MARCELO ALCOFORADO - A PROPÓSITO

RECIFE, CIDADE DAS PONTES: ATÉ QUANDO?

Que o Recife, especialmente sua área central, é uma triste imagem da degradação de uma cidade outrora bonita e até odorosa, todo mundo sabe. O que muitos não sabem é que, apesar dos esforços de alguns, tal degradação aumenta, fruto indigesto da pobreza, do desemprego, da impunidade.

A Ponte da Boa Vista é o exemplo mais recente do ponto a que chegamos.

A primeira, do Brasil holandês, de madeira, construída em 1640, serviu durante um século, e só não durou mais, porque o então governador de Pernambuco, Henrique Luís Pereira Freire (1737-1746), a destruiu para construir outra. Era também de madeira, como a anterior, e passou por vários reparos, até ser praticamente reconstruída em 1815, quando recebeu gradis de ferro, calçamento de seixos, e varandas com bancos de madeira.

Em agosto de 1874, enfim, o governador Henrique Pereira de Lucena, futuro Barão de Lucena, a reconstituiu. Nasceu, então, uma ponte com a aparência de uma ponte ferroviária muito parecida com a Ponte Nova, de Paris. Logo se tornou, nas décadas de 1940 e 1950, um local importante na vida social Recife, com suas passarelas laterais sendo cenários das últimas versões de vestidos, chapéus e maquiagens.

Pena que a história do Brasil, registrada nos quatro pilares dessa ponte originalíssima, toda feita de ferro batido importado da Inglaterra, está assediada por vândalos que, no silêncio da noite, mutilam-na, roubando-lhe o metal que a sustenta e embeleza.

Bandidos, vão mutilar outra ponte: vão à “ponte que partiu”!

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BENDITA SERENDIPITY

Serendipity é uma palavra inglesa que significa uma feliz descoberta ao acaso, ou a sorte de encontrar algo precioso que não se procurava. Foi um termo cunhado no século XVI pelo escritor inglês Horace Walpole, ao retirar a palavra do conto The Three Princes of Serendip, personagens que sempre faziam descobertas acidentais usando sua sagacidade. Serendip seria o nome árabe para a região onde atualmente é o Sri Lanka. Acrescentada do sufixo ity, a palavra em inglês vira um substantivo abstrato, a exemplo de responsability (responsabilidade), que vem de responsable (responsável).

Serendipity seria, pois, a propriedade de quem age como os príncipes de Serendip, ou seja, de quem encontra soluções criativas e inesperadas para problemas de forma sagaz.

Os ingleses usam o termo para definir a capacidade de alguém encontrar, por acaso, coisas maravilhosas, como acaba de acontecer. Há poucos minutos, rebuscando papéis antigos, afloraram palavras de Albert Einstein sobre a crise, este prato indigesto para os que lutam pela vida. Em um país como o Brasil, elas são, como o são todos os dias, utilíssimas, já que vivem às voltas com crises de todos os quilates. São crises morais, políticas, econômicas, principalmente as morais, que corroem solertemente as estruturas éticas da nação a, muitas vezes, aprovar o deletério rouba, mas faz.

Não se desvirtue, porém, o achado. Veja o que o maior gênio do século 20 disse a respeito de crise: “Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar superado. Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais os problemas do que as soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência. Sem crise não há desafios; sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um: pensar no assunto.”

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BRASÍLIA, AS PRAGAS DO EGITO E AS BESTAS DO APOCALIPSE

O Egito produziu bestas por atacado. Bípedes e quadrúpedes. A primeira transformou em sangue as águas do Nilo. Depois vieram morte de gado, invasões de rãs, piolhos, moscas, chagas, chuva de pedras, nuvens de gafanhotos, trevas e morte dos primogênitos. Finalmente, para aplacar a ira divina e escapar de tantas tragédias, o faraó Ramsés II, concordou com a saída dos hebreus do Egito.

O Apocalipse 13, embora com maldições em número menor parece ter pragas muito mais apavorantes. Ele trata da Bestas do Apocalipse ─ a Besta do Mar e a Besta da Terra ─ e sua maldita marca, o número 666.

A besta do mar, dizia São João, tinha dez chifres e sete cabeças, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças nomes de blasfêmia. Parecia um leopardo com os pés de urso e a boca como a de leão. Devia ser uma gracinha…

Durante 42 meses a besta blasfemou e guerreou contra os santos, vencendo-os. Já a besta da terra, ainda segundo João, tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro, e falava como dragão. Era subordinada à besta do mar e exercitava seu poder na terra fazendo milagres e convencendo os homens a construírem imagens para adorá-la. A imagem falava e tinha o poder de matar todos os que não a adorassem, e tinha uma marca na mão direita ou na testa, para que ninguém comprasse ou vendesse artigos que não tivessem vida, além da marca e o nome da besta ou 666, o número do seu nome.

Como se pode concluir, as pragas, sejam do Egito, do Apocalipse ou do Brasil não se têm confirmado. Dizia-se que o Brasil, devastado por uma maldição bolsonariana, ficaria ainda pior do que está, mas se vê que passados nove meses de assunção do nosso leme, estamos em um barco menos vulnerável, e em meio às tempestades começamos a navegar mares mais calmos. A propósito, a Selic foi reduzida em meio ponto percentual. É pouco, muitos dirão, talvez esquecidos de que nunca se havia chegado a tanto.

Ademais, nestes nove meses, nenhum escândalo escureceu o horizonte brasiliense, o que já é, por si, uma grande realização.

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FALA, MEMÓRIA

Enfim, aconteceu o tão aguardado discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU. Segundo os relatos, há de estar robustecido o bloco dos que têm o presidente na conta de um arruaceiro ignorante, circunstancialmente eleito presidente da República, de quem são acerbamente criticados os modos rudes, as palavras cortantes, o vezo de dizer, sem autocensurar-se, tudo que lhe vem à mente.

