GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

GUARARAPES, O SEGUNDO AEROPORTO MAIS DISTANTE DO MUNDO

1. Seu nome oficial é Aeroporto Internacional do Recife – Guararapes – Gilberto Freyre e os seus códigos são: REC (pela IATA) e SBRF (pela ICAO). É o terminal aeroportuário mais movimentado do Norte e Nordeste e o 5º do Brasil em abril de 2021. O comprimento da sua pista é de 3007 metros.

Vista do terminal com a passarela que leva ao terminal do metrô

2. O seu nome homenageia o fato histórico ocorrido no Monte dos Guararapes (que fica a menos de 2 quilômetros da sua pista), na batalha para expulsão dos holandeses do território pernambucano, e o escritor e sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, autor de Casa Grande & Senzala.

3. Oito empresas de aviação operam seus voos do Guararapes: Latam, Gol e Azul são as brasileiras que operam voos nacionais e internacionais. Copa, Air Europa, TAP e TACV são as operadoras estrangeiras. A Azul Conecta opera voos sub-regionais para Caruaru e Serra Talhada e em breve para Patos, na Paraíba. A Itapemirim planeja incluir Recife na sua malha.

4. Em 25 de julho de 1966, durante o regime militar, uma bomba explodiu no saguão do aeroporto matando duas pessoas e deixando outras 14 feridas. Neste dia era esperada a chegada do ministro do exército e candidato a presidente Costa e Silva para um ato de campanha. Foi o primeiro ato terrorista com morte durante o período militar.

Vista do terminal com os prédios do vizinho bairro de Boa Viagem

5. O terminal de passageiros é um dos mais modernos do Brasil, sendo considerado o melhor aeroporto regional do Brasil e o 4º da América do Sul pelo World Airport Awards 2020.

6. O estacionamento tem 2120 vagas, dentro do terminal são 56 estabelecimentos de comércios e serviços, uma loja livre de impostos para quem desembarca do exterior, a Dufry, 64 balcões de check in e 11 pontes de embarques de passageiros e mais 10 posições auxiliares.

Lista de aeroportos premiados

7. Há voos diretos para todas as capitais do Nordeste e Sudeste, para cidades interioranas da região e destinos internacionais tradicionais como Lisboa, Madri, Miami, Buenos Aires, Montevidéu e Santiago. Tem também voos sem escala para aeroportos menos conhecidos como Cidade do Panamá, Fort Lauderdale (EUA) e Sal (Cabo Verde), com a pandemia alguns destes destinos estão inoperantes.

8. O terminal é servido por uma estação de metrô, que fica a 450 metros de distância. A ligação é feita por uma passarela com esteiras rolantes, passando sobre a Av. Mascarenhas de Morais. Na estação, além do metrô que leva a Cavaleiro e Centro do Recife ou Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão, terminal rodoviário e Camaragibe, com baldeação, tem também várias linhas de ônibus.

9. Quatro acidentes aconteceram durante pouso ou decolagem do aeroporto, o primeiro foi em 1º de novembro de 1961, quando um Douglas DC7 da Panair proveniente de Lisboa com escala na Ilha do Sal, em Cabo Verde, se preparava para o pouso, voando mais baixo do que o recomendado, atingiu uma colina no bairro de Tejipió. Dos 88 ocupantes, 45 perderam a vida. O segundo acidente se deu no dia 11 de setembro de 1974: um Boeing 727 da Varig, vindo de Maceió, não conseguiu parar na pista, derrubou o muro e parou na avenida. Não houve fatalidade. O terceiro ocorreu em 11 de novembro de 1991, quando um Embraer Bandeirante da empresa Nordeste Linhas Aéreas decolou com destino a Salvador na Bahia e uma falha de motor fez com que a aeronave caísse em uma praça no bairro do IPSEP, todos os 15 ocupantes mais 2 pessoas que estavam na praça morreram. O quarto acidente se deu no dia 13 de julho de 2011, quando um Let L-410 da empresa Noar, que acabara de decolar com destino a Natal e Mossoró teve problema em um motor e ao tentar retornar, caiu em um terreno na beira mar de Boa Viagem matando todos os 16 ocupantes.

Boeing 727 da Varig na avenida

10. O Guararapes é o segundo aeroporto internacional mais distante de outro país, só perdendo para o de Perth, na Austrália, quer ver vejamos: os locais mais próximos são a Guiana Francesa e a Ilha de Ascensão, que distam quase 2300 km em linha reta. Outros grandes países, que poderiam tomar essa posição do Recife, como Estados Unidos, tem vizinhos próximos no Canadá ao norte ou México e Cuba ao sul. O Canadá tem os Estados Unidos ao sul e oeste (Alasca) e a Groenlândia ao Nordeste. A Rússia tem locais ao norte muito distantes dos vizinhos europeus ou asiáticos, porém tem ilhas norueguesas ao norte bem próximas da sua costa. A China, que mesmo imensa, não tem nenhum ponto a mais de 1300 km de outro país.

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LIBERLÂNDIA – UM PAÍS OU UMA PIADA?

Liberlândia é uma micro nação europeia localizada entre a Croácia e a Sérvia, tem uma área de 7 km² e uma população de 7 habitantes que não residem no país.

O país é localizado em uma área considerado pela ONU como terra nullius, termo em latim usado no direito para designar uma terra que não é reivindicada por nenhum país. Na mesma situação encontram-se Bir Tawil entre o Egito e o Sudão e a terra de Mary Byrd na Antártida.

O território de Liberlândia não tem nenhuma estrutura, é formado apenas por um bosque encharcado pelas águas do Rio Danúbio e tem uma área menor do que a do bairro de Boa Viagem no Recife.

Governo provisório

6Apesar da sua situação, o país já tem sua moeda, o “Mérito”, porém a mais usada atualmente é a criptomoeda bitcoin.

