GUILHERME FIUZA

NEGACIONISMO ELEITORAL

eleições 2022

O TSE está preocupado com a legitimidade das eleições no Brasil. Por isso tem realizado uma série de ações preventivas, para as quais acrescentamos aqui algumas sugestões, a título de aprimoramento:

* O TSE está buscando observadores internacionais para a eleição brasileira. Sugerimos que os observadores venham do Butão e de Bangladesh, os únicos países do mundo que têm um sistema tão moderno quanto o nosso;

* O TSE está procurando igrejas para se associar a ele na cruzada contra as fake news. Como essas escrituras estão um pouco confusas e os critérios do TSE para punir pecadores andam um tanto imprecisos (como se constata no episódio relatado acima), vamos contribuir com a cruzada pela segurança e a lisura do pleito oferecendo uma definição precisa do pecado de fake news: será considerado pecador por disseminação de fake news qualquer mortal que expressar alguma forma de preconceito, ainda que velado, sobre o sistema eleitoral do Butão. Se alguém reclamar porque teclou o número do Bolsonaro e apareceu na tela a cara do Lula, o TSE prende e arrebenta por atentado à liberdade de expressão da urna;

* O TSE organizou uma solenidade na qual foram condecoradas personalidades simpatizantes do PT. Para reforçar ainda mais a imagem de idoneidade do juiz da eleição, assinalamos respeitosamente que faltaram algumas condecorações essenciais para a consagração da ordem do mérito criminal: Delúbio, Vaccari, Valério, Bumlai, Duque, Cerveró, Barusco e grande elenco garantidor da lisura democrática;

* Ao criar uma Comissão de Transparência para as eleições e depois declarar que as propostas advindas dessa Comissão não valem nada, o TSE emitiu um sinal confuso sobre a sua conduta no processo eleitoral. Sugerimos então uma emenda esclarecedora para o ato que criou a referida Comissão: “É considerada transparência toda e qualquer ação do TSE para mandar calarem a boca os técnicos que se meterem a dar pitaco na segurança do sistema, que não será alterado nem aqui, nem no Butão. É bem verdade que foi o TSE quem pediu a colaboração das instituições integrantes da Comissão de Transparência, mas ele fez isso porque não tava num dia legal e ninguém tem nada com isso”.

Confiamos que se as nossas sugestões forem incorporadas ao processo eleitoral, o risco de incidentes chegará a zero – e o companheiro Lula poderá conquistar até 120% dos votos sem nenhum chato negacionista pedindo recontagem.

GUILHERME FIUZA

VOCAÇÃO PARA O ENGANO

Da esquerda para a direita, os presidentes Fernando Collor de Mello, Lula, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro | Foto: Montagem Revista Oeste/Wikimedia Commons/Shutterstock

Em ano de eleição presidencial é bom estar atento às pistas falsas da política. Quase nunca o mandatário empossado se pareceu fielmente com a imagem do político que ainda não tinha se sentado na cadeira número 1 da República (que o STF atualmente sonha em transformar na cadeira número 12). Nem Bolsonaro, nem Lula, nem presidente nenhum que o Brasil já teve encarnou no Palácio sua própria figura pregressa – e boa parte do que se podia esperar dela, nas expectativas caricatas que a política costuma suscitar.

Collor, por exemplo. Era o caçador de marajás, representando uma espécie de “direita” moderna contra os vícios fisiológicos da velha política. No que assumiu já submeteu a população a um plano econômico com um nível de autoritarismo estatal que nem a “esquerda” arcaica tinha coragem de cogitar. Colocou uma espécie de czarina no comando das ações, transformando a tecnocracia atrapalhada de Zélia Cardoso de Mello numa lição histórica sobre o que acontece quando se confunde arrogância com perícia.

O confisco, ou embargo do acesso dos brasileiros às suas contas bancárias fora dos limites baixados pela czarina de Collor, foi um ato de fazer stalinista aplaudir de pé emocionado – contrariando diametralmente a embalagem do candidato “capitalista moderno”. O desastre de demagogia e prepotência desse governo aventureiro foi o maior combustível que o petismo e o lulismo receberam em toda a sua vida de farsa “contra os poderosos”.

A chegada de Itamar Franco ao Palácio do Planalto também foi a contradição de si mesma – no terreno das expectativas que a política cria. Por conta do naufrágio da aventura “direitista” moderninha (esses conceitos sempre ajudam as pistas falsas), Itamar virou uma espécie de esperança moralizadora nacional-progressista após o trauma do trem fantasma collorido – com PC Farias, Zélia, Pedro Collor, Rosane e grande elenco da modernidade arcaica feita de gel, petulância e gula.

