GUILHERME FIUZA

CHECAMOS: NÃO ERA O DORIA

Exclusivo: não era João Doria tomando sol naquela piscina de hotel de luxo em Copacabana. A assessoria do governador de São Paulo disse que era ele mesmo, mas nós estamos revelando aqui, em primeira mão, para todo o Brasil, a América do Sul e o mundo: não era ele.

Esse furo de reportagem começou com uma desconfiança – e desconfiar é o primeiro mandamento de todo repórter. A desconfiança também é a mãe da ciência. Desconfiamos das fotos e vídeos que mostravam Doria numa espreguiçadeira do hotel Fairmont. Por uma razão muito simples: o homem fotografado estava sem máscara. Só com muita pressa e leviandade alguém poderia dizer que aquele era o governador de São Paulo – que está de máscara há tempo suficiente para ninguém mais se lembrar exatamente como era a cara dele.

Nos recusamos a ser apressados e levianos como a maioria foi diante dessas imagens e passamos a estudá-las detidamente. Notamos que havia sim sinais de similaridade entre o homem das fotos e vídeos e João Doria Jr., mas havia algo estranho no ar. E o ar do Rio de Janeiro, como todos sabem, é traiçoeiro – basta dizer que o prefeito local fechou as praias e abriu as academias de ginástica, numa descoberta do seu comitê científico de que a atmosfera não é confiável. O homem que diziam ser João Doria estava ao ar livre. Portanto, todo o cuidado era pouco.

Tomamos então uma decisão que pode parecer radical, mas não para quem realmente preza a verdade: enviamos as imagens para um laboratório em Wuhan. Se Doria não fosse reconhecido na China, não seria em lugar nenhum do mundo.

Valeu a pena esperar. Enquanto praticamente o Brasil inteiro caía de pau no governador paulista julgando ser ele na piscina do hotel chique, os técnicos do laboratório mais confiável do planeta trabalhavam incansavelmente na análise meticulosa das imagens polêmicas. Tivemos a colaboração decisiva do regime local, que manteve a equipe de cientistas três dias e três noites sem comer e sem dormir, para não atrasar os trabalhos. Fica aqui nosso agradecimento aos mandachuvas chineses por endurecer sem perder a ternura e não deixar ninguém fazer corpo mole – um dos problemas frequentes dos países que exageram na democracia.

O laudo saiu mais rápido que vacina de ocasião – e o resultado está aqui para chocar o mundo: o homem só de shortinho se bronzeando no hotel carioca não era João Doria Jr.!

O laboratório de Wuhan trabalhou com uma moderna técnica de RNA mensageiro, que acelera a mensagem através de transmissão via moto do iFood. Ou seja: o mensageiro voa. Ele botou todas as nossas perguntas na quentinha e voltou como um raio com as respostas definitivas. A mais conclusiva delas revela uma sentença irrefutável obtida a partir de evidência muito simples: toda a literatura científica comprova que Doria prefere pegar sol em Miami – portanto jamais estaria perdendo tempo numa laje em Copacabana.

E agora? O que dirão os críticos, os maledicentes e os intrigantes diante da revelação laboratorial da sua leviandade? O que dirão esses patrulheiros sem coração diante da constatação científica de que, se fosse para sair de São Paulo no fim de semana, Doria iria de jatinho para a Flórida, jamais para uma cidade perigosa do Estado rival? O mínimo que se espera é que o STF enquadre todos os difamadores do governador paulista no inquérito das fake news. Vocês vão se ver com o Alexandre.

O laudo de Wuhan sobre o caso Doria é devastador. Dentre outras constatações, prova que um governador salva-vidas jamais estaria em plena pandemia grudado numa espreguiçadeira que nem uma lagartixa fritando ao sol; jamais estaria sem máscara numa muvuquinha vip rodeado por corpos sarados e depilados; jamais se exporia ao público daquela maneira ridícula sem o aparato da sua junta de contingência e a proteção daquelas hashtags matadoras fique em casa, vacina já e covid forever.

O STF não deveria aceitar desculpas ou retratações nesse caso. Todos são culpados. Menos o Lula.

GUILHERME FIUZA

A COPA E O CAPO

Renan Calheiros disse que a Copa América é o campeonato da morte. Alerta importante. Como já notou qualquer um que acompanha o noticiário nacional, hoje a principal referência científica no país é Renan Calheiros. Os brasileiros estavam perdidos em meio à pandemia até aparecer o oráculo das Alagoas para dar-lhes o norte (e o sul, o leste e o oeste). O que ele por ventura não saiba (o que é raríssimo) aquela médica-cantora que fez um sensacional dueto com ele na CPI explica em uma frase. Isso é o bom da ciência moderna: não tem muita conversa, é tudo pá-pum.

No que viu o farol iluminista de Renan Calheiros apontado para as trevas da Copa América, Tite já se posicionou. Como se sabe, o técnico da seleção brasileira é simpatizante de Lula, que por sua vez é unha e carne com Renan – ou seja, tudo dentro da ciência. O técnico foi logo dizendo – na véspera do jogo do Brasil nas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo – que havia um ruído e os jogadores estavam na dúvida se jogariam o outro torneio. Como se vê, existem Américas e Américas.

