NEWTON SILVA - CALAMUS SCRIBAE

UMA MÃE NO QUARTO DE HOSPITAL

Sentada defronte à janela do quarto do hospital, absorta, uma mãe escrevia a esmo. Nem percebia a aragem com cheiro de eucalipto que entrava no quarto da filha doente, que dormia serenamente, depois de muitas noites insones, de febres, vômitos e dores. De faces rosadas, dormia como dormia um anjo dento de uma pintura. A mãe nem percebia que lá fora a tarde era tão bonita, com sombras dadivosas, longas, espalhadas na calçadas.

Um anjo sentava-se toda tarde com ela, descansando as asas enormes na janela. Ele, o anjo, também absorto, lia o que ela escrevia:

A minha doce menina já está bem melhor. Já não lhe doem as juntas dos dedos. também não tem tanta sede. Antes tinha tanta sede que não lhe podiam falar em água. Agora, está bem melhor.

Foi lindo saber como minha menina parou de delirar. Assustava-me quando ela dizia a respeito de seus delírios pequeninos. Sempre associei delírios à ideia da morte. Mas minha menina não pode morrer. Eu sim, posso morrer, mas ela não. Ela não sabe, mas eu troquei a morte dela com Deus. A morte de minha menina agora é minha e eu quero morrer antes dela.

Hoje de manhã, ela me falou com sua voz sumida que me amava como um passarinho. Que bom que Deus não a tirou de mim.

A mãe então guardou o escrito dentro de uma Bíblia e começou a orar. O anjo descansando as asas enormes na janela, trêmulo, chorava. É certo que ninguém sabe, mas as mães têm o poder magnífico de fazer um anjo chorar.

A menina, já acordada, restabelecida, com seus olhinhos pequeninos, olhava a tarde passar pela janela.

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UM DISTINTO SENHOR

No início dos anos oitenta eu trabalhava em um antigo prédio comercial na Rua Guilherme Rocha, próximo a Praça do boticário Ferreira, bem no Centro de Fortaleza.

Embora meu horário de entrada fosse às oito horas, eu chegava lá pontualmente às sete, pois assim dava tempo de tomar um café no Azteca, ponto de encontro obrigatório de jornalistas, publicitários, políticos e madrugadores daqueles tempos.

Na entrada do prédio, sentado junto ao batente, quase que invisível aos transeuntes, trabalhava um distinto senhor, já grisalho, sereno, em uma pequena banca de madeira. Ele vendia cigarros, isqueiros, caixa de fósforos, canetas, ficha de telefone público, guarda-chuvas, baterias para relógios, envelopes e uma variedade enorme de outras coisas.

Esse distinto senhor passaria despercebido não fosse a sua extrema gentileza para com todos os que passavam na calçada e que entravam e saíam do prédio, num vai-e-vem ininterrupto, dia após dia, chovesse ou fizesse sol.

Tratava a todos invariavelmente por “Bom dia, senhores! – Tenham um ótimo dia! – Olá, como vai? Como tem passado? – Boa tarde, senhora, senhorita! – Que belo terno, senhor! Alguma reunião importante? Desejo-lhe sucesso! Olá, jovem! Que chuva, não? Boa noite! Tenha uma ótima noite, senhor! Até amanhã, se Deus quiser! Bom final de semana! Bom descanso, senhora! Até segunda, se Deus permitir!”

Era assim o dia todo, o ano todo. Ouvia-se a sua voz firme cumprimentando incansavelmente a todos e desejando melhoras, sucesso e feliz isso, feliz aquilo, bom dia, boa tarde, boa noite.

Durante todo o tempo em que eu trabalhei naquele prédio, não houve sequer um dia em que eu não o cumprimentasse na entrada do prédio. Não recordo quantas canetas, envelopes e fichas de telefone comprei dele, sempre acompanhado de um “obrigado”, “volte sempre”, “Que Deus o abençoe!”.

Nunca soube o nome dele ou de onde viera. Ninguém nunca soube. Apesar da eloquência diária de seus cumprimentos, era pessoa de poucas palavras e não conversava sobre nada com quem quer que fosse. A única pessoa que ele ainda trocava algumas poucas palavras era uma senhora, também já idosa, que pontualmente às onze horas levava-lhe a marmita com o almoço, coberta por um pano de prato e uma garrafa de água. “Os melhores homens são os de poucas palavras”.

