ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

O mundo está assistindo em real time ao nascimento de uma nação. Uma grande e bela nação!

São acontecimentos épicos que reverberarão por séculos e a imensa massa de macacos disfarçados de gente, só preocupados com comida, sexo e futebol, não está nem se dando conta. Estátuas serão erguidas para honrar os heróis dessa imensa, bela e triste tragédia. Livros escolares serão escritos e os professores repetirão em detalhes os acontecimentos que ocorrem neste momento, para que sirvam de lição sobre ética, decência, patriotismo e amor à liberdade para as crianças das futuras gerações desta nação que está eclodindo para a vida. Vivemos tempos históricos. A vergonha e o opróbio das chacinas e dos massacres de milhares de inocentes, que estão sendo praticados todos os dias em escala industrial por mercenários assassinos contratados a peso de ouro, e cuja única lealdade é com quem lhes pagar mais, ficará na lembrança da humanidade pelos próximos séculos. O sangue dos muitos milhares de inocentes, que está sendo cruelmente derramado, cairá sobre as cabeças de toda uma nação que assistiu inerme a um ditador sanguinário praticá-las. A pequena cidade de Bucha terá seu nome eternamente escrito ao lado das covas de Katin. Da mesma forma que o cerco a Leningrado e a guerra de Snipers em Stalingrado preenche a mente das pessoas ligadas nos movimentos da história, especialmente pelo alto grau de heroísmo que representam, o cerco a Mariupol e a heroica resistência do Batalhão Azov, que preferiu morrerem todos lutando a se entregarem aos russos, entrará para a história como uma das grandes sagas de heroísmo da humanidade. Farão par aos 300 heróis de Leônidas, nas Termópilas, frente aos 10.000 Persas, quando foram solicitados a entregarem as suas armas e Leônidas respondeu que os persas as fossem buscar.

A Rússia não é uma “Federação”. Não existe federação quando apenas um manda e todos os demais entes federados simplesmente obedecem e são usados como bucha de canhão. Nunca foi uma “união” das repúblicas socialistas soviéticas. Todas, menos uma destas repúblicas, a que mandava, viraram socialistas e soviéticas após terem sido devidamente desestabilizada politicamente por um trabalho insidioso e solerte de agitadores políticos previamente para lá encaminhados, a partir de que o Comando Central enviou suas tropas de assassinos para “libertá-las” da sua vidinha tranquila e pacata, e coloca-los sob o jugo feroz do comando central.

Só viraram “Socialistas” e “Soviéticas” sob imensas pressões manu militare, após o que foram inundadas por multidões de colonos russos, de forma a justificar futuras atrocidades contra aquele mesmo povo. A Rússia é, e sempre foi, um imenso IMPÉRIO COLONIAL multiétnico. Cada um dos centenas de povos que compõem aquele país, ou que já fizeram parte dessa “união” que mais parece um estupro seguido de sequestro, foi subjugado e anexado após chacinas indizíveis: Azerbaijão, Kazaquistão, Quirquistão, Turcomenistão, Tadjiquistão, Geórgia, Chechênia, Abikazia, Sirkássia (exterminados e expulsos) Armênia, os Tártaros da Crimeia (devidamente exterminados por Stalin após a 2ª guerra mundial), Bielorrúsia, Geórgia, Ossétia, Finlândia, Manchúria, as ilhas japonesas, Irkutsk e as dezenas de povos indígenas da Sibéria, e sabe Deus mais quantos povos que foram exterminados e dominados por eles. Isso sem falar nos povos que foram escravizados após a 2ª guerra mundial, e que só se libertaram após a queda da “União Soviética” em 1991: Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Prússia, Alemanha Oriental, República Checa, Eslováquia, Hungria, Romênia, Moldávia, Bulgária e ROMÊNIA.

O que todos eles possuem em comum é que, após terem sido “liberados” através de um morticínio praticado pelos russos, e de terem todos decaído numa ditadura feroz comandada pelos conquistadores, viram seu território ser invadido por colonos russos. De forma semelhante, todos os povos que se viram livres do jugo russo, imediatamente floresceram em uma primavera de liberdade e de desenvolvimento numa escala que nunca haviam presenciado antes nas suas histórias. Podemos dizer, sem nenhum medo de estar cometendo uma injustiça, que os russos são os descendentes diretos modernos de Gengis Kã, de Tamerlão e de Átila, o Huno!

Nenhum povo que tenha uma interface com os russos está livre de ter seu território abocanhado pela voracidade russa e seu povo escravizado em uma suposta “República Federativa” de fachada. O problema é que os casais russos estão tendo 1,4 filhos em média. Não está dando nem para repor os velhos que estão morrendo de causas naturais, quanto mais para compensar a fuga dos jovens mais inteligentes para o ocidente. Não dá mais para usá-los como bucha de canhão nos arroubos totalitários do ocupante eventual do Kremlin, como acontecia quando a média, antes do imenso êxodo rural dos jovens para as grandes cidades, costumava ser de 6 a 7 filhos por casal.

É por isso que o exército russo, após mandar uns 150 mil soldados para invadir a Ucrânia (1% da população, dos quais cerca de 20 mil já morreram), não tem mais nenhuma reserva. Estão tendo de trazer mercenários da Síria e da Geórgia, para realizar os devaneios totalitários de Putin. A economia está em frangalhos e a tendência é de piorar. Se decidir convocar os mais idosos, e que estão em idade produtiva, aí é que a decadência econômica se acelerará mais ainda. Esta guerra é a cartada final de Putin. Agora, para ele, é vencer ou morrer.

