J.R.GUZZO

AO APOSTAR NA TENSÃO PERMANENTE, BOLSONARO COMETE SEU MAIOR ERRO

O presidente Jair Bolsonaro, ao que parece cada vez mais, continua decido a governar dentro de um ambiente de tensão permanente, por achar que o calor da fornalha é o que existe de melhor para ele. Pode pegar fogo? Então vamos lá.

No momento, ele não se mostra satisfeito com as cargas de TNT que rondam o Palácio pelos quatro cantos. Como se já não houvesse dinamite suficiente do lado fora, Bolsonaro faz questão de criar, a cada quinze minutos, focos de tensão dentro do seu próprio governo. Nessa espiral alucinada, acaba de demitir o ministro da Justiça, Sergio Moro — o homem mais popular do governo e do Brasil. A ideia, que vem de longe, andava esquecida com a Covid-19 e, aparentemente, tinha caído em exercício findo. Não tinha.

É coisa de homem-bomba do Exército Islâmico – que vá tudo para o espaço, comigo junto. O presidente, para forçar a saída, demitiu por decreto o diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, ocupante de um cargo que está diretamente subordinado ao Ministério da Justiça — sem dizer o que ele fez de errado, ou dar qualquer motivo razoável. Disse apenas que a exoneração foi a pedido” – o que não foi. Foi, isso sim, um ato de agressão a qualquer proposta de procurar um mínimo de serenidade e equilíbrio para o seu governo. Tomou a opção pelos grupos que querem ir “para o pau”.

A conta é a de sempre: a base de apoio de Bolsonaro, em sua cabeça e segundo rezam os algoritmos das redes sociais, gosta quanto ele diz “aqui quem manda sou eu”, e vai dar-lhe 100% de apoio ao botar no olho da rua um ministro que incomodava parte do entorno presidencial, por um monte de motivos. Era popular demais. “Se achava”. Queria ser independente. Atrapalhava a vida de certas pessoas que detestam a ação permanente de seu Ministério no combate à corrução.

Agora, com o ministro de fora, Bolsonaro e seus estrategistas imaginam que a população vai aplaudir, o “centrão” vai fechar com o governo, por se ver mais longe do camburão da Polícia Federal, e que ele acabará ganhando sabe lá mais que vantagens junto ao mundo político – com o qual está em guerra desde o começo do seu governo.

Para ficar só nos últimos dias, Bolsonaro se viu alvo de acusações indignadas de que estimula um golpe militar, por ter participado de um comício na frente do Quartel General do Exército, em Brasília, na qual faixas e gritos pediam o fechamento do Congresso e do STF. Está sob críticas pesadas, e não só dos inimigos habituais, por causa de suas posições agressivas contra a manutenção da quarentena trazida pelo coronavírus e por ter demitido o ministro da Saúde. O coro pedindo seu “impeachment já” engrossa a cada dia.

Importa cada vez menos, a essa altura, discutir se existem ou não, do ponto de vista técnico e jurídico, os motivos constitucionais para a deposição do presidente da República. O que interessa para os inimigos é insistir todo dia no “impeachment”. Qualquer coisa serve: falta de decoro, defesa da cloroquina, ofensa a mulheres jornalistas, incentivo a mortes em massa com a demissão do ministro da Saúde, apoio ao “golpe militar”.

A isso acaba de se juntar o STF, que mandou o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, explicar a dois advogados porque não aceita as denúncias de impeachment apresentadas por ambos – junto com a exigência de que seja feita uma estranhíssima divisão da autoridade legal do Poder Executivo entre o presidente e o seu vice.

Num momento de angústia nacional, como o que se vive hoje no Brasil, por causa da epidemia, da ruína para a produção e o emprego criada pelo confinamento e de toda a desgraceira que há por aí, imagina-se que o mais recomendável, para um presidente pressionado por inimigos de todos os lados, seria a busca da paz. Ele tem certeza que não é.

J.R.GUZZO

OPÇÃO PELA VIDA

Ninguém nunca imaginou uma coisa dessas, nem poderia mesmo imaginar, mas aí está: a epidemia trazida pelo coronavírus revelou uma súbita paixão das autoridades, políticos e elites pela solução dos problemas de saúde pública no Brasil. Saúde pública, para encurtar a conversa, significa uma coisa só: doença de pobre. E por que os barões que decidem as coisas neste país iriam se preocupar com dores que não doem neles? Para essa gente, saúde significa planos médicos cinco estrelas, cobertos pelo dinheiro que você paga de impostos, doutores que cobram acima de R$ 1 mil a consulta e transporte de helicóptero para os hospitais mais caros do Brasil. São até capazes, de vez em quando, de fazer algum discurso piedoso sobre o assunto. Mas as suas lágrimas secam bem depressa.

