um besta ficava cronometrando. Não havia interesse do público.

    Findou e hoje nem se fala mais em Automóvel Clube de Pernambuco,

    As corridas mesmo pra valer foram em Boa Viagem.

    Felizes dos gaúchos que tocaram para a frente as boas ideias e produziram Tarumã, cujas competições vemos pelas tvs.

    Um abraço bem pernambucano para o amigo gaúcho.

    Aliás, é bom renovar, dizendo que somos tão afins ao ponto se se afirmar que o gaúcho é o pernambucano a cavalo e o pernambucano é o gaúcho a pé. Tivemos até um governador gaúcho: o General Osvaldo Cordeiro de Farias.

    Bom domingo!.

  3. Sr. Carlos Eduardo Santos, excelente texto!!

    Meu avô (Carlos Augusto Bandeira Vaz de Oliveira) era primo de Gegê Bandeira. Ele cantava uma música de manchinha de carnaval:
    – tá vendo aquela baratinha virando logo ali? É de Reinaldo Brito, camarada de Vivi… ela que matou Olga Falcão…
    O Senhor sabe a música completa?

    Forte abraço

  4. Não sei mas vou consultar os musicólogos de minha época juvenil. Se tiver bom resultado, voltaremos ao assunto.

    Um abração do

    Carlos Eduardo.

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