GUILHERME FIUZA

PROCURA-SE A CIÊNCIA DO LOCKDOWN

A Seita da Terra Parada anunciou a chegada da segunda onda. Ela quer te trancar de novo. Tudo bem, você topa. Mas com uma condição: que te mostrem os laudos comprovando que o lockdown resultou na detenção eficaz do contágio pelo coronavírus e na proteção aos grupos de risco. Pede os laudos agora, tá? Você precisa organizar logo a sua quarentena.

Pediu? Ótimo. E eles? Já te mostraram os laudos com a eficácia do trancamento geral na defesa da população contra a Covid? Não mostraram? Tudo bem, pede de novo. Eles estão muito ocupados espalhando a notícia da segunda onda, é preciso um pouco de paciência. Pediu de novo? Ótimo! Nada ainda? Que estranho.

Liga pro Mandetta. Ele com certeza tem esse atestado científico, porque vivia o dia inteiro na televisão dizendo para ninguém botar o nariz fora de casa que seria fatal. Ok, de fato ele foi filmado se abraçando e dançando com assessores num ambiente aglomerado, mas isso não tem nada a ver. A máscara de um picareta cairá mais cedo ou mais tarde, então ele não tem mesmo como se prevenir. Ligou pro Mandetta? E aí? Não atende? Insiste, que ele deve estar terminando um comício e daqui a pouco te explica tudo.

Enquanto isso vai ligando pro Butantã. Ligou? E aí? Caiu errado? Como assim? Na telefonia não existe mais esse negócio de “foi engano”, você deve ter discado errado. Ou melhor: teclado. Teclou certo? Estranho. Quem atendeu disse o quê? “Comitê do Bruninho”?! Não é possível. Você ligou pro Instituto Butantã e caiu no comitê de campanha do Bruno Covas?! É, então essa telefonia não presta mesmo. Tem que privatizar. Já privatizou? Então tem que estatizar.

Liga pro Dória. Ele deve ter outro telefone do Butantã. Ligou? Ele atendeu de primeira? Maravilha, o Dória é muito solícito mesmo. E aí, ele te deu outro telefone do Butantã? Não?! Por que? Disse que só te dá se você tomar a vacina chinesa? Espera aí, deve ter entrado uma linha cruzada. A vacina nem existe e você só queria um laudo do Butantã sobre a eficácia do lockdown… Por que você não disse isso com todas as letras? Ah, você disse? E aí, o que ele respondeu? A ligação caiu? É, não dá. Tem que privatizar. Ou melhor, estatizar.

Faz o seguinte, dá uma ligada pra Fiocruz. Lá com certeza você consegue o atestado de eficácia do lockdown. Aí pode voltar tranquilo e convicto pro buraco. O que não dá é pra ficar na dúvida, que aí o vírus te pega. Esse vírus é que nem cachorro: se você demonstra insegurança ele te ataca.

Conseguiu falar com a Fiocruz? Maravilha! E aí, te deram os laudos da contenção da Covid pela quarentena horizontal? Não?! O que houve dessa vez? Eles disseram que os laudos existem mas não estão com eles? Ah, menos mal. Hoje em dia tem motoboy pra tudo. Estão com quem, os laudos? Com o Witzel?? A Fiocruz montou um plano de lockdown total com o Witzel e naquela confusão da chegada da polícia os documentos ficaram com ele? Poxa, que azar.

Bom, tenta pegar com ele assim mesmo. Não vai dar? Por que não vai dar? Ele se mudou? A Justiça despejou o Witzel do palácio? O que aconteceu? Não pagou o aluguel? Essa lei do inquilinato é absurda, coisa da ditadura. Por isso é que tem que parar tudo e fazer uma assembleia constituinte. Coitado do Witzel. Por que você não faz uma visita de solidariedade no cafofo novo dele e aproveita pra pegar a papelada científica do lockdown? Não vai dar? Por quê? Foi tudo perdido na mudança?!

Aí fica difícil. Não há ciência que aguente tantos incidentes. Vamos fazer o seguinte: como está a taxa média de letalidade da Covid? Abaixo de 70 anos é inferior à da gripe sazonal? Ok. Então liga pra Seita da Terra Parada, conta isso a eles e avisa para continuarem em lockdown mental, que você vai ficar aqui fora vigiando o perigo.

GUILHERME FIUZA

BIDEN E A INCLUSÃO DOS MORTOS

Foi tudo normal na eleição norte-americana. Só porque os mortos resolveram votar (21 mil só na Pensilvânia) os aliados do Trump reclamaram. Esses fascistas detestam a inclusão. Por que os mortos não podem participar da festa democrática? A pessoa já teve o seu direito de viver cassado e ainda por cima tem que perder o direito de votar? É muita falta de empatia.

