JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

NASCE UM LÍDER

Um grande líder se forma na adversidade. Foi assim com Winston Churchill, Nelson Mandela e Martin Luther King Jr., citando apenas alguns. A coragem de enfrentar situações antagônicas é o predicado essencial para a moldagem de um líder, mesmo diante do risco de perda da própria vida, porém, jamais da dignidade.

Churchill foi um inconteste líder do século passado. Nunca tantos deveram tanto a tão poucos, disse ele, em agosto de 1940, quando jovens pilotos da Royal Air Force, se preparavam para enfrentar a superioridade da Luftwaffe, nos céus do Reino Unido, no combate conhecido como a Batalha da Inglaterra.

Antes, em maio daquele mesmo ano, ele havia proferido na Câmara dos Comuns, em declaração de guerra à Alemanha, o seguinte: Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor. Isso, 80 anos atrás. Ambas as frases entraram para a história.

Luther King Jr., pastor evangélico e ativista político norte-americano, dedicou sua existência à luta pelos direitos sociais dos negros. Eu tenho um sonho. O sonho de ver os meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele – parte de um icônico discurso proferido em Washington, em 1963. Recebeu o Nobel da Paz, em 1964. Foi assassinado em abril de 1968. É reverenciado como um dos maiores líderes negros dos Estados Unidos.

Nelson Mandela, encabeçou o movimento contra o apartheid – legislação que segregava os negros da África do Sul. Condenado à prisão perpétua cumpriu 27 anos da pena e foi libertado, por pressão internacional, em 1990. Liberto, se tornou o primeiro negro a presidir o seu país e, em 1993, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, por sua luta contra o regime de isolamento racial. Foi o maior líder do continente.

Guardando as devidas proporções com os exemplos acima, existe uma liderança ascendente no universo administrativo do país, seu nome: Luiz Henrique Mandetta. Sul-mato-grossense, 55 anos, médico, militar e por duas vezes eleito deputado federal. Contou com o apoio de associações médicas, de santas-casas e da frente parlamentar de medicina para comandar o Ministério da Saúde no atual governo.

Esse cidadão está no núcleo de um cenário catastrófico, onde a todo instante e a todo custo deve demonstrar equilíbrio emocional, coragem e determinação para consolidar as suas competência e liderança, e levar a termo a maior e mais inusitada provação na vida de qualquer profissional da medicina: uma pandemia.

Mesmo diante de um ministério sem recursos financeiros e desaparelhado por descasos de gestões anteriores, Mandetta está se desdobrando para o órgão funcionar a contento, a fim de atender os milhões de habitantes apavorados ante os efeitos devastadores do coronavírus em rápida propagação na nação.

O ministro já vinha sendo avaliado como o melhor dos auxiliares da presidência da República, obtendo respeito pela maneira como conduzia a pasta diante de tantas dificuldades. No combate ao Covid-19, Mandetta ganhou expressiva notoriedade pelas orientações corajosas e pelo uso de expedientes técnicos-científicos no enfrentamento da pandemia.

O fato de se opor, algumas vezes, aos pensamentos do presidente da República, o tem deixado desconfortável no cargo, contudo, aumentado a sua popularidade junto ao povo. Não tenho dúvidas que Luiz Henrique Mandetta é, hoje, uma liderança emergente no cenário político do Brasil. Alvíssaras!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

MUNDO NOVO

Se existe algo de positivo para aqueles de quarentena forçada por conta do coronavírus – além das tarefas agradáveis ou chatas decorrentes do ócio -, é a oportunidade de poder meditar e tentar compreender, sob diferentes aspectos, as razões de tamanha desgraça para a humanidade.

Eu, particularmente, pude refletir e ainda reflito e temo as consequências do agravamento desse flagelo sobre a parcela de habitantes desassistida do nosso país, algo próximo de 13,6 milhões de favelados instalados em áreas insalubres nas periferias das grandes cidades. Medito e temo o efeito de crises, em cascatas, nas comunidades pobres, onde até a água é escassa ou inexiste.

Medito e temo sobre a reação da população mais vulnerável do nosso Brasil, quando constatar que as famílias, os vizinhos e os amigos contaminados estão sem tratamento médico de qualidade ou, ao perceber, que nada mais pode ser feito por eles e para eles, além do pouco oferecido.

