RODRIGO CONSTANTINO

PACTO DE NÃO AGRESSÃO

A direita está em “guerra”. Romeu Zema rompeu com Flávio Bolsonaro assim que vazou o áudio do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, depois disse que era página virada, mas subiu novamente o tom. Ronaldo Caiado, que tinha sido mais cauteloso no começo, também subiu o tom e disse que as justificativas de Flávio até agora não foram satisfatórias. Mas enfatizou que a prioridade da centro direita é derrotar Lula no segundo turno.

Vejo com naturalidade as trocas de farpas, uma vez que são todos concorrentes do mesmo eleitorado. A disputa é para ver quem consegue ir para o segundo turno contra Lula, que tem enorme rejeição. Claro que Zema e Caiado vão mirar em Flávio no espectro da direita, pois precisam se colocar como alternativas melhores e viáveis. É do jogo.

Durante evento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil, AmCham, nessa segunda-feira, em São Paulo, Romeu Zema disse que quem votar em Flávio Bolsonaro estará ajudando a reeleger Lula e alegou que o cenário eleitoral deste ano é mais complicado do que o de 2022, pois não havia escândalo envolvendo a direita.

Zema tem um ponto: o PT mal ligou sua máquina de destruir reputações, e se o telhado do Flávio for de vidro, então ele será o adversário dos sonhos para o lulismo. Mas não se pode esquecer o peso do sobrenome Bolsonaro, muito maior que o de Zema e Caiado. Por isso mesmo muitos bolsonaristas acham que não deveria haver “fogo amigo” agora, o que só dá munição para o PT. É preciso lembrar, porém, que a própria militância bolsonarista já vem detonando Zema e o Partido Novo antes de sua reação após o áudio com Vorcaro.

O pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, Carlos Bolsonaro (PL-SC), foi às redes sociais afirmar que Romeu Zema é baixo e que, “na primeira oportunidade, vem mais uma facada”. Antes disso, porém, Kim Paim, próximo de Eduardo Bolsonaro, já tinha associado Zema a Adélio Bispo, sem qualquer crítica dos irmãos Bolsonaro. O jogo tem sido pesado e sujo, principalmente por parte dessa ala fanatizada do bolsonarismo, que caça “traidores” por toda parte e dedica 90% de sua energia para atacar gente como Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro.

A postura do Zema gerou um racha interno no Partido Novo, pois muitos pré-candidatos dependem dos votos bolsonaristas em seus estados e fecharam alianças com o PL. Jeffrey Chiquini, que chegou “ontem” no partido, escreveu um textão criticando Zema e impondo ao Novo uma escolha: ou ele ou o ex-governador de Minas Gerais. Eis o clima tenso existente hoje dentro do partido.

Enquanto isso, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, dá entrevista com versão diferente daquela apresentada pelo próprio Flávio para sua visita a Vorcaro após a prisão. Foi para encerrar a relação, como disse o próprio Flávio, ou para cobrar o resto do dinheiro, como diz agora o presidente do partido? Com um aliado desses, o Flávio nem precisa de inimigos à esquerda…

Flávio tenta uma aproximação com o centrão, mas este prefere manter certa distância. A Federação União-PP considera improvável o apoio ao pré-candidato do PL após o caso Vorcaro. Representantes do agronegócio também avaliam que o senador Flávio Bolsonaro perdeu competitividade para a disputa presidencial após a repercussão do caso Banco Master, segundo fontes do setor ouvidas nesta segunda-feira pela imprensa.

Para piorar a situação, a Polícia Federal realizou nova operação mirando no ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, do PL. Os agentes investigam a transferência de cerca de R$ 3 bilhões do Rioprevidência para o Banco Master. O Rio é o berço do bolsonarismo, e Castro é um aliado importante do senador Flávio. A narrativa ética contra o PT fica cada vez mais complicada em meio a tantos escândalos.

Caiado está certo, porém: a centro direita precisa estar unida no segundo turno contra Lula. Essa continua sendo a prioridade. Pontes foram destruídas no caminho, pois a disputa eleitoral é acirrada e os nervos estão à flor da pele. Mas será preciso ter calma e frieza, e engolir muito sapo, para deixar essas intrigas de lado e promover a união de todos contra o petismo depois. Ou teremos mais quatro anos, no mínimo, de lulismo, o que poderá ser a destruição total do país.

RODRIGO CONSTANTINO

TERRA DOS LIVRES E CASA DOS CORAJOSOS

É emocionante ver como a América ainda estima seus guerreiros da liberdade

Hoje é feriado aqui nos Estados Unidos. Celebra-se o “Memorial Day”, em homenagem a todos os militares que lutaram pela liberdade. Um dia de intenso patriotismo e respeito aos homens fardados, que são os grandes responsáveis por nossa defesa. Na fórmula Indy 500 de Indianápolis neste domingo, dois helicópteros militares sobrevoaram o evento, para delírio do público. Os americanos, em geral, reconhecem a importância de suas forças armadas na história.

Agora mesmo há a expectativa de uso de força contra o Irã, sob um dos regimes mais nefastos do mundo que espalha o terror por toda parte. A captura do ditador Nicolás Maduro encheu de esperança os venezuelanos que não aguentam mais tanta desgraça. A abjeta ditadura cubana está cambaleando e corre risco de se desintegrar com a pressão americana. Taiwan está cercada por navios chineses, que só não invadem a ilha porque existem os militares americanos para reagir. O eixo do mal, enfim, só encontra contenção para valer no poderio bélico dos Estados Unidos, pois se o Ocidente dependesse das forças de segurança da ONU, estava lascado.

Resgato um texto de 2024 sobre a relevância do feriado para a nação:

O respeito a quem lutou por nós

Os americanos celebram hoje o “Memorial Day”, um dos feriados mais importantes do ano, em que os militares mortos em combate são homenageados, assim como os veteranos de guerra. Menos de 1% da população americana de mais de 300 milhões usa farda, e isso faz com que pouca gente conheça pessoalmente militares em serviço, lutando para a defesa do que a América representa: a liberdade individual. Mas enquanto o respeito a esses bravos heróis for grande, haverá esperança.

