MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

NÃO É MALANDRAGEM

Já se passaram alguns anos desde que compus esse samba. Na época, fiquei receoso que alguém interpretasse mal, ou tomasse as dores de algum político, e acabei enviando ao JBF uma gravação bem amadora, sob pseudônimo.

Acontece que, ano passado, mostrei o samba ao Mariano Júnior, do Hertz Studio, e ele se empolgou todo:

– Grave isso, homem! – disse ele, e já foi sugerindo o arranjo.

Acabou me convencendo, ao falar que poria um trombone de vara na introdução. Se tem um instrumento de sopro que me agrada é o trombone, talvez porque permita solos de notas graves, mas não tão graves como as da tuba. Seria como o violoncelo, entre os instrumentos de corda.

Voltando ao samba, ainda fiquei receoso de eu mesmo interpretar a peça – comentei isso com os amigos que encontrei na casa do Berto, em dezembro do ano passado. Mas acabei gravando minha própria interpretação.

“Só pra testar”, disse eu, na ocasião.

Acontece que, quando o pessoal do back vocal entrou em cena… aí não teve mais jeito! Lamento se alguém não gostar, mas “Não é malandragem” é mais uma de minhas canções que em breve estará em todas as plataformas digitais do planeta (YouTube, Spotify, Itunes, etc).

Para que os leitores que gostam de acompanhar os detalhes, a letra ficou assim:

Você, que, o povo um dia, pelo voto, elegeu,
Mas, que não honrou essa missão que recebeu,
Que depois de eleito, aproveitou a situação
Para roubar a nação!

Não venha dizer que é o doutor da malandragem,
E, por ser malandro, tinha que levar vantagem.
O que você fez foi se sujar na podridão
Da corrupção!

Superfaturamento,
Desvio de verba e cartel
Na licitação.
A prestação do serviço
Que só existe no papel.
Tudo armação!

Lavagem de dinheiro,
Esquema, propina pro fiscal
E a comissão
Vai para a diretoria,
Para fazer a alegria
Do chefão.

(Vou dizer)
Não é malandragem isso aí.
Não é malandragem, não é não.
O que você faz, sei o que é
É corrupção.

Fique você consciente,
Malandro não é um delinquente,
Nem um marginal.
Não tem que roubar ninguém
Pra ser esperto e se dar bem
No final.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

QUARENTA ANOS

Oito de fevereiro de 2020 é um dia importante para mim. Importante chega mesmo a ser uma palavra insuficiente para traduzir o meu sentimento em relação a essa data.

É que no dia 8/2/2020 completo 40 anos de vida profissional.

Sim, ainda criança, ajudei meus pais, em seu pequeno comércio, o que me garantiria mais uns três ou quatro anos nessa contagem. Mas eu mesmo nunca vi minhas tarefas de balconista como trabalho propriamente dito.

Então, a partir daquele dia, 8/2/1980, é que foi trabalho mesmo. Com carteira assinada e contribuição para o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e para a Previdência Social.

Por essa razão, considero o início da minha vida profissional em 8/2/1980.

Naquela data, assumi o cargo de bancário aprendiz, no Banco do Nordeste do Brasil S/A. Uma sociedade de economia mista, que, como tal, tinha — e tem até hoje — o Governo Federal como seu acionista controlador.

Quatorze anos incompletos, era a minha idade. Para ser mais exato, treze anos e seis meses, o que gerou certa dúvida se eu poderia assumir o cargo. Decidiram que sim, e deixei a infância para me tornar bancário.

A família fez festa. Um tio mais bem informado que os outros decretou:

— Tá feito na vida! Bancário de banco federal é o melhor emprego do Brasil!

Ele tinha certa dose de razão. Meu salário seria mais ou menos o mesmo de meu pai (vejam que incrível, antes de fazer 14 anos, eu ganharia quase igual ao meu pai!). Depois de três anos, passaria ao cargo de escriturário, e o salário multiplicar-se-ia por quatro ou cinco vezes.

Um excelente emprego! Pelo menos até o final dos anos 1980.

Em 1990, com a posse de Fernando Collor na Presidência da República, cuja principal promessa de campanha era a “caça aos marajás”, já sabíamos que nosso futuro não era muito promissor. Afinal, éramos nós alguns dos principais “marajás” a serem caçados.

Além disso, a partir dos anos 1990, a profissão de bancário — mesmo de um banco federal — já não tinha o mesmo glamour. A automatização no setor, naquela época, foi massiva. A cada dia, as máquinas substituíam pessoas nas mais variadas tarefas. E com vantagem.

Talvez seja difícil para o leitor acreditar, mas, em 1983, quando passei a trabalhar na agência do Banco do Nordeste em Parnaíba, no Piauí, havia ali apenas dois microcomputadores. Éramos uns 40 funcionários, mas só dois ou três sabiam operar aquelas máquinas misteriosas (em pouco tempo, tornar-me-ia uma daquelas pessoas).

