PERCIVAL PUGGINA

ÓDIO DO BEM

No século passado, houve um longo tempo em que o comunismo e o respectivo cortejo de males só pela força bruta conseguia espaço para instalar suas estruturas de poder. Sacrificava vidas – muitas vidas, milhões de vidas! – e depois, neutralizava, também pela força, os remanescentes. Foi o período de triunfante expansão territorial dos totalitarismos, dos quais sobrou o comunismo, embora também ele tenha sido forçado a reconhecer seus fracassos ao som surdo das marretadas com que a população da Alemanha Oriental abriu passagem no Muro de Berlim.

A perda de validade das profecias comunistas de Marx não foi admitida pelos movimentos revolucionários em muitas nações periféricas. Na América Ibérica esses grupos se reuniram no Foro de São Paulo. O muro caíra em novembro de 1989 e em julho de 1990, apenas oito meses depois, esse colegiado se reunia na capital paulista, mobilizado por Lula e Fidel Castro. Ali secaram as lágrimas pelas perdas europeias e, numa operação quase hospitalar, ligaram as finadas profecias marxistas aos aparelhos partidários da esquerda do continente. Dada a natureza dos grupos que se coligaram, boa parte dos quais remanescentes da luta armada revolucionária, era preservado, in vitro, o ânimo belicoso que vê a política como luta que só se resolve com a total submissão do antagonista.

É essa a ideia presente no conceito de luta de classe. Ela só tem solução com a supremacia de uma classe sobre a outra. E tudo ganha agilidade na direção da hegemonia se novas classes forem se organizando mediante atração de “minorias” para a luta política. Eu vi isso acontecer e apontei nas mesas de muitos debates, no final dos anos 80.

* * *

Bem antes, porém, escrevia Mario Ferreira dos Santos. Ele é considerado, inclusive por Olavo, o maior filósofo brasileiro. Filósofo de fato, de pensamento autônomo, autodidata, autor de dezenas de obras de fôlego e relevo, esteve desconhecido do público brasileiro, logo se verá por quê. Um ano antes de sua morte, em 1968, foi publicado pela primeira vez seu livro “A invasão vertical dos bárbaros” que trata da ocupação de uma nação pela destruição de sua cultura por uma cultura inferior. Passados 53 anos, esse fenômeno é um dos principais motivos para reflexão e preocupação dos brasileiros, com justificados reflexos na política nacional.

Ao mesmo tempo, os bárbaros locais não dizem dez palavras sem falar em luta. Exceto se querem esconder quem são por conveniência do marketing eleitoral. Herdaram o ânimo belicoso dos tempos da invasão horizontal. Em relação ao que expõem como suas causas, punhos cerrados, eles não as propõem, nem sustentam, nem escrevem, nem alardeiam, nem mobilizam. Eles lutam. A práxis é a luta. A vida é a luta. A frase não sai sem luta. Vem dela o ódio ao adversário. Aprenderam do adorado Che a ver “o ódio como fator de luta”. Não se constrangem, sequer, de torcer escancaradamente para que um inimigo do Brasil vença a eleição nos Estados Unidos se isso fizer mal, também, àqueles a quem odeiam. Só que claro, com a conivência do fã clube midiático, esse é um ódio do bem…

PERCIVAL PUGGINA

CAÇADORES DE IRRELEVÂNCIAS

Em recente artigo sobre racismo, Roberto Rachewski criticou quem faz política usando como bandeira seu sexo e sua cor. E conta haver apoiado uma jovem, mulher, negra e moradora da periferia, candidata a vereadora por seu partido, “não porque ela era jovem, mulher, negra e da periferia, mas porque ela é honesta, culta, inteligente, empreendedora e liberal”. Mais adiante, afirma o autor: “Seja branco ou negro, seja homem ou mulher, seja jovem ou velho, seja rico ou pobre, eu analiso e julgo o caráter, o quanto aquela pessoa valoriza a racionalidade, a produtividade, a independência, a honestidade, a integridade, a justiça e a capacidade de melhorar moralmente a cada dia, a ponto de se orgulhar por suas conquistas”.

No Brasil e em todo o Ocidente, porém, a maior parte dos grandes veículos de comunicação está comprometida com a ideia de que as cadeiras dos parlamentos, os concursos e os cargos públicos, as posições de diretoria da iniciativa privada, os postos de trabalho das grandes empresas, devem estar equitativamente distribuídos por sexo e suas tendências e por cor da pele e suas variações.

