VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O ENXOFRE ESTÁ NO AR

Como diz a música de Chico Buarque “Meu Caro Amigo”, “a coisa aqui está preta”.

“Meu Caro Amigo” é uma das canções mais icônicas de Chico Buarque, lançada em 1976 no álbum Meus Caros Amigos. Composta em parceria com Francis Hime, a música é uma “carta musical” enviada ao dramaturgo Augusto Boal, exilado em Portugal, relatando de forma irônica e esperançosa a situação do Brasil durante a ditadura militar.

Os boatos e a perseguição dirigida a um homem de bem e sua família, especialmente seus filhos, estão tornando o nosso País um antro de gente ruim, bandidos e ladrões de colarinho branco. O clima está ficando irrespirável, com tanta maldade espalhada pelo ar. Na verdade, “a coisa aqui está preta…”

O arrastão que fizeram com o dinheiro do INSS ficou por isso mesmo. Disse o Poderoso Chefão, que quem foi prejudicado, ou seja, roubado, vai ser ressarcido até o último centavo. Mas não disse quando nem por quem. Mas fiquem calmos! Sabem quando será o ressarcimento?

– No dia em que a galinha criar dentes. Dia de São Nunca, do meio dia pra tarde! Esperem sentados, porque em pé, cansa…. E a catinga de enxofre, o perfume do diabo, continua no ar…

O hábito de se repudiar as flatulências existe desde os antigos egípcios, mas se intensificou na Idade Média, quando as pessoas passaram a relacionar o mau cheiro de enxofre, próprio dos gases, à inhaca que dizem que o diabo tem.

Algumas pessoas supersticiosas acendem velas para espantar o Demônio, quando sentem o mau cheiro de flatos espalhados pelo ar. Deve ser o mesmo odor das quadrilhas de ladrões que roubaram o dinheiro do INSS e que estão acabando com a soberania do Brasil. É humilhante demais, os pobres do INSS terem seu pouco dinheiro roubado por ladrões de colarinho branco, que já não tem onde guardar suas botijas de dinheiro roubado. É gente que fede e causa nojo a quem estiver por perto. Para esses ladrões, todo castigo é pouco.

Nos tempos antigos, havia o costume de se riscar um palito de fósforo, para acabar com o mau cheiro de flatulência que empestasse qualquer ambiente.

Martinho Lutero, inclusive, recomendava aos fiéis soltar puns para afastar o diabo.

O enxofre é um elemento químico com odor igual a ovos podres. Por isso, ninguém consegue suportar a catinga de flato sem demonstrar indignação.

O odor dos flatos provém de pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico), enxofre e os mercaptanos livres na mistura.

O odor fétido dos flatos é causado por pequenas quantidades de compostos de enxofre produzidos por bactérias intestinais, especificamente sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico – \(H_{2}S\)), metanotiol (um tipo de mercaptana) e dimetilsulfeto.

Quanto mais rica em enxofre for a dieta, mais esses gases vão ser produzidos pelas bactérias no intestino, exalando odor cada vez pior, de ovos podres.

Alimentos como cebola, repolho, batata doce, milho, pimenta, couve-flor, leite e ovos são notórios por produzirem esses gases putrefatos.

Flatulência é muitas vezes referida, vulgarmente, como pum (onomatopeia), peido (do latim peditu), bufa, gases, bomba, traque (onomatopeia), entre outros nomes.

Pois bem. Décadas atrás, entrando pelo século passado, numa certa noite, em plena campanha política para prefeito de Nova-Cruz (RN) e governador do Estado, durante a realização de um acirrado comício da UDN, com a presença do candidato a governador Djalma Marinho, houve um acontecimento hilário: “Balançaram o pé de fava” e a catinga de enxofre fez com que o povo se dispersasse.

Alguém que parecia ter comido guisado de urubu, cozinhado no fogo do inferno, se infiltrou na multidão e “empestou” o comício com uma catinga de carniça e enxofre, que denunciava a chegada do Demônio ou da Besta Fera. No mesmo instante, Dona Nenem, que morava na Rua do Sapo, tinha fama de soltar gazes irrespiráveis, e era viciada em Comícios Políticos, gritou:

– EU NÃO FUI!!!

E uma voz forte de homem respondeu indignada:

– AH, CONDENADA INFELIZ!!! QUEM PRIMEIRO SENTIU, DO SEU LHE SAÍU!!!!

Muitos insultos foram dirigidos a Dona Neném, que perdeu a “classe” que, aliás, nunca teve, e respondeu com palavrões, pagando na mesma moeda.

Muita gente cuspiu e escarrou, e algumas pessoas chegaram a vomitar, com a sensação de que tinham engolido o “traque”.

Foi o caso de Lúcia, nossa vizinha, que estava com a tia no comício. A jovem chegou em casa doente, com a sufocante catinga do traque entranhada no nariz. Vomitou a noite toda. Estava gritando “Já ganhou”, de boca aberta, quando a catinga de carniça se espalhou no ar. Em pânico, a jovem botou na cabeça que tinha engolido o traque. Adoeceu na hora. Teve uma intoxicação violenta e passou 15 dias para se curar.

