RODRIGO CONSTANTINO

A China é um país dominado por uma tirania comunista há sete décadas. Durante esse período, dezenas de milhões de pessoas morreram de fome ou assassinadas pelo regime. Desde que Deng Xioping assumiu o poder, o Partido Comunista Chinês adotou visão mais pragmática na economia. Por algum tempo, houve acelerado crescimento. E isso alimentou a expectativa em muita gente de esquerda de que a China poderia representar um modelo alternativo ao capitalismo liberal do Ocidente. Ledo engano.

Antes de voltar ao tema da economia, porém, vale destacar uma vez mais que não há qualquer resquício de liberdade individual na China. Logo, qualquer um que tenha apreço pela liberdade e pela democracia já deveria rechaçar de cara o modelo chinês. Afinal, a ditadura de Pinochet no Chile apresentou ótimos resultados econômicos, e nem por isso vamos enaltecer seu governo, não é mesmo?

Como a China é comunista, porém, não faltam jornalistas e políticos dispostos a passar pano em todo abuso de poder para elogiar seu modelo. É o caso do próprio Lula. Em sua coluna de hoje no Globo, Marcelo Ninio diz que a “diplomacia” partidária da China acena ao PT. A mesma que, na figura do antigo embaixador, demonizava Bolsonaro. A mudança de tom tem causa óbvia, como admite o repórter: “reforçar os laços com grupos políticos afinados ideologicamente”. O PT simpatiza com o modelo chinês, eis o fato.

O repórter do Globo acrescenta: “É uma das maiores delegações partidárias do Brasil que já participaram desse tipo de viagem, em novo sinal da importância que Pequim tem dado ao país desde a volta ao poder do ‘velho amigo’ da China, como a mídia estatal chama Lula”.

Os países democráticos ocidentais enxergam a política externa chinesa como extremamente agressiva, pois ela é. Mas em países subdesenvolvidos e sob governos esquerdistas, como o Brasil, a oferta de recursos atrai. O repórter global aponta, ainda que sutilmente, para o inconveniente disso para quem alega prezar tanto a democracia:

O PC chinês insiste que não almeja exportar seu modelo de governança. Mas ao compartilhar histórias de sucesso, como no combate à pobreza, o objetivo implícito é oferecer uma alternativa descolada do Ocidente. Apesar da admiração que Lula tem demonstrado pelas conquistas do sistema chinês, o país é motivo de divergências históricas no PT, devido ao descaso com os valores democráticos.

Ele conclui: “Em 1989, o partido aprovou a moção ‘Não ao massacre do povo chinês’, após a brutal repressão ao movimento pró-democracia da Praça da Paz Celestial. Desde então a China virou referência em desenvolvimento, mas continua longe de ser modelo em direitos humanos”. Mesmo que fosse verdade que a China é um ótimo exemplo na parte econômica do desenvolvimento, ela jamais poderia ser um modelo em si a ser pregado por quem tem qualquer índole democrática.

O problema aumenta quando vemos que nem mesmo na parte econômica a China está com essa bola toda. Durante muitos anos o país foi capaz de crescer de forma acelerada, mas tinha pilares frágeis pela centralização das tomadas de decisão. Hoje essas fragilidades saltam aos olhos, evidenciando a insustentabilidade desse modelo. Uma reportagem do Estadão mostra como o desemprego dos jovens está em nível recorde, e como o governo ditatorial insensível reage a isso. Eis um trecho:

Os jovens da China estão enfrentando um desemprego recorde, já que a recuperação do país após a pandemia da covid-19 está oscilando. É uma luta profissional e emocional. No entanto, o Partido Comunista e o principal líder do país, Xi Jinping, estão dizendo a eles para pararem de pensar que estão numa posição que os impede de fazer trabalhos manuais ou se mudar para o campo. Eles devem aprender a “comer amargor”, instruiu Xi, usando uma expressão coloquial que significa suportar as dificuldades.

Mas muitos jovens chineses não estão engolindo isso. Eles argumentam que estudaram muito para obter um diploma universitário ou de pós-graduação, apenas para encontrar um mercado de trabalho cada vez menor, escala salarial em queda e jornadas de trabalho mais longas. Agora o governo está dizendo a eles para aguentarem as dificuldades. Mas para quê?

Por algum tempo, muito chinês se resignou com a falta de liberdade e de democracia pois havia crescente prosperidade. Agora o tirano comunista diz para os jovens aceitarem trabalhos menosprezados pela hierarquia no país, enfrentarem dificuldades em prol do regime. Qual a recompensa? Ser escravo “rico” ainda era um negócio que alguns engoliam. Mas ser apenas escravo na miséria é algo mais complicado, que pode atiçar a faísca da rebeldia.

O modelo chinês não é exemplo para nada! Nem na parte econômica, muito menos na área dos direitos humanos, da democracia e da liberdade individual. Mas vai convencer a turma comunista do PT de que é para abandonar qualquer inspiração chinesa! Lula se aproxima cada vez mais da China comunista, colocando o Brasil na contramão do modelo ocidental. Vamos pagar um alto preço por isso, tanto em desenvolvimento como em respeito às liberdades.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *