GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

OS 75 DIAS QUE PERNAMBUCO VIROU UMA NAÇÃO

Esse mês de março de 2020 começou com um feriado inusitado na primeira sexta-feira do mês, feriadão no dia 6, era a primeira comemoração da Data Magna da tomada do poder dos portugueses, que ficou conhecida como Revolução dos Padres ou Revolução Pernambucana. Na verdade a comemoração já existia há algum tempo, porém era deslocada para o primeiro domingo de março e como feriado não combina com domingo, ficou esquecida da população até que agora virou folga e praia para os pernambucanos.

Praia lotada no feriado de 6 de março de 2020

A Revolução Pernambucana teve início por ideia dos maçons revoltados com o alto vulto de impostos que era enviado da capitania pernambucana para o Rio de Janeiro a fim de custear as despesas da coroa portuguesa que havia se mudado para a capital do Brasil. A corte era gastadeira: muitas construções, roupas caras, grande número de funcionários e festas ocasionavam a necessidade de transferência de riquezas das capitanias para o Rio, por outro lado, faltava dinheiro para resolver problemas locais, como enfrentamento das secas, infraestrutura urbana e até pagamento dos soldados.

Tela “Benção das Bandeiras da Revolução de 1817” de Antonio Parreiras

A Revolução contou com apoio internacional, Os Estados Unidos haviam aberto seu primeiro consulado no hemisfério Sul na capital pernambucana. Os militares franceses que haviam apoiado Napoleão também se ofereceram para ajudar o movimento com uma condição: resgatar Napoleão Bonaparte de uma ilha no meio do Oceano Atlântico, essa ilha eu já falei dela aqui no SÓ SEI QUE FOI ASSIM, ficou curioso? Clica aqui. Depois de resgatado, Napoleão seria trazido para Pernambuco e posteriormente para Nova Orleans, nos EUA. Alguns destes soldados chegaram a Pernambuco, mas já era tarde, a revolução já havia sido debelada. Assim que chegaram foram presos.

Mapa diagrama dos deslocamentos das forças reais

Após o início da revolução, as províncias da Paraíba e Rio Grande do Norte se juntaram a Pernambuco, o Ceará veio logo depois. Mandaram Cruz Cabugá como embaixador para os Estados Unidos, Cabugá é considerado o primeiro embaixador brasileiro, “era um mulato rico, solteiro, farrista e apreciador dos prazeres da vida. O apelido “Cabugá” lhe foi posto na ourivesaria de seu pai, por conta de certa dificuldade de dicção dele ao falar “bugar”, que é limpar o ouro”, afirma Gustavo dos Santos Ribeiro em “A Missão Cabugá nos EUA”. Criaram uma bandeira e promulgaram uma constituição baseada na da Colômbia. A bandeira era igual a atual de Pernambuco, sendo que tinha três estrelas, simbolizando as três províncias rebeldes. O bairrismo já existia, as hóstias passaram a ser de mandioca e o vinho foi trocado por cachaça.

Bandeira de Pernambuco revolucionário

Pernambuco ainda tentou o apoio de outras províncias, mas sem sucesso. Para a Bahia foi enviado Abreu e Lima, o Padre Roma, que foi fuzilado a mando do governador Conde dos Arcos logo ao desembarcar, a população comemorou cantando: “Bahia é cidade; Pernambuco é grota; Viva Conde d’Arcos; Morra patriota!”. Esse Abreu e Lima é o pai do general homônimo que dá nome a refinaria da Petrobrás e à cidade de Abreu e Lima.

Bárbara de Alencar, heroína de 1817, primeira presa política do Brasil

A coroa mandou 8 mil homens para combater a revolução, pelo mar fecharam o porto e por terra chegaram pelo sertão vindos da Bahia, a batalha final se deu em Ipojuca. Após a vitória da coroa, a comarca de Alagoas pertencente a Pernambuco foi desmembrada em agradecimento aos produtores alagoanos que ficaram ao lado dos portugueses. A Bahia ganhou toda a parte da margem esquerda do Rio São Francisco que hoje pertence ao território baiano. Mesmo sem obter êxito, a Revolução Pernambucana foi importante para que o povo brasileiro se tornasse independente de vez, pois foi a semente da Proclamação da República de 1922.

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

A BRIGA DE TOMAS EDISON COM TESLA E A MORTE DA ELEFANTA

Em 1875 nascia na Ásia a elefanta Topsy, posteriormente foi contrabandeada para os Estados Unidos com fins de ser atração de circo. Era anunciada pelo Circo Forepaugh como a primeira elefanta nascida nos EUA, mas ela não se adaptou a vida circense e se envolveu em vários incidentes, chegando a matar um espectador do circo, uma pessoa que caminhava pela rua e o seu domador. Com estes atos, ela foi condenada a morte por enforcamento, o ato seria uma atração com ingressos pagos, porém a sociedade de defesa dos animais não permitiu e o show macabro foi cancelado.