O desprezo pela saúde por parte dos governantes brasileiros é uma questão de fatos que estão acima de dúvida; não pode ser disfarçado por nenhuma devoção repentina “pela vida”, como eles descobriram em sua cruzada contra a covid-19. Vamos aos testes práticos. Em pleno ano de 2020, cerca de 50% da população brasileira continua sem ter saneamento básico. A culpa disso não é dos marcianos. É dos que governam o Brasil, em todos os níveis – e de mais ninguém, pois só eles têm a autorização legal para agir na área. Político brasileiro, como se sabe, tem horror a fazer esgoto: é obra que fica embaixo da terra, que ninguém vê e que não rende voto.

O pior é que eles não resolvem e não deixam ninguém resolver. Jaz há mais de um ano no Congresso, sendo pouco a pouco desfigurada, a nova Lei do Saneamento Básico que abre o setor à iniciativa privada. Por que não anda? Porque governadores e prefeitos detestam a ideia – querem manter vivos, pelo máximo de tempo possível, os atuais “contratos” com as estatais que nada fazem para melhorar aqueles horrendos 50%, mas são um dos seus mais queridos cabides de emprego e focos de influência política. A desgraça não é apenas a falta de esgotos. Continuam operando no Brasil cerca de 3 mil “lixões” ao ar livre. Por lei, já deveriam estar fechados há quatro anos; a lei “não pegou”. Como acreditar, diante desses monumentos em honra à doença, em qualquer governante brasileiro que agora faz discurso em defesa da “saúde pública”?

São Paulo, a maior cidade do Brasil, é atravessada ao longo de 25 quilômetros por dois dos mais infames esgotos a céu aberto do mundo, o Rio Tietê e o Canal do Pinheiros. Mananciais de água que abastecem o município estão poluídos por favelas que se instalaram às suas margens, há anos, com a cumplicidade direta da Prefeitura. As autoridades não tocam na Cracolândia do centro da cidade, um dos mais violentos focos de tuberculose do Brasil – ao contrário, chegaram a dar mesada para os drogados que vivem ali, e qualquer tentativa de intervir na área é denunciada como ato de “higienização” (a palavra “higiene” tem sentido pejorativo no mundo oficial – a menos quando aconselham as pessoas a lavar as mãos em época de epidemia).

“Opção pela vida”? Na favela de Paraisópolis, para a qual ninguém dá cinco minutos de atenção sincera, há 45.000 pessoas por quilômetro quadrado – em Taboão da Serra, que tem a maior densidade demográfica do Brasil, são 14.000 e na cidade de São Paulo, cerca de 7.500. Como é possível pensar em saúde pública quando os que mandam e influem são indiferentes à uma usina de doenças igual à essa? Como exigir “distanciamento social” num lugar como Paraisópolis?

O Brasil só descobriu que é preciso cuidar da saúde pública quando o coronavírus chegou à classe média e aos ricos. Vai esquecer isso assim que a tragédia passar.

J.R.GUZZO

O QUE O BRASILEIRO MAIS QUER É QUE A COVID-19 VÁ EMBORA

Lá se foi, enfim, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O que estava fazendo ainda no cargo é coisa que não sabe; há semanas ele vive em conflito aberto com o presidente Jair Bolsonaro, e em regime presidencial ministro não pode fazer isso, e nem o presidente pode aceitar que faça. Fim da linha, portanto.

A demora de duas ou três semanas na demissão se deve, provavelmente, à dificuldade natural de se encontrar um ministro da Saúde à esta altura dos acontecimentos, com o coronavírus deitando e rolando, os meios de comunicação anunciando “mais tantos mortos” hoje e a população, em grande parte, tomada por um medo de morrer que nunca havia se manifestado desta forma até hoje. Quem quer segurar esse rojão? Mas ministério, por natureza, nunca fica vazio. A pergunta é: o sucessor vai ser melhor que o antecessor?

Essa é, no fundo, a única questão que interessa a população. Como em geral acontece em trocas de ministro, o cidadão não está muito preocupado com esse ou aquele nome – não é como num time de futebol, onde cada torcedor tem o seu preferido para centroavante ou lateral direito.

Na verdade, o público não tem a menor ideia de quem são os doutores que estão nas manchetes; nunca soube quem foi esse Mandetta, nem quem é Nelson Teich, seu sucessor, e amanhã já terá esquecido de ambos. O que a população quer, mais que já quis qualquer outra coisa nos últimos anos, é que a peste vá embora. Com A, B ou C no ministério, tanto faz: quem tem de ir embora é o vírus.

Parece fútil, assim, ficar tentando adivinhar se o governo “ganha” ou “perde” politicamente no episódio, pois o que importa é como vai ser a evolução da epidemia. Também não se vai longe com essas dúvidas quando se leva em conta que não havia outra decisão possível, na vida real do aqui e do agora, do que demitir o ministro; não dava para continuar vendo os dois, Bolsonaro e Mandetta, discutindo em público todo o dia diante de uma calamidade dessas.

Ou o presidente e o seu ministro tem a mesmíssima posição sobre como enfrentar o problema, ou um dos dois tem de ir embora. O presidente só pode ir em 2022; então tem de sair quem pode ir já.

Mandetta, segundo a maioria dos julgamentos, parece ter ido bem no começo da crise. Foi elogiado, em geral, por aliados e adversários do governo. Fez, tanto quanto se saiba, o que um ministro podia fazer quando a epidemia chegou ao Brasil. Buscou um equilíbrio entre a turma do “fecha tudo” e a turma da “gripezinha”. Não se afobou, nem inventou moda e nem se inscreveu num dos dois partidos políticos que funcionam hoje no Brasil – o PPV e o PCV, o Partido Pró Vírus, ou “da oposição”, e o Partido Contra o Vírus, ou “do governo”.

O problema é que não deu para continuar nessa trilha. O vírus cresceu, ficou mais forte que a prudência, passou por cima da habilidade, moderação e outras virtudes semelhantes e levou o ministro, inevitavelmente, a pender mais para um lado. O presidente da República, por sua vez, pendeu para o outro. Deu nisso.

É pouco provável, no ambiente de desordem legal, de partidarismo e de interesses criado no Brasil por conta da Covid-19, que alguma autoridade, em qualquer nível, seja capaz de exercer um papel realmente decisivo no combate à doença. Dentro de mais algumas semanas vai se ver, na prática, se a situação está piorando, parou de piorar ou começou a melhorar – não há outra possibilidade.

Nos “cenários” benignos, os dois lados vão dizer que estavam com a razão: “Ganhamos do vírus”. No cenário do horror, um jogará a culpa no outro, e nenhum dos dois vai ganhar nada.

J.R.GUZZO

A BRUTALIDADE DA FARDA EM NOME DO CORONAVÍRUS

A maioria dos policiais do Estado de São Paulo, sobretudo os cerca de 100.000 soldados, sargentos e oficiais da Polícia Militar, sabem o quanto foi difícil conquistar, ano após ano, dia após dia, o respeito, a admiração e o prestígio que desfrutam hoje junto à população paulista. Depois de décadas sofrendo uma imagem negativa, pela hostilidade que lhes é dada nos meios de comunicação e pelas lembranças de um regime militar que começou quando praticamente nenhum policial paulista havia sequer nascido, um PM de São Paulo é hoje, em geral , uma figura bem quista pelo cidadão da capital e do interior – mais, talvez, que qualquer outra autoridade pública. É comum serem cumprimentados na rua pelas pessoas. São aplaudidos com frequência quanto passam em seus carros ou motos. São solicitados a posar para selfies.

É com aflição, assim, e cada vez mais com indignação irada, que muitos policiais de São Paulo estão vendo a sua imagem ser destruída, dia após dia, pelas violências, ilegalidades e atos de estupidez que seus superiores mandam cometer em nome do combate ao coronavírus. Pior: estão pagando por delitos dos quais nem participam, já que são cometidos em geral por agentes das Guardas Municipais, com as quais não têm nada a ver. Só que o prejuízo para a imagem é “da polícia” como um todo. A maioria da população não se importa em diferenciar PM de GCM – na visão das pessoas, se está fardado, é tudo “polícia”. Toda a corporação, assim, acaba pagando pela brutalidade de guardas fardados que sequer tem o “poder de polícia” legal; são pouco mais que seguranças privados, contratados pelas prefeituras para proteger o patrimônio municipal e servir como fonte de empregos para o benefício de políticos.

Não aparece na mídia tradicional, mas as redes sociais registram a cada dia que passa mais agressões físicas contra cidadãos que não cometeram crime algum por parte de gente que veste farda. Acaba de acontecer, com direito a vídeo e áudio, em Araraquara, onde uma mulher foi presa , agredida, jogada no chão e algemada pela CGM local. Seu crime? Estava sentada, sozinha, no banco de uma praça pública, e recusou-se a voltar para casa quando os guardas mandaram. Dá para ver, até, que os agentes (que incluíam uma guarda feminina), agiram com a educação, paciência e moderação possíveis quando se faz uma prisão. Mas isso não muda em nada o desastre para a imagem da polícia causada por uma cena dessas. Logo em seguida, em São Paulo, outra mulher foi agredida pela GCM por estar fora de casa. A coisa toda, claramente, está saindo do controle.