Os reis da empatia (alguns pronunciam empatite) logo se eriçaram e se levantaram contra o campeonato da morte. O país tem jogos internacionais de três competições futebolísticas, todas sem público e com rigoroso protocolo sanitário para atletas e delegações, conforme previsto para a Copa América, mas se o Renan Calheiros alertou não dá para titubear. Fora Copa América.

(O Brasil é sede de um torneio internacional de vôlei, mas se o Renan não disse nada até aqui, tá limpo. Podem jogar, narrar, assistir e vibrar numa boa. Segurança é tudo.)

Tem também o campeonato de ônibus lotados, vagões apinhados, estações aglomeradas e todo o torneio diário de muvuca nos transportes públicos promovidos por governadores e prefeitos de todo o país, mas disso o pessoal da empatite ainda não falou. Como a médica-cantora também não disse nada, depreende-se que está tudo bem. Ufa. Não é fácil seguir a ciência ao pé da letra.

Sempre tem os mais desconfiados que ficam lendo e relendo a Bula de Calheiros para si mesmos, envenenados por aquela velha mania de querer uma segunda opinião. Sem problemas. É só perguntar ao Omar Aziz. Ele é cercado por gente que entende tudo de saúde, segundo a Polícia Federal. Ainda não está satisfeito? Quer uma terceira opinião?

Não se aflija. Pergunte ao Randolfe. Mas se ainda assim você continuar perguntando de onde vem a autoridade desse trio de ouro em matéria de medicina, não restarão dúvidas: você é um ignorante que não lê jornal nem vê televisão. Está tudo lá, e nunca uma agência de checagem desmentiu o bando – ops, a junta médica.

E bota junta nisso. Eles quase juntaram a doutora Nise Iamagushi, faltou pouco para a delicada oncologista levar um safanão do grande Omar Aziz, incomodado justamente com tanta delicadeza. Ele foi muito claro: não estava suportando a voz suave da médica de 62 anos. Está certo, o companheiro Omar. Suavidade irrita mesmo. E ela, de forma acintosa, continuou falando suavemente. Deu sorte que o Omar e o Renan não mandaram algemar. Em defesa da vida e da ética eles são capazes de tudo.

A complexidade da ciência é assim mesmo. Às vezes você chega a ter a sensação de estar num campo de várzea assistindo a um clássico do crime, daqueles em que a qualquer momento o zagueiro pode mandar chumbo no atacante, mas são só as ilusões do empirismo. Não se faz omelete sem quebrar os ovos e não se faz ciência sem quebrar uns ossos. E não se esqueça: perigosa é a Copa América.

GUILHERME FIUZA

A MÉDICA E O MONSTRO

Diálogo surrealista num tribunal surrealista. Qualquer semelhança com a realidade é mera semelhança.

– A senhora não respondeu a minha pergunta.

– Eu…

– Não me interrompa! Estou falando, não tá vendo?

– Mas como é que eu vou…

– Cala a boca! Se me interromper de novo serei obrigado a tomar medidas duras contra a senhora.

– …

– Voltando: por que a senhora não respondeu a minha pergunta?

– …

– A senhora está surda? Fiz uma pergunta!

– Já posso falar?

– Ah, tá debochando, né? Sabe o que pode acontecer com quem debocha neste interrogatório?

– Não, só fiquei confusa com as regras…

– Tu tá mentindo!

– Hein? Só disse que fiquei confusa.

– Não interessa o que tu disse! A mentira tá na tua voz!

– Como assim?

– Cala a boca! Não gosto da tua voz! É voz de quem mente!

– Como é voz de quem mente?

– É assim, que nem a sua! Suavezinha, delicadinha, calminha.

– Mas eu sou médica, lido com pessoas vulneráveis e preciso informar num tom que…

– Médica nada! Mentirosa! Esse tom aí é pra enganar os outros! Tanto que não respondeu a minha pergunta.

– Eu respondi…

– A tua resposta não serve! Resposta nessa voz não serve! Não gosto dessa voz! Tudo que tu falar com essa voz é mentira. E quem mente aqui vai preso.

– …

– Tá debochando de novo? Fica caladinha só pra me irritar, né? Cadê o habeas corpus? Tu tem um habeas corpus aí debaixo do braço pra ficar em silêncio?

– Não.

– Claro que não. O STF não ia dar habeas corpus pra uma mentirosa. Mas gostei da tua resposta. Daqui pra frente quero assim: responde só sim ou não. Mais nada. Não aguento mais ouvir a tua voz. Não gosto da tua voz!

– …

– Tá me desafiando?!

– Não.

– Posso imaginar seu sorrisinho cínico debaixo da máscara. Tu tá rindo da minha cara?

– Não.

– Tá achando que tem alguém mais poderoso que eu nessa sala?

– Não.

– Porra, tu só responde “não”! Tudo é “não”! Tu é negacionista!

– Não.

– Cala a boca! Não te perguntei nada. Só fala quando eu perguntar!

– …

– Tá me provocando de novo, né? Esse seu silêncio sonso me irrita. Fala alguma coisa, porra! Mas não fala com aquela tua voz calminha que eu não gosto. Tu só tem essa voz chatinha?

– Sim.

– Não me provoca! Cala a boca! Fala alguma coisa! Silêncio! Responde! Não mente! Não quero mais ouvir essa voz suave de gente mentirosa! Não quero mais ouvir o seu silêncio! Não quero mais olhar pra você sem dizer nada na minha frente! Cínica! Tá me provocando? Fala alguma coisa, porra! Tu tem língua?

– Sim.

– Agora tu só fala “sim”?! Antes tu só falava “não”! É a prova que tu é mentirosa! Cada hora fala uma coisa! Se cair mais uma vez em contradição vou mandar te prender!

– …

– Debochando de novo, né? Não aguento mais olhar pra tua cara! Some daqui antes que eu te arrebente!

– …

– Tá indo aonde?! Parada aí! Não se mova! Tá fugindo? Tu acha que vai fugir de mim assim com essa facilidade? Perdeu a noção do perigo?!

– Não.

– Ah, agora é “não”? Não tinha mudado pra “sim”?! Cada hora tu diz uma coisa? Mentirosa! Não sabe explicar nada, não tem argumento, só fica dizendo sim, não, não, sim… Tá achando que eu sou trouxa, madame?!

– Sim.

– O quê??!! Desacato! Vou acabar com a tua raça! Filma ela! Fotografa ela! Escreve aí, imprensa: vou acabar com essa negacionista disfarçada de médica! Vou destroçar! Vou escalpelar! Vou trucidar! Não vou aceitar esse desrespeito à ética e à democracia!

Resumo da sessão do tribunal surreal: a médica continuou sendo médica, o monstro continuou sendo monstro, a imprensa marrom continuou sendo marrom e a classe médica começou a reagir ao show de horrores com o repúdio do presidente do Conselho Federal de Medicina ao uso do mandato parlamentar para agredir uma respeitada profissional de saúde. Que seja o início do fim da letargia.

GUILHERME FIUZA

NOTÍCIA BOA É NOTÍCIA RUIM

Um país sério precisa ter instituições sólidas. A outra questão é o que se percebe como instituição. A julgar pela predominância do noticiário nacional ultimamente, listamos aqui quais são hoje os pilares da institucionalidade brasileira:

1 – Renan Calheiros lutando em defesa da vida e da ética;

2 – Omar Aziz dando aula prática de intimidação ao vivo para mostrar ao estado de direito o que é bom pra tosse;

3 – Randolfe Rodrigues mostrando que a principal função de um senador soprano é tentar prender alguém no grito (e que grito);

4 – O presidente do Instituto Butantã exibindo afinada sintonia com as cobras;

5 – Mandetta matando saudades dos holofotes para repetir suas diretrizes emergenciais contra a pandemia: jogar sinuca, cantar e cantar e cantar, se jogar na muvuca sem máscara e ser feliz;

6 – Barroso lutando contra o voto auditável em 2022 porque esse negócio de auditar é complicado e pode dar confusão, melhor não auditar nada e torcer para que tudo corra bem;

7 – Barroso dando aula sobre combate à corrupção enquanto vota pela anulação da condenação do maior ladrão do país, o novo candidato ficha limpa emergindo cheiroso da lavanderia;

8 – Fachin ensinando à polícia do Rio de Janeiro que esse negócio de subir morro para combater o tráfico é muito perigoso, melhor deixar a favela se virar sozinha;

9 – Dória ensinando que na vida não há nada que dure para sempre, a não ser loquidau e cara de pau;

10 – Ciro Gomes, também conhecido como Xingo Nomes, sendo transformado em doce de coco pelo marqueteiro do Lula – que foi cúmplice do maior assalto da história e está solto para ajudar mais um candidato ao vidão que a política nacional pode proporcionar aos malandros enquanto houver otário para acreditar em revolução de butique;

11 – STF dando cavalo de pau e decidindo que agora a delação de Sergio Cabral não vale mais, porque ele acusa Dias Toffoli de ter sido comprado por 1 milhão de reais para livrar do impeachment uma prefeita do interior do RJ – e vai que a investigação consegue provar isso. Melhor parar por aqui;

12 – Alexandre de Moraes sumido momentaneamente das manchetes porque a cota de heroísmo nacional instantâneo está preenchida por Renan Calheiros;

13 – FHC apoiando Lula, jogando às favas os escrúpulos de consciência (remember 1968) e caindo no colo da burguesia intelectual decadente que bota fé em picaretagem aveludada e acha que ninguém está vendo porque a imprensa marrom diz que está tudo bem;

14 – Amantes da dicotomia burra dizendo que era tudo um plano de revezamento entre FHC e Lula para manter “a esquerda” no poder (rsrs). Esses aí faltaram dez anos de aula quando foi feito o Plano Real e a maior reforma liberal da história do país que Lula tentou dinamitar gritando contra “o neoliberalismo”, “a direita”, etc;

15 – Enquanto o Brasil não souber distinguir o que é bom do que é ruim, continuará achando que é um país sendo só um álbum de figurinhas.

Tem aí uma repetida do Renan?

GUILHERME FIUZA

FHC, LULA E A TEORIA DOS TOLOS

Não é que seja embaraçoso para Fernando Henrique apoiar Lula a esta altura do campeonato. Ele parecia bem à vontade até. A coisa fica embaraçosa é para o país mesmo – pelo menos a parte dele que ainda quer ser chamada de país e não de bando. Como colocar lado a lado a regência do Plano Real e a lavagem de reputação de um ladrão sem se confundir entre mocinhos e bandidos na aula de História?

Esquece aula de História – que se tornou infelizmente um lugar perigoso. Quem há de negar? Em qualquer ponto do território nacional você pode achar que está numa aula de História e estar, na verdade, num comício de um simpático professorzinho do Psol. O problema é que as distorções não vêm só dessa panfletagem dominante. A tentação ao proselitismo fantasiado de conhecimento está em toda parte. E a prova disso é essa tese de que FHC e Lula são irmãos siameses num projeto de dominação “da esquerda”. O nome disso é ignorância.

