MARCELO ALCOFORADO - A PROPÓSITO

OS SETE DE CHICAGO E OS INÚMEROS DO RECIFE

Movidos pelo desejo de fazer as coisas como acreditam devam ser feitas, este fim de semana muitos recifenses protagonizaram uma sangrenta batalha. De um lado os manifestantes, de outro a polícia pernambucana, ao que parece treinando para uma modalidade olímpica de “tiro ao olho”, tais os globos oculares atingidos pelas dolorosas balas de borracha. Apesar de tudo, salvaram-se todos, é fato, alguns com cortes e escoriações.

A propósito, o dia lembrou um dia em que os Sete de Chicago foram julgados por conspiração, incitação à revolta e outras cominações relacionadas com protestos principalmente contra a presença americana na Guerra do Vietnã. Absolvições e condenações, apelações e reversões e, ao final, alguns os acusados foram condenados, embora tats condenações tenham sido revertidas.

Os protestos em crescendo pareciam anunciar uma tempestade. E ela aconteceria. Grupos pacifistas, pediram à prefeitura de Chicago autorização para uma marcha partindo do distrito comercial central, mas a prefeitura negou todas as permissões, exceto a de uma tarde em uma velha concha acústica, contudo impôs um toque de recolher, às 11 horas da noite, aumentando a tensão ainda mais. A situação ficou intolerável, com a polícia reforçando o toque de recolher, retirando multidões das ruas. Mesmo assim, os confrontos verbais e físicos, o gás lacrimogênio e os cassetetes para espancar as pessoas recebiam dos protestantes pedras e garrafas.

Ao longo de mais de seis meses, o júri se reuniu trinta vezes e ouviu cerca de duzentas testemunhas. Ao fim os sete réus foram condenados, situação depois revertida.

Quanto ao confronto pernambucano, fosse Fouché chamado a opinar sobre a ação policial do último domingo, provavelmente diria: “Foi mais do que um crime, foi um erro”.

MARCELO ALCOFORADO - A PROPÓSITO

O POSSUÍDO

“Possuído pela vaidade”, foi assim que um dos aliados do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso o classificou quando os principais veículos de divulgação do país exibiram a fotografia em que ele e Luiz Inácio da Silva se congratularam exibindo o soco amistoso que, desde a chegada da pragado covid, substitui o clássico aperto de mão.

Dois prefeitos do PSDB logo atacaram, em tom irônico, a fotografia. Duarte Nogueira, de Ribeirão Preto, disse mais. que “Fernando Henrique Cardoso passa por uma síndrome de Estocolmo. Lula e o PT desconstruíram o legado de FHC e assaltaram o País”; enquanto Orlando Morando, de São Bernardo do Campo registrou que FHC está possuído pela sua vaidade e não quer ver outro presidente pelo seu partido.

Mas, afinal, o que é vaidade?

Segundo o Houaiss é a qualidade do que é vão, vazio, firmado sobre aparência ilusória. É a valorização que se atribui à própria aparência, ou quaisquer outras qualidades físicas ou intelectuais, fundamentada no desejo de que tais qualidades sejam reconhecidas ou admiradas pelos outros. Tem mais: é a avaliação muito lisonjeira que alguém tem de si mesmo; fatuidade, imodéstia, presunção, vanidade…

Veja se você recorda deste exemplo: na eleição paulistana de 1985 Fernando Henrique estava à frente de Jânio Quadros, mas faltava contar muitos votos. Mesmo assim ele se deixou fotografar, com ar triunfalista, na cadeira do prefeito, mas quem se elegeu prefeito de São Paulo, foi o concorrente Jânio Quadros.

Por fim, já que Fernando Henrique Cardoso é um homem de sólida cultura e fino humor, fui ao dicionário etimológico buscar uma definição que atenuasse a contundência das anteriores. Foi pior. Encontrei a origem nos termos latinos vanitas, vanitatis, cujo significado é, nada mais nada menos, que vacuidade (o que é próprio do vácuo), ou seja: absoluto vazio.