Em 1987 fui trabalhar em outro local e deixei de frequentar aquele prédio por um período de um ano. Os anos passam, as coisas mudam, as fotos desvanecem. Todo dia chega.

No Natal de 1987, a cidade vestida de enfeites, a alegria no ar saltava aos olhos, os sinos anunciavam. Precisei ir até o Centro da Cidade e passei no Azteca para tomar um café com palavras, quando me lembrei também de cumprimentar o distinto e gentil senhor.

Que decepção não encontrá-lo mais lá! No local onde ele ficava tinham colocado um enorme jarro com uma palmeira. Saí em busca de informações sobre ele. Perguntei ao porteiro, ao ascensorista, ao zelador, se o tinham visto, se sabiam dele. Vi com espanto que vagamente se lembravam de que ali tinha um homem distinto que por anos a fio cumprimentava a todos. Mal lembravam! Consegui depois de muito esforço, a informação de que simplesmente ele tinha sumido. Deixou de ir trabalhar, sem mais nem menos! Nunca mais apareceu! Soube ainda, para meu espanto, que a mulher que lhe levava o almoço pontualmente às onze, também o procurou por vários dias. Disseram-me ainda, que dois rapazes também o procuraram, por vários dias, aflitos. Nunca mais o viram.

Sentei-me em um banco na Praça do Ferreira. O céu estava imensamente azul e o azul enchia a tarde toda. Aquele gentil senhor, com certeza, havia sido abduzido por um anjo.

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O PALETÓ MARROM

Foto: TooMuchCoffeeMan

Firmino, o alfaiate, acordou sobressaltado com aquele sonho. Não que tivesse sido um pesadelo, mas um daqueles sonhos repetitivos, sufocantes e intermináveis. Varou toda a noite tendo o mesmo inquietante sonho.

Na manhã seguinte contou para a esposa o que tinha sonhado, enquanto ela lhe preparava o café.

– Essa noite sonhei de novo com uma mulher que chegava e me trazia um pano de cor marrom para que eu fizesse um paletó. Dizia que tinha que ser com urgência e então ia embora. O que será que significa? Já faz um bom tempo que eu tenho a impressão que sonho com isso toda a noite.

A mulher não deu muita importância com aquela história do marido. Falou que devia ser porque ele estava muito atarefado no trabalho. Ele concordou mas não disse para a esposa que o que mais o impressionou no sonho é que a dita mulher chorava muito. O choro dela fora o que mais o tinha impressionado.

Ao cabo de alguns meses, já no final do ano, Firmino, o alfaiate, deixou de sonhar com aquela mulher. Tinha já, na verdade, esquecido. E por ter realmente esquecido daquele estranho sonho, não percebeu quando recebeu uma encomenda de um paletó. Ele como o único e mais requisitado alfaiate da cidade, era comum receber encomendas de paletós e becas, principalmente no final de ano, para as festas de formatura e colação de grau.

Uma mulher viera bem cedo da manhã e deixara um pacote com o tecido para a encomenda. Firmino, o alfaiate, estremeceu ao abrir o embrulho: um tecido marrom acetinado. Junto com o tecido, um bilhete onde vinha escrito: “urgente, urgentíssimo”.

– Só pode ser coincidência! Não é possível! – pensou consigo mesmo.

Quis logo saber quem era a tal mulher que solicitou-lhe a encomenda do paletó. Junto com o bilhete, havia também uma quantia em dinheiro e o endereço de entrega. Pôs então imediatamente a fazer o paletó. Fez da melhor maneira possível, caprichou mais do que nas outras encomendas, usou as melhores linhas, o mais caprichado corte e colocou os melhores botões que pôde encontrar. No final, o seu empenho resultou em excelente trabalho.

Embatucado e amedrontado com aquela estranha coincidência, decidiu ir pessoalmente ao tal endereço. Tinha que saber quem era aquela mulher. Tinha que saber quem estava lhe pregando aquela peça. Na sua conturbada cabeça, dizia-se a si próprio que aquilo não iria ficar por isso mesmo.

