TERESA OLIVEIRA - FAROL DE ALEXANDRIA

MEU CAÇADOR DE MIM (¹)

Por tanto amor, com tanta emoção, a vida me fez assim, presa à canções e entregue a paixões que nunca tiveram fim. (2)

Nada tenho a temer, o amor carregado em minhas entranhas é responsável pelos meus vãos desatinos. O amor, aquele que corta e sangra, também cuida e cura num piscar de olhos. A culpa sempre será do amor, sentimento que traspassa os julgamentos sem padecer com as condenações. O amor é paciente e bondoso, tudo sofre, tudo suporta. (3)

Tal qual uma bordadeira de frases, rabisco estes verbetes, tempo em que peço a Deus para os fazer ecoar no Seridó nosso de cada dia.

Perdoe-me a prolixidade desta crônica. Dr. Irami Araújo Filho não poupou a tendinite da escritora. Certamente, mais tarde prescreverá algum relaxante muscular para aliviar sofrimento causado pelas fisgadas do meu antebraço.

Ele é intenso, imenso, imerso. Ele é excesso! Excesso de bondade, sabedoria, genialidade, caridade. Virtudes exaladas e sentidas em cada poro, em cada suspiro, em cada palavra e em todas as suas atitudes. Portanto, economizar caracteres, seria covardia. Irami, assim como o amor, sobrevive de excessos!

Nascido em sete de Janeiro de 1975, no Hospital de Base de Brasília, período pelo qual seu pai, Dr Irami Araújo, ali aperfeiçoava dons já concedidos pela Divindade Suprema.

Assim como Deus criou o mundo em sete dias, o menino que fora parido em meio à ciência, hoje homem de bem e do bem, também em sete dias desenhou um lindo caminhar na Academia. Em exatamente catorze meses, duas vezes o número sete, defendeu o doutoramento, sob a orientação do Mestre Aldo Medeiros. Aos vinte e oito anos, quatro vezes o número sete, tornou-se Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mister exercido até os dias atuais.

Intelectual no sentido mais etimológico possível, Irami, no ápice dos quarenta e sete anos assumidos por ele, possui uma inestimável e incalculável produção científica, com direito a trezentos artigos publicados em revistas de alcance nacional e internacional, dezenas de patentes, dois PHDs, sendo um deles realizado em Sorbonne, na mesma atmosfera de Tomás de Aquino, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, com as bençãos de Joana d’Arc.

Com uma farta bagagem no currículo, o nosso Pós Doutor regressou ao solo sagrado de Nossa Senhora Aparecida. Inspirado no pai, resgatou as origens, exercendo a medicina em Caicó-RN, pano de fundo dos sonhos do primogênito de Tereza.

De pé, em cima de um banquinho, o menino brilhava os olhos ao contemplar a habilidade do genitor a suspender um recém-nascido, cujo choro entendia ser uma sinfonia de amor.

Certa feita, no vendaval de uma tragédia ocorrida no Estado, Irami Filho estava de plantão no Politrauma do Hospital Walfredo Gurgel. O tiroteio começara nos arredores da tromba do elefante, estendendo-se pela BR 304 e ameaçando invadir a casa de saúde com o intuito de finalizar a execução.

Ao vivo e a cores, presenciamos uma esmeralda corajosa socorrer uma das vítimas que chegara com cinco disparos de arma de fogo. Registre-se que, na hora do atendimento, não havia reforço policial. Ciente e consciente do contexto no qual estava inserido, de peito aberto, escoltado apenas pelo jaleco, o Doutor empurrou a maca do paciente, fez o sinal da cruz e, como um anjo, subiu.

A segurança armada chegou quando já estavam todos no Centro Cirúrgico, lugar de paz e tranquilidade para Irami, que já estava a operar ao som de Roberto Carlos.

Neste instante, faço uma pausa na narrativa e peço licença aos leitores para reverenciar aqueles que não são vistos, mas que estão aqui presentes. Há mais do que luzes no meu escritório, senhores. Tudo aquilo que um dia já viveu, viverá para sempre no infinito do tempo. Sentados com roupas fulgurantes, do alto do firmamento, Dr. Clóvis Sarinho e Dr. Gentil Paiva de Oliveira aplaudem a trajetória de Dr. Irami Araújo Filho nessa terra de viventes.