Dez anos depois, a informatização já havia chegado a todos os recantos da atividade bancária. Cada vez mais máquinas, cada vez menos pessoas. Cada vez menos motivos para manter o nível salarial.

Em 1993, os computadores invadiam o último bastião das atividades manuais da empresa: o Departamento Jurídico. Coincidência ou não, naquele ano, enquanto eu cursava os últimos semestres da faculdade de Direito, dava aulas de operação de microcomputadores para turmas de advogados do banco onde trabalhava.

Acabei deixando o banco em janeiro de 1998, quando já havia também me tornado um de seus advogados. Sendo bem preciso, não apenas advogado, mas chefe de uma das duas assessorias que compunham o departamento jurídico.

Quarenta anos! Passou tão rápido, e, no entanto, são inúmeros os momentos a lembrar!

Forçarei um final agora, para não alongar demais este texto. Mas talvez devesse contar toda a história de minha vida profissional algum dia. Talvez em um e-book…

Por ora, apenas registro que, de janeiro de 1998 a fevereiro de 2000, fui Procurador do Banco Central do Brasil; de fevereiro de 2000 a abril de 2001, fui Advogado da União; e, de abril de 2001 até hoje, sou Juiz Federal.

Quarenta anos, portanto, ao todo. Com a satisfação de nunca ter ficado um único dia desempregado. Houve, sim, períodos em que tive dois empregos, quando tive escritório de advocacia e quando lecionei na faculdade de Direito da Universidade de Fortaleza (UNIFOR).

Mas, períodos sem vínculo empregatício, nunca mais os tive. Desde o dia oito de fevereiro de 1980. Quarenta anos!

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AMORES E SEMENTES

Lembro que, quando enviei ao Berto minha poesia “Amores e Sementes”, para postar no Jornal da Besta Fubana, percebi nela certa musicalidade.

Mas, na ocasião, não identifiquei para onde aquele ritmo levaria. Somente meses depois, senti nela um jeito de samba. Um samba suave, sossegado, que desse certo com a letra romântica. Precisava só de um refrão, pra dar mais liga…

Passaram-se mais umas semanas até que o refrão começasse a tocar, dentro da minha cabeça. Um dia tocou! Tocou e eu gostei.

Levei para mostrar ao Mariano Júnior, do Hertz Studios, em Brasília. Ele também gostou, e bolou de imediato um arranjo.

Ficou assim:

AMORES E SEMENTES

Amores mal resolvidos
Nunca morrem totalmente,
Ficam só adormecidos
Dentro da alma da gente.

E o seu sono até parece
Com o sono da semente,
Que, guardada, permanece
Em seu estado latente,

Mas basta lançar na terra
E regar suavemente
Que a longa noite se encerra
E ela acorda novamente.

REFRÃO

E, hoje, te ver
Foi como semear
Pra o nosso amor renascer
Como a semente a acordar.

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TRÊS MICROCONTOS

INCANSÁVEL

No auge da expansão do império, Strenus era o soldado romano mais admirado pelos seus companheiros de batalha.

Não era o mais forte, nem o mais rápido. Mas se dizia que podia lutar por doze horas seguidas, sem dar sinais de cansaço. Depois de cansado, ainda era capaz de lutar por mais doze horas.

* * *

MAU HUMOR

A moça era muito bonita, mas não gostava do próprio sorriso. Sorria diante do espelho e se achava feia.

Por causa disso, praticamente não sorria em público. Se um riso lhe escapava ao controle, escondia o rosto com as mãos.

Alguns comentavam em segredo: “Se não fosse tão mal-humorada, seria linda!”.

* * *

O ‪VENDEDOR DE VERDADE‬S

‪Certa vez, um político foi à loja do vendedor de verdades.‬

– Nenhuma dessas verdades me serve – disse, depois de experimentar várias.

– Posso fazer uma sob medida, mas é mais caro.‬

– Não importa o preço! Meus eleitores têm que continuar acreditando em mim.‬

– Então é uma verdade para seus próprios eleitores?‬

– Sim!

– Fique tranquilo. Sendo a verdade de um político para seus próprios eleitores, tenho vários modelos aqui. É só adaptar.

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UMA HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO, NARRADA EM CORDEL

Algumas coisas realmente não tem preço. Pude constatar isso na tarde de hoje.

No meio do expediente, recebi o link de um vídeo, gravado na sala de aula de uma faculdade. Nele, duas alunas apresentavam um cordel.

Mas, não era qualquer cordel. Era um cordel específico, que falava de uma história real de superação de limitações físicas, da qual eu tinha pleno conhecimento.

Explico.

Em maio deste ano, recebi o e-mail de uma estudante de psicologia, chamada Aleysandra, pedindo minha ajuda para a elaboração de um cordel.