O governador João Doria, em cima disso, jogou gasolina na fogueira ao anunciar que vai mandar prender quem não cumprir aquilo que ele considera como “violação do confinamento”. Aí é a PM, mesmo, quem será diretamente envolvida na espiral de violência. Entidades que representam oficiais da PM de São Paulo já expuseram sua revolta contra isso – preocupam-se, justamente, em receber ordens para desrespeitar a Constituição e o Código Penal dadas pelo próprio governo estadual, amparado em decretos de autoridade duvidosa e outras justificativas legais marca barbante. Não querem, é lógico, ser processados depois por ilegalidades cometidas por quem está acima deles.

A posição social, moral e de respeito que os policiais de São Paulo conseguiram – e que faz a polícia paulista ser considerada a melhor do Brasil – não é apenas um motivo de orgulho para a PM, um órgão de segurança cujas origens estão em 1831, e os agentes civis. É, também fruto de trabalho muito duro, de treinamento intenso, de disciplina, de aplicação, de aprendizado da lei e da coragem de expor as suas próprias vidas, todos os dias, na proteção aos direitos e à segurança do cidadão. É natural que, após tantos anos de esforços, a polícia de São Paulo não queira ver a sua conquista ser jogada no lixo.

J.R.GUZZO

UMA DESGRAÇA RARAMENTE VEM SOZINHA. É ASSIM COM O CORONAVÍRUS

Viaduto Santa Ifigênia durante a quarentena por coronavírus

Uma desgraça, conforme nos ensina a sabedoria popular, raramente vem sozinha. No caso do coronavírus, mais uma vez não veio. Junto com a Covid-19 temos direito, no Brasil, a demonstrações quase diárias de agressão às liberdades públicas – praticadas por 27 governadores, 5.500 prefeitos e dezenas de milhares de fiscais, com a cumplicidade geral do Poder Judiciário.

Teremos corrupção maciça do Oiapoque ao Chuí, com a suspensão da exigência de se fazer concorrência pública em contratos dos governos – a epidemia só existe até agora em 1.000 municípios, mas cerca de 2.000 já decretaram “estado de calamidade pública”, o que lhes permitirá fazer tudo o que você imagina. Temos a transformação de uma doença, e do seu possível tratamento, em questão abertamente política: até na química se formou uma divisão entre “direita”, que é pró cloroquina, e “esquerda”, que é contra.

Um dos piores aspectos dessa onda de desgraças suplementares – é difícil dizer qual é realmente o pior – é a agonia em que vive hoje no Brasil a virtude da tolerância. Não se admite, de jeito nenhum, que haja pessoas com pensamentos diferentes dos seus em relação ao problema; não se aceita que outras pessoas tenham ideias que você não goste.

A coisa ocorre nos dois grandes “lados” que se formaram, em termos gerais, quanto ao combate da epidemia – os que defendem o máximo rigor no isolamento das pessoas (“não saia da casa”), e os que defendem um abrandamento nas regras de controle do contágio e uma retomada mais rápida da produção e do trabalho. Os primeiros são, para não ficar encompridando conversa, contra o governo federal. Os segundos são a favor – ou simplesmente não aceitam a paralisia do país e de suas vidas.

A turma do “confinamento social”, até o momento, está levando vantagem clara, na maior parte do mundo político, das elites “pensantes” e da mídia, nessa competição para mostrar quem é mais intolerante. É proibido, aí, achar que há alguma alternativa para o isolamento radical – ou é isso ou é a calamidade.

Não é permitido questionar os números de casos e de mortes divulgados diariamente; não a sua exatidão aritmética, mas a recusa dos divulgadores em fazer relações e comparações com outros números e outros aspectos da realidade. Não se admite a cogitação de que haja qualquer medicamento capaz de ajudar no combate à doença; enquanto não houver uma vacina, a única medida possível é a quarentena sem prazo de duração.

O cidadão que imagina ter o direito de não concordar com qualquer dessas coisas é acusado, logo de cara, de ser “a favor da morte”. É um crápula que prefere o “lucro” à “vida”; acha que “a economia” é mais importante que “o ser humano”. Isso só para começar. Para continuar, pode ser acusado de “genocídio”. Com certeza vai ser excomungado como “bolsonarista” e “vendido ao governo” – além de fascista, inimigo do estado de direito e a favor da “volta dos militares”.

Tem pé ou cabeça uma coisa dessas? Não tem nem uma e nem outra, claro. Mas é assim que ficou. Da próxima vez que o Imperial College de Londres disser que o Brasil “pode” chegar a mais de 600.000 mortos, ou que a ex-presidente Dilma Rousseff prever “até 1 milhão de mortes”, é melhor ficar quieto. Quem achar que talvez não seja bem assim vai ser denunciado, na hora, como inimigo do povo brasileiro.