A Croácia não reconhece Liberlândia como um território independente, mas sim como uma região de domínio indeterminado. Gornja Siga é o termo que o país trata a região e chama de “uma ideia provocativa que atingiu proporções sérias”. Já a Sérvia informa oficialmente que Liberlândia não infringe a fronteira do país, e que a sua situação não tem importância para o país.

Entenda: o Rio Danúbio, que divide a Sérvia da Croácia e de Liberlândia, foi ao longo do tempo mudando o seu traçado, cheias e reordenamento hidráulico da sua calha foram alterando o seu traçado, o que fez com que a fronteira entre os países fossem mudando. Enquanto os dois países faziam parte da Iugoslávia, esse detalhe não era tão importante, porém após a sua divisão em Eslovênia, Macedônia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia do Norte, Croácia e Sérvia, esta fronteira passou a ser contestada entre estes dois últimos. A Croácia reconhece a fronteira como sendo a antiga, com o rio sinuoso, mas a Sérvia diz que a fronteira é o rio atual, essa discórdia deixa 11 áreas em litígio, sendo 7 no lado leste, que ambos os países reivindicam para si e Gornja Siga e mais três do lado oeste, estes quatro são renegados por ambos os países. Essas áreas são conhecidas como bolsos.

Mapa da região com Liberlândia em verde

Em 13 de abril de 2015, o tcheco Vít Jedlička proclamou a República Livre da Liberlândia, fincando a bandeira na pequena ilha, junto com sua namorada e mais um grupo de amigos. O país é reconhecido desta forma apenas por Bir Tawil, outra terra nullius.

Projeto futurista de Liberland City

A forma de arrecadação é do tipo financiamento colaborativo, onde só paga imposto quem quer, porém só quem paga é que tem direito de participar das decisões políticas. O estado só atua na justiça, segurança e diplomacia.

Atualmente, Jedlicka está proibido de colocar os pés no território do país que ele governa, o governo Croata não aceita que os liberlandenses pisem no solo, para isso mantém vigilância constante pelo Rio Danúbio e a polícia tem ordem para prender quem se atrever a descumprir esse exilio.

Bandeira

Dentre os membros do governo estava José Miguel Maschietto, que se apresenta como um comandante do exército italiano e diz ter servido nas tropas de paz da ONU em Kosovo, mas não informa o período. Antes de assumir o cargo em Liberlândia, Maschietto se apresentava como pianista e compositor famoso, ganhador de um prêmio pela trilha sonora no filme Gravidade, maestro na ópera de Praga, de Paris e do Balé Bolshoi. Diz também que já conversou com vários embaixadores, mas não cita o nome de nenhum deles. Sabendo destes desvios, Maschietto foi demitido imediatamente por Jedlicka.

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CHONGRYON – UMA CORÉIA COMUNISTA, LIVRE E RICA

No ano de 1910, a península coreana foi invadida pelo Japão e uma considerável parte da população foi trabalhar na ilha japonesa, alguns como trabalho forçado ou escravas sexuais, esse domínio durou até a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, quando cerca de 75% dos coreanos que estavam no Japão regressaram para a terra natal, os que permaneceram, cerca de 540 mil, se transformaram em estrangeiros e perderam os seus direitos civis, esses como seus filhos se tornaram apátridas já que o Japão só dá cidadania a filhos de japoneses e não a quem nasce no país. Perderam também a cidadania coreana, já que o seu país anterior, ligado a dinastia Josion, não existia mais.

Mapa da região na época da Coreía ainda sob domínio japonês

Entre 1950 e 1953, a Coréia se dividiu em duas, a do Norte comunista, apoiada pela China e União Soviética e a do Sul capitalista, apoiada pelos Estados Unidos, com isso, os Zainichis (coreanos no Japão) também se dividiram, só que em três: Os do Norte, os do Sul e os favoráveis a unificação, nesse período de crise pós guerra na ilha, a Coréia do Norte passou a ajudar financeiramente aos Zainichis, o que atraiu a simpatia até dos descendentes sul-coreanos, essa comunidade criou a Chongryon, abreviatura de Associação Geral de Coreanos Residentes no Japão uma organização com muitos bens, como escolas, universidades, vários edifícios sedes, clubes e até oito bancos. A primeira construção se deu no oeste de Tokio. Enquanto os japoneses pensavam se tratar de uma fábrica de bateria, era construída a Universidade da Coréia em solo japonês.

Os nascidos no sul da Coreia e seus descendentes criaram outra comunidade, a Mindan, essa mais amistosa com o governo japonês.

Reunião da Chongryon em Tokio

A Chongryon mantinha estreitos laços com a Coréia do Norte e como este país não tem relação diplomática com o Japão, a organização passou a ser uma embaixada informal. A primeira missão foi incentivar o retorno de coreanos para a Coréia do Norte e conseguiu convencer 87 mil coreanos com 6 mil esposas, a Mindan fez uma forte oposição a essas migrações.

Símbolo da Chongryon, a informal embaixada da Coréia do Norte no Japão

Durante os anos 70, japoneses foram sequestrados na ilha e levados para a Coréia do Norte, o governo japonês acusa a Chongryon com apoio do governo norte-coreano, que negam participação nos sequestros.

Sede da entidade em Toquio

A Chongryon gerencia empresas de turismo e a única barca que faz a travessia do Mar do Japão ligando os dois países, porém a principal fonte de renda é o Pachinko, um jogo de azar eletrônico muito popular na ilha.

Sala de Pachinko

Hoje, ironicamente, a Chongryon denuncia o governo japonês por falta de liberdade e violação dos direitos humanos, uma das denúncias é que as instituições educacionais da organização não são reconhecidas pelo Japão, o que causou uma debandada de estudantes para as instituições tradicionais nipônicas e também de filiados para a concorrente Mindan.