Chegou ao endereço que estava escrito no bilhete. Era um palacete desses antigos, numa rua pacata e deserta. O aspecto do casarão demonstrava ser de pessoas de classe alta e abastada. O enorme portão de ferro estava entreaberto. Tocou a campainha e como ninguém atendia, corajosamente curioso, adentrou no bem cuidado jardim do casarão. Andou por alguns metros e quando subia os primeiros degraus que dava para a casa, foi impedido por um balaço que lhe estilhaçou o crânio, sem chance de sequer saber quem seria o seu agressor.

Num instante, o local ficou cheio de curiosos e carros de polícia, com seus monótonos gemidos dos toques das sirenes intermitentes. A única coisa que os jornais disseram é que Firmino, o alfaiate, fora assassinado pelo marido enganado que aquartelado dentro de casa, estava à espera do infeliz amante de sua esposa adúltera, que também fora encontrada morta no interior do palacete. O marido corneado também matou-se com outro certeiro tiro entre os olhos, deixando a terrível história dita pelo não dito, sem outras explicações, refém somente das especulações dos circunstantes.

No velório do desgraçado alfaiate, todos notaram que ele vestia um luxuoso paletó marrom acetinado.

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DONA ZEFINHA E O CÃO

Zé de Zefinha era um cabra feio que só a peste! Era mais feio do que a palavra Teje Preso. O povo dizia que o cabra era tão feio, que quando nasceu, a parteira ia jogando o desgraçado no lixo. Preguiçoso feito o cão, passava o dia entre uma coisa e outra que a mãe mandava fazer e o fundo de uma rede na varanda do quintal, enfiando peido em cordão. Ele não trabalhava, não tinha amigos e de tão feio que era sequer tinha namorada. Pra dona Zefinha, a mãe dele, não. Ele era feio pros outros. Pra ela, podia até ser meio malamanhado, mas era bonito que só.

– Feio é a fome. – dizia ela.

A mãe de Zé, dona Zefinha era dessas mulheres fortes, virada na gota serena, trabalhadeira. Num abria nem prum trem carregado de lenha. Era devota do Padim Ciço e de Nossa Senhora das Cabeças e ainda tinha um pé no terreiro de macumba do Pai Chico de Zeza. Mas gostava mesmo era de um mexerico. Andava sempre desconfiada, agoniada, vendo visagens, resmungava de tudo e de todos e escutava nas paredes as conversas dos vizinhos, corria atrás dos cachorros, espantava as galinhas e as moscas da cozinha.

– Mamãe, se aquiete! – gritava de dentro da rede, o feioso – Deixe de ligar pra vida alheia! Um dia a senhora vai ter um troço! Pare de correr atrás dos cachorros do meio da rua! A senhora acabou de almoçar!

– Num se meta a besta comigo não, seu cabra! Mas num tô dizendo mermo! – respondia afobada.

A velha continuava a sua lida diária, correndo de um lado pro outro, ora gritando com os meninos dos vizinhos, ora espantando as moscas e as galinhas, ora correndo atrás dos cachorros do meio da rua que iam cagar bem na calçada onde ela estendia as roupas pra quarar.

– Esses cachorros são uns cornos iguais aos donos! – gritava a velha agoniada, bramindo um cabo de vassoura atrás dos bichos, esperando que os vizinhos dessem conta, doida pra começar um bate-boca. E era assim, dia após dia.

Não é que um dia a velha teve um troço? Numa dessas desavenças com os vizinhos por causa dos cachorros, começou a se tremer e a babar. Desabou feito um fardo no meio da rua, causando infernal alarido. Ainda teve tempo de gritar pro filho, com a língua trôpega:

– Acode, imprestável! Tô istoporando, fi duma égua!

Correu foi todo mundo pra ver a velha se estrebuchando no meio da rua. Os cachorros latiam, os meninos vaiavam, os vizinhos se apressavam a acudir a afobada dona Zefinha. O filho dela tinha ido buscar umas coisas na feira, a mando dela e só chegou na boca da noite, mais melado do que espinhaço de pão doce, porque além de feio, o infame gostava mesmo era de molhar a goela.

– Corre, Zé! A tua mãe teve um passamento e tá lá toda tesa, arriada na rede! Corre senão tu num pega ela viva! Vai, malamanhado!

– Ôxente! Bem que eu disse pra ela se aquietar! Ai meu Deus! – correu desengonçado, tropeçando nos caçuás, caindo por cima das galinhas, o que resultou no maior alarido do povo do meio da rua, vaiando e fazendo troça com a cena grotesca e cômica.