Vi, sem querer acreditar, imagens de cortejos fúnebres na Itália, onde cadáveres eram transportados amontoados em caminhões para fornos crematórios – isso num país do primeiro mundo -, e imaginei a cena em comunidades do país sem o básico da aparelhagem de saúde para fazer frente ao vírus.

A pandemia que vivenciamos se assemelha a décima praga do Egito citada no livro do Êxodo. Na narrativa bíblica, as vítimas eram os primogênitos de famílias egípcias; aqui e agora, os mártires vicejam dentre nossos pais e avós acima dos 60 anos de idade.

Nada de querer correlacionar fatos da antiguidade com o período contemporâneo. Mas, se assim ocorresse, teríamos um mundo novo sob o domínio de jovens. Suponho que eles governariam com uma visão global diferente e melhor contextualizada devido as lições tiradas do combate contra o vírus letal, ao custo de muita amargura, perdas e ranger de dentes.

Talvez a nova mentalidade eliminasse distorções em voga no planeta, criando proporcionalidades justas, evitando que tantos tenham tão pouco em relação a poucos com bens em demasia; talvez atentassem para a necessidade de saúde, educação e moradia equânimes para todos, indistintamente; talvez se incutissem do raciocínio de que o ser humano é o causador dos seus próprios infortúnios – e se o Covid-19 escapuliu de experimentos em laboratório?

No mundo novo poderia viger a Lei de Talião, a de que uma pessoa que ferisse outra deveria ser penalizada em grau semelhante, como forma de corrigir os malefícios contra a integridade física e moral dos cidadãos – dente por dente, olho por olho. Talvez descobrissem que todos os antagonismos do mundo, todos os conflitos e todas as misérias se originam do orgulho, do egoísmo e da vaidade.

São apenas reflexões sem convalidações. Sonhos atrelados ao desejo de viver num mundo novo, livre de animosidades, da falta de sensibilidade, da ânsia por poder e sem o coronavírus.

Embora afiancem que na vida tudo passa, que tudo passará, sinto que o tiquetaquear do meu relógio biológico não define apenas os horários do dia, marca também o tempo de vida que me resta sem que eu possa desfrutar das transformações advindas desse admirável mundo novo, porém, me satisfaz a esperança de que as pessoas de quem eu gosto usufruam das benesses dele.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

TIRO O CHAPÉU

É de tirar o chapéu! Expressão idiomática tipicamente brasileira que significa tirar o chapéu em respeito ou homenagem a algum ato, procedimento ou fato extraordinário digno de admiração – e quão poucos são os feitos merecedores desse preito, hoje, no Brasil.

Pois bem, existe uma classe trabalhadora atuando mundo afora, num esforço conjunto e desgastante, batalhando para atender, orientar e cuidar de pessoas com suspeitas ou acometidas pelo Covid-19.

Trata-se dos profissionais de saúde para quem eu tiro o chapéu, esperando o mesmo procedimento do público que deles necessita, e em respeito ao serviço comunitário que eles dispensam com abnegação e zelo pelo próximo.

Nunca vi tantos precisarem da assistência continuada de uma mesma categoria profissional. Tampouco, vi tanto empenho, preocupação e dedicação de uma mesma classe de trabalhadores atuando pela sanidade comum. Daí o meu louvor a todos os médicos, enfermeiros e demais agentes de saúde envolvidos com a pandemia provocada pelo coronavírus.

Poucos atentam para o detalhe de que o principal grupo de risco de contaminação pelo Covid-19 é o constituído pelos agentes de saúde. A eles competem as tarefas mais pesadas, as condições de trabalho mais difíceis, as maiores pressões psicológicas e os maiores perigos de infecções.

Na China, no auge da pandemia do Covid-19, a contabilização de mortes incluiu mais de 1.700 agentes de saúde. A exaustão e a falta de recursos médicos nos hospitais levaram a esse desastre sanitário inimaginável e inesperado.

A ficha do brasileiro ainda não caiu quanto a possibilidade de o pico da pandemia, entre nós, ser bem mais devastador do que o ocorrido na China. Basta ver exemplos de descaso quando da frequência às praias, nas manifestações públicas e aglomerações de todo tipo sem qualquer prevenção contra a moléstia da moda.