Na capa da edição do jornal Zero Hora de ontem, 24/Nov, 11 vereadores eleitas posam diante da Câmara Municipal de Porto Alegre assinalando a maior representação feminina já levada ao parlamento da capital. Mas, mesmo assim, sendo 11 em 36, acrescenta a informação, “bem distante da relação com a representatividade do gênero na população”…

Terminou a eleição municipal do dia 15 de novembro e lá estavam os caçadores de irrelevâncias contando brancos e negros, homens e mulheres, homossexuais e transexuais, para checarem se estão ou não equitativamente representados.

Ou seja, para esse tipo de jornalismo, parlamentares são eleitos para representar interesses relacionados à população do mesmo sexo, ou cor, ou tendências sexuais. Obviamente, em presença de tais critérios de decisão, o bem de uma comunidade, de um município, do estado e da União Federal é mais adequadamente atendido por uma representação política marcada por esse tipo de militância, embora no cotidiano da atividade parlamentar tenham os legisladores que deliberar sobre tudo mais. Para tanto, caráter e competência são muito mais relevantes do que cor da pele, sexo e tendências sexuais.

É por isso que a afirmação do Roberto Rachewski é de uma lógica cristalina. Como tenho afirmado tantas vezes, o parlamentar não deve ser um representante de interesses, mas um representante de opinião identificado com o eleitor não por meras coincidências genéticas, mas por identificação com o modo de ver o ser humano e a sociedade, sua cidade e o mundo onde vive.

PERCIVAL PUGGINA

O VOTO DOS IDOSOS

Entre as tantas contradições do Direito positivo brasileiro, o voto realiza a proeza de ser, ao mesmo tempo, direito e dever. O cidadão tem o direito de votar, concedido à sua cidadania brasileira, e tem a obrigação, na mais tolerante hipótese, de encenar na cabine um arremedo de votação, fazendo-o de modo nulo ou em branco.

O mesmo, porém, não vale para os maiores de 70 anos, dispensados do dever. A partir dessa idade o sujeito ganha alforria, está livre da multa por descumprimento do dever. É como se a lei lhe dissesse: “A democracia passa muito bem sem seu voto, senhor”. Convenhamos que tal norma é tão idiota quanto a que torna obrigatório o voto do pior dos eleitores, aquele que vota a contragosto, de qualquer jeito, em qualquer sujeito, sem reconhecer a importância do que faz.

A história de sucessivas civilizações contém inúmeros exemplos de valorização da opinião dos idosos. A humanidade entrou pelo século XX incorporando no seio das famílias a tradição do aconselhamento pelos mais velhos, num reconhecimento do valor da experiência e da sabedoria acumulada. Abandonar essa tradição e vencê-la integra a agenda daqueles que querem derrubar, desde seus fundamentos éticos e práticos, a civilização ocidental. Recupere-se, então, uma importante e descuidada noção: o domínio dessas sutilezas que compõem o cotidiano da geração digital, ante as quais tropeçam os dedos e os neurônios dos idosos, está longe de ser sabedoria.

Os conselhos dos anciãos incluem-se entre as primeiras formas de organização espontânea das sociedades primitivas, substituindo a razão do mais forte pela dos mais sábios e experientes. No antigo Egito, os anciãos eram honrados e consultados mesmo após a morte. Eles estão mencionados em livros do Antigo Testamento. Integravam a organização política de Esparta, denominados Gerúsias, e daí advêm os atuais Senados. Também em Roma, nos mosteiros medievais, na Revolução Francesa (após a derrota dos jacobinos) os anciãos cumpriram importante papel. Foi nessa natural tradição que se inspiraram os constituintes da Filadélfia para criar o Senado dos EUA e o Brasil para instituir nosso próprio Senado em 1824. Tudo isso sem esquecer algo pitoresco: foi a associação entre idade e sabedoria que fez valer ao judiciário britânico o uso das perucas brancas, vigentes durante séculos, até 2007.

