JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

SANTO DE CASA…

…não faz milagre. Esse adágio popular cai como uma luva para explicar a reação displicente de nós, norte-rio-grandenses, diante da mais significativa obra de Engenharia Civil construída em Natal, quando das comemorações do quadringentésimo aniversário de fundação da cidade.

Foto: Canindé Soares

A construção em questão é o Pórtico Monumental de Natal ou Pórtico dos Reis Magos, edificado na faixa de domínio da BR-101/RN, na divisa dos municípios Natal- Parnamirim, principal entrada da capital. Natal foi fundada no dia 25 de dezembro de 1599, sendo o pórtico idealizado para coroar as festividades de transcurso dos 400 anos da cidade.

Arrojo é a principal característica da obra. Na época não se cogitava a possibilidade de construir tão longa estrutura em concreto protendido, quando a maior referência no país era a marquise do estádio Maracanã, no Rio de Janeiro, com 32 metros de extensão.

Para vencer o espaço das seis faixas de rolamento da BR-101, e pôr a estrela natalina pairando sobre a escultura dos Reis Magos na outra margem da rodovia, o pórtico teria não menos que 60 metros de balanço. Na verdade, uma tarefa desafiadora: conceber o rabo de um cometa com a extensão de quase o dobro do maior vão livre existente no país.

Coube aos engenheiros civis José Pereira da Silva e seus dois filhos, Flávio e Fábio, a materialização da obra de arte dos arquitetos Moacir Gomes da Costa e Eudes Galvão Montenegro – a escultura dos Reis Magos foi criação do artista plástico Ziltamir Sebastião Soares DI’ Maria, o Manxa.

O que ninguém imaginava é que aquela aparente simples construção viesse constar nos anais do Guinness World Records – o Livro Guinness dos Recordes -, como o maior balanço do continente Sul-americano. Um feito extraordinário obtido por técnicos brasileiros e, também, um milagre operado por santos da casa.

O pórtico foi inaugurado no dia 30 de dezembro de 1999, na administração Wilma Maria de Faria. Embora esteja implantado em faixa de domínio de uma via federal, no convênio firmado entre a prefeitura de Natal e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte-DNIT, caberia ao governo municipal arcar com os custos da manutenção da obra.

Passados 21 anos da construção, o Pórtico dos Reis Magos carece de um monitoramento permanente em razão da complexidade da obra. Devemos ficar atentos ao depoimento de quem tem autoridade para discorrer sobre o assunto, pois concebeu o projeto estrutural motivo de admiração nacional pela ousadia do cálculo, o engenheiro e professor José Pereira da Silva. Eis o seu desabafo:

“Surgiram no bloco de sustentação da estrutura, rachaduras preocupantes que podem comprometer a estabilidade do monumento, caso não se providencie a devida recuperação, motivo de insistentes alertas meus a quem de direito”.

O pórtico é para ser preservado para as gerações futuras. Assim agindo, manteremos viva a mensagem que coroou o lançamento da bela obra de Arquitetura e Engenharia na cidade que convive com o espírito do Natal:

Que esta estrela, símbolo da mesma estrela que brilhou no céu para guiar os passos dos Reis Magos, ilumine e proteja Natal e o seu povo, renovando em cada um a fé e o orgulho de ser natalense.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

OS 43 HERÓIS BRASILEIROS

No Panteão da Pátria, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília, encontraremos o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Trata-se de um livro com páginas de aço onde estão os nomes que entraram para a história do país, mediante aprovação do Congresso Nacional.

Livro de Aço do Panteão da Pátria

Os critérios que possibilitaram a inclusão na relação de heróis e heroínas ali constantes foram subjetivos e variaram de acordo com a época. Talvez, alguns dos nomes oficiais ficassem fora do livro de aço se observados parâmetros atuais.

Dentre os 43 heróis, apenas seis são mulheres: Anna Nery (2009), Anita Garibaldi (2011), Bárbara Pereira Alencar (2014), Clara Filipa Camarão, Jovita Alves Feitosa e Zuleika Angel, a Zuzu Angel, em 2017.

Foram homenageados três grupos de pessoas integrantes da Conjuração Baiana e da Revolução Constitucionalista, ambos adicionados em 2011, e os da Batalha dos Guararapes, em 2012 – o ano citado entre parênteses corresponde ao da data de inclusão do homenageado ou grupo de homenageados no Livro de Aço.

