NEWTON SILVA - CALAMUS SCRIBAE

O PESADELO

Não era de hoje, mas o menino se queixava sempre que tinha pesadelos horríveis.

Contava que tinha um sonho repetitivo, recorrente, atribulado, difícil. Sentia-se quase sempre sufocado e que era puxado e arrastado pelas pernas em direção a uma espécie de banheiro, pois no sonho, dizia, dava para ver os azulejos brancos nas paredes e o odor de desinfetante, aquele cheiro de pinho misturado com o fedor de urina. Aí o pesadelo acabava ali no banheiro, não continuava e o menino não sabia o que acontecia depois que ele era puxado para ali.

No dia seguinte, sabia que o pesadelo se repetiria e que acabaria de novo sendo arrastado para o banheiro. De outras vezes, o sonho recomeçava com uma nova roupagem. Era como se estivesse em uma casa nova, espaçosa e com janelas grandes que davam para um quintal ainda maior, onde se via um milharal. Ele também dizia, o menino, que quase sempre sentia no ar, uma fragrância que quase não podia descrever, como se fosse a mistura de diversos cheiros, como seiva de alfazema e tangerina, ou até mesmo percebeu algumas vezes, um cheiro adocicado, semelhante ao cheiro da fervura de calda de abacaxi.

Chamava a esses odores de “cheiro alienígena”, pois desconfiava que teria sido abduzido por entidades de outro planeta, no dia em que presenciou um objeto metálico no quintal. Mas isso já seria uma outra história.

Nos dias em que sentia no ar esses estranhos e específicos odores, era certo que teria o tal pesadelo do banheiro.

Mas tal sonho não o assustava mais. Pelo contrário, esperava o dia em que o sonho ultrapassasse a cena fatídica do banheiro. Queria a todo custo saber o que iria acontecer logo depois, mas por capricho, o sonho só acabava naquele mesmo ponto. O que viria depois ainda era um mistério e a curiosidade mal o deixava dormir.

Tempos depois, já passando dos cinquenta anos, tinha ainda o pesadelo recorrente e interminável. O sonho às vezes o atormentava durante semanas, mas parecia que não chegaria a nenhum término. Às vezes, o pesadelo era tão real que, no meio da noite, apertava a mão da esposa sonolenta ao seu lado, querendo que ela o socorresse e impedisse que fosse levado para sempre dali. E quase sempre ela o abraçava e o sonho cessava.

Mas amanhã começaria tudo outra vez.

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QUANDO CHOVE NO SERTÃO

Quando chove no sertão, o céu de um azul cintilante se faz duma hora para outra cor de chumbo, com nuvens espessas se avolumando no horizonte, fazendo desaparecer a serra no meio de névoas. A vegetação das caatingas, nessas paragens, outrora raquítica e seca, ostenta agora todo o seu luxo e vigor, flores agrestes rebentam no meio da mata, pequenas árvores copadas se revigoram chamando os bem-te-vis, um escampado de relvas se estende sobre o lajeiro; arbustos de melão-caetano se entrelaçam, subindo fagueiros pelas cercas abandonadas.

Meu avô, seu Alfredo, estupefato diante de tanta beleza e que não via há tempos, suspirou bem fundo para sentir o cheiro da chuva e da terra molhada.

– Vixe, minino! Vem mais água por aí!

Minha avó, dona Rita Júlia, pequenininha, enrolada numa colcha de retalhos, com os olhos translúcidos de chuva, assentia com a cabeça, em seu silêncio peculiar.

A tarde ia já se desfazendo em cores pinceladas nos rochedos ao longe.

O sol esmaecia no horizonte e adormecia sobre as estradas sonolentas, iluminando o dia com os seus últimos raios.

A luz tênue e suave do ocaso, serpenteando pela agora verde vegetação da caatinga, debruça-se como vagas douradas e purpúreas sobre a folhagem das carnaubeiras balançadas pelo vento gélido anunciando a noite.

Os frutinhos silvestres salpicam com suas flores brancas e delicadas; o copo-de-leite já se abre lentamente para beber no seu cálice o orvalho noturno. Uma música de notas suaves saúda o pôr-do-sol que já projeta sombras enormes por sobre o sertão chuvoso.

Era a solene hora do Ângelus, a hora misteriosa do entardecer, em que o sertão se prosterna para sussurrar a prece do sertanejo. Um radinho de pilha ao longe entoava a Ave-Maria de Gounod.

A noite prometia ser chuvosa. Os trovões já ribombavam, riscando o céu já escuro com raios impressionantes, clareando toda a mata. A chuva então se precipitou forte, encharcando o chão seco. A serra ao longe envolta em densa neblina parecia tremer sob o impacto da tempestade.

O inverno chegou.

Obs: A propósito – não sei se alguém percebeu – o entardecer descrito foi intencionalmente adaptado de José de Alencar em A Prece do romance O Guarani: …”Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.

Era Ave-Maria. Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite”!

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AS LUZES DE NATAL

Veja como são bonitos os palácios
E veja como são pobres os campos,
O quanto estão vazios os celeiros dos camponeses
Enquanto os bem-nascidos usam ornamentos
Ocultando armas afiadas.
E, quanto mais eles têm, mais eles tomam,
Como pode haver homens como esses,
Que nunca têm fome, nunca têm sede,
E ainda assim comem e bebem até estourarem!

Verso 53 do Tao Te Ching segundo Witter Bynner

Um homem, na noite de Natal, de tão bêbado que estava, vomitava até não mais ter o que vomitar. Contorcia-se como um porco no matadouro. As faces rosadas de tão gordas, refletiam-se nos enfeites de Natal, nas bolas coloridas, nas estrelas prateadas, douradas, reluzentes. Mesmo assim, depois de ter vomitado tudo o que tinha comido, depois de ter-se esvaziado e exaurido o estômago da comida azeda e gordurosa, voltava ofegante ao banquete, enchendo os olhos da gula, enquanto salivava diante da fartura servida na mesa e a boca cheia de dentes abria-se numa gargalhada insana, rindo do próprio vexame diante dos convivas. Na mesa farta, empanturravam-se homens como ele, senhores do garfo e do copo, no meio de perus fumegantes, garrafas de vinho, facas e garfos, numa roda de escarnecedores.

Ao redor da mesa corriam inocentes crianças com seus brinquedos novos. As mulheres, cativas, serviam aos homens gordos e também se empanzinavam metidas em seus vestidos magros, reluzentes, vestidos de festa, alugados a peso de ouro nas boutiques esnobes.

No canto da sala, esquecido e imóvel, um pinheiro impassível, na verdade um pedaço de árvore morta, simbolizava o desabrochar da morte de Ninrode para uma nova vida, todo coberto de bolas coloridas, quais cabeças decepadas dependuradas e luzinhas intermitentes, completando o quadro dedicado a Saturnália, o ritual de adoração a Ninrode, Tamuz e a Semírames, o sarau dedicado ao Deus-Sol, com o presépio em miniatura, que é nada mais do que um altar dedicado a Baal.

Do lado de fora da festa, uma família pobre, iluminada pelas luzes de Natal, ora azuis, ora vermelhas, ora amarelas, esperava e espreitava, quem sabe por um pouco da ceia para seus filhinhos descalços que corriam em volta da carroça dos catadores de lixo, com seus brinquedinhos de pobres. Vez por outra corriam para catar uma latinha de cerveja jogada no meio da rua pelos homens gordos. Aquilo sim é que era um presente!

As mulheres cativas metidas em seus vestidos de festa reluzentes e impecáveis iam e vinham, atarefadas e sorridentes, servindo aos maridos embriagados, glutões contadores de proezas, exímios falastrões e zombeteiros. Incomodadas com a presença da família de catadores de lixo que avidamente espreitavam pelas sobras do banquete, asseguravam-lhes severamente que no final lhes reservariam um pratinho para cada um deles e que não havia a necessidade de permanecerem ali, pois estavam importunando os convidados. A família pobre assentia quais cães famintos, recuando aos poucos para as sombras, de modo que ficassem invisíveis.

À meia-noite todos se abraçaram fraternalmente, desejando Feliz Natal, a Paz de Cristo, isso e aquilo, numa profusão de risos, beijos e brindes com as taças translúcidas e espumantes. Lá fora a família de pobres, oculta nas sombras da noite, era iluminada pelas luzes de Natal. Seus filhinhos já dormiam enrolados nos papelões e jornais velhos, alheios aos festejos natalinos e aos estampidos dos fogos de artifício intermináveis que ribombavam repetidas vezes, clareando o céu em desenhos magníficos, acordando os passarinhos.

Os pobres pais maravilhados com o espetáculo do nascimento do menino-deus estavam ainda ávidos de fome e esperançosos, aguardavam ainda as sobras do banquete, encolhidos na calçada, invisíveis, entre as caixas de papelão, escondendo-se por causa do cortante frio da noite, iluminados pelas luzes de natal.

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O PRETO QUE QUERIA SER BRANCO

O preto entrou na tenda da cigana. Ele era de raça preta subsaariana, quase azulada, banto de cor e alma. Os olhos sanguíneos, vermelhos, denunciavam-lhe a descendência racial direta dos quilombolas.

Essa cigana era considerada uma mulher de poderes fenomenais e extraordinariamente assustadores dignos de Fausto. Tinham já feitos prodígios demoníacos, sentenças devastadoras, feitiços deslumbrantes. Conhecia o submundo da magia negra e era praticante dos mais recônditos e infernais segredos do Vodu e da Santeria. Diziam até que ela era uma bruxa fugida de Salém. E era bem possível que assim o fosse.

O preto azulado sentou-se resoluto diante da cigana, como o corvo de Poe adentrara em seus umbrais. A escuridão da tenda encobriu o banto, tornando-o ainda mais preto. Ele ansiava mesmo um feitiço poderoso a qualquer custo, desesperadamente. A cigana adivinhou logo o que o banto ansiava, mas perguntou-lhe, só por praxe. Coisa de ciganos e adivinhos. Perguntam, embora já saibam o querem aqueles que os procuram. Perguntam, só por perguntar.

– Quero ser branco. – disse o preto taxativo. Para ele não haveria nem mais nem menos. Tinha que ser branco a qualquer custo. Venderia sua alma ao mais vil dos demônios.

A cigana sorriu. Não era a primeira vez que alguém a procurava para tais fins. Naquela tenda a alma humana não passava de mísera moeda de troca para a satisfação dos mais esdrúxulos desejos. Os demônios escondidos nos cantos exultavam. A cigana segurou com força a mão do banto. Ele fechou os olhos, rangeu os dentes, salivou e com voz rouca, repetiu:

– Quero ser branco!

A cigana sorriu. Sacou de uma faca e fez um pequeno corte em forma de cruz na mão do preto, deixando esvair uma quantidade considerável de sangue em uma tigela. O preto experimentou uma tontura passageira e adormeceu na cadeira. Acordou no dia seguinte disposto. Mais uma vez a cigana lhe sorriu.

– Pode ir. O senhor já está branco.

O banto saiu da tenda. O sol castigou-lhe a pele como se fosse um ferro em brasa. Olhou em volta e percebeu que todos assustados, olhavam para ele. Em vão tentou falar com alguém. Todos fugiam dele. Muitos viravam o rosto com repulsa. Assustado, o banto retornou para a tenda da cigana.

– Pode ir. O senhor já está branco. – repetiu a cigana, agora visivelmente hostil, empurrando-o para fora da tenda. O banto, apavorado, perguntou onde estava. A cigana maternalmente levou-o para fora da tenda.

– O senhor está em Dar es Salaam. Mas tenha cuidado. Aqui na Tanzânia, as pessoas odeiam os albinos.

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O SONETO DO DIABO

A escassez tira o Diabo de sua toca – Provérbio turco

Como se tivesse saído do soneto do padre Antônio Tomás, uma pobre e desgraçada mulher, ficava todos os dias sentada no chão sobre um papelão. Tremendo em ânsias de fadiga, estendia a mão mirrada a quem passasse, rogando que lhe jogassem uma moeda.

Foi outrora uma belíssima mulher, porém muito mimada. Esnobava sua beleza e partia corações, além de propositalmente humilhar os seus inúmeros e sinceros pretendentes, alucinados por avassaladora paixão não correspondida.

O pai dela, homem muito simples e temente a Deus, advertia-lhe de que a beleza é coisa passageira. Que tivesse cuidado, pois a beleza é fogueira das vaidades! Recitava constantemente o Eclesiastes e admoestar-lhe diariamente:

“…Aplica o teu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e descobrirás que também tudo isto é aflição de espírito”.

Ela porém, gargalhava, blasfemando contra o doce das palavras de sabedoria que o seu pai inutilmente lhe oferecia, maldizendo a Deus, maldizendo os feios, maldizendo os pobres! Dizia que queria mesmo era conhecer um homem rico, um príncipe, nem que fosse o próprio diabo, que a enchesse de muito dinheiro, joias e pedras preciosas, que a levasse a restaurantes caros e hotéis de luxo, que a levasse para conhecer o mundo inteiro em viagens intermináveis. Sua alma fútil tinha escassez de tudo. E a escassez tira o Diabo de sua toca.

Conta-se que, de tanto desejar um príncipe, o desejo realizou-se da forma que ela queria.

Conta-se que certo dia, um anjo caído que andava a rodear a terra e a passear por ela, desencaminhando os soberbos e fracos de juízo, apaixonou-se perdidamente por aquela bela senhorita. Então ascendeu do quinto dos infernos para ouvir os desejos dela, transformado em um belo mancebo, muito rico, bonito e elegante, vestido de roupas brancas, sapatos brancos e gravata branca. Tinha os cabelos louros e reluzentes como o ouro. O belo sorriso branco e a pele pálida, deixava saltar-lhe olhos enigmáticos, da cor esverdeada de uma esmeralda. Quem chegou perto dele o bastante, percebeu que, na verdade, ele tinha os olhos amarelados, tal e qual os olhos de um gato, com as pupilas fixas e inquietantes e um olhar de um vazio profundo.

O casamento aconteceu rápido, a despeito da não aprovação pelos pais da bela moça. O tal moço excêntrico, embora perdidamente apaixonado, não quis se casar na igreja, de branco como ela queria, pois professava outra religião. Dizia ele que só dobrava os joelhos para Melek Tauus, o Anjo Pavão e somente rezava ao Sol, e não à cruz.

Mesmo assim, desafiando a autoridade dos seus genitores, o que já era de se esperar, a beldade se casou com o rico homem de branco. A festa foi inesquecível e ocupou toda a cidade. No mesmo dia em que se casaram, sumiram no mundo em lua-de-mel. Nunca mais se ouviu falar deles, a não ser de vez em quando vinham notícias de que estavam a bordo de cruzeiros luxuosos ao redor do mundo. Os pais dela ficaram sós, lamentando a ausência da filha única, que não se dignava ao menos de enviar sequer uma carta qualquer que fosse. E nunca mais voltou à sua terra, nem mesmo quando soube da morte dos pais.

Tempos depois, ela voltou só, maltrapilha, velha e doente. Ninguém mais a reconhecia, o que não era de estranhar, pois dizia-se que já tinham passado mais de cem anos. Ela então nada mais pôde fazer, a não ser cair na mendicância e viver na rua.

Uma vez, ao passar por ela, pus um par de moedas em sua esquelética mão. Ela me olhou e sorriu-me com a boca desdentada e oca. Pronunciou um mantra qualquer ininteligível.

Apesar da idade já avançada e da condição miserável na qual se encontrava, os olhos dela ainda guardavam um resquício de sua beleza de outrora.

Foi quando ela me disse sem que eu perguntasse, que enganou a todos e a si mesma. Mas não enganou o Diabo. Ele lhe deu tudo: riquezas, dinheiro, joias, viagens, prosperidade, poder, fartura, luxúria, desejos infinitos. A única coisa que ele quis dela foi amá-la como um mortal. Mas ela não era mulher de um homem só.

Em sua cegueira causada pela ganância, ela não se deu conta de que até mesmo nos mais sórdidos pactos celebrados com o Demônio, era possível existir um mínimo de ética e de decência.

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NOITE DE HORROR NA RUA DA PALMA

O ano era 1841, dia oito de dezembro, dezenove horas e trinta minutos. A escuridão já tomava o Largo das Trincheiras e a noite escura escondia o terror que se avizinhava para compor a tragédia que não poderia mais ser adiada, pois os braços do mal já se estendiam sobre a Rua da Palma, em Fortaleza.

O Major João Facundo de Castro Menezes acabara de jantar e enquanto bebia uma taça de vinho tinto, ouviu batidas na porta da frente do casarão. Dona Florencia estremeceu. Tinha tido sonhos inquietantes na noite anterior e passou o dia todo com um mau pressentimento. Diz-se também que o próprio Major não conseguiu dormir, agonizando toda a noite com uma dor de cabeça terrível.

As batidas continuaram. Dona Florencia segurou o braço do marido, tentando detê-lo e se adiantou para a janela que dava para a rua escura. Olhou pela janela e parou institivamente. Teve a impressão de ter visto fagulhas no meio do breu da noite, como de arma que negou fogo. O major sorriu. Ele era dado ao trato com armas e sem nenhum medo, debruçou-se na janela para ver quem estava batendo à porta. Antes tivesse ouvido as preocupações de dona Florencia.

Sem nem mesmo ter tido tempo de abotoar a camisa, ainda de peito aberto, ouviu-se um estrondo e o major desabou com estardalhaço, ensanguentando todo o piso de taco, já morto. Recebeu três tiros de bacamarte e de acordo com o laudo de corpo de delito, as balas por pouco não arrancaram a cabeça do infeliz major. Ferida na mão por estilhaços, dona Florencia, enlouquecida, clamava aos Céus por vingança, envenenada pelo ódio e pela dor impronunciável.

O assassinato do Major já era quase que certo. Todos sabiam que ele era jurado de morte. Só não se sabia o dia nem a infeliz hora. O militar era chefe do Partido Liberal e Comandante dos Nobres e tinha inimigos de grande porte e adversários irreconciliáveis, além de muitas divergências políticas. Já tinha sido vítima de dois atentados, escapando ileso. O primeiro, tentaram matá-lo com tiros em uma tocaia na Rua da Ponte. O outro atentado foi na Praça Carolina, esquina das ruas da Boa Vista e da Assembleia Provincial.

Havia rumores de que o mandante de tão cruel assassinato, fora um chefe político do interior, que havia ficado bastante debilitado desde quando tomou a água de uma quartinha na Assembleia Provincial e que, dizem, teria sido envenenada a mando do próprio major. Esse coronel tinha a fama de homem vingativo e cruel, que não levava desaforo para casa. Segundo conta-se, ele era “lobo carniceiro, tramoso e sereno, capaz das maiores perfídias e crueldades sem um franzir de cara, sempre a falar manso e adocicado.” – mas nada ficou provado.

Porém, a esposa do Major, dona Florencia, jurava de joelhos aos pés da imagem de Nossa Senhora do Rosário e até do Santíssimo Sacramento, que quem ordenara a morte de seu amado esposo fora a esposa do então presidente da Província. Mas isso já seria uma outra história que não convém agora se estender.

O sepultamento do Major deu-se de forma incomum: a pedido da chorosa esposa, dona Florencia, mandou-se sepultá-lo de pé, emparedado em uma coluna na Igreja do Rosário, ornada com uma belíssima lápide feita em mármore de Carrara. Diz-se que de tal lápide escorre sangue e que cujas letras lapidadas, vez por outra, contorcem-se de ódio, rancor e dor.

O casarão, depois de tão triste episódio, desfez-se por completo, desabando sobre si mesmo, deixando marcas de choro em suas paredes enegrecidas pelo tempo. Ainda hoje, é impossível passar em frente ao local e não sentir um mal estar repentino ou uma sensação de angustiosa tristeza, um abismo escuro e um vale de lágrimas.

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MISTÉRIOS DO SERTÃO

Quando a gente era menino, andava mato adentro, atrás de aventuras, caçando passarinho, tomando banho no açude, pescando traíras gordas que eram assadas ali mesmo nas pedras do lajeiro, enchendo o bucho de goiabas, mangas, azeitonas, pitombas, siriguelas, macaúbas, coco babão… era uma alegria quando algum de nós encontrava um pé de caju carregado! Naquele tempo tinha-se a impressão de que os dias eram mais longos, as tardes majestosas, verdes, o céu de um azul profundo. O vento rodopiava nas estradas levantando colunas de poeira e folhas secas. Às vezes observávamos um silêncio enorme, como se o tempo parasse literalmente. Ouvíamos apenas um longo assovio dentro dos ouvidos. Os mais velhos diziam que quando alguém estiver no meio do mato e o tempo parar assim, carecia de ter muito cuidado para não ser “encantado” e sumir para sempre.

A gente conhecia muitas histórias de meninos que tinham sumido e que nunca mais apareceram. Meu avô, muito temeroso, apesar de ser um homem valente e corajoso, contava-nos sempre uma história de um vaqueiro que saiu muito cedo de casa para tanger a boiada. Ele costumava levar na garupa o filho dele, que tinha uns dez anos de idade, que era para o menino aprender logo a lidar com o gado. No meio do mato ele sentiu o tempo ficar parado, ouvindo apenas um assovio longo no meio da estrada. O cavalo estancou e o garoto sumiu da garupa como por encanto. Depois disso o menino nunca mais apareceu. O vaqueiro enlouquecido, passou o resto de seus dias a procurar o filho no meio do mato, sem nunca mais o ter encontrado. A gente morria de medo, mas mesmo assim, se entranhava dentro do mato, revigorados pela sede de aventura e à cata de mistérios.

Ouvíamos dizer que, se subíssemos no alto do serra do boqueirão, poderíamos ver o mar. Ora, que aventura melhor do que aquela? Meu avô dizia que era verdade e que uma vez subiu e viu mesmo lá do alto, a linha azul do mar. Mas nos desencorajou.

No meio do mato fechado, antes de chegar ao boqueirão, tinha uma casa antiga onde morava uma velha catimbozeira. O povo dizia que ela era leprosa e por conta dessa doença vivia isolada. Outros dizia que não, que ela não era leprosa, coisa nenhuma. Na verdade era uma feiticeira que roubava crianças nos sítios e arrancava as orelhas, somente as orelhas e fazia com elas um colar. Muitos meninos apareciam sem as orelhas, outros nem apareciam mais, pois a velha gostava de comer os meninos mais gordinhos e rechonchudos. Depois dessas histórias, quem é que tinha vontade de dormir?

Meu avô atiçava a fogueira e contava as mais estranhas histórias que ele sabia e que tinha ouvido alguém contar. O vento frio cortava a pele e uivava na copa das árvores, assoviando no telhado. A lua prateava o sertão e de vez em quando tempo parava. Minha avó se encolhia enrolada em uma manta de crochê e meu avô, iluminado pela fogueira, com brasas dentro dos olhos, começava outra história de arrepiar os cabelos.

Aí a gente ficava com medo de subir a serra e ficava no alpendre até tarde da noite olhando para a serra azulada, lá no fim do horizonte, imaginando que lá de cima, dava pra ver a linha azul do mar.

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TRAGO O SEU AMOR DE VOLTA

A mulher, de uns tempos para cá, passou a frequentar fervorosa e assiduamente, as vigílias na igreja. Quando não era um retiro espiritual que durava a semana inteira, era o Ofício da Imaculada, varando as madrugadas. Noutras vezes, era a novena da Nossa Senhora do Não-Sei-O-Quê, novenas e mais novenas, vigília de oração pelas famílias, etc., etc.

– O padre disse que vamos ficar enclausurados para rezar o terço pela paz mundial. – dizia ela ao marido.

Paz mundial, coisa nenhuma! Foi em um desses retiros madrugadas adentro que ela conheceu um diácono que a seduziu entre terços, vigílias e rezas. Ela estava mesmo era nos braços de um negro banto de olhos melosos, bonito, viril e cheiroso, que a curou de todos os males e a levou consigo encantada, como num conto de Grimm.

A mulher que ele amava, desvencilhou-se dele como fumaça entre os dedos. Deixou todas as dores com ele e foi-se embora com diácono afro.

Ele não dormiu durante um mês inteiro.

A casa estava cheia de fotos, das coisas e do cheiro dela. Desandou e perdeu o prumo. Culpava Deus e a Igreja por tê-la perdido. Andava por aí como um notívago, perambulando maltrapilho pelos bares e noitadas. Tornou-se um ébrio e na bebida tentava esquecer, apedrejado, cruzando ruas e caminhos. Somente nos cabarés do baixo meretrício encontrava abrigo, pois há mais comiseração entre bêbados e prostitutas, do que entre clérigos e sacerdotes.

Foi numa dessas noitadas que, certo dia, viu pregado em um poste, um cartaz que dizia: TRAGO O SEU AMOR DE VOLTA. Relampejou nele, uma réstia de esperança. Enveredou-se então pelas ruas, em busca da cartomante que dizia trazer em três dias, a pessoa amada de volta.

A cartomante olhou para ele e se apiedou.

– Quer que ela volte pela linha branca ou pela linha preta? – perguntou a cartomante embaralhando as cartas. – Pela linha preta é garantido, mas vai lhe custar muito dinheiro. – frisou.

Ele pagou uma quantia considerável e ela fez o que tinha que ser feito e evocou as potestades do ar.

De fato ela voltou, três dias depois. Os olhos chorosos, cabelos desgrenhados, trêmula, mas não suplicando perdão. Ele a aceitou de volta. Recebeu-a efusivamente, encheu a casa de rosas.

A partir daquele dia, a mulher não saia mais de casa. Ele se recompôs e passou a enchê-la jóias, vestidos, perfumes e presentes caros, mas não de carinho e de afeto.

Mas a mulher não era mais a mesma. Não comia, não bebia, não falava, nem sequer dormia. Passava o dia todo apática em um sofá da sala com os olhos perdidos em um ponto qualquer no horizonte.

Mesmo assim, diante daquilo tudo, embriagado pela sua demência, ele estava radiante com a volta da pessoa amada, até que um dia, a situação tomou um rumo inesperado.

Os vizinhos sentiram um odor insuportável vindo do apartamento e acionaram a Polícia. Quando os policiais entraram no local, encontraram a mulher sentada na sala, diante da janela, já em adiantado estado de decomposição, com os olhos vividamente abertos e preservados, fitando serenamente, um ponto qualquer no horizonte.

Imediatamente ele foi detido e acusado de homicídio doloso, ocultação de cadáver e crime de violação de sepultura, embora ele dissesse insistentemente, que só queria o seu amor de volta.

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UMA MÃE NO QUARTO DE HOSPITAL

Sentada defronte à janela do quarto do hospital, absorta, uma mãe escrevia a esmo. Nem percebia a aragem com cheiro de eucalipto que entrava no quarto da filha doente, que dormia serenamente, depois de muitas noites insones, de febres, vômitos e dores. De faces rosadas, dormia como dormia um anjo dento de uma pintura. A mãe nem percebia que lá fora a tarde era tão bonita, com sombras dadivosas, longas, espalhadas na calçadas.

Um anjo sentava-se toda tarde com ela, descansando as asas enormes na janela. Ele, o anjo, também absorto, lia o que ela escrevia:

A minha doce menina já está bem melhor. Já não lhe doem as juntas dos dedos. também não tem tanta sede. Antes tinha tanta sede que não lhe podiam falar em água. Agora, está bem melhor.

Foi lindo saber como minha menina parou de delirar. Assustava-me quando ela dizia a respeito de seus delírios pequeninos. Sempre associei delírios à ideia da morte. Mas minha menina não pode morrer. Eu sim, posso morrer, mas ela não. Ela não sabe, mas eu troquei a morte dela com Deus. A morte de minha menina agora é minha e eu quero morrer antes dela.

Hoje de manhã, ela me falou com sua voz sumida que me amava como um passarinho. Que bom que Deus não a tirou de mim.

A mãe então guardou o escrito dentro de uma Bíblia e começou a orar. O anjo descansando as asas enormes na janela, trêmulo, chorava. É certo que ninguém sabe, mas as mães têm o poder magnífico de fazer um anjo chorar.

A menina, já acordada, restabelecida, com seus olhinhos pequeninos, olhava a tarde passar pela janela.

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UM DISTINTO SENHOR

No início dos anos oitenta eu trabalhava em um antigo prédio comercial na Rua Guilherme Rocha, próximo a Praça do boticário Ferreira, bem no Centro de Fortaleza.

Embora meu horário de entrada fosse às oito horas, eu chegava lá pontualmente às sete, pois assim dava tempo de tomar um café no Azteca, ponto de encontro obrigatório de jornalistas, publicitários, políticos e madrugadores daqueles tempos.

Na entrada do prédio, sentado junto ao batente, quase que invisível aos transeuntes, trabalhava um distinto senhor, já grisalho, sereno, em uma pequena banca de madeira. Ele vendia cigarros, isqueiros, caixa de fósforos, canetas, ficha de telefone público, guarda-chuvas, baterias para relógios, envelopes e uma variedade enorme de outras coisas.

Esse distinto senhor passaria despercebido não fosse a sua extrema gentileza para com todos os que passavam na calçada e que entravam e saíam do prédio, num vai-e-vem ininterrupto, dia após dia, chovesse ou fizesse sol.

Tratava a todos invariavelmente por “Bom dia, senhores! – Tenham um ótimo dia! – Olá, como vai? Como tem passado? – Boa tarde, senhora, senhorita! – Que belo terno, senhor! Alguma reunião importante? Desejo-lhe sucesso! Olá, jovem! Que chuva, não? Boa noite! Tenha uma ótima noite, senhor! Até amanhã, se Deus quiser! Bom final de semana! Bom descanso, senhora! Até segunda, se Deus permitir!”

Era assim o dia todo, o ano todo. Ouvia-se a sua voz firme cumprimentando incansavelmente a todos e desejando melhoras, sucesso e feliz isso, feliz aquilo, bom dia, boa tarde, boa noite.

Durante todo o tempo em que eu trabalhei naquele prédio, não houve sequer um dia em que eu não o cumprimentasse na entrada do prédio. Não recordo quantas canetas, envelopes e fichas de telefone comprei dele, sempre acompanhado de um “obrigado”, “volte sempre”, “Que Deus o abençoe!”.

Nunca soube o nome dele ou de onde viera. Ninguém nunca soube. Apesar da eloquência diária de seus cumprimentos, era pessoa de poucas palavras e não conversava sobre nada com quem quer que fosse. A única pessoa que ele ainda trocava algumas poucas palavras era uma senhora, também já idosa, que pontualmente às onze horas levava-lhe a marmita com o almoço, coberta por um pano de prato e uma garrafa de água. “Os melhores homens são os de poucas palavras”.

Em 1987 fui trabalhar em outro local e deixei de frequentar aquele prédio por um período de um ano. Os anos passam, as coisas mudam, as fotos desvanecem. Todo dia chega.

No Natal de 1987, a cidade vestida de enfeites, a alegria no ar saltava aos olhos, os sinos anunciavam. Precisei ir até o Centro da Cidade e passei no Azteca para tomar um café com palavras, quando me lembrei também de cumprimentar o distinto e gentil senhor.

Que decepção não encontrá-lo mais lá! No local onde ele ficava tinham colocado um enorme jarro com uma palmeira. Saí em busca de informações sobre ele. Perguntei ao porteiro, ao ascensorista, ao zelador, se o tinham visto, se sabiam dele. Vi com espanto que vagamente se lembravam de que ali tinha um homem distinto que por anos a fio cumprimentava a todos. Mal lembravam! Consegui depois de muito esforço, a informação de que simplesmente ele tinha sumido. Deixou de ir trabalhar, sem mais nem menos! Nunca mais apareceu! Soube ainda, para meu espanto, que a mulher que lhe levava o almoço pontualmente às onze, também o procurou por vários dias. Disseram-me ainda, que dois rapazes também o procuraram, por vários dias, aflitos. Nunca mais o viram.

Sentei-me em um banco na Praça do Ferreira. O céu estava imensamente azul e o azul enchia a tarde toda. Aquele gentil senhor, com certeza, havia sido abduzido por um anjo.