GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

O PATRONO DA EDUCAÇÃO AO GOSTO DE BOLSONAROS

Há diferenças entre militante de esquerda e pensador de esquerda.

Um “militante de esquerda” é aquele que luta, ativamente, pelas causas da esquerda.

O objetivo do militante é convencer, obter adesão, fazer com que a esquerda (qualquer esquerda) alcance o poder e se torne a força dominante da sociedade para alcançar os objetivos que essa esquerda pretende realizar.

O pensador de esquerda não é, necessariamente, um militante: ele procura compreender quais são as forças ideológicas em ação na sociedade para estabelecerem a forma de atuação política, econômica, social e, até, filosófica, por assim dizer, com vistas a obter os resultados que essas forças consideram que devem ser adequados para administrar o Estado (país ou nação).

A partir daí, ele manifesta seu pensamento pelos meios possíveis e disponíveis, escrevendo livros, artigos em publicações, dando entrevistas, ministrando aulas, estabelecendo teses, criando teorias, com o objetivo de ampliar o conhecimento humano.

Não estamos dando um valor positivo ou negativo ao pensador, porque suas ideias podem ser úteis, adequadas e convenientes, ou não.

Por exemplo, Paulo Freire e Olavo de Carvalho.

Ambos podem, eventualmente, em campos radicalmente opostos, terem produzido ideias, o primeiro à esquerda, o segundo à direita, de alguma utilidade para o respectivo reforço ideológico.

O militante é aquele que “fechou” o seu pensamento, suas convicções estão estabelecidas e ele sai em campo para a luta de obter adesão.

Embora ambos, pensador e militante, acabem tendo pontos em comum, quando sua filiação a determinadas ideias coincidem, o pensador é o criador e o militante o operário.

Para o pensador Olavo de Carvalho, conservadorismo significa fidelidade, constância, firmeza e “não é coisa para homens de geleia”.

É esse um exemplo de pensamento a respeito da política de direita, que dá sustentação ao militante para que vá em busca de outras pessoas que não sejam de geleia e que, assim, se encantem com o conservadorismo.

Para o pensador Paulo Freire, desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher, não estaremos ajudando nossos filhos a serem sérios, justos e amorosos da vida e dos outros.

É esse um típico pensamento de esquerda, embora não a traduza nem resuma, pois põe em evidência os poderosos em relação aos mais fracos e preocupa-se com aqueles que a sociedade discrimina, como índios, negros e mulheres, cujo militante sairá às ruas para granjear a simpatia dos que sejam de geleia.

Falamos, então, do pensador de esquerda que foi Paulo Freire.

Muitos têm a falsa visão de que a pedagogia de Paulo Freire se resume ao método de alfabetização que, unindo o ensino da leitura às circunstâncias da vida do alfabetizando, leva o indivíduo a pensar sobre a (sua) realidade, de tal modo que ao invés dos então tradicionais métodos que levavam o indivíduo a, sim, aprender a ler, mas desvinculada essa leitura de questões sociais, seu método fazia e faz uso de palavras ligadas ao meio social do educando – mas não só isso.

A pedagogia de Paulo Freire vai muito, muito além da alfabetização, sempre preocupada com a conscientização dos estudantes e dos professores, com a dignidade humana, com a ética e a moral – com os valores humanistas, enfim.

Seu esquerdismo reside, precisamente, no fato de levar o indivíduo a pensar, a pensar sobre si, sua situação no mundo, sobre a justiça, sobre a opressão, sobre as transformações individuais e sociais necessárias a sua emancipação.

Um dos perigos da aplicação da Pedagogia do Oprimido reside no fato de que ela tem caráter político, libertador, conscientizador – o que estabelece tal diferencial da metodologia de Paulo Freire com outros métodos educacionais.

“Paulo Freire, em sua obra, critica as formas de ensino tradicionais. Defende uma pedagogia fundada na ética, no respeito, na dignidade e na autonomia do educando. Questiona a função de educador autoritário e conservador, que não permite a participação dos educandos, suas curiosidades, insubmissões, e as suas vivências adquiridas no decorrer da vida e do seu meio social. Coloca vários argumentos em prol de um ensino mais democrático entre educadores e educandos, tendo em vista que somos seres inacabados, em constante aprendizado. Todo indivíduo seja educadores ou educandos devem estar abertos a curiosidade, ao aprendizado durante seu percurso de vida. Nesse sentido destaca a importância dos educadores e suas práticas na vida dos alunos”.

Para ele, “Ensinar não é transferir conhecimento”, e Marcelo Ricardo Camara Nalin analisa os ensinamentos de Freire para concluir que ele lecionava que é preciso respeitar a autonomia e a identidade do educando e que para passar conhecimento o educador deve estar envolvido com ele, para envolver os educandos, e deve estimular os alunos a desenvolverem seus pensamentos, argumentando que dessa forma é possível o desenvolvimento da crítica e do “pensar certo”.

