JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

SANTO MEL NATURAL

Neste último final de semana saí em busca da vitamina do Sol – vitamina D – e do iodo do mar para suprir minhas reservas naturais escasseadas por causa do isolamento forçado decorrente da maldita Covid-19. Meu recanto é a Praia de Cotovelo, distante 24 quilômetros da capital, Natal, onde mantenho uma morada.

Na entrada do povoado existe uma banca postada na calçada de uma casa, vendendo um único produto, todo final de semana, há 14 anos. Nunca me despertou interesse de ali parar… Até a semana passada. O comerciante, um homem na casa dos 40 anos, vende mel de abelha.

Desci do carro e entabulei o seguinte papo com o dono da banca: Tem mel de abelha jandaíra? – e ele: Sim, senhor!Qual o preço do litro? – perguntei. Um tanto constrangido, ele respondeu: O litro é R$160,00. Esse mel é uma raridade, amigo. Sei que é caro, mas é puro! Se desejar, faço o teste de pureza para o senhor ver.

Aceitei o desafio e ele procedeu a operação comprobatória da pureza do produto, na minha frente. Pôs um pouco do mel numa colher, e ali lambuzou o pavio de uma vela. Acendeu-a, em seguida. Caso negasse fogo, haveria água ou outra mistura diferente no mel. Pechinchei e comprei duas porções de 250 ml, para uso medicinal.

O mel da jandaíra é um santo remédio para curar crises de garganta. Isso comprovei em 1969. Recém saído da faculdade de Engenharia, eu, funcionário do DER/RN, fui cuidar da malha rodoviária estadual na Região do Mato Grande, no Rio Grande do Norte. Cheio de gás e de entusiasmo eu percorria toda a extensão rodoviária, sob minha responsabilidade, duas vezes por mês.

Numa dessas viagens, tomado por uma baita crise de garganta, parei na sede do município de Jandaíra em busca de uma farmácia para aliviar o incômodo. Entrei na única drogaria da pequena cidade, e procurei ajuda junto ao dono do estabelecimento.

Gentilmente, ele me atendeu – engenheiros do DER sempre eram bem recebidos nas comunidades da região, porque cuidavam da manutenção das estradas, principais vias de locomoção entre municípios e com a capital – dizendo: Doutor, eu poderia lhe indicar um medicamente de laboratório, mas, se o senhor quiser ficar bom de imediato, tome duas colheres de sopa do mel da jandaíra.

Abro parênteses. Jandaíra, a cidade, está situada a margem da rodovia BR-406, no percurso João Câmara-Macau. Naquela época, a rodovia era estadual com a nomenclatura RN-4. O nome do município foi decorrência da enorme produção natural de mel de abelha jandaíra, ali existente. Com o passar dos anos, o desmatamento descontrolado reduziu a produção do mel. O golpe fatal ocorreu com a proliferação das abelhas africanas, que enxotaram as jandairas da região. Fecho parênteses.

O certo é que eu tomei as duas colheradas do mel e logo fiquei curado. Durante anos eu recorri àquele mel nas minhas crises de garganta. Como se não bastasse sarar garganta e tosse, outras qualidades curativas são atribuídas ao mel: reduz o colesterol, previne doenças cardiovasculares, favorece a digestão e atua contra prisões de ventre, por seu efeito de laxante natural.

Alertas não faltam para as consequências decorrentes do desaparecimento das abelhas do planeta. Vão desde a redução drástica de muitas espécies de plantas, passando pelo desequilíbrio dos ecossistemas, chegando ao cúmulo de perda da biodiversidade.

Até quando vamos dispor do tal santo mel natural, é uma incógnita.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

DE BIPARTIDARISMO E QUARTO PODER

A política estadunidense tem sido destaque na mídia internacional bem antes das eleições de 3 de novembro último, em razão da acirrada campanha pela presidência do país, toda ela polarizada em torno dos partidos Democrata e Republicano como se outros não existissem na nação.

Na verdade, partidos como o Libertário, o Verde e o da Constituição – os maiores dentre os menores -, em nada pesam ante o vigor de aglutinação dos republicanos e democratas que se revezam no poder desde 1852. Essa polarização tornou-se fenomenal nas eleições deste ano com números de votantes nunca dantes totalizados na história dos Estados Unidos da América.

Num país com população estimada em 330 milhões, onde não existe obrigatoriedade de votar, comparecerem às urnas quase 160 milhões de eleitores – 70% dos habitantes com idade de votar -, é algo magnífico de presenciar numa democracia.

No Brasil, o bipartidarismo existiu entre 1966 e 1979 durante o regime militar, quando todos os partidos foram extintos e seus integrantes acomodados na Aliança Renovadora Nacional-ARENA e no Movimento Democrático Brasileiro-MDB.

Hoje, estão registrados no Tribunal Superior Eleitoral-TSE incríveis 33 partidos políticos, dos quais o eleitor desconhece o significado da maioria das siglas, tampouco suas ideias, propostas e pensamentos políticos.

Até que ponto tamanha variedade de facções partidárias insufla positividade ao processo democrático de qualquer sociedade constituída, sinceramente, eu desconheço. Atrelado a esse fato, permanece uma incógnita: existiria tão elevado número de partidos sem os bilionários fundos Eleitoral e Partidário?

Outro fato inusitado nas eleições deste ano, nos EEUU, foram os canais abertos das televisões ABC, CBS e NBC, interromperem transmissão de discurso de Donald Trump e desmentirem o presidente, quando esse alegou a existência de fraude nas eleições em curso. Causou surpresa ao mundo ver os correspondentes das emissoras ABC e NBC, respectivamente, afirmarem:

– Simplesmente não há nenhuma evidência apresentada em qualquer um desses estados de que haja votos ilegais.

– Tivemos que interromper o presidente porque ele fez uma série de falsas acusações que davam a entender que houve uma fraude nas eleições e não há nenhuma evidência disso.

Não à toa apelidar o jornalismo e os meios de comunicação de quarto poder quando exerce o seu caráter meramente informativo baseado na realidade dos fatos e na objetividade – o termo quarto poder é assim aplicado porque tem como referência os Três Poderes do Estado Democrático que regem a sociedade: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.

Agindo de outra forma e sem um órgão controlador, a mídia poderá tirar proveito desse poder em benefício próprio ou favorecer outros interesses influenciando a opinião pública e afetando decisões sociais, esquecendo o modelo basilar de jornalismo independente.

Exemplar e corajosa a atitude da imprensa norte-americana no enquadramento de notícias que são levadas a conhecimento da sociedade fazendo valer a postura descompromissada em relação a grupos dominantes, e exercitando o papel de poder neutro na defesa do interesse público.

Coisas de democracias consolidadas.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

EU E AS ELEIÇÕES DOS EEUU

Em 1960, aos 16 anos de idade, juntei-me a um grupo de moleques da minha faixa etária, para panfletar em prol da candidatura de Jânio Quadros, por pura fuzarca e falta do que melhor fazer. Lembro que distribuíamos a transeuntes do Grande Ponto, no centro de Natal, broches de metal dourado no formato de vassourinhas, símbolo da campanha do ex governador paulista à Presidência da República.

Lembro também que, após a votação, no mês de outubro, assisti a contagem dos votos do Estado, por escrutinadores que ocupavam mesas espalhadas pela quadra do Palácio dos Esportes – principal palco esportivo coberto da capital – que resultou na vitória do “meu candidato” – já naquela época me estarreci com a trabalheira que dava contar votos.

Em novembro do mesmo ano, lembro de haver assistido, em noticiários noturnos transmitidos, em preto e branco, por televisor da casa de um colega morador da mesma rua que a minha, a movimentação que elegeu John Kennedy presidente dos Estados Unidos da América. Chamou-me a atenção o fato de o processo de contagem dos votos ser idêntico ao praticado no Brasil.

Desde aquele longínquo 1960, passaram-se 35 anos para que uma empresa brasileira, com tecnologia nacional, desenvolvesse a urna eletrônica que automatizou, entre 1995 e 1996, todo o processo de eleições da nação. Providência que facilitou a contagem de votos e estreitou, sobremaneira, os prazos para se obter o resultado dos escrutínios.

Devido ao aprimoramento do sistema o fato é que, hoje, no Brasil, se obtém o resultado de uma eleição para presidente da nação, e para ocupantes de ambas as casas do Parlamento, em poucas horas após o término das votações.

É inacreditável, que a mais poderosa e rica nação do planeta, que já mandou um homem à Lua, inventou a bomba Atômica, possuidora da mais avançada tecnologia da Terra e do primeiro e mais longevo sistema democrático de que se tem conhecimento, praticando votações continuadas há mais 240 anos, ainda utilize o mesmo esquema arcaico e ultrapassado de contagem de votos.