Era um trabalho da faculdade. Aleysandra explicou-me que estava cursando a disciplina “Psicologia e pessoas portadoras de deficiência”, e o trabalho consistia em apresentar a história de vida de uma pessoa portadora de deficiência. Ela já havia levantado todos os dados do caso, inclusive entrevistando a pessoa que se tornaria a personagem principal da história.

Aleysandra falou então que pretendia contar tudo em versos de cordel, mas não tinha o domínio necessário da técnica para tanto.

Foi aí que entrei na história, ajudando Aleysandra a fazer o seu cordel. Corrigi rimas e métricas, sugeri alguns versos, escrevi outros. Dois dias depois do e-mail de Aleysandra, estava pronto o nosso cordel sobre Teliana.

Teliana, esse é o nome da mulher guerreira, que (ainda) não conheço pessoalmente, mas passei admirar, apenas a partir das informações que me foram passadas por Aleysandra.

Hoje, ao receber o link do vídeo de Aleysandra e sua amiga Samara, que foi sua parceira na apresentação do Cordel, meu coração encheu-se alegria.

A história de Teliana agora não é conhecida apenas por parentes e amigos. Ela foi contada para os estudantes da Unichristus, tornando-se fonte de inspiração para muitas outras pessoas, portadoras de deficiência ou não.

E agora está disponível para o mundo.

Poder participar dessa história não tem preço.

Segue o vídeo. Seguem os versos.

* * *

TELIANA – Aleysandra Oliveira e Marcos Mairton

Vou lhes contar a história
De alguém muito especial
Que tinha boa saúde,
Pouco andava em hospital,
Mas, um dia isso mudou,
Por um mal que se instalou
No seu órgão cerebral.

O seu nome é Teliana,
Mulher forte e inteligente.
Que, com esforço, levava
Uma vida independente.
Duramente trabalhando,
E os dois filhos sustentando
Sozinha, praticamente.

Sua vida era tranquila
Até que, num certo dia,
Um problema de saúde
Um doutor descobriria,
E foi como um cataclisma,
Pois um tal de aneurisma
Em seu corpo se escondia.

Por isso, uma cirurgia
Ela teve que fazer,
Pois corria sério risco
De a qualquer hora morrer.
Deu certo a operação,
Mas, na recuperação,
Algo veio a acontecer.

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O CÃO DE GUARDA

Em um tempo distante, que não se sabe precisar quando, em uma vila fictícia de um país imaginário, vivia um homem que frequentemente era vítima de furtos.

Pelo que indicavam as circunstâncias, esses furtos aconteciam à luz do dia, porque o homem morava sozinho, e sua casa era afastada do centro do povoado. Quando ele saía para trabalhar, a residência ficava desguarnecida. Ao retornar, era comum sentir falta de algum de seus pertences.

Tendo esses fatos ocorrido várias vezes, um amigo sugeriu àquele homem que adquirisse um cão de guarda. Assim, enquanto o homem estivesse fora, o cão intimidaria algum larápio que por lá aparecesse.

Havia, porém, um detalhe – e isso o amigo do homem furtado desconhecia – que gerava imensa dificuldade para a implementação daquela providência, aparentemente tão adequada ao caso: é que aquele homem, vítima de tantos furtos, detestava cães.

Durante toda a infância, ele ouvira a mãe dizer que cães, especialmente os de guarda, são animais perigosos, que se voltam contra os próprios donos, quando menos se espera.

– E tem outra coisa, – dizia frequentemente a mãe – basta um vento mais forte derrubar alguma coisa no quintal que o cachorro passa o resto da noite latindo. Aí ninguém dorme mais…

Tendo ouvido tantas vezes a mãe se referir aos cães de maneira depreciativa, o homem adquirira a antipatia materna aos cães, e resistia à ideia de ter em sua casa um habitante canino.

Mas, talvez pelo fato de os furtos continuarem, talvez pela insistência do amigo, com relação ao cão, o homem acabou tomando uma providência: comprou um gato persa, desses de aparência bem mal-humorada; pôs no felino uma coleira, com uma corrente fina, mas bem longa, e o prendeu na varanda, à frente da casa.

Alguns dias depois, o homem chamou o amigo que lhe sugerira o cão, e mostrou a ele o novo habitante da casa:

– Veja você mesmo: agora tenho um cão de guarda!

O amigo achou aquilo muito estranho. Considerou que o homem deveria estar brincando. Mas também admitiu que ele poderia estar enlouquecendo. Chegou a pensar em perguntar se o homem percebia que aquilo era um gato, mas achou a pergunta ridícula. Sem decidir se estava diante de uma piada ou de um caso de loucura, acabou por se limitar a um comentário em forma de pergunta:

– Interessante… Mas… está dando certo? Quer dizer… acabaram-se os furtos?

– Acabar, acabar mesmo… não. Mas… com o tempo o guardião aí vai aprendendo o serviço. Ele é inteligente. Vai aprender. Por enquanto, a grande vantagem dele é que não late à noite.

– Tenho certeza que não late nem de dia — completou o amigo, ainda com dificuldade para acreditar que o homem estava falando sério.