E o respeito continua grande. Basta ver a quantidade de gente que coloca bandeiras americanas em destaque em suas casas nesta data. Mesmo Barack Obama, o presidente mais esquerdista dos últimos tempos que foi eleito com um discurso “progressista” e um tanto “pacifista”, e chegou a ganhar um Prêmio Nobel da Paz antes mesmo de começar a governar (e, portanto, autorizar ataques militares), fez discursos elogiosos aos militares americanos neste feriado.

A esquerda adota uma campanha contra os militares há décadas, e basta ver Hollywood para verificar como saímos dos filmes que enalteciam esses heróis para os que detratam sua imagem. Mas são esses guerreiros que colocam suas vidas em risco para preservar nossa segurança e nossa liberdade. Policiais do lado doméstico e as Forças Armadas do lado internacional entram na linha de tiro dos inimigos para garantir o nosso estilo de vida, que muitas vezes tomamos como um dado, não como um resultado de muito esforço e sacrifício.

As guerras acompanharam a humanidade desde que o homem é homem. As tribos vizinhas atacavam umas às outras em busca de seus recursos, suas propriedades, e matavam ou escravizavam os homens, enquanto estupravam mulheres com frequência. Essa era a verdadeira “cultura do estupro”, ao contrário do que as feministas falam hoje.

Com o passar do tempo, a institucionalização da defesa nacional liberou a imensa maioria desse fardo, para que todos nós pudéssemos nos dedicar a outras tarefas, seguir nossos sonhos. A produtividade deu um salto com o aumento das trocas comerciais e com a alocação de tempo e energia para essas funções. Tudo isso, é sempre importante lembrar, graças àqueles que continuaram se dedicando à fundamental missão de nos proteger, de forma profissional. Os conservadores costumam valorizar bastante esses soldados. Os “progressistas” adoram crucificá-los.

Mas, como vimos, mesmo um ícone da esquerda caviar como Obama precisa se curvar diante dos fatos, e prestar homenagem aos militares que lutaram e morreram pela América. É porque, apesar da campanha da esquerda, esses heróis ainda são muito estimados por aqui. Ai daquele político que virar efetivamente suas costas para eles, desprezar sua coragem, seu senso de patriotismo e dever cívico. Será suicídio político, sem dúvida.

E é bom que seja assim. Uma nação que não valoriza aqueles dispostos a morrer em batalha por ela não é digna da liberdade. Claro, para isso ser verdade, é preciso ser uma nação livre para começo de conversa. Os militares da Coreia do Norte – quase toda a população – são apenas escravos a serviço de um tirano maluco. Já os militares americanos não precisam pedir desculpas ao mundo, como gostaria o próprio Obama. Estiveram do lado certo quase sempre, lutando contra inimigos da liberdade, da democracia, do indivíduo.

Combateram comunistas, nazistas, fascistas, imperialistas, terroristas. São heróis, e merecem todo tributo e reconhecimento que for possível. Hoje é o dia escolhido para isso, e é emocionante ver como a América ainda estima seus guerreiros da liberdade.

RODRIGO CONSTANTINO

O PAPAL DO COMENTARISTA INDEPENDENTE

Todos têm acompanhado, com estarrecimento, o que vem acontecendo nos debates políticos no Brasil. Entende-se o clima de desespero, quando o cidadão se sente impotente diante de um sistema podre e carcomido. No afã de promover uma mudança por meio das eleições, muitos colocam como única prioridade a derrota de Lula e seu PT, o que é, sem dúvida, o desejo de todo brasileiro decente. Não obstante, esse objetivo vem turvando a razão de muitos e impedindo qualquer tipo de diálogo construtivo.

Confunde-se o papel de cada um, com uma cobrança de que veículos independentes de comunicação se tornem somente máquinas de propaganda para determinado candidato. Não é papel da mídia o de defender político “até debaixo d’água”. Se houver qualquer tipo de questionamento acerca de um potencial escândalo “do lado de cá”, logo surge o rótulo de “traidor” ou “vendido”, quiçá “petista”. É como se jornalistas tivessem que abandonar qualquer senso crítico e virar apenas relações públicas de um candidato, fazendo vista grossa para todos os seus defeitos e malfeitos.

Não se pode ter político de estimação na mídia. Não há qualquer razoabilidade em tomar partido cegamente, pois o “partido” de jornalistas independentes é o Brasil. E jamais um jornalista sério pode transigir com corrupção. São valores básicos que vêm sendo esquecidos e ignorados por aqueles que exigem uma postura de militância em vez de opinião séria.

Os canais independentes não são a reunião de um grupo de militantes. Jornalistas de verdade não têm a pretensão de “tornar o mundo melhor”. Muito menos seguindo parâmetros equivocados, uma visão particular. Não somos seres superiores, supremos, iluminados. Não somos “consertadores” do mundo, educadores, tutores, que sabem o que é melhor para todas as pessoas, para o país, para o planeta.

Abominamos a arrogância, a soberba, a prepotência. Uma pessoa inteligente é, necessariamente, uma pessoa humilde. Quem não é humilde vai sempre distorcer a realidade, já que ignora as referências corretas, já que enxerga tudo como deseja, já que adota “verdades próprias”. A função do jornalista não é bancar Deus. Portanto, um jornalista vaidoso, que não tem humildade, ele deixa de ser jornalista, ele se anula, ele se destrói.

Como explica Lacombe, um jornalista que tem, de antemão, a resposta para tudo, sem precisar perguntar, sem precisar promover o debate, abrindo mão da curiosidade e da desconfiança, não é jornalista. Aquele que se opõe ao mundo real, às experiências já vividas não é um jornalista. Aquele que se entrega a ilusões, a mentiras, a utopias é alguém que aceita ser enganado e, para piorar, que aceita enganar os outros.

Os jornalistas independentes não se acham mais importantes do que as informações, do que o conteúdo que entregam. A notícia será sempre a estrela. Temos a humildade necessária para questionar, questionar muito, nos entregar avidamente aos fatos, não nos deixar pautar por nada que não seja a busca pela verdade. Jornalista que se deixa pautar não pelos critérios profissionais, mas por interesses políticos, corporativistas, mercadológicos ou financeiros deixou de fazer jornalismo.