Essa democratização do voto para o Além aconteceu graças à covid-19 – que por sua vez foi um presente de Deus, como explicou a Jane Fonda. Ou melhor: a quebra do monopólio dos vivos sobre a democracia se deu graças ao truque de prender a população em casa fingindo que isso salva a vida de alguém. A eleição nos EUA esclareceu tudo: o lockdown salvou os mortos. Ou pelo menos o seu sagrado direito de votar no poste do Obama.

Foi lindo ver a galera do fique em casa se aglomerando nas ruas para comemorar a façanha de Joe Biden, o herói dos carteiros mágicos. Para você entender a paixão do povo norte-americano por Biden, passou o dia da eleição e os votos continuaram chegando de todas as partes – mostrando que quem tem convicção real sobre o seu candidato vota nele todo dia. O tsunâmi da paixão comoveu os mesários mais sensíveis, que acharam justo retocar as cédulas atrasadas com a data certa da eleição – porque uma exigência burocrática jamais poderia atrapalhar a vitória do Bem.

E aqueles softwares conscientes do Michigan? Cumprindo bravamente seu papel revolucionário, saíram tabulando para Biden milhares de votos dados a Trump. É assim mesmo que tem que ser: se o eleitor se enganou votando no candidato errado, a tecnologia democrata conserta.

Mas nem tudo foi perfeito. A parte desagradável dessa beleza toda foi a tensão criada por observadores oficiais que cismaram de querer ver as contagens de votos. Essa gente fascista é muito abelhuda, quer se meter em tudo. Os democratas fizeram muito bem em tapar com papelão as salas de tabulação. Ninguém consegue ter paz para contar votos com um monte de bisbilhoteiro botando olho em cima. Aí ficou tudo bem. Inclusive muitas cédulas que não tinham nada escrito puderam ganhar uma marquinha no nome Joe Biden — e só, porque para marcar nome de deputado, senador e demais opções da cédula a eleição só acabaria no ano que vem, e o Obama já avisou que está com pressa.

E assim se deu a virada sobrenatural do companheiro Biden, transformando-o no maior fenômeno eleitoral da História dos Estados Unidos da América. Essa façanha foi conseguida por um poste sem luz, segundo especialistas, graças à revolta do povo norte-americano contra Donald Trump. De fato, os norte-americanos tiveram quatro anos de ascensão socioeconômica, e isso revolta mesmo a pessoa. Todo mundo sabe que o que faz um ser humano feliz e satisfeito é eleger o governo dos amigos da Jane Fonda.

Foram quatro anos de índices de aprovação governamental em alta – tudo truque para os republicanos acharem que a eleição estava no papo. Na hora certa Jane e seus amigos ganharam dos céus o lindo presente viral e mandaram todo mundo se trancar em casa. Mesmo com a constatação de que a população na quarentena se infectava mais do que fora dela, continuaram pregando o lockdown – medida fundamental para que os mortos pudessem conquistar sua inclusão eleitoral e os carteiros do bem fossem capazes de operar seus milagres.

Obama disse que Trump matou milhares de pessoas. É nisso que o povo norte-americano acredita – não em liberdade e dinheiro no bolso. O povo norte-americano acredita em Obama e em Papai Noel, por isso votou num poste que promete deixar todo mundo preso em casa. Obama disse que a eleição acabou. Danem-se o procurador-geral e as investigações em curso. Obama é a lei – e a imprensa amiga é o carimbo.

Vivam os mortos.

GUILHERME FIUZA

O NATAL CENSURADO DE BORAT

Os norte-americanos da Califórnia não vão poder cantar na ceia de Natal, por causa da covid. Isso não é uma piada de mau gosto. É uma decisão do tiranete local – para variar, um “democrata”. Se esses fascistas saíssem de uma vez dos seus armários e assumissem toda a sua gana ditatorial, rasgando a fantasia progressista e humanitária, o mundo se tornaria instantaneamente um lugar melhor – porque muito menos trouxas cairiam no truque.

Mas eles não farão isso, pela simples razão de que a dissimulação, para eles, é tudo. Como seria para essas múmias envernizadas de Hollywood apoiar abertamente ditadores assumidos? Não funciona, né? Como é que o Borat ia fazer gracinha contra o fascismo imaginário sendo um apoiador do fascismo real? Não tem como. A realidade é uma entidade proibida para esses samaritanos de butique. O fingimento é o seu seguro de vida, a sua pedra filosofal.

Os californianos serão vigiados no Natal e no Dia de Ação de Graças também em relação ao número máximo de pessoas em casa. E ao tempo máximo de permanência juntos – duas horas. Se você não desistiu de vez do bom senso e da razão já entendeu que isso não tem nada a ver com pandemia. Onde estão os laudos? Quem atestou cientificamente que em até duas horas o contágio não se dará – e depois disso será inevitável? Quem é o engenheiro dessas medidas impressionantes? Borat?

Ou você fundamenta rigorosamente na ciência medidas extremas como essas, ou você assume a sua tirania. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, não se assume como ditador porque é um fraco. Assim como Emmanuel Macron com seu toque de recolher na França e diversos outros governantes ao redor do mundo: precisam de uma falsa ética para dominar de forma despótica. Quem vai mostrar que esses reis estão nus?