Nesse astral de tirar a política dos porões da Casa da Dinda, Itamar entregou o comando da economia a um sujeito gente boa, simpatizante do Galo da Madrugada e da ecologia. De fato, simpatia é quase amor – o que não é pouco depois da carranca da Zélia. Mas daí a resolver o problema da hiperinflação vai uma certa distância. Para complicar um pouco mais, Collor tinha finalmente acertado com a nomeação de Marcílio Marques Moreira para a Economia – cuja gestão discreta e competente foi interrompida pelas boas intenções de Itamar. As aparências enganando de novo, dramaticamente, no sentido oposto.

Fernando Henrique foi nada menos que o quarto ministro da Fazenda de Itamar em pouco mais de seis meses. Ninguém esperava mais nada sério vindo dali – e veio o Plano Real, a coisa mais séria feita no Brasil em décadas. De novo a traição das expectativas: FHC era um intelectual perdido na política (segundo os estereótipos), um sujeito educado para explicar o fracasso com boas maneiras. O PT salivava e só esperava a hora de pegar a chave do Palácio. Esperou dez anos.

Hoje FHC representa a desonestidade intelectual na política, fazendo vista grossa para os crimes de Lula e envenenando a ação meritória de Paulo Guedes para surfar na caricatura antibolsonarista. Mas boa parte dos fundamentos que permitem avanços na política fiscal de Bolsonaro e Guedes foi plantada por FHC, numa gestão que não pode ser classificada como menos do que magistral – regendo uma equipe de excelência e inaugurando a transparência e a previsibilidade na condução macroeconômica.

As aparências enganaram com Collor (até no momento em que ele acertou), com Itamar, com FHC (antes e depois), com Bolsonaro (um nacionalista estatizante que deu sua guinada liberal) e também com Temer, que de vice da Dilma conduziu um período de saneamento da lambança petista. Assim como FHC, Temer fez o favor de também contrariar depois as boas expectativas, aderindo a conversas fiadas sobre “semipresidencialismo” e outros zumbidos golpistas.

Até Lula chegou a driblar as projeções (para o bem) ao assumir a Presidência, jogando fora todo seu discurso populista e adotando uma política macroeconômica responsável, em prosseguimento às reformas do Plano Real. Infelizmente isso durou pouco e ele preferiu voltar ao normal, fazendo a festa dos picaretas do bando. Ainda assim, contrariou as expectativas “socialistas” e preferiu o bom e velho capitalismo como local do crime.

Como se vê, nenhuma embalagem é confiável. Nem mesmo credenciais são plenamente confiáveis, tampouco seus portadores. Confiáveis são os fatos — se você não se importar de olhar para eles.

GUILHERME FIUZA

JANTANDO A DEMOCRACIA

Um encontro noturno em Brasília reuniu senadores parceiros de Lula e ministros do Supremo Tribunal Federal, incluindo o que presidirá o Tribunal Superior Eleitoral no período da eleição deste ano. Isso é uma coisa normal da democracia, ainda mais em ano de eleição. Esses abnegados servidores da nação têm direito ao seu momento de descontração, que ninguém é de ferro.

Nada a comentar, portanto, sobre esse fato corriqueiro da vida – a não ser por alguns relatos de bastidor que podem interessar aos fãs dos participantes desse simpático jantar. Segundo uma fonte, logo na chegada à casa da anfitriã do encontro, um senador campeão de inquéritos no STF teria feito um desabafo: “Não aguento mais carregar esse peso na alma. Por favor, desengavetem todas as demandas judiciais contra mim”.

Os ministros do STF teriam ouvido atentamente o apelo do parlamentar e, segundo essa fonte, um deles teria respondido de pronto que a Corte iria ajudá-lo: “Temos estado muito ocupados ajudando o governo a governar, tanto que nem temos tido tempo para lives, discursos, palestras, almoços e jantares. Mas vamos ver o que podemos fazer pelo senhor”.

Nesse momento, outro senador parça de Lula e adido cultural do consórcio de imprensa teria reagido com certa agressividade. Segundo uma fonte, o parlamentar teria dito que a ajuda do STF ao governo não estava sendo suficiente. Após bater estridentemente com uma faca de prata num copo de cristal para chamar a atenção de todos, ele teria subido na mesa e bradado com sua voz mais estridente ainda: “Não deixem o Bolsonaro sozinho! Vocês podem mais!”

O pequeno grande senador teria dito essas palavras andando em cima da mesa de um lado para o outro, numa espécie de remake brasiliense do Hair, sob aplausos emocionados. Outra fonte garante que chegou a surgir entre os presentes um coro de “mito”, em referência ao apelido que os bolsonaristas deram ao presidente.