Lacombe lembrou bem, no Programa 4por4 de domingo, o caso envolvendo o laptop de Hunter Biden, filho do ex-presidente Joe Biden. A mídia tentou abafar o caso pois considerava o objetivo de derrotar Donald Trump mais importante. Não só fracassou em seu intuito, como matou o jornalismo no processo. Não se manipula informações dessa forma impunemente, e não se muda a realidade metendo a cara na areia como um avestruz.

Daí a importância desses veículos rejeitarem qualquer verba pública ou partidária. São os assinantes, o público, a audiência quem paga a conta, em busca de informação verdadeira e análise honesta. Defendemos a liberdade de expressão, de manifestação, de imprensa. Defendemos, principalmente, as liberdades individuais. Sabemos o que é crítica, o que é opinião e queremos sempre defender o debate. Não somos infalíveis, é claro. Entendemos a nossa responsabilidade e, se erramos, devemos de alguma forma fazer as correções necessárias e nos retratar.

Um jornalismo que tem uma causa, que é militante, é refém de si mesmo. O interesse de um jornalista deve ser sempre divulgar fatos, contar histórias reais, da forma mais clara, mais objetiva e mais atraente e cativante possível. Se isso for substituído pelo objetivo de eleger um candidato X ou Y, deixamos de fazer jornalismo para virar cabo eleitoral de político, o que é simplesmente absurdo e imoral. Cada jornalista pode ter sua preferência, claro, e inclusive externá-la ao público, mas sempre com o compromisso de analisar os fatos, doa a quem doer. Jornalista não “passa pano”.

Os veículos sérios e independentes, como a Gazeta do Povo, fazem e farão sempre jornalismo profissional, num ambiente de liberdade, com respeito aos fatos, às leis, a princípios éticos e morais, com responsabilidade, transparência e honestidade intelectual. É isso que cada um de vocês pode esperar e cobrar de nós, sempre. Sem esse esforço constante de buscar a verdade, e não um mero resultado eleitoral, troca-se o foco no longo prazo por uma visão míope e prejudicial ao verdadeiro jornalismo. Não contem conosco para fazer mera militância partidária ou defender político até embaixo d’água. Contem conosco para sempre dizermos o que realmente pensamos, pois esse é nosso compromisso com nosso público qualificado, que merece nosso respeito.

RODRIGO CONSTANTINO

O SENHOR DAS MOSCAS E O CHAMADO DA TRIBO

Jack, o líder tribal de O Senhor das Moscas, era no fundo um covarde. Cercou-se de outros covardes que precisavam agir em bando e punir qualquer dissidência

Vi este fim de semana com meu filho a nova série da BBC “O Senhor das Moscas”, baseada no livro homônimo de William Golding, que li faz algum tempo. A série foi bem fiel ao livro, pelo que me recordo. E a moral da história segue intacta: cuidado com a natureza humana! Ela precisa ser domesticada, o homem deve ser civilizado, mas a besta que vive em seu interior estará sempre lá, pronta para assumir o controle.

Após a queda de um avião, um grupo de garotos fica preso em uma ilha tropical no Oceano Pacífico, no início da década de 1950. Ralph, um menino bom, tenta liderar os garotos, com a ajuda do “intelectual” Piggy, que sugere regras para manter a ordem. No entanto, Jack inicia uma rebelião, e a sociedade improvisada que eles formaram começa a desmoronar. O tribalismo fala mais alto. Comentei sobre o livro em meu Esquerda Caviar:

O mal existe. O ser humano, ao contrário do que quer acreditar a esquerda caviar, não nasce bonzinho, mas com inclinação para a prática da violência. Nelson Rodrigues resumiu com perfeição: “Se é verdade que um menino está isento do bem e do mal, então é um pequenino canalha”.

Em “O senhor das moscas”, William Golding retrata com realismo essa natureza humana, presente na mais tenra idade. Qualquer pai sabe que seu filho, desde muito cedo, gosta de apelar ao uso da força para obter aquilo que deseja. Civilizar é impor limites a esse impulso natural, que sempre, no entanto, estará lá, latente, como uma besta à espreita, aguardando uma oportunidade para emergir com total energia.

Quem não quer se dar ao trabalho de ler, ao menos veja o filme “O anjo malvado”, com Macaulay Culkin, de 1993. É ficção, claro, mas retrata algo factível: uma criança pode ser, no fundo e desde cedo, um pequeno monstrinho, capaz das maiores atrocidades. Mas a esquerda caviar politicamente correta não aceita isso, não quer encarar a maldade existente nos seres humanos.

Ou seja, não nascemos “puros” ou “bons”, tampouco a culpa de nossa violência é da “sociedade”, que é formada, pasmem!, pelos próprios seres humanos que supostamente nasceram bons. Colocar a culpa da violência numa abstração como a sociedade é retirá-la de indivíduos de carne e osso, responsáveis por suas atitudes.

Civilizar o homem, porém, não é tarefa trivial. Afinal, o “chamado da tribo” é muito forte. O que nos remete ao excelente livro de Mario Vargas Llosa justamente com esse título, que resume as ideias de grandes pensadores como Adam Smith, Ortega y Gasset, Hayek, Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Revel. O denominador comum que Vargas Llosa encontrou nesses autores é sua rejeição ao tribalismo, um chamado natural, uma vez que se trata de uma paixão atávica essa busca por pertencimento a um grupo coeso.

O liberal clássico luta contra o coletivismo tribal desde sempre, e não é trivial compreender as vantagens de um sistema mais impessoal como o livre mercado, calcado em regras isonômicas, pois não é algo intuitivo. A tendência natural é defender a “coisa nossa”, que leva ao patrimonialismo, que enxerga no estado uma extensão da família ou do seu grupo. O “nós contra eles” é tentador demais para ser ignorado por abstrações.

