JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

VERDADE OU MENTIRA

No centro do fogo cruzado de tantas guerras de informações, nós, simples mortais, somente desejamos saber o que é verdade e o que é mentira nessa disputa e tentar descobrir se, ao final do embate, sucumbiremos ou sobreviveremos à mortalidade da pandemia. Para tanto, urge deixar as paixões políticas de lado para esclarecer, com nitidez e honestidade, a situação do sistema de saúde do Brasil.

Dizer, se é verdade ou balela o número de pessoas contaminadas pelo coronavírus no território nacional; se, faleceram ou não, amazonenses por falta de oxigênio nas UTI’s; se faltam ou não leitos nos hospitais para enfermos da Covid-19; e, se morrem ou não pacientes em ambulâncias e nas filas por vagas em hospitais públicos.

Se o resultado da desgraça já ultrapassou os 261 mil mortos ou tudo se resume a um erro grosseiro na contabilidade dos casos; se existe ou não, uma pandemia perambulando mundo afora; se é, verdade ou miragem, a visão de pessoas vagueando pelas ruas de cidades brasileiras procurando emprego sem encontrar; e, quem falou que fábricas fecharam, que a inflação disparou ou que a pobreza aumentou.

Será real a imagem de cemitérios repletos de covas abertas, à espera de féretros, ou é teatralidade para defuntos de mentirinha; se é, verdade ou falácia, o que alardeiam expoentes da medicina, em veículos de comunicação, sobre a letalidade do vírus; e, se conhecidos e amigos nossos, cujos parentes encomendaram as suas almas, foram realmente sepultados ou estão escondidos simulando os próprios óbitos.

Como devem pais se explicar, ante filhos pequenos, sobre as mortes prematuras de avós derrotados pelo vírus maldito; qual justificativa oferecer, a crianças, sobre o impedimento delas em salas de aulas; como aliviar a dor de quem perdeu entes queridos para a Covid-19, por falta de medicamentos nas unidades públicas de saúde; ou, ainda, se é culpa de autoridades ou da fatalidade o caos instalado no país.

Proibir ou liberar aglomerações? Isolar-se ou não do mundo? Usar ou não máscara? Lavar ou não as mãos? Qual medicamento tomar ou evitar? Manter o equilíbrio até o limite do suportável ou contar com a sorte de ser ou não contaminado? Vacina sim ou não? Isso tudo não passa de um pesadelo ou somos uma nação tomada por medo desproporcional numa catarse coletiva por falta de informações precisas.

Se como cidadãos livres não merecemos tais esclarecimentos, que, ao menos, ouçam as multidões apavorados, em labirintos sem saídas, com a presença da morte nos calcanhares. Pessoas que temem que os próximos mortos sejam os seus mortos para não sentirem, nas próprias peles, a angústia do problema – reflitamos, o quanto é devastador é o efeito de mentiras e meias verdades em mentes inseguras!

Enquanto isso, legiões de desajustados psicologicamente, vítimas do isolamento espontâneo forçado e do pavor de serem atacados por um inimigo mortal invisível, em breve abarrotarão consultórios de psiquiatras e psicanalistas. Indivíduos assemelhados a zumbis ambulantes, após dias seguidos de tédio.

Desejamos ouvir explicações verdadeiras que nos tranquilizem e nos motivem ao enfrentamento da terrível peste, socorrendo-nos nas necessidades médicas em unidades de saúde pública bem estruturadas – eis um pedido humanitário e justo!

Certamente, ninguém em sã consciência, deseja integrar o escatalógico mundo de Raul Seixas e, como um maluco beleza, sentar-se num trono de apartamento com a boca escancarada e cheia de dentes, para esperar a morte chegar.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

A NOIVA DO SOL

Em junho de 2001, num ato de brutalidade insana, assassinaram o engenheiro civil César Serrão Pinto Bravo. Mataram-no, com um tiro na testa, no interior de seu gabinete de trabalho. O colega, funcionário do antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem-DNER, foi posto dentro do próprio carro e levado para um lixão na cidade de Parnamirim, onde marginais carbonizaram o corpo.

César era carioca, tinha 43 anos de idade, solteiro, trabalhava no DNER desde 1988. Há três anos morando em Natal fora tomado de apego inusitado pela cidade. Chefiava a residência do órgão em Macaíba e cuidava da malha rodoviária federal da Grande Natal. O gosto pela leitura o fez um aficionado da obra de Luis da Câmara Cascudo.