Mariângela Simão, 64 anos, pediatra e sanitarista graduada pela UFRN, diretora assistente da OMS (Organização Mundial da Saúde) em entrevista à imprensa nacional, afirmou: É irreal pensar que a crise vai acabar logo… Eu tenho visto no Brasil as pessoas minimizarem os riscos… Existe um pouco de descaso no sentido de que somente as pessoas acima de 65 anos serão afetadas…

Portanto, é hora de perguntarmos se possuímos profissionais de saúde suficientes para o enfrentamento da pandemia; se a equipe em atividade está devidamente capacitada para a missão árdua que terá pela frente; se essas pessoas estão cientes dos riscos que correm e se estão dispostas a tal sacrifício.

Esse desafio se assemelha a um sacerdócio, onde o amor ao ofício supera qualquer obstáculo, e onde a falha humana representa a ameaça de perda da própria vida. Nunca o juramento de Hipócrates, no tocante à profissão, à integridade da vida, à assistência ao doente e ao desapego pelo bem-estar pessoal, será tão testado – e igualmente cobrado -, dos profissionais envolvidos nessa empreitada.

Pelos exemplos até então observados, ainda não será nesta difícil batalha que se avizinha contra o Covid-19, que veremos quebras de compromissos assumidos com pacientes, perante a sociedade, pelos abnegados servidores da saúde.

Por isso, o ato de tirar o meu chapéu não representa apenas um reconhecimento; agrega também o agradecimento ao corpo médico brasileiro, pela ajuda à nação nesse choque de forças ante um rival invisível e mortal.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O COVID-19 CHEGOU

Pode quem quiser minimizar os efeitos deletérios do tal coronavírus em nós humanos. Eu, cá, acredito no que estou vendo. E o que vejo não é nada alentador ou subjugável a curto prazo sem usar de muita determinação e suor. Estou receoso, sim, de ser infectado. Faço parte do grupo mais susceptível à agressão inclemente da moléstia, e tomo precauções para evitar o contágio.

Isso é jogada comercial! A fome mata mais do que esse vírus! A taxa de letalidade é menor do que a da dengue, chicungunha, sarampo, febre amarela, etecetera e tal! Podem ficar com a credulidade de vocês, que eu fico com a minha desconfiança, tal qual São Tomé, acatando apenas o que estou vendo.

Imagem de microscópio do Covid-19

Gente, é impossível não atentarmos para os fatos mostrados na televisão acerca do que está ocorrendo na Itália. Não se trata de encenação ou efeitos especiais dos meios de comunicação apresentar restaurantes fechados, ruas vazias, cidades apavoradas, um país emparedado com receio de algo “insignificante”, que teimam em afirmar não ser letal, embora elimine, particularmente idosos.

Como querer tranquilizar uma população como a do Brasil, sem saneamento básico de qualidade, sem saúde pública estruturada, sem leitos ou hospitais suficientes, sem agentes de saúde especializados, sem cuidados ou informações precisas de como proceder diante dessa pandemia.

Nada de pânico! Concordo. Porém, também nada de relaxamento quanto aos cuidados a tomar para o enfrentamento dessa situação. O nosso ministro da Saúde tem se mostrado bastante equilibrado e consciente quanto aos riscos da pandemia. Ótimo! Mas ainda é pouco.

Dentro de poucos dias o contágio alcançará uma proliferação geométrica, pois é o que está acontecendo nos países onde o coronavírus chegou. Nós não somos diferentes nem melhores que as demais nações do planeta. O que nos falta é acionar a disciplina e a educação para seguir regras e procedimentos estabelecidos.

O vírus não é seletivo. Não escolhe suas vítimas em função de raça, sexo, religião, padrão social ou partido político. Em filmagem, na Austrália, foram infectados Tom Hanks e sua esposa, Rita Wilson; na Inglaterra, a ministra da Saúde Nadine Dorries, contraiu o vírus; e, no Brasil, o secretário especial de Comunicação, Fábio Wajngarten, também deu asilo ao capeta do momento.

Por qual razão nós, desimportantes mortais, estaremos imunes a ação do Covid-19? Não pensarei duas vezes para redobrar os cuidados e prevenções com vista a dificultar a entrada do tinhoso no meu organismo por vias respiratórias e mucosas.

Paremos de falar que tudo isso é armação da China para desestabilizar a economia mundial em favor deles. É verdade que foi lá que o vírus surgiu e se propagou; também é verdade que foram os chineses, uma nação de 1,4 bilhão de habitantes, os mais atingidos pela moléstia. Por outro lado, foi deles a competência para domar o contágio e reverter o quadro, antes desfavorável, em tempo recorde.

