JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

CAFÉ FILHO, O ESQUECIDO

O Rio Grande do Norte também colocou na Presidência da República um de seus filhos. Trata-se de João Fernandes Campos Café Filho – mais conhecido por João Café ou Café Filho -, nascido em Extremoz, na Região Metropolitana Natal.

Foi um mandato curto, apenas 1 ano e 76 dias, entre 25 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955, em decorrência do suicídio de Getúlio Vargas, do qual era o vice-presidente, na Quarta República – república populista iniciada em 1946 e finalizada em 1964 com o Golpe Civil-Militar.

Café Filho foi o primeiro presbítero a assumir a presidência da República. Filiado ao Partido Social Progressista, do qual foi também um dos fundadores, se elegeu deputado federal por duas legislaturas representando o Rio Grande do Norte.

Na primeira, em 1934, não concluiu o mandato porque, para não ser preso, exilou-se na Argentina entre 1937 e 1938, por críticas feitas ao Golpe de 1937. Eleito novamente em 1945, ao concluir o mandato, foi o escolhido do partido para ser o vice-presidente de Getúlio Vargas, na sua terceira passagem pelo Catete, numa indicação de Ademar de Barros, governador de São Paulo, em troca de apoio ao candidato gaúcho.

– Eu saía da adolescência, quando avistei o vice-presidente Café Filho caminhando pelo centro de Natal. Aproximei-me dele e o abordei. Expus-lhe meu projeto de realizar um filme sobre crianças desassistidas intitulado Filhos da Rua. O vice-presidente gostou da ideia e, semanas depois, para minha surpresa, recebi uma passagem aérea para tratar do assunto no Rio de Janeiro.

Esse testemunho é do jornalista Felinto Rodrigues, que ainda hoje nutre verdadeira admiração por Café Filho. Ele complementa seu depoimento, dizendo: Quando residi no Rio de Janeira, na década de 60, era comum encontrar Café Filho numa parada de ônibus, esperando condução para Copacabana, onde morava no Posto 6.

Ao se afastar da Presidência da República, em novembro de 1955, por questão de saúde, Café Filho ficou desempregado. O então governador Carlos Lacerda o amparou com o cargo de ministro do Tribunal de Contas da Guanabara, onde ele permaneceu até a aposentadoria, em 1969. Café Filho faleceu em fevereiro de 1970, no Rio de Janeiro, aos 71 anos de idade.

Epitácio Pessoa (Paraíba), Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto (Alagoas), José Linhares e Castelo Branco (Ceará), citando apenas alguns ex-presidentes nordestinos do Brasil, ao deixarem os mandatos foram homenageados, nos seus estados, com os nomes em cidades, pontes, rodovias, aeroportos, avenidas, ou com bustos em praças ou edificações públicas, merecidamente.

Ao passo que a Café Filho, coube apenas a homenagem de ter o nome atrelado a uma avenida à beira-mar, em Natal. Porém, poucos conhecem a dita artéria pelo nome do ex-presidente. Batizaram-na de Avenida Praia do Meio. Opiniões diferem quanto à concessão de homenagens a certos ex-presidentes do Brasil, porém, nada lhes tira a honraria de poderem afixar as suas fotografias no mural do Palácio do Planalto.

Felinto Rodrigues encabeça uma campanha para erguer uma estátua de Café Filho, na Praça 7 de Setembro, no centro de Natal, entre as sedes dos três poderes do Estado. Segundo o jornalista, existe destaque na Câmara Municipal de Natal, propositura do vereador Ney Lopes, para a confecção do monumento. Menos ruim.

O 18º presidente do Brasil é, hoje, um esquecido no seu próprio Estado. Haja ingratidão para com o nosso João Café.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

MEU PRIMEIRO CARRO

Em 1987 foi lançado um comercial da Valisère que marcou uma época. Tratava-se, em resumo, de uma adolescente num vestiário feminino observando que ali somente ela não usava sutiã. Ao chegar em casa, emburrada, encontrou sobre a sua cama uma embalagem de presente contendo a dita peça.

O olhar de surpresa e de felicidade da jovem, ao observar o corpete, é fenomenal. Enquanto isso, na telinha surgia o resultado da genialidade de Washington Olivetto contido na seguinte frase: O primeiro sutiã a gente nunca esquece.