Nunca mais Lúcia quis saber de comício político.

Dona Neném já era conhecida, por expelir gases podres, onde quer que se encontrasse. Certa vez, acabou com o velório de um político, ficando, por alguns minutos, na sala da casa, apenas ela e o distinto “de cujus”.

Por isso, sua presença era evitada pelos conhecidos, em qualquer aglomeração. Era uma presença indesejável.

A história do comício se espalhou e Dona Neném ganhou a fama reiterada de ter sido responsável pela intoxicação de Lúcia. A ideia infeliz que a mulher teve de gritar “eu não fui !” quando a catinga se espalhou, contribuiu para que isso fosse uma declaração de culpa, ou melhor, uma confissão.

Valeu o ditado popular:

“Quem primeiro sentiu, do seu lhe saiu”!!!

Pela primeira vez, em Nova-Cruz (RN), alguém adoeceu por ter engolido um “traque”.

Este caso é Verdade e dou Fé.

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EVOCANDO ERLON CHAVES

Filho de um motorista e de uma faxineira, Erlon Chaves foi uma criança prodígio e quebrou o estereótipo do negro sambista. Estudou piano, canto, harmonia e regência, compôs trilhas de filmes, novelas e jingles (incluindo o lendário “Já é hora de dormir”, dos Cobertores Parahyba), gravou e fez turnê com Elis Regina.

Bon-vivant, namorou Vera Fischer, então Miss Santa Catarina 1969, que conheceu quando era o jurado debochado do Programa Flávio Cavalcanti. Mas foi com a inesquecível parceria com Wilson Simonal que conquistou de vez o reino do suingue. Seus arranjos requintados e dançantes ajudaram a consolidar o soul jazz brasileiro.

Erlon Chaves foi um dos mais notórios alvos de preconceito racial na história da música pop brasileira, ao lado de outros dois “crioulos atrevidos que não sabiam os seus lugares”, como a eles se referiam os censores. Simonal (acusado de ser informante da ditadura) e Toni Tornado (envolvido em imbróglio no mesmo festival por cerrar o punho como os Panteras Negras).

Abalado emocionalmente após o episódio do FIC, Erlon Chaves nunca mais voltou a se apresentar ao vivo. Faleceu de um aneurisma cerebral em novembro de 1974, aos 40 anos, após passar mal em uma loja de discos no bairro do Flamengo. Comprava uma vitrola portátil para Simonal, então preso.

Com o passar dos anos, foi alimentada uma história de que a morte teria sido ocasionada por uma discussão defendendo o seu soul brother. Seu enterro foi acompanhado por 3 mil pessoas, entre eles Flávio Cavalcanti, Bibi Ferreira, Martinho da Vila e Simonal (sob escolta da polícia).

O músico e produtor Cacau Franco, primo de Erlon Chaves e administrador de seu espólio, revelou à Trip que planeja um tributo ao maestro no segundo semestre, marcando os 40 anos de sua morte. Em fase de captação de patrocínio, a homenagem virá em forma de shows no Rio e em São Paulo e um DVD.

Erlon tinha como amigo-irmão o cantor Wilson Simonal.

Em 1957, com 23 anos, assumiu a regência de Orquestra da TV Tupi, e começou a criar arranjos para diversos artistas, tornando-se requisitado na indústria …

Tanto o maestro Erlon Chaves, quanto o cantor Wilson Simonal foram profundamente afetados e considerados vítimas dos “Anos de Chumbo” da ditadura militar brasileira (1968-1974), embora de maneiras distintas e trágicas.

– Erlon Chaves foi vítima direta de perseguição, racismo e censura após apresentações consideradas “imorais” pelo regime.

– Wilson Simonal teve sua carreira destruída e foi isolado após ser acusado injustamente de delator (X9) da ditadura, um rótulo que o perseguiu após um incidente pessoal com seu contador.

– Em 1970, no V Festival Internacional da Canção (FIC), Erlon apresentou “Eu Também Quero Mocotó”. A performance, que incluía o maestro negro sendo beijado por várias loiras, foi considerada “assédio moral” e “imoral” pelos militares.

– Ele foi preso, algemado e levado para um interrogatório, ficando proibido de exercer sua profissão por 30 dias.

– Relatos indicam que ele foi sequestrado e mantido em cativeiro por agentes da repressão, sofrendo insultos racistas.

– Abalado pela perseguição, Erlon Chaves faleceu de infarto em 1974, aos 40 anos, enquanto comprava uma vitrola para Simonal, que estava preso.

Falando em Wilson Simonal, ele foi o cantor mais popular do Brasil, no início dos anos 70. Mas sua trajetória foi interrompida.

– Acusação de X9: A repercussão desse fato fez com que Simonal fosse rotulado como informante da ditadura (“dedo-duro” ou X9), o que gerou um boicote generalizado da classe artística e da mídia. Condenação: Apesar de ter se declarado a favor do regime para tentar se defender, Simonal foi processado e condenado.

– Reabilitação Póstuma: Após sua morte em 2000, e um documentário de seus filhos, a imagem de Simonal foi revisada, e ele foi inocentado da acusação de ser delator pelo Conselho Federal da OAB em 2003.