Diante de tantas e tais evidências, proporcionada no decurso de milênios, o desinteresse pelo voto dos idosos se revela rematada tolice. No último pleito, talvez em função da pandemia, a abstenção em Porto Alegre chegou a um terço dos votantes. A esses eu digo que no domingo passado, valendo-nos do horário prioritário dos idosos, minha mulher e eu tivemos mais facilidade e agilidade para votar do que em qualquer outra ocasião. Saímos convencidos de que se alguém pode ir ao supermercado, certamente estará mais bem resguardado num rápida chegada à sua seção eleitoral no horário apropriado. Aos que estão dispensados da obrigação, lembro:

Vocês são eleitores altamente qualificados por sua experiência, pelo que testemunharam na história vivida, pelo Brasil que conheceram e pelo Brasil que conhecem. Ele precisa de vocês.

PERCIVAL PUGGINA

“QUERIDES ALUNES”

Chamou-me a atenção a notícia de que o Colégio Franco-Brasileiro, tradicional educandário carioca, passava a adotar a linguagem de gênero neutro nas comunicações formais e informais. O motivo desse pega pra capar ideológico é dado pela conjugação do feminismo radical com o movimento LGBTQI et alii na sua guerra contra o macho da espécie.

Em nota pública dirigida à comunidade escolar, o colégio disse:

“Querides alunes. Renovando diariamente nosso compromisso com a promoção do respeito à diversidade e da valorização das diferenças no ambiente escolar, tornamos público o suporte institucional à adoção de estratégias gramaticais de neutralização de gênero em nossos espaços formais e informais de aprendizagem”.

Embora a nota da escola pareça extraída de uma assembleia de militantes, seu inteiro teor informa que ela não “configura a obrigatoriedade da adoção da estratégia” porque “a normatividade linguística de neutralização de gênero (…) ainda evidencia certa restrição a esses usos”. Ou seja, a boa gramática ainda não foi para o lixo seco. Mas também fica claro o objetivo a ser perseguido. Afinal, diz, “a marcação neutra de gênero compareceu a diversas categorias gramaticais no passado de nossa língua” e “o uso da língua reflete as mudanças pelas quais a sociedade passa”. Abusam da História.

Enquanto conto até 10 vou decidindo saltar a fase dos presumíveis adjetivos, inclusive alguns muito corretamente aplicáveis ao caso. Então, vamos aos fatos. Além do Congresso Nacional, quase todas as Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores do país decidiram excluir a ideologia de gênero de seus planos de Educação. À época em que o tema foi objeto de acaloradas discussões, eu afirmei que para os grupos feministas radicais e para os radicais do movimento gay aquela sucessão de democráticas derrotas legislativas estava longe de significar que o assunto se esgotava. Eles manteriam o objetivo que, em última análise, não pode dispensar a sala de aula. Não pode prescindir do domínio das mentes infantis.

É sobre isso que o Colégio Franco-Brasileiro confabula e é para proteger as crianças disso que nos mobilizamos nacional e localmente contra a introdução da ideologia de gênero nas escolas através dos planos de educação. Levar uma criança ou uma escola inteira a falar de modo incompreensível o vasto vocabulário do “dialeto” de gênero, em construção, exige penetrar no que lhe dá causa: o ideológico e perigoso território do gênero. E o que é pior, do gênero que, ou se escolheria nas circunstâncias do cotidiano, como a echarpe de cada noite, ou na construção do coletivo, por reconhecimento da tribo.

O produto colhido por essa perversidade serão homens não masculinos, inadequados às mulheres que continuarem sendo femininas.

PERCIVAL PUGGINA

O FUTURO DA DIREITA

É errado subestimar o estrago produzido no inconsciente coletivo dos brasileiros pelos longos anos em que lhes foram servidas doses diárias de veneração ao Estado como provedor de bem estar material mesmo que ele apenas disponibilize gotas diárias de esperança e placebo. Uma e outra não perdem validade ainda que nossas grandes cidades engrossem seus cinturões de miséria escalando morros e afundando em baixios insalubres.

Ao longo das últimas décadas, a direita foi cooptada pelas duas esquerdas que repartiam entre si, e com ela mesma, o butim chamado Brasil. O trabalho em busca da hegemonia, no entanto, era consignado de modo quase exclusivo à esquerda. Eventos como os Fóruns da Liberdade promovidos pelo IEE circunscreviam-se a Porto Alegre e não se multiplicaram, como deveriam, em centenas de outros, Brasil afora. A formação de opinião é inconstante e dependente de iniciativas desconexas. Eventos conservadores são de inspiração e motivação recente, surgindo como tiros de pistola sinalizadora de afundamento da embarcação. Nacionalmente, partidos identificados com a direita pagavam caro pelos estigmas que insidiam sobre ela, mas se saciavam no centrão.