No entusiasmo da sua performance sobre a mesa de jantar, o orador teria derrubado um copo de cristal. Ao ver os cacos espalhados pelo chão, um dos senadores teria exclamado: “Sete anos de azar”, ao que um ministro teria respondido: “Isso se fala pra quebra de espelho, imbecil”. Imediatamente todos os presentes teriam concordado que a quebra de copos de cristal em jantares democráticos deu voz aos imbecis.

Nesse clima de harmonia e tolerância, um dos ministros teria começado a chorar. Ninguém teria entendido nada. Ele teria então explicado que estava pensando no advogado do Lula. Um colega teria dito que nesse caso não havia problema, ele ligaria imediatamente para o advogado do Lula chamando-o para o jantar. O ministro emotivo teria replicado que não se tratava de saudade. Ele estaria preocupado com o fato de que Lula livre poderia deixar seu advogado sem trabalho.

Todos concordaram com o risco e, segundo uma fonte, chegou-se a cogitar durante a sobremesa a reversão da descondenação do ex-presidiário. Mas, como sempre ocorre entre pessoas sensatas, teria surgido a voz da razão: “Esperem aí. Estamos indo longe demais. Reverter uma descondenação significaria, na prática, uma condenação”. De pronto teriam soado murmúrios de concordância – “é verdade”, “faz sentido”, “não tinha pensado nisso”, etc.

E como o propósito do jantar, segundo um analista que não quis se identificar, seria o de ajudar a garantir a governabilidade de Bolsonaro, uma volta de Lula para a cadeia deixaria o presidente sem o seu principal aliado – o pesadelo da volta do ex-presidiário ao Palácio do Planalto e seu périplo soltando disparates por aí. “Vamos deixar então como está”, teria proposto uma eminente eminência, encerrando o assunto.

Já no cafezinho, um grande parlamentar teria mostrado toda a sua grandeza manifestando preocupação quanto à liberdade de expressão – especialmente na programação da emissora Jovem Pan. O foco dos receios desse parlamentar altivo seria o programa Os Pingos nos Is. Segundo uma fonte, ele teria chegado a bradar, entre um gole e outro de café: “Não toquem nos Pingos!” Todos teriam aplaudido demoradamente o brado libertário.

Como se vê, foi um encontro normal entre democratas comprometidos com a estabilidade das instituições e a lisura das eleições. Que momentos saudáveis como esse sirvam para colocar uma pedra sobre esse assunto de desconfiança do processo eleitoral brasileiro. Um jantar privado entre senadores fechados com Lula e ministros da Suprema Corte que presidem as eleições só pode ser para fazer o bem. Parem de espalhar fake news e atentar contra a democracia.

GUILHERME FIUZA

OS DONOS DA URNA

TSE

Ministros Alexandre de Moraes, Mauro Campbell e Edson Fachin, do TSE

Seguem as dez instruções básicas para a autoridade eleitoral garantir uma eleição segura este ano:

1) Criar uma Comissão de Transparência e colocar em sigilo todos os dados dessa comissão. Como todos sabem, a alma da transparência é o sigilo.

2) Se instituições integrantes dessa comissão apresentarem questionamentos relativos à segurança do processo, o comportamento recomendado à autoridade eleitoral é fingir que não ouviu. Se a sociedade estranhar esse procedimento e a coisa começar a pegar mal, a autoridade eleitoral deve redigir uma resposta de má vontade à instituição questionadora, naturalmente sem entrar em detalhes sobre as razões de ter sentado em cima da requisição.

3) Nessa resposta à instituição integrante da Comissão de Transparência, a autoridade eleitoral deve dizer, basicamente, que o sistema de escrutínio é ótimo e não precisa do palpite de ninguém. Nesse mesmo tópico, o tribunal encarregado da eleição deve assinalar que quem manda é ele, e o restante obedece sem dar alteração.

4) Caso o referido integrante da Comissão de Transparência insista na abertura dos documentos para o público, pedindo portanto a suspensão do sigilo imposto sobre eles, a autoridade eleitoral pode aceitar o pedido se o requerente estiver enchendo muito o saco e se já estiverem aparecendo hashtags nas redes sociais pedindo a divulgação dos dados. Afinal de contas, nenhuma questão apresentada sobre as vulnerabilidades do sistema foi respondida mesmo, então não tem problema nenhum mostrar para todo mundo.

5) As regras de criação dessa Comissão de Transparência devem prever que os integrantes dela têm como função contribuir para o aprimoramento do sistema de votação e atuar na fiscalização do processo. Mas quando algum integrante da comissão encaminhar proposições relativas ao aumento da segurança do sistema, o tribunal deve responder que todas as normas do processo já estão definidas, não serão modificadas e o proponente deve deixar de ser besta e se recolher à sua insignificância.

