GUILHERME FIUZA

GUILHERME FIUZA

O GENOCÍDIO QUE OS EMPÁTICOS NÃO VIRAM

A ONU reconheceu os crimes contra a humanidade da ditadura venezuelana. É um reconhecimento marcado pela agilidade, tendo levado apenas uns dez anos para captar as atrocidades do chavismo fantasiado de democracia progressista. Uma década não é nada para quem não estava sendo escalpelado por Hugo Chávez e Nicolás Maduro na fila do papel higiênico.

O regime sanguinário que começou a ser implantado na Venezuela na virada do século talvez seja o que mais teve o apoio de gente boazinha na história da humanidade. Hollywood achava Hugo Chávez uma graça e personalidades como Oliver Stone e Sean Pen foram lá beijar a mão dele. Isso foi uma maravilha para que esses bandidos gente boa pudessem arrebentar com o povo venezuelano em paz, sem nenhum enxerido para atrapalhar.

O Papa Francisco assumiu seu cargo praticamente junto com Nicolás Maduro – com a renúncia de Bento XVI e a morte de Hugo Chávez, em 2013. O máximo que Francisco fez nesse percurso, além de abençoar Maduro, foi pedir à oposição venezuelana que se esforçasse pelo entendimento nacional. Um pedido providencial de esforço diplomático aos trucidados.

Recentemente, com a devastação ditatorial consumada – a ponto de o povo venezuelano começar a fugir em massa do seu país – o Papa disse que Maduro não cumpriu o combinado. Esses assassinos são muito desobedientes mesmo, não dá para combinar nada direito com eles.

Depois de enterrar dinheiro roubado do contribuinte brasileiro na ditadura chavista (com apoio de parte da elite esclarecida daqui) e de ser tirado da prisão por seus parças do STF, Lula foi recebido pelo Papa Francisco no Vaticano para uma “reunião contra a fome”. Francisco e Lula estavam sorridentes na foto. O povo massacrado da Venezuela certamente não sorriu com eles. E a ONU estava ocupada escalando Michelle Bachelet para espalhar que o Brasil estava caindo na ditadura. Cada um na sua.

Essa sofisticada orquestra do silêncio protetor à ditadura sanguinária de Maduro contou, é claro, com todos os tenores da resistência de auditório brasileira. Essa intelectualidade burguesa metida a progressista, que sanciona candidatura presidencial de suplente de presidiário, nunca gritou contra a devastação chavista. Todos os hipócritas com suas tinturas petistas, psolistas e outros meios-tons de disfarce humanitário contribuíram com sua distração calculada para que o pupilo boçal de Hugo Chávez pudesse manter sua fachada de revolucionário contra a opressão yankee.

Agora a Organização das Nações Unidas vem reconhecer que esse regime e seus líderes perpetraram crimes contra a humanidade. Olhe em volta e procure a indignação dos humanistas brasileiros que passam 24 horas alertando para o perigo da ditadura. Você não vai encontrar nada. Eles estão ocupados no zoom, patrulhando quem vai à praia.

GUILHERME FIUZA

GUILHERME FIUZA

VACINA? QUE VACINA?

Uma decisão da Justiça do Trabalho no Rio de Janeiro proibiu a volta às aulas em escolas particulares. A ação movida pelo Sindicato dos Professores da capital determinou que as salas só poderão voltar a ser ocupadas pelos alunos quando houver certeza de segurança sanitária – o que quer dizer que o juiz mandou as escolas esperarem pela vacina. Que vacina?

O governo do estado havia autorizado a reabertura das escolas. Ou seja: a autoridade que seguiu os planos de confinamento mais restritivos – o chamado lockdown – e estava cumprindo o processo de retomada gradual das atividades sociais foi desautorizada pela Justiça (do Trabalho). Vamos traduzir: trata-se de um lockdown embargado por outro lockdown. Quais sãos os critérios? Simples: ganha quem trancar mais.