A vitória de Bolsonaro colocou na cabeça de muita gente que o terreno estava arado e semeado para que conservadores e liberais completassem, nas bases municipais, a transição do poder para outras mãos. Mas não é assim que a política funciona. Mesmo num arremedo de democracia como o nosso, o sucesso eleitoral, o voto na urna, multiplicado e transformado em fonte de poder político, demanda um conjunto indispensável de condições. Entre elas incluem-se lideranças reconhecidas, trabalho consolidado, arregimentação, captação de recursos, marketing político, mensagens sedutoras insistentemente repetidas, formação de dirigentes e de militância, candidatos preparados, conhecimento dos adversários e dos parceiros com suas forças e habilidades. E por aí vai.

Porque as coisas são assim, a decadência do PT não retirou substância da mensagem que logo foi apropriada pelo PSOL, principal beneficiário do petismo desiludido. Esteve visível, durante os últimos anos esse processo crescente de transferência. O Rio Grande do Sul e sua capital, onde vivo e escrevo, é um palco onde esse show tem sido objeto de sucessivas reapresentações.

Eleger alguém pelo voto majoritário pode ter uma infinidade de causas, inclusive muitas meramente circunstanciais. No entanto, a formação de uma consistente representação parlamentar, verdadeira expressão de poder político, jamais será fruto da árvore do acaso. Quando o terreno do plantio está tomado pelo inço da mistificação e da demagogia, pelos chavões e narrativas semeados pelos adversários, o trabalho precisa ser ainda mais intenso.

PERCIVAL PUGGINA

APELO DE BOCA DE URNA

Seria repetitivo introduzir o tema deste artigo mencionando as diferenças entre política municipal, estadual e nacional. A política da “polis” ocorre num espaço de proximidade e conhecimento entre eleitos e eleitores que proporciona decisões de voto com nível superior de informação. Se isso não significar escolhas mais acertadas, não será por culpa do sistema e, sim, por descaso do cidadão em relação às suas responsabilidades cívicas.

Hoje, domingo, estarão abertas as seções de votação em 5570 municípios brasileiros para escolha de prefeitos e vereadores. De cada mil eleitores, 3,6 são candidatos a vereador em seus municípios, totalizando 540 mil aspirantes à vereança municipal. Há 58 mil cadeiras aguardando seus futuros ocupantes. São dados que sinalizam a existência de um numeroso poder local, disperso e subutilizado. Essa força política só será acionada desde fora do âmbito municipal quando vereadores e seus suplentes mais votados forem cortejados pelos pretendentes a mandatos eletivos nas eleições de 2022. Eles são os principais “cabos eleitorais” das eleições estaduais e da eleição presidencial.

Aí está, então, meu assunto para este artigo. Estes dois últimos anos me convenceram de que a aclamada “vitória eleitoral de conservadores e liberais no pleito de 2018” não aconteceu. A esquerda perdeu espaço, sim, mas essa derrota não apresentou qualquer evidência significativa nos parlamentos do país. Cabe então indagar a todos nós, cidadãos com o pé no chão da nossa cidade, o que fizemos até este momento para favorecer a eleição de prefeito e vereadores comprometidos com princípios e valores conservadores e liberais?

Tais valores e princípios não chegarão a Brasília se, antes, não existirem na nossa rua, no nosso bairro, nas nossas Câmaras Municipais.

Nos próximos dois anos, precisaremos ter organizado, em escala nacional, um movimento conservador/liberal, juntos ou independentes, que efetivamente o sejam. Nossa agenda para o horizonte de 2022 deve incluir o expurgo, pelo voto popular, dos aproveitadores do ambiente político de 2018 e sua substituição por políticos preparados para promover as reformas de que a nação está tão carente.

A “grande renovação” ocorrida em 2018 no Congresso Nacional redundou em mais do mesmo. Passados dois anos, nem a prisão após condenação em segunda instância foi aprovada! Nenhum processo de impeachment de ministros do STF tramitou! Nenhum uso abusivo de recursos públicos para partidos políticos foi abolido! Nenhuma privatização teve consistente apoio parlamentar! Foi muito o bem que se deixou de fazer e muito, também, o mal feito.