Sou grande admirador de Vargas Llosa, não só do romancista, mas também do liberal em política. Mas vale ressaltar as diferenças essenciais: enquanto ele adota uma visão de um liberalismo mais progressista e cosmopolita, às vezes quase flertando com uma social-democracia ao estilo tucano, eu me considero um liberal com viés conservador, justamente por rejeitar a visão racionalista demais dos que ignoram o legado e a importância das tradições morais e religiosas, além do saudável patriotismo – que jamais deve ser confundido com o nacionalismo tacanho e ufanista.

Em que pesem diferenças importantes, o que nos une é mais forte: Vargas Llosa absorveu desses pensadores liberais a humildade necessária para não cair em tentações utópicas revolucionárias, preferindo sempre o gradualismo reformista e a democracia que, com todos os seus defeitos, tem como maior virtude evitar justamente o derramamento de sangue em trocas violentas de grupos no poder.

Sua aversão ao coletivismo é por mim compartilhada. Com Sir Karl Popper, talvez sua maior influência, o escritor peruano rejeita a irracionalidade do ser humano primitivo “que descansa no fundo mais secreto de todos os civilizados, que nunca superaram totalmente a saudade daquele mundo tradicional – a tribo – em que o homem ainda era parte inseparável da coletividade, subordinado ao feiticeiro ou ao cacique todo-poderosos que tomavam todas as decisões por ele, e nela se sentia seguro, livre de responsabilidades, submetido, como o animal de manada, no rebanho, ou o ser humano em uma turma ou torcida, adormecido entre os que falavam a mesma língua, adoravam os mesmos deuses e praticavam os mesmos costumes, e odiando o outro, o diferente, que podia ser responsabilizado por todas as calamidades que assolavam a tribo”.

Em Tribe: On Homecoming and Belonging, Sebastian Junger, correspondente de guerra, mostra como muitos militares acabaram sentindo falta dos anos de batalha, pois ali, apesar de toda a dor e violência, havia ao menos um sentimento forte de pertencimento a algo maior. Não por acaso virtudes – e vícios – destacam-se em momentos como estes. A coragem que desperta em alguns, com um propósito de “bando”, é algo heroico e conhecido. Numa tribo, estamos dispostos a dividir mais, compartilhar, algo que as sociedades modernas impessoais dificultam – e o estado é péssimo substituto para isso. Não quer dizer, naturalmente, que seja desejável retornar ao tribalismo. Mas é recomendável assumir que algo se perdeu no processo, que existe uma troca aqui, que o progresso civilizacional traz um custo.

Por fim, retorno à humildade, característica fundamental do liberalismo. Vargas Llosa resume bem: “Entre os liberais, como demonstram aqueles que figuram nestas páginas, com muita frequência há mais discrepâncias que coincidências. O liberalismo é uma doutrina que não tem respostas para tudo, como pretende o marxismo, e admite em seu seio a divergência e a crítica, a partir de um corpo pequeno, mas inequívoco, de convicções”.

Jack, o líder tribal de O Senhor das Moscas, era no fundo um covarde. Cercou-se de outros covardes que precisavam agir em bando e punir qualquer dissidência. Chegaram a matar Simon a pauladas, e Piggy veio a óbito depois também. O tribalismo não permite contestação, divergência ou racionalidade. Pode ser catalisado para se transformar numa eficiente máquina de guerra, mas jamais para construir uma civilização que mereça tal nome.

RODRIGO CONSTANTINO

A HERANÇA MALDITA

Em seu editorial de hoje, o Estadão fala das medidas populistas do governo Lula nesse ano eleitoral e como isso vai deixar uma herança maldita para o próximo governo. Os estímulos econômicos já ultrapassam R$ 140 bilhões, o que se configura demagogia da pior espécie. “Tudo isso, é óbvio, resultará em mais inflação e pressionará ainda mais a já estratosférica taxa de juros, aumentando o custo do dinheiro e o custo de vida justamente para aqueles eleitores cujo voto Lula pretende conquistar”, diz o jornal.

Mas assim age o PT desde sempre. Para vencer, estão sempre dispostos a “fazer o diabo”. O populista só pensa nas próximas eleições, enquanto o estadista pensa nas próximas gerações, como ensinou Churchill. Lula nunca passou de um populista da pior espécie, disposto a sacrificar o futuro do povo em troca de poder.

O Estadão conclui: “A conta dessas iniciativas, cedo ou tarde, chega ao Orçamento, mas o governo Lula prefere fingir que nada disso terá custo nem prejudicará as contas públicas. Se Lula efetivamente conseguir se reeleger, terá de arcar com a herança maldita gerada por si mesmo. Dessa vez, não poderá jogar a responsabilidade no antecessor”. O jornal está certo, claro, mas peca por ingenuidade. Se Lula se reeleger, jamais vai lidar com sua própria herança maldita: vai dobrar a aposta e quebrar de vez o país, como acontece em todo país socialista.

O que muito tucano se recusa a enxergar é essa dura realidade: para seus primos petistas, a miséria é um projeto deliberado de poder! Lula e José Dirceu já chegaram a confessar que os pobres e ignorantes são seus eleitores. Ora, por que então o petismo teria interesse em melhorar a vida do povo e garantir boa educação a todos? Perderiam seus eleitores!

O que Lula visa, portanto, é criar dependência, para oferecer sempre migalhas em troca de poder. Quem acredita que economia e política andam de mãos dadas, que sempre haverá alternância de poder se a economia for mal, precisa explicar o Nordeste brasileiro. São os estados mais pobres, e os mais petistas! A Bahia é um fenômeno claro que ilustra com perfeição esse problema: boa parcela da população depende do assistencialismo estatal, vota na esquerda e se perpetua na pobreza.

Lula simplesmente não liga para a realidade, por isso não se importa com a incoerência de “ter de se explicar”. Cria a herança maldita e ponto: sempre colocará a culpa em algum bode expiatório qualquer, na direita de preferência. Faz isso até hoje com a alta taxa de juros que seu governo perdulário e irresponsável ajuda a criar: é culpa do mercado, dos bancos, da Faria Lima, menos do PT!