Como se trata de uma pandemia, pode-se fazer comparações entre várias regiões do planeta. E uma das comparações proibidas para um juiz como esse do Rio de Janeiro é entre a situação do Reino Unido e a da Suécia. O país que não trancou nada – nem as escolas – tem menos mortes por milhão que o país que trancou tudo. E a incidência de óbitos é mínima entre pessoas em idade escolar. Explica isso, seu juiz.

Ninguém explica nada. Uma das mágicas do lockdown foi a abolição da lógica. Ciência hoje é uma questão de desinibição. Quanto maior for a sua cara de pau ao afirmar que está salvando vidas com medidas irracionais e sem lastro em literatura alguma, maiores serão suas chances de ser levado a sério, respeitado e até temido. A combinação de ignorância, hipocrisia e medo sempre foi explosiva.

Vários países da Europa reabriram as escolas, com diversas regras de segurança e monitoramento. O percurso da epidemia no Brasil é igualmente declinante e o vírus é o mesmo. Mas em Paris não tem um juiz trabalhista como o do Rio de Janeiro. Aprendam, franceses: o doutor determina que as aulas continuarão proibidas “até a vacinação de professores e alunos ou até que se demonstre, por meio de estudo técnico ou de outro modo, que não há risco para os alunos, os professores e a sociedade”.

A base científica dessa decisão se concentra na expressão “de outro modo”. Significa o seguinte, à luz do direito trabalhista moderno: dá um jeito aí de garantir que ninguém vai ficar doente nunca mais, senão eu acabo para sempre com esse negócio de aprender e ensinar. Pedagogia segura, só no tik tok.

É claro que esse luminar não disse em qual “estudo técnico” se baseou para afrontar a decisão do governo e decretar que as escolas não podem funcionar. A técnica, às vezes, é um estado de espírito. A única referência legível nessa canetada, portanto, é à vacinação. E quais são as perspectivas para a chegada de uma vacina segura e eficaz contra a Covid-19? O juiz não sabe – pela singela razão de que ninguém sabe, apesar do festival de prognósticos voadores e chutes que dominam hoje o tema.

Essa perspectiva de vacinação em massa no início de 2021 está mais para especulação que para previsão, se comparada com os ciclos normais de desenvolvimento de uma boa vacina. E em quem a população vai confiar para se certificar de que a vacina é boa, se ela chegar em tempo recorde?

Vai confiar na OMS, que fez política com remédio e contrariou a si mesma diversas vezes sobre as diretrizes da epidemia? No Instituto Butantã, cuja direção fala o que o governador de São Paulo quer ouvir? Na Fiocruz, cuja direção também mergulhou em proposições místicas de lockdown em parceria com um governador já afastado por corrupção? Na Anvisa, que se não der o ok em 72 horas a vacina será considerada automaticamente aprovada?!

É para confiar na China, na Rússia ou nos institutos que soltaram projeções tão tenebrosas quanto fajutas? Caro leitor: em termos de ciência, a única verdade insofismável é de que você está a pé. A decisão de renunciar ou não à vida em sociedade é sua.

GUILHERME FIUZA

HORA DE LAVAR A JATO

O STF suspendeu uma ação que aponta corrupção na CPI da Petrobras. O atual ministro do Tribunal de Contas da União Vital do Rêgo, que presidiu a CPI, é acusado de vender proteção a empreiteiros na CPI. Quem acompanhou os trabalhos dessa comissão sabe que nela teve de tudo – até defesa de petistas redigida dentro da Petrobras – menos investigação dos roubos na estatal. Gilmar Mendes afirma que a denúncia não é consistente.

Na ação da Lava Jato aberta pela 13ª Vara federal de Curitiba, o então senador Vital do Rêgo é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. De acordo com a denúncia, o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro pagou R$ 3 milhões a Vital do Rêgo para barrar a convocação de diretores da construtora pela CPI. De fato, nenhum integrante da OAS foi chamado a depor.