Cartaz do Circo Foreipauh da época

Nesta mesma época, os Estados Unidos buscavam uma solução para a geração de energia elétrica com a finalidade de iluminar as cidades e mover indústrias e eletrodomésticos. A energia que fazia sucesso inicialmente era a de Tomas Edison, a corrente contínua, DC em inglês, proveniente de enormes geradores, as energias das pilhas e baterias são deste tipo. Tinha uma vantagem: não dava choque, porém perdia força na transmissão por fios de cobre. Os geradores tinham de ser montados a distâncias de no máximo 2 km da unidade consumidora. A energia de Tesla, a corrente alternada, que alimenta nossas residências, AC em inglês, tinha uma perda menor em grandes distâncias e exigia fios menos grossos, o que facilitaria a concentração dos geradores ou aproveitamento da energia hidrelétrica. A ideia inicial era aproveitar a força das cataratas do Niágara para rodar geradores elétricos, essa etapa não era difícil, o grande problema estava em transmitir esta energia até Nova Iorque.

Usina de geração de energia de corrente alternada da empresa Westinghouse

Nikola Tesla havia trabalhado na empresa de Tomas Edison, inclusive apresentou o estudo da corrente alternada para o patrão, que não se interessou pelo projeto, se-arrependeu anos depois. Tesla se uniu ao engenheiro e empresário George Westinghouse e criaram uma empresa para concorrer com a firma de Edison, e deu certo. A corrente contínua perdia espaço para a corrente alternada. A energia enviada do Niágara para Nova Iorque era alternada e muitas cidades americanas mudaram seus sistemas. Edison continuou perdendo clientes, os bondes, por exemplo, eram eletrificados pelos trilhos e não poderiam ser energizados com corrente alternada, até que criaram os bondes com os cabos aéreos. Algumas poucas cidades continuaram com a de Edison, Helsinque, por exemplo, só mudou o sistema para a AC em 1940, mas a grande maioria das cidades usava a energia inventada por Tesla.

Cartaz do filme Batalha das Correntes

Vendo a possibilidade da corrente alternada dominar de vez o mercado, Edison investiu na propaganda, mostrando o risco da AC, a ideia era mostrar o perigo de ter em casa esta ferramenta mortal, e para mostrar este perigo eletrocutou gatos, cachorros de rua e bois. Em 4 de janeiro de 1903, Edison anunciou mais uma peça de divulgação negativa da energia de Tesla: a eletrocussão da elefanta Topsy em praça pública. O ato seria filmado e vendido em cinescópios, também invento de Edison, uma espécie de Youtube acionado por moedas e com apenas 1 vídeo. No Parque Luna em Nova Iorque, colocaram Topsy com os fios nas patas e no pescoço e descarregaram 6600 volts na frente de cerca de 1500 pessoas. Das patas saiu uma fumaça branca e em menos de 1 minuto a elefanta estava morta. Em 2003 foi colocado um monumento em sua homenagem no museu de Coney Island.

Vídeo da eletrocussão de Topsy

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

BANIDOS DE CUBA E SUCESSO NO MUNDO

Nos anos 50 Cuba era um dos países mais desenvolvidos da América Latina, o país tinha uma próspera indústria açucareira, de charuto, rum e café, tinha também a terceira maior renda percápita da América Latina, superava até a da Itália e Espanha. Havana foi a primeira cidade a ter telefone com discagem direta, sem necessidade de telefonista, o país era moderno e atraia muitos investimentos e turistas americanos.

La Sonora Matancera nos anos 50, com Célia Cruz como vocalista

A noite havaneira era de muita salsa, bolero e chá-chá-chá, entre muitos artistas que se destacavam na época, estavam Celia Cruz e Bienvenido Granda (Perfume de Gardenia), sucesso na Ilha de Fulgencio Batista e no mundo. Quando Fidel Castro entrou na ilha e o comunismo foi implantado, os dois cantores se transferiram para o México, solicitaram vistos provisórios para realização de shows, Bienvenido já em carreira solo e Célia como componente da Sonora Matanceira, ao expirar o visto, Célia não mais voltou, junto com parte da banda e posteriormente foi morar em Nova Iorque e Bienvenido foi para Colômbia, Venezuela e Brasil até retornar para o México onde residiu até morrer em 1983. Celia Cruz morou entre EUA e México até a morte em 2003, ambos com muito sucesso no continente, nunca mais retornaram a Cuba devido ao regime de Fidel. Na ilha, esses dois nomes foram praticamente esquecidos, La Sonora Matancera, grupo cubano em que ambos foram componentes em diferente épocas, não tocava seus sucessos, “la revolucion” não permitia que “traidores” da pátria fossem lembrados pelo povo cubano, e eles foram esquecidos pelas novas gerações.

Célia Cruz, a rainha da salsa, já no final da carreira

Pelo que li, Bienvenido Granda aceitou facilmente a vida longe do país natal, mas Celia Cruz nutria uma grande vontade de retornar a Cuba, mas nem na morte da sua mãe o governo permitiu a sua visita. Certa vez ela visitou a ilha, mas em uma parte que pertence aos Estados Unidos, a base aérea de Guantânamo. Esta base é dividida do território cubano apenas por uma cerca gradeada, e na visita, Célia colocou o braço entre a grade e apanhou um punhado de terra do lado cubano e o guardou até o final da sua vida em uma taça, pediu para que colocassem no seu caixão após a sua morte e assim foi feito.