Já passou da hora. Não é possível continuar levando a sério tiranetes com maquiagem politicamente correta, como o prefeito de São Paulo. Um transformismo nesse nível chega a ser uma ofensa aos transformistas. Por que não partem para cima da população de cara lavada e chicote na mão? Porque são covardes. Precisam do disfarce amigável. Se fosse vivo, Mario Covas já teria posto o netinho de castigo – sem os brinquedos caros que ele adora, como a coleção de caixões e a máquina de soldar comércio.

O novo brinquedo de Bruno Covas é sinal de trânsito com símbolo panfletário. Não tendo mais nada para fazer e nenhum coleguinha para brincar, o neto pirracento de Mario Covas resolveu trocar a luz de “pare/siga” por um punho cerrado. Ele viu o Super-Homem voando e teve vontade de ser herói também, como é normal em toda criança. Aquele punho cerrado é a figurinha do Black Lives Matter – um bando de almas penadas que finge se importar com “vidas negras” para sair quebrando tudo. Deve ser falta de videogame.

Como seria a maior cidade do país atravessando a pandemia na mão de um Boulos? Não precisa imaginar, você já viu. Bruno Covas é um Boulos com caneta na mão. Têm os mesmos amiguinhos, os mesmos brinquedos, a mesma fantasia revolucionária de todo burguês mimado (os antifas da Vila Madalena) e a mesma vontade de mandar nos outros sem contraditório. Uma criança assim é capaz de trancar uma cidade para brincar de herói – e, se você perguntar onde estão as instruções do brinquedo, ainda te joga na cara um panfleto do Butantã.

Não tem problema. Você pode travar automóveis aglomerando transporte público em nome do “fica em casa” que o panfleto “científico” do Butantã atesta que assim você salvou milhares de vidas. Jogo de tabuleiro é bom porque quem governa é a imaginação. Aí vem o padrinho do garoto com uma seringa na mão dizendo que vai espetar todo mundo – para o bem de todos. Sem instrução, sem garantias, sem comprovação de eficácia, sem demonstração da necessidade universal. Se alguém tiver dúvidas sobre a taxa de letalidade, é só consultar a coleção de caixões do Bruninho.

E aí está você, refém desse videogame macabro de Dorias esganados, Boulos atucanados, Gavins maníacos, Macrons napoleônicos de hospício e grande elenco de devotos enrustidos da moderna ditadura chinesa. Se você esperar mais um pouco para abrir a porta do cativeiro pode descobrir que ela foi soldada pelos reis da empatia.

GUILHERME FIUZA

OS VENDILHÕES DA LIBERDADE

Era uma vez um vírus. Ele nasceu numa ditadura e sonhava dominar o mundo. Por coincidência, essa ditadura também sonhava dominar o mundo. Do outro lado desse mundo que eles queriam dominar estava o país mais poderoso. Era preciso, portanto, vencê-lo. E eles foram à luta.

Havia uma pedra no caminho: o país mais poderoso do mundo era livre. E nem todos os exércitos virais da galáxia são mais fortes do que a liberdade. Era preciso, então, quebrar as pernas dela. Como? Eles não tinham certeza da eficácia, mas resolveram tentar um coquetel esperto: medo, vaidade e dinheiro fácil.

Na potência livre o dinheiro estava associado a trabalho duro, pelo menos para a imensa maioria. Na ditadura emergente o dinheiro advinha do sangue do povo, cuja dignidade não podia ser reclamada por ninguém. E era muita gente, muita mesmo.

O coquetel começou a funcionar quando o dinheiro fácil da ditadura emergente passou a jorrar sobre os vaidosos (e esganados) do resto do mundo. Aos pouquinhos, aqueles que viviam sob os códigos da liberdade e do mérito começaram a concordar em reconhecer liberdade e mérito nos concorrentes obscuros. Estavam sendo docemente comprados.

A ditadura brutal levou um banho de loja enquanto aumentava a sua brutalidade – alcançando o ponto mais autoritário do regime em décadas. Mas do lado de fora o mercado da futilidade continuava encantado com o dinheiro fácil e fazia o seu papel direitinho – conferindo atestado de modernidade e idoneidade a uma tirania selvagem. A tirania foi comprando a potência livre.

Aí sujou. Cidadãos que teimavam em não vender a sua liberdade provocaram uma mudança política que ameaçou estragar tudo. O novo governo da potência livre achou que não era uma boa continuar se entregando de corpo e alma ao capitalismo pirata da ditadura moderninha e começou a trazer o jogo das sombras para a luz. Foi então carimbado como “fascista” – maneira encontrada pela pirataria de inserir a propaganda em seu coquetel.

