JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

UMA VISÃO DA NOVA REPÚBLICA

Na condição de brasileiro usando dos direitos e prerrogativas concedidas pelo regime democrático ao cidadão livre, faço aqui uma análise política do meu país isenta de comprometimentos com partidos, ideologias ou credos.

Parto do ano de 1964 quando eu, jovem universitário, assisti o Brasil escapar das garras do comunismo para um regime autoritário de 21 anos de duração. Na época presenciei professores sendo tirados de salas de aula, colegas procurando refúgio para escapar da prisão e manifestações públicas dissolvidas à base de cassetetes.

Ouvi falar de maus tratos e torturas a encarcerados. Alheio ao mundo político não dei a atenção devida. Primeiro, por desconhecer a face da verdade tolhida pela censura, depois, por focar apenas na dureza dos estudos e na perspectiva do futuro.

Em 1985, lamentei a morte de Tancredo Neves eleito pelo voto indireto no nascimento da Nova República e vi a perplexidade de José Sarney ao aparar no colo um mandato caído do céu. Assisti o seu governo sucumbir ante o descontrole da inflação e de medidas antipáticas como o congelamento de preços.

Aplaudi Collor de Mello, em 1990, como o primeiro presidente escolhido por eleições diretas após o regime militar. Assumia o poder o mais jovem mandatário da nação. Conheci a sua empáfia aliada à coragem de sequestrar a poupança do brasileiro sob a sombra indesejada de PC Farias e da corrupção o que lhe propiciou a condição de ser, também, o primeiro presidente a sofrer impeachment no Brasil.

Observei, em 1992, Itamar Franco, vice de Collor, em dois anos estabilizar a economia e domar a inflação no país ao criar o Plano Real com Fernando Henrique à frente do Ministério da Fazenda. Saiu do governo limpo como entrou para ser considerado o melhor presidente pós-ditadura – deixar-se fotografar ao lado da modelo Lilian Ramos sem calcinha, na Marquês de Sapucaí, foi o seu único deslize.

Contemplei Fernando Henrique Cardoso assumir a presidência em 1994 e, reeleito, permanecer no cargo até 1998. Foi um governo de altos e baixos marcado pela implantação do neoliberalismo no Brasil. FHC emplacou diversas reformas e privatizou estatais importantes, consolidou o Plano Real e controlou a inflação – assumiu em 22,41% e entregou a 12,53%.

Século XXI em curso vi, em 2003, Luiz Inácio ocupar a presidência após três tentativas frustradas. Lula cogitava se tornar o Lech Walesa dos trópicos, não vingou porque o sindicalista polonês procurou abolir o comunismo do país, enquanto o brasileiro sonhava em implantar o comunismo aqui – o Foro de São Paulo que o diga.

A falta de zelo com a coisa pública e a corrupção deslavada demonstraram a total falta de comprometimento moral com o povo, nunca antes na história deste país vista ou sequer imaginada. O Pai dos pobres ou O cara – segundo Barak Obama -, foi o maior desastre em toda a memória republicana do Brasil.

Indignado assisti Dilma Rousseff suceder a Lula, em 2011, e se reeleger em 2016, para governar sob a mesma bandeira do antecessor. Ou seja, mais seis anos de o país orquestrado pela batuta do único ex-presidente a ser preso por crime comum.

A presidenta Dilma saltou de uma aprovação recorde para o impeachment. 70% do povo aplaudiu o ato, porém, gratificada mesmo ficou a Língua Portuguesa por se ver livre das agressões impostas ao vernáculo.

O mandato tampão de Michel Temer durou 2 anos e 4 meses. Mala cheia de dinheiro arrastada pelas ruas de São Paulo, caixas com milhões de reais escondidas num apartamento em Salvador e conversa sombria com poderoso empresário, em Brasília, detonaram o seu governo.

Vejo-me agora, em 2020, com Jair Bolsonaro há um ano e meio no poder. A impulsividade do presidente é fato comprovado. Nela reside o calcanhar de Aquiles ideal para desestabilizar a presidência. Entretanto, não existe interesse em divulgar que a corrupção do passado desapareceu e mamatas com o erário acabaram.

Neste momento, um conflito político se sobrepondo às crises econômica e sanitária reverterá num elevado ônus para o brasileiro, que anseia pela convivência democrática e harmônica entre os poderes constituídos. Daí confiar no bom-senso de quem sintonizar a bússola da coerência no rumo certo das tratativas políticas e, na fleuma do autor da tarefa de apaziguar as tendências arredias da nação.

Ainda existe tempo para exercitar a resiliência e reequilibrar a governabilidade. Depende somente do querer do timoneiro, lembrando que, na voz da verdade, querer é poder e humildade e Ivermectina não causam mal a ninguém.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

ENTRE VIVER E CONVIVER

“Viver é fácil, conviver é que são elas”, assegura o adágio popular. O dito, porém, não prevê o que seja conviver em tempo de quarentena. Refiro-me a casais solitários obrigados a coabitar, durante meses, trancafiados num ambiente comum e restrito. Por melhor boa vontade que tenham, fácil não é.

Nesta quarentena não é sem razão vermos multiplicados nas resenhas policiais casos de violência doméstica com agressões e feminicídios, enquanto nas varas da Justiça ocorrem divórcios e separações conflituosos.

Menos danosas são as discussões matrimoniais onde casais permanecem amuados aprisionados na segurança do lar no salvaguardo da saúde, por semanas adentro, contudo sem se molestarem fisicamente.

O pior que se extrai de um isolamento forçado é o descontrole emocional decorrentes da ansiedade, da depressão e da angústia, que nos induzem a reclamações de atitudes ou procedimentos antes desprezadas e até despercebidas no cotidiano do casal. Ao reclamar, clamamos duas vezes pela negação, efeito nada positivo numa quarentena onde a vida é o que está em jogo.

Tenho lido e ouvido diferentes versões acerta da dificuldade do convívio entre casais neste momento de enfrentamento de uma crise sanitária de proporções alarmantes, insuflada e inflamada por dois outros agravantes: economia em queda e política tumultuada.

Uma dessas bizarrices envolveu casal cuja madame é de conhecido trato difícil – um porre, segundo os íntimos. Durante a quarentena o marido constatou a dura realidade. Diuturnamente ao lado da enfezada, achou um meio de a evitar pelo menos à noite. Optou por dormir na cama em posição contrária à dela, cada qual com os pés na altura do rosto do outro. Sentiria o chulé, mas não lhe veria o rosto. Arre!

Solange e Ademar eram vistos, pelos amigos, como o casal perfeito pela harmonia e bem-querer que aparentavam. Ambos trabalhadores, saiam cedo de casa retornando à noite. Com a quarentena a rotina dos dois mudou. Inez continuou com a postura de estar sempre arrumada e asseada. Já Ademar modificou a sua conduta partindo para o desleixo. Acordava e se mantinha de pijama, às vezes, por dias seguidos.

Aquele procedimento incomodava Solange, mas, a duras penas ela suportava. O caldo entornou quando Ademar deixou de tomar banho contrariando um hábito de três duchas diárias. Após uma série de apelos sem eco, Solange, num descuido de Ademar, picotou a golpes de tesoura todo o enxoval de pijamas do marido. Os vizinhos acudiram aos gritos de socorro dela, para não chegarem às vias de fato.

De fazer pena foi o ocorrido com os jovens casados de novinho. O presente de núpcias do pai da noiva foi o belo apartamento que a esposa decorou com carinho. O monograma MM de Maísa e Milton, estampado nas roupas e louças do casal, exibia o refinamento do ambiente. Certo dia os vizinhos ouviram gritos, xingamentos e barulho de quebradeira que só cessou com a presença dos pais dos jovens no local.

Soube-se depois que a esposa flagrara Milton numa conversa comprometedora no celular com a ex-noiva, razão do início da discussão. Porém, o que fez o caldo entornar, foi a vingança de Maísa ao revelar que o filho que trazia no ventre não pertencia ao marido. O genitor era o irmão mais velho dele. Hoje, Maísa mora sozinha no apartamento e Milton na companhia dos pais. Coisas de quarentena.

E ainda tem quem arrisca dizer que conviver é fácil.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

2020: ANO QUE NÃO EXISTIU

Zuenir Ventura insinuou e a história corroborou ter sido 1968 “o ano que nunca acabou”. O escritor analisa como a série de movimentos e acontecimentos marcantes na cultura, na política e na rebeldia dos jovens, aliados à guerra no sudoeste asiático e outros fatos de destaque naquele ano podem ter refletido no mundo atual.

Tais ações estão configuradas na retomada da guerra entre os Estados Unidos e o Vietnã do Norte, registrada na foto do chefe da polícia de Saigon, Nguyen Ngoc Loan, executando o oficial vietcong Nguyen Van Lém. Na manchete do New York Times: “Martin Luther King foi assassinado em Menphis”; e, no clamor do Daily Mirror: “Deus! De novo, não!” – numa alusão ao homicídio de Robert Kennedy.

Na passeata das 100 mil pessoas marchando pelo centro do Rio aos gritos de “Abaixo a ditadura. O povo no poder”; na prisão de cerca de 1000 participantes do Congresso Nacional de Estudantes, em Ibiúna-SP; e, na atitude de atletas medalhistas da XIX Olimpíada, no México, ao subirem ao pódio com o braço erguido e a mão fechada vestida numa luva preta num sinal de protesto dos Panteras Negras.

1968 foi um ano especial por conta da sucessão espetacular de movimentos estudantis consignados em protestos no Rio de Janeiro pela morte do secundarista Édson Luís Evandro Teixeira; nas ações do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, nas ruas de Paris; e, na manifestação democrática, no centro de Praga, ensaiando arejar o comunismo ortodoxo sendo sufocada por tanques soviéticos.

Na exibição dos filmes A Noite dos Generais, À Queima Roupa e Uma Odisseia no Espaço e, na estreia, na Broadway, da peça Hair. No lançamento da canção “É proibido proibir”, de Caetano Veloso, e do hino “Para não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré. Também, no protesto com vaias a Tom Jobim e a Chico Buarque pela autoria da música “Sabiá”, no Festival Internacional da Canção.

Como não bastasse tantos acontecimentos marcantes, ocorreu o primeiro transplante de coração da América Latina pelas mãos do médico Euryclides de Jesus Zerbini no Hospital das Clínicas de São Paulo e coube a Jarbas Passarinho celebrizar o AI-5 na frase: “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”, durante reunião ministerial.

Teve ainda a manchete do Jornal do Brasil de 14 de dezembro: “Tempo Negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38 graus, em Brasília. Mín.: 5 graus, nas Laranjeiras” – dando ciência aos leitores da publicação do AI-5 de forma cifrada em razão da imprensa censurada.

Vivenciamos a metade de um ano que se perderá no calendário da humanidade e, em particular, no do Brasil. Sumirá porque começou a se extinguir após o Carnaval com a interrupção do período letivo de todos os níveis de ensino. Porque o cristianismo não celebrou a Semana Santa nem o Corpus Christi e no impedimento dos festejos do tríduo junino (Santo Antonio, São João e São Pedro).

Decerto não se evocará o Dia da Independência nem se votará na eleição marcada para o mês de outubro. Perdidos estão os empregos oferecidos por indústria e comércio soterrados pelo apagão do país ante a pandemia viral. No campo da economia, a trilha do Brasil será a mesma da recessão global de crescimento nulo.

Restará tão somente o Dia de Finados para reverenciar as memórias de milhares de mortos pela ação implacável da Covid-19. A triste realidade é que 2020 desapareceu ainda no nascedouro, caso suscitada ocasionalmente a lembrança dele será em decorrência do alarmante número de covas rasas escavadas em solo brasileiro.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O CASARÃO DA VIA COSTEIRA

Quem trafega pela orla de Natal na confluência das praias Areia Preta e Pinto, no início da Via Costeira, encontra um casarão inacabado sem qualquer sinal de retomada dos serviços. Causa estranheza o abandono da edificação porque está encravada num pontal privilegiado de onde se obtém a melhor e a mais limpa visão do Oceano Atlântico para um observador postado ao nível do mar.

Crédito: Arquiteto Fabiano Pereira

O clima de mistério que envolve o imóvel advém da curiosidade popular pelo descaso com a conservação e o tempo de paralisação – 50 anos desde o início da construção. A obra, hoje, está entregue às intempéries e à disposição de vândalos. O enigma consiste na falta de informações que ponha alguma luz sobre a origem do imóvel e o motivo do abandono. Nada além disso.

Na verdade, a casa foi esboçada pelo engenheiro e empresário Moacir Maia, que convidou o arquiteto Moacyr Gomes da Costa para elaborar o projeto, no final dos anos 60. No início da nova década, com Moacyr associado ao colega Ubirajara Galvão, os desenhos se integraram ao acervo técnico do escritório UM Arquitetura.

Moacir Maia (1926-2005), natalense, com apenas 22 anos de idade formou-se em engenharia civil e mecânica pela Universidade do Recife, em 1948. No retorno para Natal trabalhou na Rede Ferroviária Federal (DNEF), passou pelo IPASE, IAPC e IAPI, antes de fundar a Companhia de Investimentos e Construções Ltda – Cicol.

O jovem engenheiro, herdeiro de enorme patrimônio em imóveis em Natal, por décadas, dominou o setor de entretenimento da capital com os cinemas Rio Grande (1949-1999) e Panorama, e com o Cine Poti, arrendado dos Diários Associados.