Nós somos 210 milhões de almas, quase uma sétima parte dos habitantes daquele país asiático. Teremos a mesma capacidade deles nessa empreitada? Acredito que sim. Poderemos domar essa fera assim como dominamos o vício do fumo diante da perplexidade do mundo.

Câmara Cascudo, o folclorista, falou que o melhor do Brasil é o brasileiro. Eis-nos, mais uma vez em cheque. Ponhamos a máscara e vamos à luta!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

GOSTOSA!… NEM PENSAR

O Carnaval de 2020 ficará registrado nos anais momescos como o da nudez feminina total. Sim, porque os minúsculos tapa-sexos e tapa-mamilos não escondiam nada do que encobriam. Tais desnudamentos aconteceram não apenas nas grandes agremiações carnavalescas; a moda tomou conta também de blocos, ranchos, cordões e de grande parte da movimentação ligada à folia de Momo, Brasil afora.

Ora, sempre foi assim! – dirão alguns. Não, nem sempre. A exposição exagerada, no meu entendimento, está banalizando a beleza da mulher, acabando com o mistério da insinuação e mostrando, acintosamente, o que deveria ser oferecido a conta-gotas. Vamos e venhamos: nem tanto nem tão pouco.

Enquanto isso, o empoderamento feminino está criando exageros desproporcionais. Na Alemanha, a eleição da nova miss do país teve um júri composto somente por mulheres, e não houve a prova de biquini, considerada sexista pelas feministas. As germânicas estão lutando contra a objetificação da mulher e definindo um novo tipo de censura. O que não é o nosso caso.

No Brasil, nos parece estar faltando homens na praça. A reclamação é grande, porém a diferença do número de homens para mulheres, segundo as últimas estatísticas, até que não é tão acentuada. Dos 208,5 milhões de habitantes que somos, 51,7% são mulheres e 48,3% homens. Não se trata de discrepância exorbitante.

Daí, para questionamentos distorcidos ou não, é um pulo. As mulheres insinuam que boa leva de machos, antes enrustida, saiu do armário; outra parcela, joga nos dois times; e, uma terceira, está na dúvida quanto a decisão a ser tomada: fica onde está ou assume outra opção sexual.

Neste Carnaval pulei apenas dois dias. O restante eu fiquei em casa vendo a folia pela televisão – confessou-me uma jovem bonita, bem-sucedida na profissão e esclarecida. E ela continuou com o seu desabafo: Todo homem bonito, sarado, bem vestido e com penteado e barba impecáveis com quem me deparei, se estivesse desacompanhado, esperava o namorado ou estava à procura de um.

Pode até ser exagero da jovem, mas que a reclamação é grande, essa também tem a sua razão de ser. Segundo ela, o babado do momento consiste em relacionamentos de mulheres jovens com homens mais velhos: Sugar Babies e Daddies.

Sugar Babies são mulheres que se preocupam com a aparência, gostam de se cuidar e sabem o preço da beleza. As Babies procuram homens bem-sucedidos com quem possam compartilhar e viver momentos maravilhosos. Isso, claro, com conforto, luxo, requinte e sem se preocupar com as contas.

Já o verdadeiro Sugar Daddy é um homem experiente, confiante e próspero. Um Daddy gosta de compartilhar sua riqueza, conhecimento e bons momentos com a sua Sugar Baby. Quem desfruta de um relacionamento desse tipo garante ser algo leve, solto e agradável, onde todo mundo sai ganhando – nunca confundir o Sugar Daddy com o Salt Daddy, este último, o Daddy mão-de-vaca.

Retornando ao assunto Carnaval. A nudez explícita que vimos perdeu a objetividade ao se deparar com uma plateia masculina amordaçada e manietada, pois qualquer manifestação de interesse ou lascívia externado, estaria sujeita aos rigores da lei como importunação sexual. Assobiar, isso mesmo, um mero fiu-fiu, seria mal interpretado. Um rompante de satisfação, tipo: Gostosa!… Esse nem pensar.

Fazer o que, então? Em tal situação, a tática adequada seria: calar-se, virar o rosto e imaginar que ali desfilavam irmãs carmelitas descalças. Bem feito!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

INGRATIDÃO

Nesse Carnaval usei e abusei da tranquilidade do lar. Avesso ao burburinho carnavalesco fiz um pouco de tudo o que gosto. Li, escrevi e pus em dia filmes, séries e documentários de meu interesse. Passeei, também, algumas vezes, por emissoras televisivas – as menos badaladas. A programação de uma delas me chamou a atenção: uma consulta sobre o mais nobre dos sentimentos humanos.