Em papo descontraído comigo, num final de expediente, esbanjou falação sobre o folclorista e seus escritos. Havia lido em transcrição do tabloide O Canguleiro, um artigo do escritor intitulado Abrindo as portas. Para minha surpresa recitou, ao pé da letra e de um fôlego só, um parágrafo inteiro do texto:

Natal, Noiva do Sol, minha cidade querida, deu-me o que sempre esperei: a tranquilidade de espírito, a paz do coração, o amor pelas coisas humildes do mundo, no meio das quais sempre vivi. Em seguida, me questionou: Por que ainda não institucionalizaram Natal como a Noiva do Sol?

Sem qualquer argumento convincente me desvencilhei da saia justa com uma evasiva qualquer. Mas, ficou-me a martelar a observação do colega. Dias depois César me procurou com uma proposta: colocar na BR-101, na altura da linha demarcatória do limite geográfico entre os municípios de Natal e de Parnamirim, uma placa rodoviária indicativa com a legenda A Noiva do Sol. Concordei, e ele ali a fincou.

Existem casos em que a empatia decorrente da denominação dada à cidade é de tal forma consolidada pela comunidade, que perpetuam marcas registradas indissolúveis. Cidade Maravilhosa, Veneza Brasileira e Cidade das Flores são alguns exemplos de títulos atribuídos a metrópoles, no caso, as capitais dos Estados do Rio de Janeiro, de Pernambuco e do Paraná, respectivamente.

Cá entre nós, o apelido Cidade do Sol anda sendo usurpado por outras capitais do Nordeste – ou seremos nós os usurpadores? – e, Trampolim da Vitória está em desuso. Até que cairia bem chamar Natal de A Noiva do Sol. A cidade possui particularidades comumente atribuídas a uma noiva: é graciosa, agradável e, apesar das agressões que sofre na atualidade, ainda se vê nela réstias de alegria.

O fato de o Sol haver celebrado o noivado com Natal, como em qualquer relacionamento, resultou de uma combinação de afinidades. Aqui, com o ar mais puro do país, o Astro Rei irradia maior luminosidade e vigor. Daí porque dentre tantas pretendentes à sua disposição no litoral nordestino, ele deixou-se seduzir pela cidade hospitaleira, de clima ameno e reconhecido domínio dos Três Reis Magos, para nela lançar seus raios com maior intensidade.

O colega falecido, a exemplo do maior escritor do Estado, foi um amante da cidade que noivou com o Sol. O folclorista manifestou sua paixão em loas, versos e prosas; já o engenheiro, sem perceber a proximidade do limiar da própria existência, estampou a dimensão de sua afeição numa placa solitária fixada à margem da entrada da cidade que adotou como terra natal.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

CARNAVAL ONTEM E HOJE

Dizem que o Carnaval teve origem na Antiguidade. A palavra vem do latim, carnis levale, cujo significado é “retirar a carne”. Está relacionado com o jejum do mundo cristão, que deveria ser observado na quaresma. Esse procedimento sacro foi-se afastando da beatitude até se transformar na mais pagã das festas populares.

O entrudo, no período colonial, é considerado uma das primeiras manifestações carnavalescas no Brasil. Em seguida vieram os ranchos, os cordões, os corsos, os bailes de salão e as escolas de samba. Com o passar dos anos outras tendências culturais foram se incorporando ao movimento, até alcançar o estágio atual.

Na mitologia grega, Momo, é tida como uma das filhas da deusa Nix – personificação da noite -, gerada sem um pai. Na Roma antiga, Momo, era representada pelo soldado mais bonito, sendo coroado e reverenciado como um rei. Já o nosso Momo surgiu no Rio de Janeiro, em 1933, na forma de um boneco de papelão, denominado Rei Momo I e Único, tornando-se um monarca de carne e osso no ano seguinte.

Carnavais são festejados em diferentes nações do planeta, porém, nenhuma absorveu melhor a essência do mundanismo momesco como o nosso país. Certamente, resultado da dosagem exata da miscigenação de raças junto a alegria inata do povo, aliadas à sensualidade provocada pelo clima tropical perene da terra brasilis.

O misto de luz, cor, bebida, fantasia, alegoria, coreografia, mulher seminua, despudor, animação, irreverência, liberdade, baixo custo, música e aceitação popular não poderia ser mais oportuno para se encaixar no objetivo de divertir multidões. Daí ninguém conseguir ficar alheio à magia do Carnaval, até porque não sobra espaço para a indiferença. A farra é para ser amada ou odiada, intensamente.

Brinquei carnavais quando ainda se respeitavam determinados limites. Onde se bebia muito sem a presença de drogas pesadas e, onde o mais próximo que se chegava dos alucinógenos de hoje era o éter contido no lança-perfume Rodouro.