Com a Cicol, Moacir construiu obras no Rio Grande do Norte e pelo Brasil afora. A construtora figurava entre as maiores do Estado quando partiu para grande empreitada na Tanzânia, pais da África Oriental. O contrato acarretou dificuldades operacionais e financeiras à Cicol, que foi desativada no início dos anos 80.

Na opinião do arquiteto Moacyr Gomes, não foi a falta de apoio financeiro que emperrou a conclusão da casa: O que fez Moacir Maia se desiludir com a construção foi a dificuldade encontrada para a sua regularização junto ao Patrimônio da União por se tratar de obra edificada em “terreno de marinha”.

O projeto abrigava sob uma cobertura de 500,00 m2, dois pavimentos, suítes, salas amplas, garagens e espaços para criadagem e lazer, todos os predicados para se tornar uma das mais emblemáticas casas de praia do município. Tal patrimônio ocupava apenas um naco da área de quase 2,5 hectares de natureza ainda intocada.

Crédito: Arquiteto Fabiano Pereira

O terreno estava coberto por coqueiros quando projetei a obra. Na locação da casa tivemos o cuidado de preservar a flora existente – afirmou o arquiteto. Perguntado acerca do percentual executado antes de paralisados os serviços, Moacyr esclareceu: Cerca de 85%, incluindo aí esquadrias, pisos e revestimentos. Estávamos na fase de acabamentos.

Os registros fotográficos de agora mostram uma construção deteriorada por intempéries e pela depredação, e sem o coqueiral presente na época. Moacir Maia faleceu há 15 anos, e o imóvel continua no patrimônio da família.

É lastimável ver a bonita obra de engenharia definhar com o passar dos anos ante o olhar de circulantes da Via Costeira. Enquanto isso, continuará sendo o ponto de parada obrigatório para a curiosidade de turistas, que especulam sobre o mistério do casarão abandonado no pontal que, do alto, lembra o mapa do Brasil.

Google Maps

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

I CAN’T BREATH

Não consigo respirar! Eis a expressão mais ouvida ao redor do mundo, ultimamente. Foi proferida em inglês por um homem de 46 anos de idade, afro-americano, natural de Houston (Texas), pai, cristão, atleta poliesportivo trabalhando como segurança, nas opiniões do empregador e de amigos, uma pessoa de paz.

George Floyd é o seu nome. Ele morreu em Minneapolis, em 25 de maio de 2020, quando o policial branco Derek Chauvin ajoelhado sobre o seu pescoço, sob o olhar dos colegas de farda e de transeuntes, o manteve imobilizado por 8m46s, asfixiando-o.

I can’t breath foram as suas últimas palavras transformadas em lema, nos últimos 16 dias de manifestações, em diferentes regiões dos Estados Unidos e pelo mundo afora contrárias ao racismo e a prática de abordagens policiais violentas em confrontos com negros. Toda essa movimentação devido a cultura secular de discriminação racial encruada na índole do povo daquele país e de outras nações.

Na autópsia de George Floyd soube-se que ele desenvolvera o vírus da Covid-19. Impossível precisar se ele morreria em decorrência da doença. Por ironia do destino, faleceu por falta de ar e experimentando os mesmos sintomas dos vitimados pelo vírus letal: a ausência de oxigênio causadora da noção de se afogar no seco.

A verdade é que o movimento pela igualdade racial extrapolou as fronteiras dos EEUU e eclodiu em outros continentes sob a bandeira de movimentos tipo Vidas Negras Importam. O antirracismo é uma realidade e o represamento desse sentimento nunca esteve tão escancarado como nos últimos dias.

Não desejemos assistir à irrupção dessa represa de ressentimentos e ódios acumulados por gerações de excluídos. Num ato simbólico a estátua de Edward Colston foi facilmente derrubada de seu pedestal numa praça de Bristol, na Inglaterra. Fora erguida em 1895 como reconhecimento a benefícios prestados à cidade com recursos oriundos do tráfico de negros trazidos da África Ocidental, pelo escravagista.

Pouco se deu valor a atitude corajosa de quem ateou fogo a esse estopim de revolta no seio das comunidades discriminadas pela cor da pele, na América do Norte. O que sentiu Darnella Frazier, o que ainda sente, como está a sua saúde, a sua segurança e o seu emocional ninguém tem conhecimento ou faz ideia.

A adolescente de 17 anos viu tudo, ao vivo, durante os 30 minutos do desenrolar da ação. Viu quando Derek Chauvin colocou o joelho sobre o pescoço da vítima, viu George afirmar que não mais conseguia respirar e, viu o seu desfalecimento ante a pressão do peso do corpo do agressor fardado.

Darnella já prestou depoimento ao FBI como principal testemunha da morte de Floyd. Está sob acompanhamento de terapeuta especializada em trauma e sofre perseguição da mídia e de outros internautas em suas redes sociais por ter levado o vídeo a público, segundo alguns, com o fito de obter exposição.

Porém, ninguém considerou o risco que ela correu na hipótese de ser descoberta pelos policiais envolvidos no caso durante a gravação. Ninguém avaliou a dor sentida pela jovem ao ver alguém brutalizado com desumanidade. Ninguém imaginou o grau de tristeza que sentiu ao ver George, desfalecido, transferido para a ambulância não sabendo se ainda vivo ou morto. Ninguém, sequer, se importou de perguntar a Darnella quais as suas emoções ou sentimentos ante as cenas presenciadas.

Darnella Frazier não merece tanta atenção, ela é apenas uma mulher negra.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

DOM BOSCO E BRASÍLIA

Na presidência do Brasil, Jânio Quadros, ex-aluno salesiano, conhecedor do sonho-profético de Dom Bosco sobre a nova capital, pediu permissão ao Vaticano para tê-lo como santo padroeiro de Brasília. Roma autorizou fosse o criador da Congregação Salesiana co-padroeiro, pois o Vaticano já assinara decreto indicando Nossa Senhora Aparecida como padroeira da recém-inaugurada capital.

Ficaram famosos os sonhos de Dom Bosco (1815-1888), relatados numa assembleia geral da congregação que presidia, em setembro de 1883. O salesiano narrou aos presentes o sonho-visão que tivera no mês anterior. Em resumo, o sonho retratava uma viagem sobre a América do Sul, assim descrita:

Capas da revista The Economist em 2009, 2013 e 2016, respectivamente

“Estre os graus 15 e 20, aí havia uma enseada larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. Nesse momento ouvi uma voz que dizia repetidamente: quando vierem se escavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a terra prometida, onde verterá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”.

E a voz, continuou esclarecendo a Dom Bosco: “…Isto acontecerá antes que passe a segunda geração. A presente geração não conta. Será uma outra, depois outra. Cada geração corresponde 60 anos”.

Brasília está postada exatamente entre os paralelos 15 e 20 da Carta Geográfica. É certo, portanto, que Dom Bosco anteviu Brasília com precisão. A inconsistência é que Brasília nunca produziu o que a locução leite e mel insinua: fartura, riqueza, progresso, ordem e felicidade. As duas gerações tratadas na previsão, uma delas seria entre 1943 e 2003 e, a outra, iniciada em 2003 findará em 2063.

Em 1971 o Marquês de Pombal, então primeiro ministro de Portugal, propunha mudar a capital do império português para o interior do Brasil-Colônia. José Bonifácio, o Patrono da Independência, foi a primeira pessoa a se referir à futura capital do Brasil, em 1823, como Brasília. Coube a Juscelino Kubitschek, na presidência da República, estabelecer a construção de Brasília como prioridade de seu Plano de Metas.

Lúcio Costa e Oscar Niemayer, respectivamente urbanista e arquitetos, criaram uma cidade futurística que foi fundada em 21 de abril de 1960, no mesmo dia e mês da execução de Joaquim José da Silva Xavier, líder da Inconfidência Mineira, e data da fundação de Roma.

Nesses sessenta anos de existência nunca se viu ou se ouviu falar de emanar da Terra Prometida preconizada por Dom Bosco, leite e mel nem riquezas inconcebíveis. No período ocuparam a presidência da República 16 mandatários, dentre os quais cinco militares durante os 21 anos do Estado de Exceção no país. Houve uma renúncia, um apeado do governo e dois impeachements.

Houve ainda um incomum crescimento econômico (14% ao ano), boa valorização da moeda e até um período como a 7ª maior economia do planeta. Onze anos atrás o Brasil ganhava destaque na revista britânica The Economist como uma economia promissora. Anos depois, a mesma publicação voltaria a tratar da economia do país, mas de maneiras diferentes: a frase “Brasil decola” de 2009 foi substituída pelas manchetes “Brasil estragou tudo” em 2013, e “A traição do Brasil” em 2016.

Dom Bosco nos deve a concretização de parte de sua alvissareira profecia para Brasília. Roguemos ao santo padroeiro rapidez nesse milagre, porque o desamparado povo brasileiro não suporta nem merece tantos infortúnios e desacertos políticos.