J.R.GUZZO

PEQUENOS TIRANOS

Um dos aspectos mais perversos da violência social imposta ao Brasil com o combate à epidemia trazida pelo coronavírus é o assalto aberto contra as liberdades públicas e individuais. É chocante. Na cascata sem fim de decretos, ordens e regras adotadas todos os dias pelas autoridades para enfrentar a doença, há restrições de primeiro grau aos direitos do cidadão – algo compreensível, e na verdade inevitável, diante da ameaça real à saúde púbica e ao interesse comum.

Em grande parte, também, não há nenhuma dúvida sobre as boas intenções, a dedicação e a competência de muitos agentes do governo e de organizações privadas no trabalho que entendem ser o melhor para combater o vírus.

Nenhum problema, aí – são pessoas que assumem as suas responsabilidades na crise e tentam, honestamente, fazer o que podem. O problema é que muita gente em posição de mandar está se aproveitando da oportunidade, com malícia intencional e premeditada, para criar ditaduras pessoais nos pedaços maiores ou menores em que mandam.

Essas pequenas tiranias não vão durar para sempre, é claro – mas serão aproveitadas até o último suspiro pela surpreendente quantidade de ditadores de quintal que apareceu, de uma hora para outra, em todo o território do Brasil. Eles exibem 24 horas por dia o que têm, realmente, dentro de suas almas: uma hostilidade agressiva, rancorosa e ressentida contra os direitos dos cidadãos que governam – e a paixão sem disfarces em mostrar para o mundo que “aqui quem manda sou eu”. Você pode ver, o tempo todo, quem são eles.

Estão entre os 27 governadores, 5.500 prefeitos e milhares de fiscais, para não falar em síndicos de prédio e no guarda da esquina, que se descobriram, de um momento para outro, num limbo legal onde não está claro o que podem ou não decidir. É óbvio que tomaram a opção pela ditadura. Cinco minutos depois de verem que a maior parte da Justiça brasileira abandonou o dever de apreciar a legalidade de seus atos, passaram a agir como quem pode decidir tudo.

É perturbador verificar a rapidez com que a mídia, as entidades encarregadas de vigiar se as liberdades do cidadão estão sendo respeitadas e as personalidades que protestam dia e noite contra qualquer arranhão, real ou imaginário, no estado de direito aceitaram a multiplicação de tiranos por este País afora.

Um bandido, ou outro vagabundo qualquer, que apanha da polícia ao ser preso, vira tema de destaque imediato nas manchetes e nos telejornais; o Ministério Público entra em transe e os governadores exigem a apuração imediata e rigorosa da violência policial. Hoje está tudo permitido. Correram o País as cenas da brutalidade com que a Guarda Municipal de Maringá, cidade do interior do Paraná onde se formou o ministro Sérgio Moro, prendeu, agrediu e algemou o dono de um lava-carros que queria trabalhar. Não houve, fora das redes sociais, a mais tímida objeção a esse crime – que se reproduz, com variações, por toda a parte. Em tempos de peste, qualquer prefeitinho vira o Grande Ditador.

O vírus não é o único perigo para o Brasil de hoje. Tão ruim quanto isso é a cumplicidade do Judiciário, dos meios de comunicação, das classes “liberais” e de tanta gente com os tiranos que a covid-19 trouxe à luz. Quem acha certo trocar liberdade por mais segurança não merece nenhuma das duas coisas. Ser livre exige assumir responsabilidades, e não abandonar sua vida à autoridade – ao contrário, a história da liberdade é a história da limitação do poder no governo, nunca do seu aumento. O diabo é que há gente demais com medo de responsabilidades. É o que estamos vendo neste Brasil da epidemia.

J.R.GUZZO

O BRASIL DIVIDIDO ENTRE O PARTIDO ANTIVÍRUS E O PRÓ-VÍRUS

A epidemia oferecida ao mundo pelo coronavírus da China conseguiu produzir, no Brasil, um fenômeno talvez sem precedentes: pela primeira vez na história uma substância química passou a servir como linha de divisão entre a direita e a esquerda. É essa hidroxicloroquina, um clássico trava-língua do qual ninguém jamais tinha ouvido falar até hoje fora da comunidade envolvida com o universo da química, mas sobre a qual todo mundo passou a ter, subitamente, opiniões apaixonadas – do presidente da República ao porteiro do seu prédio. A discussão é se essa droga, disponível através da indústria farmacêutica, serve ou não para curar a Covid-19.