Participei de blocos assaltando casas de famílias amigas, que se insinuavam para nos receber; guardo lembranças das noitadas carnavalescas nos clubes sociais, madrugadas adentro; e, das voltas seguidas nos circuitos destinados aos corsos, sob olhares atentos e insinuantes de jovens namoradeiras. Acompanhei, nas páginas d’O Cruzeiro e da Manchete, as notícias dos bailes do Rio de Janeiro e dos folguedos de rua de Recife e Olinda, babando de inveja.

Sem ser um fanático pela folia de Momo, eu vivi momentos inesquecíveis. Por essa razão, não repudio e até compreendo a tendência do Carnaval moderno. Afinal, para tudo há o seu tempo, restando aos carnavais passados ficarem armazenados nos arquivos de memórias e nas lembranças de foliões saudosistas.

Dom Helder Câmara, em 1º de fevereiro de 1975, na Rádio Olinda AM, na sua crônica radiofônica Um Olhar sobre a Cidade, conclamou fiéis a brincarem o Carnaval, dizendo:

Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o Carnaval – e complementou:

Brinque meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida.

Este ano não deu, Dom Helder, uma tal Covid-19 acabou com o Carnaval do Brasil. Quem sabe, em 2022, com uma mãozinha sua aí, junto ao Todo Poderoso…

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

ALECRIM, O BAIRRO

O Alecrim é um dos bairros mais antigos e populares de Natal. Possui personalidade própria manifestada pela continuada referência à sua história e aos valores nela contidos. O nascido ou morador do Alecrim é fiel a tais tradições, atitude essa não encontrada em outros bairros da capital. O alecrinense, puro de origem, espiritualiza um estado quase catatônico de paixão por seu bairro.

Tudo isso guarda lá suas razões de ser. O originário do Alecrim não perde oportunidade para elogiar o seu bairro: a bela Igreja de São Pedro, o mais antigo cemitério da cidade, a mais famosa feira de Natal e um comércio inigualável ao ponto de ser tipificado, com bairrismo acentuado, com este bordão: Se não encontrou no Google, no Alecrim vai encontrar.

Embora sendo a quarta maior comunidade de Natal, o Alecrim somente foi considerado bairro em 1911. Antes, fora chamado de Refoles, Alto de Santa Cruz e Cais do Sertão. É duvidosa a verdadeira origem do nome do bairro: uns atribuem a ações de Ana Alecrim – que enfeitava os caixões de “anjos”, nos enterros, com ramos de alecrim; outros, à grande quantidade do arbusto alecrim-do-campo na localidade.

Em 1941, na II Guerra Mundial, a construção da Base Naval de Natal acelerou o processo de urbanização da comunidade e, o Alecrim, começou a obter vida própria. Surgiram os primeiros cinemas da capital – São Luiz, São Pedro, São Sebastião, Paroquial – e, a boemia intelectualizada da cidade, se estabeleceu no Bar Quitandinha, situado na Praça do Relógio – atual Praça Gentil Ferreira.

Alecrinense que se preze torce pelo Alecrim Futebol Clube – o verdão -, sete vezes campeão estadual, criado em 1915, onde consta como um dos fundadores o próprio goleiro do time, Café Filho, que viria ser o 18º presidente do Brasil. O forte comércio varejista e atacadista – principal atividade econômica da comunidade – é protegido pela Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim-AEBA.

Existe outra característica do bairro, talvez a mais curiosa de todas: a numeração de ruas e avenidas. Vinte e duas das principais artérias do Alecrim foram identificadas apenas por números cardinais e tratadas, originalmente, como Av. 1, Av. 2, Av. 3… etc. Supunha-se ter sido ideia de norte-americanos quando sediados em Natal, entre 1942 e 1945, para distinguir as ruas do bairro. Tal ideia ruiu ao encontrarem registros de imóveis citando tais avenidas, bem antes da vinda dos gringos para a capital.

A confusão começou, em 1929, na gestão do prefeito Omar O’Grady, quando implantou o Plano de Sistematização da capital, criado pelo arquiteto-urbanista grego, Giacomo Palumbo. Com as ruas e avenidas bem traçadas O’Grady pediu ao IHGRN, na época presidido por Nestor dos Santos Lima, sugestões para identificar as novas artérias. Foram escolhidos nomes de presidentes da província do Rio Grande do Norte, no Brasil-Império e de tribos indígenas originárias da região.

As avenidas 1, 2, 3 passaram a ser reconhecidas como Presidente Quaresma (Basílio Quaresma Torreão), Presidente Bandeira e Presidente José Bento; enquanto as avenidas 6, 7, 8, foram nominadas como Rua dos Canindés, Rua das Caicós e Rua dos Pajeús, tal procedimento continuou em toda a sequência das avenidas numeradas.