Nos últimos 23 anos, o PT comandou o país em quase 18 deles! E Lula ainda culpa a direita, as elites e os americanos por nossos males! Lulismo é sinônimo de cara de pau. Por isso é temerário o pensamento de que talvez seja melhor Lula ser reeleito para lidar com sua própria herança maldita. O regime cubano destruiu a economia na ilha caribenha, mas a ditadura permanece intacta. O mesmo na Venezuela chavista, apesar da captura de Nicolás Maduro pelo governo Trump. A destruição econômica ocorre pari passu à consolidação do poder político. E depois é tarde demais.

Jornais alegam que Lula quer insistir na indicação de seu “despachante” Jorge Messias para o STF. A Polícia Federal, sob pressão de Lula, trocou o delegado responsável pelo caso de Lulinha no INSS. Assim vai agindo o PT: aparelhando tudo para que não faça a menor diferença depois o estrago econômico causado por sua irresponsabilidade populista. Por isso é tão imperativo se livrar dessa praga chamada petismo!

RODRIGO CONSTANTINO

O “ROCEIRO” QUE REALMENTE DÁ AS CARTAS NO BRASIL

joesley batista

O empresário brasileiro Joesley Batista, um dos proprietários da empresa de processamento de carne JBS

“Não posso responder essa pergunta”, disse Joesley Batista sobre ajudar Lula e Donald Trump a se encontrarem. Jornalistas alegam que a ligação de Lula a Trump teria sido feita pelo celular de Batista, o maior doador para a festa de comemoração da vitória de Trump, num valor de US$ 5 milhões. Enquanto isso, rolava em Nova York um evento com o filho de Trump, Don Jr, além de André Esteves, do BTG, e Wesley Batista, da JBS.

Quem achava que Eduardo Bolsonaro tinha essa moral toda com a administração Trump foi forçado a descobrir, do jeito mais duro, que o “roceiro” da JBS é quem manda nessa “joça” de verdade. Money talks, como dizem os próprios americanos. No evento, o filho de Trump falou da China, tentando passar o recado do pai para que o Brasil se afaste do país comunista. Mas Lula vai mesmo seguir esse “conselho” ou só fingir, como sempre faz?

Pedi ao Grok um levantamento dos principais benefícios do governo Lula ao grupo JBS, dos irmãos Batista. Foi praticamente o Estado brasileiro que fez da JBS um gigante internacional, dentro da ótica “desenvolvimentista” de seleção dos campeões nacionais. O principal benefício foi o apoio massivo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que ajudou a transformar a JBS de frigorífico regional em gigante global.

Aportes e participações acionárias via BNDESPar (braço de investimentos do BNDES): cerca de R$ 8,1 bilhões entre 2007 e 2011. Esse dinheiro foi usado principalmente para aquisições internacionais (como a Swift Foods nos EUA, a Pilgrim’s Pride, a Bertin etc.). O BNDES se tornou sócio da empresa, chegando a deter até 21% das ações.

Financiamentos indiretos e diretos adicionais: milhares de operações via Finame (máquinas e equipamentos), BNDES Exim (exportação) e outros programas. Estimativas totais do período 2005-2014 chegam a R$ 10 bilhões a R$ 12,8 bilhões, quando somados empréstimos e aportes.

A alteração do estatuto do BNDES por um decreto de Lula, em 2007, permitiu que o banco financiasse empresas brasileiras para compras no exterior, o que antes era proibido. Isso foi essencial para a internacionalização da JBS.

Isenções tributárias federais (renúncias fiscais): entre janeiro de 2024 e maio de 2025, a JBS deixou de pagar R$ 8,5 bilhões em tributos federais (principalmente Cofins, PIS/Pasep e contribuição previdenciária). Isso representa 68% do lucro líquido do grupo no período (R$ 12,5 bilhões). A JBS lidera o ranking de renúncias fiscais do agronegócio.

Benefícios da reforma tributária e isenções do agro: a JBS foi beneficiada pela manutenção ou ampliação de isenções sobre carnes (PIS/Cofins, IPI etc.), que já existiam e foram preservadas ou reforçadas. O setor de proteína animal é um dos mais desonerados do país.

Medida Provisória 1.232/2024 (energia): beneficiou indiretamente o grupo J&F (controlador da JBS) via empresa Âmbar Energia. A MP converteu contratos de térmicas e transferiu custos bilionários para os consumidores de energia (a estimativa é de R$ 2 bilhões por ano). Não é benefício direto à JBS, mas ao mesmo grupo econômico.

Crédito rural e Plano Safra: a JBS, como maior processadora de carne, se beneficia indiretamente dos grandes volumes de crédito rural (Pronamp, Pronaf etc.) liberados para fornecedores (pecuaristas). Não há valores exclusivos da JBS divulgados, mas o Plano Safra 2025/2026 bateu recorde (R$ 516 bilhões).

Benefícios estaduais (ICMS): vários estados concederam ou mantiveram incentivos fiscais (créditos presumidos de ICMS) à JBS. Em 2017 houve auditorias em São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, mas muitos continuam válidos.

Além disso, como se fosse pouco, o grupo dos irmãos Batista contou com a “ajudinha” direta do STF. O relator Dias Toffoli, por exemplo, suspendeu uma multa de R$ 10,3 bilhões no acordo de leniência em 2023. Mais de dez bilhões de reais!

Relembrar desses fatos é uma ducha de água fria em quem ainda tem esperanças no futuro do Brasil. A corrupção em nosso país tem um passado glorioso e um futuro promissor, como diria Roberto Campos. O Estado vem sendo tratado como a locomotiva do desenvolvimento desde sempre, e isso pariu um “capitalismo de laços” em que a meritocracia cede lugar ao clientelismo e ao patrimonialismo. Investe-se muito em lobby político em vez de competitividade. Com os recursos da “viúva”, grupos com boas conexões sempre se dão bem à custa do povo. E hoje percebemos que tais tentáculos vão longe.

Joesley Batista virou “chanceler” informal, fazendo ponte entre Brasil, Estados Unidos e Venezuela, onde também possui inúmeros investimentos, e o elo entre Lula e Trump. Tudo isso com muito dinheiro público, como fica claro. O “roceiro” é o homem que realmente manda nessa “bagaça”. O Brasil não é para amadores, tampouco um país sério.