Do primeiro carro, também, ninguém nunca esquece. Principalmente, se esse carro foi um fusca. Pois bem, o meu primeiro carro foi, sim, um fusca 1961, na cor vinho, de segunda-mão, porém, na minha concepção, empolgação e gratidão, estava nele representado um sedan Volkswagen, 0 km, novinho em folha.

Eu havia passado no vestibular para Engenharia Civil, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, quando ganhei de presente paterno o tal fusca. O maior desejo do meu pai, sócio de uma construtora de obras rodoviárias, era graduar um filho em engenharia. Talvez, para materializar o seu próprio sonho de ser engenheiro civil, possibilidade essa inexistente para quem cursara apenas o ginasial.

Depois do primeiro, outros carros vieram, os quais não sei precisar quantos foram nem as suas respectivas marcas. Porém o de cor de vinho, sem qualquer dúvida, foi o mais importante deles. Ele foi o companheiro presente nas necessidades e cúmplice silente nas peripécias de um jovem universitário, em Natal, na década de 60.

O automóvel sedan chamado Fusca, no Brasil – apelidado Carocha, em Portugal -, foi o modelo de veículo recorde de vendas em todo mundo, em todos os tempos, contabilizando ao longo de 65 anos de produção um total de 21.529.464 unidades comercializadas. Algo inimaginável na atualidade.

Lembro bem de algumas características técnicas do meu fusquinha: 2 portas, 4 cilindros, 4 marchas à frente e uma à ré, motor e tração traseiros, e refrigeração a ar. Era um carro popular, feito para o povo, para a família, comportava quatro pessoas adultas ou um casal e três filhos menores.

Rezava o manual que ele alcançava 100km/h, porém, o máximo a que cheguei foram 80 quilômetros, testando a velocidade do carro na estrada para Pirangi – praia do litoral Sul de Natal. Um recorde para mim. O bom do fusca, entre tantas outras vantagens, consistia na economia de combustível: 13km/litro.

No meu fusca eu acomodava até cinco colegas não gordos e, com certo desconforto, seis garotas. Isso sacrificando o coitado do carro, que reclamava do excesso de lotação quando da tentativa de subir aclives acentuados, como a ladeira da Rádio Poti, na Avenida Deodoro ou a ladeira do Baldo, na Avenida Rio Branco, ambas em Natal.

Naquele fusca, eu e alguns colegas de faculdade, fizemos farras homéricas: umas citáveis outras impublicáveis. Nele, fiz pequenas viagens com meus familiares ao interior do Estado; aos recantos onde nasceram nossos pai e mãe, no sertão paraibano; e, até me aventurei a ir, sozinho, à “distante” Recife.

Não sei se aquele carro ainda existe ou se ele trafega por aqui ou alhures. Sei, que durante quatro anos ele me conduziu, diariamente, sem causar maiores problemas mecânicos. Dentro dele eu vivi inúmeras emoções, ao ponto de poder afiançar, com a maior das convicções, que o meu fusca, cor de vinho, ano 1961, ter sido o carro que eu nunca esqueci.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

TUDO PELA EDUCAÇÃO

Priscila Fonseca da Cruz é a simpática diretora-executiva do movimento Todos pela Educação, fundado no Brasil em 2006. Trata-se de uma entidade privada, sem fins lucrativos, que reúne representantes de diferentes setores da sociedade em torno de um objetivo deveras crucial para o nosso país.

Integram o Todos pela Educação educadores, pesquisadores, profissionais de imprensa, gestores públicos e privados, e quem quer que tenha interesse em contribuir para que o Brasil consiga uma educação básica de qualidade até 2030. De início, a instituição opera em três vetores primordiais: planos educacionais, comunicação e mobilização.

O enorme desafio do Todos pela Educação é reduzir as desigualdades que persistem no sistema educacional público brasileiro, onde 48 milhões de alunos convivem com uma qualidade muito baixa no ensino básico, no qual apenas 7% deles, ao final do Ensino Médio, aprendem o mínimo esperado em Matemática.

É louvável o trabalho dessa paulista formada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e em Direito pela USP, que encampou a ideia de melhorar a qualidade do ensino fundamental no Brasil, em vez de trilhar uma carreira de sucesso nas profissões em que se especializou.

Priscila acredita que somente mediante uma boa Educação evitaremos de continuarmos travados no subdesenvolvimento e nas desigualdades sociais. Ela defende o direito do estudante de aprender com professores mais bem qualificados. É hoje, sem qualquer dúvida, a maior autoridade brasileira em Educação.

A bandeira de Priscila é de uma verdade tão palpável que clama aos céus ou, como diria Nelson Rodrigues: “é o óbvio ululante”. Quem não concorda que a Educação é a base do desenvolvimento e que é fundamental para a transformação de uma nação.

Miremo-nos em exemplos de quatro países da Ásia: Coreia de Sul, Cingapura, Taiwan e Hong-Kong – os chamados Tigres Asiáticos. O desenvolvimento econômico desses países contou com o apoio de seus governos na infraestrutura básica – transporte, comunicação e energia -, e maciços investimentos em educação e na qualificação profissional.

Por que não se tem o mesmo entendimento no Brasil? Qual a razão de a Educação não ser, entre nós, uma prioridade capital? A quem interessa manter o povo analfabeto? Quando jovem, eu sempre ouvia este comentário: No Nordeste, nega-se ao povo uma educação de qualidade, para mantê-lo refém de chefes políticos mediante o voto de cabresto – cabresto é trocar o voto por favores e benesses irrisórios.

Conheci Priscila Cruz ao ler recente artigo de Roberto Pompeu de Toledo. Logo me encantei pelo trabalho e dedicação dessa mulher ao me aprofundar na essência do que ela almeja e planeja para o futuro do nosso país. Uma encantadora visionária com determinação férrea e amor à pátria.

Por que não dotarmos tal educadora de asas, para que possa sobrevoar por uma área que ela bem conhece, gosta e em prol da qual dedica o seu labor. Sim, colocar Priscila Fonseca da Cruz no Ministério da Educação seria uma excelente solução técnica, capaz de engajar todos nós brasileiros na sua cruzada por uma Educação de qualidade.

Afinal, é ou não é Tudo pela Educação?

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

SÓ NOS FALTAVA ESSA

É sabido que os males que assolam a humanidade são a pobreza, a fome, o desemprego, as guerras e a destruição da natureza que, por sua vez, acarreta os desastres naturais do planeta. Como se não nos bastassem tudo isso, surgem vírus devastadores para emoldurar os cenários de desgraças pintados pelo próprio homem.

Um rápido passeio pelos registros da história, nos mostra a série de grandes epidemias das quais se tem conhecimento, e que ceifaram milhões de vidas humanas em diferentes períodos de nossa existência:

Peste bubônica – Ou peste negra, exterminou 50 milhões de pessoas na Europa e na Ásia, entre 1333 e 1351. Causada por uma bactéria comum em roedores como o rato, é transmitida ao homem pela pulga de tais animais infectados. Combateu-se com a higiene e saneamento das cidades, diminuindo a população de ratos urbanos.

Cólera – Doença identificada já na Antiguidade, se manifestou globalmente entre 1817 e 1824. Deste então, o vibrião colérico sofreu diversas mutações causando ciclos da doença de tempos em tempos. A propagação ocorre pela ingestão de água ou alimentos contaminados. Trata-se do cólera com antibióticos.

Tuberculose – Sinais da doença foram registrados em ossadas de 7 000 anos atrás. Com a descoberta do bacilo de Koch, causador da doença, o tratamento se tornou eficaz. Entre 1850 e 1950, estimam-se mortes de 1 bilhão de pessoas. Altamente contagiosa, ataca principalmente os pulmões. Antibióticos são a base do tratamento.

Varíola – A doença é conhecida desde 3 000 anos atrás. A vacina foi descoberta em 1796. Entre 1896 e 1980, estima-se que a varíola exterminou 300 milhões de pessoas. O vírus era transmitido de uma pessoa para pelas vias respiratórias. Foi erradicada do planeta desde 1980, por meio de vacinações em massa.