Acontece de a numeração se tratar de uma tradição secular: os antigos alecrinenses não abdicam dos números nas artérias, tampouco a nova geração consegue se acostumar com a escolha de nomes de presidentes da província e de tribos indígenas.

Um meio termo, suponho, agradaria a todos. Bastaria adicionar nas placas de identificação dos logradouros, a numeração antiga já tão arraigada à história do bairro. Eis um exemplo: Avenida Presidente Sarmento e, abaixo, a complementação: Av. 4 ou antiga Av. 4. Fica o dito como sugestão.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

NA UNIVERSIDADE ONDE ESTUDEI

Cursei Engenharia Civil numa universidade pública, a UFRN, nos primórdios de sua federalização, em 1960. Antes dessa década, os profissionais da área em questão existentes no Estado provinham das universidades de Recife, Salvador ou Belém. Razão de eu entender a UFRN como o maior patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Norte, se assim pudermos qualificar a nossa principal instituição de ensino superior.

Venho de uma família de classe média. Meus pais, conscientes da apertada condição financeira que possuíam, nunca se permitiram gastar um centavo além de suas posses, porém, acalentavam o propósito de deixar como herança para os filhos uma educação de qualidade. E como se esforçaram nesse objetivo! Nós, os seis irmãos, fomos testemunhas incontestes da determinação de ambos. Seu Manoel e dona Laura partiram desta vida com o sonho realizado.

Ao alcançar a maioridade eu estava seguro da profissão que almejava abraçar. Nem pensar em estudar fora do Estado como fizeram amigos meus, filhos de pais abastados, seguindo a alternativa oferecida na época. Minha chance estava na UFRN. Os primeiros cinco vestibulares me deram a exata noção do grau de dificuldade que teria de enfrentar para ingressar na faculdade de Engenharia.

Na primeira tentativa eu falhei, mas, com a bagagem acumulada passei no vestibular para Economia e no concurso para o Banco do Brasil – o emprego que todo jovem de minha geração almejava. Quis derivar minha vida para essas opções como solução imediata, mas, ao sentir a frustração do meu pai, recuei.

Ao abrir mão da vaga no banco fui tachado de alienado porque descartara a maior chance da vida para um futuro confortável e seguro. Voltei-me para o estudo com ânimo renovado. Estudei com afinco, dias e noites, durante um ano. Perdi a conta das horas de sono dedicadas aos livros, varando madrugadas. Um pequeno emprego de datilógrafo permitiu-me pagar as aulas preparatórias para o desafio maior.

Aprovado no vestibular, a maratona de aprendizado seguiu com rigor, igual ou maior, ao longo dos cinco anos do curso. Na universidade pública onde estudei não existia a obrigação de dar diplomas aos aprovados no vestibular; obter-se tal registro dependia do mérito e do conhecimento de cada aluno. Não se falava em cotas sociais para pretos, pardos ou indígenas. Alunos não reclamavam da carga excessiva de trabalho exigida nas salas de aula e, ninguém, propunha ou escolhia o que estudar.

Na universidade pública onde estudei não se rompia hierarquias, tampouco se falava em lutas por democratização da instituição contra as estruturas do poder. Desconhecíamos o significado de ensino superior progressista ou igualitário, porque não tínhamos oportunidade para tais questionamentos no curto espaço de tempo livre de que dispúnhamos.

Não existiam denúncias de racismo, homofobia ou fascismo na universidade pública onde estudei. Nela vi alunos brancos, filhos de pais ricos, serem reprovados por não se enquadrarem ao rigor do ensino; também exultei observando pretos, pobres, sendo laureados pelo esforço e dedicação ao estudo.

Divisávamos, na universidade pública onde estudei, tão somente, um centro do saber; não um clube ou central política ou ideológica, porque se desenvolvia ali um trabalho árduo e ininterrupto, com alunos e professores engajados em objetivos maiores: ao estudante, estudar e aprender; ao professor, ensinar e motivar os pupilos.

Essa universidade pública na qual estudei não formou profissionais desqualificados ou frustrados pelo volume de esforço ou dedicação exigidos. Não deixou ressentimentos pelas possíveis injustiças praticadas pelos docentes nem máculas que o tempo não apagasse.

Pode até parecer piegas este depoimento, pouco importa o julgamento, porquanto é verdadeiro: quando me via angustiado diante da carga de cobranças na universidade pública na qual estudei, eu procurava incentivo na primeira estrofe do poema Canção do Tamoio, do maranhense Gonçalves Dias:

Não chores, meu filho;
Não chores que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que aos fracos abate,
Que aos fortes, aos bravos
Só pode exaltar.

