CIDADANIA

Ao nascer, a criança recebe uma porção de direitos e obrigações que devem ser cumpridos à risca, durante toda a vida. Embora não perceba a complicação do presente que recebeu da natureza, por ser novinho, o recém-nascido tem de carregar o fardo de cidadania nas costas até o óbito. Quando acontece a desencarnação.

O peso dos direitos que a legislação reserva ao cidadão é tão pesado quanto as obrigações a cumprir. Caso a pessoa deixe de receber um direito, a luta é de um indivíduo contra a sociedade. Todavia, no momento em que a pessoa descumprir uma obrigação, a sociedade vem em cima. Cobra a falta, sob pena de impor regras. Penalizar o culpado pela negligência.

O principal direito concedido ao cidadão é poder ocupar o espaço que lhe é reservado no meio social. Poder ir e vir, sem atropelos. Ter facilidade para encontrar assistência na saúde, moradia, alimentação e educação. Sagrados direitos constitucionais, que desatento, o Estado costuma desobedecer. Sempre. Priorizando, ao contrário, os direitos apenas para os peixes grandes e as autoridades. Exemplos corriqueiros neste país desgovernado.

Por outro lado, o Estado, por direito, cobra do cidadão a responsabilidade do voto eleitoral, o cuidado de manter o espaço ocupado na sociedade dentro de certo padrão de organização, mediante o dever de cumprir a legislação vigente.

Quando, por desleixo, o cidadão comete delito, a cidadania é restringida. É o que acontece com o preso. Ao ser trancafiado no xadrez, automaticamente, o detento perde o direito de circular livremente em público por determinado período. Até cumprir as sanções que a sociedade lhe impingiu.

Mas, como tudo na vida tem exceções, tem individuo despreparado para exercer as suas obrigações de cidadania. Ter capacidade para entender o motivo do outro viver numa boa. Com total liberdade, justamente por não agredir itens relacionados à condição social, estrutural e material.

Enquanto alguém ferir a ética, não decifrar as diferenças, a tolerância e o respeito, entre os indivíduos, as divergências serão constantes. As desavenças sociais nunca serão eliminadas.

Está claro que para aguçar os instintos de cidadania, os princípios começam na escola. É na sala de aula onde a criança aprende as primeiras noções de como tomar decisões, pensando no futuro. No colégio, no meio da coletividade, o jovem adquire o hábito da convivência sadia, para não se considerar pior, nem melhor do que ninguém. Ser apenas mais um concorrente na vida social. Em igualdade de condições. Sem segundas intenções.

Pra isso, a escola tem de ensinar a diferença entre o diálogo e o monólogo. Com diálogo, o povo se entende, mas com monólogo, o desentendimento vai longe. Às vezes, acaba em conflitos bestiais. Por uma simples besteira.

Nas escolas do Japão, as crianças aprendem e executam tarefas extracurriculares. Respeitar o bem público. Repor a água consumida, e carregar o material esportivo dos alunos veteranos. Ajudar na limpeza da escola. Lavar e secar a caixinha de leite servido no lanche para não poluir o meio ambiente. Ensaiar as primeiras noções de como respeitar a cultura e o patriotismo.

É normal o japona adulto baixar a cabeça diante de outra pessoa, como sinal de respeito e reverência. Também é rotina uma pessoa que topa com outra na rua apinhada de japinhas, pedir desculpas, humildemente por algum deslize cometido em público. Sem se sentir ofendida, nem humilhada.

A cidadania é regida sob três princípios básicos. Liberdade, justiça e solidariedade. Todos cobram esses reconhecimentos. É praxe. No entanto, assumir o compromisso, é obrigação de poucos.

Faz séculos, o termo cidadania varia de concepção. As alterações surgem de acordo com a mudança do tempo e as passagens históricas. Mas, não elimina a obrigatoriedade de o cidadão participar e cobrar do governo os seus direitos, sem deixar de obviamente cumprir os seus deveres de cidadão para não perder o compasso na ideia de construir um país melhor.