Química é química, e política é política, mas no Brasil irracional em que estamos vivendo, as coisas não são assim. Se você é de direita, e a favor do presidente Jair Bolsonaro, você acha que a hidroxicloroquina é um santo remédio para curar a Covid-19. Se você é de esquerda, e contra o governo, acha que é um veneno – ou, no mínimo, uma substância suspeita, de efeitos desconhecidos e que não pode, de jeito nenhum, ser receitada para ninguém.

Naturalmente, como de costume, quanto menos o sujeito sabe sobre química, farmácia e medicina, mais certeza ele tem de que está com a razão. Não ajuda em nada, para se melhorar os níveis clareza do bate-boca, o fato de que os próprios médicos e pesquisadores estão amargamente divididos sobre os efeitos do medicamento.

Não é uma questão difícil de entender quando se leva em conta que, desde a chegada da epidemia, o Brasil se dividiu entre o partido antivírus e o partido pró-vírus. O primeiro quer que a Covid-19 seja eliminado o mais cedo possível, que o confinamento seja encerrado e que o país volte a funcionar rapidamente. O segundo quer que a epidemia apresente estatísticas cada vez piores, que a quarentena seja reforçada e que o país demore o máximo possível para voltar ao normal.

O Brasil antivírus, é claro, é o do governo – quanto mais cedo a praga acabar, melhor para ele. O Brasil pró-vírus é o da oposição. Quanto mais o país demorar para recuperar a normalidade, tanto pior para o governo e o seu futuro político.

O resto dessa história toda é bem conhecido. A hidroxicloroquina está disponível e sendo aplicada, é claro, nos hospitais dos ricos e dos planos médicos “top de linha”; é tomada, também, pelos médicos que pegaram o vírus e podem controlar o seu próprio tratamento.

O raciocínio que está valendo, aí, é o seguinte: os conhecimentos já obtidos sobre a droga ainda não são completos, mas já são suficientes para aplicá-la, sem riscos, num vasto número de pacientes No SUS, e para o povão, o raciocínio é esse mesmo, só que ao contrário: os conhecimentos sobre a substância ainda não são completos e, portanto, ela não deve ser aplicada.

O jornalismo investigativo deu a si próprio a missão de investigar, em todos os seus detalhes, as possíveis contraindicações da hidroxicloroquina e, sobretudo, em demonstrar que não há certeza científica sobre os seus benefícios. As “instituições”, como um todo, também se colocam contra – salvo quando seus próprios membros passam a precisar de tratamento. A oposição age da mesma forma.

É muito fácil, obviamente, exigir consenso absoluto sobre a eficácia, o alcance e a conveniência da aplicação da substância quando você próprio não precisa esperar, para tomá-la, pelos próximos vinte ou trinta anos – tempo que a ciência médica, em geral, demanda para ter certeza suficiente sobre medicamentos e terapias. O duro, justamente, é a espera. Mas isso é coisa para pobre – e os pobres, como sempre, que se explodam.

J.R.GUZZO

BOLSONARO DEVERIA DIZER, EM PÚBLICO, QUE É A FAVOR DAQUILO QUE É CONTRA

Agora, para esse caso do coronavírus, já é tarde demais. Mas para uma próxima vez, se houver uma próxima vez, o presidente Jair Bolsonaro deveria fazer exatamente o contrário do que fez, se quiser sair no lucro numa disputa desse amanho. É simples: basta dizer, em público, que ele é a favor daquilo que é realmente contra, em particular – ou vice versa.

O senhor quer que aconteça “A”, presidente? Então diga que quer que aconteça “Z”. As forças vivas da nação, de Fernando Henrique ao PCC, de Rodrigo Maia a Dilma Rousseff, do STF à Assembleia Geral da ONU, e assim por diante, vão cair matando em cima do que Bolsonaro disser, seja lá o que for. Pronto: daí fica todo mundo contra o que ele, na verdade, também é contra, e a favor do que ele, em segredo, é de fato a favor.

Se Bolsonaro tivesse saído por aí dizendo que o Brasil tinha de se submeter a um confinamento radical – todo mundo trancado em casa, fecha tudo, para tudo, mata, prende e arrebenta – não haveria mais, já há muito tempo, confinamento nenhum neste país. Tinha de dizer, também, que qualquer sugestão de que existe algum tratamento médico possível para o Covid-19 é mentira, traição e coisa de comunista.

Em suma: precisava fazer o que os seus inimigos, sobretudo os que se enxergam como grandes forças na campanha eleitoral de 2022, querem que seja feito. Daí o Brasil voltava a funcionar, na hora.

É verdade que o presidente ia ser acusado de genocídio, e denunciado pelos “juristas brasileiros” nas “cortes internacionais de justiça” por crimes contra a humanidade; ele estaria obrigando os 200 milhões de brasileiros a saírem de casa, irem trabalhar e se contagiarem com o coronavírus, para exterminar a população e ficar mandando no Brasil sozinho, junto com o gabinete do ódio.