Na verdade, é de uma complicação magnífica a forma de se escolher o presidente e o vice-presidente dos EEUU. Lá, tudo ainda é regido pela primeira e única Constituição de 1787. O Colégio Eleitoral dos Estados Unidos se prende ao grupo de delegados presidenciais, que se forma a cada quatro anos, com o único propósito de escolher os dirigentes máximos da nação.

São 538 privilegiados delegados obedientes à vontade da população de eleitores que, pelo voto popular, define a maioria absoluta de votos eleitorais – 270 ou mais -, escolhendo assim presidente e o vice-presidente da República.

Críticos argumentam que o Colégio Eleitoral – ou delegados – é menos democrático do que um voto popular direto nacional. E mais: que o sistema é a antítese de uma democracia que luta por um padrão de “uma pessoa, um voto”. No meio dessa complicada equação ainda existem estados com as suas legislações próprias. Um verdadeiro “Samba do Crioulo Doido”, como definiria o saudoso Stanislaw Ponte Preta.

É, sim, cruel assistir a tal processo escrutinador na maior e mais aprimorada – será? – democracia do planeta. Processo esse que se arrasta por dias e até semanas, até a proclamação dos vencedores. Enquanto isso, eu, aqui, num país do Terceiro Mundo, exerço o obrigatório dever de votar, num piscar de olhos.

Pois é, coisa própria de povo subdesenvolvido!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

EFEITO MIGUEL MOSSORÓ

É começar o programa eleitoral obrigatório, na televisão, e vermos verbalizados rosários de promessas e propostas estapafúrdias que, além de não convencer nem aos mais incautos dos eleitores, também não causam crises de riso. Talvez, de choro, pela falta de criatividade dos absurdos propostos e prometidos.

Uma vez por outra surgem, na política brasileira, situações que funcionam como válvulas de escape da indignação do eleitor. Quer seja pelo descrédito nos candidatos, quer seja pela falta de opções confiáveis em quem sufragar os votos. Daí as catarses populares manifestadas em votos de protesto, em casos como os efeitos Cacareco, Macaco Tião, Enéas, Clodovil, Tiririca… E outros tantos Brasil afora.

O mais emblemático de todos os efeitos citados acima, foi a do rinoceronte fêmea Cacareco. A dita rinoceronte pertencia ao zoológico do Rio de Janeiro e estava cedida ao zoo de São Paulo. O jornalista Itaboraí Martins, em protesto contra o baixo nível dos concorrentes à edilidade de São Paulo, capital, em 1959, lançou o nome de Cacareco que obteve 100 mil votos – o partido mais votado não passou dos 95 mil.

Em 1988, foi a vez do grupo humorístico Casseta & Planeta lançar o chimpanzé do zoológico do Estado, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro. O macaco Tião ficou em terceiro lugar na disputa com 400 mil votos. Tião não era nada simpático, e se divertia lançando suas fezes nos visitantes que o procuravam no zoológico. Morreu em 1996, e o prefeito da cidade, César Maia, decretou luto oficial.

O efeito Enéas Carneiro – “Meu nome é Enéas!” – foi um fenomenal exemplo de voto de protesto que o elegeu como o deputado federal mais votado do país, em 2002, pelo PRONA paulista. Os mais de 1,5 milhão de votos alçaram à Alta Câmara, além de Enéas, outros cinco candidatos. Um deles, com apenas 275 votos.

Em 2006, Clodovil Hernandez tornou-se o deputado federal mais votado do país com quase 500 mil votos. Nas eleições de 2010, pelo voto de protesto ou sentimento de descaso com o Congresso Nacional, Francisco Everaldo Oliveira Silva – o palhaço Tiririca – se elegeu com mais de 1,3 milhão de votos e arrastou consigo mais quatro candidatos a deputados de seu partido.

O Rio Grande do Norte também conviveu com uma dessas candidaturas. Aconteceu em 2004. Diante de candidatos fortes, numa onda de protesto, um grupo de eleitores lançou o nome de Miguel Joaquim da Silva, o Miguel Mossoró, para disputar a prefeitura de Natal.

Miguel era sargento reformado do Exército Brasileiro que, induzido pelo entusiasmo grotesco de seus apoiadores, aceitou a convocação, partiu para a luta e obteve a terceira colocação no pleito, com 67 mil votos. O que caracterizou a campanha do mossoroense foram as propostas e promessas mirabolantes. Eis algumas delas:

a) fornecer leite encanado para a população de Natal;

b) construir no bairro Ponta Negra, teleférico ligando o Morro do Careca a Via Costeira;

c) instituir tempo integral nas escolas municipais e premiar os 100 melhores alunos com viagens à Disneylândia;

d) construir escada rolante de acesso ao bairro Mãe Luiza;

e) “Mãozada no turismo sexual” – turista que viesse para Natal a fim de fumar maconha, cheirar cocaína e prostituir nossas garotas, levaria mãozada do próprio Miguel Mossoró.

O carro chefe dessas propostas foi a construção da Ponte Natal – Fernando de Noronha, com 380 quilômetros de extensão. Tal qual Zé Limeira – o Poeta do Absurdo -, a singularidade das promessas de Miguel Mossoró, continham uma certa pureza nas quais o eleitor fingia acreditar.

Miguel concorreu à Câmara Federal, a deputado estadual e a vereador de Mossoró sem nunca obter um mandato. Faleceu em 2015, aos 76 anos de idade.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

ENTRE GÔNDOLAS

Não se trata aqui de nenhum passeio turístico na embarcação típica dos canais de Veneza, na Itália, ouvindo o gondoleiro cantar O Sole Mio. As gôndolas – na verdade, gondolas – em questão são aquelas prateleiras metálicas usadas para expor mercadorias nos espaços de vendas de supermercados.

Na década de 70, durante quase quatro anos, eu prestei serviços como engenheiro civil e de segurança do trabalho para o grupo Nordestão de supermercados, em Natal. Diga-se de passagem, foi uma das experiências mais marcantes de minha vida.

Na área de segurança criei a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes-CIPA e, na civil, comecei assessorando a organização na construção da segunda loja da rede, na Avenida Deodoro, na Cidade Alta. Investido na função, acompanhei o desenvolvimento do projeto, organizei a licitação e fiquei responsável pela fiscalização da obra.

Eu e diretores da empresa fizemos várias viagens a Recife, onde visitamos diversos supermercados da cidade, guiados pelo arquiteto Hélio Moreira, autor do projeto arquitetônico. Assim, Natal recebeu o mais completo e atualizado ponto de vendas do ramo, até então construído no Estado, sendo o primeiro supermercado com estacionamento subterrâneo. A inovação causou sucesso na cidade.

A primeira loja do mundo com atendimento por autosserviço, o cash and carry ou “Pague e Leve”, com preços determinados e permitindo ao cliente escolher o produto e levá-lo ao caixa, nasceu nos Estados Unidos. O advento do conceito supermercado reduziu os preços e as margens de ganho sobre as mercadorias. Claro, que logo obteve a aprovação do consumidor.

A ideia foi tão feliz, que as técnicas de vendas originais mantem as mesmas características até hoje. O modelo é repleto de rasgos de criatividade. Simples, mas eficientes.

Observem que todos os produtos de primeira necessidade – cerais, carnes, verduras, legumes… etc., são colocados no fundo da loja. Essa disposição obriga o cliente a percorrer uma infinidade de corredores de gôndolas ofertando mercadorias variadas e coloridas, seduzindo o cliente para compras não programadas.

Outro lance genial são prateleiras contendo um mesmo produto de diferentes fabricantes, arrumados de forma que os mais baratos fiquem nas prateleiras de baixo. Isso induz o comprador optar, para não se agachar, por aqueles de melhor acesso, ou seja, os mais caros expostos num primeiro plano.

A terceira loja do grupo foi edificada na Avenida Salgado Filho, no Bairro Tirol. Na semana em que ia ser inaugurada notei que um importante apoio de viga estava trincado. Consultei um calculista estrutural e ele me aconselhou a sustar o evento até repararmos a peça.

Impossível! Todos os preparativos para a abertura da loja estavam ultimados. Então escoramos a área do estacionamento comprometida e a isolamos com um tapume. Justificamos o trambolho aos curiosos, informando ser um depósito provisório para acomodar restos de materiais da obra.

Nessa loja fora projetado, a meu pedido, um nicho para exposição e venda de bebidas importadas. Sugeri que ali expusessem rótulos de licores, whiskies e vinhos tops de linha, fugindo do trivial oferecido na capital. Recebi da diretoria carta branca para a tarefa e relacionei para o setor de compras, entre outros rótulos, alguns dos vinhos première crus franceses – abaixo apenas dos grand crus, maior nível da hierarquia vinícola.