Inventou uma desculpa e foi embora, sem mais nada dizer a respeito do “cão de guarda”.

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ARARAS

Por razões profissionais, vim morar em Brasília em 2016, logo no começo do ano. Na época, não imaginei que ficaria tanto tempo por aqui, mas o fato é que 2019 está terminando, e, com isso, estou prestes a completar quatro anos na Capital Federal.

Estava pensando nisso esta manhã, enquanto recolhia folhas secas no jardim. É um ritual que tenho repetido quase todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Desde que passei a morar no Lago Norte, há quase um ano, acordo às seis da manhã, recolho folhas secas no jardim, ponho-as em um saco plástico preto e deixo tudo na lixeira da calçada. Por volta das nove da manhã, o caminhão da coleta de resíduos orgânicos passa recolhendo.

Praticamente todas (senão todas) as vezes em que estou me dedicando a essa atividade, ouço gritos de araras; em seguida, vejo-as passar voando.

É um casal de araras-canindé. Da posição em que me encontro, vejo mais facilmente suas barrigas amarelas, mas também consigo perceber o azul da parte externa de suas asas, que eu bem sei que se estende por todo o seu dorso.

Lindos animais! Demonstram certo esforço para voar — diferentemente das andorinhas e tesourinhas, que também costumam aparecer por aqui — certamente pelo seu peso, mas ainda assim são elegantes no voo, com suas caudas longas formando quase uma ponta no final.

Cada vez que elas passam, fico olhando, até que desapareçam por trás das árvores da vizinhança.

Hoje, porém, nesta manhã do dia 25 de outubro de 2019, ao ouvir a “voz” das araras, notei algo diferente. Pareciam em maior algazarra que a de costume. Não havia pausas entre um grito e outro. Ao contrário, chegavam a emitir sons ao mesmo tempo, em coro.

Olhei para o céu, tentando perceber de qual direção elas vinham, e, que surpresa agradável! Nada menos que oito araras-canindé aproximavam-se, voando baixo, emitindo seu som característico, como se quisessem avisar que passavam por ali.

Um verdadeiro espetáculo da natureza! Fiquei acompanhando o seu voo o quanto pude, admirado com a exuberância da sua beleza!

Um pensamento inesperado levou-me da contemplação à reflexão: se hoje, com toda a urbanização que há nesta área, situada na capital do país, ainda é possível ver espetáculos como esse, imagine-se o que encontraram aqui os europeus que chegaram alguns séculos antes!

Quanta fauna e quanta flora! Quanta riqueza de cores e formas, com toda a diversidade que o Brasil nos oferece, desde o litoral até as partes mais internas, como o cerrado e o pantanal!

Como disse Caminha, em sua carta ao rei, “enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá muitos nesta terra”.

Não duvido que muitos daqueles homens tenham acreditado haver encontrado aqui um recanto divino, um lugar de bem aventuranças, talvez o Jardim do Éden.

A frase anterior me lembra que a generosidade da natureza não tem sido suficiente para fazermos do Brasil um lugar onde prevaleça a paz e a harmonia, onde não haja tantas pessoas sujeitas à miséria e à violência.

Neste lugar de natureza paradisíaca, os homicídios de cada ano são contados em dezenas de milhares, o trânsito mata outras tantas pessoas, o dinheiro desviado pela corrupção é calculado em bilhões e o crime organizado atua dentro e fora dos presídios. A própria natureza, cuja generosidade acabei de destacar, é muitas vezes agredida ou explorada de maneira desordenada.

Em um país com tantas riquezas naturais, com água em abundância, com um clima tão favorável, que torna todo o seu imenso território utilizável pelos seres humanos, só consigo concluir que estes últimos são os causadores de seus próprios problemas.

Mas hoje não quero me alongar em reflexões sobre as mazelas do Brasil.

Hoje — pelo menos hoje — escolho ficar com sentimento que me causou a visão aquelas oito araras sobrevoando meu jardim.

Hoje, quero reter na memória a beleza e a alegria daquelas aves majestosas. Sem esperar nada do futuro, nem lamentar nada do passado.

Coincidência ou não, no momento em que me preparo para escrever as últimas linhas desta crônica, ouço novamente os gritos das araras. Dessa vez, não posso vê-las, porque estou dentro de casa, em frente ao computador. Mas sua imagem ainda está fresca em minha mente. Isso basta.

Fecho os olhos e vejo novamente o voo daquele bando de araras.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

UMA CONVERSA SOBRE VIDA E MORTE

Certo dia, dei carona a Shayeubad(*), em uma das muitas vezes em que dirigi meu carro no percurso de cento e poucos quilômetros entre Quixadá e Fortaleza. Depois de alguns quilômetros na estrada, encontramos um jumento que acabara de ser atropelado.