Não pretendo, aqui e agora, desenvolver monografia a respeito do pensamento, da obra e da vida de Paulo Freire, apenas destacar, em face de inúmeras críticas aparentemente injustas quanto ao seu trabalho, que convém estudá-lo com mais profundidade e situá-lo no seu momento histórico, para avaliar a sua importância – que o nomeou Patrono da Educação Brasileira.

Certo que esse título foi concedido em pleno governo de esquerda, em 2012, quando Dilma Roussef era presidente da república, de modo que hoje, outubro de 2020, em pleno governo de direita de Jair Messias Bolsonaro, não se vê como improvável que o título lhe seja cassado e uma outra lei torne Olavo de Carvalho o novo detentor do título de Patrono da Educação Brasileira.

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A TERCEIRA CULTURA POPULAR EM PEQUENAS DOSES – EPÍLOGO

Nas duas colunas anteriores, fizemos um apanhado da primeira parte da exposição que executamos, em 10 de setembro de 2020, no Canal de TV Besta Fubana, sobre a cultura popular brasileira, que é rica em música, pintura, prosa e verso, mas ficou para hoje o final, o miolo, o cerne, o mérito, a coisa em si mesma, que era o ponto central da palestra sobre letreiros de para-choques de caminhão, ocasião em que os institutos de pesquisa e os sistemas hospitalares registraram milhares e milhares de acessos por quem assistiu.

Como eu não me sentia apto a falar sobre o assunto, chupei tudo do Aristeu Bezerra, nosso colega do Jornal da Besta Fubana, que tem uma coluna, a Cultura Popular, que apresenta relâmpagos, ou flashes, da sabedoria do povo.

Uma coisa muito interessante é o resumo das coisas da vida que os motoristas de caminhão expressam e espalham no mundo pelas estradas.

Vejamos:

A) FILOSOFIA FILOSÓFICA:

1) “Até as flores dependem da sorte. Umas enfeitam a vida, outras, a morte.”

(TU ESTÁS ATRÁS DO CAMINHÃO, LÊ UMA FRASE DESSAS E FICA PENSANDO, PENSANDO, E VAIS PENSAR A VIAGEM TODA, SEM SABER O QUE O CARA QUIS DIZER hahaha).

2) “A vida é uma estrada livre para quem quiser conhecer e só depende de você caminhar, parar ou correr.”

(MAS A VERDADE É QUE SE PARA O BICHO PEGA, SE CORRE O BICHO COME, sai dessa, tu decides: queres ser pego ou ser comido?)

3) “Nunca troque o que mais quer na vida, por o que mais quer no momento.”

(TEM DE TROCAR? Vou querer uma bem gelada agora e o que mais quero na vida depois, pode ser?)

4) “A felicidade não é um destino onde chegamos, mas sim, uma maneira de viajar.”

(MAS… tem gente que pega todo dia o ônibus lotado! E chega ao destino todo suado!

5) “O primeiro a se desculpar é o mais corajoso. O primeiro a perdoar é o mais forte. O primeiro a esquecer é o mais feliz.”

(E O PRIMEIRO A ENFRENTAR É O PRIMEIRO A APANHAR).

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A SEGUNDA CULTURA POPULAR EM PEQUENAS DOSES

Pois, então, continuando a apresentação da quinta-feira 10 de setembro de 2020 aquela, em cuja a qual nos reunimos por obra e graça de Maurício Assuero para falar de tudo e mais um pouco pelo milagre da Internet, eu deveria estar mostrando as frases de para-choques de caminhão, mas, para aumentar o suspense, fui levado, pelo distinto público, a comentar alguma coisa da França.

Aí, dei um nó na conversa, para apresentar à plateia o que chamamos de Cultura Popular do Golpismo – muito atuante em Paris.

Para quem desconhecia (e para quem conhecia também), discorremos sobre alguns golpes que os estelionatários aplicam sem parar nos turistas que visitam a Cidade Luz, e posso garantir que eles caem como moscas no mel, no mais das vezes levados pela vontade de tirar vantagem em tudo:

1) Cultura do furto no vagão apertado no metrô: não envolve muita criatividade, só habilidade. Espreme daqui, espreme dali, a mocinha bonita colada em ti, adeus euros.

2) Cultura da lista de assinaturas de apoio aos mudos: elas, falsas mudas, te pedem, por sinais, para assinar, só assinar, para apoiar a sua causa. Logo em seguida ela vai pedir que escrevas um número ao lado da assinatura, para identificação. Aí ferrou, ela (raramente é “ele”) vai te cobrar o valor correspondente àquele número e aí rola uma pressão para que dês o dinheiro que “te comprometestes” a doar. Essas falsas “deficientes auditivas” também se unem em grupos nas redondezas do Louvre, cercam algum turista, o põem na roda, o espremem e o limpam.