– Pra que tu bebe, nojento! Acode tua mãe, feladaputa! – gritava um.

– Além de feio é todo malamanhado! – dizia outro.

– Vai, cara de buceta! Papangu! – gritava em coro, os meninos do meio da rua.

Quando Zé entrou no quarto, viu a mãe entrevada na rede e correu esbaforido e trôpego. Tava mais bêbado do que um gambá. Ao lado da rede já estavam o padre e o pai-de-santo, pra encomendar a alma da infeliz.

– Mãezinha! Mãezinha! – choramingou sacudindo a velha. Tacou um beijo na testa da dona Zefinha e ato contínuo, destrambelhado, desabou por cima da rede, arrancando os armadores da parede e jogando a velha com tudo no chão, por cima da penteadeira, voando caco de tudo por todo lado.

– Égua! – gritou o padre – Agora matou de vez!

– Dona Zefinha! – correu o pai-de-santo – Valha meu São Jorge! – Essa já bateu as botas!

Qual o quê! A velha se levantou com as próprias pernas, tateando por cima do filho desacordado. O espanto foi geral, deixando o padre e o pai de santo de joelhos, abraçados! O povo desembestou porta a fora, por cima das cadeiras, atropelando as galinhas, caindo por cima do pote e dos caçuás de banana. A vaia foi geral do povo da rua e os cachorros, parecendo entender a tragicomédia, latiam como loucos.

– Ai meu Deus! Uma assombração! – gritou o padre, choramingando, agarrado nas pernas do pai de santo.

– Baba Egum! – balbuciou o pai de santo de olhos arregalados segurando forte a mão do padre.

Dona Zefinha, ainda amarelada, meio zonza, olhou com reprovação para aquela cena de destruição na sua casa. Olhou pro padre e pro pai de santo, pediu um copo d’água e falou baixo, pro povo da rua não ouvir.

– Eu fui bater no inferno!

– Que é isso, dona Zefinha! Cruz credo! – falou o padre!

– Oxossi te proteja, irmã! – Disse o pai de santo.

– Fui sim, gente, fui no inferno e voltei. Eu vi até o Cão! O capeta me lascou um beijo na testa! Senti o maior bafo de cana! Eu vi até o Cão! Ô bicho feio!

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HISTÓRIAS DO SERTÃO – O VELÓRIO

Dr. Cosme era um homem muito rico, dono de fazendas, criador de cavalo, inimigo dos pobres, humilhador dos negros, mandante de pistoleiro, dado a velhacadas de cigano e alquilador. Podia comprar tudo o que via, mas não pôde comprar a saúde. Era um homem doente, sempre à morte. Não havia dinheiro que chegasse à mão dele que não fosse para comprar remédio ou para pagar a um esculápio, que ele mandava buscar, a peso de ouro, na cidade grande. Até mesmo tinha mandado chamar nigromantes e hierofantes do estrangeiro. Mas qual o quê! Sem sucesso! A doença dele ocupava toda a cidade. O sofrer do infeliz era tão grande que tirava o sono dos bons.

A fortuna dele, diziam, era fruto de uma pauta com o Sapucaio, quando ainda era menino pobre e a doença dele era por causa dessa negociata infernal com o Fute. Mas a verdade é que o amor ao dinheiro é fonte de cobiça e de avareza e adoece aquele que propõe pauta para ser rico. Ou uma coisa ou outra.

Aconteceu então, que um dia, o Dr. Cosme amanheceu foi morto. A riqueza dele não lhe reservou uma velhice tranquila e venturosa, rodeado de filhos e netos, nem lhe salvou da morte solitária. O velho corpo estendido jazia no quarto senhorial, numa casa abastada de tudo o que foi podido comprar. Nem esposa, nem filhos, nem netos. Nada.

Diz-se que durante o velório, chegou um homem muito branco, enlutado, todo encourado como um vaqueiro, com a face mortificada em vida. Sem tirar o chapéu preto, ele rodeou o caixão sete vezes, pois contaram. As velas apagavam quando ele passava perto. E foi-se embora sem falar com ninguém, do jeito como chegara.