Resumindo, Erlon Chaves e Wilson Simonal, ambos grandes artistas, foram “devorados pelo monstro” daquele período, com Erlon sofrendo diretamente a brutalidade física e censura, e Simonal sofrendo a destruição pública de sua reputação.

Erlon Chaves foi um dos mais notórios alvos de preconceito racial na história da música pop brasileira, ao lado de outros dois “crioulos”: Wilson Simonal e Tony Tornado.

É lamentável a destruição de talentos no nosso País, em pleno vigor, sendo ridícula a tentativa de resgate posterior, da memória dessas pessoas injustiçadas.

É até um desrespeito às famílias.

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ROSA DE MAIO

“Rosa de Maio” é uma famosa canção brasileira composta por Custódio Mesquita e Evaldo Ruy (às vezes grafado Ewaldo Ruy).

Essa música ficou eternizada nas vozes de intérpretes como Carlos Galhardo (gravação de 1947), Orlando Silva (1944) e Altemar Dutra.

É uma valsa lenta de estilo romântico, comum no repertório da era de ouro do rádio brasileiro.

Maio é considerado o Mês de Maria Santíssima e por isso, pela tradição católica, é o mês escolhido para realização de casamentos.

Mesmo assim, nem tudo são flores no mês de maio, pois acontecimentos lamentáveis ocorrem subitamente, sem aviso prévio, em qualquer dia ou hora, como a tragédia que vitimou o grande brasileiro Ayrton Sena, em 1 de maio de 1994, ficando essa data marcada para sempre, como uma data muito triste no nosso País.

Essa ocorrência dolorosa provocou uma comoção nacional, e o Brasil chorou, ao ver um grande ídolo sucumbir, levando com ele todos os seus sonhos.

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AS AVES NA CANÇÃO NORDESTINA

As aves ocupam um lugar central na música nordestina brasileira, funcionando frequentemente como metáforas para a seca, a saudade, a resistência do sertanejo e a beleza da fauna da Caatinga.

O grande Luiz Gonzaga, cognominado o “Rei do Baião”, foi fundamental em imortalizar diversas espécies em suas composições.

Aqui estão as principais aves citadas na canção nordestina:

Asa Branca (Patagioenas picazuro): Símbolo máximo do sertão, eternizada por Luiz Gonzaga, a Asa Branca representa a migração forçada pela seca e a esperança do retorno com a chuva.

Assum Preto (Tiaris fuliginosus): Cantado por Gonzaga, representa a tristeza e a escuridão, muitas vezes associadas a sertanejos cegos ou à própria melancolia do sertão.

Carcará (Caracara plancus): Ave de rapina que representa a força, a inteligência e a resistência do sertanejo, foi popularizada na voz de Nara Leão e na cultura nordestina.

Gralha-cancã (Cyanocorax cyanopogon): Conhecida como “cancão”, é considerada a “voz da caatinga” e figura em canções que retratam a paisagem seca.

Avoante ou Pomba-de-bando (Zenaida auriculata): Ave comum que forma grandes bandos no Nordeste, frequentemente mencionada em canções sobre a migração de aves na região.

Corrupião/Sofreu (Icterus jamacaii): Conhecido pelo seu canto melódico e plumagem amarela e preta, é uma ave emblemática da Caatinga.

Rolinha “Fogo Apagou” (Columbina squammata): Citada por Gonzagão, seu nome onomatopéico traz a atmosfera do sertão.

As canções que mencionam essas aves, especialmente as de Luiz Gonzaga, narram a migração do homem sertanejo, a esperança por chuvas e a dura realidade da seca no Nordeste. Muitas dessas aves, hoje, sofrem com a caça e a destruição de seu habitat.

Aves em Canções brasileiras:

É impossível falar de aves na música brasileira sem citar Asa Branca, canção eternizada pelo “rei do baião”, que retrata a severa seca do Sertão. Graças aos versos de Luiz Gonzaga, a Asa Branca se transformou no símbolo do Sertão. A música narra a migração do nordestino, fugindo do terror da seca, para não morrer de fome.

“A VOLTA DA ASA BRANCA”, outra canção belíssima do Grande Luiz Gonzaga, traz ao nordestino a esperança de ver a chuva cair de novo para que ele possa voltar para o Sertão.

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O PALPITE

Como toda cidade do interior nordestino, Nova-Cruz (RN) tinha seus tipos folclóricos, como o bêbado, o jogador contumaz de carteado, o mentiroso nato, o gaiato, o pidão caloteiro, que não pagava nem promessa a santo, o cachaceiro, o corno confesso mas apaixonado, conhecido como corno manso, e o viciado em jogo do bicho.

Certo dia, Seu Anísio, o entregador de pão em Nova-Cruz (RN), que, todas as tardes, com um enorme cesto na cabeça, fazia a entrega de pão quente de porta em porta, inclusive na casa da minha avó paterna, Dona Júlia, acertou no jogo do bicho. A notícia se espalhou…

Eu era menina e todas as tardes aguardava com ansiedade a chegada do pão, abicorando, com a certeza de que a minha avó iria me dar um pão doce, como sempre fazia. Eu adorava esse pão doce, bem diferente dos pães doces sofisticados de hoje, que só tem boniteza.