O entrevistado teria que apontar e justificar qual das emoções ele privilegiaria como a mais louvável e insigne – não se tratava das emoções básicas expressadas pelos nossos contornos faciais, as chamadas Big Six: felicidade, tristeza, medo, surpresa, raiva e nojo. Procurava-se, na pesquisa, o sentimento mais significativo para nós, seres racionais.

Dissecaram e tentaram justificar como as mais profundas e relevantes emoções, o amor, a amizade, a caridade, a compaixão e a empatia entre outras. Todavia, sob meu ponto de vista, cometeram uma profunda omissão esquecendo a gratidão.

O que é gratidão? Gratidão é um sentimento de reconhecimento, uma emoção por saber que uma pessoa fez uma boa ação, um auxílio em favor de outra.

Gratidão é uma espécie de dívida. A gratidão traz junto dela uma série de outros sentimentos como amor, fidelidade, amizade e muito mais. Daí se dizer que a gratidão é o mais nobre dos sentimentos.

São Tomás de Aquino escreveu um Tratado de Gratidão e, segundo ele, este sentimento contém três diferentes níveis de compreensão:

• Reconhecimento da graça ou favor recebido.

• Sensação de gratidão por ter recebido uma ajuda espontânea.

• Retribuição da graça recebida, não por obrigação, mas para permitir que outras pessoas experienciem o mesmo sentimento.

O não reconhecimento da graça; a falta de sentimento pela ajuda espontânea; ou, a falta de sensibilidade para retribuir, de alguma forma, o benefício recebido, a esses procedimentos dá-se o nome de ingratidão – a ausência da gratidão.

A verdade é que, ao nos acostumarmos com o desaparecimento da piedade, da caridade, da misericórdia no mundo, e vendo grassar a miséria e o desamor pelo próximo, a falta de gratidão se tornou um sentimento de somenos importância.

Eu sou um conformado com a falta de reconhecimento pelos favores que eu fiz ao longo da vida – se os fiz -, sem nada esperar em troca. Alegro-me quando alguém afirma ter sido beneficiado, por mim, em algum momento pretérito. O que não me entra na cachola é a perpetração continuada de atos de ingratidão de filhos com os pais, principalmente, quando os progenitores adentram na velhice.

Leon Tolstoi disse: Se seu coração é grande, nenhuma ingratidão o flexa, nenhuma indiferença o cansa. Porém, eu comungo mais com o pensamento de William Shakespeare: Ter um filho ingrato é mais doloroso do que a mordida de uma serpente! Meu intelecto não digere a ingratidão de um filho por quem o criou, amou e dele cuidou durante sua vida.

Exulto ao dizer que não fui ingrato com meus pais, pois tudo o que sou devo a eles. Para mim, no Tratado de Gratidão de São Tomás de Aquino, no terceiro nível de compreensão, no Código de Procedimentos da nossa existência, no capítulo que trata da Família, deveria constar como cláusula pétrea a obrigatoriedade da gratidão de filhos para com os pais. Sem contestação quanto ao mérito do que ali está decretado.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

CAFÉ FILHO, O ESQUECIDO

O Rio Grande do Norte também colocou na Presidência da República um de seus filhos. Trata-se de João Fernandes Campos Café Filho – mais conhecido por João Café ou Café Filho -, nascido em Extremoz, na Região Metropolitana Natal.

Foi um mandato curto, apenas 1 ano e 76 dias, entre 25 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955, em decorrência do suicídio de Getúlio Vargas, do qual era o vice-presidente, na Quarta República – república populista iniciada em 1946 e finalizada em 1964 com o Golpe Civil-Militar.

Café Filho foi o primeiro presbítero a assumir a presidência da República. Filiado ao Partido Social Progressista, do qual foi também um dos fundadores, se elegeu deputado federal por duas legislaturas representando o Rio Grande do Norte.

Na primeira, em 1934, não concluiu o mandato porque, para não ser preso, exilou-se na Argentina entre 1937 e 1938, por críticas feitas ao Golpe de 1937. Eleito novamente em 1945, ao concluir o mandato, foi o escolhido do partido para ser o vice-presidente de Getúlio Vargas, na sua terceira passagem pelo Catete, numa indicação de Ademar de Barros, governador de São Paulo, em troca de apoio ao candidato gaúcho.

– Eu saía da adolescência, quando avistei o vice-presidente Café Filho caminhando pelo centro de Natal. Aproximei-me dele e o abordei. Expus-lhe meu projeto de realizar um filme sobre crianças desassistidas intitulado Filhos da Rua. O vice-presidente gostou da ideia e, semanas depois, para minha surpresa, recebi uma passagem aérea para tratar do assunto no Rio de Janeiro.

Esse testemunho é do jornalista Felinto Rodrigues, que ainda hoje nutre verdadeira admiração por Café Filho. Ele complementa seu depoimento, dizendo: Quando residi no Rio de Janeira, na década de 60, era comum encontrar Café Filho numa parada de ônibus, esperando condução para Copacabana, onde morava no Posto 6.

Ao se afastar da Presidência da República, em novembro de 1955, por questão de saúde, Café Filho ficou desempregado. O então governador Carlos Lacerda o amparou com o cargo de ministro do Tribunal de Contas da Guanabara, onde ele permaneceu até a aposentadoria, em 1969. Café Filho faleceu em fevereiro de 1970, no Rio de Janeiro, aos 71 anos de idade.

Epitácio Pessoa (Paraíba), Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto (Alagoas), José Linhares e Castelo Branco (Ceará), citando apenas alguns ex-presidentes nordestinos do Brasil, ao deixarem os mandatos foram homenageados, nos seus estados, com os nomes em cidades, pontes, rodovias, aeroportos, avenidas, ou com bustos em praças ou edificações públicas, merecidamente.

Ao passo que a Café Filho, coube apenas a homenagem de ter o nome atrelado a uma avenida à beira-mar, em Natal. Porém, poucos conhecem a dita artéria pelo nome do ex-presidente. Batizaram-na de Avenida Praia do Meio. Opiniões diferem quanto à concessão de homenagens a certos ex-presidentes do Brasil, porém, nada lhes tira a honraria de poderem afixar as suas fotografias no mural do Palácio do Planalto.

Felinto Rodrigues encabeça uma campanha para erguer uma estátua de Café Filho, na Praça 7 de Setembro, no centro de Natal, entre as sedes dos três poderes do Estado. Segundo o jornalista, existe destaque na Câmara Municipal de Natal, propositura do vereador Ney Lopes, para a confecção do monumento. Menos ruim.

O 18º presidente do Brasil é, hoje, um esquecido no seu próprio Estado. Haja ingratidão para com o nosso João Café.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

MEU PRIMEIRO CARRO

Em 1987 foi lançado um comercial da Valisère que marcou uma época. Tratava-se, em resumo, de uma adolescente num vestiário feminino observando que ali somente ela não usava sutiã. Ao chegar em casa, emburrada, encontrou sobre a sua cama uma embalagem de presente contendo a dita peça.

O olhar de surpresa e de felicidade da jovem, ao observar o corpete, é fenomenal. Enquanto isso, na telinha surgia o resultado da genialidade de Washington Olivetto contido na seguinte frase: O primeiro sutiã a gente nunca esquece.

Do primeiro carro, também, ninguém nunca esquece. Principalmente, se esse carro foi um fusca. Pois bem, o meu primeiro carro foi, sim, um fusca 1961, na cor vinho, de segunda-mão, porém, na minha concepção, empolgação e gratidão, estava nele representado um sedan Volkswagen, 0 km, novinho em folha.

Eu havia passado no vestibular para Engenharia Civil, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, quando ganhei de presente paterno o tal fusca. O maior desejo do meu pai, sócio de uma construtora de obras rodoviárias, era graduar um filho em engenharia. Talvez, para materializar o seu próprio sonho de ser engenheiro civil, possibilidade essa inexistente para quem cursara apenas o ginasial.

Depois do primeiro, outros carros vieram, os quais não sei precisar quantos foram nem as suas respectivas marcas. Porém o de cor de vinho, sem qualquer dúvida, foi o mais importante deles. Ele foi o companheiro presente nas necessidades e cúmplice silente nas peripécias de um jovem universitário, em Natal, na década de 60.

O automóvel sedan chamado Fusca, no Brasil – apelidado Carocha, em Portugal -, foi o modelo de veículo recorde de vendas em todo mundo, em todos os tempos, contabilizando ao longo de 65 anos de produção um total de 21.529.464 unidades comercializadas. Algo inimaginável na atualidade.