6) Se o integrante da Comissão de Transparência insistir que está prevista na medida que a criou a função de subsidiar a autoridade eleitoral para o aprimoramento do processo de votação, o tribunal deve responder que ele deixe de ser trouxa e pare de acreditar em tudo que lê por aí.

7) É importante que o tribunal eleitoral realize cerimônias de condecoração e bajulação de subcelebridades simpatizantes de um dos candidatos, para mostrar a sua isenção no processo (doa a quem doer).

8) A escolha das personalidades a serem homenageadas pela autoridade eleitoral deve ser feita exclusivamente entre as que apoiam um candidato que já tenha sido preso e condenado por corrupção.

9) Se tiver ocorrido violação do sistema eleitoral em eleição pregressa, o tribunal deve mandar apagar e sumir com todos os arquivos que contenham os dados dessa eleição. Investigar delitos passados é puro revanchismo e incitação ao ódio.

10) Com todas essas medidas exemplares de transparência, que colocam o Brasil no topo do ranking da segurança eleitoral ao lado do Butão, quem levantar dúvidas sobre as urnas nacionais será processado por fake news e condenado a ouvir (na íntegra) uma palestra de Luís Roberto Barroso sobre o Iluminismo na obra de Rosa Weber.

GUILHERME FIUZA

A PICANHA EXISTENCIAL

Corte de picanha

Não pensa que é fácil a vida do demagogo profissional – também conhecido como moralista moderninho, ou, popularmente, lacrador. Realmente ele tem se enchido de dinheiro, notoriedade e oportunidades que a sua mediocridade irremediável jamais lhe daria. Mas não fique achando que esse percurso é moleza. O contorcionismo intelectual necessário para a plena afetação de virtudes inexistentes seria capaz de dar um nó no caráter de qualquer ser humano comum. Mas ele não é comum. Seu caráter elástico e gelatinoso é à prova de nós.

No carnaval, por exemplo. O lacrador de ofício precisa conciliar as novas diretrizes para não expor tanto o corpo feminino, como sinal de empoderamento e não vulgarização – mulher não é cachorra. Ao mesmo tempo é preciso expor o corpo feminino ao máximo para afirmar a liberação dos costumes contra a caretice bolsonarista.

Você está achando que o drama do dilema demagógico (DDD) já está num nível elevado de complexidade, mas a coisa ainda é mais complexa. Afetar liberação dos costumes contra os supostos caretas tem limite – porque é preciso colocar também o sinal vermelho contra o assédio. Mas cantada no carnaval não é normal? Não. Era normal no tempo da sua avó. Agora as moças descoladas devem sair para um bloco de rua de camiseta estampada com o alerta “não” é “não” – de fato uma estética ousada para quem diz estar combatendo os caretas, os pudicos e os reacionários.

Não tente fazer isso em casa. É um contorcionismo arriscado. O coquetel de empoderamento, liberação e controle politicamente correto não é para qualquer um.

Claro que esses seres gelatinosos não trabalham com materiais como bom senso, bom gosto, respeito, liberdade sadia e distinção entre sensualidade e vulgaridade, entre outros códigos inexistentes na cartilha politicamente correta. Eles trabalham com a utopia da estupidez – um universo desértico onde a única chance de salvação está na sua maquininha de regras providenciais e éticas de bolso.

Imagine a vida do sujeito que vende hambúrguer e para surfar na onda moderninha precisa criticar o consumo de carne. O contorcionismo nesse caso chegou a uma tal exuberância que surgiu a picanha sem picanha – deixaram só o cheiro, produzido em laboratório, para manter o interesse do carnívoro dissidente. Bota consciência nisso.

Vender hambúrguer dando lições de vida, ética e civilidade é a apoteose da nova moral vigente. Lugar de ética é na cozinha. Pegue uma panela de carne sem carne, jogue um tempero de conversa para boi dormir, acrescente dois quilos de lero-lero por um mundo melhor, adicione uma colher de filosofia com cheiro de picanha e está pronto para servir o seu lanche revolucionário.

Não adianta ficarem repetindo que quem lacra não lucra. Lucra sim. E muito. Ética só vai voltar a ser ética e hambúrguer só vai voltar a ser hambúrguer no dia em que o distinto público parar de tratar essa legião de farsantes como doutrinadores e propagadores de ideologias “progressistas” – e passar a afirmar em alto e bom som a qualificação que realmente os define: hipócritas. Nenhuma demagogia resiste à exposição do seu ridículo.

GUILHERME FIUZA

NÃO OLHE AGORA

Manifestações no dia 1º de Maio pró-Lula (à esq.) e pró-Bolsonaro (à dir.)