Embora de biótipos diversos, é difícil não se comparar Jair Bolsonaro e Nikita Kruschev, ao menos no quesito polidez. Quer um exemplo?

O dia 13 de outubro de 1960 era, como hoje, o de abertura da assembleia da ONU. Lá fora os manifestantes, lá dentro os representantes dos principais países do mundo.

Nikita Kruschev, representando a poderosa União Soviética, criticava a influência ocidental na África, especialmente Inglaterra, França, Espanha, Portugal e Itália, que mantinham os países africanos sob sufocante regime colonialista.

Pouco tempo depois, chegada a sua vez no parlatório, Lorenzo Sumulong, chefe da delegação filipina, rebateu a crítica de Khruschev, dizendo que era a União Soviética, na verdade, quem tirava a liberdade e o exercício da democracia da população dos países do Leste Europeu.

O premiê russo, que se irritava a cada palavra do filipino, no mesmo momento levantou-se transtornado e, gesticulando e mexendo os braços na direção de Lorenzo Sumulong, tomou-lhe o microfone e começou a chamar o filipino de idiota, palhaço e lacaio, acusando-o de subserviência ao imperialismo americano.

O filipino continuou seu discurso, enquanto um irritado Khruschev, vez ou outra, esmurrava a mesa.

O ápice, porém, ocorreu quando ele tirou um dos seus sapatos e exigindo atenção, com ele bateu vigorosamente na mesa, chamando a atenção dos presentes.

O ato foi noticiado em todo o planeta e não se viu por aqui nenhuma manifestação de censura.

E se Jair Bolsonaro fizesse o mesmo?

Nikita Kruschev batendo o sapato na bancada durante assembléia da ONU

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NAVIOS E CONQUISTADORES

Há momentos que emprestam brilho à história. São aqueles instantes cruciais, como os que marcaram a conquista de América do Sul pelos espanhóis, de relevância tal que impõe coragem superlativa, transborda de brios, insculpe nomes na história.

O espanhol Francisco Pizarro, por exemplo, ocupa a sua página como o conquistador do Peru, ao submeter o império inca ao poderio da Espanha. O que ele fez? Com um punhado de homens e quatro cavalos, ele zarpou em busca do seu destino e, tão logo chegou, sua primeira providência foi queimar os navios. A partir daquele instante não havia como recuar. Era vencer ou vencer todos os obstáculos que se apresentassem, o mais importante deles uma inevitável guerra cruenta aos donos daquelas terras.

O que teria levado o conquistador a atitude tão temerária? O pasmo é ainda maior quando se leva em conta que ele conhecia a quase intransponível dificuldade da empreitada. Todas as grandes coisas até hoje feitas envolveram um ato semelhante ao de Pizarro. a decisão de queimar os próprios navios, para não ter como bater em retirada.

Por aqui, todos os dias, o presidente Jair Bolsonaro queima um navio, com a chama do seu temperamento inflamado. Convém lembrar, entretanto, que assim como no Peru logo se estabeleceu um diálogo entre incas e espanhóis, com Pizarro habilmente mostrando aos nativos suas armaduras, arcabuzes e vinho, enquanto estes falavam entusiasmados de sua civilização e do ouro, da prata e das pedras preciosas ali existentes.

Para encurtar a história, Francisco Pizarro conquistou e explorou as riquezas peruanas na qualidade de governador e capitão geral. Jair Bolsonaro, mesmo com seu temperamento peculiar, digamos, pode fazer muito pelo Brasil. Afinal, foram os polidos, os doutos, os fenomenais que deixaram o país no caos em que se encontra.

MARCELO ALCOFORADO - A PROPÓSITO

NADAR NÃO É TUDO

Diz-se que o papa Francisco e o presidente Jair Bolsonaro estavam em uma pequena embarcação apreciando a beleza da baía da Guanabara, quando subitamente uma rajada de vento lançou ao mar o solidéu papal. Tripulantes, seguranças e até funcionários da cozinha, todos os presentes, enfim, revelavam grande preocupação, menos um dos presentes, exatamente o presidente do Brasil.

Com aquela voz aveludada que todos conhecemos, anunciou o presidente: “Deixem que eu vou buscar!” e em seguida atirou-se às águas revoltas. O pasmo foi indizível. Uns se apressaram a buscar roupas secas, outros a atirar salva-vidas…

Pois saiba que nada disso foi necessário.

Em vez de ficar ensopado, ele caminhou sobre as águas, apanhou o solidéu e logo chegado à embarcação entregou ao Santo Padre o chapéu sagrado.

Àquela altura o silêncio era ensurdecedor, diria Nelson Rodrigues. Não se ouvia sequer a respiração dos presentes. Nem mesmo o papa aproveitava para anunciar um milagre. Combinou-se, então, que ninguém diria nada a respeito, mas a notícia vazou e logo a imprensa começou a cobrir o milagre, com uma manchete impactante: “Bolsonaro não sabe nadar”!

Muitas vezes, a ficção se dedica, ainda bem, a desnudar a realidade, e como tal reconheça-se que nenhum presidente, ao menos na história recente do Brasil, foi alvo de tanta má vontade por parte da mídia nacional e internacional. A manchete de hoje do espanhol El País, por exemplo é clara: “La Amazonia sin ley” de Bolsonaro.

É verdade que o presidente brasileiro indica ser despreparado para cargo tão importante. É também verdade que se trata de um homem rude, incapaz de conquistar aliados, mas é igualmente verdade que Jair Bolsonaro não tem seu nome associado a condutas criminosas, ainda que esteja com merecido destaque nas condutas censuráveis. Dos males, o menor.