Para levar essa tese adiante numa aula de História – talvez com um professorzinho “de direita” – seria preciso no mínimo jogar fora dez anos dela, a História. Isso nunca foi problema para os totalitários de Stalin e jamais será problema para panfletários de qualquer estirpe. O que importa é montar um clubinho de adeptos da sua apologia, seja ela qual for. Repetindo para quem não estava prestando atenção: apologia, não ideologia. Não há vestígios ideológicos no arsenal intelectual (sic) dos apologistas. Eles nem chegam lá.

A década que estamos te convidando a apagar da História do Brasil para ver se cola essa teoria tosca da armação Lula & FHC como um “mecanismo” de dominação “da esquerda” (haja clichê) vai de 1993 a 2003. O que aconteceu nesse período?

Aconteceu a maior reforma institucional do Brasil contemporâneo. Foi uma reforma LIBERAL – introduzindo responsabilidade fiscal, privatizações e saneamento monetário, tudo aquilo que está na cartilha da suposta esquerda como “neoliberal”, “de direita” etc. Agora tirem as crianças da sala: essa reforma foi regida por Fernando Henrique Cardoso e tinha como inimigo mortal o PT de Lula, que tentou de todas as formas sabotar o Plano Real. E agora? Onde estava o pacto, o mecanismo, o teatro, a ópera ou sei lá o que de Lula e FHC que “desde sempre foram caras-metades de um plano de hegemonia esquerdista” etc., etc., etc.?

Ah, mas o Plano Real foi do Itamar… Não foi, não. FHC era o quarto ministro da Fazenda de Itamar Franco. Vamos repetir para os que estavam trocando figurinhas de direita/esquerda com o coleguinha ao lado no fundo da sala: FHC era o QUARTO ministro da Fazenda de Itamar Franco, que já tinha tentado no posto até Gustavo Krause (que pode ser gente boa, poeta, ecologista, mas não faria um Plano Real nem por receptação mediúnica). Ou seja: Itamar Franco estava perdido, perdidinho, perdidinho da silva, perdidão, perdidaço sobre o que fazer com a hiperinflação. Mas teve uma boa intuição política e depois teve coragem para blindar a equipe.

Cinco anos depois de lançado o Plano Real, Itamar passou a tentar sabotá-lo, juntando-se a Lula, Dirceu e companhia contra a “direita” de FHC. Quase conseguiram afundar o plano em 1999, quando a maxidesvalorização do real em meio à crise da Rússia representou risco real de volta da famigerada correção monetária. Mas os “neoliberais” de FHC, Pedro Malan à frente, conseguiram manobrar na guerra sangrenta contra o país e salvar essa moeda que mais de duas décadas depois está aí na sua mão protegendo o valor do que você ganha com o seu trabalho. Mas isso tudo foi só um teatro “da esquerda” para preparar o poder para o Lula? Fecha esse álbum de figurinhas e vai estudar, preguiçoso.

PS1: FHC está fazendo um papelão e se desmoralizando ao vivo ao apoiar um criminoso.

PS2: Toda vez que você chama um picareta de “esquerdista” ele sorri de orelha a orelha e renova o verniz humanitário que lhe permite viver no conforto do seu capitalismo avarento fantasiado de revolucionário.

GUILHERME FIUZA

NÃO ESTÁ MAIS AQUI QUEM ROUBOU

Lula e Fernando Henrique conversam ao telefone (diálogo na margem de erro do Datafolha):

– Obrigado, Fernando.

– Por quê?

– Por você ter dito que vai votar em mim.

– Eu disse isso?

– Ué, foi o que eu li por aí. Será que era fake news?

– Acho que não. Eu disse mesmo. Quer dizer, não foi bem isso que eu disse.

– Porra, Fernando. Assim você me confunde. Tá comigo ou não tá?

– Não vem com essas perguntas de programa de auditório. O mundo é mais complexo que isso.

– Complexo é coisa de boiola. Ops, desculpe. Não pode mais falar isso. Enfim… Complexo é coisa de fresco.

– Você mudou uma palavra mas manteve o seu preconceito intacto.

– Caceta, Fernando. Como é difícil conversar contigo. Conto ou não conto com o seu voto?

– O voto é secreto.

– Mas você disse publicamente que votaria em mim!

– O que sai na imprensa mais de um ano antes da eleição é uma coisa, o que se faz na solidão da urna é outra.

– Então você falou por falar?!

– Claro que não. Nunca falo por falar.

– Que saco. Na próxima encarnação, em vez de parasita eu vou vir traça. Pra comer todos os seus livros e te salvar desse rebolado intelectual que ninguém entende.

– Você devia ler mais.

– Deus me livre. Pra falar errado que nem você?

– O que eu falei errado?

– Quem fala o que ninguém entende, fala errado.

– Só não me entende quem não lê.

– Se você me despreza por que disse que vai votar em mim?

– Porque, pra um intelectual, pega bem defender uma besta como você.

– Ah, então você confirma que vai votar em mim. Pelo menos isso.

– Se for contra esse presidente aí, sim.

– Obrigado. Você acha que eu sou melhor que ele, né?

– Não. Acho que você é mimado pela imprensa e pela intelectualidade que me deixam bem na foto.

– Faz sentido. Uma mão lava a outra. Se bem que no meu caso, com tudo que eu roubei, é mais provável uma mão sujar a outra.

– Jamais repita isso.

– Ué, parceiro? Quer apoiar ladrão e ficar com a mão limpinha? Tu tem uma biografia ou uma lavanderia?

– Lula, você sempre foi grosseiro. Mas o seu linguajar agora está abaixo da crítica. Assim vai ser difícil continuar a conversa.

– Que isso, Fernando? Só falei o que todo mundo sabe.

– Engano seu. Há um esforço gigantesco unindo jornalistas, professores, juízes e muita gente boa para ressuscitar em você aquela cantilena do proletário perseguido pelas elites e você me vem com essa história de ladrão. Meça suas palavras.

– Tá bom, você tem razão. Não falo mais de assalto. Não está mais aqui quem roubou. Mas o dinheiro não preciso devolver, né? Porque aí já seria demais.

– Vou fingir que não ouvi.

– Combinado. Vou fingir que não roubei. Mas… E se não colar?

– A epistemologia do nexo causal à luz da imanência do ser ou não ser venal refrata uma miríade de representações da coisa em si, do seu simulacro e do seu espectro projetado ao infinito de modo que, a partir do olhar multimodal embotado pelo distanciamento odebrechtiano, tudo cola.

– Você é um gênio, Fernando.

– São seus olhos, Lula.

GUILHERME FIUZA

CHECAMOS: VOCÊ NÃO EXISTE

Antigamente imprensa era aquilo que te contava o que você não sabia. Antes de pegar o jornal na porta de casa de manhã podia ter caído um ministro ou estourado uma guerra e você só ficaria sabendo ali, com cara de sono e os olhos ainda embaçados, ao dar de cara com a manchete da primeira página. Ao longo do dia, sem ligar a TV você praticamente só sabia o que se passava na sua casa e no seu trabalho – e para estar em dia com o país e o mundo era preciso esperar a noite. Isso mudou – e não estamos falando da internet.

Hoje em dia pode acontecer de um país inteiro sair às ruas numa manifestação gigantesca e não sair nada na imprensa. Só um veículo ou outro registrando aquilo – ante o silêncio total dos que compunham o núcleo da “grande mídia” – leva até o cidadão a achar que as multidões que ele mesmo viu na rua foram miragem. O sujeito se belisca e corre para o médico perguntando se está vendo coisas (correndo o risco de o médico dizer que também não viu nada, dependendo do médico).

Corre então para o psicanalista, depois para o psiquiatra – que também estavam com a televisão ligada e não viram nada.

– Tem certeza que não foi sonho? – pergunta o doutor.

– Absoluta! Eu fui comprar pão e vi um monte de gente espalhada pela rua, gritando por liberdade.

– Liberdade? Estranho. Como elas estavam vestidas?

– De verde e amarelo.

– Verde e amarelo? No Brasil? Estranho…

– Será que eu estou tendo alucinações, doutor?

– É provável. Que dia você teve essa visão?

– Foram alguns dias. Mas a maior foi no dia 1º de maio.

– Hum… Esquisito mesmo. Espera aí, vou fazer um teste.

O doutor volta com as edições impressas dos mais tradicionais jornais do país do dia seguinte ao do problema relatado.

– Está vendo aqui? Nada. Nenhuma manchete. Possivelmente você teve mesmo um surto delirante.

– É grave, doutor?

– Não necessariamente. Tenho recebido outros pacientes com o mesmo problema. Pode ser uma síndrome psicológica contemporânea.

– Qual o tratamento pra isso?

– O mais importante é a segregação.

– Como assim?

– Evitar contato com outras pessoas que tenham essa mesma síndrome. Ou seja: não falar com quem anda vendo gente espalhada nas ruas de verde e amarelo. Isso é contagioso.

– Em quanto tempo eu vou ficar bom, doutor?

– Depende de você. Leva esses jornais aqui e lê tudo. Não deixa uma linha de fora. Quando você tiver entendido tudo que aconteceu no dia 1º de maio, pode passar pra edição do dia seguinte. E fique em casa.

– Posso sair de máscara?

– Não. O problema são os olhos. Na rua você pode voltar a ter visões de pessoas clamando por liberdade. Cada recaída vai multiplicar o tempo do tratamento, isto é, a quantidade de jornais que você terá que ler para se desintoxicar da realidade.

O paciente sai do consultório aliviado e confiante. Começa então o tratamento de imersão na grande imprensa e passa a se conectar com um mundo pródigo que o seu negacionismo estava rejeitando. Nesse mundo ele descobrirá que as ruas não são mais necessárias – porque existem as telas, e nelas a liberdade e a justiça estão sendo defendidas bravamente por Renan Calheiros. Como a sensação de que todos os problemas estão resolvidos pode dar sono, o tratamento inclui pequenos choques sonoros do senador soprano Randolfe – sempre pedindo a prisão de alguém aos gritos para te manter alerta.

O tratamento prossegue com as notícias de que o Supremo Tribunal Federal está reparando uma injustiça histórica ao inocentar o ladrão mais querido do país. Se você continuasse vagando pelas ruas em contato com a realidade – essa entidade reacionária – teria talvez a impressão de que esse ladrão é execrado e o STF é um lixo. Mas mergulhado na grande imprensa você jamais será acometido desses delírios raivosos. O amor bandido já está no segundo turno da eleição presidencial do ano que vem, franco favorito, praticamente eleito. Sem medo de ser feliz, de ser cínico, de ser egoísta, de ser hipócrita e de ser escroto. Troque o seu medo e o seu ódio pela empatia da grande imprensa por aqueles que realmente precisam de apoio e solidariedade para te assaltar sem culpa.

Quem precisa noticiar as vontades do povo – que está sempre cheio de vontades e nunca satisfeito – se pode noticiar as vontades do Renan Calheiros?

Outro dia Renan bradou contra as “baixarias”. Ganhou imediatamente todas as manchetes. Manchetes de uma imprensa que hoje se apresenta como gladiadora do bem contra o mal. É isso aí. Não pode haver dúvidas nessa fronteira entre o bem e o mal. E, se você recair e continuar dizendo que viu gente na rua em defesa da liberdade, os checadores vão checar você – e concluir que você não existe. Se cuida.

GUILHERME FIUZA

O JURAMENTO DE HIPÓCRITA

Carlos Henrique Provetta é médico. Quando apareceu uma epidemia ele tranquilizou a todos: deixem esse vírus comigo. Como vamos enfrentá-lo? – quiseram saber os curiosos. Provetta não piscou: no gogó. Alguns inocentes não entenderam a resposta, mas o médico teve paciência para explicar cientificamente o seu brado: quem se garante enfrenta epidemia no gogó. Eu fiz o Juramento de Hipócrita.

Fim de papo. Todos sabiam que um juramento desses torna qualquer um invencível – o que vem a ser a principal qualidade do herói. E um herói atrai imediatamente as câmeras de TV – principalmente depois de afirmar que vai salvar o seu povo no gogó. Luz, câmera, falação. Lá se foi o Doutor Provetta matraquear pelos cotovelos, ao vivo, quase 24 horas no ar. Um show. Ninguém tirava o olho do herói – qualquer distração poderia ser fatal. Vai que você perde alguma palavra-chave e fica indefeso diante do perigo?

Ele falou de tudo. Disse que a culpa era dos ricos e a favela ia se ferrar. Mas ele, Doutor Provetta, não hesitaria em ter uma conversa civilizada com os assassinos que mandam nos morros – porque traficante também é ser humano e os facínoras haveriam de ter sensibilidade social e sanitária. Foi praticamente uma aula de sociologia, como se diz no botequim. Com todo o respeito ao botequim.

Tudo isso de graça. Só um missionário altruísta, um Robin Hood da ciência, compartilharia tanto saber sem cobrar nada de ninguém. Transbordante de empatia e comiseração, o médico revolucionário disse a todos que se isolassem uns dos outros – nada de aproximações inconsequentes que pusessem vidas em risco. Foi então visto num ambiente fechado e aglomerado, sem máscara, abraçando seus áulicos e cantando sorridente: viver e não ter vergonha de ser feliz – ou viver e ser feliz de não ter vergonha (há controvérsias sobre o refrão entoado).

Só uma meia dúzia de inocentes (sempre os mesmos) quis saber se a muvuca do Provetta não contrariava suas diretrizes de isolamento. É uma gente obtusa e azeda, que não suporta a felicidade alheia. Dessa vez o médico revolucionário nem perdeu seu tempo explicando o óbvio: quem faz o Juramento de Hipócrita tem a obrigação de se aglomerar por trás do distanciamento social. O escândalo seria jurar hipocrisia e não praticá-la.

Esses céticos niilistas jamais compreenderão o poder sagrado do juramento para um homem de fé.

Foi assim que o Doutor Provetta mandou todo mundo ficar em casa em nome da vida e foi jogar sinuca no boteco em nome da ciência. Sem máscara, que ninguém é de ferro – e o povo precisa reconhecer a fisionomia do seu herói para se sentir seguro. Então lá estava ele, de cara limpa, mostrando que o verdadeiro médico confia no seu taco quando vê alguém pela bola sete. Viver e não ter vergonha de ser feliz, cantar e ser feliz de não ter vergonha. O juramento do hipócrita nunca tinha sido cumprido com tal abnegação.

E você, que talvez nem mereça, recebeu mais uma lição de graça: o boteco não é só o lugar da sociologia. É também o lugar da ética.

O que deixou o povo um pouco confuso foi a reaparição do Doutor Carlos Henrique Provetta de máscara. OK, agora ele não estava no botequim, mas estava no circo – e aí já começou uma polêmica sobre as supostas diferenças científicas entre circos e botequins, porque todos sabem que palhaços e bêbados são iguais perante a lei e ninguém toleraria diferenças de protocolo sanitário entre essas duas instituições milenares. Mas logo tudo se esclareceu.

Provetta estava de máscara porque se encontrava diante de Renan Calheiros – e mesmo um herói invencível tem seu momento de autocontenção.

A máscara ali não era um sinal preocupante de que o médico salvador pudesse estar começando a sofrer de vergonha na cara. Era só um sinal de reverência a um ídolo – porque quem fez o Juramento de Hipócrita sabe reconhecer um superior juramentado. Enfim, foi um momento bonito na história da medicina. Solta o som, DJ: viveeeer e não ter vergonha… etc.

GUILHERME FIUZA

PICADEIRO DE EMERGÊNCIA

– Tá acompanhando a CPI?