Sobrevivi e enfrentaria tudo outra vez, se necessário fosse.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

A PRAÇA QUE VIROU CATEDRAL

Praça Pio X, nos anos 40

Uma das lembranças marcantes da minha infância é a Praça Pio X, desativada para a construção da Catedral Metropolitana de Natal. Margeá-la integrava meu percurso obrigatório no deslocamento de casa para a escola e vice-versa.

Eu morava na Rua Mossoró e estudava no Ginásio São Luiz, situado na Rua José de Alencar, Cidade Alta, propriedade do padre Eymard L’Eraistre Monteiro. Na memória ainda pulsa a simplicidade bucólica daquele logradouro público que ocupava um quarteirão com um hectare de área encravado ao lado do cinema Rio Grande.

A praça pouco lembrava a dos anos 40, quando foi inaugurada. Os canteiros já sem arborização, enquanto os desenhos geométricos da pavimentação combinando pedras brancas e pretas careciam de conservação. Apenas os bancos rústicos de cimento, característicos da época, ficaram preservados da ação do tempo.

Alcancei resquícios do restaurante no centro da praça, aparentando asas de um avião, e o espaço acima dele de acesso ao público por lances de escadas laterais. O ambiente ainda era dominado pelo paliteiro de postes no formato de tridentes, com globos leitosos encobrindo lâmpadas espetadas em cada uma das três extremidades das peças. Deslumbrava-me atravessar a praça iluminada à noite.

A primeira tentativa de construção da catedral aconteceu com D. Marcolino Dantas, o primeiro arcebispo de Natal. De posse de um projeto imitando templos europeus, ele conseguiu levantar algumas paredes. Entretanto, a falta de recursos fez a iniciativa soçobrar no esquecimento.

Em 1972, o jovem arquiteto Marconi Grevi apresentou aos arcebispo e bispo auxiliar de Natal, D. Nivaldo Monte e D. Antonio Soares Costa, um projeto de custo mais em conta, sem tanta pompa e priorizando a rusticidade e a praticidade.

Marconi Grevi, Engº José Pereira da Silva e D. Nivaldo Monte tendo ao fundo o projeto abandonado

Mesmo primando pela simplicidade dos materiais, a proposta arrojada da catedral, num primeiro momento, chocou a população. Não por menos, o vão livre central, em concreto protendido com 60 metros de extensão, consistiria no maior do Norte e Nordeste do país.

O templo abrigaria 3.000 mil fieis sentados e disporia de gigantesco painel representando a Aurora Matutina. O efeito da visão interna seria ao mesmo tempo algo sublime, místico e grandioso. Tudo isso em apenas 25% da área do terreno.

A catedral inaugurada em 1988

Perguntei ao arquiteto qual o significado do entrelaçamento de cruzes da fachada da catedral, e se a ideia chocara a Cúria Metropolitana. Marconi respondeu: A aprovação foi unânime após minha explicação. São três cruzes que podem ser identificadas de qualquer ângulo em que nos posicionemos. Tanto representa a Santíssima Trindade como as cruzes do Monte Calvário, local da crucificação de Cristo.

A construção começou no dia 21 de junho de 1973. Depois de 18 anos de campanhas arrecadando fundos, a obra foi inaugurada por Dom Alair Vilar de Melo, em 21 de novembro de 1988, dia de Nossa Senhora da Apresentação.

Da antiga praça, ainda viva nas minhas recordações, somente restaram os versos do samba de Airton Ramalho, Praça Pio X:

Pio X praça que desapareceu
Praça de muita recordação
Lá foi onde o nosso amor nasceu
E onde eu perdi meu coração
Praça, o teu nome vão guardar
E quem lá foi namorar
Não te esquecerá
Breve, tu serás a casa de Deus
Eis a nossa homenagem
E também o nosso adeus.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O CROQUE

Não discorro sobre o apanhado de cabelo enrolado que se fixa no alto da cabeça; tampouco sobre o combustível obtido do derivado de carvão vegetal. O coque, digo, o croque aqui referido consiste naquele golpe desferido no platô da cabeça com os nós dos dedos, também conhecido como carolo, castanha, cascudo e cocorote. O croque, no meu entendimento, é o castigo mais cruel e covarde aplicado numa criança.

Quem já foi vítima de um cocorote daqueles entende minha revolta. Existe toda uma técnica desde a preparação até a finalização do croque. Primeiro, a mão deve se posicionar como a ponta de um aríete. Fechada, com quatro dedos bem seguros pelo polegar, de tal forma que o nó do dedo médio se sobressaia dos demais. O golpe para ser perfeito deve atingir o centro do cocuruto do fedelho. O meio da moleira. Aí é tiro e queda.