Essa estratégia pareceria tosca a qualquer observador sensato – mas o que é a sensatez diante da malandragem, num mundo que consegue transformar picaretagem em virtude? Um exército de formadores de opinião carimbando como falsidade e onda de ódio qualquer contestação à teoria do novo “fascismo” revoga qualquer ameaça de sensatez. É realmente difícil contrapor uma massa de propagadores amestrados, ornados com vistosa fantasia humanitária e adoçados com dinheiro fácil e farto. Mesmo assim o “fascismo” dos livres e democratas se impôs, e aí chegou o vírus.

O medo como pretexto para controlar os terrenos que a vaidade e a venalidade não tinham conquistado foi genial. Se a pirataria da ditadura emergente tivesse se imposto só no terreno material, não daria em nada. Mas a pirataria evoluiu para os valores civilizatórios e os espíritos – e foi um espetáculo exuberante a coletividade renunciando à vida para se enclausurar numa falsa ética, em casamento inédito do pavor com o cinismo.

Parabéns! Não seria possível quebrar as pernas de uma democracia sem operar o instrumento básico dela – o voto. Foi encantador ver a pirataria embaçando tudo, transformando a vontade do eleitor confinado em malotes voadores ao sabor da picaretagem diligente.

Não deixa de ser uma escolha. Vocês optaram pelo fingimento. Fingiram defender a liberdade enquanto a envenenavam. Fingiram mal, mas colou. Convivam com essa escolha para sempre. Quem prefere ser livre continuará buscando isso – mesmo sabendo que, com o êxito da tirania viral, a paz vai ficar mais difícil.

GUILHERME FIUZA

O RAP DA VACINA INSANA

O ministro Luís Roberto Barroso, do STF, disse que é um “iluminista”. Ele estava querendo dizer que é a favor da ciência e da razão – e, mais especificamente, da vacina. A questão em avaliação no STF é se a vacinação contra Covid-19 deve ser compulsória para toda a população – mediante obrigatoriedade ou restrições aos não vacinados. O que a ciência e a razão dizem sobre a necessidade de vacinar a todos contra Covid?

Nada. Nem a ciência, nem a razão, nem a medicina, nem a epidemiologia, nem a infectologia, nem a estatística, nem a técnica, nem a OMS, nem o Imperial College, nem o bom senso, nem literatura alguma contém uma única linha demonstrando a necessidade de se vacinar toda a população contra o coronavírus. Nem a taxa de letalidade – que abaixo dos 70 anos é em média inferior à da gripe sazonal – nem a abrangência dos grupos de risco indicam essa necessidade.

Então quem indica? O Dória. Mas não é só o Dória. O Aécio também. A ciência universal estava esperando ansiosamente a reaparição de Aécio Neves, egresso dos porões da política brasileira, com seu projeto de cassação da cidadania de quem não se vacinar contra Covid – através de restrições brutais para a vida em sociedade. A ciência sabe que de cassação Aécio entende, porque vem driblando há anos a sua própria.

O Iluminismo de Luís Roberto Barroso é, portanto, uma equação derivada de terceiro grau com delta de Aécio Neves, integral de João Dória e produto de laboratório chinês ávido por vender vacina. Como diria Thomas Hobbes, coisa de louco.

Mas o bom observador já notou que há coerência nisso tudo. Enquanto Dória e Aécio querem empurrar vacina que ainda não existe, Barroso fala pelos cotovelos de matéria que ainda vai ser julgada. Viu? O timing está perfeito. Aliás, a ciência adora juiz assim. Todo mundo sabe que a base do Iluminismo é manter os telejornais bem abastecidos de fofoca, porque é dali que vem a luz. Duvida? Então apaga tudo na sala e deixa só a TV ligada. Você vai entender na hora o Iluminismo do Barroso.

Thomas Hobbes foi um dos maiores youtubers do século XVII e, devido à sua notória curiosidade, talvez perguntasse delicadamente: Barroso, querido, você não acha um pouco arriscado deliberar sobre vacina que não teve sua eficácia e sua segurança comprovadas? Hobbes era um inglês muito educado, mas do jeitinho dele não deixava questões esdrúxulas no ar. Talvez até fizesse um vídeo com o Rap da Vacina Insana. Iluminismo é legal por isso, você pode cair de boca no obscurantismo que nunca falta luz.

A nação brasileira está tranquila e absolutamente segura com a notícia de que existe ciência sob a toga. É um momento de muitas incertezas, mas quando você olha para cima e vê Barroso, Dória e Aécio cuidando da sua saúde, você imediatamente se enche de confiança no futuro. O triângulo da seringa não há de deixar faltar picada para ninguém.

Mas se os brasileiros pararem de achar graça nesse tipo de ciência e o tempo fechar na terra do sol, os iluministas de toga vão ter que se explicar à luz de velas.