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

O QUE SERÁ, SERÁ

Quem tem mais de sessenta anos lembra do êxito obtido quando do lançamento, no Brasil, do filme O Homem que Sabia Demais (The Man who Hnew too Much), de Alfred Hitchcock, na segunda metade da década de 1950. Estrelaram a película do mestre do suspense a dupla romântica James Steward e Doris Day.

O ponto alto da trama se projeta por intermédio da música Whatever will be, will be (O que quer que seja, será), na interpretação de Doris Day. Se o filme foi um sucesso pelo bem bolado enredo, marcante se tornou a canção conhecida no Brasil pelo título “Que será, será”.

Esta semana, assistindo a velhos sucessos do cinema, eis-me diante da dita película de Hitchcock. Ouvir “Que será, será” na clareza da voz de Doris Day, musa dos tempos áureos de Hollywood, foi um deleite. Relembrei que uma das estrofes da canção preconiza que se “O futuro não é nosso para ver, o que será, será”.

Logo fiz uma analogia com o momento de insensatez que atravessa o país, por conta de crise política de consequências imprevisíveis, no pior momento para instalar-se. Insensatez, ao exercitarmos uma polarização fora de época no ápice de uma pandemia de proporções gigantescas sem data para findar.

Esperemos que tenhamos o equilíbrio de não medir esforços para salvar vidas; não poucas, porque se contam aos milhares as pessoas desassistidas e largadas à própria sorte diante da voracidade de um vírus letal. Formemos correntes do bem, tipo “Salvemos o Brasil do vírus”, para estancarmos com essa aritmética sinistra contabilizada sobre montanhas de cadáveres, diariamente.

Olhemos para os mais humildes, principalmente aqueles catalogados nas condições de pobres, pretos e analfabetos. Levemos a sério a multiplicação do desemprego que grassa e desgraça tantos dos nossos irmãos.

Atentemos para o fato de que a fuga do capital estrangeiro da nação ocorre pela falta de confiança na recuperação da economia, ante a incerteza dos rumos do atual cenário político.

É de rachar corações de brasileiros de fé verem os parcos recursos destinados a uma saúde pública desaparelhada desviados criminosamente para fins escusos, diante do chorar e ranger de dentes daqueles que imploram por um respirador para não morrerem afogados no seco por falta de oxigênio.

Estamos no âmago de uma desarmonia insensata e difícil de ser sanada. Porém, o desejo da nação é de que ela não descambe para uma disputa fratricida, originada no desentendimento decorrente de uma polarização extremada.

Que as nossas forças e esforços se unam no ataque ao inimigo mortal e poderoso que nos sitia traiçoeiramente envolto numa carapaça invisível.

Para isso preparemos o clima adequado para uma paz duradoura. Uma paz política. E aqui lembremos Mahatma Gandhi ao profetizar: Não há caminho para a paz. A paz é o caminho. E quando enveredarmos por esse caminho pacificado, nos convençamos de que o melhor para o nosso Brasil continuará sendo:

“… o regime de governo do povo, pelo povo e para o povo, com base no Estado Democrático de Direito obediente ao princípio da independência e da harmonia entre os poderes republicanos, como reza a Carta Magna”.

Assim, o que será, será!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

NADA COMO FOI SERÁ

Plagiando a música de Lulu Santos, nada do que foi será do jeito que foi antes da pandemia da Covid-19. O isolamento social em decorrência do receio de contaminação pelo vírus mortal alterou hábitos e procedimentos dos brasileiros, com tamanha intensidade, ao ponto de não nos reconhecermos quando o temor passar. Ou seja, comprovamos, na íntegra e na carne, a máxima chula que afiança: quem tem anus tem medo! – aqui amenizada pela vulgaridade da sentença original.

Em confinamento aprendi como utilizar a parafernália eletrônica em meu benefício e do meu próprio bem-estar. Tornaram-se, para mim, corriqueiras e agradáveis todas as movimentações bancárias pelo telefone celular, sendo difícil eu voltar a entrar em filas de bancos, mesmo para sacar dinheiro, o que faço agora em caixas eletrônicos pouco movimentados – o segredo é estabelecer horários adequados.

Alcancei a glória de obter a carteira de habilitação e o documento do carro pelo celular, ambos agora arquivados e disponíveis a um clicar de teclas. Nada, porém, se compara ao estouro comercial das entregas em domicílio por conta da triste realidade mundial e da explosão de compras via internet.