RODRIGO CONSTANTINO

O PODER CORROMPE ATÉ OS BICHOS

Cena da animação Animal Farm

Cena da animação Animal Farm, baseado na famosa obra de George Orwell 

Levei meu filho para ver Animal Farm esse fim de semana. Dirigido por Andy Serkis, Animal Farm é um filme de animação satírica que chegou aos cinemas no começo do mês. Baseado na famosa obra de George Orwell, o filme retrata uma revolução animal que se transforma em uma ditadura, com vozes de Seth Rogen, Woody Harrelson e Glenn Close.

Algumas pessoas comentaram que Orwell estaria se revirando no túmulo, pois o filme adota uma visão anticapitalista. Justiça seja feita, Orwell era um socialista, por mais que tenha denunciado o regime soviético. Ele acreditava que era possível um modelo de organização igualitária sem tirania, mas acabou descrevendo justamente como as lideranças acabam substituindo seis por meia dúzia.

No novo filme inspirado na obra, Glenn Close faz a voz de uma ambiciosa “capitalista” sem coração, que mecaniza toda produção de leite e quer possuir todas as terras possíveis. Não obstante essa alfinetada no sistema capitalista, a mensagem essencial segue intacta: o porco Napoleão dá um golpe depois da revolução, usando seus obedientes cães raivosos, e assume o poder na fazenda.

Em troca de migalhas, de “comida grátis”, vai acumulando poder e ignorando as regras que todos criaram. Muda-se para a mesma casa do antigo proprietário explorador, aprende a andar com duas patas como os humanos e passa a consumir os luxos capitalistas sonhados por todos. Tudo em nome do “bem geral”, claro.

Em determinado momento, Napoleão, falando para uma multidão, alega que a frase “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”, de Lord Acton, foi dita por um “perdedor”. Fica claro que ele não passa de um porco recalcado tentando ser aceito pelos humanos, como costuma acontecer com tiranos.

Em geral, continua sendo uma mensagem válida e necessária. Levem seus filhos para ver o filme, e conversem com eles depois sobre a lição moral da história, sobre o perigo de se acreditar em líderes que prometem resultados fáceis e igualitários, enquanto vivem de forma nababesca enganando trouxas. Segue um trecho da resenha que escrevi sobre o livro de Orwell:

Dá-se início a um verdadeiro culto de personalidade, como costuma ocorrer em todos os países socialistas. Napoleão passa a dormir na cama, ignorando um dos mandamentos da revolução, que passa a contar com um adendo que diz que nenhum animal deve dormir em cama com lençóis. O mandamento de que nenhum animal mataria outro foi substituído, após uma chacina de alguns dissidentes do regime, para outro onde nenhum animal deveria matar outro sem motivo.

Ora, não foi difícil, com tanto poder, achar motivos para justificar o massacre de Napoleão. A miséria se abateu sobre a granja, mas os porcos comiam cada vez melhor. O cavalo Sansão trabalhava cada vez mais, convencido de que Napoleão estava sempre certo. Acabou doente de tanto cansaço, e foi levado para um abatedouro, sem piedade alguma por parte do “grande líder”.

Os sete mandamentos davam lugar a apenas um agora: “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”. Os porcos ligados a Napoleão passaram a negociar com os homens de outras granjas vizinhas, algo totalmente condenado na revolução. Passaram a beber álcool, também condenado, e aprenderam a andar em duas patas. No fim, era completamente indistinguível quem era porco e quem era homem. Eis o destino inevitável dos igualitários revolucionários. Instalam um regime tão opressor ou mais que o anterior, tudo em nome da granja da igualdade.

RODRIGO CONSTANTINO

A MESADA DE CIRO NOGUEIRA

Flávio tem eleição “nas mãos”, mas pode jogar fora, diz Ciro Nogueira

O presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira

O senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, foi alvo de buscas nesta quinta-feira, em nova fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga um esquema bilionário de fraudes envolvendo o banco Master, de Daniel Vorcaro. O primo do ex-banqueiro, Felipe Vorcaro, foi preso na operação.

A ação da PF que tem Ciro Nogueira como alvo foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na decisão, o magistrado aponta que o parlamentar é indicado pelos investigadores como “destinatário central” de vantagens indevidas pagas pelo dono do Master.

A representação policial descreve um contexto de vantagens indevidas entre o senador e Vorcaro, como a compra de participação em empresa por um valor abaixo do mercado, a identificação de pagamentos mensais recorrentes de R$ 300 mil à “estrutura vinculada ao senado”, o uso de um imóvel de Vorcaro como se fosse do próprio senador e custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e voos privados.

A principal contrapartida, ao que tudo indica, foi um projeto de lei apresentado pelo senador para elevar em quatro vezes o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito, que foi feito sob medida para beneficiar o esquema do Master. A “emenda Master” daria fôlego às vendas de CDBs do banco com retornos extraordinários, pois haveria uma enorme rede de proteção para investidores que alocassem até um milhão nesses títulos. O rombo, caso o projeto tivesse sido aprovado, seria quatro vezes maior e poderia quebrar o sistema financeiro brasileiro.

Kakay, advogado petista de Ciro Nogueira, diz em nota que a defesa “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. Eu já tenho visão diferente: contratou o Kakay provavelmente porque está encalacrado mesmo, e precisa de proteção perante o Poder Judiciário.

A atividade de lobby não é permitida no Brasil, como é nos Estados Unidos, e isso talvez seja um erro. É natural da democracia que empresas apresentem suas demandas para melhorias dos setores, mas isso deve ser feito sempre de forma transparente. No Brasil, o que se vê é puro tráfico de influência, “investimento” em conexões políticas para projetos sob medida para privilegiar o empresário. É corrupção ativa e passiva mesmo, com trocas de “favores” que se traduzem em milhões transferidos para contas de políticos.

O caso de Ciro Nogueira gera reflexões interessantes. Primeiro sobre o duplo padrão: a mesada do senador seria de 300 mil reais. Sofreu busca e apreensão, está com tornozeleira eletrônica, passaporte confiscado. Lulinha recebia mesada da mesma quantia, 300 mil reais também, de lobista do INSS. Está na Espanha curtindo a vida com dinheiro desviado.