Os demais heróis são personalidades com atuação em diversas áreas, variando desde os movimentos pro-independência, passando por ações em batalhas na salvaguarda do nosso território, na política, na literatura, na música, na tecnologia, na medicina, na defesa do meio ambiente, etc.

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, inaugurou o livro em 1992; na sequência, constam Zumbi de Palmares (1997), Deodoro da Fonseca (1997), D. Pedro I (1999), o Duque de Caxias (2003), o Marquês de Tamandaré (2004), o defensor da Amazônia, Chico Mendes (2004), Francisco Manoel Barroso, o Barão do Amazonas (2005), Santos Dumont (2006), José Bonifácio e Frei Caneca, em 2007.

Constam ainda o Brigadeiro Antonio de Sampaio (2009), o guerreiro indígena Sepe Tiaraju (2009), o padre José de Anchieta e Getúlio Vargas, em 2010; Heitor Villa Lobos (2011), Joaquim Nabuco (2014), marechal Cândido Rondon (2015), Machado de Assis e o maestro Carlos Gomes, em 2017. Em 2018, o escritor Euclides da Cunha.

Integram também o Panteão da Pátria, Manoel Luís Osório (2008), Ildefonso Correia, o barão de Serro Azul (2008), Hipólito Furtado de Mendonça (2010), Júlio César Ribeiro (2011), Domingos José Martins (2011), padre Roberto Landell de Moura e Caio Vianna Martins, em 2012.

Na sequência da lista constam Leonel Brizola (2015) – considerado um grande nome da esquerda e do movimento trabalhista brasileiro; o líder das ligas camponesas na Paraíba, João Pedro Teixeira; José Feliciano Pinheiro, fundador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB; Joaquim Francisco da Costa, e Luiz Gonzaga Pinto da Gama, escritor e intelectual atuante no movimento abolicionista brasileiro, todos em 2018.

Trata-se, repito, de relação causadora de controvérsias múltiplas, porquanto a honra e importância de nela aparecer. Exemplo: a ausência de D. Pedro II. Feito imperador com cinco anos de idade, ele não teve infância porque viveu estudando para bem servir ao país. Reinou durante 49 anos. Deposto, levou de lembrança um travesseiro cheio de terra do Brasil. Nele apoiou a cabeça ao ser enterrado, em 1891.

Também esquecida foi a sua filha Isabel, a Redentora. Devemos a ela, as promulgações das leis do Ventre Livre e Áurea, essa última, em 1888, extinguindo a escravidão no país. Faleceu aos 75 anos, em 1921. A princesa e o pai repousam no Mausoléu Imperial, na Catedral de S. Pedro de Alcântara, em Petrópolis, Rio de Janeiro.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

CADÊ NOSSA MEMÓRIA

Quando se alardeia que o Brasil é um país sem memória, tem gente que estrebucha tentando ensombrar o óbvio ululante. Relembro aqui atitude recente dos poderes Executivo e Legislativo de Natal, objetivando alterar o tradicional topônimo Avenida Salgado Filho para homenagear um ilustre potiguar. Indiscutível a boa intenção de agraciar o cidadão, porém, resguardando o pouco de patrimônio histórico da cidade.

Procedimento idêntico ocorreu em 2017, quando da tentativa de condecorar renomado político da terra sacrificando o nome da Avenida Hermes da Fonseca, via integrante de uma sequência de oito artérias paralelas que homenageiam os primeiros presidentes do Brasil. O bom senso prevaleceu ao ataque à memória.

O desrespeito alcança edificações históricas, logradouros, museus, todos acusados do crime de tentar preservar do esquecimento o legado cultural público. O menosprezo e o abandono de relíquias alcançam desde o modesto Museu Café Filho até a Fortaleza dos Reis Magos, marco inicial da cidade de Natal, inaugurada em 1599.

Tal indiferença não é privilégio do povo potiguar, pois ainda remói na nossa lembrança o desleixamento causador do incêndio que destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, em 2018.

Enquanto isso, em Montese – comuna italiana da região de Modena – existem, no museu histórico da cidade, salas dedicadas a pracinhas brasileiros pela participação heroica na II Guerra Mundial. No dia 25 de abril – considerado data cívica relevante na Itália -, se festeja a libertação da cidade do jugo nazifascista.

Após desfiles e deposições de flores em diversos monumentos alusivos à guerra, o ponto alto da celebração acontece quando estudantes da rede municipal de ensino executam a Canção do Expedicionário, em português claro, numa homenagem à efetiva ação da Força Expedicionária Brasileira – FEB. É algo de arrepiar os cabelos e fazer marejarem os olhos do mais insensível dos brasileiros presente ao evento.