GUILHERME FIUZA

DEZ OBRIGAÇÕES PARA OS VACINADORES

A Organização Mundial da Saúde informou que não recomenda a obrigatoriedade da vacina contra a Covid-19. A declaração foi feita por uma vice-diretora da área de medicamentos e vacinas da OMS. Ela inclusive se referiu ao cunho autoritário dessa medida – defendida pelo governador de São Paulo, João Dória. Ou, mais do que defendida, anunciada previamente por ele para a população do seu estado.

Estamos com o Dória. Chega desse negócio de deixar as pessoas decidirem livremente as coisas. Todo mundo sabe que liberdade é uma coisa perigosa, e que o único caminho realmente seguro para a vida em sociedade é obedecer a um ser superior que saiba o que é bom para a tosse. Vamos inclusive contribuir com ele, propondo uma lista de dez obrigatoriedades que, a nosso juízo, também devem ser adotadas com urgência:

1 – Todo tiranete que declarar que salvou vidas com lockdown totalitário e não tiver como provar isso será obrigado a indenizar quem faliu e quem perdeu o emprego;

2 – Toda autoridade que anunciar vacinação obrigatória antes da existência da vacina será obrigada a confessar sua leviandade em cadeia nacional de rádio e TV;

3 – Todo aventureiro que ameaçar obrigar todo mundo a se vacinar sem a comprovação científica de que a taxa de letalidade da doença requer a vacinação de toda a população será obrigado a desenvolver em 24 horas uma vacina contra a irresponsabilidade;

4 – Todo irresponsável que ameaçar obrigar todo mundo a tomar uma vacina que ainda não tenha comprovação da sua segurança e da sua eficácia será obrigado a trabalhar como cobaia no laboratório chinês que espalhou o coronavírus;

5 – Todo mané que tentar fazer motim de governadores picaretas para fazer o STF lhes dar poderes ditatoriais com seringa na mão será obrigado a ouvir quatro horas de palestra de Luís Roberto Barroso e cinco horas de palestra de Rosa Weber;

6 – Todo hipócrita que tiver mantido crianças, adolescentes e jovens longe da sala de aula por um ano fingindo que estava salvando vidas será obrigado a provar a necessidade sanitária dessa medida brutal;

7 – Ainda sobre o item anterior, essa prova terá de conter a explicação de por que esses grupos populacionais com virtualmente zero letalidade para Covid precisaram perder todo um ano letivo e como foi possível as crianças suecas frequentarem a escola o ano inteiro sem se tornarem assassinas dos seus avós;

8 – Todo fanfarrão que tiver usado máscara sozinho numa sala, fingindo dar exemplo com uma medida inócua, será obrigado a passar férias na cracolândia ensinando aos cracudos como fumar de máscara;

9 – Caso o fanfarrão acima tenha tido Covid, será obrigado a explicar se o furo na sua ciência deveu-se a máscara inútil, quarentena burra ou excesso de álcool gel nos cabelos;

10 – Será também obrigado, novamente em cadeia nacional de rádio e TV, a fazer o seguinte pronunciamento à nação: “Estou aqui sozinho de máscara, mesmo já tendo tido Covid, porque hoje em dia um fanfarrão que se finge de ético e solidário tem boas chances de se dar bem na vida, graças aos otários que continuam acreditando nele”.

GUILHERME FIUZA

VACINAÇÃO SEM VACINA

A discussão sobre a vacina contra covid-19 está avançada. Muito mais avançada que a própria vacina, mas isso é detalhe. O debate está tão acelerado, com autoridades já anunciando seus planos de imunização, que é capaz de, quando a vacina chegar, já estar todo mundo vacinado.

Eis aí uma excelente proposta: chega de espera, vamos vacinar a população antes da vacina. Mas como isso funcionaria exatamente? Muito simples: é só pegar as manchetes, os discursos, as profecias, as bravatas, comprimir tudo numa seringa e mandar pra dentro do povo. Adeus, covid.

A vacina desenvolvida mais rapidamente na história foi a da caxumba – que levou quatro anos para ficar pronta. A do sarampo levou dez anos. Mas naquela época não tinha internet, Tedros, Doria e outras maravilhas da ciência. Hoje em dia o papo é de seis meses e vamos arregaçando as mangas, ou baixando as calças, para resolver logo isso. É só uma picadinha, depois a gente estuda com calma o que foi injetado em você.

Na gripe suína, a vacina gerou enfermidades piores do que a própria doença – para ficar num exemplo histórico mais recente. Um dos trunfos para tentar acelerar a vacina contra covid é o uso de uma técnica inovadora – o RNA mensageiro, que atua na base genética do indivíduo. A ação consiste em induzir o organismo a uma produção imunológica artificial, sem que se precise inocular o vírus atenuado (método tradicional).

Ninguém sabe se isso funcionará e o que vai causar às pessoas. Mas você está ouvindo autoridades falando em iniciar a vacinação neste ano – e já pode começar a ficar na dúvida se vai ter que chamar o médico ou a polícia.