Mas e daí? Ele já está sendo acusado de fazer justamente isso. Em compensação, a epidemia estaria sendo tratada pelos médicos e pela ciência, e não pelo guarda noturno e gigantes como os governadores Witzel, Doria, Caiado, Barbalho e mais do mesmo.

O coronavírus, no Brasil, conseguiu o fenômeno de rebaixar questões da química, da farmacologia e da aptidão de gerir a saúde pública ao nível moral dos seus políticos – sobretudo dos governadores, prefeitos e fiscais que todo brasileiro sabe, muito bem, quem são e para o que servem.

Gerou uma massa de mentiras como nunca se viu antes, possivelmente, na história deste país. Levou os meios de comunicação a abrirem mão da lógica, renunciarem ao dever de informar ao público e divulgarem alguns dos mais espetaculares disparates que alguém pode ter lido na vida – como o de que a epidemia pode causar “mais de 600.000 mortos” no Brasil se as medidas de confinamento forem “relaxadas”. Todos, de uma forma ou de outra, se engajaram numa causa que acabou por se tornar maciçamente política – a campanha para impedir a reeleição do atual presidente em 2022.

Bolsonaro pode ser um péssimo presidente. Pode ser, para quem não gosta de nenhum aspecto do seu comportamento, das suas posições ou da sua própria existência, o pior de toda a história do Brasil – passada e futura. Mas a solução para tudo isso está em construir uma candidatura de oposição coerente, ir às urnas e ganhar dele. Tirar vantagem pessoal da desgraça comum, como estão fazendo tantos dos nossos políticos, apenas coloca mais um prego no caixão dessa democracia falida que há por aí.

J.R.GUZZO

OS MAIS NOVOS NAMORADOS DA ESQUERDA NACIONAL

Até muito pouco atrás o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), era tratado como uma espécie inferior de bactéria pelo ex-presidente Lula, por toda a esquerda nacional e pela mídia – para não falar das classes intelectuais, filosóficas e sociológicas do país. Poucos políticos brasileiros, em tempos recentes, foram desprezados com tanto empenho e rancor como Doria. A aversão começou quando ele derrotou o PT e Fernando Haddad na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2016.

Piorou muito dois anos depois, quando se grudou desesperadamente a Jair Bolsonaro após ter abandonado a prefeitura e se ver ameaçado de perder a eleição ao governo do estado para um ex-prefeito de São Vicente. Na ocasião, inventou um negócio chamado “Bolsodoria”, e só por isso, na última hora, conseguiu se eleger. Sua imagem junto à esquerda chegou, então, ao ponto mais baixo que alguém pode alcançar.

Mas nada é tão fácil de se arrumar na política brasileira de hoje quanto um milagre. Basta se exibir como um adversário do presidente da República e pronto: a imagem de qualquer um, até mesmo de Doria, é imediatamente retirada do lixo e promovida pela esquerda e pelos meios de comunicação ao grau de estadista responsável, equilibrado, sereno, patriota e quem sabe quanta coisa mais.

Seu ponto culminante nessa virada de casaca acaba de ser atingido: ninguém menos que Lula, em pessoa, nomeou Doria, pelo Twitter, como um grande homem, na categoria de salvador do Brasil. Doria devolveu a puxada de ego. Eis aí, quem diria, os dois mais novos namorados da esquerda nacional.

Doria começou a aparecer em público como um destemido opositor de Bolsonaro assim que fez as contas e chegou a duas conclusões. A primeira é que não precisava mais da ajuda do presidente. A segunda é que a elite mais subdesenvolvida do Brasil, e que mais faz a pose de “civilizada”, não consegue admitir a hipótese de que Bolsonaro seja eleito para mais um mandato. Já não aceitam que ganhou as eleições de 2018. Não podem nem pensar em 2022. Como essa gente anda órfã de candidatos (chegam a pensar, até, num apresentador de programa de auditório para resolver o seu problema), Doria se ofereceu: “Alô, antibolsonaristas do Brasil, que tal eu?”. Desde então, não pensa em outra coisa. Com a chance do coronavírus que lhe caiu de graça no colo, se animou de vez.

Doria se meteu agora com Lula, na suposição de que o ex-presidente já é um defunto político mal enterrado, e não será mais nada, nunca, na política brasileira; poderia, então, já que não será candidato a coisa nenhuma, passar para o governador os votos e os apoios que tem hoje, em troca de vantagens em sua eventual e futura presidência. O grau de confiança que Lula tem em Doria, pelo que se sabe da mentalidade do ex-presidente, oscila entre zero e menos um. Doria, pelo seu histórico, tem o mesmo tipo de consideração pelo novo amigo. Mas política é dia a dia. Os abraços de hoje são os abraços de hoje. Amanhã é amanhã.