Edson Fachin e Carmem Lucia discordaram das alegações de Gilmar, mas Ricardo Lewandowski votou a favor e o empate favoreceu o réu. Aparentemente, quem está na berlinda é a delação de Léo Pinheiro. Por coincidência, Gilmar Mendes também trabalha com a tese de suspeição do ex-juiz Sérgio Moro no processo do triplex do Guarujá – no qual Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, em sentença confirmada pela segunda instância. De acordo com a sentença, quem reformou o apartamento para Lula foi o mesmo Léo Pinheiro.

Ou seja: nessa nova onda de suspeição, além da sentença de Sérgio Moro e da delação de Léo Pinheiro, o STF parece estar disposto a desacreditar também o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que manteve a condenação de Lula por vender vantagens à OAS em contrato com a Petrobras. Ou o STF se esqueceu dessa parte da história?

O Supremo Tribunal Federal – e o ministro Gilmar Mendes em particular – esteve no centro de episódio da soltura de Lula, condenado a mais de 20 anos de prisão em dois processos. O STF se reuniu excepcionalmente para rever sua própria decisão (de apenas três anos antes) e proibir a prisão após condenação em segunda instância. Entre 2016 e 2019, período da guinada do Supremo, o único fato novo e expressivo nessa matéria foi a prisão de Lula.

Com os novos movimentos acima descritos, não se pode afirmar categoricamente quais os propósitos do STF – mas é absolutamente evidente que a suprema corte está fazendo o percurso inverso ao da operação Lava Jato.

Isso já havia ocorrido no caso Bendine – anulação de sentença contra o ex-presidente do Banco do Brasil pelo STF por suposto erro de processo. A tese na ocasião foi de que a defesa não tinha podido ver todos os termos de delação antes de apresentar suas alegações finais. O fato é que o STF está sempre tentando comer a Lava Lato pelas beiradas. A não ser que seja tudo coincidência – inclusive a recente desqualificação da delação de Antonio Palocci no processo sobre corrupção envolvendo a Odebrecht na aquisição de terreno para o Instituto Lula.

A Lava Jato tem agora um novo coordenador – o procurador Alessandro Oliveira. Seu estilo parece ser o de trabalhar em silêncio – o que sempre foi o principal trunfo das investigações da força-tarefa. Com a massa de informações valiosas que tem, Oliveira tem tudo para salvar as delações premiadas da tentativa de desmoralização que está no ar. E mostrar ao Brasil que não existe “lavajatismo”. Existe justiça.

GUILHERME FIUZA

SAI DA UTI, BRASIL

Paulo Guedes disse que o Brasil vai surpreender o mundo. Isso foi no auge da pandemia. Agora o ministro da Economia diz que os sinais confirmam a tendência de recuperação nacional em V – ou seja: após a queda acentuada decorrente das paralisações, uma retomada econômica acelerada. Nesse cenário, o PIB cairia em torno de 5% (ou menos) – o que de fato seria surpreendente em relação à maioria das projeções iniciais, quando foi reconhecida a calamidade.

É ver para crer, nesse quadro tumultuado que derruba projeções a cada esquina e ninguém consegue saber onde é o pico da incerteza. O certo é que o risco Brasil fechou agosto no menor nível em seis meses – ou seja, retornou ao patamar de antes da pandemia, que por sua vez era o menor desde a ruína petista.

A arrumação da casa nos últimos três anos tinha resgatado o país da maior recessão da sua história – combinação de incúria e assalto – e ninguém diria que a recessão voltaria tão rapidamente, como acaba de ser constatado com a divulgação do PIB do segundo trimestre. Deve ter sido por pura identificação que Lula disse que “felizmente a natureza criou esse monstro chamado coronavírus”. De certa forma, o ex-presidiário fez o seu sucessor. Ainda vão brigar entre si para ver quem destruiu mais.