Pois bem. Seu Anísio, o entregador de pão, gostava de fazer uma fezinha no jogo do bicho, coisa pouca, no grupo e na milhar. Raramente acertava, mas quando isso acontecia, a alegria era grande. O melhor do jogo é ganhar.

Pela primeira vez, seu Anísio arriscou jogar uma nota graúda de 20 cruzeiros, pois o palpite foi forte e ele tinha certeza de que iria acertar. Depois de passar a noite sonhando com muito pão espalhado pela rua, Seu Anísio pulou da rede logo cedo e se organizou para “arriscar na sorte”. Sentia que o universo iria conspirar a seu favor.

Acertou no TIGRE, no grupo e na milhar. Para ele, que só jogava alguns trocados, foi um dinheiro bom, que lhe garantiu a feira do mês.

Todos os seus conhecidos quiseram saber quem lhe deu o palpite. Reticente, ele, aos poucos, contou que o palpite veio de um sonho que ele teve na noite anterior.

Contou que havia sonhado que a rua onde morava estava cheia de pão, espalhado pelo chão. Era pão que não acabava mais. Como pão é feito com farinha de trigo, Seu Anísio interpretou que o bicho seria tigre, ou “trigue”, como ele chamava.

Tratou logo de ir jogar no grupo e na milhar. Decidiu que naquele dia o bicho seria tigre, ou “trigue”, como ele chamava. E arriscou todas as moedas que tinha em casa no “TRIGUE”.

Um amigo lhe perguntou de onde ele tirou esse palpite. A resposta foi rápida:

– Ora, homem de Deus, eu sonhei a noite toda com a minha rua cheia de pão, espalhado pelo chão. Era pão que não acabava mais. Como o pão é feito de farinha de “trigre”, o bicho tinha que ser “Trigre”. Aí joguei no “trigre, 22”..

A notícia se espalhou e todos os dias, pela manhã, chegava alguém batendo palmas em sua casa, pedindo-lhe palpite para jogar no bicho.

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A IMPORTÂNCIA DO ESPAÇO VITAL

Quando se fala em espaço vital, entende-se que se trata do espaço que a humanidade necessita para viver.

Realmente, a qualidade de vida dos seres humanos está ligada ao espaço vital que lhe é posto à disposição pelos governantes. Está ligado ao tema dos direitos humanos, saúde mental e qualidade de vida. A sobrevivência da humanidade depende do espaço vital de que dispõe.

Na realidade, a expressão “espaço vital” é uma cobrança à nossa sociedade, para que o ser humano tenha condições de vida, no meio de tanta erva daninha, podendo respirar livremente, resistindo às influencias da nossa sociedade, e até do ar que respiramos.

A superpopulação requer cada vez mais um maior espaço vital, para dar melhor qualidade de vida à humanidade.

A qualidade do espaço vital é de suma importância para os indivíduos e as comunidades. É responsável pela boa ou má qualidade de vida.

O conceito de espaço vital (em alemão: Lebemsraum), foi concebido por Friederich Ratzel, nos seguintes termos:

“Toda a sociedade, em um determinado grau de desenvolvimento, deve conquistar territórios onde as pessoas são menos desenvolvidas. Um Estado deve ser do tamanho da sua capacidade de organização.

Friedrich Ratzel propôs uma Antropogeografia, como um ramo da geografia humana, que estudaria o espaço de vida dos agrupamentos humanos. Ao sistematizar os conhecimentos políticos aplicados pela geografia, Ratzel contribuiu decisivamente para o surgimento da geografia política, que no início do século XX foi acrescida do termo geopolítica (dado por Rudolf Kjillèn).

O geógrafo alemão Friederich Ratzel visitou a América do Norte, no início de 1873 e se impressionou com a doutrina do destino manifesto nos EUA. Ratzel simpatizava com os resultados do “Destino Manifesto”, mas ele nunca usou o termo. Em vez disso, contou com a Tese da Fronteira de Frederick Jackson Turner. Ratzel promoveu colônias ultramarinas para o Império Alemão, mas não uma expansão em terras eslavas. Depois, alguns alemães reinterpretaram Ratzel para defender o direito da raça alemã de expandir na Europa. Essa noção foi, mais tarde, incorporada à ideologia nazista. Harriet Wanklyn argumenta que os políticos destorceram a teoria de Ratzel para objetivos políticos. Daí, a origem dos colonizadores.

Origem dos colonizadores alemães dos territórios conquistados no Leste.

O espaço vital seria o espaço necessário para a expansão territorial de um povo, no caso, o povo alemão. Não apenas a restauração das fronteiras de 1914, mas também a conquista da Europa Oriental, espaço onde as necessidades, relativas à dominação territorial e recursos minerais desse povo seriam supridas. Quem também fazia parte, como se fosse um “trato”, era a Itália, que por ficar do outro lado do “espaço vital” era de grande interesse alemão. O interesse alemão e italiano nesta expansão justificava-se em certa medida pelo fato de os dois países serem retardatários na expansão marítima europeia, e ao contrário da França e da Inglaterra, não tinham vastos domínios coloniais. O “possibilismo”, de Vidal de la Blache, serviu como uma resposta antagônica ao espaço vital, ao considerar que havia maneiras de desenvolver economicamente o espaço vital em um limitado espaço geográfico. O líder nazista desejava atacar a União Soviética no verão de 1940, logo após a queda da França.