Atualmente, foram acrescentados aos parâmetros de cidadania, além da liberdade à vida, o direito à propriedade e à igualdade jurídica, a plenitude sobre os direitos civis. A lealdade nas ações, atitudes e padrões de comportamento.

O ensaio para a personalização de princípios surgiu na Grécia antiga que julgava os homens serem livres e iguais na tomada de decisões. Porém, como a principal qualidade de cidadania era basicamente dirigida apenas aos homens que ostentassem riquezas materiais, serem donos de imensas propriedades de terra, a concepção de cidadania falhou. Alterou a concepção.

No Brasil, atualmente, por questões óbvias, o cidadão perdeu o direito à liberdade, cerceada pela violência que atropela os direitos civis. Impede a pessoa de se locomover livremente na sociedade pelas ruas a qualquer hora. Por culpa da incompetência do Estado e do cidadão que observa os erros se repetir publicamente, mas não reclama. Ao contrário, aceita os desacertos, caladinho.

Os tímidos exemplos de cidadania são reflexos de alguns fatores, aponta a crítica. Desconfiança na Polícia, no Judiciário, na ineficiência do Estado e no abusivo uso de força na repressão aos protestos de rua. Sem resultados definidos.

É bonito ver o país se pronunciar educadamente nas vias públicas, em protestos. Fazer manifestações, sem vandalismo, contra a corrupção, as mazelas, as deturpações, a roubalheira do dinheiro da Nação e o baixo astral. Compete ao cidadão, insatisfeito, gritar contra as injustiças e os abusos cometidos sob o manto de autoridade. Prejudicando meio mundo de gente desassistida. Mas, preservando as suas extravagantes mordomias.

Uma coisa erradíssima se eterniza no Brasil. O Estado deve perder o velho costume de querer mandar em tudo e em todos. Senão, a canalhice nunca perde o trono. Desprezando o povo que, no fim das contas, é o único dono do Brasil.

Á sociedade tem plenos poderes para eleger e cobrar dos gestores públicos, donos de cargos passageiros, o anseio popular. Exigir o cumprimento da vontade social de estar num país decente, onde as famílias possam viver dentro de padrões morais e éticos. Respeitando os bons costumes e a dignidade. Mas, condenando as safadezas que ainda fervilham em todos cantos do território brasileiro.

Na política, o mar de imoralidades envergonha a sobriedade do cidadão. A compra de votos para a reeleição, os inúmeros conchavos para as privatizações, o mensalão e o petróleo, de tristes lembranças, o descumprimento sobre os interesses da Nação.

Se bem que, para chegar fácil ao orçamento público, as corporações funcionam na maior esperteza. Com olho grande, na maior agilidade. Deixando a sociedade a ver navio. Constantemente.

4 pensou em “CIDADANIA

  1. Discordo apenas do conchavo para privatizações. Tem que ´privatizar tirar o máximo de possibilidades de falcatruas das mãos dos políticos.

    • Caro Sergio Marchio não discordo do eu ponto de vista. Nas privatizações do passado, foram cometidas muitas aberrações. Mas, o que não pode é o Brasil permanecer inchado de tantas empresas públicas, dando prejuízo, por servirem apenas como cabide de emprego para malandros que só querem mamar.

  2. Carlos Ivan:- “OMEDETÔ” (Parabens em “japa”) pelo magnífico artigo. Aliás, todos seus artigos são pertinentes e sempre excelentes. “OMEDETÔ” também ao Berto por nos presentear, diariamente, com a pleiade de superlativos colaboradores e comentaristas do JBF.

  3. Caro Yoshiro Nagase, obrigado pela leitura do texto, pelo elogio aos temas explorados por mim e pelo omedetô, cuja palavra e tradução desconhecia. De repente, o seu nome me fez lembrar de um amigo do passado, chamado Yoshio. Gente boa, amiga, que passou um tempo aqui no Nordeste, a trabalho, conhecendo a nossa cultura. Acho que Berto ficou contente com o seu reconhecimento a respeito da “pleiade de colaboradores e de comentaristas do JBF”. De fato, o jornal tem muitos bons articulistas. Concordo. Abração.

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