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FERNANDO DE NORONHA, O PARAÍSO ONDE É PROIBIDO NASCER

Vista aérea de Fernando de Noronha

A ilha de Fernando de Noronha é um distrito de Pernambuco com administrador indicado pelo governador, dista 545 km do Recife e 360 de Natal. Tem sua economia baseada no turismo e um PIB per-cápita de R$ 53.410,00 (2018) contra 31.994,00 do Recife e 9.351,00 de Tabira. O IDH também é destaque: 0,79, maior que o do Recife (0,77) e o de Pernambuco (0,73). O analfabetismo na ilha é de 0%.

O site de turismo Tripadvisor coloca a Praia do Sancho como a terceira mais bonita do mundo: “Uma bela praia remota onde só é possível chegar descendo uma escada vertical e degraus de pedra. As deslumbrantes falésias são de tirar o fôlego.”, a 10ª é a praia dos Golfinhos em Pipa RN e entre as 10 não há outra brasileira. As belezas da ilha atraem turistas de todo o mundo, os famosos atores, jogadores de futebol e influenciadores digitais brasileiros são frequentadores assíduos de Noronha.

Não é barato conhecer as belezas de Fernando de Noronha, duas empresas aéreas tem vôos diretos do Recife para o pequeno aeroporto da ilha: Azul e Gol, o preço das passagens de ida e volta fica em torno de 2.500,00 reais por pessoa, a mesma faixa de preços do voo para Buenos Aires na Argentina. Uma tapioca com suco natural na lanchonete Babalu fica entre 24,00 e 30,00 reais.

O site de viagens Tripadvisor indica a Praia do Sancho como a terceira mais bonita do mundo

A estrutura da ilha é razoável e a única unidade de saúde, o Hospital São Lucas, não tem maternidade. Devido aos protocolos hospitalares e a baixa demanda por nascimentos, a maternidade foi desativada em 2004, os custos de manutenção eram muito altos para uma pequena taxa de nascimentos de 40 por ano, em média.

Segundo a coordenadoria de saúde de Noronha, o custo de manutenção gira em torno de 150 mil reais, fica mais fácil o governo pagar as passagens da parturiente e acompanhante, estadia no hotel em Boa Viagem, três refeições diárias e transporte entre o hotel e o IMIP, hospital de referência em obstetrícia.

Único hospital da ilha e equipe de atendimento

A futura mamãe fica até a 34ª semana de gravidez sendo atendida por médicos no hospital São Lucas, mas após esse período, vai para o Recife concluir o pré-natal e realizar o parto, isso não agrada as mulheres que prefeririam ter seus filhos na ilha.

Na verdade, não há uma obrigação legal de ir para o continente, porém as assistentes sociais incentivam esse deslocamento, alegam que se houver complicação na hora do parto, como o hospital local não tem UTI, isto poderia ocasionar um grande problema para a mãe e o bebê.

Monique com a filha recifense no braço

Em 2018, depois de 12 anos, Noronha voltou a ter um parto: “eu fiz exame [de gravidez] e deu negativo. Eu não senti nada durante toda a gestação”, afirmou a mãe, que não quis se identificar, ao portal de notícias G1. Essa proibição tácita não é aceita pelos ilhéus.

O cineasta brasiliense Alan Schvarsberg foi ministrar oficina de videoativismo para os nativos e o tema mais abordado foi o da proibição do parto, o fato chamou tanta a sua atenção que ele fez o documentário Ninguém nasce no paraíso.

Por ironia do destino, Fernando de Noronha, o paraíso ecológico, trata bem a sua natureza, o que favorece o nascimento na região de animais como golfinhos e tartarugas, mas não consegue ter este mesmo zelo com os humanos que ali residem.

Documentário: “Ninguém Nasce no Paraiso”

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ZENILTON, UM PAJEUZEIRO QUE FEZ SUCESSO COM FORRÓ DE DUPLO SENTIDO.

Nos anos 70 as difusoras do Cine Alvorada de tabira bradavam músicas engraçadas: Genival Lacerda com “ele tá de olho é na boutique dela” e “ela deu o rádio e nem me disse nada”, João Gonçalves com “Ô lapa de minhoca, eita que minhocão” e Zenilton com “você vai pagá-la” e “quebrei a cabaça dela”. Entre os sucessos de Lafayette, Perez Prado, Sidney Magal, Peninha e outros, encaixavam um forró de duplo sentido.

Zenilton com seu pai Cazuzinha Dentista e com a mãe Evangelina

Era época do governo militar, que tinha um órgão que censurava músicas politicamente desfavoráveis ao regime ou que atentassem contra o pudor e os bons costumes, essas músicas de duplo sentido passavam porque não havia como a censora riscar um trecho que falava “tem gente que educa o branco, tem gente que educa o preto, aqui educa qualquer um, porque não tem preconceito” ou “a capital do Equador é Quito, nunca mudou, é sempre Quito”, e os discos vendiam desde feiras livres até na Modinha e Aky Discos do Shopping Recife.

Capa dos discos com os sucessos “Só fumo no cachimbo da mulher” e “Com milho cru”

José Nilton Veras nasceu em Afogados da Ingazeira em 14 de fevereiro de 1939, mas foi criado em Salgueiro. Filho de pai militar, sofreu o preconceito de ser músico, o pai, Seu Cazuza ou Cazuzinha Dentista, que era do exército, queria ver o filho médico militar. O pai nas horas vagas frequentava as feiras de rolo da região, e nessas trocas adquiriu uma sanfona e Zenilton começou a tocar, quando Cazuzinha retornou do Recife viu som de um fole tocando no fundo da casa e perguntou a mulher: “Quem é esse que tá tocando?”, “´É um rapazinho do mato que veio comprar a sanfona”, respondeu Evangelina, mãe de Zeniton, “Ele toca bem”, opinou seu Cazuza, e foi ver, quando chegou lá era Zenilton, o pai deu-lhe uma bronca, pois queria o filho estudando e não na profissão de sanfoneiro, disse que aquilo é profissão de vagabundo, pois vive de cabaré em cabaré. Zenilton ainda argumentou dizendo que Luiz Gonzaga não tocava em cabaré, mas Cazuzinha disse que Luiz Gonzaga teve que ir pro Sul do país, ai fizeram um acordo para Zenilton não parar de estudar, por intermédio de um capitão do exército junto a Seu Cazuza: “deixa ele tocar, é melhor do que tá fumando ou aprendendo a roubar”.