O Primeiro de Maio mostrou que o Brasil está dividido: de um lado, o povo; do outro, as manchetes. Dito isso, é preciso admitir: o transformismo jornalístico está chegando à perfeição. Ele não depende mais da realidade.

Isso sim é autonomia. Isso sim é liberdade. Isso sim é modernidade. Um jornalismo que não precisa de fatos é insuperável. Enquanto a velha escola obrigava o noticiário a carregar aquela âncora pesada de gentes, lugares, causas e consequências, as novas tecnologias substituíram isso tudo por um sutil espasmo digital. Com essa combinação avançada de leveza e inteligência dá até para fazer as manchetes na véspera dos acontecimentos.

É ou não é uma revolução?

Assim ficamos sabendo pelo noticiário que o Brasil está dividido entre Bolsonaro e Lula. O Dia do Trabalhador foi marcado por manifestações em todo o país – as de apoio ao presidente e as de apoio ao principal candidato de oposição. Se você apoia Lula, o descondenado, e não foi à rua porque – sei lá por quê, tinha dentista, o Uber cancelou, pegou no sono vendo uma série… Enfim, se você não pôde manifestar o seu fervor cívico em favor daquele homem bom e honesto, você foi recompensado pelas manchetes.

Apesar de você – quer dizer, apesar daquele impedimento de última hora que estragou seus planos de gritar a céu aberto pela volta de Lula -, correu tudo bem. Estava lá no noticiário que, mesmo com a sua ausência, o pessoal fez bonito na exaltação ao bom ladrão – ou melhor, para não dar trabalho à milícia checadora: ex-ladrão. Que alegria percorrer as manchetes e constatar que o cidadão consciente devotado ao office boy da Odebrecht não teve os mesmos imprevistos que você – e tomou as ruas fazendo frente aos robôs verde-amarelos.

É bem verdade que alguns dos que saíram para se manifestar em apoio a Lula tiveram uma sensação de vazio. Mas se recuperaram imediatamente desse sentimento desagradável ao voltarem para casa e mergulharem no noticiário: Brasil dividido! Ufa. Às vezes os nossos olhos nos traem. É normal. As lágrimas de emoção num comício da CUT embotam a visão e podem mesmo dificultar a percepção da multidão colossal que foi às ruas no Primeiro de Maio pedir a devolução da chave do cofre ao Lula. Nada como meia dúzia de manchetes para te contar o que você não viu. Nem você, nem ninguém.

Esse negócio de ver para crer já era. O olhar humano é superestimado. Para que gastar tempo e perna se você pode obter a mesmíssima sensação de forma muito mais cômoda, segura e limpa? Não faz sentido.

O fato é que fora das telinhas luminosas a verdade se tornou algo muito relativo. Tenha cuidado com o que os seus olhos veem e os seus ouvidos ouvem. Eles são traiçoeiros. Nunca acredite neles sem consultar no seu iPhone alguma dessas agências modernas que combatem a desinformação. Não deixe seus olhos desinformarem você. Não deixe seus ouvidos te enganarem com fake news. Liberte-se dos seus sentidos naturais – eles são primitivos, como aquela multidão de verde e amarelo que tomou as ruas no Primeiro de Maio.

Se os seus olhos te disserem que foram manifestações caudalosas, pacíficas e livres de cabrestos, feche-os sumariamente, como um João Doria fechando São Paulo. Só reabra diante da manchete com o senador Rodrigo Pacheco declarando que foram atos antidemocráticos.

E se a sua boca, num descuido, gritar por liberdade, peça imediatamente ao STF uma mordaça. A sua boca é um risco para a segurança do processo eleitoral e ameaça a democracia.

GUILHERME FIUZA

A DEMOCRACIA DO BILHÃO

Conta de twitter do Bill Gates

O ricaço que quer comandar uma missão espacial resolveu iniciar os trabalhos na Terra mesmo. Nem precisou de foguete para fazer o Planeta tremer – de nervosismo, excitação, despeito, emoção e outras coisas mais. Há quem diga que o mundo começou a mudar de rota.

Elon Musk comprou o Twitter. O CEO da montadora Tesla e homem mais rico do mundo não fez um movimento discreto – tipo virar majoritário e agir gradualmente nos bastidores sem solavancos para a gestão da empresa. Musk saiu dizendo com todas as letras – no próprio Twitter  que estava ali para decretar a liberdade de expressão.

Bill Gates acompanha os movimentos de Elon Musk com uma postura dúbia. O fundador da Microsoft e atual investidor onipresente na área de saúde faz as ressalvas politicamente corretas de respeito ao megaempreendedor dos carros elétricos. Mas sempre que pode dá um jeito de depreciá-lo. Cada vez mais vai ficando claro que o mundo é muito pequeno para os dois.