3) Cultura da jóia perdida: Uma pessoa “acha” (entre aspas) uma jóia na tua frente e pergunta se é tua. Como o turista pode querer tirar vantagem, diz que é e a pega. Aí o golpista (muitas vezes mulheres também), reclama uma gratificação pelo “achado”. A jóia é vidro. Qualquer valor que dês é preju para ti.

4) Cultura do golpe do casaco: um cara, bem apessoado, encosta o belo carro ao teu lado (você já é o alvo, indicado pelos comparsas) e puxa conversa, em Português com acento estrangeiro, ei, vocês são brasileiros? Adoro o Brasil, vivi lá, etc. E oferece um belo casaco, embalado em plástico transparente, diz que veio da Itália, fizeram um desfile de modas, sobraram aqueles dois, está dando para ti e tua acompanhante. Tu perguntas, mas é dado? Ele diz que sim, só precisaria de uma pequena colaboração para a gasolina de volta à Itália… Ferrou! Tu aceitas, deixas duzentos euros na mão do safado e quando vais ver a coisa, os casacos são compráveis por no máximo vinte euros em uma das feiras das pulgas.

5) Cultura do tíquete usado do metrô: o cara, de terno escuro, parecendo trabalhar no metrô, te vê enrolado e te oferece ajuda na máquina de compra, que é bem diferente do que em geral conhecemos. Ele vai quebrar o teu galho comprando os tíquetes de que necessitas, para uma semana, quinze dias ou um mês, com o cartão de crédito dele mesmo! Tu só terás que reembolsá-lo em dinheiro. Aí, te entrega os bilhetes, tu pagas a ele… e…os bilhetes que ele te entregou são usados, não foram tirados da máquina, só os de cima que vais usar para passar na roleta. Depois, nas próximas viagens, vais dar com os burros nágua.

6) Cultura da pulseirinha de barbante: na subida de Montmartre eles te pegam pelo braço e começam a fazer uma amarração de uma pulseira de cordão, um tipo de barbante escuro, no teu braço. É grátis, igual as fitas do Senhor do Bonfim nas ruas de Salvador. Ele vai te cobrar ao final um preço que não vais gostar, queres tirar a pulseira e devolver, hehehe, ela não sai, o nó não se desfaz, ou pagas ou vais ter de enfrentar o malandro em uma baita discussão. Portanto, não deixes que o golpe seja iniciado.

7) Golpe do “do you speak English?”: Confesso que não sei como funciona. Estava eu encostado em um poste, que não era do PT, esperando minha mulher que tinha entrado em uma loja no Champs Elysées, e (em duas ou três ocasiões diferentes) duas senhoritas bonitinhas me abordaram, perguntando: “Do you speak English?”. Eu respondo em Francês, já pressentindo que ali tem coisa: “Pardon?”. Então elas vão embora, elas só querem estrangeiros. Não sei dizer se é oferta de sexo. Da próxima vez posso arriscar responder “yes” só para ver do que se trata.

Essa é só uma amostra de alguns golpes que fazem parte da cultura popular dos golpistas parisienses. Estando lá, fique esperto. E não estando, também, porque tem o Golpe do Aluguel por Temporada, que é bem mais dispendioso: Vais à Europa, procuras anúncios, no, digamos, Particulier à Particulier, tem uma oferta ótima em Paris, studio mobiliado, bem localizado, bom preço, algo como mil eurois, fazes o contato, alugas por um mês, pagas adiantado, pegas o voo e quando chegas é como aquela música da casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Vais ter de ir para um hotel, posso te indicar um bem bonzinho, no 14ème, perto da rue Daguerre, a 85 Euros a diária do casal com café da manhã.

Por hoje ficamos por aqui. Brevemente teremos a terceira parte desse relato, que é o miolo da palestra aquela, sobre frases de para-choques de caminhão, cuja a qual foi assistida por mais de oitocentas pessoas, segundo a contagem oficial que acaba de ser noticiada, e que esperamos possa ser superada em audiência na quinta-feira próxima, dia 24 de setembro de 2020 (que pode ser amanhã, hoje ou ontem, depende), quando Roque deitará falação sobre mato.

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CULTURA POPULAR EM PEQUENAS DOSES

Como já é do conhecimento de Trump, Macron, Lula, Elizabeth e os dois Boris, o Jornal da Besta Fubana vem realizando às quintas-feiras, 7h30m, uma reunião escalafo-bértica pela Internet – e para participar basta acessar pelo endereço que no mesmo dia é publicado.

Pois bom, no dia 10 deste glorioso setembro de 2020 quem apresentou a primeira parte dos, por assim dizer, trabalhos, foi nada mais, nada menos, nem pouco, nem muito, talvez a metade, fui eu.

Minha função era falar sobre Cultura Popular. Vixe! Isso tudo?… bem, não! Seria a cultura popular brasileira estampada nos pára-choques de caminhão, aquelas frases engraçadas, românticas, educativas, filosóficas, que os caminhoneiros nos presenteiam pelas estradas.