Bienvenido Granda, o bigode que canta. Fez muito sucesso no serviço de som do Cine Alvorada nos anos 60 e 70 com ‘Angustia’, ‘Perfume de Gardenia’ e outros

Quando eu estive em Cuba em outubro de 2018, perguntei aos cubanos pelos dois famosos artistas, mas eles só balançavam a cabeça dizendo que não lembravam, pedi musicas aos grupos que cantavam em barzinhos e restaurantes porém os cantores que passavam nas mesas vendendo os CDs não os conheciam. Eu citava La Sonora Matancera ai todos conheciam, mas não recordavam desses dois ex-vocalistas da banda. Em uma das casas que eu fiquei hospedado, o proprietário era músico, tocava marimba em shows turísticos, perguntei se ele tocava muita música de Bienvenido e Celia Cruz, ele falou algo rápido que eu não entendi, mas percebi uma alteração no humor.

Compay Segundo em clip de Guantanamera, “hino” de Cuba:

Por fim estava visitando uma praça onde tinha a estátua de Tiradentes e um “solícito” cubano na faixa de 60 anos me explicou que ali eram estatuas dos libertadores da América, do Brasil além de Tiradentes tinha também José Bonifácio, e o cubano nos levou para fotografar. Depois ele se apresentou como sendo percussionista do Teatro Alicia Alonso, o principal do país, onde também dava aula de percussão, como estava diante de um especialista em música, perguntei por Bienvenido Granda e Celia Cruz, ele me disse que Celia Cruz morava no México (errou) e nos levou para um bar onde Bienvenido havia cantado, chegando no bar, ele nos mostrou fotos antigas, dos anos 70, de Raul Castro e Fidel tomando um mojito nesse bar com o cantor Compay Segundo, que também fez sucesso na ilha até a sua morte. Perguntei novamente por Bienvenido e ele fez uma cara feia e falou já mudando de tom: “não fales mais nisso”, não foi dessa vez que eu pude conversar sobre esses artistas.

Eu e Adeildo no bar onde Compay Segundo se apresentava

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

A ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE JAÇANÃ E O TREM DAS 11 DE ADONIRAN BARBOSA

Na década de 1890, São Paulo precisava construir uma barragem para o abastecimento público, pois a cidade já tinha aproximadamente 65 mil habitantes, o mesmo tamanho de Pesqueira de hoje, e os reservatórios seriam insuficientes para uma cidade com aptidão de ser grande. O local escolhido foi a Serra da Cantareira e para construção desta barragem fizeram uma linha de trem com 12 quilômetros e 600 metros, começando no bairro do Tamanduateí.

Além dos trens de carga para a construção da represa, a São Paulo Tramway também colocou vários horários com trens de passageiros para atenderem a população na beira da linha. Além das estações Tamanduateí e Cantareira, foram construídas pelo meio mais nove estações: Areal (Parada Três), Santana, Quartel, Santa Terezinha, Mandaqui, Invernada, Parada Sete, Tremembé e Parada Santa. Em Areal a linha se dividia no sentido de Guarulhos, onde seguia-se passando pelas estações Carandiru, Vila Paulicéia, Parada Inglesa, Tucuruvi, Vila Mazzei, Guapira, Vila Galvão, Torres Tibagi, Gopoúva, Vila Augusta, Guarulhos, findando com a estação Cumbica, por trás do que seria o Aeroporto de Guarulhos. Este ramal só foi inaugurado em 1910.

Trem da Cantareira nos anos 50

A música “O Trem das 11” de Adoniran Barbosa fez sucesso em 1964 e relatava o enredo de um filho único que morava com a mãe no bairro de Jaçanã e não poderia ficar mais tempo com a sua amada porque o último trem partia às 11 da noite e o próximo “só amanhã de manhã”, na verdade Adoniran nunca morou em Jaçanã e o último trem partia as 8 e meia, mas a música tem uma rotina do autor que foi adaptada para romântica, mas o motivo da viagem era outro: farra com muita bebida alcoólica.

Famosa foto de Adoniran aguardando o trem na estação

Em Jaçanã ficava a Companhia Cinematográfica Maristela, a “prima pobre” da Companhia Vera Cruz de Cinema, que produziu muitos filmes, foi o primeiro estúdio da capital paulista. Por lá gravaram Procópio Ferreira, Sérgio Brito, Nair Belo, Inezita Barrozo, Mazzaropi e Adoniran Barbosa em “Mulher de Verdade” e “A Pensão de Dona Estela”. O bairro nesta época era residencial, não tendo vida noturna e após as gravações, os atores, diretores e técnicos iam para os bares na Vila Mazzei, a apenas 1 km dali. Adoniran contou em uma entrevista que muitas vezes ia a pé, mas a escuridão dificultava a caminhada, por isso preferia embarcar na estação Jaçanã e seguir no trem que passava por lá várias vezes ao dia, sendo o último às 11 da noite, “não era o trem das 11, era o de 10:59”, complementou Adoniran na entrevista. Este horário de trem existia apenas nos domingos e feriados.

Adoniran no filme “A Pensão de Dona Estela” do Estúdio Maristela

A estação de Jaçanã foi aberta em 1910 com o nome Guapira e por volta de 1930 foi rebatizada como Jaçanã, nome que permaneceu até o término das operações com trens no trecho. Era uma estação movimentada, pois servia ao asilo dos inválidos, além da população das redondezas. A estação foi demolida em junho de 1966, dois anos depois do estrondoso sucesso da música que tornou famosa a estação, gravada pelos Demônios da Garoa. No local da antiga estação hoje tem a Praça Comendador Alberto de Souza.