Lembro bem de algumas características técnicas do meu fusquinha: 2 portas, 4 cilindros, 4 marchas à frente e uma à ré, motor e tração traseiros, e refrigeração a ar. Era um carro popular, feito para o povo, para a família, comportava quatro pessoas adultas ou um casal e três filhos menores.

Rezava o manual que ele alcançava 100km/h, porém, o máximo a que cheguei foram 80 quilômetros, testando a velocidade do carro na estrada para Pirangi – praia do litoral Sul de Natal. Um recorde para mim. O bom do fusca, entre tantas outras vantagens, consistia na economia de combustível: 13km/litro.

No meu fusca eu acomodava até cinco colegas não gordos e, com certo desconforto, seis garotas. Isso sacrificando o coitado do carro, que reclamava do excesso de lotação quando da tentativa de subir aclives acentuados, como a ladeira da Rádio Poti, na Avenida Deodoro ou a ladeira do Baldo, na Avenida Rio Branco, ambas em Natal.

Naquele fusca, eu e alguns colegas de faculdade, fizemos farras homéricas: umas citáveis outras impublicáveis. Nele, fiz pequenas viagens com meus familiares ao interior do Estado; aos recantos onde nasceram nossos pai e mãe, no sertão paraibano; e, até me aventurei a ir, sozinho, à “distante” Recife.

Não sei se aquele carro ainda existe ou se ele trafega por aqui ou alhures. Sei, que durante quatro anos ele me conduziu, diariamente, sem causar maiores problemas mecânicos. Dentro dele eu vivi inúmeras emoções, ao ponto de poder afiançar, com a maior das convicções, que o meu fusca, cor de vinho, ano 1961, ter sido o carro que eu nunca esqueci.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

TUDO PELA EDUCAÇÃO

Priscila Fonseca da Cruz é a simpática diretora-executiva do movimento Todos pela Educação, fundado no Brasil em 2006. Trata-se de uma entidade privada, sem fins lucrativos, que reúne representantes de diferentes setores da sociedade em torno de um objetivo deveras crucial para o nosso país.

Integram o Todos pela Educação educadores, pesquisadores, profissionais de imprensa, gestores públicos e privados, e quem quer que tenha interesse em contribuir para que o Brasil consiga uma educação básica de qualidade até 2030. De início, a instituição opera em três vetores primordiais: planos educacionais, comunicação e mobilização.

O enorme desafio do Todos pela Educação é reduzir as desigualdades que persistem no sistema educacional público brasileiro, onde 48 milhões de alunos convivem com uma qualidade muito baixa no ensino básico, no qual apenas 7% deles, ao final do Ensino Médio, aprendem o mínimo esperado em Matemática.

É louvável o trabalho dessa paulista formada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e em Direito pela USP, que encampou a ideia de melhorar a qualidade do ensino fundamental no Brasil, em vez de trilhar uma carreira de sucesso nas profissões em que se especializou.

Priscila acredita que somente mediante uma boa Educação evitaremos de continuarmos travados no subdesenvolvimento e nas desigualdades sociais. Ela defende o direito do estudante de aprender com professores mais bem qualificados. É hoje, sem qualquer dúvida, a maior autoridade brasileira em Educação.

A bandeira de Priscila é de uma verdade tão palpável que clama aos céus ou, como diria Nelson Rodrigues: “é o óbvio ululante”. Quem não concorda que a Educação é a base do desenvolvimento e que é fundamental para a transformação de uma nação.

Miremo-nos em exemplos de quatro países da Ásia: Coreia de Sul, Cingapura, Taiwan e Hong-Kong – os chamados Tigres Asiáticos. O desenvolvimento econômico desses países contou com o apoio de seus governos na infraestrutura básica – transporte, comunicação e energia -, e maciços investimentos em educação e na qualificação profissional.

Por que não se tem o mesmo entendimento no Brasil? Qual a razão de a Educação não ser, entre nós, uma prioridade capital? A quem interessa manter o povo analfabeto? Quando jovem, eu sempre ouvia este comentário: No Nordeste, nega-se ao povo uma educação de qualidade, para mantê-lo refém de chefes políticos mediante o voto de cabresto – cabresto é trocar o voto por favores e benesses irrisórios.