Pela primeira e única vez um supermercado do Estado, até a atualidade, pôs à venda os vinhos Château Haut-Brion, Château Latour e Château Mouton Rotchschild – três dos mais caros do mundo. Eu descobri depois, para alívio meu, que as três garrafas foram adquiridas por um extasiado e estupefato inglês, na época, gerente da britânica Algodoeira São Miguel, no Estado. Coisas da vida!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

A COVARDIA CONTINUA

No Brasil, ficou instituído o dia 10 de outubro como o Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. A data foi criada em 1980, em protesto contrário ao elevado índice de violência à mulher registrado no país.

Caracteriza-se como violência contra a mulher “qualquer ato ou conduta que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, seja no âmbito privado ou público”. A Lei Maria da Penha, em vigência há 16 anos, é o instrumento adequado ao qual pode a mulher recorrer na salvaguarda de sua integridade física e psicológica, se ameaça houver.

É bom lembrar que os tipos de condutas condenadas pela Lei não envolvem apenas a pessoa do esposo, companheiro ou namorado como agressor. Qualquer que seja a pessoa que esteja no convívio social da mulher, e pratique a violência contra o gênero MULHER, pode ser penalizado pela Lei Maria da Penha.

O assassinato de mulheres está nos poemas épicos de Homero. A violência contra a mulher ainda continua como uma das violações de direitos humanos mais disseminadas e devastadoras nos países desenvolvidos ou naqueles denominados de terceiro mundo.

“Numa mulher não se bate nem com uma flor”. Nunca se soube, no Brasil, de uma mulher ter sido agredida com uma flor. Aqui, afora os feminicídios, as mulheres são surradas com delicadezas outras, tais como: cassetetes, caçarolas, porradas, marteladas, facadas, tudo que possa machucar, ferir ou destruir a integridade física do gênero MULHER. Tampouco se respeita, aqui, essa de “quem ama não mata!”.

A decepção e a vergonha são os principais responsáveis pela omissão da mulher de externar a violência sofrida: desde a decepção de tornar público e notório que a sua união não era o conto de fadas que demonstrava ser, até a vergonha de se mostrar vítima e digna da piedade geral, principalmente, de outras mulheres.

A dor e a pressão são tamanhas, que mesmo correndo o risco de verem suas imagens enevoadas, personalidades públicas agora escancaram a covardia de seus parceiros em relacionamentos conturbados. Uma das primeiras a se expor foi a atriz Luana Piovani, denunciando o companheiro, Dado Dolabella, por agressão física.

Em 2015, a cantora Joelma enquadrou o marido Chimbinha na Lei Maria de Penha sofrendo, por muito tempo, as consequências dos maus tratos sofridos. O mais rumoroso dos casos foi o da ex-modelo, Luiza Brunet, em 2016, ao denunciar o ex-namorado, Lírio Parisotto, por agressões físicas, após convivência de cinco anos.

Em meio a socos e tapas, a ex-modelo sobreviveu com quatro costelas quebradas. Luiza teve a coragem de ir para a televisão e se mostrar, de peito aberto, ao Brasil. Em depoimento ao portal EXTRA (17/06/2020), ela assim desabafou:

“Fui muito julgada quando eu fiz a minha denúncia e sei exatamente o que isso causa na parte moral e física. Você adquire doenças por conta dessa fragilidade de ser exposta, de você contar uma desgraça que aconteceu na sua vida para a sociedade, para mostrar que a violência está em todas as classes. E você sofrer coação, julgamento, tanto da parte de quem te fez mal quanto da sociedade. Você fica com a vontade de retroceder”.

O dia 10 de outubro é também o Dia Mundial da Saúde Mental. Calha bem, porque, quem é capaz de perpetrar tais níveis de maldade contra uma mulher, não deve ter a cuca saudável. E ainda dizer que em mulher não se bate nem com uma flor… Pois sim!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

UM PANTEÃO PARA CHAMAR DE NOSSO

O proeminente filósofo irlandês, Edmundo Burke, disse: Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la. Li, sem identificar o autor, o seguinte: Um povo sem memória é um povo sem história e está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.

Eu defendo a manutenção da memória e dos valores históricos do Brasil e batalho pela criação de um Panteão de Heróis que possamos chamar de nosso.

Alguns tacharão a ideia de frescura. Tudo bem! Certamente serão cidadãos sem qualquer noção de patriotismo nem amor à memória dos que trabalharam e até se sacrificaram para que desfrutássemos de dias melhores no futuro.