Demônios da Garoa e o Trem das Onze:

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

HÁ 81 ANOS: CAIO MARTINS, O HERÓI DO ACIDENTE ESQUECIDO

Caio Vianna Martins foi um escoteiro herói, com apenas 15 anos de idade deu sua vida para ajudar outros escoteiros e passageiros de um acidente de trem próximo a Barbacena em Minas Gerais. Após a colisão entre duas composições, uma de passageiros que ia de Belo Horizonte para São Paulo e outra de carga que seguia no sentido contrário, o jovem escoteiro, com fortes dores abdominais, juntou a tropa, porém só contou 23, então coordenou a busca dos outros dois que não estavam ali, acenderam fogueiras para iluminar a busca e já ao amanhecer encontraram Helio Marcos de Almeida e Gerson Hissa Satuf já sem vida. Caio continuou a ajudar outras vítimas do acidente, muitas delas eram imigrantes baianos que seguiam para a capital paulista em busca de trabalho. A ajuda de Barbacena só chegou pela manhã, alguns escoteiros buscaram ajuda dos socorristas para que estes conduzissem Caio para o hospital, mas Caio vendo que a quantidade de macas era insuficiente para todos os feridos, recusou ajuda: “Um escoteiro caminha com as próprias pernas“, e assim fez: “Foi andando, junto a seus amigos, até a cidade, mas, ao chegar ao hotel, sentiu-se mal e foi levado à Santa Casa, onde veio a falecer, por conta do rompimento de vísceras e um grave derrame interno”, relatou Elton Belo Reis na página de Barbacena no facebook. Seu corpo foi levado para Belo Horizonte, onde foi enterrado no mesmo dia junto com os outros dois escoteiros falecidos no acidente.

Capa da página do grupo no facebook

A estação de João Ayres fica a menos de 14 km da cidade de Antonio Carlos, um trecho azarado da movimentada linha férrea que liga BH, Rio e São Paulo. Outros acidentes ocorreram neste trecho, dois antes, em 1925 e 1934 e outro depois, em 1951. Este acidente ocorreu na madrugada do dia 19 de dezembro de 1938 e foi o maior desastre ferroviário até aquela data, mais de 40 mortos e dezenas de feridos. O “trem nocturno”, uma composição que seguia entre as capitais mineira e paulista todos os dias, uma em cada sentido. Era formada por uma locomotiva, vagões de primeira e segunda classes, restaurante (chamava-se buffet), dormitório, correios e carga. Os escoteiros seguiam na primeira classe, os dois vagões da segunda classe estavam lotados de imigrantes baianos que seguiam para São Paulo em busca de dias melhores.

Hotel e estação João Ayres. Veja a esquerda da segunda foto o que sobrou do hotel (fotos do site estacoesferroviarias.com.br)

O trecho é de linha singela mas em algumas estações tinha linha dupla para cruzamento de trens. O N-2 (nocturno) parou na estação de Sítio (atual Antonio Carlos) para embarque e desembarque de passageiros, e para aguardar uma composição cargueira, a CEC-81, que vinha do Rio de Janeiro, conforme determinava a licença (autorização com instruções dada pelo chefe da estação para prosseguir viagem). Quando a CEC-81 passou, o N-2 Nocturno seguiu para João Ayres com a licença que rezava: “o trem N-2 aguarda passagem do trem CEC-81 cargueiro com destino a Belo Horizonte, após a passagem do trem CEC-81 poderá seguir viagem até a estação João Ayres, onde ganharia outra licença para poder descer a serra sentido Mantiqueira e a Santos Dumont”. Na estação João Ayres dois trens cargueiros passaram no sentido contrário, o CEC-81 e logo em seguida o C-65. O conferente Werneck Rodrigues comandava a estação e deixou as duas licenças para os trens cargueiros, uma autorizando a composição CEC-81 seguir e outra determinando que a C-65 aguardasse a passagem do N-2 nocturno. A CEC-81 passou sem parar na estação e consequentemente não pegou a licença, quando a C-65 parou, o ajudante desceu e pegou a licença do CEC-81, mandando seguir viagem, e assim seguiu, na direção contrária e na mesma linha singela do trem nocturno mineiro. faltavam só uns 3 km para o acidente.

Revista O Malho de 29-12-38

José Rabelo era o maquinista da C-65, locomotiva da composição cargueira do acidente, sofreu ferimentos graves. No depoimento disse que o foguista (auxiliar do maquinista) José Moyses viu um clarão pela frente, achou tratar-se do nocturno e que a licença que tinha em mãos estava errada, era para outro trem. Neste momento não pensou duas vezes e pulou do trem.