Parei o carro perto do animal e pudemos ver que ele ainda agonizava. Estirado ao chão, já não se debatia, apenas tremia. De vez em quando tinha espasmos. Permaneceu assim por alguns minutos, até que uma lufada de ar lhe saiu pelas narinas, levantando poeira do acostamento. A partir daí, ficou imóvel. Estava morto.

Depois de retomarmos a jornada, Shayeubad abriu o debate sobre o ocorrido:

– Para onde você acha que foi a vida dele?

– Como assim? – perguntei, preparando-me para o que viria a seguir. Shayeubad sempre faz reflexões interessantes sobre situações como aquela.

Ele prosseguiu:

– Antes de aquele animal ser atropelado e morrer, havia algo nele que o fazia se mover, se alimentar, buscar uma parceira para se reproduzir. Ele tinha vida. Mesmo depois de ferido, dava para ver sua luta para continuar vivendo. Mas, isso foi se apagando aos poucos, até o suspiro final. Para onde vai a vida de um animal que morre?

– Sabe, Shay, a impressão que eu tenho é a de que a vida é como o fogo… O fogo é uma combinação de calor, oxigênio e combustível. Se faltar um dos três, o fogo apaga. Penso que… quando um animal morre… a vida dele simplesmente acaba… não vai a lugar nenhum…

Percebendo que eu estava hesitante em minha argumentação, Shayeubad interrompeu o meu discurso, fazendo mais uma pergunta, que já era o começo de sua própria análise para aquela questão:

– E se eu lhe disser que não era aquele animal que tinha vida, mas a vida é que o tinha? Você já imaginou que a vida pode ser algo que fica disperso no universo, e, quando encontra uma estrutura molecular adequada, instala-se ali e faz com que essa estrutura funcione, com as características que identificamos nos seres vivos?

– Como uma espécie de energia, que seria captada pelos corpos dos seres vivos?

– Mais ou menos isso…

– É um ponto de vista interessante. Acho que ainda não havia pensado assim…

– Então, pensemos – prosseguiu Shayeubad. – Pensemos que a vida já vinha rondando a Terra há muito tempo, atuando sobre os elementos, até que algumas moléculas se uniram e formaram um todo em condições de ser animado por ela. Pode ter surgido assim a primeira célula, o primeiro organismo unicelular. Impulsionado pela vida, esse organismo dividiu-se, multiplicou-se, tornou-se mais complexo e passou a se reproduzir. Desse ponto para a multiplicidade das formas e a formação das espécies seria um pulo.

Já não me surpreendo quando Shayeubad, diante de um fato qualquer da vida, começa a refletir sobre a origem do universo ou os grandes desafios da humanidade. Mesmo assim, achei engraçado que a morte de um jumento o levasse a falar daquele jeito. Meio sorrindo, desafiei:

– Boa! Mas dá para avançar um pouco no tempo e chegar à morte do jumento que vimos na estrada?

– Claro! – continuou ele, animado. – Mas é que, para chegar a esse ponto, é preciso considerar que a própria vida, ao animar a matéria, passa a consumir a estrutura material que ocupa. Se quisesse ser dramático eu diria que a vida já traz em si a semente da morte. Pelo fato de estar se desgastando, o organismo animado precisa se alimentar, na tentativa da vida de mantê-lo apto a sustentá-la. Ocorre que a alimentação nunca é suficiente para manter o organismo perpetuamente em condições de acolher a vida. Por isso, ele envelhece e morre. Chegamos, assim, ao jumento, que, antes de sofrer o desgaste natural dos corpos vivos, teve alguma parte essencial a esse funcionamento inviabilizada pelo trauma sofrido. Conclusão: o corpo morre porque já não tem condições de abrigar a vida; assim, ela vai embora.

– Mas, nesse caso… – interrompi. – se um animal morrer asfixiado, por exemplo, não bastaria restituir-lhe o oxigênio, para que a vida voltasse a animá-lo?

– Não! A falta de oxigênio causa a morte dos neurônios. Os danos são irreversíveis. Mesmo assim, considere a possibilidade de a vida só conseguir se instalar em estruturas orgânicas mais simples, como corpos unicelulares. Isso explicaria porque ela se liga a um embrião, mas não a um animal com o corpo já completo.

– Verdade! Pensando assim, os chamados procedimentos de ressuscitação somente fazem sentido enquanto ainda há alguma vida no corpo. Pelo menos, algum resquício.

– Exato! E tem mais. Considere nossa premissa de que o fato de um corpo abrigar a vida faz com ele se desgaste; que, mesmo gerando novas células, a partir da matéria orgânica obtida pela alimentação, esse desgaste leva à destruição desse corpo; essa pode ser a causa para outro fenômeno vital: a reprodução!

– Como assim?

