NEWTON SILVA - CALAMUS SCRIBAE

HISTÓRIAS DO SERTÃO – O VELÓRIO

Dr. Cosme era um homem muito rico, dono de fazendas, criador de cavalo, inimigo dos pobres, humilhador dos negros, mandante de pistoleiro, dado a velhacadas de cigano e alquilador. Podia comprar tudo o que via, mas não pôde comprar a saúde. Era um homem doente, sempre à morte. Não havia dinheiro que chegasse à mão dele que não fosse para comprar remédio ou para pagar a um esculápio, que ele mandava buscar, a peso de ouro, na cidade grande. Até mesmo tinha mandado chamar nigromantes e hierofantes do estrangeiro. Mas qual o quê! Sem sucesso! A doença dele ocupava toda a cidade. O sofrer do infeliz era tão grande que tirava o sono dos bons.

A fortuna dele, diziam, era fruto de uma pauta com o Sapucaio, quando ainda era menino pobre e a doença dele era por causa dessa negociata infernal com o Fute. Mas a verdade é que o amor ao dinheiro é fonte de cobiça e de avareza e adoece aquele que propõe pauta para ser rico. Ou uma coisa ou outra.

Aconteceu então, que um dia, o Dr. Cosme amanheceu foi morto. A riqueza dele não lhe reservou uma velhice tranquila e venturosa, rodeado de filhos e netos, nem lhe salvou da morte solitária. O velho corpo estendido jazia no quarto senhorial, numa casa abastada de tudo o que foi podido comprar. Nem esposa, nem filhos, nem netos. Nada.

Diz-se que durante o velório, chegou um homem muito branco, enlutado, todo encourado como um vaqueiro, com a face mortificada em vida. Sem tirar o chapéu preto, ele rodeou o caixão sete vezes, pois contaram. As velas apagavam quando ele passava perto. E foi-se embora sem falar com ninguém, do jeito como chegara.

Na hora do enterro pensaram que o caixão estava vazio, pois não pesava nadinha. Quem abriu para ver? Não apareceu ninguém. O que se fala mesmo, é que o Pé-de-pato, em pessoa, veio-lhe prestar condolências e o teria levado em corpo e alma.

Depois que ele morreu, diz-se que caiu uma chuva como nunca tinha chovido. Talvez para lavar todas as maledicências que pairavam sobre o lugar.

Eu é que não sei dessas coisas. Assim foi-me dito e eu retruquei.

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OS ZÓI AZUL

Mané Cabôco era preto nagô, neto de quilombolas do Cinzento da Bahia. Homem íntegro, muito trabalhador e temente a Deus. Era casado com a angolana Isidora, mulher muito bonita, faceira, dos olhos de mel, cheia dos balangandãs. Ela vivia sempre na igreja da matriz, ajudando no que fosse preciso. Muito devota de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, só não virou freira mesmo porque se abufelou com o Mané Cabôco numa dessas festas da Padroeira, atrás da igreja. E deu no que deu.

Qualquer um diria que era um casal feliz, até o dia em que nasceu o filho deles.

Quando Mané Cabôco soube que a mulher tinha parido, tava no roçado trinchando a terra para o plantio. Vieram avisar que ela tava com dor de menino, quase já nos finalmentes. Ele soltou as coisas e desatou a correr pra chegar a tempo de ver o filho nascer, pois era bom o marido estar presente nessas horas de dor da esposa.

Chegando a casa, viu um monte de gente estancada na entrada. Quando viram Mané Cabôco chegar esbaforido, seguraram ele antes de entrar. Mas não deixaram ele entrar de jeito maneira! Ele esperneou, quis brigar, mas os amigos levaram ele pra detrás da casa. E o pobre ainda sem entender nada. A todo custo queria ver o filho que acabara de nascer e precisava estar com a mulher naquela hora.

– Antes de mais nada, Mané, fique tronquilo e num se meta a besta, não.

– O que foi que houve, pessoal? O menino nasceu morto? A minha Isidora morreu no parto? – perguntou ele tentando entrar na casa.

– Nada disso, homem! Deus nos livre! Bota essa boca pra lá! – falou um dos amigos mais chegados dele. – Vá conhecer o seu filho, mas num se meta a besta não!

Mané Cabôco emburacou porta a dentro, doido pra ver o recém-nascido, o primeiro de uma penca de filhos, conforme tinha prometido pra Isidora. Quando chegou no quarto, percebeu que a mulher estava com o bruguelo todo enrolado, como se fosse um casulo de borboleta. A parteira fez menção de empurrá-lo pra fora do quarto. Ele que já tava meio desconfiando de que alguma coisa estava errada, tomou a criança das mãos da mulher que desatava no choro.