Recorte do Estado de São Paulo da época

O maquinista do nocturno era Franklin Carlos que declarou: “… fui licenciado na estação de Sítio, onde cruzei com a CEC-81, longe estava de supor que logo atrás daquela havia outro cargueiro que o agente de João Ayres também licenciara. O certo é que a uma distância de 500 metros vi faróis na minha frente, a princípio julguei que fosse algum automóvel na estrada de rodagem, mas logo me veio a lembrança que a estrada não passa por ali, … fiz funcionar o apito por duas vezes e quando percebi que tinha a frente uma composição, lancei mão de todos os freios ao mesmo tempo, gritei para o graxeiro e foguista que pulassem da locomotiva: Saltem porque vamos morrer, …, ambos morreram estupidamente sem saber o que se passou…”

Igreja da Boa Morte em Barbacena, com as vítimas fatais

Após saber do acidente, Werneck “andava como louco na estação andando para lá e para cá”. Enlouqueceu quando soube das consequências do seu erro, fugiu e suicidou-se. Entre os passageiros mortos estava Escragnolle Rocha, conhecido capitalista (agiota) de Belo Horizonte “o qual, segundo se adianta, era conhecido pelo seu apego ao dinheiro, motivo porque viajava na segunda classe, como era do seu hábito. Destinava-se ele ao Espírito Santo, a chamado do seu filho”, fofocava o Estadão no dia seguinte.

Capa do jornal A Noite

Se este acidente tivesse ocorrido em um país que valoriza a história, lá no local da colisão teria um monumento e seria ponto de visitação, mas no Brasil é um fato esquecido. Tão esquecido como o acidente é o jovem escoteiro de 15 anos que lutou o quanto pode pela vida dos outros, deixando de lado a sua, a única grande homenagem a Caio Martins estava no estádio de Niterói onde o Botafogo mandava seus jogos antes de ir para o Engenhão, mas no inicio dos anos 2000, a câmara de vereadores de Niterói mudou o nome do Caio Martins para Mestre Ziza (Zizinho), ex-jogador niteroiense que atuava pelo Flamengo.

Jogo do Botafogo no Estadio Caio Martins, hoje Mestre Ziza

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

O OUSADO SEQUESTRO DO EMBAIXADOR AMERICANO

O ano era 1969, o bairro Botafogo no Rio de Janeiro, há 50 anos aconteceu um fato inesperado, um grupo formado por revolucionários brasileiros ousou sequestrar um embaixador dos Estados Unidos: Charles Elbrick era o seu nome. Às 9 horas da manhã do dia 4 de setembro o grupo se posicionou para a ação na região do Largo dos Leões, dois deles hoje são muito famosos, não pelo sequestro, mas pela vida política que seguiram: FERNANDO GABEIRA, jornalista, político e escritor e FRANKLIN MARTINS, jornalista, ministro da secretaria de comunicações do governo Lula.

Esse era o horário que embaixador passaria na Rua Marques, esquina com Irajá, e não atrasava, mas nesse dia atrasou. Meio-dia chegou um aviso do líder do grupo: temos que almoçar, e assim fizeram no boteco Pé Sujo, ponto de encontro de boêmios, cachaceiros e trabalhadores na hora do almoço, mas voltaram para suas posições combinadas e as 14 horas e 20 minutos surgiu o carro diplomático em um sentido diferente do costumeiro. Sebastião Rios, um dos sequestradores não faz o sinal, percebeu que o veículo era da embaixada de Portugal, se não fosse por esse zelo de Rios, talvez o sequestrado teria sido do português.

Cadillac da embaixada americana abandonado após o sequestro

Às 14 horas e 30 minutos, o grupo já começava a demonstrar sinais de cansaço, mas surge um Cadillac preto com a bandeira americana balançando sobre um dos paralamas, o carro era blindado, mas vinha com os vidros abertos, a placa CD-3 indicava ser o alvo, Rios que segurava um jornal a altura do umbigo desde às 9 da manhã, o levantou para o nível dos olhos, esse era o sinal, começou ai a história de jovens revolucionários apoiados por outros mais experientes, o episódio visava libertar o líder estudantil Vladimir Palmeira, preso no congresso estudantil da UNE em Ibiuna.

O Cadillac parou para um Fusca azul manobrar na rua, o Fusca era conduzido por Franklin Martins e fazia parte da emboscada, o motorista do embaixador quando percebeu a movimentação engatou a marcha ré, mas já era tarde, por trás outro Fusca vermelho, dirigido por Rios impedia o retorno, quatro do grupo se aproximaram, tomaram a direção do motorista. Paulo de Tarso gritou para Charles: “be quiet” já com o revolver apontando para sua cabeça, e seguem até a Rua Vitório Costa onde uma Kombi os aguarda, transportados todos para a Kombi, o embaixador reagiu e tentou tomar o revólver de Virgílio, um dos terroristas, mas tomou uma coronhada de Cyrilo e desistiu.

O Cadillac diplomático é abandonado com o motorista e uma carta com duas exigências do grupo: ler uma manifesto nas rádios e libertar 16 presos, entre eles José Dirceu e João Leonardo (já contei a história deste aqui no JBF. Clique aqui pra reler)

Casa cativeiro de Charles Elbrick, hoje é uma republica de estudantes

O governo autorizou a leitura do manifesto, escrito por Gabeira e libertou os 16 presos, que foram enviados para o México em um avião Lockheed Hércules da FAB. Apesar de a ideia inicial ser de libertar Vladimir Palmeira, os sequestradores incluíram outros com o objetivo de evitar uma futura perseguição direcionada a Vladimir e favorecer outros companheiros que sofriam na prisão. Alguns dos libertados não sabiam por que estava sendo libertados e ao chegarem ao México, a autoridade militar daquele país entrou na aeronave brasileira e ordenou: “saquen las esposas”, Ibraim, um dos libertados respondeu: “nós viemos sós, nossas esposas ficaram no Brasil”, João Leonardo cochichou no seu ouvido: “esposa em espanhol é algema, ele mandou o soldado soltar nossas mãos”. Ao chegar a notícia no Brasil, os sequestradores iniciaram uma operação para libertar o embaixador.