E, de quebra, falaria, e falei, a respeito daquelas frases e versos que os malucos escrevem nas portas e paredes das privadas públicas nojentas, em geral de muito humor, picardia e não-ardia.

Porém, quando me escalaram para falar, pelo fato de eu ter morado algumas vezes nas oropa, principalmente em Paris, sugeriram que eu dissesse alguma coisa sobre a França, de modo que adaptei bem fajutamente o material “Cultura Popular” para forçar a barra e falar sobre a cultura popular dos pequenos golpes parisienses, tipo estelionato mesmo.

Tivemos, então, uma audiência seleta de 300 pessoas pela nossa contagem e 200 pela avaliação da Polícia Militar.

Ainda assim, certamente por motivos de força-maior, alguns não compareceram à apresentação e debates.

Por isso, vou-me já apressando em apresentar em mais ou menos duas partes a súmula do que lá aconteceu.

Antes de começar, eu quero falar de duas notícias recentes, que não sei se todos acompanharam.

A primeira, foi a seguinte manchete: CRIANÇA NA SUÉCIA NASCE FALANDO!

A criança já saiu do útero, apontou a cabecinha e falou. É claro, ela falou em sueco, a gente não pode compreender. Ela disse o seguinte – vou tentar transcrever para vocês:

”Jag skulle vilja veta om du redan har fått reda på varför Michele Bolsonaro fick 89 000 reais från Queiroz”.

Se alguém conseguir a tradução, manda para a gente! Hahahahaha

A segunda notícia foi a seguinte:

Todos devem ter lido, um dos prêmios da Mega-Sena, de 47 milhões de reais, saiu no sábado 4 de setembro para Campinas.

Vocês sabem como a Caixa Econômica Federal noticiou a premiação?

Assim: A Caixa Econômica Federal informa que tem mais um viado rico no mundo! Hahahahaha, tô lascado com o politicamente correto.

Pois é, foi indo, foi indo e ficou grande o texto até aqui, né? Vamos então dar uma paradinha e fazer em mais ou menos três partes, em vez de mais ou menos duas.

Próxima sessão: Cultura Popular dos Golpes de Paris.

Enquanto isso, quinta-feira que vem, dia 24, tem outro maluco falando sobre uma outra doideira aí, será o quinto fuxico, não deixem de perder!

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PARA-CHOQUES DE CAMINHÕES E OUTROS BICHOS

Ontem, talvez, se hoje for ainda o dia 11 de setembro de 2020 e, por acaso, for sexta-feira, caímos mais uma vez na gandaia que é o rêdêvu internáutico do Jornal da Besta Fubana, tal seja a vídeo-conferência que um tal de Maurício Assuero vem programando e que já foi ao ar pela terceira vez.

Ontem, caso ontem tenha sido ontem, como eu me indagava, a apresentação do assunto ficou por minha conta e falamos sobre Cultura Popular, se todos concordarem que letreiros em para-choques de caminhões, frases e versos escritos em portas e paredes de privadas públicas, assim como estelionatos praticados pelos franceses na França, constituem um ramo dessa cultura, junto aos versos de Pinto do Monteiro, os bonequinhos, digo, as pequenas esculturas de Mestre Vitalino, as pinturas primitivas de Militão dos Santos.

Tá certo, a diferença básica, penso, é que as frases e versos nos caminhões e nos reservados sanitários, assim como os grafites, que eu ainda não mencionara, são, em geral, obras anônimas, ressalva feita aos grafites, que muitos grafiteiros são hoje mundialmente renomados.

Outra coisa é que uma parte desse desvio cultural por vezes não pode ser divulgado sem escandalizar.

Mas… são churumelas: não há dúvida de que se trata de produções culturais e populares, de profundidade, graça, humor, romantismo e até com sentido educacional – me lembrei quanto a este último caso daquela frase de para-choque que dizia aos apressadinhos na estrada que “É melhor chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro”.

O fato é que não podemos deixar de nos impressionar com a sagacidade, perspicácia, malícia, criatividade desse povo simples que produz tantas pérolas admiráveis para nosso encanto e deleite, enriquecendo a existência de algo mais: estás na estrada, vez por outra lá vem um caminhão com suas lições de vida, sua alegria, seu bom humor.

E quando paras para ir ao banheiro, talvez te demores um pouco mais lendo que neste lugar solitário toda virtude se acaba, todo covarde se mija e todo valente se caga; e, observando as paredes com riscos marrons feitos à mão livre, verás, junto, que dedo não é tinta e merda não é pincel, se quiser limpar a bunda é favor trazer papel.

Se toda essa arte se perde nas curvas das rodovias é uma pena, mas talvez não se perca, pois segundo Maurício Assuero revelou naquela reunião, algum pirado já andou escrevendo trabalho acadêmico sobre essas coisas. De repente sai um livro aí.