O comércio eletrônico nunca foi o forte da América Latina, mas a limitação da liberdade decorrente do novo coronavírus fez com que a nova modalidade de compras se incorporasse de vez ao cotidiano do continente, notadamente do Brasil, provocando novos desafios socioeconômicos.

Agora se adquire do alfinete ao automóvel pela internet influenciando mesmo quem não gosta da ideia de comprar sem antes ver ou tocar na mercadoria. Se idas a cinemas e restaurantes diminuíram, ampliaram-se os serviços online desde as compras de alimentos, medicamentos, mão-de-obra especializada ou não, até produtos para animais e um sem número de outras atividades.

Concordando ou não a pandemia modificou ou aguçou hábitos de consumo e tendências que chegaram para ficar. Dentre eles, o desejo compulsivo, intenso e permanente de fazer compras, a tal oniomania – doença estimulada pelo isolamento social e ampliada pela falta de sono e cansaço, inimigos do autocontrole.

No novo normal pode-se quase tudo pela internet – quase tudo porque ainda não descobriram a procriação virtual. Se antes reclamávamos por não ter tempo para nada, agora, com tempo para tudo, temos que aprender e nos reciclar para não ficarmos sem nada fazer.

No século passado três pandemias de gripe sacudiram o planeta: a espanhola (1918 – 1920), onde morreram 40 milhões de pessoas; a asiática (1957-1958), que ceifou 2 milhões de vidas; e, a terceira apelidada de Hong Kong (1968 -1970), responsável pela morte de um milhão de habitantes, das quais mais de 100 mil só nos Estados Unidos. Isso, apenas cinco cinquenta atrás.

Com 5 milhões de casos confirmados e um saldo de 330 mil mortes espalhadas pelo mundo, em quatro meses, o novo coronavírus tem condições, sim, de superar a marca deixada pela última pandemia da qual nem sequer nos lembrávamos.

O cantor Roberto Carlos, em razão da acentuada mania de limpeza, não deve ter estranhado a mudança de rotina para evitar a contaminação pela Covid-19, porque os protocolos estabelecidos para tanto são corriqueiros no cotidiano do artista há anos. Para ele o “novo normal” revela-se um tranquilo “velho normal”.

Pois é, são tantas e pavorosas emoções, bicho!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

LOCKDOWN

Uma diarista que nos presta serviço semanal, perguntou-me: Seu Narcelio, o que danado é esse tal de “loquidal”? É algum remédio para o coronavírus? Medindo as palavras, tentei explicar a estimada criatura: Não, Mariana. O danado do “loquidal” é um termo em inglês que significa bloqueio total, isolamento rígido, em resumo: ficar trancado em casa para não ser contaminado pelo coronavírus.

Qual a razão da pergunta? – questionei-a. Nada de mais! Achei o nome bonito e queria sugerir ao meu filho para botar no neto que vai nascer, porque serve para os dois sexos, né? Mas depois da explicação do senhor, eu prefiro ficar com Galvus, se for homem ou Nebilet, se for mulher – respondeu Mariana na bucha.

E onde você conseguiu os danados desses dois nomes, mulher? – perguntei-lhe, entre surpreso e curioso. E ela, de pronto: Tirei das caixas de remédios vazias que o senhor pediu para eu jogar no lixo. De todos eles, esses dois, foram os que eu mais gostei! – calei-me… Dizer o que?

É bom ressaltar que a mania de pais batizar as crias com denominações esdrúxulas não é de agora, advém de priscas eras. O motivo? Entre outros, o desejo de fugir do rol de nomes comuns encontrados no cotidiano de cartórios de registros civis de pessoas, e assim diferenciar seus filhos dos demais.

Ainda lembro o espanto que senti quando, recém-formado, trabalhando como engenheiro numa unidade rodoviária pública, me deparei com a ficha funcional de um servidor, pai de três filhos homens. Na sua simplicidade e ignorância, o operador de máquinas pesadas havia batizado os rebentos, assim: Fulano Huber Warco da Silva, Beltrano Caterpillar da Silva e Sicrano Michigan da Silva, respectivamente.

Isso mesmo, os estigmatizara com as marcas de empresas fabricantes de equipamentos pesados utilizados na construção civil, notadamente na construção de rodovias e na mineração. As inocentes criaturas, se ainda vivas e com os mesmos nomes, são hoje propagandistas ingênuos de tratores, motoniveladoras e de pás carregadeiras de multinacionais famosas.

Mas não fica por aí. Ao longo dos anos, sempre me interessei em identificar até onde chegava o absurdo de determinados pais em homenagear ídolos, ocorrências, datas e outros devaneios interiorizados, concretizando-os nos costados de filhos impotentes, porquanto crianças diante de pias batismais.