Ele foi, é e sempre será para nós, amigo de fé, irmão camarada, cabeça de homem, coração de menino, amigo certo nas horas incertas, aquele que está ao meu lado em qualquer caminhada. (4)

Cirurgião, filho de político, seridoense, nordestino, sertanejo, brasileiro, forte, passional, latente, pulsante, brilhante, e, assim como quem vos escreve, é fruto das lágrimas, orações e de uma resiliência de matriz marcadamente feminina. Nós dois chegamos aqui e agora pelas mãos perfumadas de uma mulher chamada Tereza.

Para abrilhantar a vida e a história do nosso médico prodígio, solto a minha pena e deixo que Milton Nascimento diga baixinho:

“Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo, medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim” (5)

(1) NASCIMENTO, Milton. Caçador de Mim, 1981
(2) Id. Caçador de Mim, 1981
(3) 1 CORÍNTIOS, 13;7
(4) CARLOS, Roberto (et al) Amigo, 1977
(5) Ibidem. Caçador de Mim, 1981

TERESA OLIVEIRA - FAROL DE ALEXANDRIA

A PÉROLA NEGRA

É tempo de chuva no sertão, a agua dos açudes reluzem aos pés dos mandacarus e o coração desta escritora bate fora de compasso. Tenho a impressão de senti-lo crescer a cada instante de entusiasmo.

Escrever não é lá essas coisas todas, dói um bocado, sangra, colocar a alma no ballet das palavras significa morrer por algumas horas e ressurgir para imortalizar aqueles que, para mim, sempre serão uma fonte inesgotável de inspiração.

Dr. Filipe Leão é uma dessas criaturas que cruzaram a minha estrada. O jaleco branco sinaliza a profissão, o sorriso franco denuncia a vocação.

Para Nietzsche, todo sujeito possui a chamada potência vital – força de viver -, razão e motivo para fazer a vida acontecer. Para Filipe, essa força pode ser facilmente conceituada através da continuidade da vida através do bisturi.

Inspirado num tio que era Pediatra, o menino de Ezequias e Maria Helena atravessou o rio da vida, enfrentou o balanço indigesto da correnteza e teve um encontro apaixonado com a medicina.

Herdeiro legítimo de uma estrutura familiar edificada sobre a rocha, desde cedo aprendeu que as alfinetadas do preconceito seriam pequenos obstáculos, perceptíveis e sentidos, obviamente. Todavia, incapazes de travar-lhe os sonhos, ideais, projetos e propósitos.

Dr. Leão é filho do Hospital Escola Monsenhor Walfredo Gurgel, fez parte de uma das primeiras turmas de residentes daquela instituição.

É passional, abnegado e apaixonado pelo que faz. Através do sangue latino herdado da mãe, verbaliza sem cerimonias ou melindres que a tragédia só existe quando passamos pela vida sem plantar o bem.

O comportamento fleumático herdado do pai permite a Filipe permanecer de fronte erguida e, como servo da paz, caminhar pelo mundo com passos de gigante, ainda que diuturnamente haja alguém se encarregando de jogar-lhe na cara a ideia de que a cor da pele o diferencia os outros.

Rotineiramente é confundido com outros profissionais; rotineiramente é questionado se chegou à UFRN pelas cotas – os cabelos brancos orgulhosamente ostentados por ele são capazes de responder essa questão; rotineiramente é sabatinado acerca de saber ou não realizar procedimentos complexos; rotineiramente não lhe reconhecem como médico.

O preconceito, senhores, não vem dos colegas, vem dos pacientes.

Quando jogado na cova dos leões da hipocrisia, Dr. Filipe dá de ombros e, por ser dono de uma retórica impecável adquirida exercendo a docência, trata logo de tornar-se amigo deles. É gigante pela própria natureza.

Compreende os impulsos irracionais de quem vive a vomitar amarguras. Em troca, manuseia o bisturi com maestria. Opera com excelência, comporta-se com decência, é amante da ciência, perfaz-se na experiência.

Registrando as sábias palavras de Haile Selassie, digo que enquanto a cor da pele for mais importante do que o brilho dos olhos, nenhuma guerra cessará.

Na verdade e a bem da verdade a cor de Filipe é um realce digno de uma bela obra de arte, principalmente quando contrastada com seu sorriso escancarado, cujos dentes perfeitos harmonizam-se com a ternura de um olhar vivo e perspicaz escondido por detrás dos óculos.