Concluindo, declaro que o nosso encontro foi acessível às mulheres, sem poucas baixarias e até politicamente correto, porque, a não ser por uma provocação do Rodrigo Buenaventura de Léon, que trouxe um boneco inflável de um dos maiores estadistas brasileiros, cuíca do mundo, não se falou de tal ramo de safadezas – a política.

Bem, houve um deslize inicial do orador que vos fala, quando trouxe a notícia da criança que já nasceu falando, lá na Suécia.

Enfim, escrevo para dizer, aos cerca de duzentos ou trezentos companheiros que compareceram à efeméride, que foi um prazer disgramado estar com eles naquela horinha deitando falação sobre coisas interessantes e peculiares da nossa Pátria amada, com um ligeiro desvio, a pedidos, para a Europa, berço, como vimos, da sacanagem.

Grande abraço e gratíssimo pela audiência generosa.

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DIÊ

Manoel Araújo Pantaleão dos Guimarães Horta, conhecido como Manézim Araújo, vivia entre Aimorés, Mutum, Manhuaçu, Manhumirim, Tombos, Caratinga, Carangola, Muriaé e outras cidades do interior de Minas, apresentando-se em festas de casamento e de aniversário, boates das zonas boêmias, pequenos teatros e até circos, recitando poemas de autores ilustres para platéias emocionadas, que levava dos risos às lágrimas por sua oratória declamativa ora alegre, ora dramática.

Um dia, em uma dessas cidades, encerrou sua apresentação recitando com êxtase, na casa do prefeito, que comemorava seus cinqüenta anos de casamento, o poema Deus, de Casimiro de Abreu, homenageando o feliz e religioso casal:

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia,
E, erguendo o dorso altivo, sacudia,
A branca espuma para o céu sereno.

E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver de maior do que o oceano
Ou que seja mais forte do que o vento?”

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus
E respondeu: – Um ser que nós não vemos,
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus.

Mal Manézim terminou, sob lágrimas e aplausos, o dono da casa veio a ele e lhe pediu: um amigo, muito culto, que vivia na França, havia vertido essa poesia para o Francês, e gostaria de apresentá-la para o os convidados.

Manézim ficou emocionado, sim, sim, gostaria muito de ver isso, nunca ouvira nada nessa língua e queria aproveitar a bela oportunidade.

Pois, o sujeito apresentou sua versão francesa e Manézim ouviu extasiado. E observou como a platéia adorou ouvir um poema em Francês, mesmo sem entender nada do que estava sendo dito.

Manézim compreendeu que era a musicalidade da língua e a intensidade declamatória do recitador que produziam tal resultado.

Excitado, tão logo findou a recitação, correu à procura de papel e lápis e foi escrever o que ouvira.

Ele não sabia nada de Francês, sequer terminara o primário, mas tinha ouvido e memória prodigiosos.

Assim, ele juntou sons do Francês com as palavras originais do poema em Português, e a partir dali “Dieu” passou a ser “Diê” e tornou-se o carro-chefe de suas apresentações poéticas.

E recitava:

Diê

Je malambre, je malambre, êté peti
Ê blanqué sur la plage, la mer bramé
Ê ergam le dorse altive sacudé
La blanche esquime pur le ciel serréin

Ê je di a ma mérre dans ce moman
Que dure oquétre, que furrêur insan
Que peute avoir maior que locean
U que çoate plu forte que le van?

Ma mérre a surrir olhêu pru cél ê rêpondê
É an cér que nói non vemo
É plu gran qui u marr qui nói tememo
Plu forte queo tufon, mon fiss, é Diê!

Todos acompanhavam de olhos arregalados a beleza e a musicalidade do idioma de Victor Hugo e aplaudiam por minutos seguidos, por vezes tendo Manézim que repetir o poema.

E foi assim mesmo que ele escreveu o que achou ter compreendido: Uma das fãs de Manézim, Rosinha, ia aos céus quando o via iluminado no palco, falando tanta beleza. E foi ela mesma, Rosinha, que trabalhava como arrumadeira no Hotel da Ponte, de Lajinha, que encontrou Diê em um papel na mesinha de cabeceira do quarto de Manézim e copiou, encantada.

Felizmente, não apareceu por ali por aquelas bandas alguém que soubesse mais que dizer bonjour, para macular o esplendoroso sucesso de Manézim Araújo recitando Diê.

Quem quiser vê-lo, pode se preparar. Suas novas apresentações serão mês que vem, em Reduto, Chalé, Matipó e Ipanema.

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A REVOLUÇÃO POCHETISTA, FINAL, UFA!

Eu pretendia não continuar contando a saga de Dr. Pochete cujos seus pochetetes se lançaram pelas veredas de Minas Gerais nas alegres figuras de nossos heróis Quiche e Quichato, que já estavam a ponto de formar uma dupla sertaneja universitária quando, graças a Deus, a bobina acabou.

Porém, Carlos, Gonzaga, Maurício, Adônis, Nikolai, Alfredo, Beni, Marcos André, o próprio Pança e dezenas de outros leitores escreveram nos comentários que precisavam saber o desenrolar da trama para conseguirem dormir em paz.

