MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

Há uma diferença muito grande entre as propostas do ministro Paulo Guedes e as propostas do pessoal da esquerda em termos econômicos. Na eleição de 2018, no meu entendimento, o eleitorado que elegeu Bolsonaro estava dividindo em duas classes: seus eleitores fiéis e aqueles que odeiam a esquerda, aqui dentro eu coloco os simpatizantes das propostas de Paulo Guedes porque quem admite o plano de Guedes, certamente, não é eleitor da esquerda.

O sistema econômico, querendo ou não, dá as cartas na política. O projeto de governo do PT tinha tudo que o mercado não queria, enquanto Guedes apresentava, pela primeira vez, uma forma factível de reduzir o déficit: privatizações e concessões. Se o mercado não topar, não adianta. Alguns fatos sobre isso:

1) Mário Amato, presidente da FIESP no final dos anos de 1980 declarou que “Seu Lula for eleito, no mínimo, 800 mil empresários deixarão o país”. Todo mundo entendeu o recado e Collor foi eleito;

2) FHC ganhou duas eleições contra Lula lastreado no Plano Real e no projeto liberal com promessas de privatizações;

3) Em 2002 o mercado se sentia inseguro com uma possível vitória de Lula e ele teve que declarar publicamente que se fosse eleito cumpriria contratos. A tão prometida auditoria da dívida nunca foi feita no governo dele;

4) Dilma se elegeu devido a aprovação de Lula e com a promessa de manter as políticas adotadas.

Em geral, o pensamento da esquerda se coloca contra privatizações, amplia o tamanho do estado e foca no social via programas como Bolsa Família, enquanto que a proposta dita “liberal” pretende que a renda chegue através do trabalho. Lógico que há situações nas quais a renda mínima é necessária, mas há estudos, por exemplo, demonstrando que beneficiários do Programa Bolsa Família são menos propensos a procurar trabalho. Um das alegações é o receio de perder o benefício. É preciso que se diga que tais programas ajudam, mas não tiram ninguém da classe social a que pertence. Migração social ocorre com emprego.

A Economia não é uma Ciência Exata e modelos econômicos estão muito relacionados com o momento. Por exemplo, o modelo Keynesino apregoado tanto pela esquerda como o governo deve agir mostra, na verdade, que o multiplicador econômico é maior através de gastos do governo do que através de transferências. Mas, a manutenção de programas sociais tem por objetivo manter o povo dependente e submisso.

Outra questão é que política econômica é como remédio: não serve para todo mundo. Por isso, pode dar certo num momento, pode dar errado em outro. A política econômica de Zélia Cardoso no governo Collor tinha por base um preceito monetarista. O confisco dos saldos em conta corrente, por um lado reduziria a oferta de moeda, elevando a taxa de juros e, por lado, reduzia preços porque o consumo seria com base apenas no salário. Parecia tudo perfeito e não deu certo porque grandes fortunas não aceitaram ter seus recursos bloqueados. Fizeram filas nas portas dos bancos da Av. Paulista e somas vultuosas foram sacadas.

O governo atual conseguiu avançar economicamente em alguns pontos. Acredito que se não fosse essa pandemia a gente estaria com resultados bem melhores. Mas uma questão insana é que, atualmente, qualquer declaração que se faça elogiando uma ação do governo, você corre risco de linchado. Apoiar Guedes é ser considerado “gado, bolsominion” e outros adjetivos mais. A Bolsa de Valores ultrapassou os 100 mil pontos, foi aprovada a lei de liberdade econômica, as contas externas fecharam com saldo positivo, as estatais deram lucros e você dizer que isso aconteceu é suficiente para perder uma amizade.

Apenas para citar o momento complicado, vi um post de um colega de infância conclamando o fortalecimento da esquerda para não permitir que o país seja governado pela direita. Eu lembrei que numa democracia que escolhe é a maioria e quase fui engolido e cobrado para “exercer meu papel de formador de opinião”. Até entendo que como professor tenha alguma influência sobre meus alunos. Muitos me consultam em diversos momentos e sobre diversas coisas. Mas, a obrigação é ensinar a pensar e é a isto que eu me dedico. Trago problemas práticos para debater em sala, tipo fazer um consórcio ou escolher um presidente. Tudo que a gente faz tem risco e as decisões dependem da mensuração desse risco.

Quando a gente vai fazer uma análise de investimento, a gente pega as variáveis
inerentes (taxa de juros, inflação, perspectiva de lucros, etc.) define um critério e vamos olhar se vale a pena assumir aquele risco ou não. Todas as decisões que tomamos são calcadas num determinado grau de risco. As pessoas jogam na Mega-Sena porque um jogo custa R$ 4,50 (o risco é baixo) e o retorno é alto. Eu jamais aceitaria ser mesário numa eleição no Iraque ou no Afeganistão porque o risco da sessão explodir é alto. Não há decisão que não tenha um nível de risco associado. Diante disso, somos os responsáveis por nossas escolhas, então não me cabe induzir decisão de ninguém. Cabe discutir os cenários. É isso que eu faço com meus alunos. Analiso cenários, mas a decisão é deles. A responsabilidade de decidir é deles.