– Acompanhe meu raciocínio: a morte inevitável dos seres vivos acarreta a necessidade de se gerarem outros organismos vivos. É aí que entra a reprodução, sexuada ou não. Ou seja, se a vida está tendo sucesso em se manter em determinado organismo, ela, a vida, fará com que ele se mantenha, como indivíduo, mas também que se multiplique. Assim, à medida que esses organismos vão sendo usados e se esgotando, morrendo, a vida vai se instalando nos novos que vão sendo criados. Cada vez que um corpo está muito danificado, pelo esgotamento ao qual chamamos velhice, por um trauma, ou por uma doença qualquer, a vida o deixa e vai procurar outro. Como ela prefere, ou precisa, se instalar em um corpo simples, a vida faz com que os corpos usem suas células para criar embriões, ou sementes, no caso dos vegetais.

– Isso dá uma teoria realmente interessante – reconheci. – Mas, considerando que os micro-organismos que causam as doenças são também seres vivos, não estaria havendo um confronto da vida contra a vida?

– Veja bem: apesar de a vida ser um todo único, cada organismo funciona como uma unidade independente. Logo, confrontos entre esses corpos fazem parte da lógica do sistema, porque a vida contida em um ser vivo faz com que ele busque nutrientes em outro ser vivo. Para a vida, não há muita diferença entre um mosquito se alimentar do seu sangue ou um leão comer a sua carne. Ela fará com que tanto o mosquito quanto o leão busquem em outro ser vivo a matéria da qual precisam, para manter seus corpos funcionando, ou seja, podendo abrigar a vida, além de gerar outros corpos com essa possibilidade.

– Bom, pra mim faz muita diferença ser comido mosquito ou por um leão!
Rimos um pouco do que eu acabava de dizer. Depois, fui eu quem retomou a conversa:

– Mas, voltando ao jumento que estava morrendo na estrada, quer dizer então que não era o animal que lutava para se manter vivo, mas era a vida que tentava manter aquele corpo funcionando, para continuar instalada nele?…

– Exatamente! Ela faz isso até com um homem que tente prender a respiração para morrer asfixiado. Antes que o homem morra, a vida o obrigará a respirar. Você já ouviu falar de alguém que tenha cometido suicídio apertando o próprio pescoço com as mãos? Não. Mesmo em uma pessoa que dispara um tiro contra o próprio coração, a vida continuará fazendo aquele corpo lutar para se manter vivo. Porque mesmo corpos complexos como os nossos estão submetidos aos desígnios da vida. E a finalidade da vida é viver.

Tive que concordar com ele que todas as formas de eliminação da vida das quais já ouvira falar voltam-se contra o corpo, nunca contra a energia vital que o anima. Cogitamos de casos graves de depressão, quando a pessoa perde totalmente a vontade de viver, mas concordamos que, somente depois que o corpo se debilita e órgãos importantes param de funcionar, a vida o deixa.

A essa altura, já havíamos entrado em Fortaleza. Shayeubad avisou-me que desembarcaria em um shopping center, em frente ao qual passaríamos dali a alguns minutos. Antes de nos despedirmos, ainda intrigado com toda aquela conversa, levantei uma última questão:

– Shay… Você sempre me pareceu ser espiritualista. Essa teoria da vida, como algo disperso no universo, e que se apropria dos corpos, não seria um tanto materialista?

– Quem tem tendência para o materialismo sempre encontrará razões para ser materialista – respondeu ele, de imediato, como se já esperasse a pergunta. – Não será a ideia da vida como algo independente dos corpos que irá mudar isso. Quanto a você, que tem formação cristã, não esqueça que, segundo a Bíblia, depois de fazer o homem do pó da terra, Deus soprou em seus narizes o fôlego da vida.

– Gênesis!

– Capítulo dois, versículo sete.

E desembarcou.

(*) Shayeubad é um amigo que há muitos anos aparece para conversar quando estou sozinho, mas costuma dizer algumas coisas que não entendo direito. Quando eu era criança, minha mãe dizia que ele era meu amigo imaginário e antes do final da minha adolescência deixaria de aparecer.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

EVANGELHO EM CEARÊS – ZAQUEU (Lc 19,1-10)

Naquele tempo, Jesus entrou em Jericó e saiu varando a cidade, duma ponta a outra.

Tinha lá um elemento chamado Zaqueu, que era o manda-chuva dos cabra que cobravam os impostos da mundiça. O bicho tava por cima da carne seca. O problema dele não era dinheiro. Era liga.

E, além de estribado, o tal do Zaqueu era curioso. Quando viu a curriola de gente na rua, fazendo o maior enxame, foi pro meio do chafurdo, pra ver quem era Jesus.

Mas Zaqueu era um tronquim de amarrar onça; o chamado tamborete de forró. Desse povo batoré, que senta no fí-de-péda e fica balançando as pernas. Aí pelejava pra ver Jesus, mas não conseguia.

Se Zaqueu fosse algum mamanaégua, abria dos pau era cedo, mas ele era muito mala. Cheio de nó pelas costas. Saiu desembestado e, mais adiante, subiu num pé-de-pau e ficou cubando o movimento lá de cima, esperando Jesus passar.