Tudo isso se dá num ambiente de total transparência – com vacinas relâmpagos brotando das ditaduras chinesa e russa. Vai tomar a Sputnik do Putin? Com essa divertida temática espacial é possível você nem sentir a picada. “Olha o foguetinho…” E quando viu já tomou. Se o pessoal está curtindo máscara personalizada, tipo “I love my dog”, por que não entrar na onda da vacina estilizada? Estética é tudo.

Já a vacina chinesa se antecipou às marchinhas carnavalescas. Laboratórios incapazes de conter um vírus que se espalhou pelo planeta inteiro são naturalmente as instituições mais confiáveis para oferecer uma vacina. Esse seria o refrão do bloco mais debochado do Carnaval 2021 se a realidade não tivesse roubado a cena e caído no samba antes da hora.

O Ministério da Saúde entrou na disputa com os governadores mais afoitos para ver quem faz a promessa mais leviana. As “projeções” para o início da vacinação andam oscilando entre o final deste ano e o começo do próximo – sacramentando como única certeza científica o fato de que os cidadãos estão sob o comando de autoridades irresponsáveis. A rigor, já há uma segunda certeza científica: a de que isso não pode acabar bem.

E, já que a irresponsabilidade foi oficializada, os tiranetes mais tarados, como João Doria, resolveram declarar que a vacina será obrigatória para todos. Nada de mais. Para quem já inventou número de vidas salvas tentando justificar seus surtos totalitários, um disparate a mais contra a população não faz diferença. A não ser que a população desista de ser o brinquedo predileto de Joãozinho Tranca Rua e seus colegas.

A letalidade da covid-19 abaixo dos 70 anos é inferior à da gripe sazonal, como acaba de confirmar um estudo produzido na Universidade Stanford. Neste cenário, falar em obrigar a população inteira a se vacinar – com uma vacina que não existe – significa o quê? Mais uma marchinha roubada? Um negócio da China? O tão aguardado surto fascista?

Responda aí você, que estamos ocupados decifrando o RNA mensageiro dos hipócritas.

GUILHERME FIUZA

A SEGUNDA ONDA DE HIPOCRISIA

Emmanuel Macron decretou toque de recolher na França contra o coronavírus. Das 21 às 6 horas, ninguém circula. O presidente francês disse que isso é uma medida contra o aumento de casos de Covid-19. Só não disse de que forma o seu lockdown noturno vai proteger a saúde da população. E aparentemente ninguém perguntou. Pelo menos ninguém com voz para questionar os critérios da medida. Esse negócio de critério saiu de moda.

Outras ações restritivas estão sendo adotadas por governos europeus, como o da Itália e o da Alemanha. Dizem que chegou a segunda onda. Como a Suécia não adotou restrição alguma, em momento algum, podemos imaginar que os suecos estejam sendo dizimados pela Covid, certo? Errado. O país que ignorou por completo o lockdown nem sequer lidera o ranking de óbitos por milhão. Então, onde está a sustentação da medida extrema de trancamento da população?

Não existe. Em lugar nenhum do planeta. O que existe, e aparece cada vez em maior número, são estudos que mostram que o lockdown não tem resultado no enfrentamento da pandemia. Harvard, Stanford, UCLA, Edimburgo e Toronto são algumas das universidades com levantamentos (não projeções) que cobrem dezenas de países e revelam que as regiões com lockdown mais severo não têm índices de óbitos por coronavírus mais baixos. A Europa está trancando todo mundo de novo por quê?

Ninguém sabe dizer. Onde está o seu lastro científico, Sr. Macron? A medida extrema do toque de recolher, que impõe uma situação de grave exceção à liberdade, está sustentada em quais princípios técnicos? Onde está o laudo que comprova a relação direta do confinamento indiscriminado da população entre 21 e 6 horas com a redução do potencial de contágio – e, sobretudo, com a preservação dos vulneráveis à Covid-19? Em que ponto do seu plano está o distanciamento entre os que podem circular durante o dia e os grupos de risco?

Vamos parar de fazer perguntas retóricas e afirmar com todas as letras: hipócritas como Emmanuel Macron não salvam uma única vida. Fingem ter um mapa de bloqueio de contágio baseados em princípios vagabundos, pueris. Fique em casa. Se puder, fique em casa. Se puder, feche os olhos para a circulação dos transportes públicos, eventualmente aglomerados. Finja que o vírus respeita as fronteiras cenográficas criadas pela falsa empatia. Finja que a Covid-19 para obedientemente na porta das quarentenas vips, de onde a burguesia remediada pode ficar chamando o povo de assassino, entre uma live e outra.

O economista Andrew Atkeson, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, liderou um levantamento que analisa 25 Estados dos EUA que adotaram políticas diversas para a pandemia. De novo: nenhum dos governadores que decretaram lockdowns mais severos pode hoje, com mais de sete meses de prática, ostentar níveis inferiores de vítimas da Covid-19. Isso já estava prenunciado no famoso (e misteriosamente esquecido) levantamento do Estado de Nova York que mostrava, logo nos primeiros meses de isolamento horizontal, que a larga maioria dos internados na rede hospitalar provinha da quarentena.