Por isso, formulo aqui meu apelo de boca de urna. Hoje, 15 de novembro, elejamos conservadores e liberais. Depois, olhos postos na eleição de 2022, mobilizemo-nos de modo permanente com esses agentes políticos. Que a futura eleição nacional reflita, de fato e de direito, os anseios de uma nação que terá aprendido com os próprios erros.

PERCIVAL PUGGINA

GERAÇÃO DOS FONES DE OUVIDO

Um dos fascínios da vida, aqui de onde a vejo aos 75 anos, é a possibilidade de ouvir o que os jovens falam e o que alguns dizem aos jovens. Nessa tarefa instigante de ouvir, comparar e meditar, volta e meia me deparo com a afirmação de que os anos 60 e 70 produziram uma geração de jovens alienados. Milhões de brasileiros teriam sido politicamente castrados em virtude das restrições impostas pelos governos militares que regeram o Brasil naquele período. Opa, senhores! Estão falando da minha geração. Esse período eu vivi e as coisas não se passaram deste modo.

Bem ao contrário. Nós, os jovens daquelas décadas, éramos politizados dos sapatos às cabeleiras. Ou se era comunista ou se lutava contra o comunismo. Os muitos centros de representação de alunos eram disputados palmo a palmo. Alienados, nós? A alienação sequer era tolerada na minha geração! Todo santo ano, o DCE da UFRGS comemorava como data nacional o aniversário da Revolução de Outubro (revolução bolchevique de 1917). Havia passeata por qualquer coisa, em protesto por tudo e por nada, e o desfile dos bixos da universidade era uma passeata com alegorias. Surgiu, inclusive, uma figura estapafúrdia – a greve “de apoio”, a greve “a favor”. É sim senhor. Os estudantes brasileiros dos anos 70 entravam em greve por motivos que iam da Guerra do Vietnã à solidariedade às reivindicações de trabalhadores. Havia movimentos políticos organizados e eles polarizavam as disputas pelo comando da representação estudantil.

O Colégio Júlio de Castilhos, público, onde tive a ventura de estudar durante os três anos finais do ensino médio, foi uma usina onde se forjaram importantes lideranças do Estado. As assembleias estudantis e os concursos de declamação e de retórica preparavam a rapaziada para as artes do debate político. Na universidade, posteriormente, ampliava-se o vigor das atuações. O que hoje seria impensável – uma corrida de jovens às bancas para comprar jornal – era o que acontecia a cada edição de O Pasquim, jornal de oposição ao regime, que passava de mão em mão até ficar imprestável.

Agora, leitor, compare o que descrevi acima com o que observa na atenção dos jovens de hoje às muitas pautas da política. Hum? E olhe que não estou falando de participação. Estou falando apenas de atenção, de tentativa de compreensão. Quase nada! As disputas pelo comando dos diretórios e centros acadêmicos, numa demonstração de absoluto desinteresse, mobilizam parcela ínfima dos alunos. Claro que há exceções nesse cenário de robotização. Mas o contraste que proporcionam permite ver o quanto é extensa a alienação política da nossa juventude num período em que as franquias democráticas estão disponíveis à vitalidade da dimensão cívica dos indivíduos.

Em meio às intoleráveis dificuldades impostas à liberdade de expressão nos anos 60 e 70, a juventude daquela época viveu um engajamento que hoje não se observa em quaisquer faixas etárias. Nada representa melhor a apatia política dominante entre a juventude brasileira do que os fones de ouvido.

PERCIVAL PUGGINA

APELO DE BOCA DE URNA

Seria repetitivo introduzir o tema deste artigo mencionando as diferenças entre política municipal, estadual e nacional. A política da “polis” ocorre num espaço de proximidade e conhecimento entre eleitos e eleitores que proporciona decisões de voto com nível superior de informação. Se isso não significar escolhas mais acertadas, não será por culpa do sistema e, sim, por descaso do cidadão em relação às suas responsabilidades cívicas.

Daqui a três dias estarão abertas as seções de votação em 5570 municípios brasileiros para escolha de prefeitos e vereadores. De cada mil eleitores, 3,6 são candidatos a vereador em seus municípios, totalizando 540 mil aspirantes à vereança municipal. Há 58 mil cadeiras aguardando seus futuros ocupantes. São dados que sinalizam a existência de um numeroso poder local, disperso e subutilizado. Essa força política só será acionada desde fora do âmbito municipal quando vereadores e seus suplentes mais votados forem cortejados pelos pretendentes a mandatos eletivos nas eleições de 2022. Eles são os principais “cabos eleitorais” das eleições estaduais e da eleição presidencial.