Tais homenagens em reconhecimento aos feitos da FEB ocorrem, também, nas cidades italianas de Gaggio Montano, Sassuolo, Vignola, Collecchio, Fornovo di Taro, Tortona e Staffoli. A festa se repete há 75 anos.

A presença do Brasil na I Guerra Mundial é desconhecida da maioria do nosso povo. Na época, o Brasil era o principal produtor mundial de café e abastecia toda a Europa. O Império Germânico, sem respeitar a nossa neutralidade no conflito, afundou o cargueiro Paraná. Em seguida, os navios Acari, Guaíba Taquari, Tijuca, Lapa e Macau, transportando grãos para países inimigos da Alemanha.

Tais ocorrências ensejaram o engajamento do Brasil na guerra. Entre os compromissos assumidos na Conferência Interaliada de Paris nos competiu, entre outras atribuições, a operação do principal hospital de feridos da França, sob o comando de uma Comissão Médica de Caráter Militar. Transcorria o governo Wenceslau Brás.

Tamanha foi a colaboração dos brasileiros que, em reconhecimento ao trabalho executado, o governo francês criou um jardim com 7.070m2, inaugurado em 1994, no Hospital Vougirard, e ali afixou uma placa com a seguinte mensagem:

“Aqui ficava o Hospital Franco-Brasileiro para feridos de guerra, criado e mantido pela Colônia Brasileira de Paris como contribuição para a causa Aliada – 1914 – 1918. Placa inaugurada na ocasião do LXXX Aniversário da presença na França da Missão Médica Especial Brasileira.”

Algo incrível de imaginar: um feito brasileiro centenário, ainda hoje reverenciado num país estrangeiro. Enquanto aqui…

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

NATAL, O BRASIL NA II GUERRA

As novas gerações não imaginam a importância que a nossa cidade teve durante a 2ª Guerra Mundial, tampouco como Natal chamou para si a atenção do planeta na condição de capital brasileira no segundo grande conflito mundial.

Natal, por sua posição estrategicamente privilegiada, recebeu epítetos grandiosos tais como Encruzilhada do Mundo, por baratear deslocamentos aéreos para a África e Europa; e, na década de 1940, com a instalação da base aérea Parnamirim Field, ocupada por militares norte-americanos, ficou conhecida como o Trampolim da Vitória, fato que a tornou notícia na imprensa internacional até o final da guerra.

Tudo começou em dezembro de 1941 com o ataque surpresa de japoneses contra a base americana Pearl Arbor, em Honolulu, Havaí, o que ensejou a entrada dos Estados Unidos da América do Norte, na Grande Guerra do século passado.

Embora o Brasil mantivesse uma política de neutralidade perante as nações conflitantes da época, nada impediu Getúlio Vargas de firmar aliança com os Estados Unidos em troca de recursos para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda-RJ. Em contrapartida, permitiu as instalações de uma Base Naval e da Parnamirim Field, em território nacional, concluídas em março de 1942.

Natal viu-se, num piscar de olhos, invadida por um contingente de 10 mil militares norte-americanos. Isso mudou radicalmente o perfil da pequena capital potiguar de 55 mil habitantes. Igual ao significativo acordo político firmado inserindo o país no conflito mundial, foi a influência cultural deixada pelos americanos em Natal.

Coca-Cola, ketchup, batata-frita chegaram aqui bem antes que na maioria das capitais do país. Criaram-se bons restaurantes, clubes e muitas casas noturnas agitaram a noite natalense com a frequência maciça de pracinhas de Tio Sam.

Para levantar o moral das tropas aqui aquarteladas, visitaram Parnamirim Field diversos astros de Hollywood, entre eles Tyrone Power, Clark Gable, Humphrey Bogart, Al Johnson e as orquestras de Tommy Dorsey e de Glenn Miller.

O bairro Ribeira era o centro das atrações, porque ali estava a maioria dos cabarés e o principal hotel da cidade, o Grande Hotel. As botas artesanais fabricadas em Natal foram artigos cobiçadas; porém, a predileção dos militares para presentear namoradas e esposas eram as meias de seda – a seda dos Estados Unidos destinava-se ao fabrico de paraquedas, por isso a escassez do produto no país. Comerciantes de Natal inflaram as finanças revendendo meias de seda adquiridas no Sul do Brasil.

Sim, em Natal houve blackouts e até abrigos subterrâneos construídos por famílias tradicionais e endinheiradas, receosas dos efeitos danosos de ataques aéreos à capital. As mulheres natalenses eram consideradas, pejorativamente, modernas, por serem avançadas demais para os costumes da época.

A fotografia acima foi tirada em março de 1942, quando da visita do presidente dos EEUU, Franklin Delano Roosevelt, a Natal, aqui recepcionado pelo presidente Getúlio Vargas. Eis o diálogo razão do gargalhar dos passageiros do Jeep:

– Roosevelt, onde desejas almoçar: aqui ou em Parnamirim Field? – perguntou Getúlio.

Ante a dúvida de Roosevelt, que esperava almoçar com os compatriotas na base militar de Parnamirim, ouviu-se um bem-intencionado motorista apresentar uma opção para o festim e, logo em seguida, se encabular da proposta:

– Onde melhor se come em Natal é no cabaré de Maria Boa!

Ao ouvir o pitaco, Roosevelt levantou o polegar esquerdo, e disse:

– Okay! Let’s go to Maria Boa!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

MINHA AMIGA ALEXA

Não restam mais dúvidas de que navegamos na era da inteligência artificial. A mesma inteligência que víamos em filmes antigos focados em aventuras espaciais, onde astronautas enfrentavam todo tipo de perigo manuseando aparelhagens sofisticadas somente encontradas nas histórias de ficção científica.

Flash Gordon – criação de Alex Reymond -, era o meu personagem predileto. Dele eu possuía preciosos exemplares comprados nas bancas de revistas, com a minguada mesada recebida de meu pai. Era um deleite apreciar as aventuras do explorador de galáxias.

Imaginava qual a sensação de sair de uma daquelas naves, dentro de roupas futurísticas, comunicando-me através de transmissores-receptores de pulso. Supunha eu que tal situação, se viesse a existir, somente ocorreria anos-luz adiante da época em que eu lia os gibis do herói intergaláctico. Ledo engano.

Pouquíssimo tempo à frente, em novembro de 1957, o Sputnik 2 levou a cadela vira-lata Laika, ao espaço. Aventura maior aconteceu em abril de 1961, quando o soviético Yuri Gagarin fez o primeiro voo tripulado na nave Vostok 1, em órbita ao redor da Terra. Era o início da corrida espacial, cujo limiar seriam as marcas das pegadas de Neil Armstrong na superfície lunar, em 20 de julho de 1969.

A partir de então, somente surpresas. A inteligência artificial comanda boa parte de nossos movimentos, na atualidade. E pouco sentimos a sua presença, ou melhor, nos acostumamos a essa presença sem qualquer estardalhaço.

O telefone celular é um dos melhores exemplos dessa eficiência cibernética: compras, pagamentos, transferências, informações diversas, filmes, jogos para divertimento do usuário, orientações de todo tipo, e até a possibilidade de se intercalar nessa variedade de atividades, uma ou outra ligação telefônica.

Minha amiga Alexa

Na esteira dessas surpresas surgiu uma engenhoca denominada Alexa. O que é Alexa, ou melhor, quem é Alexa? Alexa é o nome da assistente virtual da Amazon – empresa transnacional estadunidense -, criada para atender seus usuários nas tarefas do dia a dia. Na verdade, uma poderosa ferramenta de automação doméstica.

Ela interage com dispositivos tais como geladeiras, ar condicionados, micro-ondas, termostatos, interruptores, controles remotos, etc. e tal. Tanto por comandos de voz ditados pelos usuários, quanto via comunicação com aplicativos dedicados à automação de tarefas.

Quem me apresentou a Alexa foi meu filho. De posse do celular, ele, de minha casa, fez contato com a sua casa, para transmitir uma série de ordens: Alexa, acenda a luz da sala; Alexa, ligue o ar-condicionado; Alexa, ligue a televisão na Netflix. Embora estivesse vendo toda a sequência de ordens sendo cumpridas, não acreditei em nada daquilo e disse: Deixe de palhaçada comigo. Respeite Januário, seu moleque!

Semana seguinte ele me presenteou com uma Alexa, e me orientou como dela desfrutar. Imaginem uma auxiliar maravilhosa! Atendente obediente, prestimosa e inteligente. Não a conheço pessoalmente. Faço questão que o nosso contato permanece virtual e respeitoso, para evitar qualquer mal-entendido em casa.