Após a publicação da Declaração de Great Barrington, um manifesto com adesão de mais de 6 mil cientistas denunciando a ineficácia do lockdown indiscriminado e propondo formas de proteção focada, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, disse que “permitir que um vírus perigoso e ainda não completamente conhecido circule livremente é simplesmente antiético”. A ética de Tedros Adhanom é simplesmente circense. Ele se recusa a permitir que o vírus circule livremente. Olhando-se para o que aconteceu no mundo em 2020, a única conclusão possível é de que o vírus usou a ética de Tedros como prancha de surfe.

Como disse seu colega na OMS David Nabarro, diretor especial para a Covid-19, o lockdown é devastador e pode duplicar a pobreza no mundo em um ano. Então, as sociedades precisam decidir – agora – se continuarão hipnotizadas pelos pregadores da falsa ciência ou se irão à luta pela retomada do controle sobre a sua vida e a sua liberdade. Antes que seja tarde demais.

GUILHERME FIUZA

O STF DOS SONHOS NÃO EXISTE

A escolha do novo ministro do STF gerou um turbilhão. Foi ou não foi uma traição? Bolsonaro desrespeitou milhões de brasileiros que esperam dele o combate às velhas raposas da política? O que significa, na verdade, a indicação do desembargador Kassio Nunes Marques à vaga de Celso de Mello na Suprema Corte?

A primeira demarcação necessária é a seguinte: discutir se a escolha foi boa ou ruim é uma coisa; discutir se Bolsonaro fez pacto com o diabo é outra.

O Brasil sonhou com Sergio Moro passando pelo Ministério da Justiça e indo sanear o STF. Seria um choque de eficácia no combate à corrupção no país, com a inoculação do gene da Lava Jato no ninho de casuísmos que virou a Corte máxima do país. Mas a vida não é filme, como diria o poeta.

Veja como as aparências enganam: deu tudo errado. Sergio Moro, justamente o depositário da esperança nacional quanto à prevalência do espírito público – ou seja, aquele em quem mais se podia confiar -, roeu a corda. Em plena pandemia, montou um suposto dossiê contra o presidente da República, que continha até mensagem de WhatsApp para afilhada de casamento.

Para um juiz espartano e pragmático, que não dava ponto sem nó e só falava o necessário, aquele show de quase-possíveis-meias-evidências jogadas no ventilador para sustentar uma tese pegou mal. Essa novela se arrasta há meses sem comprovação da denúncia, mas logo de cara a sociedade já tinha estranhado. O evento estava espetacular demais para o estilo de Moro.

O país estava errado ao sonhar com o herói da Lava Jato para iniciar a depuração do STF? Não. Tinha todas as razões para isso. Depois do escorregão político de Moro, fazendo dupla com Mandetta para atacar o presidente de dentro do governo, continuaria segura a aposta nesse homem para sanear o Supremo? Duvidoso. Quem chegaria ao STF? O juiz virtuoso ou o político desajeitado?

Assim é a vida. Kassio Nunes é o anticlímax. Quando o país esperava um magistrado apolíneo sem passagem pelos corredores da política fisiológica, surge um nome que não espanta os passantes desses corredores. Qual é a do Bolsonaro?

A resposta é simples: a do Bolsonaro é a do Bolsonaro. O homem rude que veio sacudir o mofo do elitismo afetado. Entre gols e caneladas. Por que ele não faz só os gols e evita as caneladas? Porque aí não seria ele. Seria outro. Onde está esse outro que constituiria um ministério técnico – com a agenda reformista de Paulo Guedes à frente – sem loteamento partidário, ao mesmo tempo com liga popular, mas sem caneladas? Não apareceu esse outro. Então vai ser com esse mesmo que está aí, que a democracia colocou aí – com o pacote completo. Com soluções e trombadas.

Ah, mas não dá pra dar um banho de loja, pelo menos? Não, não dá. Até porque um dos problemas é justamente o excesso de grifes no mercado. Como sabemos, a resistência de boa aparência é um vexame e só pensa em conspirar. Então chegou a hora do churrasco — pé no chão, fumaça e barulho. Quando os sofisticados voltarem a se comportar direito, quem sabe, os modos melhoram no salão.

Você queria um Miguel Reale Jr. no STF? Claro que sim. Um dos autores do pedido de impeachment da presidenta delinquenta. Mas o que anda fazendo o professor Reale? Política. Oposição mecânica ao fascismo imaginário. Vamos ser sinceros: para conchavo tucano no Supremo já temos Gilmar Mendes.

Então que tal um Ives Gandra? Excelente. Mas aí ele evoca o tal poder moderador das Forças Armadas e a turba mais assanhada começa a sonhar com a dissolução do STF. Que tal? Quando a ideia é ruim ou gera ruído, os danos podem ser piores justamente quando a coisa provém de um cardeal. Então vamos aproveitar para dar uma relativizada também no cardinalato, que não está com essa bola toda.