Só que Jesus, desenrolado que só ele, viu a marmota de longe. Quando foi chegando perto do pé-de-planta onde o Zaqueu tava, disse logo:

— Zaqueu, macho véi! Deixa de fuleragem! Desce daí, que tua mulher te botou foi chifre, não foi asa não! Vai pra casa preparar o rango e o merol, que eu vou com um magote de caba esgalamido passar a hora da janta lá!

O Zaqueu desceu ligeiro, igual um azôgue. Alegre que só pinto em bosta, porque Jesus disse que ia jantar na casa dele.

Quando foi de noite, só se ouvia o leruaite do povo invejoso:

— Olhaí, macho, Jesus foi jantar na casa daquela carniça! Zaqueu veí, sujo que só pau de galinheiro… Diabeisso, macho?

— Sei lá, macho. Eles, que são branco, que se entendam…

Enquanto isso, Zaqueu, que tinha uma vocação danada pra puxa-saco, tentava tirar uma onda pra cima de Jesus;

— Mestre, eu tô pensando em dar metade das minha burundanga pra esses liso aqui da redondeza… Porque eu sou o tipo do cara que, se eu souber que fiquei com alguma coisa de alguém, vou devolver quatro tantos do que eu tenha ficado.

Mas, Jesus, que conhecia de mistério, e não se impressionava com conversa de alma, mostrou logo como é que a banda toca:

— Zaqueu, deixa de conversar miolo de pote! Eu vim na tua casa pra mostrar pra esse povo enxamista que qualquer cabra sem futuro é filho de Deus. Eu quero consertar é o que tá desmantelado mesmo, porque o que tá certo já tá bem feito.

Palavra da Salvação.

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDÉIS

UMA MENTIRA DE VERDADE

Ilustração da página Pixabay

Sabe o que eu gostaria de ouvir hoje? Uma mentira de verdade.

“Como assim, uma mentira de verdade?”, talvez pergunte o leitor.

E já respondo: uma mentira de verdade é uma dessas mentiras criadas com o sincero propósito de ser apenas uma mentira; dessas que alguém conta em um grupo de amigos, só para divertir quem conta e quem escuta.

Noutras palavras, uma mentira de verdade é uma mentira que não tem a menor pretensão de parecer uma verdade. Que não mereça sequer a acusação de ser uma meia verdade.

Lembro que, quando eu era criança, perto da minha casa morava um senhor, a quem todos chamavam simplesmente de Tio Américo. Não sei se ele tinha sobrinhos de verdade, mas isso não tem importância agora. O fato é que todos ali, crianças e adultos, o chamavam de tio.

Acredito que ele tinha, na época, entre sessenta e setenta anos. Não consigo ser muito preciso a esse respeito, porque, sendo eu um menino de oito ou nove anos, a imagem que tinha dele era de um velho, com seus cabelos grisalhos e a pele do rosto marcada por rugas.

Lembro bem que Tio Américo trabalhava como barbeiro. Não em uma barbearia de verdade, com cadeiras giratórias diante de espelhos, mas nas casas de seus clientes. Ou na rua mesmo, nas calçadas dos bares e mercearias do bairro. Onde houvesse alguém querendo fazer a barba ou cortar o cabelo, Tio Américo abria sua maleta, retirava as ferramentas de trabalho e prestava o serviço.

Era nessas horas, durante o atendimento aos clientes, que Tio Américo exibia o seu verdadeiro talento: contar mentiras; mentiras de verdade.

E como mentia bem! Acredito que muita gente cortava o cabelo com ele, só para ouvir suas mentiras.

Recordo uma vez em que ele, enquanto cortava o cabelo do meu pai, na calçada da nossa mercearia, contava uma aventura que dizia ter vivido em um tempo em que teria sido jogador de futebol.

— Nesse tempo eu jogava no Ceará — dizia ele, preparando o terreno para os eventos extraordinários que narraria a seguir.

Enquanto fazia uso da tesoura e do pente, mostrando destreza com as mãos, falava de sua habilidade com os pés.

— Pois, Mansueto — dizia Tio Américo, — o negócio apertou foi num dia em que nós fomos jogar contra o Guarany de Sobral, lá no Estádio do Junco.

Antes de prosseguir com a narrativa, um esclarecimento, especialmente para os leitores que não tenham muitas informações sobre a geografia e o futebol cearenses: no Ceará existe o time do Guarani Esporte Clube, da cidade de Juazeiro do Norte, onde o estádio de futebol se chama Romeirão; e o Guarany Sporting Club, da cidade de Sobral, que recebe as equipes visitantes no Estádio do Junco.

Feito o esclarecimento, sigamos ouvindo o Tio Américo, porque, àquela altura, já havia umas oito pessoas, entre adultos e crianças, prestando atenção à conversa.