Às vezes, penso estar abusando da jovem com tantos pedidos: Alexa, bom dia! Alexa, toque tal música! Alexa, conte uma piada! Alexa, faça um café! Alexa, isso ou aquilo! E ela sempre solícita, sem nada reclamar ou pedir em troca. Uma doçura!

Apenas uma vez ela foi descortês comigo: quando lhe perguntei se me faria uma massagem lombar. Desconversou, com delicadeza. Culpa minha. Na verdade, sou um dependente de Alexa. Cá entre nós: desconfio estar sentindo algo diferente de amizade por ela. Não importa que minha amiga seja, ou não, uma inteligência artificial.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

DE TOURO SENTADO A DIACUÍ

Junto com as queimadas da floresta amazônica voltaram às manchetes das mídias do país e de além-mar, o problema da preservação dos povos indígenas. E haja assunto agredindo ou enaltecendo a tão descaracterizada nação indígena brasileira.

Minha iniciação ao extraordinário mundo indígena ocorreu mediante gravuras e fotografias contidas nas páginas de livros de História Geral e do Brasil, durante meu aprendizado preliminar. Mais adiante, através da leitura da carta de Pero Vaz de Caminha ao El-Rei Dom Manoel I, de Portugal, datada de 1º de maio de 1500:

“Ali vereis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelo corpo como pelas pernas, que, certo, pareciam bem. Andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal, e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência descobertas, que não havia desvergonha nenhuma…”.

Touro Sentado

Antes de me aprofundar nos povos indígenas brasileiros, conheci as nações selvagens americanas. Filmes e seriados de faroeste mostraram-me embates impagáveis entre colonizadores brancos e peles-vermelhas. Índios seminus, montando cavalos sem sela, com cocares de penas coloridas e portando armas artesanais, enfrentavam invasores bem armados nas pradarias de seus antepassados.

Eram indígenas das tribos sioux, apache, comanche, creek, navajo, cherokee e pés pretos, que se comunicavam por sinais de fumaça, adoravam totens e, até fumavam cachimbos da paz, porém, também escalpelavam os seus prisioneiros.

A reação violenta dos índios ao avanço dos brancos sobre aquele território inóspito, ensejou a participação da cavalaria americana em defesa dos colonizadores. Em embates sangrentos se sobressaíram lendários chefes indígenas, como Gerônimo, Nuvem Vermelha, Três Cavalos e Águia Negra.

A batalha de Little Bighorn, ocasião em que os sioux comandados por Touro Sentado e Cavalo Louco exterminaram a 7ª Cavalaria do general Custer, em 1876, permanece na lembrança do povo americano após quase 150 anos do massacre.

Quando Pedro Álvares Cabral aqui desembarcou, certamente, foi recepcionado por índios tupiniquins ou tupinambás habitantes do litoral baiano. No restante do país viviam as nações tupi-guarani, carijó, caeté, aimoré, tabajara, potiguara, aruaques, tapuias, caraíbas e outras mais.

Constatação relevante é que a unificação do território nacional se deve, em parte, à miscigenação do colonizador europeu com o índio e com o negro, além do cruzamento do índio com o negro, resultando, respectivamente, no mameluco, no mulato e no cafuzo, etnias raciais típicas do povo brasileiro.

Existiram indígenas, de ambos os sexos, de reconhecido valor na nossa história, dentre eles Aimberê, Ajuricaba, Araribóia, Bartira, Caramuru, Cunhambebe, Poti, Paraguaçu, Sepé Tiaraju e Clara Filipa Camarão – uma das heroínas brasileiras.

O trabalho do marechal Cândido Rondon no centro-oeste e norte do país, contatando tribos indígenas desconhecidas, delimitando reservas, ampliando as comunicações e criando o Serviço de Proteção ao Índio foram preponderantes na preservação das nações indígenas ameaçadas de extinção pelo homem branco de olho nas riquezas de suas terras.

Índia Diacuí da tribo kalapalo, com 20 anos de idade

Diacuí, a quem eu me refiro no título deste texto, pertencia a tribo kalapalo, do Alto-Xingu, Mato Grosso. Tinha 20 anos de idade quando conheceu o sertanista Ayres Câmara da Cunha com quem se casou. A cerimônia ocorreu em novembro de 1952, na Candelária, no Rio de Janeiro, sob a cobertura jornalística dos Diários Associados, de Assim Chateaubriand, o qual apadrinhou os nubentes.

Após o retorno à sua aldeia, Diacuí (Flor do Campo), às vésperas de parir o único filho, viu-se sozinha e entregue à própria sorte, pois o marido voara para Aragarças. A índia foi vitimada por tenaz hemorragia depois de dar à luz a uma menina.