– Tô.

– Muito legal, né?

– Muito. Adoro CPI.

– Eu também. Tava com saudade.

– Não sei por que deixaram a gente tanto tempo sem CPI.

– Absurdo. A gente vota nos caras pra ter distração e os caras não cumprem.

– Agora você falou tudo.

– Só repeti o que todo mundo sabe. Político não cumpre promessa.

– Não, falei da distração. Nunca tinha pensado nisso.

– O que?

– Que a gente vota pra se distrair. Não tem nada a ver com política.

– Aí você já radicalizou. Um pouquinho às vezes tem.

– É. Às vezes tem. Mas é raro. Lembra o governo Lula?

– Mais ou menos.

– Pois é. Eu lembro bem.

– Prova de que você não é tão distraído.

– Verdade. Mas estou me curando.

– Que bom. O importante é se distrair. Mas o que tem o governo Lula?

– Foi um fenômeno interessante. Começou com uma política macroeconômica responsável, consolidando o Plano Real. Ou seja, um tédio.

– Foi chato mesmo esse período. Tanto que eu nem lembrava.

– Aí veio o mensalão e animou. Nunca mais o Lula saiu das manchetes.

– Bem observado. Se não fosse o mensalão talvez ele nem tivesse sido reeleito.

– Com certeza não. Seria esquecido.

– Engolido pelo tédio.

– Exatamente.

– Por isso hoje a gente deve muito à dupla R & R.

– R & R?

– Renan e Randolfe. Eles vieram salvar o país do marasmo com essa CPI.

– Aí vou ter que discordar. Marasmo? No meio de uma pandemia?

– É. Já estavam vindo com esse papo no Congresso de retomar reformas. Imagina o tédio?

– Ah, entendi. Verdade. Basta começarem a falar na TV de reforma administrativa que eu pego no sono.

– E a tributária? IVA, ISS, agregado… Quando chega no imposto em cascata eu já estou sonhando com o Ciro Gomes.

– Faz sentido. Cascata por cascata, pelo menos o Ciro Gomes grita.

– Esses burocratas falando baixinho de cumulatividade e incidência em cadeia deviam ser proibidos no horário nobre.

– Falam em cadeia sem o menor conhecimento de causa. Por isso é bom ouvir o Lula.

– Exato. Fala do que sabe, do que viveu.

– Ciro Gomes também.

– Conhece cadeia?

– Não. Mas contratou o João Santana, que não só foi preso como é o autor da estratégia que empoderou o maior ladrão do país.

– Aí sim o voto vale a pena. Senão a gente ia ficar falando de que? Reformas?!

– Ninguém merece. Falando em reformas, temos que tirar o chapéu pro STF.

– Por quê?

– Colocou o Lula na eleição do ano que vem. Vamos poder voltar a falar das reformas do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia.

– Ufa. E a gente achando que nunca mais ia poder discutir reforma boa nesse país… Ponto pro STF.

– E ponto pro Renan Calheiros, pro Randolfe Rodrigues e demais guerreiros da nova CPI. Ninguém pode negar: era claríssimo o risco de afundarmos de novo naquelas reformas entediantes e tecnocráticas que ficam discutindo custo Brasil e não divertem ninguém.

– Graças a eles vamos voltar a ver show do Mandetta.

– Será que ele vai sambar no pé de novo?

– Se o Renan pedir ele samba.

– Mas não vai ter aquele baixo astral de covidão e desvio de verbas emergenciais não, né?

– Nada. Só alegria.

– Então viva a CPI!

– Viva!

GUILHERME FIUZA

O ESCÂNDALO DO PASSAPORTE SANITÁRIO

Vocês resolveram pular as dúvidas sobre as vacinas? Elas são ótimas e fim de papo? Ok. Vocês são maiores e vacinados, devem saber o que estão fazendo. Mas por que estão tentando obrigar todo mundo a ter a fé cega de vocês? Não era ciência? Tudo bem. Só que aproveitar o nevoeiro para criar um mundo exclusivo para vacinados foi longe demais. Esse passaporte sanitário e arbitrariedades correlatas constituem o maior escândalo ético do século.

No Brasil, a autoridade sanitária vetou a importação de uma vacina por falta de estudos suficientes inclusive sobre efeitos adversos – ou seja, por falta de segurança para a saúde dos brasileiros. Mas já tinha ministro da Suprema Corte dando prazo fatal para autorizar a importação sem o aval da autoridade sanitária, isto é, na marra. E vocês acham que está tudo normal nesse ambiente.

Esse mesmo tribunal deu autorização prévia para governadores decretarem obrigatoriedade de vacinação – sem nem dizer com que vacina. Tudo normal. Governadores estes que em vários casos tiveram suas ações na pandemia investigadas pela polícia, com casos comprovados de desvios de verbas emergenciais; governadores que fizeram lockdown desvairado com toque de recolher ditatorial e vista grossa para aglomeração nos transportes — portanto perfeitamente habilitados para decidir e impor critérios de vacinação compulsória de todo mundo… Repetindo: vocês estão achando tudo normal.

A vacina cuja importação a autoridade sanitária não autorizou no Brasil é a mesma aplicada em larga escala na Argentina, país com péssimo desempenho no enfrentamento da pandemia. Mas é proibido cruzar suposta imunização com aumento de casos e óbitos. Isso não é uma insinuação. É uma dúvida. Quando vocês resolverem trocar a fé pela ciência a gente volta a tentar fazer pesquisa e catalogar dados sobre a experiência real. Por enquanto fica valendo a certeza mística: vacina salva.