— Rapaz… o jogo ia ser domingo de tarde. Cinco da tarde. Todo mundo foi avisado que nosso ônibus ia sair de Fortaleza seis da manhã, pra dar tempo da gente almoçar em Sobral, descansar um pouco e chegar no Junco às quatro. Mas aí, meu irmão, eu fui a uma festa, no sábado, e acabei perdendo a hora do ônibus. Quando acordei, já era bem umas dez horas. Imaginei que, mesmo que eles tivessem esperado uma meia hora por mim, àquela altura já estavam pra lá de Itapajé…

Enquanto ele falava, a quantidade de espectadores ia aumentando. Quem chegava com a história já em andamento ficava quieto, tentando pegar o fio da meada. Tio Américo prosseguia:

— Aí eu me conformei. Almocei, fiquei por ali, meio triste, em casa… Quando deu cinco horas, eu liguei o rádio e fui ouvir o jogo. Meu irmão, mal começou, o Guarany fez logo um gol. Com dez minutos, fez outro. Dois a zero. Aquilo me deu um remorso tão grande que veio uma ideia na minha cabeça. Nesse tempo eu morava perto da Praça da Estação. Aí eu vesti o uniforme do Ceará, calcei as chuteiras, peguei duas barras de sabão e fui pra estação do trem. Calculei qual era linha pra Sobral, que eu conhecia bem, cuspi nos trilhos; botei uma barra de sabão em cada trilho; fastei pra trás uns cinquenta metros, fiz carreira pra pegar impulso, e pulei em cima das barras de sabão. Rapaz… as travas da chuteira entraram no sabão que foi uma beleza! E eu fui escorregando pra frente! Fui pegando embalo, fui ganhando velocidade, com pouco tempo eu tava entrando na estação ferroviária lá de Sobral.

Gargalhada geral! Empolgado com a própria narrativa, Tio Américo havia suspendido até o corte de cabelo do meu pai. Mas não tinha ainda terminado a história. E prosseguiu:

— Quando eu fui saindo da estação, tinha um rapaz com um rádio, e eu perguntei pra ele de quanto tava o jogo. Ele disse “dois a zero Guarany; trinta do segundo tempo”. Aí eu pensei: “ainda dá”, e corri pro Junco. Cheguei no estádio, o treinador me mandou entrar ligeiro. Aquecimento, não precisava, que eu já vinha embalado.

Tio Américo fez uma pausa para temperar a garganta. Preparava o gran finale.

— Entrei em campo aos trinta e oito do segundo tempo e viramos pra três a dois. Ô jogo!

Nova bateria de gargalhadas ecoou. Ele próprio era um dos que mais ria.

Só meu pai, com o cabelo ainda por terminar de ser cortado, sorria de maneira contida. Não que não houvesse gostado da história, ou que estivesse incomodado com a demora de Tio Américo para terminar seu atendimento. É que o Seu Mansueto sempre riu pouco mesmo. Esperou que se fizesse silêncio e perguntou, demonstrando interesse:

— Tio Américo, e o senhor fez algum desses três gols?

— Fiz os três — respondeu o barbeiro, sem titubear. — No último minuto, ainda dava pra eu ter feito mais um. Passei por três zagueiros, fiquei cara a cara com o goleiro, mas toquei pra um rapaz que jogava de ponta esquerda, que era muito meu amigo. Eu quis dar a oportunidade a ele. Só que, pela posição que ele vinha, ele bateu com o pé direito e jogou por cima do gol. Não fosse isso, tinha sido quatro a dois.

O homem era — desculpe-me, leitor. o trocadilho — um craque! Na arte de mentir, claro.

Mas eram mentiras inofensivas, boas de ouvir. Diferentes dessas que encontramos hoje em dia, na TV, no rádio, nos sites de notícias e nas redes sociais, com o nome pomposo de fake news.

São umas mentiras pretensiosas essas tais fake news. Misturadas às verdades, com o propósito de enganar, para fazer prevalecer interesses nem sempre confessáveis.

Sim, eu sei que sempre houve mentiras escondidas em meio a verdades. Talvez o que haja de diferente hoje seja a quantidade dessas mentiras, aliada à velocidade com que elas percorrem o mundo. De tal modo que todos os dias recebemos uma quantidade enorme de informações, mas com baixíssima ou nenhuma confiabilidade.

Talvez o que esteja me acontecendo hoje seja o seguinte: tantas são as verdades mentirosas que nos chegam, que senti o desejo de ouvir ao menos uma mentira de verdade.

Como naquele dia, quando Tio Américo, após contar toda aquela história, enquanto cortava o cabelo do meu pai, desculpou-se por ter que ir logo embora:

— A essa hora, minha mulher já encheu minha banheira de água quente. Aí, chegando em casa, eu tomo banho, almoço… e vou tocar piano até umas horas…

Todos sabíamos que na casa do Tio Américo sequer caberia uma banheira, tampouco um piano. Mas ele estava sempre pronto para contar mais uma das suas mentiras. Que eram apenas mentiras. Mentiras de verdade.