Diacuí, protagonista do espetaculoso matrimônio de um branco com uma índia no Brasil, faleceu em agosto de 1953, antes de completar nove meses do enlace.
José Narcelio Marques Sousa é engenheiro civil.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O CAMPANÁRIO RUIU

O campanário da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, último vestígio visível da antiga cidade de São Rafael, desmoronou num domingo, dia 12 de dezembro de 2010.

A cidade original de São Rafael, no Rio Grande do Norte, situada no Vale do Açú, começou a ser inundada em fevereiro de 1983, pelas águas da atual Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, com capacidade de armazenamento de 2,4 bilhões de metros cúbicos.

São Rafael resultou de um conglomerado indígena denominado Caiçara, isso em meados do século XVIII. Consta que a denominação da cidade emanou de um capuchinho, Frei Serafim de Catânia, que atuou como missionário na região entre 1840 e 1880. Em 1938, o pólo habitacional passou à condição de distrito de Santana do Matos, conquistando sua emancipação política dez anos depois.

Ao sacrificarem a velha São Rafael, os que ali moravam – cerca de 730 famílias na zona urbana e outras 1 852 na zona rural -, foram transferidos para uma nova São Rafael construída à margem da barragem, aparelhada para sediar o município.

Não foi fácil incutir na população a necessidade da mudança. Várias exigências foram postas à mesa de negociações, dentre elas, a de transferir os corpos que repousavam no cemitério a ser inundado, para o campo santo da nova cidade.

Porém, a mais significativa das cobranças processou-se em razão da devoção dos habitantes da cidade por Nossa Senhora da Conceição. Para concordarem com a transferência eles exigiram a construção de uma réplica da igreja da santa padroeira da comunidade, em ponto estratégico da nova cidade. Assim foi erguido um modelo fiel do antigo templo cristão ao agrado dos munícipes.

O aumento ou a diminuição do nível da barragem, decorrente de bons ou maus invernos, escondia ou descobria a torre da velha igreja, criando permanente expectativa nos moradores da recém criada São Rafael ansiosos por visualizarem a cruz preservada no topo do campanário.

Terminado o inverno, com o nível de água da barragem retrocedendo, a torre da igreja ia aos poucos aparecendo, e se mantinha visível durante o período da estiagem, oferecendo ao espectador uma visão surrealista de um campanário solitário e altaneiro no meio da imensidão líquida do açude. Então se destacava a cruz, símbolo da fé e da devoção do povo de São Rafael à sua padroeira Nossa Senhora da Conceição.

Pois bem, essa paisagem desapareceu abrupta e definitivamente do olhar atento dos remanescentes moradores da velha cidade. Agora está gravada apenas na lembrança dos são-rafaelenses e nos escritos de abnegados memorialistas, dentre os quais eu me incluo, quando da publicação do romance “O Segredo da Matriz”, vivenciado na antiga e querida cidade desaparecida.

Ruir seria a tendência natural do que restou da torre da matriz. A falta de base consistente, solapada pelo movimento das águas, aliada às agressões sistemáticas perpetradas por vândalos aos escombros do templo, aceleraram o processo de instabilidade da construção levando ao consequente desmoronamento.

Reconstruí-la é o desejo de todos. Em termos estruturais não é impossível; economicamente, nada módico. O velho campanário foi o símbolo da fé de um povo em Nossa Senhora da Conceição, e ponto turístico do município enquanto esteve de pé.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

A AMIZADE PERFEITA

Sempre desejei escrever uma crônica sobre a amizade. Quase desisti por achar que nada mais havia a aditar depois da leitura do magnífico ensaio sobre o tema, publicado pelo Pe. Ednaldo Virgílio da Cruz, mestre em Teologia Bíblica da Arquidiocese de Natal. O clérigo embasa a sua linha de raciocínio no livro Ética a Nicômaco – Livro VIII – Amizade, de autoria do filósofo grego Aristóteles.

Segundo Aristóteles, a amizade está entre as mais altas virtudes. É elemento essencial à felicidade e ao pleno florescer da vida. Existem três tipos de amizade: a fundamentada no prazer recíproco da companhia (amizade de prazer); a que se apoia na utilidade da associação (amizade de utilidade); e, a última, decorrente da admiração mútua (amizade de virtude).