Na hora do enterro pensaram que o caixão estava vazio, pois não pesava nadinha. Quem abriu para ver? Não apareceu ninguém. O que se fala mesmo, é que o Pé-de-pato, em pessoa, veio-lhe prestar condolências e o teria levado em corpo e alma.

Depois que ele morreu, diz-se que caiu uma chuva como nunca tinha chovido. Talvez para lavar todas as maledicências que pairavam sobre o lugar.

Eu é que não sei dessas coisas. Assim foi-me dito e eu retruquei.

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OS ZÓI AZUL

Mané Cabôco era preto nagô, neto de quilombolas do Cinzento da Bahia. Homem íntegro, muito trabalhador e temente a Deus. Era casado com a angolana Isidora, mulher muito bonita, faceira, dos olhos de mel, cheia dos balangandãs. Ela vivia sempre na igreja da matriz, ajudando no que fosse preciso. Muito devota de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, só não virou freira mesmo porque se abufelou com o Mané Cabôco numa dessas festas da Padroeira, atrás da igreja. E deu no que deu.

Qualquer um diria que era um casal feliz, até o dia em que nasceu o filho deles.

Quando Mané Cabôco soube que a mulher tinha parido, tava no roçado trinchando a terra para o plantio. Vieram avisar que ela tava com dor de menino, quase já nos finalmentes. Ele soltou as coisas e desatou a correr pra chegar a tempo de ver o filho nascer, pois era bom o marido estar presente nessas horas de dor da esposa.

Chegando a casa, viu um monte de gente estancada na entrada. Quando viram Mané Cabôco chegar esbaforido, seguraram ele antes de entrar. Mas não deixaram ele entrar de jeito maneira! Ele esperneou, quis brigar, mas os amigos levaram ele pra detrás da casa. E o pobre ainda sem entender nada. A todo custo queria ver o filho que acabara de nascer e precisava estar com a mulher naquela hora.

– Antes de mais nada, Mané, fique tronquilo e num se meta a besta, não.

– O que foi que houve, pessoal? O menino nasceu morto? A minha Isidora morreu no parto? – perguntou ele tentando entrar na casa.

– Nada disso, homem! Deus nos livre! Bota essa boca pra lá! – falou um dos amigos mais chegados dele. – Vá conhecer o seu filho, mas num se meta a besta não!

Mané Cabôco emburacou porta a dentro, doido pra ver o recém-nascido, o primeiro de uma penca de filhos, conforme tinha prometido pra Isidora. Quando chegou no quarto, percebeu que a mulher estava com o bruguelo todo enrolado, como se fosse um casulo de borboleta. A parteira fez menção de empurrá-lo pra fora do quarto. Ele que já tava meio desconfiando de que alguma coisa estava errada, tomou a criança das mãos da mulher que desatava no choro.

Muito nervoso, o homem jogou o pacote em cima da cama e o desembrulhou, puxando o cobertor pelas pontas, fazendo a criança rolar por sobre o colchão. Mané Cabôco deu um pulo pra trás, caindo em cima de um tamborete, ainda segurando o cobertor. Aprumou a vista e abriu a janela do quarto, deixando entrar a claridade da manhã. Em cima da cama, o bebê soltou um chorinho e se aquietou. Mané Cabôco se aproximou, pegou a pequena criaturinha com uma das mãos, trazendo-a mais para a luz. Olhou para a esposa encolhida a um canto do quarto.

– Ele é branco, Isidora. O diacho do pestinha num puxou a nós, não. É branco! – pegou a mulher pelo braço delicadamente, como se quisesse que ela também visse o que estava vendo.

– E tem os zói azul! O azul mais bonito como eu nunca tinha visto! Até parece o céu! – declarou ele, felicíssimo, abraçando forte a esposa que atônita, desfazia-se em choro, inconsolável.

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A CIDADE DESERTA

Uma vez voltei ao lugar antigo da minha infância antiga. Era um lugar de céu aberto, ensolarado, de manhãs de azuis intermináveis, onde árvores verdes deitavam suas sombras nas calçadas anchas pela tarde inteira.

Onde outrora era campo aberto, encontrei concreto. Andei à esmo, em busca do passado, para ver se via se ainda os lugares tinham permanecido intactos. Achava que poderia ainda sentir algum aroma antigo, tangerina, abacaxi, bolo de baunilha.