O artista no documentário Zenilton & Sua História

Zenilton começou a ganhar dinheiro tocando em casamentos e batizados na região. Em 1951 quando chegou o jeep no Brasil, o sanfoneiro comprou um, depois resolveu seguir para a capital nordestina no Sudeste: São Paulo, na carroceria de um pau-de-arara. Lá fez um trio e foi tocar na Praça da Sé, cantava músicas de Luiz Gonzaga e fazia sucesso, o balaio saia cheio de dinheiro e a noite ainda ia tocar em alguns bares. Em um dos bares, o dono, um português, o convidou para morar num quartinho no fundo, tinha até ventilador, virou sócio e terminou comprando o bar do portuga, gostou do ramo empresarial e chegou a ter uma rede de lanchonetes e bares na capital paulista e até uma casa de show, a Forró da Moca, mas voltou a focar na arte.

Vídeo com o sucesso “eu vou botar o saco prá dentro”:

Zenilton voltou ao Nordeste e passou a participar de eventos abrindo os shows de cantores já consagrados. Um dia, ele foi abrir um show para Luiz Gonzaga e cantou as músicas do Rei do Baião, quando Gonzagão foi entrar no palco deu uma bronca no rei do duplo sentido: “Você só tocou minhas músicas, agora eu vou tocar o que?”, foi ai que Zenilton resolveu voltar a terra da garoa para tentar gravar suas próprias músicas. Ao chegar na gravadora Chanteclair encontrou com Raul Seixas, com quem fez uma grande amizade, o rei do rock não deu bronca, mas deu um conselho a Zenilton: “canta coisas diferentes, coisas engraçadas”, foi quando Zenilton gravou Capim Canela e virou sucesso, se não a nível nacional, mas no Nordeste e nas difusoras do Cine Alvorada, sim: “Só capim canela, só capim canela, a criação é gorda comendo capim canela”.

Panfleto de Zenilton com o prefeito Clebel

Nos anos 70, veio o auge da carreira, todo ano gravava um disco de sucesso pela gravadora Copacabana, topava com Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste e Genival Lacerda. Nos anos 80 foi tentar carreira internacional em Portugal, que também aprecia a música de duplo sentido, mas lá não foi bem sucedido comercialmente e voltou para o Brasil. Zenilton tambem trabalhou como ator em 1970 no filme Sertão em Festa, com Tião Carreiro, Pardinho, Nhá Barbina e em 1978 na película Chapéu de Couro

Cena do filme Sertão em Festa em cena com Zenilton e Mariazinha (avó de Sandy e Júnior)

Nos anos 90, voltou a mídia no início de carreiras da banda Raimundos, cujos componentes se diziam influenciado pelo cantor pernambucano e fizeram parceria, gravaram “Chocho Pão” e “Ela tá dando, ela tá dando motivo prá desquitar”, mas depois do sucesso, a banda de Brasília esqueceu o ídolo, reclamou Zenilton ao repórter Jose Teles do JC. Zenilton reclamou também dos forrós de hoje do tipo Safadão: “É tudo igual, uma voz só, uma coisa só. Banda é iluminação, só o palco é um show. Eles não me convidam pra tocar com eles não, que não são doidos. Porque sabem que se botar o velhinho no palco, acabo com eles”.

Zenilton com os Raimundos

Zenilton voltou a morar no Sertão de Salgueiro, tá parado por problemas de artrose que espera corrigir com uma cirurgia e voltar a puxar o fole. Teve uma vida de altos e baixos, mas foi bem sucedido na vida: deixou bem encaminhados os 3 filhos, inclusive formou uma filha médica, como queria seu Cazuzinha Dentista. Tentou também a carreira política, foi candidato a vereador em Salgueiro em 2016, porém os eleitores não entenderam a sua mensagem e só votaram nele 17 vezes.

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A INDÚSTRIA DE AÇÚCAR CUBANA DA HERSHEY

A famosa fábrica de chocolate americana foi criada por Milton Snaverly Hershey, após trabalhar em panificadoras e confeitarias e construir uma fábrica de caramelos. Ele usava leite fresco para produzir os doces que fabricava, essa fábrica fez sucesso. Em 1893, Seu Milton foi ver uma exposição direcionada para industrias de alimentos e se impressionou com umas máquinas de fazer chocolate, não teve dúvida, vendeu a Lancaster Caramel Company por 1 milhão de dólares e investiu no ramo de chocolate, ele achava que a moda do caramelo não duraria, enquanto que o chocolate seria eterna. Construiu logo uma indústria de processamento de leite para abastecer a fábrica de chocolate. A fórmula que ele criou dependia menos da qualidade do leite do que as fórmulas tradicionais, e em 1900 ele criou a Hershey’s Milk Chocolate Bars.

Produtos da Hershey’s

A fábrica era localizada na pequena Derry Church e não tinha janelas para que os funcionários não se distraíssem. O baixo custo de vida na cidade atraiu muita gente para trabalhar, e para proporcionar lazer aos seus funcionários, Seu Milton criou um parque. A cidade se desenvolveu e mudou de nome para Hershey. O chocolate já era vendido em todos os Estados Unidos. O sucesso logo veio com o Hershey Kisses que virou febre entre crianças, jovens e adultos.