J.R.GUZZO

A INSENSATEZ DA OMS DIANTE DO VÍRUS CHINÊS

De toda a maciça produção de mentiras, declarações hipócritas e decisões desastrosas, devidas à ignorância ou à má fé, tomadas até agora para enfrentar a epidemia trazida pelo coronavírus, provavelmente nada iguala a estupidez de autoridades e “personalidades” brasileiras em sua insistência de exigir fé religiosa no que diz a Organização Mundial de Saúde. A OMS, um alarmante cabide de empregos que serve de esconderijo, na segurança da Suíça, para marginais que frequentam os galhos mais altos de ditaduras africanas e outros regimes fora-da-lei, é tida no Brasil como “autoridade em saúde mundial”, por “ser órgão da ONU”. Mas a OMS não é uma organização científica. É um agrupamento político a serviço de interesses terceiro-mundistas, antidemocráticos e opostos à liberdade econômica. O resto é pura enganação.

Ainda agora ouvimos o presidente do Senado – imaginem só, ninguém menos que essa figura, o presidente do Senado – nos instruir, em tom gravíssimo, das nossas obrigações de seguir em tudo o que a OMS está mandando fazer sobre o coronavírus. É claro que você já sabe o que eles querem: confinamento geral e rigoroso da população, e repressão à atividade econômica. Sem que se saiba direito porque, o ministro Gilmar Mendes, que por sinal andava esquecido com todo esse barulho, entrou no assunto. “As orientações da OMS devem ser rigorosamente seguidas por nós”, disse Gilmar. “Não podemos nos dar ao luxo da insensatez”. Obviamente, nem um nem outro têm a menor ideia do que estão falando. Quanto ao chefe do Senado, naturalmente, é exatamente o que se pode esperar. No caso do ministro, a única coisa que faz sentido dizer é o seguinte: insensato, mesmo, é ouvir o que a OMS diz sobre saúde, por cinco minutos que sejam.

Questão de ponto de vista? Nem um pouco. É uma pura questão de fatos. Vamos a eles. Durante quatro semanas inteiras, ainda em dezembro de 2019, com o vírus deitando, rolando e matando à vontade, o governo da China se recusou a admitir a existência de qualquer problema na cidade de Wuhan, o berço desse pesadelo. Não se tratava de nenhuma discussão acadêmica – era um caso de polícia secreta, como é comum acontecer em ditaduras quando aparecem problemas com os quais o governo não sabe lidar. O governo da China não apenas mentiu, dizendo, repetidas vezes, que não havia epidemia nenhuma.

Prendeu médicos e cientistas que alertaram sobre o vírus. Pesquisadores sumiram e nunca mais foram vistos até hoje. Laboratórios onde faziam seus estudos sobre o coronavírus foram destruídos. Provas materiais da existência do vírus foram confiscadas pelo governo e desapareceram. Todas as opiniões e conclusões diferentes das aprovadas pelo governo foram proibidas; passaram a ser consideradas “crime”. A China insistiu, até o último minuto, em permitir voos internacionais e em recomendar que os homens de negócio estrangeiros – da Itália, por exemplo – continuassem vindo para o país.

E qual foi, desde o início, a posição da OMS? Dar apoio cego a tudo o que o governo da China determinou. Qualquer dúvida quanto à epidemia foi considerada como “preconceito” e “racismo”. A proibição de viagens à China por parte dos Estados Unidos foi oficialmente condenada pela OMS. Qualquer advertência sobre os riscos do coronavírus foram classificados como “agressão econômica” pelo órgão encarregado de cuidar da saúde do mundo. Até o dia 11 de março, meras três semanas atrás, a OMS se recusou a declarar a existência de uma situação de “pandemia”.

E quem é o diretor-geral da OMS? Um político etíope, Tedros Adhamon Ghebreyesus, que faz parte do grupo que instalou, anos atrás, uma ditadura selvagem na Etiópia, e se mantém no poder até hoje. Como “ministro da Saúde” do regime, foi acusado de ocultar uma epidemia de cólera em seu país – pelo jeito, é uma de suas inclinações. E quem foi que colocou esse Tedros no comando da OMS? A China, usando de toda a sua influência dentro da ONU.

Mas precisamos obedecer à OMS, não é mesmo? O presidente do Senado, o ministro Gilmar e a mídia que imagina saber das coisas nos dizem que eles são a autoridade número 1 da saúde mundial. Eis aí o Brasil ignorante, subdesenvolvido e destinado, sempre a ser o último a saber.