Gripe espanhola – Causou 20 milhões de mortos entre 1918 e 1919, na maior epidemia do vírus Influenza. Propaga-se pelo ar mediante gotículas de saliva e espirros. As vacinas antigripais previnem apenas a contaminação de formas já conhecidas do vírus, que vive em permanente mutação.

Tifo – Entre 1918 e 1922, a doença fez 3 milhões de vítimas na Europa Oriental e Rússia. A miséria dá as condições ideais para a proliferação do tifo. É transmitido quando a pessoa coça a picada da pulga contaminada. Nesse ato, introduz as fezes do inseto na sua corrente sanguínea. O tifo é tratado à base de antibióticos.

Febre amarela – Causou 30 mil mortes na Etiópia, entre 1960 e 1962. Causou grandes epidemias na África e nas Américas. É transmitida pelo mosquito infectado pelo flavivírus. Existe vacina eficaz, aplicada após um ano de idade.

Sarampo – Até 1963, a doença matava 6 milhões de pessoas por ano, e era a principal causa de óbitos de crianças. Altamente contagioso, o sarampo foi erradicado em diversos países pelo aperfeiçoamento da vacina criada em 1963.

Malária – Desde 1980 a malária causa 3 milhões de mortes por ano. A OMS afirma se tratar da maior doença tropical e parasitária do momento, atrás apenas da AIDS. Inexiste vacina eficiente, apenas drogas para tratar e curar os sintomas.

AIDS – 22 milhões de mortos deste 1981. O vírus HIV é transmitido através do esperma, da secreção vaginal e do leite materno. Destrói o sistema imunológico deixando-o a mercê de variadas infecções. Nem vacina nem cura, apenas tratamentos que inibem a proliferação do vírus, que permanece no organismo.

Coronavírus – Um vírus familiar com roupagem desconhecida. Que Deus se apiede de nós e nos livre de um surto epidêmico global. Só nos faltava essa!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

AQUI TODO DIA É DIA DE NATAL

“A árvore é de Natal” intitula texto escrito por Minervino Wanderley que me motivou a escrever este artigo. A propositura do jornalista é interessante porque dá uma repaginada na aparência da cidade. Portanto, uma boa visão, sim senhor.

Minervino sugere que se mantenha acesa, durante todo o ano, a árvore natalina implantada na praça à margem da BR-101, no bairro Mirassol, na principal entrada rodoviária de Natal, acesso obrigatório para quem chega à capital potiguar vindo do interior do estado, do Norte ou do Sul do país.

Trata-se de um artefato metálico com 110 metros de altura, iluminado por mais de 400 mil pequenas lâmpadas LED. As dezenas de fios onde estão presas as tais lâmpadas, descem do topo da estrutura e são fixados no chão, rodeando um eixo central para formar dois imensos cones sobrepostos.

As carreiras de lâmpadas acendem e apagam, intermitentemente, sob comandos eletrônicos, em movimentos sequenciados de cima para baixo e em torno da árvore, nos dando a nítida impressão de espetaculares giros luminosos em diferentes tonalidades de cores. No cimo do arranjo fica postada a Estrela de Belém.

Acesa na antevéspera do Dia de Natal e desligada após o Dia de Reis, a árvore de Mirassol se transformou num significativo símbolo da cidade que recebeu o nome da festa da natividade de Jesus Cristo.

Aqui abro um parêntese. De março de 1987 até março de 1991, integrei o quadro de engenheiros do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Rio Grande do Norte. Na época, o órgão efetuou melhoramentos na Via Costeira (RN-301), culminando o processo com moderna e eficiente sinalização rodoviária.

Nos pórticos metálicos postados ao longo dos nove quilômetros da rodovia estadual sobraram espaços para outras placas. Surgiu então a ideia de intercalarmos mensagens alusivas à cidade. Alguns imortais da nossa Academia Norte-rio-grandense de Letras emprestaram algumas sugestões, que foram muito bem aceitas.

Uma delas, porém, chamou a atenção de quem transitava pela Via Costeira. Dizia o seguinte: “Aqui todo dia é Dia de Natal” – autoria do presidente da ANL, Diógenes da Cunha Lima. Ao longo do tempo, as placas e pórticos foram agredidas pela oxidação decorrente da maresia ao longo da rodovia por falta dos cuidados adequados.