Adolf Hitler considerava que a “raça ariana” (que segundo ele, era superior) deveria permanecer unida, e para uni-la ao Império Alemão deveria possuir um território maior. Esse território era onde o povo germânico morava, porém foi dividido. Era chamado de “Espaço Vital Alemão”. Tal argumento foi amplamente discutido em seu livro Mein Kampf, e utilizado como discurso de justificativa da marcha alemã sobre a Europa a começar pela anexação da Áustria, que antes pertencia à Confederação Germânica e antes disso ao Sacro Império Romano-Germânico. Hitler queria invadir Sudetos, que compunham a região mais industrializada da Tchecoslováquia, mas havia um problema: as potências França e Inglaterra tinham assinado um acordo com a Tchecoslováquia, que prometia protegê-la em caso de ataque estrangeiro.

Todas as guerra a que estamos assistindo tem como alvo principal o ESPAÇO VITAL.

As guerras atuais tem, na maioria dos casos, uma relação direta ou indireta com a luta pelo espaço vital (Lebensraum), frequentemente rebatizado na geopolítica moderna como disputa por territórios estratégicos, recursos naturais ou hegemonia regional. Embora o termo “espaço vital” seja historicamente associado ao expansionismo nazista, o conceito geográfico de garantir território para recursos, segurança e sobrevivência econômica permanece central em muitos conflitos modernos.

O espaço vital trata da necessidade de o Estado ter o direito de atuar sobre uma área geográfica (território) que garanta condições de sobrevivência de uma determinada sociedade. Este conceito foi formulado no contexto da II Revolução Industrial e no momento em que a Alemanha passava a exercer ação geopolítica na Europa.

Atualmente, o conceito de espaço vital (Lebensraum) é tratado predominantemente como um conceito histórico e geopolítico clássico, associado à necessidade de território para a sobrevivência e desenvolvimento de uma população, mas também é discutido em dois contextos distintos:

– Refere-se à teoria formulada por Friedrich Ratzel no final do século XIX, que defendia que o Estado é um organismo vivo que precisa de território (espaço) para crescer e garantir recursos para sua população. Esta teoria foi distorcida pelo nazismo para justificar a expansão territorial alemã (o “Espaço Vital Alemão”) antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

– Trata-se do “espaço vital psicológico”, definido como a totalidade de fatos que determinam o comportamento de um indivíduo em um determinado momento, não sendo um espaço físico, mas sim um espaço mental onde as influências ambientais e pessoais se cruzam.

Em debates contemporâneos, a noção de espaço vital evoluiu para o controle de recursos e influência econômica, focando na interdependência e no desenvolvimento de áreas de influência em vez de conquista territorial direta.

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A SEMANA SANTA DA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE

Todos os anos, quando chega a Semana Santa, sinto uma saudade imensa da minha infância e juventude em Nova-Cruz, que, para mim, será sempre a minha “aldeia”. A Nova-Cruz, de um tempo em que a maldade não tinha nascido, e quando a vida era um doce mel, com a família toda reunida, sob as bênçãos de Deus e do nosso porto seguro, Francisco e Lia.

A Semana Santa, que se inicia no Domingo de Ramos, com a entrada de Jesus em Jerusalém, para os adeptos da Igreja Católica, era uma época triste e sombria.

O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito. Não se ouvia música profana. Não se dizia palavrões, e quase não havia brigas na cidade. Era um período de reflexão, e esperança de um mundo melhor.

Nesse tempo, durante a Semana Santa, a religiosidade pairava sobre a cidade e o povo lotava a Igreja Matriz da Imaculada Conceição, para participar dos ritos religiosos.

O ar que se respirava era melancólico, diante da expectativa de que Jesus morreria crucificado na Sexta-Feira da Paixão.

Na sala da nossa casa, ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que minha mãe distribuía aos pedintes, na Quinta-Feira Santa e na Sexta-Feira da Paixão. Nessa época, década de 60, bacalhau era produto de baixo custo.

As comadres da minha mãe, que residiam na zona rural, traziam-lhe beijus de goma com coco, de presente, feitos em Casa de Farinha, cujo cheiro e gosto nunca esqueci.

Na Quarta-Feira da Semana Santa, a chamada Quarta-Feira de Trevas, se relembra a traição de Judas Iscariotes, um dos Doze Apóstolos de Jesus Cristo.

“Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e perguntou-lhes: Que quereis dar-me e eu vo-lo entregarei. Ajustaram com ele trinta moedas de prata. E desde aquele instante, procurava uma ocasião favorável para entregar Jesus ( MT 26, 14- 16)”

Judas representa todas as forças do mal, que se opõem aos planos maravilhosos de Deus.

À tarde, a Igreja ficava lotada, e os fiéis participavam do Ofício das Trevas.