Acho improvável que Antonio Buceta Agudim, Chevrolet da Silva Ford, Éter Sulfúrico Amazonino, Ilegível Inilegível, José Casou de Calças Curtas, Lança Perfume Rodometálico, Magnésia Bisurada do Patrocínio, Padre Filho do Espírito Santo, Restos Mortais de Catarina, Pália Pélia Pólia Púlia dos …. não tenham sofrido intimidações diversas nas suas infâncias pela originalidade dos nomes.

Fico imaginando se Mariana – minha auxiliar citada acima – fizesse a tal pergunta ao dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, e o quanto de original seria a sua resposta. De Ariano conhecia-se o horror pelo estrangeirismo incutido ao português, especialmente o inglês, por ele considerado uma língua feia, pobre, ruim e nojenta.

O professor, poeta e ensaísta, comumente citava o romancista espanhol Miguel de Cervantes, por conta desta sua afirmação: O português é a língua mais sonora e musical do mundo. Ah, Mariana, poucas e boas você ouviria.

Saudade das inteligentes aulas-espetáculo de Ariano Suassuna. Tranquilo “loquidal” a todos!

JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

A ARTE IMITA A VIDA

Em outubro de 2017 foi lançado no Brasil o filme intitulado Mark Felt: O homem que derrubou a Casa Branca (Mark Felt: The Man Who Brought Down the White House), produzido pela Sony Pictures Classics, com o ator norte-irlandês, Liam Neeson, interpretando Mark Felt.

O filme retrata o escândalo político ocorrido nos Estados Unidos conhecido como “o caso Watergate” que, de certo modo, tornou-se um caso paradigmático de corrupção. Em 18 de junho de 1972 o jornal Washington Post noticiava, na primeira página, o assalto à sede do Comitê Nacional Democrata, no dia anterior, no Complexo Watergate, situado na capital do país.

Richard Nixon fora eleito presidente em 1968, sucedendo a Lyndon Johnson, tornando-se o terceiro presidente dos Estados Unidos a ter que lidar com a Guerra do Vietnã. Nixon voltou a candidatar-se em 1972, tendo como opositor o senador democrata George McGovern, obtendo vitória esmagadora ao ganhar em 49 dos 50 estados da federação.

A invasão à sede do comitê dos democratas ocorreu durante essa campanha de 1972. No decorrer da investigação oficial que se seguiu foram apreendidas fitas gravadas que apontavam o presidente como conhecedor das operações ilegais contra a oposição. Sua defesa argumentou que o presidente tinha prerrogativas de cargo o que o isentava de apresentar informações confidenciais.

Em julho de 1974, Nixon foi julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos quando foi obrigado, por veredito unânime, a apresentar as gravações originais que comprovariam de forma inequívoca o seu envolvimento na ação criminosa.

Precisamente no dia 9 de agosto, Nixon renunciou à presidência da República, ante a possibilidade de impeachment iminente, sendo substituído pelo vice Gerald Ford, que assinou uma anistia retirando-lhe as responsabilidades legais por qualquer infração que tivesse cometido.

Em maio de 1972, morreu J. Edgard Hoover, o primeiro e todo-poderoso diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI) – considerada a maior organização policial do mundo. Mark Felt, então o 2º vice-presidente da agência investigativa, considerava-se o sucessor natural de Hoover. Porém, essa possibilidade não constava dos planos de Nixon desejoso de instalar ali pessoa de sua confiança.

Mark Felt esteve à frente do escândalo Watergate, amplamente explorado pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do Washington Post, abastecidos por informações críticas de certo colaborador secreto apelidado Deep Throat (Garganta Profunda), que culminou com a renúncia de Richard Nixon em 1974.

Embora suspeitassem de Mark Felt ser o Garganta Profunda nada foi comprovado durante 30 anos. Em 2005, Felt, finalmente revelou o bem guardado segredo de ser, ele mesmo, o Deep Throat. Alegou o procedimento nada ortodoxo ao senso de lealdade institucional devida ao FBI.

Felt morreu dormindo em 2008 aos 95 anos de idade; o FBI continuou sendo uma instituição de Estado, e não de governo; e, os Estados Unidos sobreviveram a essa provação de desestabilização pela corrupção.

Qual a moral extraída dessa história? Eu resumiria o filme em três verdades: no mundo nada se cria, copia-se; conhecimento é poder; e, finalizaria afirmando que, em determinadas situações, a arte imita a vida.