13 presos libertados no embarque na Base Aérea do Galeão, no Rio, mais dois se juntariam ao grupo: Gregório Bezerra no Recife e Mario Zangonato em Belém do Pará

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

CUBA: UMA VIAGEM AOS ANOS 50. TRINIDAD E VARADERO

Em de outubro de 2019 eu fui a Cuba e já contei o começo da viagem aqui no Besta Fubana.

Antes de ler essa postagem, dê uma lida na postagem anterior, clicando aqui.

Na viagem estava programado que a gente ia conhecer o interior, nós escolhemos Trinidad, a ‘Parati” cubana e Varadero, a praia dos ricos com seus resorts de luxo. Dona Meikel, dona da casa que estávamos hospedados em Havana sugeriu que nós fôssemos de carro para Trinidad, era um pouco mais caro mas economizaríamos no translado de casa para a rodoviária e ganhávamos tempo, concordamos com ela e pedimos que a lotação fosse um almedron, carros dos anos 50 que fazem muito sucesso na ilha com os turistas, ela não garantiu, quando chegamos no local combinado estava lá o almedron (foto), porém já estava lotado, o outro carro era um Peugeot dos anos 90, com o motor diesel e o cheiro de fumaça dentro do carro. Adeildo, o mais velho do grupo, sentou logo na frente, eu entrei atrás com um casal de australianos que não falava espanhol muito menos português. A minha porta não abria, tinha que sair pelo outro lado, e lá fomos nós.

Almedron taxi clandestino e Auto pista Nacional

Na saída passamos por baixo da baia de Havana, num túnel dos anos 50, construído antes da revolução, moderno e bem cuidado, depois de mais alguns minutos entramos na Autopista Nacional, uma via expressa com 4 faixas de cada lado, que liga a capital ao Oriente da ilha. Muitos taxis novos da marca Lada e ônibus chineses modernos da marca Yutong dividiam a rodovia com velhos caminhões, tratores e carros dos anos 50 e com o nosso Peugeot. Na beira da estrada muita gente pedindo carona paga (eles balançam dinheiro na mão pra mostrar que não estão lisos e querem pagar), vários postos de combustíveis modernos, bonitos porém pequenos. Depois de um certo tempo o motorista entrou numa estradazinha de terra por uns 500 metros e parou na sede de uma fazenda, lá foi recebido por um senhor e por um rapaz que após alguma conversa entre eles, trouxe um balde de 20 litros de óleo diesel e passou para o tanque do taxi, o motorista pagou e seguimos para Trinidad. Já próximo do destino a rodovia margeia a praia, onde desfruta-se de uma bela paisagem do Mar do Caribe até o destino final: Trinidad.

Placa na lanchonete de beira de estrada: “é melhor ser um bêbado conhecido do que um alcoólico anônimo”. O tratorista transferindo diesel para o taxi

Em Trinidad ficamos na casa de um casal, Yokabi e Rodin, ela dentista e ele médico cirurgião oftalmologista, que havia passado 2 anos em Angola e falava (se comunicava) em português. Falou que tinha amigos médicos no Brasil. Depois de uma conversa, fomos conhecer a cidade, Rodin nos indicou a Cervejaria Trinitaria, um prédio antigo de uma prisão que foi reformado por uma fábrica de cerveja austríaca, disse que não tinha ido porque os preços eram muito caros para o padrão cubano, mesmo para um casal de médico e odontóloga. Lá, tomamos um chopp artesanal e de tira-gosto pedimos ‘brochetas’ sem saber o que era, prá nossa surpresa era o famoso espetinho.

Escadaria, ponto de encontro de turistas em Trinidad, ainda com pouca gente

Em Trinidad os preços das bebidas são muito mais baratas que em Havana, os drinks mojito, daiquiri e um local canchánchara são oferecidos a 1 CUC (lembrando que 1 CUC vale 1 dólar), cada. Uma escadaria com wifi (1 CUC a hora) fica lotada de turistas, ao lado uma feirinha de artesanato. Uma bodega do governo com uma vendedora sonolenta vendia mantimentos com preços muito baixos, mas com limite de compra por família, eles levam uma caderneta para o controle da mercadoria consumida no mês. De manhã, muitos alunos indo à escola a pé, nas carrocerias de caminhões e em charretes. Vários grupos musicais tocavam ritmos locais tradicionais, mas já se vê muitos jovens com as caixinhas de som chinesas tocando reggaeton estilo ‘Despacitos’, El Chacal é cantor sucesso do momento.

Rua de Trinidad e a bodega do governo

Sempre que conversávamos com algum cubano, perguntávamos o que eles sabiam sobre o Brasil, falavam de Lula, novelas e futebol. Encontramos um deles que só conhecia três times brasileiros: Santos, Flamengo e Sport Recife (vídeo abaixo), acredite se quiser. O transporte intermunicipal público é dividido por duas empresas de ônibus: a Viazul, para estrangeiros, cubanos podem viajar, mas pagam os preços dos turistas (20 CUCs por uma viagem de 300 km), e a Omnibus Nacionales, que só transporta cubanos com preços muito baratos, cerca de 1 CUC para o mesmo trajeto. As duas empresas usam veículos novos. Como é relativamente comum o cancelamento das viagens na Viazul, preferimos o taxi para o próximo deslocamento para Varadero.