Algumas pessoas, por ignorância ou fanatismo religioso, naquele dia, não tomavam banho, achando que iriam pecar e ficar entrevadas, por castigo de Deus.

Esses medos faziam parte da crendice popular, espalhada pelos recantos mais atrasados do Nordeste.

Em uma das Missões de Frei Damião, em Nova-Cruz, foi desmistificada essa crendice, e o santo Frade, no fim de suas pregações, falava:

“Todo mundo pra casa, tomar banho, inclusive na Quarta-Feira de Trevas. Não quero ninguém aqui fedendo a bacorinha!” (porco novo).

A Vigília Pascoal faz parte do Tríduo Pascoal, onde vivemos os passos de Jesus, rumo ao Calvário, ao Sepulcro e à Ressurreição. Esse Tríduo começa com a Quinta-Feira Santa, pela conhecida Missa do Lava-Pés”, por meio da qual, Jesus instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio, com uma recomendação:

“Fazei isso em minha memória” (Lc 22, 19).

Na Quinta-Feira Santa, portanto, se comemora o Lava-Pés e a Última Ceia de Jesus com seus apóstolos, segundo o relato dos evangelhos canônicos. É quando se revive a traição de Judas, durante a Última Ceia. É o começo do martírio de Jesus, que, enxotado e levando chibatadas dos guardas, carregaria sua Cruz, para ser crucificado e morto na colina “Calvário”.

Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus Cristo estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era o dia do “Beija”.

Nesse dia, minha mãe jejuava, alimentando-se apenas de pão e água, assim como outras pessoas católicas.

Paralelamente, na Sexta-Feira da Paixão, havia uma grande preocupação das famílias, de esconder suas galinhas dentro de casa. Os “biriteiros” de plantão costumavam furtá-las dos quintais nessa noite, e transformá-las em guisados, para lhes servir de tira-gosto.

O furto de galinhas, na noite da Sexta-Feira Santa, era uma tradição, fruto da cultura popular nordestina. Geralmente, os “gatunos” eram jovens conhecidos e de boa família, e, às vezes, faziam isso por brincadeira.

Por preceito religioso, nesse dia triste, eram praticados o jejum de carne e abstinência de bebidas alcoólicas. Não se ouvia o apito do trem, pois ele não trafegava. Não havia entrega de leite dos currais, pois, não se tirava leite naquele dia, “sob pena” de, ao invés de leite, o animal jorrar sangue. As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, em troca de 30 moedas. Os bares e outros ambientes de entretenimento não funcionavam, em respeito à morte de Jesus Cristo.

Adultos e crianças pobres, de casa em casa, faziam um apelo, na Quinta- Feira Santa e Sexta Feira da Paixão, pedindo esmolas:

– Uma esmolinha, pelo amor de Deus, pra minha mãe jejuar no dia d’oje!

Na Sexta-feira da Paixão, até a natureza silencia. O Cordeiro é imolado. Jesus, morre na Cruz, rezando: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

Sábado de Aleluia era um dia diferente e menos triste, uma vez que se revivia, e ainda se revive, a expectativa da Ressurreição de Jesus Cristo.

Havia a malhação de Judas, em praça pública, o que divertia crianças e adultos. Era um dia de alegria e Esperança, pois o Padre, na missa da madrugada, celebraria a Aleluia, em louvor à Ressurreição de Jesus Cristo.

Ainda por causa da crendice popular, havia pessoas ingênuas, que temiam que a Aleluia não fosse “encontrada” e o mundo se acabasse. Achavam que a Aleluia, cântico de alegria e ação de graças, ligado ao tempo da Páscoa e Ressurreição de Cristo, era uma pinta de sangue, dentro do livro de orações do Padre.

O sino da Igreja da Imaculada Conceição repicava, em regozijo pela Ressurreição de Cristo, enquanto o Padre celebrava a “Aleluia”, entoando cânticos de louvor.

A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre pela madrugada. Ao amanhecer, é o Domingo de Páscoa, ou Passagem, a festa da Ressurreição de Jesus Cristo.

A Páscoa Cristã é uma das festividades mais importantes do Cristianismo. A Ressurreição de Jesus Cristo, prova que Ele é o Filho de Deus, feito homem.

De acordo com o calendário cristão, a Páscoa consiste no encerramento da chamada Semana Santa.

No tempo da minha infância e juventude em Nova-Cruz, não se falava em Ovos de Páscoa, nem se dava presente de chocolates a ninguém. O mercado de chocolates era muito precário. E Ovos de Páscoa, lá, era utopia.

Terminava a Semana Santa e a saudade batia, pois os estudantes voltavam às aulas, inclusive aqueles que estudavam na capital potiguar. O fluxo de pessoas que passavam a semana Santa em Nova-Cruz era grande, Iam rever os parentes que lá residiam.

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A SABEDORIA DA FÁBULA

A fábula é uma antiga narração com intuitos morais. Segundo a literatura, elas já eram usadas nos livros sagrados, onde apareciam sob a forma de parábolas. As mais célebres são as escritas por um escravo chamado Esopo, que nasceu em Amorium, pequena aldeia de Phrygia, em 620, e morreu em 560 A.C.
Esopo foi escravo de dois filósofos, Xanto e Idmo; este último emancipou-o.