A frase do imortal, que continua viva no subconsciente do natalense, não ficou registrada em nenhum outro ponto da cidade desde a arruinação das placas e dos próprios pórticos. Fecho parêntese.

Retornemos ao assunto que motivou esta apropriação. Nunca entendi a razão da falta de uma exploração turística bem elaborada, na época natalina, na única cidade do país fundada no dia 25 de dezembro, e que carrega o sugestivo nome de Natal. Caso isso não baste, existe ainda o fato de ela ser apadrinhada dos Reis Magos.

Aproveitando a ideia de Minervino Wanderley, eu também concordo que se mantenha acesa a árvore durante o ano inteiro, mesmo com um número menor de lâmpadas para diminuir o gasto com energia elétrica.

Complementando a sugestão do jornalista poríamos diante da majestosa árvore natalina, a placa indicativa que caracterizou a condição excepcional de nossa cidade, lembrando a quem nos visita que “Aqui todo dia é Dia de Natal”.

O conceito original está reforçado; falta agora quem o concretize.

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BONITO PRA CHOVER

Recentemente ouvi de um repórter de TV numa reportagem sobre o tempo, fazer este comentário: Está bonito pra chover! Lembrei então do quanto escutava tal expressão nas minhas andanças pelos interiores do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Tratava-se da manifestação mais autêntica de esperança brotada do âmago do sertanejo, desejoso de afastar o espectro de mais um ano de seca no seu rincão.

Em vez de dizer O tempo está fechado para chover ou Nuvens indicam que teremos chuva! O nordestino simplifica a frase premonitória e benfazeja dizendo: Bonito pra chover! São nessas ocasiões e com ditos dessa natureza que se constata, no fraseado simples, caipira ou matuto, a beleza do falar do nosso povo.

O Brasil possui duas línguas oficiais: Português e Libras – Língua Brasileira de Sinais. Contudo, o Censo de 2010 contabilizou 305 etnias indígenas falando 274 línguas diferentes no país. O linguajar nordestino bem que poderia se enquadrar como dialeto regional, por conta de suas peculiaridades, caso contrário vejamos:

Artigo novo é zerado
Armadilha é arapuca
O doido é abirobado
Invencionice é infuca
O matuto é mucureba
Qualquer ferida é pereba

Falam-se em determinadas regiões do país variados dialetos. Porém, somente o palavreado do nordestino é considerado errado, pobre e até desdenhado, quando, na verdade é apenas diferente e rico.

Briga pequena é arenga
Enganação, esparrela
Toda prostituta é quenga
Rapapé é confusão
De repente é supetão
Insistência é lenga-lenga

Ninguém estranha quando o mineiro diz uai, trem, ocê, procê, barango, bobiça e ansdionte (antes de ontem). O gauchês é tão rico em expressões e gírias que nem todo gaúcho entende, mas que todos preservam como parte da tradição e do folclore de um povo miscigenado por várias etnias.

Quem é ruivo é fogoió
O tristonho é distrenado
Tornozelo é mocotó
Cheio de grana, estribado
Jarra de barro é quartinha
O banheiro é a casinha
Sem saída, “tá pebado”

Precisamos, sim, preservar e divulgar a riqueza cultural da nossa gente e região, como o fez o dramaturgo Ariano Suassuna e como se manifesta a cordelista cearense Josenir Amorim Alves de Lacerda, autora dos versos que intercalam este texto.

Se alguém é desligado é chamado de bocó,
Broco, lerdo e abestado, azuado ou brocoió,
Arigó e Zé Mané, sonso, atruado, bilé,
Pomba lesa e zuruó.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O FORTE DOS REIS MAGOS

O Dia de Reis, segundo a tradição cristã, seria aquele em que Jesus Cristo, recém-nascido, recebera a visita de três reis magos do oriente – Melchior, Gaspar e Baltazar – na noite do dia 5 de janeiro e madrugada do dia 6, a qual ficou conhecida como “Noite de Reis”.