Até 2014, quando eu estive em Kiev, Rússia e Ucrânia viviam em total harmonia e a Ucrânia era um país bilíngue. Todos falavam russo e ucraniano. As placas dos nomes das ruas, o horário dos trens, o cardápio dos restaurantes, tudo vinha nas duas línguas. Eles tinham muito pudor em forçar uma identidade ucraniana. Acreditavam que seria grosseiro com uma imensa maioria que possuía fortes laços, inclusive de parentesco, com a Rússia. Tenho para mim que isto foi um grande erro, pois não reforçou a identidade ucraniana e mantinha uma certa dependência com relação à Rússia. Tivesse eu o poder por lá, as inscrições em russo seriam todas sumariamente eliminadas e declararia o ucraniano como sendo a ÚNICA língua oficial do país, como fez Getúlio Vargas com os emigrantes que vieram para o Brasil. Obrigou-os todos a falarem português.

Durante a minha estada por lá, exatamente durante os dramáticos acontecimentos da praça Maidan e a anexação da Crimeia, o que mais ouvi, das muitas pessoas com que fiz amizade, foram relatos de que, apesar dos seus pais e avós falarem russo e terem uma profunda integração com a Rússia, inclusive sanguínea, todos eram unânimes em afirmar que eram Ucranianos e que tinham ódio, nojo e mêdo da Rússia. Tudo isso por conta do longo histórico de violências sofridas nas mãos dos “irmãos” russos ao longo de séculos. Diria que é uma coisa atávica.

O que se imaginava à época, era que o país seria dividido ao meio, em duas partes iguais, pelo rio Dnieper, tal como ocorre hoje com a Moldávia. A parte Leste, majoritariamente russófona, seria a favor de uma secessão e união com a Rússia, enquanto que a parte oeste, falante de ucraniano, seria a favor de uma integração com a Europa. NADA MAIS LONGE DA REALIDADE! O que se viu, de 2014 para cá, foi uma explosão do sentimento de nacionalidade como raramente se viu no mundo nas últimas décadas. Podemos dizer com segurança que as ameaças e agressões de Putin surtiram exatamente o efeito contrário ao que ele desejava. Passaram todos, com a exceção de pequenas minorias, a se considerar eminentemente UCRANIANOS. Assim, se os russos quiserem dominar totalmente a Ucrânia, terão que reduzi-la a escombros e exterminar ou expulsar totalmente seu povo. Para fazer isso em toda a Ucrânia, teriam de expulsar mais uns 10 milhões de refugiados, além dos 5 milhões que já saíram do país. Para completar, teriam de mobilizar algo como 2 milhões de soldados, coisa que não possuem. Assim, podemos esquecer esta hipótese. Esta é a ÚNICA razão que leva os russos a limitarem a atenção na conquista da região separatista do Donbass e à costa do Mar Negro. Limitaram TEMPORARIAMENTE o apetite por simples falta de fôlego. A víbora está alquebrada e estertorando mas permanece venenosa e altamente voraz. É por isso que estão se propondo a “libertar” (quer dizer: exterminar) apenas os locais mais interessantes para eles, como Mariupol.

Para o ocidente (Europa e Estados Unidos), está sendo extremamente interessante assistir à Rússia sangrar até a morte econômica por conta da invasão da Ucrânia, sem ter que enviar nenhum Soldado para lá. Minha opinião é que a bancarrota militar e econômica levará inevitavelmente à queda de Putin, mesmo que ainda demore um mínimo de 2 anos para acontecer.

Deus permita que esta carnificina atroz se encerre o mais rápido possível, e que aquele povo alegre e jovial, dono de uma generosidade imensa e muito parecida com a do povo brasileiro, possa retomar à vida normal, mesmo carregando as imensas feridas e cicatrizes deixadas pela agressão gratuita que sofreram.

Tudo bem que Putin queira que todas as minorias falantes de russo sejam abrigadas obre as asas da “Mãe Rússia”. Só que, para isso, não precisa estraçalhar com os povos que foram invadidos por colonos, de Katarina a Stalin. Pegue-os todos e os leve de volta para a Rússia. Para isto, possuem mais de 22 Milhões de Km2. Só não sei se os caras vão querer retornar, depois de provarem as delícias de viver em uma sociedade aberta e tolerante.

4 pensou em “CHAMAM ISSO DE HUMANOS?

  1. Caro Adônis, v. foi perfeito em sua análise. Só não foi citado um “detalhe”, a Rússia é o país que mais tem bombas atômicas no mundo. Se Putin cair, a “Federação” Russa se desmancha e a miséria será total.

    Ter bombas atômicas, na quantidade que a Rússia tem, com mísseis que viajam a cerca de 10 x a velocidade do som, não é pouca coisa.

    O negócio é muito complicado.

    • Caro João,

      Este ponto apontado por ti é o nosso grande medo. Se o maluco do Putin apelar para bombas atômicas, o ocidente será forçado a exterminar a Rússia.

      Isso não será bom para ninguém. Prefiro que derrubem Putin e assuma uma liderança mais equilibrada e menos expansionista.

  2. Touro Indomável,

    Estou feito Sancho. Que soco na boca do estômago.
    Doeu demais e vai ficar doendo suas descrições de acontecimentos reais que a maioria não se atenta ou ora pedindo seu fim porque estão “lá longe”.
    Já tem muito tempo que o ser humano deixou de SER humano.

    Você veio com a espada afiada e eu com o veludo no dia de hoje.

    Não podemos e não devemos perder as esperanças.
    Confesso, com o coração apertado, que temo (e muito) as eleições desta ano. Imprevisível o que está por vir ?
    Prefiro não pensar e continuar lutando.

    Um abraçação e bom domingo.

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