Aí está, então, meu assunto para este artigo. Estes dois últimos anos me convenceram de que a aclamada “vitória eleitoral de conservadores e liberais no pleito de 2018” não aconteceu. A esquerda perdeu espaço, sim, mas essa derrota não apresentou qualquer evidência significativa nos parlamentos do país. Cabe então indagar a todos nós, cidadãos com o pé no chão da nossa cidade, o que fizemos até este momento para favorecer a eleição de prefeito e vereadores comprometidos com princípios e valores conservadores e liberais?

Tais valores e princípios não chegarão a Brasília se, antes, não existirem na nossa rua, no nosso bairro, nas nossas Câmaras Municipais.

Nos próximos dois anos, precisaremos ter organizado, em escala nacional, um movimento conservador/liberal, juntos ou independentes, que efetivamente o sejam. Nossa agenda para o horizonte de 2022 deve incluir o expurgo, pelo voto popular, dos aproveitadores do ambiente político de 2018 e sua substituição por políticos preparados para promover as reformas de que a nação está tão carente.

A “grande renovação” ocorrida em 2018 no Congresso Nacional redundou em mais do mesmo. Passados dois anos, nem a prisão após condenação em segunda instância foi aprovada! Nenhum processo de impeachment de ministros do STF tramitou! Nenhum uso abusivo de recursos públicos para partidos políticos foi abolido! Nenhuma privatização teve consistente apoio parlamentar! Foi muito o bem que se deixou de fazer e muito, também, o mal feito.

Por isso, formulo aqui meu apelo de boca de urna. Domingo, 15 de novembro, elejamos conservadores e liberais. Depois, olhos postos na eleição de 2022, mobilizemo-nos de modo permanente com esses agentes políticos. Que a futura eleição nacional reflita, de fato e de direito, os anseios de uma nação que terá aprendido com os próprios erros.

PERCIVAL PUGGINA

NÓS NÃO SOMOS INOCENTES!

Depois do futebol, o segundo maior esporte nacional é colocar a culpa nos outros. O objetivo consiste em transferir para fora a causa de nossos males, como se fosse da água do mar e não dos furos no casco a responsabilidade pelo afundamento do navio. Tudo serve, desde que não se torne necessário um mea culpa.

Para evitá-lo, decidimos que o Brasil é um país rico. Sendo assim, embora o PIB per capita nos situe pouco acima da linha do miserê, o Estado deve gastar como numa eterna terça de carnaval e não houvesse amanhã. Em inusitada e superfaturada declaração de rendimentos, nos proclamamos “ricos”. E estamos tão convictos disso que não hesitamos em crer quando nos dizem que norte-americanos e europeus, ou chineses, ou africanos, parceiros dos nossos adversários políticos, sejam de que banda forem, viveriam séculos de necessidade sem a sistemática exploração do Brasil.

Afinal, convenhamos: só mandamos para Brasília gente da melhor qualidade, admiráveis estadistas, homens sábios, austeros e dedicados exclusivamente ao interesse público, que fugiram do endividamento e combateram ferozmente a corrupção e a impunidade. Não estivemos, durante um quarto de século, sob governos de esquerda, atualizados com o que há de mais moderno em pensamento político?

Pode haver modelo mais bem sucedido do que esse que insistentemente preservamos em todas as constituições republicanas e referendamos em dois plebiscitos? Só alguém muito tolo (como eu mesmo) não notou ainda aquilo que todo cidadão esclarecido percebe: a concepção engenhosa e funcional do nosso sistema, que afasta os demagogos e atrai para a vida pública os maiores talentos que a nação produz. Não é certo que ele gera estabilidade e instituições sólidas? Não produz ele partidos e programas que se sobrepõem aos grupos de interesse? Não é como conseqüência dele que o eleitor brasileiro, lúcido e participativo, comparece periodicamente às seções de votação movido pelos mais nobres ideais, estimulado à fascinante tarefa de escolher os melhores dentre os muito bons?