A data marca, para os católicos, o dia para veneração aos Reis Magos, obedecendo tradição surgida no século XVIII. Nessa data encerram-se os festejos natalícios, e dita o momento para desarmar presépios e retirar enfeites atinentes à época.

Até 53 atrás o Dia de Reis era feriado nacional no Brasil, compondo com o Natal e o Ano Novo os três estágios das festas natalinas. Em 1967, nova legislação nacional suspendeu inúmeros feriados e facultativos, abrangendo o Dia de Reis e outros cinco dias santos.

Fortaleza dos Reis Magos

Em Natal, a data permaneceu como feriado municipal, coincidindo com o início da construção da histórica fortaleza militar, em 6 de janeiro de 1598, que ficou conhecida por Forte dos Reis Magos, quase dois anos antes da inauguração da cidade de Natal, em 25 de dezembro de 1599.

A fortaleza é um primor de edificação tombada como patrimônio histórico e artístico nacional. A planta do forte lembra uma estrela irregular erguida em alvenaria de pedra e cal. Suas paredes sólidas foram construídas para suportar impactos de artilharia de canhões, de naus invasoras do nosso território.

As muralhas abrigavam em dois pavimentos, quartéis, depósitos, alojamentos de oficiais e subalternos, casa de comando, casa de pólvora, calabouços, vigias nas pontas da estrela, espaços estratégicos para posicionamento dos canhões e, no centro da edificação, uma capela inexplicavelmente demolida na década de 1920.

O Marco de Touros/RN

Trata-se de um dos mais formosos e bem preservados exemplares das muitas fortalezas construídas ao longo do litoral brasileiro por nossos colonizadores. O forte é o marco da capital e cartão-postal da cidade que foi fundada no mesmo dia e batizada com o nome dado à data do nascimento de Jesus Cristo: Natal.

A edificação abriga exemplares de peças da época, como canhões, plantas e fotografias históricas e guarda o marco de Touros – um dos marcos-padrão de posse colonial da terra brasileira por Portugal, datado de 7 de agosto de 1501, que para muitos historiadores representa o registro de nascimento do Brasil.

Administrado pela Fundação José Augusto, instituição ligada ao Governo do Rio Grande do Norte, o Forte dos Reis Magos está fechado ao público há mais de um ano por conta da burocracia decorrente de uma licitação.

Durante o transcorrer do período natalino turistas brasileiros e de outros países vieram conhecer o forte, porém, neca de pitibiriba. A insensibilidade do poder público não permitiu o acesso ao nosso principal monumento histórico.

Da fortaleza tem-se uma visão privilegiada da entrada da barra, na desembocadura do Rio Potengi, tal como foi avistada pelos colonizadores. Certamente, durante toda a alta estação o Forte dos Reis Magos continuará com as portas cerradas para sedentos por conhecimento e aos amantes da história do Brasil. É uma pena!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

E AGORA, JOSÉ?

Ano novo se inicia e eu com a pergunta de sempre: E agora, José? Continuarás atormentado pelos mesmos questionamentos do ano passado? Curtirás aquele inconformismo latente, mantendo a cachola cheia de dúvidas e sendo escravo da perversa ansiedade? Ah, José! E agora? Não achas um despropósito o fato de cobrares tanto das pessoas sem olhares, primeiro, para o teu interior?

Atribuem a William Shakespeare este pensamento: “… sempre me sinto feliz porque não espero nada de ninguém. Esperar sempre dói, os problemas não são eternos, porém, sempre têm soluções, o único que não se resolve é a morte.”

Ainda em dúvida, José? Que tal escutares o que Mário Quintana tem para dizer: “De repente tudo vai ficando tão simples que assusta. A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem. As opiniões dos outros, são realmente dos outros, e mesmo que sejam sobre nós; não tem importância. Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada…”

E o poeta conclui assim o seu pensamento: “…E isso não faz a menor falta. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado e sim a vida que cada um escolheu experimentar. Por fim entendemos que tudo que importa é ter paz e sossego, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento. É só”.

Queres mais uma dose de ânimo? Escutemos então, Michelle. Sim, ela mesma, a esposa de Barak Obama: “Fracassar é parte crucial do sucesso. Toda vez que você fracassa e se recupera, exercita a perseverança que é a chave da vida. Sua força está na habilidade de se recompor”.