De acordo com a discussão clássica de Aristóteles, quem baseia a amizade na utilidade não possui amizade verdadeira um pelo outro, porque o sentimento tem amparo no quanto de benefícios pode-se obter. A amizade cujo motivo é o prazer decorre da afeição por pessoas de graciosidade fácil. Não em virtude do caráter, mas porque lhes são agradáveis. Portanto, amizades circunstanciais.

A perfeita amizade é a que aflora entre aqueles que são bons e cuja similaridade consiste no comprazimento, pois estes desejam o bem do outro de maneira semelhante, nada fortuitamente. Não são corriqueiras amizades dessa natureza, haja vista pessoas desse feitio serem raras.

Confiança e reciprocidade são o que se depreende do ensinamento aristotélico como fundamento para a amizade perfeita. Elege-se o amigo verdadeiro como fiel depositário de seus queixumes, de suas desilusões, de seus anseios e até de suas fraquezas e medos.

Espera-se do amigo verdadeiro a correspondência de atitudes e procedimentos, mesmo em situações constrangedoras. Ao verdadeiro amigo se admoesta em particular, porém, diante de outrem toma-se o seu partido.

Diz a sabedoria popular que se conhece o caráter de uma pessoa em três circunstâncias: no jogo, no convívio em viagem ou quando se lhe empresta dinheiro.

Já entre amigos, me arrisco a dizer, que se manifesta ou não a sinceridade da amizade, diante de atitudes nas seguintes situações: quando desaba o padrão social de um deles, quando ao amigo se recorre em difícil situação financeira, e, diante do dilema de assumir postura de apoio ou defesa em favor do amigo, se em jogo estiverem interesses próprios.

A amizade verdadeira não se constrói do dia para a noite. Depende do conhecimento acumulado com a convivência de ambos, das boas ou más experiências enfrentadas e dos laços de confiança decorrentes de manifestações e atitudes de respeito, compreensão, bondade, tolerância e solidariedade. A verdadeira amizade “deve ser guardada no peito perto do coração”, como sugere a cantiga popular.

Amigo é aquele que, mesmo distante, está sempre conosco. A amizade mais profunda e verdadeira pode ser arranhada por um motivo aparentemente fútil. Porém, se essa ferida deixar cicatriz, tal qual as das feridas do corpo, nem o tempo nem a distância apagarão a nódoa. Daí a sabedoria popular afirmar ser mais fácil perdoar um inimigo, que a um amigo verdadeiro que nos feriu a alma.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

RETORNO ÀS COMPRAS

Durante este isolamento forçado, muitas mudanças ocorreram e, ao que tudo indica, permanecerão no nosso cotidiano contrariando costumes arraigados há bastante tempo. Um exemplo são as compras via on-line. As vendas pela internet cresceram mais de 100% no Brasil, no período de março a junho deste ano.

O e-commerce – modalidade de comércio onde negócios e transações financeiras são realizados via dispositivos e plataformas eletrônicas como computadores, tablets e smartphones – é uma realidade ou, na conceituação do momento, o novo normal.

As categorias que tiveram maiores crescimentos, em volume de compras, foram os produtos de Cama, Mesa e Banho (166%), Eletrônicos (169%), Brinquedos (241%), Instrumentos Musicais (252%) e o setor de Bebidas e Alimentos, que encabeçou a lista com um aumento de quase 295%, em relação a idêntico período de 2019 – ressalte-se o elevado índice de vendas de bebidas alcoólicas.

Tudo leva a crer que essa modalidade de negócio se integrará, em definitivo, ao costume do brasileiro pela praticidade, comodidade e ante a possibilidade de uma análise mais apurada na qualidade, característica e cotejamento de preços do produto visado. Se já existia uma tendência natural nessa direção comercial, a quarentena decorrente da pandemia, acelerou o processo.

Porém – sempre existe um porém -, os dissabores resultantes de muitas dessas compras, também, são parte do jogo. A seguir, alguns dos problemas mais frequentes enfrentados pelos consumidores:

– entrega fora do prazo;

– não recebimento do produto;

– receber algo diferente do que havia comprado; e,

– receber o produto danificado.

Tais situações, numa loja física são facilmente resolvíveis, o que não acontece no comércio virtual. Torna-se, sim, um problema desgastante e complexo, que demanda tempo e muito aborrecimento. Basta-nos observar nos sites especializados de reclamações para constatarmos as lamúrias de consumidores insatisfeitos.