Isso para não falar de Alexandre de Moraes. O senador foi alvo por um montante total de R$ 18 milhões, mas o ministro supremo segue no cargo, sem uma apreensão de celular, mesmo com um contrato de R$ 129 milhões do mesmo banqueiro com o escritório da sua família, sendo que Vorcaro já teria admitido que essa montanha de dinheiro era para “se aproximar de Moraes”?

Outro ponto que merece reflexão. Ciro Nogueira foi ministro importante da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, e foi nessa ocasião que Jair disse: “Eu sou centrão”. Ele admitiu à época estar entregando a “alma” de seu governo ao centrão. O problema de a direita fazer tantas concessões ao centrão fisiológico é que isso respinga feio no conservadorismo.

O caso vem bem a calhar para uma reflexão sobre escolhas do PL, com aval do Eduardo Bolsonaro, principalmente a de indicar André do Prado para o Senado por SP. Mello Araújo faria infinitamente mais sentido: sério e conservador. Mas é Valdemar, o mensaleiro do PT, quem manda. O mesmo Valdemar que chegou a afirmar que Ciro Nogueira, ele mesmo, seria um ótimo vice para Flávio Bolsonaro!

Quando ministros do PT são pegos com malas de dinheiro, como os 51 milhões de reais do Geddel Vieira, nós, da oposição, batemos no governo Lula com toda razão. São as alianças da esquerda com o centrão fisiológico corrupto, mas fazem parte do governo do PT. Não se vence ou se governa sem o “centro”, mas é preciso muito cuidado nas escolhas, pois claro que um ministro bolsonarista, ainda que centrão, mancha a reputação do governo quando é pego num escândalo desses.

Política não é convento, não dá para ser purista. Mas redobrar os cuidados e evitar claras armadilhas, cascas de banana evidentes, isso é o mínimo que se exige! E claro: quando alguém do “seu lado” é pego com batom na cueca, cabe à direita exigir punição sem melindres, justamente para mostrar a diferença em relação à esquerda.

Ciro Nogueira já disse que renunciaria ao mandato de senador se seu nome fosse citado no caso do Banco Master. Sendo assim, o povo aguarda a sua renúncia até o fim do dia! É o mínimo que se espera para evitar que esse caso desgaste ainda mais o bolsonarismo. Lembrando que Ciro não é um bolsonarista em si, mas sim alguém que já elogiou muito o próprio Lula enquanto chamava Bolsonaro de “fascista”.

Todos podem mudar de opinião, mas em se tratando de ícones do centrão, sabemos que a probabilidade maior é mudança de interesses apenas. O centrão do PL, comandado por Valdemar, quer diluir o bolsonarismo até se tornar nada mais do que um puxador de votos (e recursos) para seu partido, repleto de fisiológicos corruptos. E é exatamente isso que precisa ser combatido pela direita. A menos que os bolsonaristas queiram admitir logo aquilo que alguns já vêm repetindo por aí: não são de direita, mas sim… bolsonaristas! A direita agradece a distinção…

RODRIGO CONSTANTINO

COMO VALORIZAR O TRABALHO DE VERDADE

Após Romeu Zema defender ampliar o trabalho a adolescentes, esquerda associa fala a incentivo ao trabalho infantil

Dois meninos, com cerca de 10 a 12 anos no máximo, bateram à minha porta e deixaram um folder anunciando o serviço de limpeza de carros e latas de lixo. Aqui nos Estados Unidos é muito comum a garotada trabalhar com isso, ou montar uma barraca de limonada na esquina. Liguei para eles e os “contratei” para lavar dois carros na sexta-feira, o Dia Internacional do Trabalho.

Os garotos ficaram três horas lavando os carros. Cobraram cinquenta dólares pelo serviço, incluindo a limpeza do interior. Ao término, descobri que eu era o primeiro cliente deles, e paguei o dobro: uma nota de cem dólares. Eles não conseguiam esconder a cara de felicidade! Eu disse que era um incentivo pelo trabalho duro e o empreendedorismo, e depois dei uma lição de moral semelhante ao meu filho, de oito anos.

Os americanos valorizam muito o trabalho. É comum filho de gente rica trabalhar como caixa de supermercado, por exemplo. Aqui se pergunta quanto dinheiro você faz por ano, não quanto você ganha. Todos entendem que dinheiro não é um presente dos céus, do estado ou algo que brota do solo, mas sim algo que você precisa correr atrás, oferecendo valor em troca, pela ótica dos consumidores. E no final sempre o agradecimento: “Obrigado pela escolha”; “obrigado por fazer negócio comigo” etc.

Não há, nos Estados Unidos, décimo-terceiro salário, férias remuneradas, vale-transporte, vale-refeição ou vale-alimentação. Uma parcela ínfima dos trabalhadores é sindicalizada e não há qualquer obrigatoriedade de pagar por sindicatos. O mercado de trabalho é bem mais livre e dinâmico, as leis são bem mais flexíveis. E o trabalhador médio americano faz cinco a seis vezes mais do que o trabalhador médio brasileiro, repleto de regalias e “conquistas legais”.

O ex-governador Romeu Zema aproveitou o feriado para defender a redução da idade mínima para assinar carteira, lembrando que ele mesmo começou muito cedo a trabalhar. Zema está certo. O trabalho enobrece, cria senso de propósito, dá responsabilidade e dignidade. Muito melhor trabalhar cedo em algo decente do que ficar de bobeira nos jogos eletrônicos ou virar “aviãozinho” de traficante. Barão de Mauá, o maior empresário do Império, começou a trabalhar aos nove anos!

Essa visão de quem valoriza de verdade o trabalho contrasta com aquela marxista, que enxerga no trabalho uma “exploração capitalista” e que deposita no estado e nos sindicatos o poder para “proteger” o trabalhador. São os mesmos que aplaudem um assistencialismo hipertrofiado que faz com que, em várias cidades nordestinas, haja mais gente dependendo do estado do que com carteira de trabalho assinada. É o antigo voto de cabresto, já que a dependência cria eleitores apavorados com o risco de perder essas benesses.

