MARCO DI AURÉLIO

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ACERCA DE MEU MUNDO – Primeira parte

Este colunista nos braços do pai Aurélio; à direita, um paricêro dele; foto de 1952

Entre as grandezas que meu pai me legou, estão as miudezas. As coisas mais sutis, mais leves e diluídas nesse meio de mundo. Dele eu herdei o desassossego dos pesquisadores, a insaciável fome de quem busca o sabor do desconhecido. Ele foi laboratorista da DENERu, um departamento nacional que tratava de endemias rurais, com pesquisa e tratamento de doenças como o esquistossomose, o mal de Chagas, a filariose, a malária e outras afecções. Foi uma referência para minhas inquietudes. Um portão aberto para minhas incursões sobre o melhor da natureza humana.

No mesmo sentido, porém em outra categoria do conhecimento, ele me propiciou a vivência e a prática da caça. Ressalto, numa época que era, além de permitida, uma cultura de subsistência da região que morávamos – o alto sertão pernambucano e paraibano.

O universo da caça é de uma riqueza imensurável. Poucos caçadores são capazes de alcançar e dizer de sua largura, altura e da profundidade de tal exercício. O campo aberto a dizer de si e dos outros, numa convivência mútua, montada numa cadeia infinita de equilíbrio e desequilíbrio.

Aprendi a conhecer o vento, seu corpo e seus caminhos. A saber de seus caprichos em horas de mansidão e de estorva. Nunca dei conta dos cheiros que me trouxe, me dando nomes e posição dos massageados. Trazia-me de mais longe os pios de gracejo, ou de aviso. Ora, dizia-me de onde vinha confessando-me para onde ia. Ora, me batia dos lados que quisesse. No conjunto de suas brincadeiras dava-me um norte por direção. Também era traiçoeiro, se caso houvesse alguém de faro mais aguçado que o meu.

Conheci mais o chão, entre os chãos que pisei. Sua pele, ora macia, ora pedregosa. Amarguei de seu calor e de seu pó em suspensão, quando se amasiava ao vento correndo em rodopios ao rés, ou em redemoinhos elevados às alturas. Palmilhei suas entranhas, veredas, sovacos, grutas, serrotes e planícies. Encostei meu corpo ao seu em vantagem de meu cansaço. Foi tirano nas léguas quando perdido, mas generoso a me mostrar a rosa dos tempos e dos espaços no caminho de volta.

Coberto de pedras me fazia subir lajedos, embrumava-me de névoas ao amanhecer, e emplumava-me dourado ao entardecer. Seu cheiro forrava meu campo de dentro, sua cor, ora clara, ora escura, tingia meus sonhos no arrefecer de minhas andanças. Seco, cheirava a eternidade, molhado, cheirava a viço, pulsando entumecido ao sabor de quem pudesse se enterrar. As terras de dentro, longe das terras podres, eram, são e serão as terras de minhas quimeras, das eras que me assomam e me consomem. Que bom que voltarei a elas por um balanço de débito e crédito em minha caderneta de fiado.

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JULIÃO