Dr. Leão gosta de gente. Diariamente exala uma ode de gratidão ao Deus do Altíssimo pela oportunidade de fazer suas escolhas. Sem titubear ou pensar duas vezes, escolhe o SUS, doando boa parte dos seus anos de juventude em prol do semelhante. Nasceu para servir, serve com paciência, ignora as ofensas.

O paciente não escolheu a doença, mas ele optou por cuidar e, assim como a luz do sol que aquece os dias frios, a nossa pérola negra passeia pela vida em busca de um propósito maior: fazer o bem indistintamente. Da mesma forma também o fez, Jesus de Nazaré.

Filipe faz o bem de forma coletiva sem esquecer as individualidades, afinal, para ele, todo paciente é o amor de alguém.

A labuta diária o conclama para a luta, desperta-lhe o dever cívico, ensina aos alunos sobre o amor ser uma força voraz e incontida. Debaixo do amor, até mesmo o astro rei se rende, se derrama e brilha com magnitude através de fulgurantes irradiações douradas travestidas de compaixão.

Com a mesma intensidade pela qual o “Leão da Tribo de Judá” defende e luta pelos seus pacientes, sendo tão forte quanto os ideias por ele proclamados e executados, com a ousadia de uma bailarina a saltar no Teatro de Bolshoi, finalizo esta crônica com Geraldo Vandré: (…) os amores na mente, as flores no chão, a certeza na frente, a história na mão, caminhando e cantando e seguindo a canção, aprendendo e ensinando uma nova lição (…).

Felipe Leão, de amor eterno seja símbolo!

TERESA OLIVEIRA - FAROL DE ALEXANDRIA

DEVAGAR SE VAI AO LONGE

Na tão somente minha jornada de palavras, a simplicidade e a calma estão prescritas. O personagem central dessa crônica sou eu, Francisco Nunes Pinheiro Borges, alguns teimosos ainda me chamam-me Professor.

Nos corredores largos do Hospital Walfredo Gurgel, caminho sem pressa. Passos quase inaudíveis. Observo o meu entorno, e com a calmaria de uma tarde serena de domingo, inicio o meu plantão.

No auge de sete décadas bem vividas, não tenho mais espaço para medo ou timidez. O meu dicionário de vida é composto por audácia, coragem e orgulho. Sou orgulhoso de minha origem.

Nasci em Vera Cruz, no meio de catorze irmãos. Meu pai era agricultor, homem honesto e muito trabalhador. Não tinha estudo, estava longe de ser um amante das letras, lia com muita dificuldade. Em relação à vida, possuía um pensamento de vanguarda, entendeu que as poucas terras que tinha seriam insuficientes para os filhos e que, uma partilha dessa natureza, obviamente não daria certo. Tratou de construir uma casa em Natal e nos lançar no mundo dos estudos. Para ele, a maior herança que poderia deixar. Ele estava certo! Jonas, meu irmão mais velho, encarregou-se de abrir os caminhos e eu, encarreguei-me de ser médico.

Apesar de ser um admirador contumaz do saber, obrigo-me a concordar com Marisa Monte quando diz: (…) por isso eu pergunto a você no mundo, se é mais inteligente o livro ou a sabedoria. O mundo é uma escola, a vida é um circo, amor, palavra que liberta, já dizia o profeta (…).

A memória humana é formada por fragmentos de fatos, o cérebro não guarda cena por cena e tentando dar lógica ao meu enredo, saio juntando as pecinhas do meu quebra-cabeças particular. Completamente alheio a essa cientificidade, transporto-me para o Centro Cirúrgico, enxergo pacientes à espera de uma sala, entristeço-me por alguns instantes. Faz Parte! Naquele lugar há um bálsamo sagrado para os meus olhos cansados: as telas do aparelho de videolaparoscopia permitem-me contemplar a magnitude de uma cirurgia de Kallyandre, meu antigo aluno, hoje meu chefe.

Do outro lado, vejo o dedilhar de Irami ao operar um fígado, nem mesmo a nona sinfonia de Beethowen consegue emanar tanta beleza.

Há quem deva me entender atrevido quando comparo meus alunos aos artistas famosos. Mas não me incomodo com o que irão pensar ou dizer, o que me importa é saber que, no meu conceito de belo, o recorte principal é o corpo humano.