As ruas tinham mudado até de sentido. O que eu pensei que estava ali, estava noutro lado, opostamente colocado contra as lembranças. Não havia mais ninguém. A cidade vazia não me esperava.

Onde está o Zé Maria da banca de revistas? Não soube? Morreu. Infarto fulminante numa bela manhã de sábado.

O Germano, meio índio, que consertava todo tipo de eletrodoméstico sem nunca ter feito sequer um curso, também tinha morrido bem jovem.

Aquele campo enorme, descampado, onde à noite avistávamos as constelações, onde está? Hoje está ocupada por um prédio de apartamentos, mal a encontro.

Aquela nossa professora, quem nem mais o nome lembro? Ainda mora aqui? – Sumiu um dia. Dizem que foi por aí, embarcada numa dramática desilusão amorosa. Enlouqueceu, perdeu o prumo. Nunca mais se soube dela o paradeiro.

Mas o professor Epaminondas, que era militar do Exército, que nos obrigava a cantar o Hino Nacional, ainda mora aqui, não mora? – Que nada! Foi transferido daqui. Mora agora nos confins de algum desses lugares distantes do norte do País.

E o colégio onde estudávamos? Como está agora? – Fechou. Não existe mais.

Então não sobrou ninguém para que possamos conversar, relembrar os tempos de nossa meninice, um lugar onde possamos tomar um café? – Na verdade, não.

Foi então que percebi que eu não pertencia mais àquele lugar. Outras pessoas ocupavam as ruas que eram nossas, as calçadas sombreadas onde brincávamos nas tardes ensolaradas de verão, e as estrelas, ora, as estrelas eram outras. Uma a uma as coisas vão sumindo.

Foi então que eu percebi que eu mesmo me tinha ido embora.

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O VAMPIRO

Cena do filme Nosferatu, eine Symphonie des Grauens de 1922

Naquela manhã fria e chuvosa, um homem velho e esquálido, de tez amarelada que demonstrava claramente a vigência de uma dor que lhe causava grande sofrimento, entrou no bar e pediu uma cerveja. Andava trêmulo e devagar como se contasse os passos. Se alguém o estivesse observando, diria que ele tinha o sinistro aspecto doentio de um strigoi.

Ficou ali por horas, sentado na mesa de frente para a rua. Era certo que sua mente doentia maquinava alguma coisa, quem sabe talvez um crime de morte. A sua tristeza intrínseca estampava-se nos seus olhos azuis avermelhados.

Quem tivesse o dom de ler mentes, certamente iria despencar dentro do poço obscuro de seus pensamentos e saberia que lhe martelava a certeza de que a mulher dele o estava traindo, embora ele não aparentasse que era ele vítima de um abominável adultério. É provável e certo para um homem que não exista dor maior do que essa.

Logo chegou os jornais com a notícia. O bar tornou-se um burburinho só. Debatia-se nas mesas o assunto do dia. Um casal teria sido atacado brutalmente na noite anterior em um quarto de hotel que ficava bem ao lado do bar. Os corpos estavam estrangulados em cima da cama e parecia, segundo a polícia, que teria sido um crime passional, pois conforme havia sido apurado junto ao gerente do hotel, as vítimas se encontravam frequentemente ali, como se fosse às escondidas. Já era sabido que a mulher era casada e estaria tendo um caso extraconjugal com o homem. É possível que o marido traído os tenha seguido e os flagrados em pleno ato libidinoso.

A cena do crime era esta: o casal estava nu em cima da cama. Garrafas de bebidas e duas taças de vinho ainda pela metade em cima do criado-mudo. Não havia sinal de arrombamento, nem sinal de luta, como se o casal tivesse sido surpreendido e não podido sequer ter tido tempo de saber o que os teria atingido. Ambos estavam semi-degolados com as gargantas rasgadas como por garras. O que mais impressionou os paramédicos e os peritos forenses foi a total ausência de sangue nos corpos, como se tivessem sido totalmente sugados por um vampiro.

O velho esquálido de tez amarelada fez sinal ao garçom e pediu mais uma cerveja. O frenesi causado pela notícia do crime do hotel já havia se acalmado e as pessoas já voltavam a outros assuntos. Finalmente o garçom voltou com a cerveja.

– O senhor vai querer comer alguma coisa, senhor? – perguntou o rapaz se dirigindo ao velho querníctero.