Ainda assim eu resistiria, mas, em verdadeiro randevú pela Internet, convocado por Maurício Assuero, em cujo o qual o peremptório e fulminante Luiz Berto daria uma palestra orientando os fubânicos participantes sobre a arte de ser corno, uma grita geral sobrepôs-se implorando-me que revelasse a resposta dada por Don Quichato De La Canja De Galináceo a Quiche Pançudo, que desejava saber o que ele faria se sua filha se apaixonasse por Gilberto Gil (acho que era essa a pergunta, a gravação ficou meio inaudível).

– Não, não é nada disso! Gritou Quiche de Pança. Eu estou perguntando o que você faria se seu filho se apaixonasse por uma negra, porque se fosse comigo eu o poria para fora de casa!

Foi quando Don Quichato Del Caldo de Gallina deu a resposta surpreendente:

– Meu filho é casado com uma negra! E disso tenho imenso orgulho, assim como de meu neto ser preto. Também tenho amigos pretos como carvão, como é o caso do próprio Luiz Berto, que permite que se publique qualquer porcaria no jornal que ele edita, o tal de Jornal da Besta Fubana.

– Cubana?!

– Não, pô! Não é cu! É Fu! Fu-ba-na!

A partir daí quase nada mais se sabe desses dois. Um foi para o cercadinho de Brasília: Trata-se de Quiche. Veste-se de verde e amarelo e quando não está ali parte para a Praça dos Três Poderes para desacatar agentes da saúde impatrióticos e baderneiros. Fez de sua vida uma luta pelas liberdades individuais, pelo direito de ir, vir e voltar dando meia volta volver e pela defesa do sonho de que todos podemos ser ricos um dia, bastando para isso que trabalhemos duro, tenhamos fé e matemos os impostos. Ele nunca usa máscara. Quando ninguém está vendo, joga pedras nos telhados de vidro do Supremo.

O outro, perdeu-se no desregramento. Vive nas casas de tolerância, enchendo a cara, se envolvendo com mulheres, dizem que fuma maconha e é certo que nas conversas de botequim defende a transformação do Brasil em uma nova Venezuela. Não ouso dizer seu nome. Sua única virtude e não tirar a máscara nem para mijar.

É o fim.

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A REVOLUÇÃO POCHETISTA III OU IV, SEI LÁ, POR SUPUESTO

Certamente, a Revolução Pochetista continua, o que termina é a novela, ou melhor dizendo, a verdadeira saga de um cavaleiro escudeiro e seu fiel andante, pois que a troca de papéis se mostrou evidente desde os primórdios da emocionante aventura.

Estamos em Juiz de Fora, rua Halfed, nossos heróis afastam a máscara para chupar uma cerva, dado o calor de trinta graus à sombra e água morna, e Don Quichato resolve pedir canudinho que não seja de plástico, revelando consciência ambiental mas ignorando que beber de canudinho dá porre e é coisa de mulher, segundo Quiche Pança

Durante a caminhada, as divergências entre Quiche Pança, Don Quichato Del Caldo De Gallina (creio que esse era o seu nome completo, mas a memória me falha) e sua cavalgadura tornaram-se acentuadas e evidentes.

Quiche Pança mostrou-se um cidadão da banda decente deste País, um direitista extremado, um conservador à toda prova, um anticomunista ferrenho, um bolsonarista apaixonado, um homem puro cheio de virtudes e de ideais elevados ligados à família, à propriedade, mas, acima de tudo e de todos, adeus, que, a seu ver, defende sua amada terra de gente preta, baitolas, bandidos tem terra e nem beira, gordos e, muito especialmente, petistas, que para ele não passam de petralhas queimadores de cuecas.

DQDCDG, digo, abreviando, não se trata de algarismos romanos, pode parar de tentar lembrar como é que era isso, mas trata-se de Don Quichato Del Caldo De Gallina, pois bem, já ele, revelou seu mau caráter, certamente um vermelhinho, comuna safado, que defende que o Brasil é dos índios e quer devolver toda a terra para eles, enquanto os bois ficam sem pasto e as madeireiras enferrujando tratores, serras e corrientes tres cuatro ocho.

Mais ou menos isso: teríamos de desenvolver um tratado grouchomarxista para explorar todas as vertentes de ambas as maluquices, de QP e de DQDCDG, apenas adiantando que esquerdistas são contra a liberdade e querem tudo de graça, de modo que quanto a isso daremos um tempo, se o público exigir, com pedidos pela seção de comentários ou com cartas a mim ou à redação, que haja continuidade do relato.

Bem, estávamos sentados no Bar Salvaterra, caso ainda exista, quando, enquanto Ronronante tirava água do joelho ali mesmo na calçada, Quiche Pança perguntou, não ao cavalo, mas a Don Quichato: – Tu te casarias com um gay preto?