Via de regra, o algoz que aplica o golpe é um adulto e, as vítimas, crianças. Vem sempre de cima para baixo. O efeito deletério do croque, de tão intenso, não se traduz apenas com palavras. Trata-se de uma dor forte, intensa e momentânea, embora o machucado permaneça por horas ou dias.

A pancada ao atingir determinada extremidade nervosa aciona um circuito elétrico que, em milésimos de segundo, percorre toda a extremidade do corpo da cabeça à ponta do pé. Dependendo da violência, desconecta o controle da bexiga ou antecipa a programação biológica da evacuação. Acredito que o croque una a raça humana em torno do quesito coisa mais detestável.

Dias atrás presenciei, num logradouro da cidade, um pai que na ânsia de calar o filho chorão, lhe desferiu tamanho cascudo que fez o fedelho se acocorar de dor. Lembrei-me, então, de todos os cascudos de minha vida. Nunca apliquei um único cocorote nos meus filhos. Nem cocorote, nem peteleco ou piparote – outra pancada dolorosa para punir crianças rebeldes.

Para quem não sabe, peteleco é o golpe infame desferido nas costas da orelha do indivíduo, decorrente da liberação da tensão imposta ao dedo médio pelo polegar. O dedo escapa como uma catapulta. Dói menos que o cocorote, porém, em compensação, deixa um ardor desgraçado na orelha.

De todos os cascudos dos quais fui vítima, um em especial o quengo nunca esqueceu. O cenário era a cidade de Natal, em 1956. Eu estudava no Colégio São Luís, de padre Eymard, na Rua José de Alencar. Era o mais franzino da turma e alvo contumaz das gozações dos colegas.

Reinava absoluto no colégio um estudante de compleição avantajada, temido por todos. Quem ele escolheu para servir de escada para as suas gaiatices? Eu, claro! Escrevia não lia, o cocorote comia. De minha mãe a recomendação era a seguinte: “Se apanhar no colégio, apanha aqui, também!”. Sabendo-me incapaz de enfrentar o brutamonte, de igual para igual, eu vivia meu dilema atroz: falar ou não em casa acerca das agressões sofridas? Optei por dar um basta à incômoda situação.

A desforra aconteceu quando padre Eymard recebeu de doação alguns caminhões de paralelepípedos para pavimentar a quadra de esportes. Por economia, ele estabeleceu como aula de educação física o transporte das pedras, da rua para dentro do colégio. A tarefa sobrou para a molecada masculina.

Eu, magricela, de calção e sapatos fui, mais uma vez, ridicularizado pelo grandalhão. Humilhado, postei-me atrás do meu algoz, acompanhei-o na demonstração de sua força carregando dois paralelepípedos de uma só vez e, juntos, soltamos nossas pedras. Ele, na pilha formada no pátio do colégio; eu, no seu pé direito, “acidentalmente”.

Resultado: retiraram-me do colégio sem contestação de minha parte. Nunca mais apanhei, porque nunca procurei briga. Elegi a paz e o amor à vida.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

LAURAS

Uma ex-gerente da agência bancária onde opero chama-se Laura. Certa vez, por mera curiosidade, perguntei-lhe: “Você gosta do seu nome?”. Dela ouvi um sonoro “Adoooro!”. Senti sinceridade e entusiasmo naquela resposta. Trata-se, na verdade, de um nome que traduz expressividade e poder sem perder a feminilidade. Durante um bom tempo, caiu em desuso ou, como diríamos antigamente, ficou démodé nominar filhas Lauras.

Laura vem do latim e significa coroa de folhas de louro. No passado era comum batizar meninas de todas as classes sociais com essa denominação. Isso embalado no costume popular de designar filhos com alcunhas de mártires do cristianismo, após canonizados. Um exemplo dessa inclinação vem do século VIII, quando a abadessa Laura de Córdoba, sacrificada por mulçumanos num banho de óleo fervente por não renegar sua fé no cristianismo, obteve a santificação.

Outro motivo para a proliferação desse nome ocorreu no século passado com a beatificação de Laura Vicuña (1891-1904), chilena de Santiago, falecida e enterrada na Argentina aos 13 anos de idade, considerada a padroeira de vítimas de incesto e de maus-tratos.