Eu vejo avanços em alguns pontos, mas vejo também que algumas coisas são feitas com extrema inexperiência. Por exemplo: o vexame da nomeação do ministro da educação com aquele currículo forjado nunca deveria ter ocorrido se o sistema de informação do governo fosse competente. A informação é fundamental e se o presidente pensar em alguém para um cargo, antes de qualquer convite ele precisa ter em mãos todas as informações pertinentes. Há coisas para melhorar, mas a forma de ação da esquerda elegeu e vai reeleger Bolsanaro. Por motivos simples: o mercado não aceitar retrocesso e a esquerda não tem projeto. Cego em tiroteio. Não sabe por onde fugir.

24 pensou em “CEGO EM TIROTEIO

  1. Propostas do pessoal da esquerda? Sério!?

    Escreves: …questão insana é que, atualmente, qualquer declaração que se faça elogiando uma ação do governo, você corre risco de linchamento. Apoiar Guedes é ser considerado “gado, bolsominion” e outros adjetivos mais. A Bolsa de Valores ultrapassou os 100 mil pontos, foi aprovada a lei de liberdade econômica, as contas externas fecharam com saldo positivo, as estatais deram lucros e você dizer que isso aconteceu é suficiente para perder uma amizade.

    Ora, caríssimo, amizade, na acepção da palavra, não fica estremecida por opiniões contrárias; se tal acontece, amizade não era.

    Grande texto, mas (sempre há um mas), esperar algo diferente de um fubânico, além da genialidade comum a todos, é perda de tempo e sabes que estás entre os gigantes desta amada gazeta, o maior jornal hoje em circulação no UNIVERSO.
    Beijo em vosso coração.

  2. Eu também pensava assim, caro Sancho. Mas, tem sentido afastamentos porque querem que eu ensine que o empresário é ladrão, que a empresas dele deveria ser do povo, que o lucro tem parte com diabo. Eu ensino os desafios do mercado, não a desafiar o empresário.

    • Ótimo, professor Assuero.

      O nobre colunista ensina o óbvio ululante!

      Até porque o empresário para chegar onde chegou não recebeu nada de mão beijada. Houve muito suor, lágrimas e sangue derramados, sem contar os percalços do dia a dia que teve de enfrentar e enfrenta para manter-se em pé! Capitalismo é assim.

      Qualquer vacilo é caixão e vela preta! E aí: adeus empregos, adeus comércio, adeus progresso.

      • Cícero, se colocar contra o mercado é coisa pra jumento. Eu era petista e trabalhava num banco. Trabalhava mesmo, não era do sindicato não. Convivia bem com isso porque sempre acredite que renda se ontem trabalhando. Sei que a exceções, mas esperar tudo do governo, paciência.

  3. Digníssimo Assuero,

    só digo que, quando eu crescer, quero aprender a escrever que nem ti.

    Fazes jus aos teus cabelos grisalho. Forte abraço.

  4. Assuero, tomo emprestado a frase de Dimauro lá de Acary, que quando queria dizer que alguém havia feito algo louvável falava bem assim:
    Sois foda!

  5. Eu ainda acho que a proposta do Guedes é tímida.
    Há várias sugestões no Legislativo, mas o que eu queria ver é taxação e impostos mais justos para com os menos favorecidos. Por exemplo:

    – Se você é feliz proprietário de um Fusca 1970, paga IPVA; mas se tiver lancha, iate ou avião, não paga.

    – A taxação das grandes fortunas.

    – Imposto de renda mais justo, ou seja deduções realísticas para educação, etc…

    – redução dos lucros indecentes dos bancos. Se uma empresa lucra 15% acima da inflação em um ano, comemora com foguetório; mas os bancoa lucram mais de 50% acima da inflação e ficam caladinhos.

    Nestes, ninguém teve coragem de mexer, nem mesmo a ditadura qu tudo podia.

    Parafraseando a música que foi tema de novela, desde Cabral, o rico sobe e o pobre desce.

    É o tal distânciamento social, que só aumenta.

    PS: antes que me linchem, sou da direita.

    • Em tempo, vou abrir uma vaquinha aqui no JBF para comprar um lote na Fazenda Boavista, em SP, só me faltam R$ 1.999.000,00 para inteirar os R$ 2.000.000,00 que custa o menor dos lotes. Depois abro outra vaquinha para construir a casa.

      A viagem de Bagé até lá é mole, vou de carona com caminhoreiros

    • Caro Francisco, se tu é da direita ou disfarçar bem ou esqueceu de por o ponto de ironia ₢ (feat Nick Hell) em suas propostas.