O Ensino Básico sem matérias como Educação Moral e Cívica-ECM e Organização Social e Política Brasileira-OSPB, somente prejudicou a formação patriótica de nossos estudantes. Inadmissível não sabermos cantar corretamente o Hino Nacional Brasileiro, nem os que exaltam os símbolos e as datas marcantes da história do país.

Minha ideia engloba as participações do Instituto Histórico e Geográfico-IHGRN e da Academia Norte-rio-grandense de Letras-ANL, para a análise dos vultos merecedores da honraria de constarem no Panteão dos Heróis do Rio Grande do Norte. Lógico que, após o crivo do Legislativo e do Executivo.

Onde instalar o Panteão? Pensei na estrutura preparada para o Presépio de Natal, projeto de Oscar Niemayer, que nunca foi instalado. Oferecido ao Banco do Brasil para abrigar um Centro de Cultura, também não vingou. Vale a pena tentar novamente com o Panteão. Abaixo, cito alguns potiguares dignos de lá estarem:

Augusto Severo de A. Maranhão (1864-1902) – Nascido em Macaíba foi político, jornalista e aeronauta. Celebrizou-se por estudos e experiências na navegação aérea. Seus dirigíveis Bartolomeu de Gusmão e Pax serviram de base para Santos Dumont criar o 14 Bis. Faleceu com a explosão do dirigível Pax, em Paris, onde é nome de rua. Merecia ser um herói nacional, mas nós o homenagearemos como tal.

Dionísia Gonçalves Pinto (Nísia Floresta) – (1810-1885) – Nasceu em Papari, atual Nísia Floresta. Foi uma educadora, poetisa e escritora. Defensora de ideais abolicionistas, republicanas e feministas, e atuante no jornalismo e em movimentos sociais. O imortal Veríssimo de Melo a classifica como a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra. Faleceu em Ruão, França.

João Maria Cavalcanti de Brito (Pe. João Maria) – (1848-1905) – Nasceu em Jardim de Piranhas. Dedicou a vida em prol dos mais necessitados. Foi vigário em diversas paróquias do interior do Estado. Trabalhou pela libertação dos escravos o que lhe valeu o título Pai dos Negros Forros. Auxiliou as vítimas das secas e da epidemia de varíola em 1905, morrendo da mesma doença. Para muitos, é tido como um “santo”.

Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu ou Protomártires do Brasil – Título atribuído pela Igreja Católica para os trinta católicos martirizados no interior da Capitania do Rio Grande – posteriormente estado do Rio Grande do Norte -, respectivamente nos dias 16/07/1645 (Engenho de Cunhaú, em Canguaretama) e 3/10/1645 (Comunidade Uruaçu, em S. Gonçalo do Amarante).

Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) – Nasceu em Natal. Foi um historiador, antropólogo, advogado e jornalista. Passou toda a sua vida em Natal dedicando-se ao estudo da cultura brasileira. Foi autor de 31 livros e 9 plaquetas sobre o folclore brasileiro, num total de 8 533 páginas. A sua obra ganhou reconhecimento internacional. Morreu como desejava, na querida cidade onde nasceu.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

UM MILHÃO DE LEITORES

O sonho de todo escritor é conquistar um acentuado número de leitores. Acontece de essa dádiva ficar reservada, comumente, para aqueles que melhor sabem adequar as ideias e os pensamento na dita palavra escrita.

Dentre os escritores brasileiros mais lidos no mundo estão Machado de Assis, Clarice Lispector, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade. Entretanto, nenhum deles chega sequer ao rastro de Paulo Coelho, com 210 milhões de livros vendidos em 150 países, cabendo ao O Alquimista, segundo o Guinness Book, na condição de livro mais traduzido do planeta (69 idiomas).

A Bíblia Sagrada é imbatível no comparativo de maior número de edições produzidas mundo afora. Seguem-na O Peregrino, do pastor batista John Bunyam; O Livro Vermelho, de Mao Tsé-Tung e Agatha Christie – ícone dos best-sellers.

Como se tornar um bom escritor? Ah, essa é uma pergunta que não quer calar. São muitas hipóteses e conclusões à disposição do candidato a escritor. Algumas irrefutáveis, como: “Gostar de ler e escrever”. As mais comuns são: “Escrever é um dom” ou “Escrever é uma arte” e, ainda, “Aprende-se a ler e a escrever, lendo e escrevendo”.