Lula tenta explorar justamente essa mentalidade com seu populismo, com a propaganda pelo fim da jornada 6×1. Enquanto isso, Zema afirma que não vai permitir marmanjo vivendo à custa de mesada estatal. No Brasil, infelizmente, o discurso fácil da esquerda ainda rende votos, pois muita gente enxerga o trabalho como um fardo intolerável, como “exploração”, buscando um atalho para uma vida mais mansa – ainda que ao custo da perda da liberdade.

O ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), se declarou como “vermelho” ao afirmar que “nós, vermelhos, temos causa”. A afirmação foi feita durante um evento institucional sobre a Justiça do Trabalho, realizado em 1º de maio.

“Nós, vermelhos, temos causa. Não temos interesse. E que fique bem claro isso, para quem fica divulgando isso aqui no país. Nós temos uma causa. E eles que se incomodem com a nossa causa. Porque nós vamos estar lá lutando o tempo todo na defesa da nossa instituição, porque as pessoas vulneráveis desse país precisam de nós. E a Constituição nos dá o poder para isso”, afirmou.

Segundo o ministro, a Justiça do Trabalho não deveria se limitar à aplicação estrita da lei, mas atuar como instrumento de contenção ao que classificou como “capitalismo selvagem e desenfreado”, além de exercer papel regulador nas relações entre empresas e trabalhadores. Ele se enxerga como alguém que enfrenta os “defensores dos interesses econômicos”.

Esse tipo de mentalidade é o grande problema em nosso país. Aliás, a própria Justiça do Trabalho é uma espécie de jabuticaba, algo inexistente em países mais desenvolvidos. Os “juízes” trabalhistas vivem tomando decisões com base nesse conceito marxista de que trabalhadores são vítimas de seus patrões, e isso certamente cria um ambiente desfavorável ao empreendedorismo no Brasil – lembrando que são os empreendedores que criam riqueza e trabalho. Passou da hora de mudar essa cultura. Zema está de parabéns por ter mexido nesse vespeiro!

RODRIGO CONSTANTINO

O SENADO AINDA RESPIRA

Jorge Messias chorando durante sabatina na CCJ do Senado

“Derrota histórica do PT! O Senado rejeitou o avanço de um projeto de poder, aparelhamento e censura que coloca em risco a nossa democracia. Jorge Messias era uma ameaça clara ao reequilíbrio entre os Poderes. O Parlamento reagiu e deixou claro: Lula é mercadoria vencida! O Brasil ainda tem jeito, quer normalidade democrática, e o próximo nome para o STF definido após as eleições, com legitimidade e novos critérios”. A análise foi feita pelo senador Rogério Marinho, que teve participação importante nas articulações com o centrão para a derrota de Lula.

O bordão do presidente petista vem bem a calhar aqui: “Nunca antes na história desse país”. De fato, Lula é o primeiro presidente em 132 anos a ter uma indicação para o Supremo rejeitada. Isso não é pouca coisa. São placas tectônicas se movendo em Brasília. Claro que não acreditamos que todos os senadores que votaram contra Messias o fizeram por razões nobres. Mas o resultado importa, e muito.

Há uma autofagia no sistema, e até mesmo dentro do STF existe um racha hoje. Lula liberou cerca de R$ 12 bilhões em emendas parlamentares para garantir a aprovação do seu “despachante” de confiança, mas não levou. Vai ter que reclamar no Procon agora! Os senadores do centrão fisiológico embolsaram as emendas, mas mesmo assim se recusaram a entregar o “produto”. Lula se sente traído e fala em guerra. Haverá retaliações, sem dúvida. David Alcolumbre e seus pares sabem disso, mas mesmo assim fecharam questão com a oposição e impuseram a derrota mais humilhante de Lula até hoje.

Flávio Bolsonaro foi humilde e não quis assumir qualquer protagonismo nessas articulações, mas até Malu Gaspar no Globo reconhece: “Como Alcolumbre e Flávio Bolsonaro derrubaram Messias e conseguiram impor derrota histórica a Lula”. “De acordo com fontes envolvidas nas conversas, o presidente do Senado não se comprometeu a pautar nenhum pedido de impeachment, mas foi bem-sucedido ao convencer os senadores de que a derrubada do indicado de Lula seria um passo necessário para chegar lá”, diz trecho da reportagem.

Não se sabe ao certo os termos do acordo costurado, mas foi sem dúvida uma vitória e tanto dos bolsonaristas. Foi uma derrota acachapante para Lula, Messias e André Mendonça, que fez campanha aberta para o colega “evangélico” e, após sua derrota, lamentou a “oportunidade perdida” de um país ter um grande ministro no STF.

O cabo de guerra entre Lula e Alcolumbre pode não ter os interesses republicanos em pauta, mas o efeito prático dessa rejeição histórica é reforçar a ideia de que o Senado pode e deve agir com independência. É sua prerrogativa sabatinar e aprovar ou não o indicado pelo presidente para a Corte Suprema, e se a aprovação já é esperada de forma automática, isso significa que os senadores são apenas carimbadores de decisões do Executivo e a sabatina não passa de um teatro. Daí a importância de lembrar que os poderes são autônomos, o que abre a expectativa para um eventual pedido de impeachment de ministro supremo ser votado no plenário também.

Não houve uma epifania republicana por parte dos ícones do centrão fisiológico, por certo. Mas é assim que funciona a democracia na realidade: com jogo de interesses, motivações mesquinhas, ambições pessoais. Os mais idealistas adorariam que fosse tudo bem diferente, que cada senador votasse com base somente em princípios decentes e valores morais nobres. Mas é melhor são saber como as leis – e as salsichas – são feitas. A realidade é mais feia do que muitos imaginam.

Uma batalha importante foi vencida, mesmo que por motivos errados. Mas a guerra está longe do fim, até porque os métodos adotados para essa vitória continuam dominantes no Congresso e nos impedem de sonhar com mudanças mais profundas e estruturais. O máximo que podemos esperar, portanto, é que mais mudanças relevantes ocorram daqui para frente, em doses homeopáticas, com elevados custos nesse trade-off que é a política. O Brasil não é para amadores e a política é a arte do possível. Mas hoje o Senado ainda respira, e isso é motivo de comemoração.