Abro parêntese. No dia 12 de maio de 2013, o Papa Francisco canonizou, na Praça de São Pedro, os primeiros santos de seu pontificado. Dentre eles, madre Laura Montoya, colombiana, venerada como Laura de Santa Catarina de Sena (1874 – 1949). A iniciativa, certamente, provocou nova onda de batismo de Lauras na América do Sul. Em 2020, Laura voltou à moda, sendo o nome mais escolhido nos cartórios do Registro Civil do Brasil, abaixo apenas de Helena e Alice. Fecho parêntese.

A incidência de Lauras famosas em outros países de língua latina é maior do que no Brasil. Principalmente nas artes cênicas, no show business e nas passarelas. Eis algumas delas: Laura Linney e Laura Herring, atrizes norte-americanas; Laura Zapata, atriz mexicana; Laura Pausini, cantora e compositora italiana; e, Laura Sánchez, atriz e modelo espanhola. Laura Chinchilla, 61 anos, cientista política, foi presidente da Costa Rica de 2010 a 2014.

No Brasil, as Lauras de destaque também pertencem ao teatro, ao cinema e a TV: Laura Cardoso, 93 anos, paulista, atriz pioneira da televisão brasileira; Laura Neiva, 27, paulista, atriz e modelo; Laura Barreto, 19 anos, atriz carioca; e, Laura de Vison, na verdade Norberto Chucri David, carioca, artista e transformista, considerado a musa do underground, falecido aos 68 anos de idade, em 2007.

Na música popular brasileira houve exaltações a Lauras, sim senhor! No meu entender a mais bonita foi “Laura”, composição de Braguinha, interpretada na voz de Jorge Goulart e, depois, nas de Agnaldo Timóteo e Emílio Santiago. A mais ouvida foi a “Lady Laura” de Roberto Carlos, homenagem prestada à sua mãe. Outra “Laura”, não tão famosa, foi uma composição de Fernanda Brum, em comemoração ao nascimento da filha.

Segundo a numerologia, a força do nome Laura produz transformações expressivas no caráter feminino. Torna-as otimistas e afetuosas, criativas e comunicativas. São mulheres de personalidade forte e de grande senso de responsabilidade. A descontração e o bom humor as mantem sempre jovens não importando a idade que tenham.

Não sei se a gerente do “Adoooro!”, citada no começo deste texto, cultiva tais predicados. Quanto a mim, posso assegurar que identificava todos eles no comportamento e nas decisões de dona Laura, minha falecida mãe.

Som Brasil Braguinha, Emílio Santiago – Laura

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O PARAISO É AQUI

É difícil sair da lembrança do natalense a propaganda inovadora e agressiva lançada pelo Motel Tahiti, que funcionou entre 1974 e 1995, no Bairro Capim Macio. A partir da criatividade do logotipo verbal que marcou o empreendimento financiado com dinheiro do BDRN: Motel Tahiti: O paraíso é aqui!

A assertiva guardava lá suas razões de ser, pois o produto oferecido pelo irreverente pernambucano Alcyony Dowsley, primou pela qualidade durante os 21 anos de existência.

Possuía conforto, higiene, segurança, privacidade e boa comida. Dispunha de grupo gerador próprio, poços tubulares, maquinas de fabricar gelo, de lavar e de esterilizar roupas; saunas, piscinas automatizadas e outras inovações tecnológicas da época para melhor funcionamento do empreendimento e bem-estar da clientela.

Segundo declarava o empresário “A roupa daqui é mais esterilizada do que nos hospitais da cidade” ou “Pode faltar água e luz em Natal, menos no Tahiti”.

Em depoimento à revista RN Econômico, em junho de 1984, o jornalista Vicente Serejo assim se expressou: Alcyony é um profissional numa terra de amadores. O Tahiti tem a neurose da perfeição. Sua campanha alegre e bem-humorada conquistou a opinião pública. Além disso, o Tahiti tem uma das melhores cozinhas de Natal. Ir ao motel hoje é como ir a um restaurante. Graças ao Tahiti, motel não é mais visto como pecado.

A prática de casais casados frequentarem o Motel Tahiti tornou-se corriqueira. Quer por curiosidade das esposas, quer por comemoração de datas especiais, quer para apimentar o matrimônio ou, apenas, para terminar uma noitada com uma boa refeição num ambiente mundano.

Eis algumas das mensagens de duplo sentido das campanhas publicitárias levadas a efeito pelo Motel Tahiti. Segundo pessoas próximas do proprietário, tudo produção da mente fértil de Dowsley:

– Na Semana Santa: Não é peixe nem é carne, pode comer à vontade.

– Promoção de almoço executivo: Coma duas e pague uma.

– No período Junino: Acenda a sua fogueira.

– Campanha contra o fumo: Seja homem! Deixe de fumar! Esse tabaco mata.