Conta-se uma história atribuída ao escritor e crítico inglês John Ruskin (1819-1900), que exemplifica a arte da boa escrita num conto antológico. Trata-se do encontro de um feirante, com um amigo, num porto britânico:

O homem chega à feira, no cais do porto, e encontra seu amigo feirante arrumando os peixes num tabuleiro de madeira. O feirante está contente com o sucesso de seu pequeno negócio. Em poucos meses já pôde até comprar um quadro-negro para divulgar o produto.

Atrás do balcão está escrito à giz, no quadro-negro, a mensagem: HOJE VENDO PEIXE FRESCO. O visitante ouve do amigo, então, a seguinte pergunta: – Você acrescentaria algo mais a mensagem?

O homem leu o anúncio, mas calou-se. Ante a insistência do feirante para opinar sobre o texto, ele falou:

– Você notou que todo dia é sempre hoje? – e apontando para o anúncio sugeriu:

– Esta palavra está sobrando.

O feirante, consciente da opinião, apagou o advérbio e o anúncio ficou mais enxuto: VENDO PEIXE FRESCO.

– Se o amigo permite – tornou o visitante – aqui nesta feira existe alguém dando peixe de graça? Feira é sinônimo de venda. Se a banca fosse minha eu apagaria o verbo.

Assim o anúncio encurtou para PEIXE FRESCO.

– Diga-me uma coisa: por que apregoar que o peixe é fresco? – questionou o homem, já justificando – O que traz o freguês ao cais do porto é a certeza de que todo peixe, aqui vendido, é fresco.

E lá se foi o adjetivo. O anúncio ficou reduzido a uma palavra: PEIXE.

Ainda assim o homem pondera que não deixa de ser um menosprezo à inteligência da clientela anunciar que o produto ali exposto é peixe. Até um cego percebe, pelo cheiro, que se trata de pescado.

O substantivo foi apagado. Sumiram o anúncio e o quadro-negro. O feirante vendeu toda a mercadoria, e ainda aprendeu uma preciosa lição: ESCREVER É CORTAR PALAVRAS.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

SANTO DE CASA…

…não faz milagre. Esse adágio popular cai como uma luva para explicar a reação displicente de nós, norte-rio-grandenses, diante da mais significativa obra de Engenharia Civil construída em Natal, quando das comemorações do quadringentésimo aniversário de fundação da cidade.

Foto: Canindé Soares

A construção em questão é o Pórtico Monumental de Natal ou Pórtico dos Reis Magos, edificado na faixa de domínio da BR-101/RN, na divisa dos municípios Natal- Parnamirim, principal entrada da capital. Natal foi fundada no dia 25 de dezembro de 1599, sendo o pórtico idealizado para coroar as festividades de transcurso dos 400 anos da cidade.

Arrojo é a principal característica da obra. Na época não se cogitava a possibilidade de construir tão longa estrutura em concreto protendido, quando a maior referência no país era a marquise do estádio Maracanã, no Rio de Janeiro, com 32 metros de extensão.

Para vencer o espaço das seis faixas de rolamento da BR-101, e pôr a estrela natalina pairando sobre a escultura dos Reis Magos na outra margem da rodovia, o pórtico teria não menos que 60 metros de balanço. Na verdade, uma tarefa desafiadora: conceber o rabo de um cometa com a extensão de quase o dobro do maior vão livre existente no país.

Coube aos engenheiros civis José Pereira da Silva e seus dois filhos, Flávio e Fábio, a materialização da obra de arte dos arquitetos Moacir Gomes da Costa e Eudes Galvão Montenegro – a escultura dos Reis Magos foi criação do artista plástico Ziltamir Sebastião Soares DI’ Maria, o Manxa.

O que ninguém imaginava é que aquela aparente simples construção viesse constar nos anais do Guinness World Records – o Livro Guinness dos Recordes -, como o maior balanço do continente Sul-americano. Um feito extraordinário obtido por técnicos brasileiros e, também, um milagre operado por santos da casa.

O pórtico foi inaugurado no dia 30 de dezembro de 1999, na administração Wilma Maria de Faria. Embora esteja implantado em faixa de domínio de uma via federal, no convênio firmado entre a prefeitura de Natal e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte-DNIT, caberia ao governo municipal arcar com os custos da manutenção da obra.

Passados 21 anos da construção, o Pórtico dos Reis Magos carece de um monitoramento permanente em razão da complexidade da obra. Devemos ficar atentos ao depoimento de quem tem autoridade para discorrer sobre o assunto, pois concebeu o projeto estrutural motivo de admiração nacional pela ousadia do cálculo, o engenheiro e professor José Pereira da Silva. Eis o seu desabafo:

“Surgiram no bloco de sustentação da estrutura, rachaduras preocupantes que podem comprometer a estabilidade do monumento, caso não se providencie a devida recuperação, motivo de insistentes alertas meus a quem de direito”.