Esopo adotou um método para as suas narrativas, mais claro e mais simples que o dos filósofos: fez falar os animais e as coisas inanimadas, para dar lições aos homens.

Segundo conta a história, Creso, rei de Lydia, chamou Esopo à sua corte e encheu-o de benefícios. Esopo chegou a viajar pelo Egito e Pérsia, e estava em Athenas, quando Pisistrato a avassalava. Ao ver o que os athenienses sofriam sob o jugo d’aquele tirano, Esopo compôs a fabula das rãs descontentes que pediam um rei.

De volta à corte de Creso, este o mandou-o a Delphos para fazer um sacrifício a Apolo. Aos seus habitantes, desagradou a fábula que ele lhes compôs, sobre as aparências flutuantes sobre a água, que de longe parecem alguma coisa e de perto nada são. Por isso, atiraram-no do alto de uma rocha. Toda a Grécia lastimou a morte de Esopo. Em Athenas erigiram-lhe uma estátua.

Uma das famosas fábulas de Esopo: O BURRO VESTIDO COM PELE DE LEÃO:

Um certo burro vestiu uma pele de leão que encontrou no caminho e encheu de susto todos os animais, que fugiam ao vê-lo. O asno felicitava a si mesmo, por se ver tão temido e respeitado. Até seu amo, que o andava procurando por o julgar perdido, se atemorizou quando o viu de longe; mas depois, reparando numa das suas grandes orelhas que aparecia por debaixo da pele do leão, tirou-lhe o disfarce, deu-lhe uma sova, pôs-lhe a albarda, e montou nele.

Moral:

“SE O IGNORANTE PRETENDE MOSTRAR-SE SÁBIO, A ORELHA O DESCOBRIRÁ, COMO ACONTECEU COM O BURRO DA FÁBULA.”

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

O RAPTO

Ao chegar da escola, Paulinho, dez anos, encontrou uma novidade no quintal da sua casa: Uma bonita galinha pedrês.

Dona Elza, sua mãe, a tinha comprado para o almoço do domingo. Seria preparada ao molho de cabidela, também conhecido por molho pardo.

Paulinho havia deixado de comer galinha, desde o dia em que presenciou a cozinheira da casa, Josefa, matar uma galinha para servir no almoço. O menino ficou traumatizado. Nunca tinha visto uma cena tão grotesca.

Ao ver a nova galinha, Paulinho entrou em pânico, e lhe veio à mente, a empregada cortando o pescoço da outra galinha e o sangue jorrando, aparado num prato fundo com um pouco de vinagre, e por ela batido com um garfo, para fazer a cabidela, ou molho pardo.

Desta vez, Paulinho jurou para si mesmo que iria salvar a nova galinha. Era uma galinha cevada, gorda, dócil, que nem se defendeu, quando o menino a segurou, levando-a para um esconderijo.

Paulinho pegou um caneco com água para dar à galinha raptada, mas antes disso, molhou a pequena cabeça da ave, dizendo que a estava batizando, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E deu-lhe o nome de Martinha.

Logo que escureceu, Martinha se aninhou no quartinho de depósito, onde Paulinho a escondeu e logo adormeceu.

O menino entrou em casa feliz da vida, jantou com os pais e irmãos e foi logo dormir. Acordou tranquilo, pois sua amiga Martinha estava batizada e protegida num esconderijo. Josefa que procurasse fazer um almoço diferente, sem galinha e sem cabidela.

Somente na hora de pegar a galinha para matar, no domingo pela manhã, a cozinheira notou o seu sumiço. A mulher fez o maior rebuliço, procurando a galinha no quintal, e em cima das árvores. Perguntou a Paulinho se a tinha visto no dia anterior e a resposta foi não.

O menino insinuou que a galinha pudesse ter sido furtada ou tivesse fugido, com o que Josefa concordou. A empregada ainda se culpou, por não ter cortado as asas da galinha, logo que ela chegou.

Dona Elza, quando soube do sumiço da galinha, ficou muito chateada, pois estava desejando comer galinha à cabidela, como também seu marido e filhos, exceto Paulinho .

Desapontada, mandou que a cozinheira providenciasse uma macarronada à bolonhesa, ou seja, com suculento molho de tomate, misturado com carne moída, para substituir a galinha à cabidela, que a família tanto esperava.

Somente dois dias depois, Paulinho entrou em casa, desconfiado, com a galinha debaixo do braço, para dizer à mãe que ela havia aparecido, desconfiada, no quintal. Disse-lhe que ela agora era sua amiga e se chamava Martinha. Fez a mãe prometer que ela nunca iria para a panela.

Pelos olhinhos cheios de lágrimas do filho, Dona Elza compreendeu que ele era o responsável pelo sumiço da galinha. Emocionou-se e respeitou o seu pedido.