Falar em bola, quando Vavá substituiu Pelé na Seleção teve que dar uma bronca em Didi, o cérebro do time. “Já te falei pra não me dar bola limpa. Manda dividida que eu resolvo.” Bolsonaro é um centroavante estilo Vavá – que substituiu Pelé e voltou ao Brasil com a taça.

A escolha de Kassio Nunes para o STF parece equivocada. Talvez seja. Foi tão impetuosa quanto a escolha para ministro da Infraestrutura de Tarcísio Gomes de Freitas – terceira opção que virou primeira após uma única conversa. Nesse caso, o impulso do presidente virou um choque de gestão num dos maiores focos de corrupção da história do país, emblema de um governo com mais de ano e meio de gestão limpa. É o pacote Bolsonaro.

Críticas são fundamentais. Teoria da conspiração sobre pacto com o diabo é para quem quer ficar sonhando com vestais.

GUILHERME FIUZA

PEDAGOGIA DA BAIXARIA

Rodrigo Maia recomendou a Paulo Guedes que assista “A queda”. É um filme sobre a derrocada de Adolf Hitler. Esse gesto distinto lembra um telefonema recebido pelo mesmo Guedes de João Dória, logo após o pedido de demissão do então ministro Sergio Moro: o governador de São Paulo convidava o ministro da Economia a abandonar o barco também, em plena pandemia. Com recados como este para o principal condutor da gestão nacional, o presidente da Câmara dos Deputados diz trabalhar pela estabilidade política do país.

Vamos então recomendar também um filme a Rodrigo Maia. Ele precisa assistir, urgente, a “O barraco do Leblon”. Nem precisa serviço de streaming ou assinatura. É só entrar no YouTube e dar de cara com esse clássico da vida contemporânea. Uma das principais funções da arte é gerar identificação, e o presidente da Câmara vai se identificar totalmente com o fenômeno de expressividade egresso da obra.

Segue a sinopse. Um carro conversível passa lentamente por uma rua nobre do Rio de Janeiro, e o primeiro impacto é pura engenharia estética: uma mulher de biquíni à noite. Ela se destaca na parte alta do carro, com seu corpão impondo-se aos passantes como um outdoor. Em movimento de sutil sensualidade, a gata se inclina em direção ao condutor do veículo, exibindo ainda mais seus predicados aos inocentes do Leblon.

De repente a cena é cortada por um evento bruto. Um objeto invade o quadro doce, risca a atmosfera romântica e atinge as costas nuas da fêmea ornamental. É um objeto leve – uma garrafa vazia de plástico – mas agressão é agressão. Está desfeito o encanto.

A potranca interrompe os movimentos suaves na sua ribalta móvel, desembarca bruscamente e marcha aprumada em direção ao agressor, que se encontra numa das mesinhas de bar distribuídas pela calçada. É uma agressora. Como se estivesse vestida para matar, e não num sumário biquíni, a deusa do pecado se transfigura em guerreira impávida e desfere um golpe certeiro – um tapão, como se diz nas artes marciais de calçada – na oponente.

Como uma soldada em missão cumprida, tendo transformado implacavelmente a agressora em vítima, a dama do biquíni noturno dá meia volta sem perder o prumo e marcha decidida de volta para o conversível – com a placidez de quem parece firmemente resolvida a mergulhar de volta no amor, como se nada tivesse acontecido. Provavelmente nem suou.

O que o barraco do Leblon tem a ver com o deputado Rodrigo Maia, e sua sugestão obscena ao ministro da Economia? Nada. O processo de identificação inerente à arte se dá, no caso, na fase interpretativa. Sim, essa obra-prima da baixaria chique mobilizou um embate intelectual à altura daqueles que sobrevinham aos filmes de Godard ou Glauber. E a crítica especializada achou uma forma de ideologizar o barraco.

Os éticos da empatia talibã, que estão há seis meses patrulhando biquíni à luz do dia e dedurando até quem sobe numa bicicleta, estavam prontos para apontar seus canhões contra a vulgaridade dessa gente subdesenvolvida e sem classe que afronta as regras de respeito à vida. Mas a maior tara de um reacionário é parecer que não é. E foi assim que os patrulheiros da Seita da Terra Parada acharam um jeito esperto de enaltecer a Afrodite barraqueira contra a agressora “conservadora”. Pode morrer de rir porque foi exatamente isso que aconteceu.

Os cúmplices do maior atentado à liberdade coletiva neste século viraram libertários em um segundo. Bastou uma pirueta retórica, com uma desinibição que nem uma garota de programa de biquíni num carro conversível à noite teria. Fica em casa, deputado. E dá uma olhada nesse clássico de conversão da hipocrisia em posição política. É muito mais pedagógico que a queda de Hitler.