A viagem de Trinidad para Varadero é por regiões agrícolas, muitas vilas nas margens da rodovia. O dono do taxi clandestino era filiado ao Partido Comunista Cubano, elogiou muito Fidel Castro e Che Guevara. Falou que para possuir um taxi legalizado novo é preciso pagar 20 CUCs por dia ao governo que cede o carro, o motorista tem que manter o veículo, inclusive com as revisões em oficinas autorizadas. Em Varadero tem muitos resorts de empresas estrangeiras, principalmente espanholas, ficamos em um hotel All Inclusive do governo cubano. Lá não se paga nada a mais, o café, almoço, bebidas e tira-gostos estão tudo incluso no preço da diária. O café, almoço e jantar são de primeira, com grande variedade, só não tem itens mais caros como peixe, por exemplo. Outro detalhe: eles demoram a repor o grill, o que faz com se crie filas desnecessárias, em uma fila com 10 pessoas, o assador colocam só a carne solicitada pelo primeiro, após assar e colocar no prato do cliente é que eles colocam outros pedaços de carne. Tirando esses probleminhas, eu dou nota 8 ao restaurante. Na parte das bebidas alcoólicas e petiscos ai a coisa fica feia, eles só servem em alguns horários e o pior o horário do chopp, por exemplo, não coincide com o horário dos petiscos e vice-versa. A moça que abastecia o chopp e outras bebidas não saia do celular e o povo ficava na fila sem reclamar, até que ela dava uma pausa no whatsapp e atendia os clientes. Os drinks eram artificiais, de péssima qualidade. Neste hotel ficavam hospedados os cosmonautas russos nos anos 60, várias fotos nas paredes da recepção comprovavam o fato.

Vista do hotel e taxi clandestino

Em Varadero só ficamos 1 dia e retornamos para Havana no dia seguinte, não vimos grandes movimentações de pessoas pelas ruas e praias da cidade, acredito que isto ocorra dentro dos resorts de luxo.

A terceira parte eu conto noutro dia desses.

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

MACEIÓ E AS TRÊS QUEDAS DO GOGÓ DA EMA

No dia 27 de junho de 1955 caia um dos cartões postais mais famosos das Alagoas da época: o coqueiro Gogó da Ema, que ficava na praia de mesmo nome em Maceió.

O coqueiro era ponto turístico de Maceió nas décadas de 30 a 50

O Gogó da Ema era um entre tantos coqueiros na beira mar de Maceió, quando alguma lesão fez com que o tronco perdesse rigidez e pendesse para um lado, porém logo em seguida, heroicamente, o coqueiro se recompôs e voltou a crescer pra cima. Esse formato do seu caule em forma de ‘S’ ou de um pescoço de uma ema, fez com que ele se tornasse mais famoso que os seus congêneres. Esse formato diferente começou a chamar a atenção de quem por ali passava, numa época que só pescadores frequentavam aquela região.

Imagem do dia da queda do famoso coqueiro

A praia onde ficava o coqueiro era um local de busca por petróleo e muitos poços de prospecção dividiam a paisagem com o Gogó da Ema, desde antes dos anos 30, porém a região da hoje Ponta Verde não era habitada. Até 1945, o coqueiro não recebeu nenhuma ajuda do poder público, até que em 1946 o prefeito Reinaldo Carvalho mandou fazer um muro de arrimo de troncos de outros coqueiros para protege-lo do avanço do mar, em 1948 foi a vez de outro prefeito, João Teixeira, construir uma pracinha ao seu redor com 4 bancos. Depois do sucesso turístico, o Gogó da Ema virou arte na forma de pinturas e fotografias do seu perfil, e até Luiz Gonzaga gravou uma música, que compôs com Zé Dantas falando de praias do Nordeste:

“Navega
Oh! Jangada nesse mar
Enfeitado de coqueiros
E coberto de luar
Navega
No Nordeste pela praia
Quero ver Itapoã
Quero ver minha Atalaia

Boa viagem
Gogó da Ema
Areia preta
Pontal, Tambaú
Adeus Iracema, adeus
Navega.”

Por outro lado o estado de Alagoas se desenvolvia e precisava exportar cada vez mais açúcar, e no Porto de Jaraguá, a poucos quilômetros dali, os grandes navios da época já não conseguiam atracar e foi construído um novo ancoradouro mar adentro. Esta construção mudou as correntes marítimas e prejudicou a fixação do famoso coqueiro, já não tão jovem. “As águas da enseada da Pajuçara passavam, através de um canal próximo ao Porto, para a enseada de Jaraguá, onde era o ancoradouro dos navios. O projeto era transpor essa região onde a corrente passava através de uma ponte, que não foi construída. Foi vedada a passagem dessa corrente. Por isso ela hoje, bate lá e volta, e acentuou o avanço do mar na região do Gogó da Ema”, afirmou o engenheiro Vinicius de Maia Nobre. Às 14 horas e 20 minutos o coqueiro veio ao chão, deixando toda a cidade triste, mas não inerte. No dia seguinte uma operação foi feita para reerguer o famoso maceioense, a Companhia de Força e Luz cedeu o guindaste, marinheiros, soldados do exército e os agrônomos Jesus Fortes e Olavo Machado se encarregaram da parte humana.

