CARLOS IVAN - ENQUANTO ISSO

Ao nascer, a criança recebe uma porção de direitos e obrigações que devem ser cumpridos à risca, durante toda a vida. Embora não perceba a complicação do presente que recebeu da natureza, por ser novinho, o recém-nascido tem de carregar nas costas até o óbito. A desencarnação. Triste fardo de cidadania.

O peso dos direitos que a legislação reserva ao cidadão é tão pesado quanto as obrigações a cumprir. Caso a pessoa deixe de receber um direito, a luta é de um indivíduo contra a sociedade. Todavia, no momento em que a pessoa descumprir uma obrigação, a sociedade vem em cima. Cobra a falta, sob pena de impor regras. Penalizar o culpado pela negligência.

O principal direito concedido ao cidadão é poder ocupar o espaço que lhe é reservado no meio social. Poder ir e vir sem atropelos. Ter facilidade para encontrar assistência na saúde, moradia, alimentação e educação. Sagrados direitos constitucionais, mais desatento, o Estado costuma desobedecer. Sempre.

Por outro lado, o Estado, por direito, cobra do cidadão a responsabilidade do voto eleitoral, o cuidado de manter o espaço ocupado na sociedade dentro de certo padrão de organização, mediante o dever de cumprir a legislação em vigor. Quando, por desleixo, o cidadão comete delito, a cidadania é restringida. É o que acontece com o preso. Ao ser trancafiado no xadrez, automaticamente, o detento perde o direito de circular livremente em público por determinado período. Até cumprir as sanções que a sociedade lhe impingiu.

Mas, como tudo na vida tem exceções, tem individuo despreparado para exercer as suas obrigações de cidadania. Ter capacidade para entender o motivo do outro viver numa boa. Com total liberdade, justamente por não agredir itens relacionados à condição social, estrutural e material. Enquanto alguém ferir a ética, por não decifrar as diferenças entre os indivíduos, a tolerância e o respeito, as divergências serão constantes. As desavenças sociais nunca serão vencidas.

Está claro que para aguçar os instintos de cidadania, os princípios começam na escola. É na sala de aula onde a criança aprende as primeiras noções de como tomar decisões, pensando no futuro. Adquire o hábito da convivência sadia, dentro da coletividade. Não se considerar pior, nem melhor do que ninguém. Ser apenas mais um concorrente na vida social. Sem segundas intenções. Pra isso, a escola tem de ensinar a diferença entre o diálogo e o monólogo. Com diálogo, o povo se entende, mas com monólogo, o desentendimento vai longe. Às vezes, acaba em conflitos bestiais. Por uma simples besteira.

Nas escolas do Japão, as crianças aprendem e executam tarefas extracurriculares. Respeitar o bem público. Repor a água e carregar o material esportivo dos alunos veteranos. Ajudar na limpeza da escola. Lavar e secar a caixinha de leite servido no lanche para não poluir o meio ambiente. Ensaiam as primeiras noções de como respeitar a cultura e o patriotismo. É normal o adulto abaixar a cabeça a outra pessoa, como sinal de respeito e reverência. Também é rotina uma pessoa que topa com outra na rua apinhada de gente, pedir desculpas, humildemente. Sem se sentir ofendida.

A cidadania é regida sob três princípios básicos. Liberdade, justiça e solidariedade. Todos cobram esses reconhecimentos. É praxe. No entanto, assumir o compromisso, é obrigação de poucos. Faz séculos, o termo cidadania varia de concepção. As alterações surgem de acordo com a mudança do tempo e as passagens históricas. Mas, não elimina a obrigatoriedade de o cidadão participar e cobrar do governo os seus direitos, sem deixar de obviamente cumprir os seus deveres de cidadão para não perder o compasso na ideia de construir um país melhor.

Atualmente, foram acrescentados aos parâmetros de cidadania, além da liberdade à vida, o direito à propriedade e à igualdade jurídica, a plenitude sobre os direitos civis, a lealdade nas ações, atitudes e padrões de comportamento.

O ensaio para a personalização de princípios surgiu na Grécia antiga que julgava os homens serem livres e iguais na tomada de decisões. Porém, como a principal qualidade de cidadania era basicamente dirigida apenas aos homens que ostentassem riquezas materiais, serem donos de imensas propriedades de terra, a concepção de cidadania falhou. Alterou a concepção.

No Brasil, atualmente, por questões óbvias, o cidadão perdeu o direito à liberdade, cerceada pela violência que atropela os direitos civis. Impede o locomover livre da sociedade pelas ruas a qualquer hora. Por culpa da incompetência do Estado e do cidadão que observa os erros se repetir publicamente, mas não reclama. Ao contrário, aceita os desacertos, caladinho. Os tímidos exemplos de cidadania são reflexos de alguns fatores, aponta a crítica. Desconfiança na Polícia, no Judiciário, na ineficiência do Estado e no abusivo uso de força na repressão aos protestos de rua. Sem resultados definidos.

É bonito ver o país se pronunciar educadamente nas vias públicas, em protestos, porém sem vandalismo, contra a corrupção, as mazelas, as deturpações, a roubalheira do dinheiro da Nação, o baixo astral, as injustiças e especialmente os abusos cometidos sob o manto de autoridade. Prejudicando meio mundo de gente desassistida.

Uma coisa erradíssima se eterniza no país. O Estado deve perder o velho costume de querer mandar em tudo e em todos. Senão, a canalhice nunca perderá o trono. Desprezando o povo que, no fim das contas, é o único dono do Brasil. Com plenos poderes para cobrar dos gestores públicos, cargos passageiros, o anseio popular. Exigir o cumprimento da vontade social de estar num país decente, onde a sociedade possa viver dentro de padrões morais e éticos. Respeitando os bons costumes e a dignidade. Mas, condenando as safadezas que fervilham em todo canto do território brasileiro. Lamentavelmente.

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