Michelangelo, de fato, estava muito inspirado quando esculpiu Davi, umas das suas obras mais primorosas. Entretanto, inspirados também vivem Kallyandre, Irami, Ariano, Alline, Abires e todos os meus alunos.

Sem qualquer demérito a Beethoven, Michelangelo, Caravaggio ou a quem quer que seja, nunca darei a ninguém o direito de me julgar porque olho para os meus “descendentes da cirurgia” com a mesma admiração de Piero, quando viu Da Vinci pintar La Gioconda.

O nosso bisturi corta com sutileza e precisão, nesse espaço, sou mestre e espelho. Sou senhor do meu domínio. Estou ali, sou parte desse mundo. Contemplo tudo, olho para os céus, simplesmente agradeço.

Vislumbro o passado sem qualquer vergonha ou tristeza, observo o roteiro da vida em forma de poesia. A minha breve passagem pela política potiguar fez o papel de ensinar-me que as estradas nem sempre são retas, os caminhos nem sempre são iluminados, nem sempre os homens são sinceros e nas chuvas das mentiras e nas sombras das invejas, acontecem os grandes acidentes morais.

Por isso, preferi a sorte de uma vida tranquila, triunfante, assim como diz o Cônego Francisco Lima:

“Quão ignorantes somos dos caminhos de Deus quando os equiparamos às veredas humanas tortuosas e estreitas como a inteligência que as traça. Percorremos esses caminhos com indiferença e desgosto, gemendo queixas amargas, até vomitando impropérios, para no fim, olharmos o trajeto vencido e sermos surpreendidos com os sulcos luminosos das pistas recamadas de estrelas.”

E é neste chão, recamado de estrelas, queridos alunos, que agradeço a oportunidade de ter contribuído na vida de cada um dos senhores, tempo em que também celebro os mais de quarenta anos dedicados à medicina, à docência e ao povo do Rio Grande do Norte.

TERESA OLIVEIRA - FAROL DE ALEXANDRIA

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER QUEM SE É

Natal-RN, 23/06/2022. – Noite de São João

A semana vai chegando ao fim, mês de junho em vias de fechar as cortinas, noites frias, dias difíceis, outros nem tanto. Para cada madrugada escura há um amanhecer coroando; para cada desatino da vida, há uma fagulha de esperança nas mãos santas e perfumadas dos profissionais que, serenamente, administram o convivem com o CAOS do Hospital Walfredo Gurgel.

Ressalte-se, oportunamente, que o Pronto Socorro do Hospital Clóvis Sarinho é responsável pelo atendimento de todas as demandas de alta complexidade do Rio Grande do Norte por ser o único serviço de saúde potiguar a dispor de todas as especialidades médicas. Da Clínica Médica à Cirurgia (com suas devidas subespecialidades), da Neurologia à Oftalmologia, da Pediatria à Ortopedia, da Cardiologia à Endocrinologia, dentre outras.

Resumindo, qualquer vivente, seja ou não usuário de planos de saúde ou de serviços médicos particulares, caso sofra um trauma ou apresente problemas neurológicos, obrigatoriamente, deve passar por lá.

Na tarde de hoje, fui encontrar-me com Dr. Wender Batista, um primo querido. A finalidade do encontro era presenteá-lo com um exemplar do meu livro, cujo objeto central é a história de meu pai, Dr. Gentil. Queria que Wender lesse os meus textos e ficasse mais íntimo do homem que fizera o parto de um dos seus irmãos, em Alexandria – RN.

Ao adentrar às portas do Walfredo, fui orientada a procurar meu primo no Politrauma (Wender é Cirurgião). Chegando lá, fui recepcionada por duas médicas muito educadas que informaram-me que ele estava no Centro Cirúrgico. A médica loira tentava ensinar-me o caminho. Eu, deixando transparecer o meu péssimo senso de direção, respondi que seguiria as placas.

– Que placas, moça? Não temos sinalização nos corredores – Falou a médica.

– As placas são as pessoas, Dra., vou perguntando no caminho. Eu chego lá. Não se preocupe! – Respondi sem saber nem para que lado deveria ir.

Sentado atrás das belas moças, havia um homem cujo jaleco permitia enxergar o seu nome. Espremi os olhos e li: Dr. Rafael Rosas – Cirurgião.