Para quem é de construir, o nome do jogo agora é fugir da depressão – um flagelo que legaria vários anos de penúria até a recuperação dos indicadores pré-pandemia. Aí, sim, a covid deixaria Lula no chinelo. E uma segunda década perdida em tão pouco tempo muda os rumos de uma nação – para muito pior. O que o ministro Paulo Guedes está dizendo é que as chances dos brasileiros de escapar desse destino trágico são boas. Mas tudo depende dos próximos passos que o país (não só o governo) vai se dispor a dar.

Apesar do tombo pandêmico, a economia manteve os “sinais vitais” – como diz o ministro. Mas isso se deveu principalmente ao socorro governamental. O programa de transferência de recursos públicos para pessoas e empresas – entre auxílio emergencial, créditos especiais, adiamento de vencimentos e outras medidas – foi bem operado. A explosão do desemprego em decorrência dos bloqueios sanitários foi reduzida por regimes trabalhistas especiais para evitar demissões.

Muitas vidas certamente foram salvas pelo socorro estatal. Não foi um milagre. Foi a criação de uma dívida de quase R$ 1 trilhão. Como decolar em V com um papagaio desses nas costas?

Só existe um caminho: gerar riqueza num ritmo sem precedentes. Os demagogos que radicalizaram as medidas de trancamento e asfixia social agora fingem que o auxílio emergencial pode ser eternizado. Nenhuma surpresa. Sempre foram parasitas – e, como todo parasita, burros: atacam o hospedeiro para poder sugá-lo. Talvez por isso vivam repetindo que a pandemia veio para ficar. Suas chances de futuro se resumem a um surto que nunca acabe.

O Estado fez a sua parte quanto à transfusão de sangue para a sociedade. Agora o futuro dela depende de sangue privado. E o caminho para uma performance excepcional no processo de geração de riquezas depende da reformulação do Estado em modo de emergência. O socorro agora são as reformas.

Para escapar de ser engolido pelo rombo da pandemia, o Brasil precisa completar a tríade da reestruturação do Estado – que se iniciou com a reforma da Previdência e se completará com a administrativa e a tributária. Há um excelente sinal no horizonte: 2019 foi um ano de grande conflagração política, e ainda assim Executivo e Legislativo se entenderam na hora de dar o grande passo; agora, por incrível que pareça – e com toda a instabilidade trazida pelo vírus do oportunismo -, o ambiente entre os dois poderes está menos inflamado.

Especialmente da parte de Jair Bolsonaro e de Rodrigo Maia vem se desenhando um pacto. Já foi afirmado quanto ao teto de gastos e quanto à reforma tributária. Isso não pressupõe ausência de conflitos e negociação fácil. Apenas retira o componente refratário – isto é, a predisposição à sabotagem. Basta isso.

Até no STF já surgiu, da parte do ministro Marco Aurélio Mello, a voz contra o jogo de armadilhas. Ou a Suprema Corte corrige seu rumo, ou ficará falando sozinha. A História reconhecerá – e recompensará – todos os que apostarem na união para salvar os brasileiros.

GUILHERME FIUZA

WITZEL E A DITADURA CONSENTIDA

O governador do Rio de Janeiro foi afastado do mandato pela Justiça. As investigações sobre os delitos de que é acusado transcorrerão e trarão as conclusões sobre o que de fato Wilson Witzel fez de errado. Mas outra interrogação se impõe, no momento em que seu governo nebuloso é interrompido: por que os “progressistas” assistiram calados aos desmandos de Witzel?

Foi tudo muito estranho. Witzel encomendou sete hospitais de campanha no auge do alarme da pandemia. Só dois foram montados, e com funcionamento parcial. Ao mesmo tempo, diversas compras emergenciais de respiradores e outros equipamentos de saúde foram assinaladas pelo Tribunal de Contas como superfaturadas. Os supostos progressistas – de quem se esperaria no mínimo críticas a um governador de direita – ficaram calados.