Não salvou o presidente da Argentina. Ele pegou covid depois de vacinado. Claro que os corregedores da fé já estão gritando: é exceção! Ele está no porcentual minoritário! Ok, aquele porcentual minoritário fixado com uns seis meses de estudos – quando até então o prazo mínimo para fixar a eficácia média de uma vacina tinha sido de quatro anos. Já que desta vez começaram a injetar na população com menos de um ano de desenvolvimento, não seria o caso de cotejar a projeção com a prática, buscando maior rigor estatístico? Não. Valem aqueles porcentuais fixados em seis meses e fim de papo.

O que aconteceu com o Chile? De novo: isso não é uma insinuação disfarçada de pergunta. É só uma pergunta. O que aconteceu com o Chile? De repente passou a se destacar como um dos piores quadros de agravamento da pandemia no continente, exatamente no momento em que se tornava um dos mais vacinados. Teremos cruzamento de dados, pesquisa, ensaios estatísticos e formação de hipóteses ou só gritaria de que isso não tem nada a ver com a vacinação porque a vacina é ótima? A mesmíssima pergunta (repetindo: pergunta) pode ser feita em relação ao que se passa no Uruguai. Ou não pode? Quando pergunta vira blasfêmia tem perigo no ar (além do vírus).

Ainda é permitido perguntar por que o Estado do Texas, que não está entre os mais vacinados dos EUA, tem tido os melhores resultados no declínio de casos e óbitos por covid? Tendo inclusive acabado com boa parte das restrições ao funcionamento da sociedade? E a Suécia? Já dá cadeia falar da Suécia? Se ainda não dá, vale a mesma pergunta: por que com um porcentual de vacinação muito inferior ao do Reino Unido – e sem lockdown – os suecos mantiveram na segunda onda índices de óbitos por milhão inferiores aos dos britânicos, com as curvas mantendo a mesma proporção de antes da vacinação?

Vamos interromper rapidamente as perguntas para fazer uma afirmação: com a quantidade de dúvidas e aferições inconclusas sobre as vacinas e seus reais efeitos sobre a população, quem advoga obrigatoriedade universal de vacinação contra covid-19 é suspeito.

E mais: nem a taxa de letalidade [ver John Ioannidis, Stanford] nem o universo dos grupos mais vulneráveis indicam a necessidade de vacinação de toda a população. Qual foi a alquimia moral que sumiu com o princípio da proteção aos vulneráveis e veio disseminar esse plano totalitário de passaporte sanitário? Que sanha é essa de criar um mundo exclusivo para vacinados – sem nem um panfleto estudantil, muito menos um estudo científico fundamentando esse cabresto mal disfarçado como medida imprescindível de segurança sanitária?

As iniciativas suspeitas sobre vacinação universal compulsória proliferam. Em São Paulo o Legislativo aprovou um projeto que inclui até escolas – onde todos os dados apontam risco baixo – nas atividades que passariam a requerer obrigatoriamente cartão de vacinação contra covid, no caso para crianças e adolescentes! Isso não é uma controvérsia. É um escândalo.

Os mortais que ainda não aderiram à seita da picada redentora continuam aguardando os estudos que faltam sobre a eficácia e a segurança das vacinas para idosos e pacientes com comorbidades, conforme assinalado no laudo da autoridade sanitária brasileira. Teria essa insuficiência de estudos alguma coisa a ver com as reações adversas relatadas ou os óbitos após a vacinação? Como vão os estudos sobre os efeitos identificados de coagulação e trombose, que levaram vários países a suspender o imunizante que gerou esse problema? Vacinar quem já teve covid sem sintomas pode acarretar danos ao organismo, conforme alertado por médicos respeitáveis? Esse monitoramento do sistema imunológico está sendo feito pelos vacinadores?

E já que o mundo resolveu desenvolver a vacina diretamente na população, onde está a tabulação dos efeitos adversos relatados em quatro meses de vacinação no mundo? Os dados do CDC, o centro de controle de doenças dos Estados Unidos – com seu rigoroso sistema de catálogo dos efeitos colaterais das vacinas -, serão usados para ajudar a sociedade a entender o que exatamente está acontecendo com quem se vacina, e em que proporção? Ou ciência agora é só o que sai do gogó do dr. Fauci, o showman da pandemia?

Virologistas renomados levantaram a questão dos riscos de vacinação em massa em plena pandemia, pelo potencial de criação de variantes mais infecciosas. O período de vacinação coincidiu com o surgimento de variantes mais infecciosas. Isso está sendo estudado? Ou você acha que não precisa de estudo – basta gritar que “não tem nada a ver uma coisa com a outra”? Se o postulado acima está errado, ele não deveria ser refutado com ciência? Ou refutação agora se faz com grito e censura?

Vamos repetir: esse lobby da vacinação obrigatória contra covid é o maior escândalo ético do século. E os que estão em silêncio diante desse projeto obscurantista são cúmplices dele.

Os crimes contra a humanidade nessa pandemia haverão de ser julgados. Vejamos o que acontecerá com os gênios do cartão existencial Corona Golden. Só as vítimas poderão salvá-los – basta optarem pelo plano platinum de servidão voluntária. Esse é para a vida inteira.