Muito nervoso, o homem jogou o pacote em cima da cama e o desembrulhou, puxando o cobertor pelas pontas, fazendo a criança rolar por sobre o colchão. Mané Cabôco deu um pulo pra trás, caindo em cima de um tamborete, ainda segurando o cobertor. Aprumou a vista e abriu a janela do quarto, deixando entrar a claridade da manhã. Em cima da cama, o bebê soltou um chorinho e se aquietou. Mané Cabôco se aproximou, pegou a pequena criaturinha com uma das mãos, trazendo-a mais para a luz. Olhou para a esposa encolhida a um canto do quarto.

– Ele é branco, Isidora. O diacho do pestinha num puxou a nós, não. É branco! – pegou a mulher pelo braço delicadamente, como se quisesse que ela também visse o que estava vendo.

– E tem os zói azul! O azul mais bonito como eu nunca tinha visto! Até parece o céu! – declarou ele, felicíssimo, abraçando forte a esposa que atônita, desfazia-se em choro, inconsolável.

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A CIDADE DESERTA

Uma vez voltei ao lugar antigo da minha infância antiga. Era um lugar de céu aberto, ensolarado, de manhãs de azuis intermináveis, onde árvores verdes deitavam suas sombras nas calçadas anchas pela tarde inteira.

Onde outrora era campo aberto, encontrei concreto. Andei à esmo, em busca do passado, para ver se via se ainda os lugares tinham permanecido intactos. Achava que poderia ainda sentir algum aroma antigo, tangerina, abacaxi, bolo de baunilha.

As ruas tinham mudado até de sentido. O que eu pensei que estava ali, estava noutro lado, opostamente colocado contra as lembranças. Não havia mais ninguém. A cidade vazia não me esperava.

Onde está o Zé Maria da banca de revistas? Não soube? Morreu. Infarto fulminante numa bela manhã de sábado.

O Germano, meio índio, que consertava todo tipo de eletrodoméstico sem nunca ter feito sequer um curso, também tinha morrido bem jovem.

Aquele campo enorme, descampado, onde à noite avistávamos as constelações, onde está? Hoje está ocupada por um prédio de apartamentos, mal a encontro.

Aquela nossa professora, quem nem mais o nome lembro? Ainda mora aqui? – Sumiu um dia. Dizem que foi por aí, embarcada numa dramática desilusão amorosa. Enlouqueceu, perdeu o prumo. Nunca mais se soube dela o paradeiro.

Mas o professor Epaminondas, que era militar do Exército, que nos obrigava a cantar o Hino Nacional, ainda mora aqui, não mora? – Que nada! Foi transferido daqui. Mora agora nos confins de algum desses lugares distantes do norte do País.

E o colégio onde estudávamos? Como está agora? – Fechou. Não existe mais.

Então não sobrou ninguém para que possamos conversar, relembrar os tempos de nossa meninice, um lugar onde possamos tomar um café? – Na verdade, não.

Foi então que percebi que eu não pertencia mais àquele lugar. Outras pessoas ocupavam as ruas que eram nossas, as calçadas sombreadas onde brincávamos nas tardes ensolaradas de verão, e as estrelas, ora, as estrelas eram outras. Uma a uma as coisas vão sumindo.

Foi então que eu percebi que eu mesmo me tinha ido embora.

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O VAMPIRO

Cena do filme Nosferatu, eine Symphonie des Grauens de 1922

Naquela manhã fria e chuvosa, um homem velho e esquálido, de tez amarelada que demonstrava claramente a vigência de uma dor que lhe causava grande sofrimento, entrou no bar e pediu uma cerveja. Andava trêmulo e devagar como se contasse os passos. Se alguém o estivesse observando, diria que ele tinha o sinistro aspecto doentio de um strigoi.

Ficou ali por horas, sentado na mesa de frente para a rua. Era certo que sua mente doentia maquinava alguma coisa, quem sabe talvez um crime de morte. A sua tristeza intrínseca estampava-se nos seus olhos azuis avermelhados.

Quem tivesse o dom de ler mentes, certamente iria despencar dentro do poço obscuro de seus pensamentos e saberia que lhe martelava a certeza de que a mulher dele o estava traindo, embora ele não aparentasse que era ele vítima de um abominável adultério. É provável e certo para um homem que não exista dor maior do que essa.

Logo chegou os jornais com a notícia. O bar tornou-se um burburinho só. Debatia-se nas mesas o assunto do dia. Um casal teria sido atacado brutalmente na noite anterior em um quarto de hotel que ficava bem ao lado do bar. Os corpos estavam estrangulados em cima da cama e parecia, segundo a polícia, que teria sido um crime passional, pois conforme havia sido apurado junto ao gerente do hotel, as vítimas se encontravam frequentemente ali, como se fosse às escondidas. Já era sabido que a mulher era casada e estaria tendo um caso extraconjugal com o homem. É possível que o marido traído os tenha seguido e os flagrados em pleno ato libidinoso.