– Não obrigado, meu rapaz, estou farto. Esta noite tive um manjar dos deuses e ainda estou satisfeito.

Quem o estivesse observando desde a hora em que ele entrou no bar, teria a nítida impressão de que ele parecia bem mais jovem e saudável do que aparentava ser.

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OS ROCHEDOS DE QUIXADÁ

O anoitecer lá é um grande mistério.

Primeiro o céu todo, no horizonte, fica tingido de matizes multicores: uns azuis amarelados, verdes avermelhados, cúmulos rosáceo-alaranjados, nuvens cinzas transparentes esgarçadas como algodão, coroam os rochedos sombreados que despencam vertiginosamente sobre o vale. As águas do açude, ainda refletindo os últimos raios fugidios de sol, espelham também as enormes sentinelas de pedra centenárias, libertando espectrais gemidos dos mortos, levados pela fria aragem noturna.

Você está em Quixadá.

Quando a noite então ali se instala, o pretume toma conta de tudo, mal dando para enxergar os caminhos pedregosos e tortuosos no meio do matagal. Então carece de se ter cuidado para saber por onde se andar naquele lugar. Naquela extensão a se perder de vista, encontra-se então um deserto medonho, habitado por solenes e gigantescos monólitos, que se elevam do solo, prisioneiros da solidão centenária, erguendo para o céu salpicado de miríades de estrelas, seus longos pescoços fantasmagóricos. E do meio dos temíveis rochedos, ouve-se atemorizado, murmúrios confusos, como se fossem murmurejos saídos das entranhas da terra seca. E os penhascos imponentes e melancólicos, voltam-se uns para os outros, em um abraço descomunal, arquejando na desolação do vale.

Lá quase não chove. Mas quando chove, é possível presenciar sombras fantasmagóricas dos monólitos estilhaçando-se por sobre o deserto tenebroso e belo, relâmpagos colossais iluminando até o fim infernal dos precipícios, trovões descomunais tremem repetidas vezes o assustador bombardeio nas rochas encharcadas pela torrente.

Sabe-se que no meio da noite, avistam-se luzes misteriosas que rondam o cume dos rochedos. Pessoas já foram subtraídas pelas luzes e voltaram mudadas para sempre, enlouquecidas, rejuvenescidas e adoecidas de puro pavor. Por certo, teriam sido levadas até os confins dos abismos do outro mundo e devolvidas não se sabe o porquê.

Sentemo-nos extasiados à sombra dos monólitos. Quem sabe, porém é certo, que um dia não nos veremos mais.

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O VAZIO

Foto: Afogados On-Line

O sol, quando ao meio-dia, causa estranhas vertigens. Vislumbra-se vultos distorcidos embrenhados na caatinga, caminhando entre serrotes de pura pedra, no meio da vegetação seca, árida, de difícil acesso, distritos abandonados, onde mal se vê a presença humana, senão aqui e ali, uma casinha feita de barro, coberta de palha da carnaubeira, distante de praticamente tudo, sem água nem energia elétrica, construídas na solidão do sertão, não se sabe por quem, tendo apenas a imensidão do azul do céu e a caatinga miserável como vizinhança.

Nesses lugares ermos, encontra-se de tudo: pontes sobre rios secos, açudes no chão duro e poeirento, postes plantados no meio do matagal implacável, e o vento em redemunho correndo contra o tempo, construindo colunas de poeira num trabalho extenuante e contínuo, dia após dia.

Nessas condições severas, quem se perder ali, vai observar quando o silêncio invadir a tarde luminosa. Muitas vezes, no meio do nada, vai escutar o quase imperceptível bater de marretas ao longe e de vez em quando o repetir das batidas no meio da mata. Não haverá mais ninguém ali. Mas há a impressão de se ter ouvido alguém cantando uma canção antiga.

Quantos mistérios ocultos na mata poderá haver. Já se ouviu muitas histórias dos vaqueiros que passam por essas estradas desertas. Histórias fantásticas de árvores que escondem botijas, lugares encantados dentro da mata e o medo de um dia os encontrar. Muitos já se perderam na caatinga levados embora pela moça encantada.

À noite as estradas se aquietam. Dormem na sua imensidão, mergulhadas no vazio da noite.

Amanhã é outro vazio.