Witzel fez muito mais que isso – no hall das coisas que deveriam incomodar os humanistas e democratas de plantão: mandou descer o sarrafo no cidadão. Sob o pretexto do cumprimento de medidas sanitárias, o governador agora afastado do cargo ordenou às suas forças de segurança que partissem para cima da população em circulação no Rio de Janeiro. Copacabana, a mundialmente famosa Princesinha do Mar, assistiu calada duas mulheres e seus filhos sendo arrastados para dentro de um camburão porque os adolescentes mergulharam no mar.

A brutalidade fantasiada de salvação de vidas rendeu diversas cenas ditatoriais de banhistas cercados por homens armados, mulheres de biquíni arrastadas de forma animalesca por policiais, utilização de arma de choque para derrubar e prender um rapaz andando sozinho na areia. Essas cenas estão gravadas para sempre – e o silêncio dos supostos humanistas cariocas também.

Ao mesmo tempo o que se viu foram ônibus circulando cheios e até aglomerações para recebimento do auxílio emergencial. Nesses casos, a preocupação de Wilson Witzel com o contágio pelo coronavírus teve o mesmo destino do dinheiro dos hospitais de campanha: sumiu. E adivinha o que aconteceu com a patrulha histérica dos que ficaram no zoom acusando todo mundo de genocida? Acertou, seu danado: também sumiu. Ônibus lotado nunca preocupou os empáticos da laive.

Enquanto o paraquedista Witzel dava vazão aos seus instintos ditatoriais sob o manto protetor do lockdown, a famigerada militância que se diz de esquerda e preocupada com perigos autoritários se alinhou com ele. Na Fundação Oswaldo Cruz, referência nacional na área de saúde, todas as diretrizes de enfrentamento da pandemia convergiam com os desatinos do governador do estado. Não só não se ouviu ressalvas ao descalabro administrativo do covidão, como veio da Fiocruz uma proposta de lockdown total após dois meses de confinamento – um plano que o tiranete Witzel adorou, especialmente por não incluir sustentação científica alguma. O que um ditador mais gosta é de não dar explicações.

Esse plano foi recusado pelo poder legislativo – e a parceria Witzel-Fiocruz para o aprisionamento da população do Rio de Janeiro ficou apenas como uma página negra na história dos atentados autoritários.

Witzel sonhou com o poder de obrigar o cidadão a pedir sua autorização para ir à padaria. E teve cúmplices “progressistas” nos seus piores ensaios ditatoriais – todos fingindo combater o fascismo bolsonarista.

Wilson Witzel saiu do governo e os falsos democratas saíram do armário.

GUILHERME FIUZA

SOBRE BUNDÕES

Não é desejável uma relação hostil entre presidente da República e imprensa numa democracia. Bolsonaro formatou seu mandato para favorecer a proximidade com os jornalistas recebendo-os semanalmente — sem restrições — para cafés da manhã no palácio. Nem Lula nem FHC fizeram algo assim. Ao contrário, Lula não dava coletivas. Mas a estratégia foi desandando, com direito a provocações de parte a parte (Bolsonaro e imprensa) no cercadinho do Alvorada.

Após mais um episódio colocando em choque presidente e imprensa, Bolsonaro se referiu a parte dos jornalistas como “bundões”. Há algo errado aí, naturalmente, e não dá para topar essa descida ladeira abaixo no idioma em terreno que precisa de civilidade. E também é preciso verificar o contexto do qual provém o disparate presidencial.

Vamos à verificação de alguns elementos factuais desse contexto:

* Produção de reportagens insinuando que a eleição de Bolsonaro resultou de uma manipulação da votação por meio de um golpe no WhatsApp;

* Notícias associando o presidente da República com o assassinato de Marielle Franco a partir de falsos testemunhos;

* Reportagens no Brasil e no exterior insinuando em contrariedade com os fatos que o governo iniciado em 2019 bateu recordes de destruição da Amazônia seguindo diretrizes de crime ambiental;

* Especulações e pensatas na grande imprensa sobre um suposto golpe militar em articulação pelo presidente da República para o fechamento do regime, ignorando a reiteração pelo próprio presidente do seu compromisso incondicional com a democracia e a Constituição;