Parque na cidade americana de Hershey

Em 1916, Seu Milton foi a Cuba e lá gostou da produtividade da cana de açúcar e resolveu fundar outra cidade similar a Hershey americana, uma cidade iniciada do zero e que atraísse funcionários pelo seu custo de vida baixo, clubes para lazer e facilidade no deslocamento entre as casas e a usina. Lá os trabalhadores recebiam as casas para morarem com as suas famílias. Batizou com o mesmo nome da primeira: Hershey. Para transporte de cana entre as lavouras e a usina e de açúcar entre a usina e os portos de Havana e Matanzas, fez uma ferrovia, a primeira elétrica do país. Os trens transportavam passageiros também entre a Hershey e as cidades portuárias.

Eu na estação abandonada que me levaria a Camilo Cienfuegos

A cidade já nasceu desenvolvida, com escola, clínica médica, cinema, piscinas, campo de golfe, lojas e estádio de beisebol, com equipe disputando campeonato além de uma grande festa todo final de ano. Já a usina em si era a mais produtiva da América Latina, seus funcionários recebiam salários altos, comparados aos de outras indústrias do país. Hershey era uma “ilha” americana dentro da ilha de Cuba, uma cidade diferenciada do resto do país. Na vila haviam casas de vários níveis, as dos trabalhadores americanos, em cargos mais altos, eram maiores e na parte central da cidade, já a dos peões cubanos, geralmente negros, eram mais distante e menores que as dos chefes.

Placa avisa o fim da linha implantada por Milton Hershey

Em 1945 Milton Hershey morreu e a família vendeu todos os bens da empresa em solo cubano, inclusive a usina, e a vila passou por outros donos até que em 1959 veio a Revolução Cubana e os Castros estatizaram a usina e rebatizaram a cidade com o nome de Camilo Cienfuegos, um dos heróis da revolução, morto em uma acidente aéreo mal explicado. Com o socialismo, as casas foram redistribuídas sem segregação racial ou social, porém os baixos salários impediam que os residentes mantivessem a estrutura e estas foram se deteriorando, assim como a fábrica, os equipamentos e a linha de trem com suas locomotivas e vagões. O estádio de Beisebol foi demolido e a festa anual foi cancelada, mas a usina continuou produtiva até que a crise na União Soviética acabou com a ajuda do país a Cuba e o açúcar deixou de ser uma moeda forte cubana, culminando com o fechamento da já sucateada usina idealizada por Milton Hershey.

Sucata da que já foi a usina mais produtiva da América Latina

Hoje a cidade de Camilo Cienfuegos está praticamente abandonada, a estação de trem que levava passageiros e açúcar para Havana e Matanzas está fechada, os galpões estão enferrujados e as casas em ruínas. O Trem de Hershey que trazia turistas para a cidade deixou de ser uma atração em Havana. Para pegar o trem elétrico, pegava a barca, para atravessar a Baia de Havana, até Casa Blanca andava mais alguns metros e lá estava a Estação Casa Blanca, ponto de partida para Hershey e Matanzas, mas em 2016 o sistema foi desativado e substituído por ônibus chineses e caminhões pau-de-araras particulares. Eu fui lá em 2018 tentar viajar até Hershey, cheguei até a estação, mas uma placa escrita a mão em um papelão fixado em uma grade enferrujada dizia: “No hay tren hasta nuevo aviso”.

Trem de Hershey ainda ativo

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VOCÊS SABIAM QUE AS ÁREAS TERRITORIAIS DA FRANÇA E DA ESPANHA DEPENDEM DO CALENDÁRIO?

Entre 1618 e 1648 ocorreu a Guerra dos 30 anos envolvendo, principalmente, Espanha e França, foi uma das mais sangrentas guerras antes das 2 grandes guerras mundiais. Cerca de 8 milhões de pessoas perderam suas vidas, o motivo da guerra era aumento de território, mas um tratado foi assinado para demarcar a fronteira entre França e Espanha que ficou sendo a cordilheira dos Pirineus e o Rio Bidasoa.

Reunião na Ilha dos Faisões com representantes espanhóis e franceses para celebras o tratado

O tratado não só tratava da fronteira entre os países, mas de outros pontos como do casamento de Luiz XIV e Maria Tereza da Espanha, para que o entrelace ocorresse, Luiz XIV teria de renunciar todos os seus direitos a coroa espanhola e em troca receberia uma indenização de 500 mil escudos franceses, mas a Espanha deu calote no rei o que provocou outra guerra, a da Devolução, que também não atingiu o objetivo e Luiz nunca recebeu essa grana. Como vingança, Luiz lançou seu neto Duque de Anjou candidato a rei na Espanha, mas ai já é outra história.

Cordilheira dos Pirineus, fronteira entre França e Espanha

Para assinar o tratado, marcaram em um lugar neutro, na fronteira determinada no tratado, mais exatamente numa ilha no Rio Bidasoa, a Ilha dos Faisões, um pedaço de terra no meio do rio entre as cidades de Irun na Espanha e Hendaye na França, essa ilha quando o rio está seco dá pra ir a pé sem molhar os pés para o lado da Espanha, foi nesse local que Maria Tereza foi entregue a corte francesa. Após a assinatura, a ilha passou despercebida pelos 2 países como território neutro, qual interesse teria França e Espanha por uma ilhota com a área do tamanho do 2º Jardim na praia de Boa Viagem e sem nenhum atrativo, nem faisões a Ilha dos Faisões tem.

Tela do Google Maps da Ilha dos Faisões. Acima a França e abaixo a Espanha

Em 1856, com a demarcação da fronteira entre os dois países e pela importância histórica da ilha, França e Espanha resolveram transformá-la em um condomínio, território compartilhado entre dois ou mais países de forma pacífica, mas não determinaram de que maneira seria esse compartilhamento e só em 1901 é que fizeram o acordo: a Espanha teria o domínio da ilha entre 1º de fevereiro e 31 de julho e a França entre 1º de agosto e 31 de janeiro de cada ano, eles não perceberam que a “metade” da Espanha é menor que a da França 4 dias ou 3 em anos bissextos, mas os espanhóis nunca se preocuparam com esse detalhe. Não houve problema quanto a cidadania dos moradores já que a ilha é desabitada.