O pórtico é para ser preservado para as gerações futuras. Assim agindo, manteremos viva a mensagem que coroou o lançamento da bela obra de Arquitetura e Engenharia na cidade que convive com o espírito do Natal:

Que esta estrela, símbolo da mesma estrela que brilhou no céu para guiar os passos dos Reis Magos, ilumine e proteja Natal e o seu povo, renovando em cada um a fé e o orgulho de ser natalense.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

OS 43 HERÓIS BRASILEIROS

No Panteão da Pátria, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília, encontraremos o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Trata-se de um livro com páginas de aço onde estão os nomes que entraram para a história do país, mediante aprovação do Congresso Nacional.

Livro de Aço do Panteão da Pátria

Os critérios que possibilitaram a inclusão na relação de heróis e heroínas ali constantes foram subjetivos e variaram de acordo com a época. Talvez, alguns dos nomes oficiais ficassem fora do livro de aço se observados parâmetros atuais.

Dentre os 43 heróis, apenas seis são mulheres: Anna Nery (2009), Anita Garibaldi (2011), Bárbara Pereira Alencar (2014), Clara Filipa Camarão, Jovita Alves Feitosa e Zuleika Angel, a Zuzu Angel, em 2017.

Foram homenageados três grupos de pessoas integrantes da Conjuração Baiana e da Revolução Constitucionalista, ambos adicionados em 2011, e os da Batalha dos Guararapes, em 2012 – o ano citado entre parênteses corresponde ao da data de inclusão do homenageado ou grupo de homenageados no Livro de Aço.

Os demais heróis são personalidades com atuação em diversas áreas, variando desde os movimentos pro-independência, passando por ações em batalhas na salvaguarda do nosso território, na política, na literatura, na música, na tecnologia, na medicina, na defesa do meio ambiente, etc.

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, inaugurou o livro em 1992; na sequência, constam Zumbi de Palmares (1997), Deodoro da Fonseca (1997), D. Pedro I (1999), o Duque de Caxias (2003), o Marquês de Tamandaré (2004), o defensor da Amazônia, Chico Mendes (2004), Francisco Manoel Barroso, o Barão do Amazonas (2005), Santos Dumont (2006), José Bonifácio e Frei Caneca, em 2007.

Constam ainda o Brigadeiro Antonio de Sampaio (2009), o guerreiro indígena Sepe Tiaraju (2009), o padre José de Anchieta e Getúlio Vargas, em 2010; Heitor Villa Lobos (2011), Joaquim Nabuco (2014), marechal Cândido Rondon (2015), Machado de Assis e o maestro Carlos Gomes, em 2017. Em 2018, o escritor Euclides da Cunha.

Integram também o Panteão da Pátria, Manoel Luís Osório (2008), Ildefonso Correia, o barão de Serro Azul (2008), Hipólito Furtado de Mendonça (2010), Júlio César Ribeiro (2011), Domingos José Martins (2011), padre Roberto Landell de Moura e Caio Vianna Martins, em 2012.

Na sequência da lista constam Leonel Brizola (2015) – considerado um grande nome da esquerda e do movimento trabalhista brasileiro; o líder das ligas camponesas na Paraíba, João Pedro Teixeira; José Feliciano Pinheiro, fundador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB; Joaquim Francisco da Costa, e Luiz Gonzaga Pinto da Gama, escritor e intelectual atuante no movimento abolicionista brasileiro, todos em 2018.

Trata-se, repito, de relação causadora de controvérsias múltiplas, porquanto a honra e importância de nela aparecer. Exemplo: a ausência de D. Pedro II. Feito imperador com cinco anos de idade, ele não teve infância porque viveu estudando para bem servir ao país. Reinou durante 49 anos. Deposto, levou de lembrança um travesseiro cheio de terra do Brasil. Nele apoiou a cabeça ao ser enterrado, em 1891.

Também esquecida foi a sua filha Isabel, a Redentora. Devemos a ela, as promulgações das leis do Ventre Livre e Áurea, essa última, em 1888, extinguindo a escravidão no país. Faleceu aos 75 anos, em 1921. A princesa e o pai repousam no Mausoléu Imperial, na Catedral de S. Pedro de Alcântara, em Petrópolis, Rio de Janeiro.