Gates transformou o capitalismo em outra coisa. Com os confrades do Fórum Econômico de Davos, leva adiante a ideia de juntar seus intermináveis bilhões de dólares para dar as cartas sobre tudo – com uma bela embalagem de altruísmo, benemerência e todo um cardápio de virtudes comportamentais modernas. Para se ter uma ideia, a Organização Mundial da Saúde – onde Bill colocou muito dinheiro – irá propor um tratado com vigência especial para períodos de pandemia. Nessas situações, segundo o tratado em preparação, as diretrizes da OMS seriam sobrepostas às leis nacionais.

Entendeu a ideia? Todo esse enredo de lockdown e imunizantes emergenciais passaria de recomendação a determinação mundial, do jeito que a OMS ditar, acima da Constituição de cada país.

Como você também sabe, Bill Gates investe alto na indústria farmacêutica. E como vimos nos e-mails vazados do Dr. Anthony Fauci, assessor de saúde da Casa Branca e coordenador do enfrentamento à pandemia, houve uma articulação para controlar os conteúdos relativos à covid em circulação nas redes sociais. Bill Gates estava muito presente na correspondência eletrônica do Dr. Fauci.

Vá vendo qual é a rota de colisão entre Gates e Musk. O primeiro é agente decisivo nessa conjunção de forças “contra a desinformação” que tornou praticamente impossível, por exemplo, a discussão pública sobre tratamentos imediatos contra covid – sendo que no Brasil, para se ter uma ideia, o Conselho Federal de Medicina afastou a alegação de que seriam tratamentos conclusivamente inócuos ou perigosos e garantiu a autonomia dos médicos na matéria.

Ainda assim as autoconsagradas “agências de checagem” saíram carimbando como fake news qualquer referência a esse tipo de tratamento – e a Revista Oeste inclusive derrotou na Justiça uma dessas entidades franco-atiradoras, que tentou desclassificar uma reportagem sobre esse assunto (entre outras).

Aí aparece Elon Musk comprando uma das grandes redes sociais e declarando que, dali em diante, aquele gigantesco universo de comunicação passa a ser livre dos controles de conteúdo. É uma boa notícia? Parece ser. E ao mesmo tempo assustadora.

O que há de assustador nisso? Simples: a batalha por alguns dos direitos elementares nas sociedades civilizadas está saindo do império das leis para o império da grana.

Falamos acima sobre a conduta, digamos, exótica da OMS e sobre as possíveis origens da sua inspiração. A mesmíssima constatação pode ser feita quanto a entidades reguladoras, judiciárias e governos inteiros. Onde está a fundamentação técnica sobre toques de recolher noturnos como medida eficaz para contenção epidemiológica? Em lugar nenhum. No entanto, esse tipo de medida brutal foi visto no mundo inteiro, sem qualquer revisão das instituições que guarnecem a democracia.

Infelizmente a legalidade virou uma abstração em diversas condutas institucionais da atualidade, não só no Brasil. E quem são os novos fiéis da balança? Onde está o lastro nas sociedades para aquilo que se chamava de Direito e hoje virou Vontade? Não sabemos ao certo. O que está evidente é que a nova institucionalidade tem estado sempre em consonância com a propaganda avassaladora da turma do Bill.

Quem sabe o companheiro Elon não empresta uns parafusos do foguete dele para dar uma recauchutada na democracia mundial?

GUILHERME FIUZA

O JUIZ, A DEPUTADA E O BILIONÁRIO

Imagine esta situação surrealista, impossível de se cogitar no mundo real: uma deputada federal pergunta a um ministro da suprema corte o que eles devem fazer para evitar a reeleição do presidente da República, na votação prevista para o mesmo ano. Aí esse ministro responde que “nós” somos mais fortes do que o “inimigo”.

Nós, quem? Nós, as pessoas “do bem”, diz o ministro – universo onde estão incluídos a deputada, o próprio ministro e todos os que se colocam contra o “inimigo”. Quem é o inimigo? É o presidente da República, assim classificado pelo representante da máxima corte judiciária do país.

Está achando absurdo demais? Então vamos colocar um pouco mais de absurdo aí, porque a realidade está muito monótona e ninguém aguenta mais tanta estabilidade democrática.

Acrescentemos ao enredo inverossímil o seguinte contexto: a deputada e o ministro da suprema corte não estão no Brasil. Estão num evento nos Estados Unidos da América. Esse evento é bancado pelo mesmo bilionário que banca a carreira política da jovem deputada em questão. E nesse mesmo evento, o próprio bilionário declara que no ano seguinte o Brasil terá um novo presidente – ou seja, afirma categoricamente que o “inimigo”, conforme classificado pelo ministro da suprema corte, perderá a eleição.