Tela do site Tripadvisor mostrando a atração da Ilha dos Faisões com o monumento que homenageia o tratado

Para conhecer a ilha, há um barco que circula a Faisões sem parar para desembarque, apenas funcionários dos governos acessam a ilha para limpeza e manutenção, fotos só de dentro do barco, embora encontrei fotos avulsas de turistas em terra firme fazendo poses e tirando selfies. Se você procurar no site de turismo Tripadvisor sobre a cidade de Hendaye, achará a atração “Ile des Faisans” com apenas um comentário em francês que o Google traduz assim: “É nesta pequena ilha que Richelieu e Don Luis des Haro concluem a Paz dos Pirineus, um prelúdio ao casamento de Luís XIV com a Infanta da Espanha. Você não pode acessar a ilha, mas uma pequena placa fornece algumas informações úteis e históricas.“

Turistas registrando a suas presenças na ilha

Se você acessar as enciclopédias em busca das superfícies territoriais da França e Espanha em datas diferentes do ano, é claro que estas não mudarão, por questões de lógica, porém os 3.000 metros quadrados da superfície da ilha estarão incluídos nas áreas dos dois países como sendo só sua.

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O “JESUS” DE SUCESSO CRIADO POR UM ATEU

Um dos grandes símbolos natalinos é o refrigerante americano Coca-Cola, que teve um incentivo do puritanismo nos EUA, que dificultava a venda de álcool. O seu idealizador, o farmacêutico John Pemberton, teve a ideia de substituir o álcool por agua gaseificada na fórmula que incluía cocaína e grãos de noz-de-cola e teve inicio a produção do que viria a ser uma das marcas de maior sucesso do planeta. Em 1903 a cocaína foi abolida da formula.

Antiga propaganda da Coca-Cola

Em 1927, outro farmacêutico, Jesus Norberto Gomes, tentou criar um xarope gaseificado que não fez sucesso como remédio, mas caiu no gosto dos seus netos que adoravam o medicamento. O sabor adocicado com um toque de cravo e canela fez sucesso entre a criançada de São Luis, onde era fabricado. Com o sucesso, Jesus comprou máquinas e começou a fabricar o guaraná rosa em grande escala e distribuir para todo o estado do Maranhão e batizou o produto como “Guaraná Jesus”.

Jesus Norberto Gomes, o ateu comunista criador da fórmula do Jesus

Em 2005, eu fui conhecer Barreirinha e São Luis com meu pai, Seu Djalma, e meu irmão, Cil Mascena. Fomos de ônibus pela Guanabara e eu achei curioso que onde o ônibus parava, em rodoviárias ou restaurantes, um refrigerante diferente era muito vendido, deixando pra trás o Guaraná Antarctica e a Coca-Cola, campeões de vendas nos demais estados. A principio achei que era uma tubaína de baixo preço, engano meu, era mais caro que o Antarctica e tinha o mesmo preço da Coca-Cola. Nos Shoppíngs Centers da capital dominava as mesas das praças de alimentações. Experimentei e gostei. Em 2008 fui a trabalho para Teresina e lá encontrei colegas de turma do curso de formação e um deles, maranhense residente em Teresina, convidou a equipe para tomar café-da-manhã na casa dele antes de sairmos para uma missão no estado do Maranhão, quando a irmã dele soube que íamos para o Maranhão, correu e pediu a ele que trouxesse o refrigerante pra ela.

Cil, Seu Djalma e eu na balsa para os Lençóis Maranhenses

O refrigerante ganhou esse título não por homenagem ao filho de São José e Nossa Senhora, mas sim pelo nome do empresário: Jesus. O logotipo nas garrafas era a assinatura do idealizador. O Jesus brasileiro não era cristão, era ateu, naquela época chegou a ser excomungado pela Igreja Católica. A indústria fabricava, além do guaraná, água mineral, água de mesa, água tônica, gengibre e licor de mate, todos com a marca Jesus. Interessante que ele não fabricava vinho, bebida “fabricada” pelo seu xará Galileu a partir da água.

Linha de embalagens do guaraná Jesus

Em 1961, a Antarctica, com intenção de diminuir a concorrência, comprou a fábrica e colocou a marca em segundo plano, a família de Jesus, o ateu, não gostou, e após uma longa briga judicial retomou a marca e voltou a fabricar o guaraná rosinha, mas em 1980 foi novamente vendida para a família do ex-governador Jackson Lago. Em 1999, a rainha dos baixinhos, Xuxa Meneghel, tentou comprar a marca para distribuir no país todo, na onda do seu sucesso, mas não chegou a um acordo com a família Lago. Em 2006 a Jesus foi vendida para a fabricante da Coca-Cola no Maranhão, que detém os direitos de fabricação até hoje. Só um adendo, em Pernambuco o Guaraná Fratelli fazia grande sucesso, até que a Brahma comprou e descontinuou a fabricação, a família Fratelli não se importou e a marca sumiu, mas isso é caso para outro SSQFA.

Vendas do Guaraná Jesus no Mercado Livre

Nesse longo tempo de sucesso, o guaraná Jesus sempre enfrentou concorrências. Nos anos 60 era o guaraná Champagne Antarctica, nos anos 80 a Jeneve chegou a ameaçar a liderança do pioneiro. Já nos anos 2000, o “Psiu Teen” entrou na concorrência com grande aceitação. O Jeneve e Psiu Teen são marcas maranhenses com a mesma coloração rosa e o sabor adocicado do guaraná com cravo e canela.

“Psiu Teen, leve, gostoso e 100% maranhense”, diz a propaganda

Em 29 de outubro de 2020, o Jesus rosinha foi comentado em rede nacional no horário nobre e virou zoação. Em visita ao Maranhão, o presidente Jair Bolsonaro bebeu o famoso guaraná do estado e fez um comentário: “Agora eu virei boiola igual maranhense, é isso? Olha o guaraná cor de rosa do Maranhão. Quem toma esse guaraná vira maranhense”.