Aposto que estás achando tudo isso um amontoado de baboseiras, dosagens de autoajuda que somente os incautos acreditam nelas. Porém, insisto nesta preleção chata, citando agora Hermann Hesse, o escritor alemão mais lido do século XX, de onde pincei alguns pensamentos contidos em alguns de seus livros:

“Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido” ou então: “A maioria das pessoas vive também em sonhos, mas não nos próprios, eis aí a diferença”. E quanto a esta meditação, José, será verdadeira? “O homem é um ser ansioso pela felicidade; no entanto, não a suporta por muito tempo”.

Amenizemos a carga de emotividade relembrando alguém que te fez sorrir, mas que nunca considerastes como pensador. Falo de Charles Chaplin, o palhaço. Reflitas um pouco sobre o que disse Carlitos: “Nada é permanente nesse mundo cruel, nem mesmo os nossos problemas”.

Ele também falou esta verdade: “Chega um momento em sua vida que você sabe quem é imprescindível para você, quem nunca foi, quem não é mais, quem será sempre”. Outro desabafo do incrível comediante: “É saudável rir das coisas mais sinistras da vida, inclusive da morte. O riso é um tônico, um alívio, uma pausa que permite aliviar a dor”.

Sem querer parecer piegas, mas apenas movido pelo desejo de te levantar o ânimo para o ano que se inicia, nada como esta parábola de Jesus Cristo: “Olhai os lírios do campo que não trabalham e nem fiam e, no entanto, nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles. Olhai as árvores do céu que não plantam e nem semeiam, mas Deus as alimenta e as veste, quanto mais não há de alimentar a vós homem de pouca fé?”

Coragem, José, o ano apenas começou!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O MUNDO VIRTUAL

Recebi, neste final de ano, correspondência de uma associação beneficente pedindo ajuda material para mantê-la em atividade. Ao enviar o ajutório o contribuidor ficaria habilitado a acender uma vela que o credenciaria a pedir uma indulgência ao santo protetor da entidade.

O fato inusitado nesse processo consistia em não haver deslocamento para atiçar o lume, porque esse seria ligado por um simples toque de celular do doador, não importando a distância que o separasse do círio eletrônico.

Facilitar a vida do indivíduo é a tônica do momento. E já sentimos a mudança comportamental decorrente de novos procedimentos e costumes inseridos no nosso cotidiano. Num primeiro instante apareceu o computador e, em seguida, a internet. Criados como artifícios corporativos esses elementos em duas décadas assumiram a condição de acessórios particulares indispensáveis.

Aliados à telefonia celular, eles interagiram e se aproveitaram da boa receptividade de quem os possuía. À medida que a união umbilical com essas engenhocas eletrônicas se consolidava, nós nos transformávamos em miseráveis dependentes de uma virtualidade incurável.

Imaginar o espanto de quem viu a carroça ser substituída pelo carro ou com o movimento do trem sobre trilhos; de constatar a voz humana percorrendo um fio de cobre ou visualizando um avião suspenso no ar nos daria a proporção exata do sentimento que nos incomoda hoje.

A velocidade das mudanças nos deixa desnorteados e num permanente estado de perplexidade, digerindo a latente sensação de ansiedade quanto ao desfecho de tudo isso.

Geração de economia e ganho de tempo são os combustíveis dos motores que deflagram essas mudanças chamadas progresso. Algumas condutas até então indissociáveis do nosso dia a dia estão perdendo a utilidade e sumindo sem que percebamos. Tudo em nome do menor custo e da agilidade que requer a adequação aos novos tempos.

Um exemplo é o cheque – o dinheiro de plástico tomou o seu lugar. Outra vítima é o telefone fixo – em nome da praticidade está amargando o desuso. O livro também consta desse rol, pois em breve será motivo de curiosidade nos acervos de bibliotecas centenárias ou relíquias de abnegados defensores da leitura no papel.

O cheiro da tinta nas letras do jornal impresso já foi substituído pela luminosidade irritante projetadas em telas de computadores. Os Correios contam os dias para o sumiço definitivo de atividades que o caracterizaram por um terço de milênio. Cartas e telegramas foram substituídas por e-mails e por contatos de viva voz.