      Todas são propostas carimbadas pelas esquerdas e não dão certo em lugar algum.

      Quer diminuir o lucro dos bancos? Aumente a concorrência.

      Se colocar imposto nos lucros destes, quem paga é o cliente. Simples assim.

      Ah, aqui em SP por enquanto Fusca 1970 não paga IPVA.

      • Nunca fui de esquerda, nem mesmo quando estudante. Só para constar fiz CPOR em 1967. Se fosse de esquerda seria preso e torturado.. Um erro comum aqui no JBF é a rotulagem de quem faz qualquer crítica ao governo é de esquerda. Bobagem pura

        Me sinto até insultado quando você diz que todas as minhas propostas são dee esquerda. Não são, sou apenas crítico dos erros do Bolsonaro. Votei nele e porisso tenho o direito de me sentir traido quando ele se joga nos braços do Centrão, quebrando assim uma das suas propostas de campanha que mais me agradou. Desde Sarney, todo mundo fez isso mesmo.

        Quanto a aumentar a concorrência, vamos ver se as fintechs conseguem (tenho cartão de crédito de uma delas., porque até hoje o que houve foi concentração, com fusão ou aquisição de bancos por bancos ou mesmo faências, como Bamerindus e Banco Santos.

        Eu não quero diminuir o lucro dos bancos nem de qualquer empresa. Mas o lucro dos bancos é indecente há muito tempo, E os correntistas já pagam isso há muito tempo.

        isso é uma verdade. Mas não so economista para elaborar soluções. O Guedes é quem está com a bola, mas ele é liberal…..

        Quanto ao Fusca 70, o ano foi força de expressão. E m parece que você é mais bem aquinhoado do que eu pela crítica que fez.

    • Francisco, na verdade não se trata de timidez, mas de amarras judicias. Não sei se te lembras, mas o sinistro Lewandowski relatou o processo sobre privatização. Para ele, como a estatal é criada pela lei, então deve ser extinta por ela. Imagine um congresso que não apoia isso. Nada seria vendido! Ainda bem que livraram as subsidiárias.
      Eu não tive tempo de olhar a proposta tributária, mas o governo poderia aumentar arrecadação se fosse eficiente. Pretendo falar sobre isso.

      • Acho que você está certo. Eu suspeito sempre das decisões do Lewandowski.

        E há tempos acho que a Eletrobrás deveria ser não vendida, mas extinta. Houve um presidente dela que concedeu uma entrevista à Veja, falando barbaridades, inclusive que a empresa tinha funcionários que ganhavam mais do que ele, o que é fato.

        Breve história da Eletrobrás: nos anos 70 até 90, ela funcionava como Operador do Sistema (que depois da desregulamentação, esta função passou a ser exercida pelo, ONS) como reguladora, junto ao DNAEE (função que hoje é exercida pela ANEEL) e como coordenadora do planejamento do sistema eletro energético (funções hoje exercidas pelo ONS e pela EPE). Não tem, portanto, função alguma a não ser holding de algumas empresas de energia elétrica.

        Mas tem milhares de empregados. Para que? A Ab Inbev, que é a maior cervejaria do mundo é uma holding que deve ter uns 300 empregados. Não é preciso mais.

        Para que serve, então? Se o governo vender, terá que entregar algo aos compradores. O controle das subsidiárias? Melhor seria um enxugamento extremo, não de gastaria com empregados, aluguéis, poder-se-ia vender alguns prédios, economizando muito dinheiro. Sugiro que você vá mais a fundo neste assunto.

        • Conheço de perto a situação do sistema elétrico. Cuidava de projetos de pesquisa com um subsidiária do sistema e sei como é que funciona. Eu venderia. Salvar os Investimentos realizados

  6. Para aqueles que entendem tanto de economia, quanto de Física Quântica. Este texto do Maurício já é um começo para as pessoas começarem a pensar com o cérebro e não com a parte final do intestino grosso.

    Tá falado!

    • Putz! Roque. Lembrei do fubânico Jessier Quirino que diz entender desde atracação de navios a acasalamento de muriçoca.

  7. Parabéns pelo texto e pela hercúlea e espinhosa docência, Mestre Assuero.

    Num país que fica muito a desejar da necessária contrapartida da segurança jurídica nos negócios, fica bastante complicado para o new empreendedor.

    Quantos “Chicagos boys” são criticados por querer sempre aplicar a vestuta, porém, inescapável teoria que rege todo e qualquer modelo econômico: o preço será definido pela lei da oferta e demanda. Podendo, em certos casos, servir até como paradigma dos salários.

    Empreender é, portanto, um contrato de risco, vez que, todo esforço, visa não apenas só uma boa dose de administração, e , sim, obter lucros, coisa que destoa de diversão e ideologia álá sanduiche de mortadela.

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