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

PONTE AÉREA, A GENIAL INVENÇÃO BRASILEIRA EXPORTADA PARA O MUNDO

Nos primórdios da aviação comercial no Brasil, o voo mais lucrativo para as companhias aéreas era o da ligação entre a capital federal, Rio de Janeiro e a maior cidade do país, São Paulo, e ainda hoje é o trecho mais cobiçado pelas empresas aéreas do Brasil. Na década de 50 com o final da Segunda Guerra, a oferta de aviões era muito grande e os preços convidativos, isso ajudou a surgir muitas empresas de aviação mundo afora. No Brasil a concorrência era entre a Varig, Sadia, Vasp, Cruzeiro do Sul, Real e Panair, qualquer dia eu conto a história da Panair, que envolve o regime militar e o período do governo do PT, que só nasceria décadas depois, mas isso é caso para outro texto nesta coluna “SÓ SEI QUE FOI ASSIM”.

Inicio da operação da Ponte Aérea e 2 Saab-Scandia da Vasp na pista

Como a quantidade de passageiros era baixa e os horários de procura concentrados, aconteciam muitas decolagens nos horários de pico e demora entre voos no horário de menor demanda e isso diminuía os lucros das operadoras da linha na época: Vasp, Varig e Cruzeiro do Sul. Para piorar, a maior empresa da época, a Real Aerovias entrou na concorrência de forma agressiva, só pra vocês terem uma ideia da agressividade da Real, minutos antes da partida dos seus voos, funcionários abordavam os passageiros que entravam nos aeroportos de Congonhas ou Santos Dumont e ofereciam a passagem, caso o passageiro já tivesse adquirido o bilhete em outra empresa, a Real embarcava mesmo assim, sem receber um tostão do passageiro, que não precisava esperar o voo da empresa que adquiriu o bilhete. Com a queda das vendas, as empresas pioneiras na linha fizeram um acordo para distribuir os horários de modo que não ficassem concentrados em um curto espaço de tempo e com demora em outros, o plano deu certo.

Imagem antiga do Aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro

O dono da Varig era Rubem Berta e ao entrar no aeroporto de Congonhas para pegar o voo para o Rio de Janeiro, se surpreendeu quando o direcionaram para um avião da Cruzeiro do Sul, mesmo ele apresentando o bilhete da Varig, a comissária que não conhecia o patrão explicou que é para evitar espera, o patrão embarcou no voo da concorrente e achou interessante a ideia e pediu uma reunião urgente com os donos da Vasp e Cruzeiro do Sul para tratarem sobre o assunto, todos gostaram e fizeram o acordo, o passageiro que comprasse passagem em qualquer uma das 3 empresas embarcaria no primeiro voo, e o espaço de tempo entre voos não seria maior que 30 minutos. Como jogada de marketing batizaram a operação de Ponte Aérea Rio-São Paulo, era a primeira vez no planeta que empresas aéreas concorrente se juntavam para aumentar seus lucros e facilitar a vida dos passageiros. Esse tipo de operação foi copiado por vários países com Estados Unidos, Japão e Espanha.

Revista Ponte, distribuída nos voos

Esse nome “ponte aérea” foi uma homenagem a uma operação ocorrida logo após a Segunda Guerra na Alemanha, para levar alimentos e insumos a Berlim Ocidental, que ficou ilhada dentro da Alemanha Oriental. Sem ligação terrestre entre o lado ocidental e Berlim a solução foi usar aeronaves para fazer esse transporte.

Foto da ponte aérea alemã, que deu nome a brasileira

Após o início da operação da Ponte Aérea Rio-São Paulo, a Real Aerovias começou a perder clientes, o que prejudicou a saúde financeira da empresa que encerrou suas atividades em 1961 quando foi adquirida pela Varig. A Rede Estadual Aérea Ltda (Real era uma sigla) já voou por aqui, fazia a linha Petrolina- Ouricuri-Salgueiro-Arcoverde-Caruaru-Recife, eu falei sobre ela aqui. A Sadia, que pertencia ao filho do dono da fábrica de mortadela e linguiça Sadia, mudou o nome para Transbrasil e a Cruzeiro do Sul foi também comprada pela Varig. A Panair teve sua licença para voar cassada em 1964, mas a Ponte Aérea continuou fazendo sucesso com Varig, Vasp e Transbrasil. Cada empresa tinha seus próprios aviões de modelos diferentes, mas na década de 70 houve uma padronização e o único avião usado na frota era o Electra. Essas aeronaves foram encomendadas ainda pela Real e recebidas pela Varig, que tentou cancelar a encomenda já que o Electra tinha fama de perder suas asas em voo, mas no Brasil foi um sucesso, nele a viagem era diferente, as poltronas eram mais distantes e na parte traseira os bancos eram em forma de “U”, esse espaço era conhecido como “lounge”, salão em francês, e disputado pelos passageiros, quem chegasse primeiro no aeroporto tinha a preferencia, já que naquela época as passagens não vinha com o numero da poltrona, era entrar e sentar, igual ônibus urbano, era um corre-corre na hora que abria a cancela de embarque.

Imagem do “inquebrável” Lockheed Electra II. Tinha até champagne a bordo

Na década de 90 uma empresa entrou no páreo com o Foker 27 e posteriormente com um jato, que economizava cerca de 15 minutos na viagem. Na entrada do avião era estendido um tapete vermelho e os pilotos recebiam os passageiros no chão, sorridentes e solícitos. As vezes o dono da empresa, Comandante Rolim, também estava lá fazendo a recepção, era a TAM e os famosos aviões Fokker 100. Os turboélices Electras já estavam bem defasados e precisariam ser trocados urgentes, porém os Boeings 737 das companhias da aliança da ponte aérea não tinham autorização para pousar e decolar nos aeroportos de Congonhas e Santos Dumont pelo pequeno tamanho da pista. Em 1991 o acordo entre Vasp, Varig e Transbrasil: Ponte Aérea Rio – São Paulo, deixou de existir, porém os voos continuaram. A Gol encomendou uns Boeings 737 especialistas em pistas curtas e entrou na concorrência. Com a falência da Varig e Vasp e a entrada da Azul, hoje apenas TAM, ou melhor, Latam, Gol e Azul fazem a ligação entre os aeroportos de Santos Dumont e Congonhas.