* Omissão deliberada da negociação democrática do governo com o Congresso em reformas cruciais como a da Previdência e produção de reportagens — inclusive em grandes veículos estrangeiros — sugerindo que o Brasil resiste ao domínio fascista graças a um “parlamentarismo branco”;

* Divulgação internacional de foto da primeira-dama fazendo tradução em libras com legenda transformando um dos gestos manuais dela em “continência militar”;

* Usar o vídeo de uma menina palmeirense acenando negativamente aos seus colegas de escola corintianos para dizer que ela estava se recusando a cumprimentar Bolsonaro;

* Tentar transformar o presidente numa pessoa insensível às vítimas da pandemia omitindo, inclusive, um ato oficial do governo em solidariedade aos mortos por covid-19;

* Plantar especulações e notas por mais de um ano e meio “noticiando” que Paulo Guedes, o principal ministro do governo, está deixando o cargo;

* Omitir o cumprimento de todas as metas no setor de infraestrutura para poder dizer que se trata de um governo inoperante;

* Transformar contingenciamento de verbas orçamentárias em corte fascista na educação (e silenciar quando essas mesmas verbas são liberadas);

* Espalhar fake news de que os Estados Unidos desistiram de indicar o Brasil para a OCDE para poder dizer que Bolsonaro é um capacho de Trump;

* Espalhar fake news de que o STF não retirou do governo federal o poder sobre as diretrizes de funcionamento da sociedade durante a pandemia;

* Escrever que manifestações de rua em apoio à agenda de reformas eram atos milicianos orquestrados pelo presidente contra a instituição do Congresso Nacional;

* Publicar que um remédio para tratamento da covid que divide a classe médica é curandeirismo, apenas porque o presidente encampou a recomendação dos médicos favoráveis a essa terapêutica;

* Silenciar sobre a violência de governadores e prefeitos contra cidadãos a pretexto de cumprir medidas sanitárias para fingir que o isolamento vertical com proteção dos vulneráveis é genocídio;

* Minimizar o Covidão e preservar vergonhosamente governadores e prefeitos que estão no centro da roubalheira porque eles são oposição ao governo federal;

* Silenciar sobre prisão arbitrária de jornalista em inquérito ilegal para fingir que isso é caçada a milícia fascista;

* Apoiar censura ditatorial do STF a plataformas de alcance internacional para se fingir de justiceiro contra o fascismo;

* Apoiar projeto de lei que finge combater fake news para instituir a mordaça nas redes sociais.

Vamos parar por aqui porque essa lista é interminável e você tem mais o que fazer. Vamos deixar só duas conclusões:

1. Nenhum presidente deve tratar a imprensa de forma rude;

2. Quem veiculou as fanfarras acima é bundão. No mínimo.

DEU NO JORNAL, GUILHERME FIUZA

STF E MST NO ZOOM

A laive do Gilmar Mendes com o MST terminou em barraco – o que surpreendeu a todos, pelo nível de educação dos participantes. A confusão, como quase sempre acontece, começou por causa de ciúmes.

As mesuras iniciais e evocações elogiosas recíprocas às respectivas biografias logo desandaram em grosseria. O problema foi que Stédile resolveu declarar a sua própria gangue como campeã de destruição no Brasil – e isso mexeu com a vaidade de Gilmar. O supremo ministro interrompeu o supremo barraqueiro:

– Data vênia, companheiro, elogio em boca própria é vergonha.

– Cala a boca, senão mando minha milícia ocupar o STF e transformar toga em pano de chão.

A clareza e objetividade do intelectual campesino até acalmou o debate nesse momento, levando o bravo Gilmar a baixar a bola e dizer “entendo o seu ponto”. Mas era só uma sutil tática de guerra. Esse pessoal do Supremo é muito mais ardiloso do que os heróis do quebra-quebra podem supor.