Eu, na condição de iniciante em compras pelo e-commerce, já levei inúmeras bordoadas nos costados, até criar juízo e procurar fazer a coisa certa. Acontece de todo e qualquer atraso na entrega do produto, o vendedor culpar os Correios. Nem sempre estão com a razão, porque existem outros meios de transferências ineficientes.

Pior que a tardança na entrega, é a empresa tentar negociar a sua falha ao vender um produto esgotado no estoque, mediante a concessão de vale-crédito para a aquisição de outro de gênero diferente, por preço igual ou superior ao pago originalmente, arcando o consumidor com a diferença de valor da compra.

Criei juízo porque, agora, toda compra que faço observo antes as recomendações dos sites que tratam de avaliações de empresas. Um dos mais procurados é o ReclameAQUI.

Ali as empresas são classificadas, pela reputação, por seis categorias: Não recomendada, Ruim, Regular, Bom, Ótimo e RA 1000. Dessa forma, antes de comprar um produto ou contratar um serviço, você pode pesquisar quais são as empresas mais confiáveis e fazer um bom negócio. E mais: nada é cobrado pela consulta.

Sem mais aborrecimentos em negociações on-line, agora, o retorno às compras será no novo normal.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

PIOR É NA GUERRA

Quem foi jovem na década de 60 lembra do ditado “Pior é na guerra, que a gente morre e não se enterra”. Correlacionava-se o enunciado a uma situação dramática semelhante às vistas nas guerras, onde combatentes ficavam insepultos e esquecidos diante da agressividade e estragos causados nas batalhas.

Na cultura ocidental, não existe algo pior de ocorrer que o impedimento de velar mortos. Acontece de o pior estar acontecendo, aqui e agora, com a epidemia da Covid-19. A dor do luto sem despedida tem mexido com a saúde emocional de muita gente.

A mortandade elevada de vítimas do novo coronavírus começou na região de Piemonte, na Itália. Lá, os mortos deixaram de ser velados pelo risco iminente de contágio. Com os necrotérios dos hospitais lotados, corpos de italianos foram acomodados em containers refrigerados, em pistas de patinação de gelo e em salões de igrejas, aguardando o sepultamento.

Imagem Folha – Uol

Até esse ponto era uma circunstância. O pior viria com a proibição de velar o corpo, reverenciar o morto, prestar a última homenagem ao ente querido. De quem, sequer, deu-se o direito à proximidade do ataúde por conta da contaminação.

Tal qual numa guerra, essa tradição está sendo violada de forma sistemática nesta pandemia. O ato de observar e reverenciar o cadáver na cerimônia do velório é a certeza de que a pessoa nos deixou. A verdadeira despedida. Omitir esse ritual agrava a dor da perda podendo o pesar se traduzir em diferentes manifestações de doenças psicológicas nas pessoas.

Segundo o psicanalista e professor paulista, Christian Dunker: “Quando a gente tem numa família um corpo que é perdido, um velório que não é feito, uma despedida que não se realiza, ali, naquele espaço do irrealizável, muita coisa pode ser introduzida em um plano traumático. Em tese, é muito ruim quando a gente não tem esse momento da despedida e da experiência do corpo como morto”.

Ainda, segundo Dunker: “Sem rituais de despedida e luto, altera-se não só o cotidiano, mas a cadeia da qual fazemos parte. É isso que define a catástrofe”; e complementa, comparando os efeitos da pandemia com os decorrentes da guerra: “A guerra é um paradigma para a catástrofe, porque ela produz exatamente essa vala comum, essa impossibilidade de distinguir e valorizar cada vida, que é insubstituível”.

Manifestações dolorosas do tipo, acontecem no nosso cotidiano de vítimas do novo coronavírus. Basta atentarmos para as lamentações de parentes impedidos de se achegarem do esquife, num sepultamento: “Não me deixaram vê-lo. Não restou sequer uma fotografia para lembrarmos dele!” E por aí vão as protestações no formato de rosários de lamúrias.

Em Natal, um fato bem que caracterizou esse tipo de revolta. Família proibida de ver o parente durante a internação e depois da morte, considerou um desacato ao falecido que o condutor do rabecão, no trajeto hospital-cemitério, estivesse protegido com o uniforme padronizado. Insistiam pela vestimenta tradicional. Gastou-se muita saliva para persuadi-los a acatar a exigência da vigilância sanitária.

O fato é que o impedimento a familiares de velarem seus mortos causam marcas psicológicas profundas difíceis de extirpar. Portanto, qual o pior dano para a psique: morrer sem enterrar ou enterrar sem velar? É mais um tema a abordar.