Don Quichato pensou um pouco e respondeu: – Gostaria que repetisses a pergunta, porque entendi que queres saber se eu me gueisaria com um índio xavante, foi isso mesmo?!

Quiche Pança achou que Don Quichato estava fingindo que não entendera a pergunta e repetiu: – O que farias se teu filho se apaixonasse por Preta Gil?

A resposta foi surpreendente, mas, infelizmente, o rolo de fita está acabando e teremos de esperar até que seja feito o reboooooobiiiiiiiinnnn

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A REVOLUÇÃO POCHETISTA

Epílogo quase no fim, talvez

Com a tomada dos hospícios pelos loucos e sua saída às ruas para espalharem ideias malucas e assumirem o controle da sociedade, um deles se destacou.

Trata-se de Quiche Pança, bem nutrido senhor, doido de pedra, que lançou-se a uma das mais temerárias empreitadas.

Quiche Pança (o nome verdadeiro era Pança de Quiche, mas ele assumiu essa inversão para ficar mais assemelhado ao fiel escudeiro da triste figura) procurou, entre a multidão de malucos, um que fosse da banda decente do País e que pudesse encarnar o papel de destruidor de monstros devoradores da lei e dos bons costumes.

Achou-o. Um tropeiro piradaço que trabalhava montado em um esquálido animal, que seria rebatizado como Ronronante.

Convidou-o para a extrema aventura e nomeou-o Dom Quichato de La Canja, porque o cara era um mala e adorava canja de galinha, e disse-lhe que ele iria montado, mas quem mandava era ele, que só ia a pé porque não sabia montar a cavalo e tinha muito medo desse animal.

Assim saíram pelo mundo. Partiriam de Belo Horizonte, em direção ignorada, passando por Barbacena, onde se congraçariam e comeriam pão de queijo, parando em Santos Dumont para tomar água mineral, até encontrar o seu destino, que não imaginavam qual seria.

Pois, vendo a plana anunciando Juiz de Fora, Pança eriçou os pelos que lhe restavam na careca: essa cidade sempre fora um antro de esquerdistas safados.

O Sol se punha, traçando contra as montanhas as figuras imponentes de Dom Quichato montado em seu fiel escudeiro Quiche, tendo ao lado de seu cavalo Ronronante, não necessariamente nessa ordem nem desse mesmo jeito, quando Pança divisou ao longe o que lhe pareceram estranhas figuras de moinhos ensacando vento.

Ao se aproximarem um pouco mais, sua visão alucinada e febril deu-lhe a ilusão de monstros verde por fora e vermelhos por dentro, com uma estrela rubra na testa, armados de foices e martelos, vindo em sua direção.

Quiche ordenou: – Vai, Dom Quichato, ataca! Destrói a horda de monstros vermelhos que quer achincalhar a Família, Deus e a propriedade e destruir a produção de pão de queijo de Minas!

Dom Quichato não foi para o ataque e ainda lhe disse: – Tu tá com um parafuso solto? Eu só tô vendo um monte de gente no sinal vermelho plantando bananeira (tinha um sinal vermelho no meio da estrada, estava fechado e não vinha nenhum carro). Os caras plantavam bananeira para conseguir uns trocados, porque o auxílio emergencial ainda não tinha sido depositado.

– São comunistas! Veja! Gritou Quiche, apontando para uma gente rude na lavoura. Estão fazendo cumprimentos e homenagens à mandioca!

Dom Quichato retrucou dizendo que eram apenas agricultores plantando aipim e que Pança de Quiche, ou Quiche Pança, sei lá, às vezes me confundo, estava vendo fantasmas e que isso de inventar comunistas para todos os lados era obra dos que queriam manter o poder e para isso tinham de inventar um inimigo assustador para o povo.

Quiche quase enlouqueceu. Corrijo: Quiche já é doido de jogar pedra para cima e cuspir para ver se acerta, de modo que ele não poderia quase enlouquecer quem já era absolutamente insano. O que aconteceu é que ele ficou um lunático possesso e destrambelhado e lembrou a Quichute, digo, Quichato, que quem mandava ali era ele, e que a missão deles era caçar monstros comunistas do rabo grosso, existissem ou não existissem, isso era apenas um detalhe bobo.

Quichato fez um muxoxo e falou baixinho:

– Jair Messias Bolsonaro acordou o fascistinha que existe em nós…

– O quê? O quê? Gritou Quiche Pança. Fala alto! Repete, se tu és homem!

As imagens foram desaparecendo, sumindo, sumindo, e nesse ponto, terminou mais um capítulo de A Revolução Pochetista, sendo possível, talvez sim, talvez não, que haja continuidade no próximo improvável capítulo desta empolgante aventura. É possível que até a Docenéia apareça para organizar uma Marcha das Mulheres pela Família com Jair Messias Bolsonaro pela Liberdade e Finalmente o Fim da Corrupção e da Baitolagem. Esperem sentados, homens de pouca fé: O Futuro Está Próximo.

GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

A REVOLUÇÃO POCHETISTA

– Meus caros senhores – discursou o cientista, renomado nome dentre os mais destacados psiquiatras do país – vamos estabelecer uma experiência única e só precisamos da aprovação de Vossas Excelências para implementá-la.

Alguns parlamentares aplaudiram, outros, da oposição sistemática, vaiaram, vaiariam qualquer um que estivesse ao lado do governo.

Pois, feito o discurso, o projeto foi posto em votação e aprovado pela maioria governista, de modo que as administrações de todos os manicômios do país retirariam todos os membros das respectivas administrações e passariam a ser completamente dirigidos pelos próprios loucos, sob a direção-geral do psiquiatra proponente, Doutor Ananias Pochete, que acompanharia as atividades de cada um dos dirigentes das diversas unidades mediante videoconferência.

Em vigor a nova lei, Pochete fez a primeira reunião e avisou: – Conseguimos, meus caros! O País é nosso!

Nem precisa dizer que o psiquiatra, Doutor Pochete, era completamente maluco e seu plano constava de conseguir que os hospícios de cada cidade conseguissem dominar os cidadãos locais, de modo que, como um jogo de dominó, cada uma caísse sob seu poder, o que significaria o controle geral.

Seria uma revolução total, inspirada nas obras de Machado de Assis, de George Orwell, de Gramsci e até mesmo de Maquiavel. Ah, a Revolução dos Bichos, O Alienista e O Príncipe foram os que mais lhe deram excelentes ideias.

Em suma, o que aconteceu foi o seguinte: Pochete orientou os malucos a saírem dos hospícios e invadirem a cidade com as idéias mais malucas, burras e estapafúrdias que pudessem ter, de modo a enfeitiçar as pessoas com promessas bizarras de salvar o país de suas desgraças.

Como? Ele mesmo não sabia. Mas que usassem a imaginação. Podiam, por exemplo, propor que cada um possuísse sua própria bomba atômica, para garantir a defesa contra invasões estrangeiras. Também garantiriam que, com uma nova ordem, aos homens seriam administrados hormônios masculinos, para aumento da virilidade, mas com atenção para o uso do sexo somente para a procriação, como estabelecido pelas leis divinas. Outra ideia era a de propor à população que o serviço militar se iniciaria aos três anos de idade, para meninos, e cinco, para meninas, que usariam, respectivamente, fardas azuis e cor-de-rosa.

Com esses princípios em mente, loucos de várias cidades apresentaram sugestões, como tirar as rodas dos carros, para resolver o problema do tráfego; expulsar todos os índios das matas e trazê-los para as cidades para civilizá-los e pô-los em atividades produtivas, para suprir a falta de trabalhadores de pouca qualificação profissional; tornar obrigatório o retorno da cueca samba-canção; cobrar imposto sobre esmolas; acabar com os tribunais e passando a atividade de julgar diretamente ao povo, por intermédio das redes sociais; e tantas propostas profícuas que encheriam páginas e páginas para serem expostas.

As populações das cidades ficaram maravilhadas! Alguns perguntavam se não seria burrice retirar as asas dos aviões, ao que eles respondiam que era a única forma de impedir totalmente a ocorrência de acidentes aéreos – e todos tinham de concordar com a lógica perfeita e terminar por aplaudir a providência.

Tudo aconteceu de tal forma perfeita, segundo bem imaginado por Doutor Pochete em sua loucura de pedra, que todas as ideias foram acatadas e postas em prática, os loucos tornaram-se líderes e expandiram sua administração ocupando os cargos públicos, prefeituras, vereanças, câmaras de deputado, senado, ministérios, enfim, tudo e tudo.

Poderia parecer estranho que o país tivesse prosperado com a loucura e a burrice imperando, mas foi o que aconteceu: as matas foram derrubadas, plantou-se muita soja, criou-se muito boi, a baitolagem desapareceu, a madeira enriqueceu os madeireiros e os cofres públicos, extraiu-se nióbio como nunca visto, a criminalidade foi a zero, os investidores estrangeiros aplicaram em peso suas economias nos negócios do país que, de tão diferente, apinhou-se de turistas aos magotes, os quais, aproveitando-se da liberdade de poderem andar pelas ruas com revólveres e cartucheiras na cintura, vieram deixar aqui abundantemente a moeda estrangeira e enriquecer os hoteleiros, taxistas, donos de bares e restaurantes, brincando de faroeste.

Sempre tem os insatisfeitos, que, da prisão, tramam para derrubar o governo dos pirados tapados e instaurar o comunismo no país, reclama o Ministério do Fuzilamento.

Espero que tenha dado aos leitores uma visão geral dos acontecimentos.

No próximo capítulo, trarei informações importantes sobre como a Revolução Pochetista se desenvolveu e possibilitou no país o surgimento de uma versão elaborada de Dom Quixote e sua luta contra moinhos de vento ensacado.