A cena do crime era esta: o casal estava nu em cima da cama. Garrafas de bebidas e duas taças de vinho ainda pela metade em cima do criado-mudo. Não havia sinal de arrombamento, nem sinal de luta, como se o casal tivesse sido surpreendido e não podido sequer ter tido tempo de saber o que os teria atingido. Ambos estavam semi-degolados com as gargantas rasgadas como por garras. O que mais impressionou os paramédicos e os peritos forenses foi a total ausência de sangue nos corpos, como se tivessem sido totalmente sugados por um vampiro.

O velho esquálido de tez amarelada fez sinal ao garçom e pediu mais uma cerveja. O frenesi causado pela notícia do crime do hotel já havia se acalmado e as pessoas já voltavam a outros assuntos. Finalmente o garçom voltou com a cerveja.

– O senhor vai querer comer alguma coisa, senhor? – perguntou o rapaz se dirigindo ao velho querníctero.

– Não obrigado, meu rapaz, estou farto. Esta noite tive um manjar dos deuses e ainda estou satisfeito.

Quem o estivesse observando desde a hora em que ele entrou no bar, teria a nítida impressão de que ele parecia bem mais jovem e saudável do que aparentava ser.

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OS ROCHEDOS DE QUIXADÁ

O anoitecer lá é um grande mistério.

Primeiro o céu todo, no horizonte, fica tingido de matizes multicores: uns azuis amarelados, verdes avermelhados, cúmulos rosáceo-alaranjados, nuvens cinzas transparentes esgarçadas como algodão, coroam os rochedos sombreados que despencam vertiginosamente sobre o vale. As águas do açude, ainda refletindo os últimos raios fugidios de sol, espelham também as enormes sentinelas de pedra centenárias, libertando espectrais gemidos dos mortos, levados pela fria aragem noturna.

Você está em Quixadá.

Quando a noite então ali se instala, o pretume toma conta de tudo, mal dando para enxergar os caminhos pedregosos e tortuosos no meio do matagal. Então carece de se ter cuidado para saber por onde se andar naquele lugar. Naquela extensão a se perder de vista, encontra-se então um deserto medonho, habitado por solenes e gigantescos monólitos, que se elevam do solo, prisioneiros da solidão centenária, erguendo para o céu salpicado de miríades de estrelas, seus longos pescoços fantasmagóricos. E do meio dos temíveis rochedos, ouve-se atemorizado, murmúrios confusos, como se fossem murmurejos saídos das entranhas da terra seca. E os penhascos imponentes e melancólicos, voltam-se uns para os outros, em um abraço descomunal, arquejando na desolação do vale.

Lá quase não chove. Mas quando chove, é possível presenciar sombras fantasmagóricas dos monólitos estilhaçando-se por sobre o deserto tenebroso e belo, relâmpagos colossais iluminando até o fim infernal dos precipícios, trovões descomunais tremem repetidas vezes o assustador bombardeio nas rochas encharcadas pela torrente.

Sabe-se que no meio da noite, avistam-se luzes misteriosas que rondam o cume dos rochedos. Pessoas já foram subtraídas pelas luzes e voltaram mudadas para sempre, enlouquecidas, rejuvenescidas e adoecidas de puro pavor. Por certo, teriam sido levadas até os confins dos abismos do outro mundo e devolvidas não se sabe o porquê.

Sentemo-nos extasiados à sombra dos monólitos. Quem sabe, porém é certo, que um dia não nos veremos mais.

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O VAZIO

Foto: Afogados On-Line

O sol, quando ao meio-dia, causa estranhas vertigens. Vislumbra-se vultos distorcidos embrenhados na caatinga, caminhando entre serrotes de pura pedra, no meio da vegetação seca, árida, de difícil acesso, distritos abandonados, onde mal se vê a presença humana, senão aqui e ali, uma casinha feita de barro, coberta de palha da carnaubeira, distante de praticamente tudo, sem água nem energia elétrica, construídas na solidão do sertão, não se sabe por quem, tendo apenas a imensidão do azul do céu e a caatinga miserável como vizinhança.

Nesses lugares ermos, encontra-se de tudo: pontes sobre rios secos, açudes no chão duro e poeirento, postes plantados no meio do matagal implacável, e o vento em redemunho correndo contra o tempo, construindo colunas de poeira num trabalho extenuante e contínuo, dia após dia.

Nessas condições severas, quem se perder ali, vai observar quando o silêncio invadir a tarde luminosa. Muitas vezes, no meio do nada, vai escutar o quase imperceptível bater de marretas ao longe e de vez em quando o repetir das batidas no meio da mata. Não haverá mais ninguém ali. Mas há a impressão de se ter ouvido alguém cantando uma canção antiga.

Quantos mistérios ocultos na mata poderá haver. Já se ouviu muitas histórias dos vaqueiros que passam por essas estradas desertas. Histórias fantásticas de árvores que escondem botijas, lugares encantados dentro da mata e o medo de um dia os encontrar. Muitos já se perderam na caatinga levados embora pela moça encantada.

À noite as estradas se aquietam. Dormem na sua imensidão, mergulhadas no vazio da noite.

Amanhã é outro vazio.