Por outro lado, dado que a riqueza de uma nação também se apóia em certos requisitos sociais, nosso povo é orientado a apreciar valores morais elevados. A arte, a cultura, a educação, o civismo e a ordem pública têm entre nós a devida reverência, não é mesmo? Admiramos nossos presidentes porque gastam com prudência. Bem sabemos que nossos parcimoniosos legisladores condenam todo privilégio e dedicam pentecostal fidelidade a seus partidos. Orgulhamo-nos de que nossas leis, redigidas com sabedoria, valendo para todos e refletindo a vontade social, valorizam a família, a conduta austera, a iniciativa privada, a propriedade, a ordem, a justiça e a liberdade exercida com responsabilidade. Um novo século de Péricles, 2,5 mil anos depois!

Um país assim só pode ser objeto da mais cobiçosa exploração. Se no que nos concerne como nação, sempre fizemos nossa parte, a máxima culpa dos males brasileiros só pode ser dos outros, não é mesmo?

PERCIVAL PUGGINA

QUANDO A DESGRAÇA VEM EMPACOTADA PARA PRESENTE

Li esta história há muitos anos, não lembro onde. Motociclista e pedestre conversam sobre o preço da flamante Harley Davison que o primeiro acabou de comprar. Diante do valor informado, superior a cem mil reais, o pedestre se exclamou escandalizado: “O senhor tem ideia de quantas pessoas poderiam ser alimentadas com esse dinheiro?”. O motociclista se detém por instantes a pensar e responde. “Não posso precisar um número, mas muita gente se alimentou com o dinheiro que paguei. São mineiros das jazidas de ferro de Carajás e de cobre do Chile; são operários da montadora e de algumas dezenas de fábricas de insumos e componentes; são designers, engenheiros, administradores, publicitários, lojistas, vendedores; são servidores públicos, despachantes, importadores e exportadores. Um bocado de gente!”.

É de dar dó a desigualdade que se estabelece entre quem sai da escola com uma série de chavões malignamente enfiados no seu repertório cerebral e quem sai da escola com competências que lhe permitem vislumbrar além da primeira cerca. Quem está errado não é o aluno. É a Educação, é a escola.

Em muitos auditórios, ao longo da vida, encontrei gente convencida de que os desníveis sociais são produto das injustiças cometidas por quem tem contra quem não tem. E muitas escolas custeadas por famílias que têm estão infiltradas por professores que também têm, mas agem para que seus alunos pensem como o moço da calçada em seu diálogo com o dono da moto. Convencem seus pupilos de que o mundo seria mais justo, ou haveria um número maior de donos de bicicletas se aquela Harley Davidson desaparecesse do conjunto dos bens de consumo.

As vítimas desse acidente cerebral, no passo seguinte – pasmem! – olham para o Estado, justiceiro-padrão dos totalitários, e afirmam: “Justiça será dar uma bicicleta para cada um com o dinheiro daqueles que têm automóvel ou moto”.

A injustiça, porém, não é um subproduto da prosperidade de um ou de muitos, mas é o produto de um Estado que se apropria de quase 40% da renda nacional e vai proporcionar, lá na ponta, a quem mais precisa, a pior educação, um sistema de saúde em que os pacientes morrem na fila de espera de um exame e um saneamento tão precário que produz persistente mortalidade infantil (12,4/1000). Tudo, porém, empacotado para presente em forma do mais degradante paternalismo. E sem nenhuma oportunidade.

A ideia do igualitarismo é resultado da fácil associação entre igualdade e justiça. Da utopia da igualdade vem o corolário segundo o qual o desejo de ser melhor, e até mesmo “o” melhor, se torna uma anomalia. Sobrevém a rejeição a quem se destaca e ao reconhecimento do valor do mérito. Como resultado chega-se a uma “cultura” escolar, na qual se estuda o mínimo e se assiste ao menor número possível de aulas. Logo ali adiante, a competência, a competitividade e a produtividade caem, e a economia padece com a falta de estímulos. Nada que o comunismo não tenha exibido em profusão como insucesso e miséria.

Um país que se abraça nesse pé de tuna está pedindo para sofrer. Nenhuma das ideias que detêm o desenvolvimento social e econômico do país é mais danosa do que assumir o igualitarismo como objetivo nacional. É uma ideia que se espreme entre o marxismo-leninismo e seu genérico mais simpático e ambíguo, o socialismo, que chega voando numa pomba branca com uma rosa vermelha no bico.