Das múltiplas perdas registradas pelo avanço do progresso, a da privacidade é a que mais denota preocupação. A exposição de parcela da humanidade nas redes sociais causa desassossego. Pelo caminhar das inovações nem os mais primitivos comportamentos individuais ficarão longe do alcance da bisbilhotice.

No século XIX as locomotivas, o telégrafo e o telefone encolheram o mundo. No século XX a televisão, o avião e a informática o globalizaram. Na atualidade, a internet e a telefonia celular puseram-no na era da nanotecnologia. E nós, os incomodados com a rapidez do progresso, fazer o quê? Nada! Somente aguardar silente as surpresas tecnológicas programadas para 2020.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

FILME TRISTE

Durante anos eu convivi com uma tristeza crônica enquanto outros curtiam a euforia decorrente das festividades natalinas. Isso, a partir dos meus 40 anos de idade. Sentia mais tristeza no Dia da Natividade do que no Dia de Finados.

Depois de carregar silente, por um bom tempo, o peso incômodo dessa inversão emocional, eu resolvi dar um basta na exibição anual do meu filme triste procurando as razões de ele ser projetado como um conto de Natal às avessas.

Ao descobrir não constituir o único a ficar acabrunhado no limiar de cada ano, pude melhor administrar a peculiaridade do transtorno. Tentei assumir uma nova postura para melhor participar das comemorações do Natal e do Ano-novo, se não com a alegria esperada, pelo menos com entusiasmo moderado.

A tristeza, o estresse, a depressão e o agravamento de doenças são comuns nessa época do ano. O Natal evoca lembranças da infância que não se viverá novamente e traz à tona fatos passados que deixaram tristes recordações.

No período das festividades de final de ano é quando resolvemos analisar os relacionamentos familiares: se estão bons ou em deterioração, ou se deles somente restam mágoas. A proximidade do final de cada ano aumenta a expectativa em torno da recuperação de afetos perdidos e de concretizações de expectativas futuras.

Essa tristeza ocorre também em pessoas que colocam muitas esperanças no ano seguinte, acreditando que tudo será diferente. Isso acarreta um aumento de ansiedade, contribuindo para a época ficar menos prazerosa para muitos.

O final do ano evoca sentimentos relacionados à nossa história e ao passado. Ele nos reporta ao tempo em que esperávamos o Natal e o Ano-novo para receber presentes e confraternizar com parentes e pessoas próximas. Torna-se mais difícil ao aflorar a lembrança de entes queridos ausentes ou falecidos. Aí não tem como deixar de sentir saudade de momentos salutares inesquecíveis na existência de cada um.

Sem dúvida, grande parcela da tristeza na época do Natal é alimentada pelas recordações de pessoas amadas que partiram de vez. É o momento que melhor traduz esse sentimento de perda. Basta um olhar sobre a mesa com a culinária da época e notar os presentes sob a árvore de Natal para incitar as lembranças.

Então explode a vontade de retornar ao tempo em que a casa ficava repleta de familiares, com as crianças pequenas e a alegria contagiante da festividade. A recordação comedida é salutar, porém, trocar momentos bons do presente por lembranças doloridas pretéritas é querer transformar o Natal-Alegria no Natal-Finados.

É o desejo velado de vivenciar o Natal com pensamentos voltados para as perdas e não para os ganhos. Tamanha preocupação faz esquecer o encanto e a alegria das crianças com o Papai Noel e o deslumbramento da festa. Retrai-se a satisfação de estar rodeado da família aproveitando a presença de vivos queridos para exaltar a lembrança de mortos estimados.

O Natal é nascimento e um tributo à infância e às mães. Porém não se restringe a isso. Não é apenas um momentâneo espasmo de generosidade e de bondade. Não é somente a ocasião para uma oração rápida, uma palavra bonita, para comidas, bebidas e festas.

O verdadeiro espirito do Natal é festejar a chegada do Filho de Deus entre nós, mandado para perdoar as falhas dos homens e lhes mostrar o caminho da salvação. Em síntese: o Natal não é um filme triste; o Natal é uma película alegre de exaltação ao amor.