Interessante. O bilionário aparentemente tem a resposta para a pergunta da sua afilhada no Congresso. Como fazer para tirar o presidente do palácio? O padrinho sabe – como mostra a assertividade da sua “previsão”: no ano seguinte o presidente não estará mais lá. Será outro.

E o ministro? O ministro tinha acabado de deixar a presidência do tribunal eleitoral, que é dirigido por integrantes da corte suprema, da qual o ministro é membro. Ou seja: um dos árbitros da eleição brasileira afirma num evento nos EUA que um dos principais candidatos na referida eleição é “o inimigo”. E o bilionário que é o seu anfitrião no evento nos EUA diz que o “inimigo” ficará pelo caminho.

Se você teve a sensação, lendo esse enredo absurdo, de que a democracia brasileira estava sendo operada nos EUA, você é um paranoico. Está tudo bem com a democracia brasileira. A suprema corte nacional só tem ministros sóbrios que jamais pronunciariam uma vírgula – mesmo que vírgula fosse pronunciável – com teor de interferência política. Os supremos togados sabem que a vontade popular é a base da democracia – e que qualquer conduta capaz de trazer dúvidas sobre o respeito absoluto a essa vontade poderia jogar tudo pelos ares. Inclusive as togas.

Sobre bilionários com assanhamento suficiente para tentar tomar o papel dos governos e mandar em todo mundo, isso não passa de ficção científica. Um bilionário já tem tudo que quer para si e para seus tataranetos. Por que tentaria tomar para si o poder público? Por que tentaria usar seu mar de dinheiro e seu oceano de influência para encantar almas legislativas e judiciárias em favor dos seus interesses particulares?

Isso não existe. Ninguém é tão guloso assim. Ninguém é tão megalômano assim. Ninguém é tão cínico assim. Ninguém arriscaria tanto o seu penteado se metendo numa enrascada desse tamanho.

Por que enrascada? Porque do lado de fora dos auditórios de Boston e dos gabinetes de Brasília tem uma quantidade grande, muito grande mesmo de pessoas que ficariam bastante aborrecidas se soubessem que meia dúzia de malandros perfumados está tramando para tirar-lhes o que é seu.

GUILHERME FIUZA

A ÚLTIMA DO BILL

A última do Bill

Bill Gates disse que por causa das mudanças climáticas todos terão de consumir carne sintética. Se o Bill disse é verdade. Um sujeito que pregou a inoculação da humanidade com substâncias inconclusas – e triunfou – não está de brincadeira. O Bill não vai sossegar enquanto não tomar conta de tudo que corre nas suas veias – por inoculação ou ingestão.

Então fique atento ao Bill. É ele quem vai te dizer o que você pode fazer, onde você pode andar, o que você não pode deixar de tomar. Ele e os amigos bilionários dele, essa gente sensível que Mamãe Farma pariu, ou que pariu Mamãe Farma – nunca se sabe quem veio primeiro: a galinha dos ovos de ouro ou os ovos de ouro da galinha.

Eles são do bem. Têm muitas ONGs e fundações – com dinheiro que não acaba mais para fazer bem a médicos, cientistas, juízes, deputados, jornalistas, checadores, governadores, prefeitos, autoridades regulatórias, associações de classe, sites, blogs, canais, celebridades, palestrantes, eventos, festivais e tudo na face da Terra que possa ser regado e cultivado com a generosidade do Bill e seus parceiros de bondade.

Fique em casa porque você está desequilibrando o clima do planeta. Claro que você vai ficar. Afinal você é uma pessoa ética, consciente e empática, que pensa na sua coletividade e na saúde do seu ambiente. No seu cativeiro existencial, que é para o bem de todos e te encherá de orgulho, você vai comer as coisas que o Bill te vender. Você vai comprá-las de peito estufado pelo iFood e vai postar o seu ato cívico-gastronômico no Instagram, o que vai te tornar uma pessoa melhor perante as outras vaquinhas conscientes desse presépio feliz e bem provido pelos Big-Big-Farma-Tech-Peace&Love.

Que bom que terminou tudo bem. Todas as dúvidas desapareceram. Você sempre quis alguém para te explicar o sentido da vida e te dizer que direção tomar no seu caminho errático sobre a Terra. Está aí. Tudo resolvido. Final feliz. É só prestar atenção na televisão, que antigamente era um lugar confuso com um monte de notícia misturada e hoje é um lugar organizadinho, que traz a mensagem límpida da turma do Bill para você – e aí ninguém fica em dúvida, porque se vem tudo igualzinho em vários canais é porque as certezas venceram.