Quando tudo parecia encaminhado para mais um agradável show de afetações e nulidades no pombal do zoom, veio a estocada cirúrgica e brutal de Gilmar, que deflagrou o banho de sangue:

– Retrocedendo à latente controvérsia sobre hierarquia destrutiva no Brasil, tema insepulto neste debate, com todo respeito a suas excelências deletérias presentes a esta solene conferência de inócua e degenerativa exuberância, gostaria de assinalar que, afiançado por dez entre dez parasitas desta nação, quem soltou o Lula fui eu.

Aí o tempo fechou. A primeira coisa que se viu foi uma cadeira voando. Era o Stédile tentando acertar o Gilmar, esquecendo-se de que estavam na laive e o zoom ainda não transmite cadeiradas, pelo menos não com a eficácia pretendida pelo bom selvagem do MST.

Mas Gilmar pareceu sentir o golpe, mesmo remoto, porque logo emendou dizendo que não conseguiria soltar o Lula sozinho sem o “extraordinário avanço demagógico de toda a sociedade”… E teve que parar por aí, interrompido aos berros por Stédile:

– “Toda a sociedade” é o c…! Lula livre é uma obra dos movimentos liderados pelo MST! Burocrata de toga não transforma ladrão em revolucionário. Se hoje o Lula é aceito pela burguesia cheirosa depois da quantidade de dinheiro que roubou do povo, isso é mérito nosso. Cada vez que a gente destrói uma lavoura, um laboratório ou um pedágio a sociedade culta se lembra como era bom o tempo em que o Lula nos sustentava com o dinheiro do contribuinte. Não se faz revolução contra o capitalismo de dentro de gabinete!

Essa intervenção do depredador esclarecido foi especialmente dramática devido à imagem mostrada pelo zoom: ele agora estava de pé (após arremessar a cadeira) e havia uma rachadura na sua janelinha do pombal, provavelmente consequência da cadeirada – que era destinada ao Gilmar, mas o computador estava na frente. Salvo pela quarentena.

Usando um desses truques modernos propiciados pelas laives, Gilmar fingiu dar um gole de alguma coisa para ganhar tempo e fazer o oponente achar que estava vencido. Mas quando se preparava para a nova estocada de erudição postiça, viu que tinha perdido o timing. Até então um mero espectador do embate cívico, o presidente da OAB se agigantou na sua janelinha e dominou o pombal.

– Nem MST, nem STF! O nome da impostura nacional é OAB!

A agressividade do participante que antes parecia tão dócil calou os outros. E não era só bravata: ele tinha o que dizer. Foi disparando logo, sem rodeios, o argumento matador: uma entidade de classe que representa os advogados, portanto os agentes do direito em todo o território nacional, virar puxadinho do partido que protagonizou a maior onda de crimes da história do país não tinha concorrente à altura.

Sobreveio um silêncio de solitária no zoom. A cela do Lula na PF pareceria um show da Anitta perto da paralisia que tomou conta da laive. Dessa vez, Gilmar nem teve forças para a coreografia da caneca.

Mas um encontro de democratas sempre pode reservar belas surpresas – e ela veio de onde menos se esperava. De pé, por trás de sua câmera estilhaçada, o bom selvagem do MST mostrou que nem só de foice se faz um debate civilizado. E roubou a cena – o que não é tão glorioso quanto roubar a economia popular, mas tem seu charme:

– Enquanto ouvia os companheiros estive pensando…

Todos ficaram tensos, conscientes de que certos pensamentos podem ser tão contundentes quanto uma cadeira voadora. Mas dessa vez o raciocínio era outro:

– Proponho deixarmos as diferenças de lado. Por um motivo muito simples. Como disse o companheiro Lula…

– Grande Lula!

– Viva Lula!

– Calem a boca que eu estou falando.

– Desculpe.

– Me empolguei.

– Tudo bem. Como eu ia dizendo: o companheiro Lula disse que “felizmente a natureza criou esse monstro chamado coronavírus” pra bagunçar tudo e fazer todo mundo achar que bom era no tempo em que ele tava no palácio raspando o tacho. Se correr tudo bem, ele volta e aí vai ter pra todo mundo de novo, certo?