O Comandante Rolim recebendo os passageiros da TAM. O tapete vermelho além de dar um charme, servia para limpar os sapatos dos passageiros

Eu contei o caso em que um avião brasileiro salvou um aeroporto – quem quiser ler clique aqui – pois esse mesmo avião salvou a continuidade da linha Santos Dumont-Congonhas, isso mesmo, por pouco os cariocas e paulistas não ficaram sem o voo entre os aeroportos centrais das suas cidades. Em 2019, em uma reforma na pista 1 do aeroporto Santos Dumont, os pousos e decolagens foram jogados para a outra pista, bem menor, e os Boeings e Airbus que atendiam a ponte aérea não conseguiam operar, como só a Azul opera no Brasil os jatos Embraer e estes conseguem pousar e decolar com segurança da pista 2, a ponte aérea não teve essa “mancha” na sua história e continua até hoje, 61 anos depois, transportando cariocas, paulistas, brasileiros e estrangeiros.

Voo do Embraer da Azul que manteve a ponte ativa nas obras da pista 1 do Santos Dumont

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

VOCÊ VOARIA EM UM AVIÃO QUE O “BOTÃO” DE CHAMAR OS TRIPULANTES É O OMBRO DO PILOTO?

O transporte aéreo público entre cidades de Pernambuco não é novo.

Nos anos 50 e 60 a Real Aerovias já fazia o pinga-pinga Petrolina-Ouricuri-Salgueiro-Arcoverde-Caruaru-Recife.

Meu pai, Seu Djalma, quando morava em Ouricuri, fez essa viagem algumas vezes e me disse que demorava quase o dia todo, tempo bem menor que o de carro.

Já nos anos 90, a Avianca botou seus jatos Airbus A320 na linha PNZ (código tridígito de Petrolina) a Recife. A Azul entrou na concorrência com os jatos brasileiros Embraer E190.

Em Caruaru, um grupo de empresários criou a NOAR, Nordeste Operações Aéreas, que chegou a ter 2 aviões tchecos Let L410, voando entre Caruaru e Recife com 2 voos diários.

Mas um acidente, no dia 13 de junho de 2011, pôs fim à empresa que tinha pretensão de expansão para o sertão pernambucano.

Mapa de rotas da Real Aerovias de 1961

Em 2017, o governo do estado e a prefeitura de Serra Talhada iniciaram uma reforma para que o aeroporto pudesse receber voos regulares da empresa Azul que se interessou em ter uma ligação entre o Pajeú e o seu principal hub do Nordeste, o Aeroporto dos Guararapes em Recife.

Com a reforma, várias datas para o inicio da operação foram marcadas e adiadas, até um voo com autoridades foi feito para testar a pista do Santa Magalhães em junho de 2018 em um ATR 72-600, mas o voo com passageiros comuns não foi disponibilizado.

Voo teste em 218 só para políticos e empresários com o moderno ATR

No inicio desse ano, a Azul comprou uma pequena empresa de aviação sub-regional que operava os pequenos monomotores Cessna Grand Caravan com capacidade para 9 passageiros, além do piloto e co-piloto.

Essa aeronave encaixou direitinho nos planos da Azul que incluiu Caruaru e o Aeroporto Regional do Pajeú Santa Magalhães (esse é o nome oficial do SET) na sua malha aérea.

Caravan ainda com a pintura da Two Flex

O Grand Caravan é uma aeronave pequena para pequenos deslocamentos, que fará também a ligação de Recife com Caruaru. O interessante é que este avião não tem tripulação de cabine (aeromoça) nem banheiro. Se algum passageiro tiver algum desarranjo intestinal grave, o piloto terá de fazer um pouso de emergência em um aeroporto mais próximo para que o passageiro faça suas necessidades fisiológicas.

Caso necessite falar com o piloto ou co-piloto, não tem aquele botãozinho no teto: é só se dirigir a frente e tocar no ombro de um deles, já que eles estarão com fones de ouvidos durante o voo.

Para se deslocar dentro do Caravan, o passageiro tem que caminhar abaixado para não bater com a cabeça no teto. Os Cessnas que compõe a frota da Azul foram fabricados em 1993, esses 27 anos de serviço não prejudicam a segurança do voo.

Captura de tela de venda de passagens do site da Azul

O tempo de viagem é de aproximadamente 1 hora e 35 minutos. Serão dois voos por dia e a passagem só de ida ou volta custará R$ 423,90 contra cerca de 120 reais do ônibus leito da progresso.

Para uma pessoa de Tabira se deslocar até Recife não é tão compensador, mesmo sem levar em conta o preço.

Quer ver, vamos fazer os cálculos: deslocamento em carro próprio ou taxi: 1h30 (se for de lotação dura bem mais, lembrando que o aeroporto fica a uns 10 km do Centro da cidade); checkin: 1h00 no mínimo; voo: 1h35, tempo entre a parada do avião e a porta do aeroporto: 30 minutos. Total: 4h35.

O ônibus da Progresso leva em média 6 horas e meia até o Derby.

Imagem do acidente do Caravan da TwoFlex em Manaus em 2019

Em 2019 um Cessna desses, ainda da TwoFlex, se acidentou no aeroporto de Manaus, segundos após a decolagem.

Os dois pilotos e oito passageiros sobreviveram, alguns em estado grave.

E ai tem vontade e coragem?

Vai no site da Azul que os bilhetes já estão disponíveis.