– Vaguejada de Jucurutu: O bom derruba dentro.

– Incentivo ao turismo: Turista merece casa, comida e roupa lavada. Carinho nele.

– Dia das mães: Pai, leva mãe para o Tahiti, ela também merece.

– Campanha de vacinação: Vacine o cachorro do seu marido – Raiva mata!

– Incentivando o matrimônio estável: Não troque de mulher. Troque de ambiente.

Quando Aureliano Chaves visitou Natal em campanha para a sucessão de João Figueiredo na Presidência da República, a comitiva do então vice-presidente se deparou, em pontos estratégicos do percurso estabelecido pela comitiva, com a seguinte mensagem: Aureliano, meu amor! – Motel Tahiti.

Para melhor cuidar do empreendimento, o proprietário residia no próprio motel. Alcyony Dowsley faleceu em 2001. No local onde funcionou o motel construíram uma lagoa de captação. Lançando mão do estilo bem-humorado do empresário, bem que caberia ali uma placa indicativa dizendo: Motel Tahiti: O paraíso foi aqui!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

NO TEMPO DO HIPPIE DRIVE-IN

O Hippie Drive-in foi um empreendimento deslocado de seu tempo, que existiu em Natal entre 1967 e 1974. Não era clube nem restaurante nem boate, mas uma mistura de tudo isso e mais alguma coisa.

Consistia numa área de lazer com 40 mil metros quadrados abrigando bares, restaurantes, boates, parque de diversão, quiosques para vendas de guloseimas, zoológico e um cine drive-in onde casais enamorados trocavam carícias dentro de carros com privacidade e segurança.

Durante o dia o ambiente era menos mundano. Viam-se famílias se divertindo nos equipamentos do parque -entre os quais uma roda-gigante-, consumindo baganas nos quiosques ou visitando o zoológico. Isso mesmo, um pequeno zoológico, o primeiro e único a existir em Natal.

No zoológico do Hippie conviviam onça-pintada, tamanduá-bandeira, anta, cotia, porco-espinho, urubu-rei, faisão e outras variedades de aves. Nos restaurantes serviam iguarias desconhecidas do paladar local como escargot e caviar, e bebidas como tequila e cervejas importadas – 15 marcas de 8 países.

Mas, a motivo do êxito do Hippie Drive-in estava nas duas boates. Uma ao ar livre e outra reservada. O sucesso dessa última era a luz negra, a primeira da cidade. O efeito da iluminação estroboscópica causava um misto de encantamento e empolgação ao frequentador casual ou contumaz da boate.

Os casais bailavam sob a sensação de estarem tremendo ou se movimentando aos saltos e isso levava a todos para a pista de dança. O gim com água tônica era o pedido comum de seus habitués, devido o efeito brilhoso decorrente da incidência da luz negra sobre a bebida.

Entretanto, o sucesso ficava por conta de garotas desinibidas que, proposital ou distraidamente, fossem para o dancing com roupas íntimas brancas. O sutiã e a calcinha ficavam evidenciados do restante da vestimenta pela ação da luz negra, deixando as curvas do corpo bem delineadas causando o efeito sensual almejado por elas. Por lá se apresentavam o Impacto 5, The Jetsons, Infernais, Os Primos e outros conjuntos da capital e de fora do Estado.

Detalhe interessante: todos os garçons empregados no complexo eram homossexuais. Naquela época, a intolerância contra gays era gritante, e isso os tornava naturalmente retraídos. Talvez a discrição decorrente dessa postura os tornassem as pessoas adequadas para atender os casais no drive-in, quando estivessem aos “amassos” em seus carros.

Aos visitantes que desejassem uma lembrança encontravam à disposição, nas mesas, um pires pintado à mão pela artista plástica Lourdes Guilherme, com a inscrição “Este eu roubei do Hippie Drive-in”.

A ideia saiu da cachola do empresário Luiz Carlos About Galvão. Segundo comentários, ele se espelhou em algo idêntico visto na cidade do México. Não cobravam entrada, mas exigiam consumação.

Eram comuns excursões de Pernambuco e da Paraíba, porque não existia nada semelhante no Nordeste. O ambiente chegou a acomodar, de uma só vez, 1.800 pessoas, algo inacreditável para casas de shows de meio século atrás.

Luiz Carlos fechou o complexo de divertimento por conta da concorrência nas redondezas e, também, porque abrira o “Kazarão”, outra iniciativa sua em evidência na Avenida Campos Sales. Repito, o Hippie Drive-in foi um empreendimento para além de sua época. Funcionou em local ermo da atual Av. Roberto Freire na altura do Sea Way.