– Todo mundo, quem?

– Todo mundo, nós.

– Ah, tá. Bom ponto.

– Faz sentido.

– Proponho então encerrarmos essa laive democrática decidindo que somos igualmente bons.

– Apoiado.

– Pra sempre!

– Menos.

– Até 2022?

– Fechado.

GUILHERME FIUZA

“DESINFORMAÇÃO”, A NOVA SENHA DA CENSURA

Redes sociais censuraram postagens da conta oficial de campanha de Donald Trump. As postagens tratavam da baixa incidência de contágio do coronavírus entre crianças. De fato, as estatísticas situam a ocorrência da doença na infância, em termos percentuais, próximo do zero. Nenhum representante da medicina nega esse fato.

Mas quem afirmou isso foi a campanha de Trump, a poucos meses da eleição presidencial nos Estados Unidos. Traduzindo: o pecado detectado e punido por Facebook e Twitter não foi científico, foi político. Essa instituição dos “checadores da verdade” é o fenômeno mais reacionário do século 21. A censura em pele de corregedoria democrática é o crime perfeito.

A campanha de Trump se referiu ao fato de que crianças muito raramente pegam covid-19 (ao ponto de praticamente sumirem das estatísticas) como uma “quase imunidade”. Foi isso que não passou na censura. Os arautos da quarentena burra, das especulações sobre segunda onda, das mistificações sobre o pico e da ideologização da cloroquina são assim mesmo. De vez em quando eles têm uns surtos de rigor científico. E resolveram decretar que “quase imunidade” era uma expressão inapropriada que levaria à “desinformação”.

Essa é a outra palavrinha mágica: desinformação. Qualquer ponto de vista que desagrade aos senhores da verdade é suficiente, hoje em dia, para acusar qualquer um de desinformar. Aquela antiga cadeia de comunicação livre – expressão, avaliação, discernimento, contraposição, conclusão – foi abolida. Os iluminados cortam o Mal pela raiz. Quantas postagens de médicos sobre a terapia da cloroquina – que divide a comunidade científica – já foram vetados ou classificados como desinformação? Inúmeros. A ciência se faz com troca de conhecimento. Mas os senhores da verdade já conhecem tudo previamente – e decidem o que pode ser dito. É a ciência da negação.

O fenômeno é especialmente intrigante porque Facebook, Instagram, Twitter e YouTube significam uma autêntica revolução democrática. São instrumentos inteligentes e agregadores que amplificaram a opinião pública para além do que era consolidado pela grande imprensa. A tentação dessas plataformas geniais de parecer “progressistas” – por puro cálculo mercadológico, nada a ver com ideologia – é um erro e um paradoxo. Elas estão traindo a si mesmas, atentando contra seu próprio DNA libertador.

Todas as notícias sobre a retirada das postagens de Trump vêm embaladas com as palavrinhas mágicas de sempre: a campanha “conservadora”, “de direita”, etc. Trabalhar pela paz mundial é ser “de direita”? Foi isso que o governo Trump fez na redução das tensões com a Coreia do Norte. Mas aí o avanço diplomático é negado e vira “amizade com o ditador”. Os hipócritas têm sempre um jeito de retocar suas verdades de laboratório.

Caros Twitter, YouTube, Instagram e Facebook, vocês não estão lidando bem com fenômenos como Trump e Bolsonaro. Eles são de fato bastante caricaturáveis – e, aliás, vocês deixaram circular muitas suásticas ultimamente em seus ambientes, não é mesmo? Mas caricaturas à parte, o que a imensa maioria de usuários das redes identificados com pautas de Trump ou Bolsonaro quer é viver fora da bolha politicamente correta – que é antidemocrática e patrulha todo mundo para vender virtude a 1,99.

Acreditem: vocês têm nas mãos um mercado muito mais potente e saudável do que esse curral cheiroso que andam cultivando.