Martinha, a galinha pedrês, morreu de velha.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

ÁGUAS DE MARÇO

No dia 22 de março de 1992, a Organização das Nações Unidas – ONU instituiu o Dia Mundial da Água, além de promover a Declaração Universal dos Direitos da Água, através da RES/64/292 de Julho de 2010, garantindo por lei o direito ao ser humano de usufruir de saneamento básico e acesso à água limpa e segura.

O calendário que usamos foi uma evolução do antigo calendário romano, e os nomes dos meses utilizados vieram dos deuses.

O nosso calendário, para contagem do tempo, permanece o mesmo, estabelecido pelo imperador romano Júlio César.

Escrevendo a história dos nomes dos meses do ano, é como se estivéssemos assistindo a um desfile dos meses romanos.

JANEIRO e FEVEREIRO DE 2023 já passaram. Estamos em Março, o terceiro mês, considerado o mês das águas.

MARÇO – Nome originado de Marte, o deus da guerra.

No desfile imaginário dos deuses romanos, Marte (Março) passa num carro puxado por dois cavalos, cujos nomes eram Terror e Fuga.

Para os romanos, Marte era mais do que um guerreiro. Era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. Pediam-lhe chuva, e a chuva vinha.

Atualmente, março de 2026, continuamos ameaçados por um desfile fictício, onde o deus da guerra, Marte, nos ameaça, puxado por cavalos, que representam o ódio, a vingança e a censura. E a força das águas tem destruído vidas no Sul do País.

Falando nas águas do mês de março, ressaltamos a belíssima canção de Antônio Carlos Jobim, “Águas de Março“, uma verdadeira metáfora da imagem da passagem da vida cotidiana, sem interrupção, e sua inevitável progressão rumo à morte – como as chuvas do fim de março, que marcam o final do verão, no sudeste do Brasil.

A letra aproxima a imagem da “água” a uma promessa de vida, uma renovação.

O tema dessa composição começou a ser trabalhado por Tom Jobim, ao violão, no seu sítio do Poço Fundo, em São José do Vale do Rio Preto, região Serrana do Rio de Janeiro. De acordo com depoimento de Thereza Hermanny, esposa de Tom à época, a inspiração para “Águas de Março” surgiu ao final de um dia cansativo de trabalho de onde surgiram os primeiros versos “é pau, é pedra, é o fim do caminho”. Assim como quem estava cansado mesmo e querendo descansar.”

No ano anterior à composição de “Águas de Março“, Tom Jobim havia sofrido a única grande perseguição política em sua vida. Em um protesto contra a censura que vigorava durante a ditadura militar no Brasil, Tom Jobim e alguns compositores assinaram um manifesto e se retiraram do Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. Doze artistas, entre os quais Tom, foram detidos e, durante algumas horas, interrogados. Segundo declarações posteriores de Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra, um diretor da emissora esteve presente e insistiu para que os compositores voltassem atrás e retornassem ao festival. A pressão não funcionou, mas – na opinião de Chico e Ruy – instigou o aparelho repressivo do regime a enquadrá-los na Lei de Segurança Nacional. Depois, Tom foi intimado várias vezes a prestar depoimento, chegou a ter o seu telefone grampeado e as suas cartas, violadas.

Segundo Tom, a questão foi resolvida “de uma maneira bastante brasileira”, quando um escrivão de polícia solidário o chamou e disse: “Olhe, o senhor não queira se meter com polícia… Isso aqui não é bom. Negócio de polícia não é bom. Vou bater um negócio aqui para o senhor…” E assim, o escrivão bateu à máquina de escrever uma declaração, que Tom assinaria. “Este papel aqui diz que o senhor não teve intenção”.

Para a revista Playboy, em 1988, Tom contou que, à época da criação de “Águas de Março“, o médico lhe disse que iria morrer de cirrose. E ele escreveu: “É um resto de toco, é um pouco sozinho’”.

Em 1992, para o Jornal do Brasil, ele declarou que escreveu “Águas de Março” em um período em que estava numa grande fossa. Parecia que tudo havia acabado para ele, e que não lhe restava nada a fazer. Por isso, se entregava à bebida.

A letra de “Águas de Março” é estruturada em um único verbo (ser), conjugado na terceira pessoa do singular, no presente do indicativo em, praticamente, todos os versos – exceto no refrão, transformado em plural (“São as Águas de Março …”. Há uma constante alternância entre versos considerados otimistas e pessimistas, além do uso de antítese (“vida”, “sol” / “morte”, “noite”), pleonasmo (“vento ventando”), paronomásia (“ponta” / “ponto” / “conto” / “conta”).

Sua letra tem caráter pouco narrativo e fortemente imagético, constituindo-se como séries descritivas conectadas a um espaço semântico amplo. Muitos elementos, de natureza geral, podem referir-se à cena do sítio: “pau”, “pedra”, “resto de toco”, “peroba-do-campo”, “nó na madeira”, “caingá”, “candeia”, “matita perê”, o que enquadra “Águas de Março” em um repertório de canções ecológicas.

A letra é uma profunda reflexão do sentido da vida.

ÁGUAS DE MARÇO

É o pau, é a pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento vetando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho

É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terça
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

Pau, erda
Im, inho
Esto, oco
Oco, inho
Aco, idro
Ida, ol
Oite, orte
Aço, zol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração