MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

EVANGELHO EM CEARENSÊS: JESUS EXPULSA OS VENDILHÕES DO TEMPLO (João 2:13-22)

Trago aos leitores do Jornal da Besta Fubana mais um episódio das interpretações do Edmilson Filho da bíblia em cearensês.

Vamos levando adiante esse projeto, com traduções feitas por mim e Tarcísio Matos.

A repercussão no Instagram tem sido grande. Quem quiser deixar algum comentário lá, é só clicar aqui.

Mas os leitores do JBF recebem o vídeo aqui, de mão beijada.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

FATOS COTIDIANOS EM TEMPOS DE PANDEMIA

Escrevo no dia 28 de março de 2020, dia em que completo 15 dias de isolamento social, em consequência do coronavírus.

Não estou doente. Sequer fiz o exame do COVID-19. Estou isolado, como tantas outras pessoas, seguindo as recomendações da OMS para evitar a propagação do vírus.

Tudo começou no dia 13 de março, uma sexta-feira. Saí do trabalho, fiz algumas compras no supermercado e me recolhi em casa.

No dia seguinte, escrevi no Twitter:

Penso nisso e sinto que o isolamento, por si só, não me causa incômodo. Por um lado, sei ficar só. Por outro, não estou só.

A parte da família que mora na nossa casa está toda aqui.Saudável. A parte que não mora aqui — todos saudáveis também — continua conectada a nós pelos inúmeros canais que os meios de comunicação nos oferecem.

A presença de Natália ao meu lado, por dias seguidos, é um prazer que se renova.

E tem os livros, as músicas, os vídeos, os filmes, o violão, o teclado, as plantas do jardim. Algumas vezes, um simples papel em branco e uma caneta são suficientes para me fazer companhia, embora eu prefira a tela branca do processador de textos do computador. Como agora, fazendo estas anotações.

Continuar exercendo a minha atividade profissional também não tem sido um problema. Tenho a possibilidade de trabalhar de forma remota, usando meu computador pessoal, no sistema que muitos chamam de home office.

Claro que a concentração em casa nem sempre é fácil. Ainda mais nesses tempos em que há sempre uma notícia nova chegando. Elas vêm pela TV, pelo computador, pelo celular… Os grupos de whatsapp não param. Nem sempre a informação recebida merece crédito, mas vamos tentando separar o joio do trigo.

E, assim, seguimos nos adaptando, cumprindo nossas tarefas, sem perda de produtividade significativa.

Complicado tem sido sair para fazer compras.

Antes, porém, de comentar especificamente a aventura que se tornou uma incursão ao supermercado, quero falar de uma medida de controle que tenho adotado, para manter registros que podem ser importantes, caso alguém aqui seja infectado.

É o seguinte: desde aquela sexta-feira treze, quando iniciamos nosso isolamento, tenho procurado manter o registro de cada vez que algum de nós sai de casa.

Também anoto as situações em que pessoas de fora — diarista, entregadores e outros prestadores de serviço — entram em nossa casa.

Isso pode parecer um tanto neurótico (talvez seja mesmo), mas, para mim, tem servido para avaliar os riscos de contaminação para nós e as pessoas com quem temos contato.

Por exemplo, no dia 18 deste mês, fui ao supermercado, em um horário no qual havia muita gente fazendo compras — aí pelas 18:00. Na fila do caixa, seis pessoas estavam à minha frente; umas oito estavam depois de mim. Era um supermercado pequeno, onde as pessoas necessariamente acabavam ficando próximas, então registrei o evento como uma situação de risco.

Mas, já se sabe que a média temporal entre a contaminação e o aparecimento dos sintomas do COVID-19 é de cinco dias, apesar de em alguns casos ir a nove ou dez dias. Daí, como se passaram nove dias, hoje considero baixa a possibilidade de ter me infectado naquela ocasião.

Além disso, há informações de que o vírus pode sobreviver de algumas horas a alguns dias fora do corpo humano, conforme a superfície em que se encontra. Alguns estudos mostram que o máximo seria de 72 horas, em superfícies de plástico ou aço inoxidável.

Ou seja, mesmo que o vírus grude no trinco da porta do meu carro, em algum estacionamento, será baixa a probabilidade de ele se manter vivo, depois de o carro ficar três dias estacionado em minha garagem.

São variáveis como essas que tenho considerado para programar minhas atividades fora de casa.

Não é fácil viver assim.

Até por que uma simples ida ao supermercado, para comprar comida e artigos de limpeza, tornou-se uma verdadeira aventura.

Passo a tratar desse ponto específico, como antes anunciado.

Primeiro, separo a roupa de sair de casa: calça, camisa de manga comprida, botas, boné. A indumentária inclui luvas descartáveis, mas estas somente são vestidas na chegada ao estacionamento do supermercado. Não uso máscara.

Nos bolsos, apenas a carteira de motorista (em invólucro plástico), cartão do banco, chave do carro, controle remoto do portão e uma pequena garrafa de álcool gel. Levo também alguns trocados, em espécie, para eventual necessidade.

Chegando ao supermercado, consulto a lista de produtos que preciso adquirir que trago comigo. Vou direto às prateleiras dos produtos listados; o objetivo é transitar o mínimo possível no local. O ideal seria levar uma lista em papel, para ser descartada por lá mesmo, mas minha lista está gravada no celular.

Vou recolhendo as mercadorias nas prateleiras, evitando os corredores em que haja qualquer aglomeração de pessoas. Mantendo distância das outras pessoas.

Chego à fila do caixa. Há faixas vermelhas pintadas no chão, para indicar a distância que as pessoas devem manter entre si. Algumas pessoas usam máscara, outras usam luvas — como eu —, mas a maioria veste roupas mais conforme com o clima: bermuda, chinelo e camiseta.

Pago as minhas compras e saio rapidamente. A aventura ainda não acabou.

Ao chegar em casa, é preciso lavar parte dos produtos com solução de água sanitária. A outra parte, que não dá para lavar, recebe um “banho” de álcool em gel. O importante é combater os coronavírus que tenham viajado no porta-malas do carro.

A carteira de motorista, a chave do carro e o controle remoto também são tratados com álcool.

Agora, posso entrar em casa. Não sem antes descalçar as botas e deixá-las ali fora mesmo. Finalmente, vou tomar um banho e vestir a roupa de usar em casa.

Depois, recolho do chão do banheiro a roupa que usei na incursão ao supermercado. Preciso estendê-la em lugar arejado na área de serviço. Só poderei usá-la novamente daqui a três dias.

O procedimento termina com a limpeza do chão do banheiro com água sanitária, e a lavagem das mãos. Com sabão.

Ao fim de todo esse processo, estiro-me no sofá. Exausto.

Em parte, o cansaço vem da sequência de movimentos descritos aqui. Pegar os produtos e por no carrinho; tirar do carrinho, por no porta-malas do carro; pegar no porta-malas, lavar tudo, por tudo no armário… Caminho para os 54 anos de idade. Estou relativamente em forma, mas já não sou nenhum garoto.

Mas o mais desgastante nesse processo é certamente a tensão, pela incerteza quanto a ter ou não contraído o vírus ou tê-lo trazido para casa. O receio de infectar Natália, que, apesar de mais jovem, sempre teve a saúde mais frágil que a minha.

É a essa vida que estou tentando me adaptar. E não tem sido fácil.

Sei que há pessoas que enfrentam realidade bem mais dura. Gente que não tem a possibilidade de trabalhar em home office. Que precisa pegar ônibus ou metrô. Que não tem água encanada. Que mora em espaços reduzidos, dividindo pequenos cômodos com outras pessoas. Que já não frequentava supermercados, antes da pandemia, por não ter dinheiro para comprar o que lá é vendido.

Gente que tem dificuldade de locomoção, idade avançada, doenças crônicas. Que precisa que alguém vá fazer suas compras, porque não pode correr o risco de sair à rua. Que vive sozinha, sem ter com quem compartilhar esses dias de isolamento.

Sei disso, mas só posso falar da minha realidade. E esta, mesmo com as facilidades que pude adquirir, ao longo de algumas décadas de trabalho, não tem sido fácil.

Mesmo tendo ao meu lado a mulher que amo, e a possibilidade de me comunicar com as pessoas queridas que estão distantes. Mesmo tendo saúde para fazer minhas próprias compras, calculando o risco de cada movimento. Mesmo tendo sido abençoado com a habilidade de fazer versos, escrever contos, compor canções…

Mesmo assim, a adaptação aos novos tempos não tem sido fácil.

Penso que, depois que tudo isso passar, o mundo estará diferente.

Nós estaremos diferentes.

Espero que valorizando mais certas comodidades que até pouco tínhamos, mas às quais não dávamos a devida importância.

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A VERSÃO DO ESCORPIÃO

Existe uma fábula muito conhecida, sobre um escorpião que pede a um sapo para o ajudar a atravessar um rio. O sapo fica com receio de ser ferroado durante a travessia, mas o escorpião promete não lhe fazer mal. Até porque, se o fizesse, ambos morreriam: o sapo envenenado e o escorpião afogado.

Segundo a fábula, o sapo acaba permitindo que o escorpião viaje nas suas costas. Mas, no decorrer do percurso, o escorpião crava seu ferrão no dorso do sapo.

Sentindo o efeito do veneno, o sapo pergunta a razão pela qual o escorpião havia feito aquilo.

— Ferroar é a minha natureza — teria dito o escorpião. — Por mais que eu queira mudar, não tenho como evitar isso.

Essa história sempre me deixou um tanto intrigado.

Não pelo seu desfecho lamentável, mas porque, se o sapo e o escorpião morreram nas águas do rio, e não há nada a indicar que houvesse alguém lá, para testemunhar a conversa entre o anuro e o aracnídeo, como esses fatos chegaram ao nosso conhecimento? Um mistério.

Muitas vezes refleti sobre isso, sem encontrar solução convincente.

Até que, certa manhã, enquanto recolhia folhas secas no jardim, encontrei um escorpião, e pusemo-nos a conversar. Durante a conversa, essa questão da fábula veio à tona:

— É fake news! — rebateu o escorpião, indignado.

— Como assim? — surpreendi-me. — Essa fábula é muito antiga…

— As fake news também são antigas. Nem sequer foi o escorpião que pediu ajuda ao sapo. O sapo é que ofereceu carona ao escorpião.

Tive vontade de sorrir, mas ele parecia falar sério, então achei melhor prestar atenção no que tinha a dizer. Ele prosseguiu:

— O sapo ofereceu carona. O escorpião relutou, mas acabou aceitando, porque, de fato, o rio estava bem cheio. Subiu nas costas do sapo e os dois iniciaram a travessia. Quando já se aproximavam da outra margem, o sapo começou a ser arrastado pela correnteza, e passou a nadar de um jeito estranho. A todo instante afundava e voltava para a superfície. O escorpião desconfiou que o sapo estava fazendo aquilo de propósito, para o derrubar na água, afogá-lo e depois comê-lo. Foi nessa hora que o escorpião enfiou suas tenazes nas costas do sapo. As tenazes! Para se segurar com mais firmeza. Não o ferrão!

— Mas… e a frase “ferroar é a minha natureza”, que fecha a fábula? Foi tirada de onde?

— A conversa aconteceu, mas a frase foi outra: ao sentir as tenazes do escorpião enfiadas em suas costas, o sapo perguntou: “Você me ferroou?”. E o escorpião respondeu: “Ferroar até me daria mais firmeza. Pare de balançar ou não vou ter como evitar isso”.

— Essa versão da fábula é incrível! Confesso que nunca tinha ouvido falar dela!

— Porque você é um humano. Saiba que, entre nós, os escorpiões, essa história é muito conhecida. Até porque é a única verdadeira.

— Mas, se na sua versão da história, o escorpião não ferroou o sapo, então… eles não morreram?

— Não! Nada disso. O sapo ficou só um pouco ferido pelas tenazes do escorpião. Mas deu sorte. Logo que se afastaram um do outro, uma moça apareceu do nada e deu um beijo no sapo. Houve um tipo de explosão, e ele se transformou em um humano. Alguns meses depois eles se casaram. Quando seus filhos nasceram, ele contava para as crianças essa lenda do escorpião que ferroou covardemente o sapo. Uma mentira deslavada. Mas que foi sendo contada, de geração em geração, e por isso é que vocês, humanos, só conhecem uma versão da história: a versão do sapo.

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O CHEQUE

No período de 2006 a 2009, razões profissionais me levaram a percorrer muitas vezes a BR-304 – que corta o Estado do Rio Grande do Norte, de leste a oeste – viajando de Natal a Mossoró, ou vice-versa.

A certa altura do percurso, havia um restaurante, à beira da estrada, que servia comidas regionais: queijo coalho, macaxeira frita, carne de sol… À medida que se aproximava do local, o viajante ia encontrando pequenas placas, fixadas nas estacas de uma cerca, com os nomes das comidas que compunham o cardápio.

Restaurante de Campo era o nome do estabelecimento. O proprietário chamava-se Seu Alfredo, e tinha, na época, uns 70 anos de idade.

Era conhecido na região pelo temperamento instável e o limitado estoque de paciência. Uma espécie de Seu Lunga potiguar, sempre com uma resposta pronta e ácida para perguntas que considerasse inúteis ou inoportunas.

Bastava que um cliente desavisado pedisse o cardápio, para Seu Alfredo responder com uma pergunta:

– Num viu as placas, não?

– Vi, mas…

– Pois o cardápio é aquele!

– Puxa… não prestei atenção…

– Pois pegue seu carrinho e volte lá pro começo da cerca. O cardápio que tem é aquele.

Claro que ninguém voltava. Alguns clientes acabavam conseguindo lembrar de alguma coisa, enquanto outros simplesmente iam embora. Mas a maioria já pedia o cardápio sabendo que a resposta seria essa. Tudo não passava de provocação.

O tratamento dispensado por Seu Alfredo aos empregados também não era dos melhores.

Lembro de uma vez em que o garçom me serviu um refrigerante, quando eu havia pedido suco de laranja. Seu Alfredo – que costumava transitar por entre as mesas – perguntou-me se estava tudo certo com o meu atendimento:

– Tudo bem, Seu Alfredo. Só o meu suco de laranja que não veio. O rapaz trouxe foi refrig…

Antes que eu terminasse de pronunciar a palavra “refrigerante”, Seu Alfredo lançou um olhar fulminante em direção ao garçom e berrou:

– Francisco! O rapaz tá dizendo aqui que pediu suco de laranja e você trouxe refrigerante! Deixe de ser burro e traga o pedido certo! Aliás, essa parte do “deixe de ser burro” sou eu que tô dizendo! O rapaz pediu só pra trazer o suco dele!

Era assim. E não faltavam fregueses, em geral mais interessados em ver as demonstrações de truculência do Seu Alfredo, que na comida.

Outra característica folclórica do local era um letreiro enorme que havia, logo na entrada do restaurante, avisando que ali não se recebia cheques de determinado banco. O texto era mais ou menos o seguinte: “Recebemos cheques de qualquer banco, menos do banco X”.

Segundo se comentava, certa feita o tal banco havia devolvido um cheque do Seu Alfredo, por engano, embora houvesse saldo na conta. Foi o suficiente para ele não querer mais negócio com a instituição financeira até o fim dos seus dias.

Comentava-se que ele ficava ainda mais irritado que o normal, se ouvisse alguém pronunciar o nome do tal banco dentro do restaurante.

Pois se deu que, certa vez, resolvi testar a paciência do Seu Alfredo.

Fiz o meu pedido ao próprio Seu Alfredo, mas fui logo perguntando quanto daria a conta. Ele não gostava nem um pouco dessa pergunta:

– Rapaz… – disse ele, já demonstrando impaciência – como é que eu sei quanto vai dar a sua conta? Eu não sei nem se você ainda vai pedir mais alguma coisa…

– Eu sei, Seu Alfredo – repliquei. – Mas é que eu tô com pouco dinheiro, e só tenho cheque do banco X…

O homem ficou roxo. Parecia estar sufocando. Os olhos, fixos em mim, demonstravam algo entre a raiva e a perplexidade, como se não acreditasse que alguém havia tido a imprudência de tocar naquele assunto.

Passaram-se alguns segundos até que conseguisse falar novamente, mas a voz saiu com grande esforço. Como se movesse os lábios, mas o maxilar estivesse travado, pressionando os dentes inferiores contra os superiores:

– Faça o seguinte… coma e beba aí o que você quiser… se o seu dinheiro der pra pagar, você paga… se não der, tá tudo certo também, que eu não sou homem de negar um prato de comida a quem tá com fome…

Tive certo remorso por ter provocado Seu Alfredo daquela maneira. Mesmo muito irritado, ele falou demonstrou nobreza de sentimento: não era homem de negar comida a quem não pode pagar.

Recuperando novamente o fôlego, ele retomou o uso da palavra:

– Agora… essa porcaria desse seu cheque… você vá passar ele lá da baixa da égua pra uma banda… que aqui essa desgraça não entra, nem que eu engrene!

E afastou-se de mim, sem mais nada dizer.

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NÃO É MALANDRAGEM

Já se passaram alguns anos desde que compus esse samba. Na época, fiquei receoso que alguém interpretasse mal, ou tomasse as dores de algum político, e acabei enviando ao JBF uma gravação bem amadora, sob pseudônimo.

Acontece que, ano passado, mostrei o samba ao Mariano Júnior, do Hertz Studio, e ele se empolgou todo:

– Grave isso, homem! – disse ele, e já foi sugerindo o arranjo.

Acabou me convencendo, ao falar que poria um trombone de vara na introdução. Se tem um instrumento de sopro que me agrada é o trombone, talvez porque permita solos de notas graves, mas não tão graves como as da tuba. Seria como o violoncelo, entre os instrumentos de corda.

Voltando ao samba, ainda fiquei receoso de eu mesmo interpretar a peça – comentei isso com os amigos que encontrei na casa do Berto, em dezembro do ano passado. Mas acabei gravando minha própria interpretação.

“Só pra testar”, disse eu, na ocasião.

Acontece que, quando o pessoal do back vocal entrou em cena… aí não teve mais jeito! Lamento se alguém não gostar, mas “Não é malandragem” é mais uma de minhas canções que em breve estará em todas as plataformas digitais do planeta (YouTube, Spotify, Itunes, etc).

Para que os leitores que gostam de acompanhar os detalhes, a letra ficou assim:

Você, que, o povo um dia, pelo voto, elegeu,
Mas, que não honrou essa missão que recebeu,
Que depois de eleito, aproveitou a situação
Para roubar a nação!

Não venha dizer que é o doutor da malandragem,
E, por ser malandro, tinha que levar vantagem.
O que você fez foi se sujar na podridão
Da corrupção!

Superfaturamento,
Desvio de verba e cartel
Na licitação.
A prestação do serviço
Que só existe no papel.
Tudo armação!

Lavagem de dinheiro,
Esquema, propina pro fiscal
E a comissão
Vai para a diretoria,
Para fazer a alegria
Do chefão.

(Vou dizer)
Não é malandragem isso aí.
Não é malandragem, não é não.
O que você faz, sei o que é
É corrupção.

Fique você consciente,
Malandro não é um delinquente,
Nem um marginal.
Não tem que roubar ninguém
Pra ser esperto e se dar bem
No final.

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QUARENTA ANOS

Oito de fevereiro de 2020 é um dia importante para mim. Importante chega mesmo a ser uma palavra insuficiente para traduzir o meu sentimento em relação a essa data.

É que no dia 8/2/2020 completo 40 anos de vida profissional.

Sim, ainda criança, ajudei meus pais, em seu pequeno comércio, o que me garantiria mais uns três ou quatro anos nessa contagem. Mas eu mesmo nunca vi minhas tarefas de balconista como trabalho propriamente dito.

Então, a partir daquele dia, 8/2/1980, é que foi trabalho mesmo. Com carteira assinada e contribuição para o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e para a Previdência Social.

Por essa razão, considero o início da minha vida profissional em 8/2/1980.

Naquela data, assumi o cargo de bancário aprendiz, no Banco do Nordeste do Brasil S/A. Uma sociedade de economia mista, que, como tal, tinha — e tem até hoje — o Governo Federal como seu acionista controlador.

Quatorze anos incompletos, era a minha idade. Para ser mais exato, treze anos e seis meses, o que gerou certa dúvida se eu poderia assumir o cargo. Decidiram que sim, e deixei a infância para me tornar bancário.

A família fez festa. Um tio mais bem informado que os outros decretou:

— Tá feito na vida! Bancário de banco federal é o melhor emprego do Brasil!

Ele tinha certa dose de razão. Meu salário seria mais ou menos o mesmo de meu pai (vejam que incrível, antes de fazer 14 anos, eu ganharia quase igual ao meu pai!). Depois de três anos, passaria ao cargo de escriturário, e o salário multiplicar-se-ia por quatro ou cinco vezes.

Um excelente emprego! Pelo menos até o final dos anos 1980.

Em 1990, com a posse de Fernando Collor na Presidência da República, cuja principal promessa de campanha era a “caça aos marajás”, já sabíamos que nosso futuro não era muito promissor. Afinal, éramos nós alguns dos principais “marajás” a serem caçados.

Além disso, a partir dos anos 1990, a profissão de bancário — mesmo de um banco federal — já não tinha o mesmo glamour. A automatização no setor, naquela época, foi massiva. A cada dia, as máquinas substituíam pessoas nas mais variadas tarefas. E com vantagem.

Talvez seja difícil para o leitor acreditar, mas, em 1983, quando passei a trabalhar na agência do Banco do Nordeste em Parnaíba, no Piauí, havia ali apenas dois microcomputadores. Éramos uns 40 funcionários, mas só dois ou três sabiam operar aquelas máquinas misteriosas (em pouco tempo, tornar-me-ia uma daquelas pessoas).

Dez anos depois, a informatização já havia chegado a todos os recantos da atividade bancária. Cada vez mais máquinas, cada vez menos pessoas. Cada vez menos motivos para manter o nível salarial.

Em 1993, os computadores invadiam o último bastião das atividades manuais da empresa: o Departamento Jurídico. Coincidência ou não, naquele ano, enquanto eu cursava os últimos semestres da faculdade de Direito, dava aulas de operação de microcomputadores para turmas de advogados do banco onde trabalhava.

Acabei deixando o banco em janeiro de 1998, quando já havia também me tornado um de seus advogados. Sendo bem preciso, não apenas advogado, mas chefe de uma das duas assessorias que compunham o departamento jurídico.

Quarenta anos! Passou tão rápido, e, no entanto, são inúmeros os momentos a lembrar!

Forçarei um final agora, para não alongar demais este texto. Mas talvez devesse contar toda a história de minha vida profissional algum dia. Talvez em um e-book…

Por ora, apenas registro que, de janeiro de 1998 a fevereiro de 2000, fui Procurador do Banco Central do Brasil; de fevereiro de 2000 a abril de 2001, fui Advogado da União; e, de abril de 2001 até hoje, sou Juiz Federal.

Quarenta anos, portanto, ao todo. Com a satisfação de nunca ter ficado um único dia desempregado. Houve, sim, períodos em que tive dois empregos, quando tive escritório de advocacia e quando lecionei na faculdade de Direito da Universidade de Fortaleza (UNIFOR).

Mas, períodos sem vínculo empregatício, nunca mais os tive. Desde o dia oito de fevereiro de 1980. Quarenta anos!

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AMORES E SEMENTES

Lembro que, quando enviei ao Berto minha poesia “Amores e Sementes”, para postar no Jornal da Besta Fubana, percebi nela certa musicalidade.

Mas, na ocasião, não identifiquei para onde aquele ritmo levaria. Somente meses depois, senti nela um jeito de samba. Um samba suave, sossegado, que desse certo com a letra romântica. Precisava só de um refrão, pra dar mais liga…

Passaram-se mais umas semanas até que o refrão começasse a tocar, dentro da minha cabeça. Um dia tocou! Tocou e eu gostei.

Levei para mostrar ao Mariano Júnior, do Hertz Studios, em Brasília. Ele também gostou, e bolou de imediato um arranjo.

Ficou assim:

AMORES E SEMENTES

Amores mal resolvidos
Nunca morrem totalmente,
Ficam só adormecidos
Dentro da alma da gente.

E o seu sono até parece
Com o sono da semente,
Que, guardada, permanece
Em seu estado latente,

Mas basta lançar na terra
E regar suavemente
Que a longa noite se encerra
E ela acorda novamente.

REFRÃO

E, hoje, te ver
Foi como semear
Pra o nosso amor renascer
Como a semente a acordar.

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TRÊS MICROCONTOS

INCANSÁVEL

No auge da expansão do império, Strenus era o soldado romano mais admirado pelos seus companheiros de batalha.

Não era o mais forte, nem o mais rápido. Mas se dizia que podia lutar por doze horas seguidas, sem dar sinais de cansaço. Depois de cansado, ainda era capaz de lutar por mais doze horas.

* * *

MAU HUMOR

A moça era muito bonita, mas não gostava do próprio sorriso. Sorria diante do espelho e se achava feia.

Por causa disso, praticamente não sorria em público. Se um riso lhe escapava ao controle, escondia o rosto com as mãos.

Alguns comentavam em segredo: “Se não fosse tão mal-humorada, seria linda!”.

* * *

O ‪VENDEDOR DE VERDADE‬S

‪Certa vez, um político foi à loja do vendedor de verdades.‬

– Nenhuma dessas verdades me serve – disse, depois de experimentar várias.

– Posso fazer uma sob medida, mas é mais caro.‬

– Não importa o preço! Meus eleitores têm que continuar acreditando em mim.‬

– Então é uma verdade para seus próprios eleitores?‬

– Sim!

– Fique tranquilo. Sendo a verdade de um político para seus próprios eleitores, tenho vários modelos aqui. É só adaptar.

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UMA HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO, NARRADA EM CORDEL

Algumas coisas realmente não tem preço. Pude constatar isso na tarde de hoje.

No meio do expediente, recebi o link de um vídeo, gravado na sala de aula de uma faculdade. Nele, duas alunas apresentavam um cordel.

Mas, não era qualquer cordel. Era um cordel específico, que falava de uma história real de superação de limitações físicas, da qual eu tinha pleno conhecimento.

Explico.

Em maio deste ano, recebi o e-mail de uma estudante de psicologia, chamada Aleysandra, pedindo minha ajuda para a elaboração de um cordel.

Era um trabalho da faculdade. Aleysandra explicou-me que estava cursando a disciplina “Psicologia e pessoas portadoras de deficiência”, e o trabalho consistia em apresentar a história de vida de uma pessoa portadora de deficiência. Ela já havia levantado todos os dados do caso, inclusive entrevistando a pessoa que se tornaria a personagem principal da história.

Aleysandra falou então que pretendia contar tudo em versos de cordel, mas não tinha o domínio necessário da técnica para tanto.

Foi aí que entrei na história, ajudando Aleysandra a fazer o seu cordel. Corrigi rimas e métricas, sugeri alguns versos, escrevi outros. Dois dias depois do e-mail de Aleysandra, estava pronto o nosso cordel sobre Teliana.

Teliana, esse é o nome da mulher guerreira, que (ainda) não conheço pessoalmente, mas passei admirar, apenas a partir das informações que me foram passadas por Aleysandra.

Hoje, ao receber o link do vídeo de Aleysandra e sua amiga Samara, que foi sua parceira na apresentação do Cordel, meu coração encheu-se alegria.