Conheci Priscila Cruz ao ler recente artigo de Roberto Pompeu de Toledo. Logo me encantei pelo trabalho e dedicação dessa mulher ao me aprofundar na essência do que ela almeja e planeja para o futuro do nosso país. Uma encantadora visionária com determinação férrea e amor à pátria.

Por que não dotarmos tal educadora de asas, para que possa sobrevoar por uma área que ela bem conhece, gosta e em prol da qual dedica o seu labor. Sim, colocar Priscila Fonseca da Cruz no Ministério da Educação seria uma excelente solução técnica, capaz de engajar todos nós brasileiros na sua cruzada por uma Educação de qualidade.

Afinal, é ou não é Tudo pela Educação?

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

SÓ NOS FALTAVA ESSA

É sabido que os males que assolam a humanidade são a pobreza, a fome, o desemprego, as guerras e a destruição da natureza que, por sua vez, acarreta os desastres naturais do planeta. Como se não nos bastassem tudo isso, surgem vírus devastadores para emoldurar os cenários de desgraças pintados pelo próprio homem.

Um rápido passeio pelos registros da história, nos mostra a série de grandes epidemias das quais se tem conhecimento, e que ceifaram milhões de vidas humanas em diferentes períodos de nossa existência:

Peste bubônica – Ou peste negra, exterminou 50 milhões de pessoas na Europa e na Ásia, entre 1333 e 1351. Causada por uma bactéria comum em roedores como o rato, é transmitida ao homem pela pulga de tais animais infectados. Combateu-se com a higiene e saneamento das cidades, diminuindo a população de ratos urbanos.

Cólera – Doença identificada já na Antiguidade, se manifestou globalmente entre 1817 e 1824. Deste então, o vibrião colérico sofreu diversas mutações causando ciclos da doença de tempos em tempos. A propagação ocorre pela ingestão de água ou alimentos contaminados. Trata-se do cólera com antibióticos.

Tuberculose – Sinais da doença foram registrados em ossadas de 7 000 anos atrás. Com a descoberta do bacilo de Koch, causador da doença, o tratamento se tornou eficaz. Entre 1850 e 1950, estimam-se mortes de 1 bilhão de pessoas. Altamente contagiosa, ataca principalmente os pulmões. Antibióticos são a base do tratamento.

Varíola – A doença é conhecida desde 3 000 anos atrás. A vacina foi descoberta em 1796. Entre 1896 e 1980, estima-se que a varíola exterminou 300 milhões de pessoas. O vírus era transmitido de uma pessoa para pelas vias respiratórias. Foi erradicada do planeta desde 1980, por meio de vacinações em massa.

Gripe espanhola – Causou 20 milhões de mortos entre 1918 e 1919, na maior epidemia do vírus Influenza. Propaga-se pelo ar mediante gotículas de saliva e espirros. As vacinas antigripais previnem apenas a contaminação de formas já conhecidas do vírus, que vive em permanente mutação.

Tifo – Entre 1918 e 1922, a doença fez 3 milhões de vítimas na Europa Oriental e Rússia. A miséria dá as condições ideais para a proliferação do tifo. É transmitido quando a pessoa coça a picada da pulga contaminada. Nesse ato, introduz as fezes do inseto na sua corrente sanguínea. O tifo é tratado à base de antibióticos.

Febre amarela – Causou 30 mil mortes na Etiópia, entre 1960 e 1962. Causou grandes epidemias na África e nas Américas. É transmitida pelo mosquito infectado pelo flavivírus. Existe vacina eficaz, aplicada após um ano de idade.

Sarampo – Até 1963, a doença matava 6 milhões de pessoas por ano, e era a principal causa de óbitos de crianças. Altamente contagioso, o sarampo foi erradicado em diversos países pelo aperfeiçoamento da vacina criada em 1963.

Malária – Desde 1980 a malária causa 3 milhões de mortes por ano. A OMS afirma se tratar da maior doença tropical e parasitária do momento, atrás apenas da AIDS. Inexiste vacina eficiente, apenas drogas para tratar e curar os sintomas.

AIDS – 22 milhões de mortos deste 1981. O vírus HIV é transmitido através do esperma, da secreção vaginal e do leite materno. Destrói o sistema imunológico deixando-o a mercê de variadas infecções. Nem vacina nem cura, apenas tratamentos que inibem a proliferação do vírus, que permanece no organismo.

Coronavírus – Um vírus familiar com roupagem desconhecida. Que Deus se apiede de nós e nos livre de um surto epidêmico global. Só nos faltava essa!