A PALAVRA DO EDITOR

Tenho feito um esforço, que a mim mesmo cheira falso, de não torcer contra o governo de Jair Bolsonaro.

Aqui, no deserto, isso tem sido mais fácil. Raramente mensageiros beduínos chegam com notícias, para matar nossa sede, de modo que pela ignorância dos fatos é possível relaxar um pouco.

Estivesse eu com acesso direto à Internet, a coisa complicaria. Embora, sob certos aspectos, poderia o wi-fi dar-me algum reforço positivo, quando ficasse sabendo que, finalmente, o Ministro da Educação, o Vélez, foi demitido. Já não era sem tempo; e sua permanência no posto me era um entrave a qualquer tentativa de boa vontade.

Bem, estou longe, comendo areia, me contaram que o substituto tem um nome danado de alemão, espero que seja brasileiro.

Não que naturalizados devam ser alijados dos cargos públicos, mas a gente tem de reconhecer um certo preconceito que insiste em nos apontar o fato da existência de tantos brasileiros natos altamente competentes, que colocar sotaque justamente no setor educacional fica estranho.

Pois bom, vem não vai, vai não vem, resolvi bater o martelo assim que soube que Fernando Henrique Cardoso disse para Bolsonaro ou ir estudar economia ou botar a viola no saco, algo do gênero porque no te callas.

Bater o martelo aqui quer dizer, expor minha sinceridade: assim como FHC, acho, desde sempre, Bolsonaro despreparado.

Muito pior do que despreparado, equivocado em todas as suas crenças e valores. Sempre que a ocasião se apresenta, Bolsonaro revela seu direitismo retrógrado, sua doutrina deturpada, seu adesismo a filosofias as mais absurdas e atrasadas, por isso que superadas, e que vêm sendo apresentadas aos brasileiros como salvadoras da sociedade; são coisas como o gesto da arminha, as declarações sobre a educação belicosa dos filhos, os preconceitos sobejamente revelados e tantas coisas que nos removem do caminho civilizatório para nos retroagir a séculos de atraso.

Não bastasse isso, suas escolhas para os principais cargos do governo têm sido aterrorizantes, desde maluquetes, ao ministro que caiu, passando pelas relações exteriores e desembocando em um dos pontos principais, a economia.

O equívoco da fixação do governo em uma reforma da previdência grotesca e injusta, com o agravante de ser desnecessária, dá os sinais de fragilidade na ausência de apoio do Congresso e no desinteresse por parte dos investidores internacionais (ela interessa, mesmo, ao empresariado nacional, que vê no embutido desoneramento dos encargos sociais um futuro de lucros muito mais atraentes que os de agora). É preciso repisar: nem sempre os meios escolhidos para promover o progresso são éticos, justos e humanos – que o diga a escravidão.

Assim, aviso: – Estou fora!

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