Antes que eu saísse desorientada, ele antecipou-se, ensinou o trajeto com a praticidade masculina e acrescentou:

– Corre lá, acredito que Wender ainda não entrou. Você vai conseguir falar com ele.

A passos largos, seguindo a direção e valendo-me das “placas humanas”, cheguei ao destino.

No trajeto, pensei comigo mesma que estava atravessando uma “zona de guerra”, corredores lotados, macas no chão, gente correndo de um lado para o outro, além do barulho horrível de uma reforma interminável que vem se arrastando por alguns governos.

Finalmente cheguei em Wender, ainda deu tempo de vê-lo lutando para colocar um paciente no Bloco Cirúrgico. Enquanto a equipe preparava tudo e acionava o anestesista para iniciar o procedimento, meu primo passeou comigo em algumas alas do Hospital e me deu o presente de conhecer e conversar com Dr. Rafael Rosas, seu antigo professor, hoje colega de profissão e companheiro de plantão.

Olhos firmes, sorriso largo, conversa leve, assim como deve ser as suas mãos diante de um bisturi.

Com uma formação intelectual que dispensa comentários e comprovações, Dr. Rosas abriu as comportas do coração, da humildade, da humanidade e, sobretudo, do amor e do respeito como que pratica a arte da medicina.

Corrigiu a minha ignorância quando, de forma assertiva, disse-me que é justamente aquela “zona de guerra” que salva o RN. Relatou a frustração de não poder fazer tudo o que gostaria. A falta de recursos também algema a alma de um médico.

Dr. Rafael não consegue enxergar-se em outra profissão, diz que é feliz fazendo SUS. Em todas as vezes chega ao plantão com vontade de resolver, vontade não diminuída com o passar dos anos. Na imensa maioria, ele resolve. É conhecido entre os colegas pela perícia, competência e compromisso com a profissão que abraçou.

Dr. Rosas não espera reconhecimento da sociedade, para ele, o reconhecimento legítimo vem do paciente. O salário moral dele é resumido a apor sua assinatura em uma alta hospitalar.

Quando questionado sobre suas frustrações, responde tranquilamente ter aprendido a conviver, inclusive, não perde a oportunidade de ensinar aos alunos mais jovens que para lidar com a vida, é preciso entender a morte como parte dela.

Além de ensinar medicina, Dr. Rafael dá conselhos financeiros aos alunos e não esconde a preocupação com aqueles que escolhem a carreira pensando, primeiramente, nas cifras. Relembra que o caminho é longo, a jornada é árdua e, mesmo depois de mais de duas décadas dedicadas ao SUS, revela-se como um aprendiz. Aprende todos os dias, não abre mão da soberania do exame físico e ressalta a importância do “olho clínico” na carreira de qualquer profissional a saúde.

Por fim, enfatiza a empatia como condição sine qua non para ser um bom médico e um médico bom. Sem empatia, não há como ostentar um número no CRM.

Parafraseando Cartola, digo aos queridos leitores: “Bate outra vez, com esperanças o meu coração (…)”

Por outra banda, contrariando Agenor de Oliveira, digo que volto ao jardim com a certeza que devo sorrir. Queixei-me às Rosas, as minhas bobagens e percebi que além de falarem, elas consolam, salvam e exalam perfume todas as vezes que cruzam as portas do Centro Cirúrgico do Hospital Walfredo Gurgel.

TERESA OLIVEIRA - FAROL DE ALEXANDRIA

VOLTEI, WALFREDO! FOI A SAUDADE QUE ME TROUXE PELO BRAÇO

Já dizia a Diva Elis Regina: o amor é uma coisa boa e qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa.

De fato, não somente o Politrauma do Hospital Walfredo Gurgel, mas o universo inteiro torna-se pequeno diante da genialidade de um médico “anônimo” para alguns e exemplo para esta escritora.

Escrever sobre celebridades forjadas e maquiadas pelas redes sociais, cujos seguidores são desprovidos de qualquer conteúdo moral e intelectual nunca será o meu mote. O óbvio é cansativo, enfadonho, pobre, raso e desinteressante. Portanto, prefiro render-me às pérolas encontradas nas estradas da vida.

É com imenso respeito que ouso traçar essas linhas sobre Dr. Misael Dourado Guerra Jr., médico, simplesmente médico!