Por que não está todo mundo falando sobre a multidão de casos de pessoas que tomaram a picadinha mágica e caíram duras? Por que não transborda da tela da televisão a perplexidade com a falta de investigação dessa multidão de casos – que nem é sutil, porque envolve também atletas profissionais que já colapsaram às centenas diante das câmeras, num fenômeno gritante e não explicado?

Por que tanta gente continua aceitando como um rebanho bovino um “passaporte” vacinal como condição para a vida em sociedade, tendo esse “passaporte” já sido suspenso em diversos países? Estaríamos agora numa pandemia regional?

Por que tanta gente continua aceitando como um rebanho bovino a imposição de substâncias que não impedem nem o contágio, nem formas graves da doença? Por que, apesar do amplo registro de internações e óbitos entre pessoas totalmente vacinadas, afirmar que as vacinas de covid não impedem formas graves da doença continua sendo pecado e motivo de perseguição?

É simples: porque quem fala a verdade é o Bill. Porque o que sai da tela da TV (com raras exceções) e nunca é censurado na internet é a mensagem da turma do Bill. E a turma do Bill é genial, porque a partir de um determinado nível de generosidade todo mundo vira gênio absoluto.

Carne sintética é uma boa. Não fará mal nenhum ao seu espírito de plástico.

GUILHERME FIUZA

FAKE NEWS — MODO DE USAR

De repente apareceu uma urgência na Câmara dos Deputados para votar o projeto mais canalha da história da democracia brasileira – a tal Lei das Fake News, um eufemismo para Lei da Mordaça. Quem quer censura tem pressa. A urgência foi derrubada – ou seja, a canalhice do lobby que tenta entupir a goela dos brasileiros com essa excrescência ainda não foi suficiente.

Mas nós sabemos que os canalhas insistirão no seu plano, até porque eleição livre virou aberração para quem tem tantos instrumentos de castração à mão. Já estão em uso, mas legalizado é mais gostoso (e mais seguro). Como ficará a vida se a Lei das Fake News obtiver canalhas suficientes para aprová-la?

Muito simples: acabarão as mentiras e só restarão as verdades. A seguir, uma lista de verdades que você poderá pronunciar sem virar um criminoso:

1 – Lula é lindão e nunca roubou ninguém. Se roubou, foi sem querer;

2 – O sistema eleitoral brasileiro é o mais seguro do mundo. A urna é tão evoluída que chega a ter vontade própria;

3 – Na democracia a regra é clara: todo poder emana da urna e da vontade de quem a programou;

4 – A urna eletrônica é um ser humano como outro qualquer. Se na hora do voto você apertar a tecla e ela responder tocando o jingle do Lula, ouça até o fim (em respeito à liberdade de expressão);

5 – A eleição que consagrou o fenomenal Joe Biden foi limpinha e você não tem nada com isso;

6 – A invasão ao sistema eleitoral brasileiro em 2018, constatada pela Polícia Federal, não aconteceu. Aquilo foi uma visita guiada a um sistema inviolável – feita com muita discrição para não despertar as más intenções do gabinete do ódio;

7 – STF (Suprema Ternura Fraternal) é a matriz nacional do gabinete do amor. O inquérito do fim do mundo não é o fim do mundo;

8 – Negacionista é quem não obedece às ordens para se trancar em casa e calar a boca enquanto o gabinete do amor se esbalda nas muvucas vip (fique atento – vem aí o lockdown do clima);

9 – Ciência é lockdown com ônibus lotados para garantir a faxina da quarentena vip (higiene é tudo);

10 – Vacina boa é vacina no braço. Não há tempo a perder com estudos que levam anos – a vida é agora;

11 – Quem sabe a hora da próxima dose é o fabricante. A medicina se tornou muito lenta para acompanhar a atualização dos softwares de imunização;

12 – Mal súbito é consequência do aquecimento global;

13 – Tudo que Bill Gates diz é verdade (Obs.: por isso ele é a maior alegria das milícias checadoras, que podem descansar um pouco do seu árduo trabalho quando o grande viralizador fala. Viralizador no bom sentido);

14 – O que Renan Calheiros diz sobre ciência e ética é verdade. Também não precisa checar. Se Omar Aziz e Randolfe Rodrigues disserem alguma coisa diferente, não se preocupe: é mais verdade ainda;

15 – Lula mandar seus sabujos cercarem as residências de deputados federais para intimidá-los é ato democrático;

16 – Milhões de pessoas pacificamente nas ruas do país vestindo verde e amarelo por liberdade é ato antidemocrático;

17 – Ministro do STF mandar prorrogar inquéritos sem indícios de delito encontrados pelos investigadores é normal, dependendo da vítima;

18 – Em 2030 você não vai ter nada e vai ser feliz;

19 – Fake news é tudo que você disser e eu não quiser escutar;

20 – Cala a boca já morreu, mas passa bem.