A história de Teliana agora não é conhecida apenas por parentes e amigos. Ela foi contada para os estudantes da Unichristus, tornando-se fonte de inspiração para muitas outras pessoas, portadoras de deficiência ou não.

E agora está disponível para o mundo.

Poder participar dessa história não tem preço.

Segue o vídeo. Seguem os versos.

* * *

TELIANA – Aleysandra Oliveira e Marcos Mairton

Vou lhes contar a história
De alguém muito especial
Que tinha boa saúde,
Pouco andava em hospital,
Mas, um dia isso mudou,
Por um mal que se instalou
No seu órgão cerebral.

O seu nome é Teliana,
Mulher forte e inteligente.
Que, com esforço, levava
Uma vida independente.
Duramente trabalhando,
E os dois filhos sustentando
Sozinha, praticamente.

Sua vida era tranquila
Até que, num certo dia,
Um problema de saúde
Um doutor descobriria,
E foi como um cataclisma,
Pois um tal de aneurisma
Em seu corpo se escondia.

Por isso, uma cirurgia
Ela teve que fazer,
Pois corria sério risco
De a qualquer hora morrer.
Deu certo a operação,
Mas, na recuperação,
Algo veio a acontecer.

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O CÃO DE GUARDA

Em um tempo distante, que não se sabe precisar quando, em uma vila fictícia de um país imaginário, vivia um homem que frequentemente era vítima de furtos.

Pelo que indicavam as circunstâncias, esses furtos aconteciam à luz do dia, porque o homem morava sozinho, e sua casa era afastada do centro do povoado. Quando ele saía para trabalhar, a residência ficava desguarnecida. Ao retornar, era comum sentir falta de algum de seus pertences.

Tendo esses fatos ocorrido várias vezes, um amigo sugeriu àquele homem que adquirisse um cão de guarda. Assim, enquanto o homem estivesse fora, o cão intimidaria algum larápio que por lá aparecesse.

Havia, porém, um detalhe – e isso o amigo do homem furtado desconhecia – que gerava imensa dificuldade para a implementação daquela providência, aparentemente tão adequada ao caso: é que aquele homem, vítima de tantos furtos, detestava cães.

Durante toda a infância, ele ouvira a mãe dizer que cães, especialmente os de guarda, são animais perigosos, que se voltam contra os próprios donos, quando menos se espera.

– E tem outra coisa, – dizia frequentemente a mãe – basta um vento mais forte derrubar alguma coisa no quintal que o cachorro passa o resto da noite latindo. Aí ninguém dorme mais…

Tendo ouvido tantas vezes a mãe se referir aos cães de maneira depreciativa, o homem adquirira a antipatia materna aos cães, e resistia à ideia de ter em sua casa um habitante canino.

Mas, talvez pelo fato de os furtos continuarem, talvez pela insistência do amigo, com relação ao cão, o homem acabou tomando uma providência: comprou um gato persa, desses de aparência bem mal-humorada; pôs no felino uma coleira, com uma corrente fina, mas bem longa, e o prendeu na varanda, à frente da casa.

Alguns dias depois, o homem chamou o amigo que lhe sugerira o cão, e mostrou a ele o novo habitante da casa:

– Veja você mesmo: agora tenho um cão de guarda!

O amigo achou aquilo muito estranho. Considerou que o homem deveria estar brincando. Mas também admitiu que ele poderia estar enlouquecendo. Chegou a pensar em perguntar se o homem percebia que aquilo era um gato, mas achou a pergunta ridícula. Sem decidir se estava diante de uma piada ou de um caso de loucura, acabou por se limitar a um comentário em forma de pergunta:

– Interessante… Mas… está dando certo? Quer dizer… acabaram-se os furtos?

– Acabar, acabar mesmo… não. Mas… com o tempo o guardião aí vai aprendendo o serviço. Ele é inteligente. Vai aprender. Por enquanto, a grande vantagem dele é que não late à noite.

– Tenho certeza que não late nem de dia — completou o amigo, ainda com dificuldade para acreditar que o homem estava falando sério.

Inventou uma desculpa e foi embora, sem mais nada dizer a respeito do “cão de guarda”.