Formado pela UFRN na década de 70, não possui residência ou especialização em Cirurgia Geral, tampouco ostenta títulos ou certificados importantes no currículo. Não teve tempo de ater-se a isso e, exatamente por isso, assemelha-se a William Sheakespere, que, mesmo sem sequer entrar numa faculdade, tornou-se um dos melhores escritores da humanidade. Assim também o é Dr. Misael, médico por excelência, Cirurgião por competência, especialização rebocada na experiencia.

– Teresa, sou filho de médico. Meu pai, Dr. Misael Dourado Guerra, começou a carreira em meados dos anos 40, literalmente no período pós-guerra. Nunca cobrou uma consulta, desbravou a medicina numa cidadezinha a quase mil quilômetros de distância da Capital Piauiense. É o meu ídolo, minha inspiração, recuso-me a aceitar a morte dele. Sequer faço questão de lembrar o dia e o ano que ele nos deixou.

– Dr. Misael, quero saber a sua história, de onde veio, como começou, suas lutas, desafios, desejos, fracassos, glórias. Enfim, conte-me da SUA VIDA.

Sem tergiversar, com os olhos vidrados na tela do celular, apresentou-me uma foto do pai seguida de um poema escrito por um primo e um recorte de jornal fazendo menção a Dr. Misael Guerra.

– Teresa, preste atenção! Leia o poema e a nota do jornal. É assim que se faz medicina, como meu pai. Ele sobrevivia nas sombras, invisível, silencioso, distante da vulgaridade da fama, não tinha vaidades fúteis, tinha o espírito coletivo de sustentar o mundo.

Percebi logo que não adiantaria teimar e senti que conversávamos sobre a mesma pessoa. Afinal, o filho era o espelho do pai, figura amada e estimada para além da vida.

Proclamado e emancipado na exatidão dos exemplos, Dr. Misael Jr. sabe que não pode mais seguir os passos do genitor, e, como forma de mantê-lo vivo, repete a história. Assim, continua brigando com a morte, inspirado no Poeta Paraibano Raymundo Ásfora quando diz: a morte não existe, eu vou viver depois dela.

Fui obrigada a concordar com Misael Jr., limitei-me a acrescentar que as pessoas só morrem quando as esquecemos.

– Teresa, tenho quase 72 anos, tentei me aposentar, não consegui. Tinha saudade do barulho das macas, das sirenes das ambulâncias anunciando a chegada de pacientes, tinha saudade do meu bisturi.

– Saudade do CAOS, Dr.?

– Sim. Saudade de tudo. A medicina faz parte do meu todo, sem ela, fico incompleto, falta um pedaço. Eu sou médico, não desisto dos meus pacientes. Não sei fazer nada pela metade, um paciente examinado por mim, por mim tem que ser operado e acompanhado. Ninguém pode mudar uma conduta sem antes combinar. Os colegas me ajudam muito, mas os meus pacientes eu não divido com ninguém.

– Como é essa história de não dividir pacientes, Dr.?

– Isso mesmo, Teresa! Por acaso você divide a autoria dos seus livros com alguém?

– Claro que NÃO, Dr. Eu assino os meus textos. As minhas poesias, então, não deixo ninguém se apropriar. JAMAIS! A arte é minha!

– Pois bem, você bem sabe que a arte nasce das paixões. Você, com a sua caneta, assina os seus escritos. E eu, com o meu bisturi e a minha pinça assino o corpo dos meus pacientes. A minha sutura é a minha assinatura! Faço o melhor, mesmo sabendo que ninguém verá o que houve por dentro.

– Tem razão, Dr. Misael Jr.! Ninguém vê as camadas da epiderme de um paciente, logo, não é capaz de mensurar o valor do trabalho, da técnica, do suor e do amor colocado em cada fio e em cada ponto. Assim também sou eu, assino textos prontos e revisados. Ninguém vê a tendinite no meu antebraço direito, ninguém sente a dor, sequer o esforço, a ressignificação, a nostalgia e um balaio de sentimentos colocados em cada linha escrita. Antes de escrever uma poesia, o poeta sofre instantes intermináveis de angústia. A arte nasce das paixões, mas se aperfeiçoa no sofrimento. Um poeta só é grande se sofrer. Grande Vinícius de Moraes.

Encerro o meu trabalho de hoje com a já citada Elis Regina:

– Dr. Misael Jr., apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos que vivemos como nossos pais.