Os engenheiros avaliam a situação da raiz do Gogó da Ema antes da operação

Depois de três dias no chão finalmente o coqueiro estava lá de pé, de novo, com um novo aterro mais alto e um muro de troncos maior para protegê-lo das ondas das águas do mar. Um monitoramento foi feito no local, as folhas cortadas durante a operação começaram a nascer e o cartão postal de Maceió estava lá, imponente e vivo, mais famoso que antes, mas a “água mole” do mar continuava a bater forte no paredão vegetal e de areia até que dias depois o Gogó da Ema foi ao chão pela segunda vez, agora sem chance de vida, porém esta não seria sua última queda.

Algumas autoridades no local

O coqueiro caiu e morreu, mas deixou o nome da praia que antes habitou: Praia do Gogó da Ema, uma região que começara a ser valorizada e habitada, com um grande loteamento que já existia no local, o Loteamento Ponta Verde, já com muitos prédios, e os empreendedores preferiram usar o nome ‘Praia da Ponta Verde’, um nome bem mais comercial do que ‘Praia do Gogó da Ema’ para vender os lotes, apartamentos e casas, e assim ficou o nome do bairro.

Imagem atual da Praia da Ponta Verde

Recentemente fui a trabalho em Maceió e acordei cedo para dar uma corrida na beira mar da Praia da Ponta Verde. Do hotel que eu estava hospedado até o letreiro ‘ Eu amo Maceió’ da 7 km (ida e volta) e fui lá, resolvi fazer uma pesquisa: pedir informação a 10 pessoas na orla: ‘onde ficava o Gogó da Ema e onde fica o letreiro?’ Todos indicaram o letreiro, mas nove não sabiam nem o que era esse “Gogó da Ema”, o outro disse que sabia que era naquele bairro mas não o local exato. Foi assim que terminou a história do coqueiro mais famoso do mundo: no esquecimento, culpa nossa que não damos valor ao nosso passado, essa terceira queda, foi a mais dolorosa de todas para quem aprecia a nossa história.

Eu na corrida-pesquisa na linda praia da Ponta Verde, ex-Gogó da Ema

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

CUBA: UMA VIAGEM AOS ANOS 50. A PRIMEIRA IMPRESSÃO

No dia 9 de outubro de 2019 eu pisava em solo cubano para conhecer aquela maravilha de país, um sonho de adolescente finalmente realizado. Ver as figuras de Che Guevara e Camilo Cienfuegos nas paredes dos prédios do Ministério do Interior e da Comunicação, e atravessar a Baia de Havana na barca de Casablanca eram meus grandes desejos, mas o maior era interagir com a população daquele país icônico.

Imagem da Plaza de la Revolucion com a imagem de Camilo Cienfuegos, vista do taxi clandestino

Quando tive a ideia de visitar a ilha de Fidel convidei minha esposa Mônica que não demonstrou interesse, depois convidei os 3 filhos: Junior, Camila e Júlio, que também não quiseram ir. Resolvi ir só, mas conversando com colegas de trabalho, os convidei para a viagem e um deles aceitou: Adeildo, e fomos lá, resolvemos passar uma semana e nos hospedarmos em casas (os moradores podem alugar 2 quartos de suas casas para turistas estrangeiros, desde que tenham autorização do governo) e apenas 1 noite em um resort all inclusive em Varadero, praia paradisíaca a uns 150 km de Havana.

Carniceria (açougue) no Centro Velho de Havana ainda fechada pela manhã

Pousamos no Aeroporto Internacional Jose Marti a noite, só a chegada já dava uma matéria completa do “Só sei que foi assim”, mas vou resumir: O aeroporto é relativamente moderno, mas mal-conservado, deve ter financiamento chinês, pois tem muita propaganda de empresas da China, os adesivos descolando, rasgados e desbotados. Na alfândega apenas 2 raios-x, um deles com uma aprendiz que ficava a toda hora chamando o operador do outro raio-x, tudo muito lento. Muitas agentes alfandegárias, umas moças bonitas, todas na faixa dos 22 a 25 anos com um uniforme elegante, com mini-saias e aquelas meias transparentes que cobrem toda a perna. Elas não se interessam muito pelo serviço, ficam conversando como estudantes na hora do recreio. Passado no raio-x, foi a vez de 2 mesas com enfermeiras conferindo o cartão de vacinação de febre amarela, achei interessante que elas usavam aqueles chapeuzinhos de filme dos anos 50, é uma pena que não podia fotografar nessa área, Adeildo demorou a achar o cartão e uma enfermeira falou: “ayudame”, ele se fez de desentendido até achar o cartão. Pediram pra eu preencher uma ficha com o endereço de onde eu ficaria hospedado e eu percebi que tinha um campo a mais e me dirigi a um grupo de agentes alfandegárias que conversavam, e tive um susto, quando perguntei se elas poderiam me dar uma informação, elas se dissiparam, só ficou uma que respondeu “sim”, muito nervosa, e respondeu muito educada que podia deixar em branco, depois eu vi que Havana é dividida em várias cidades, e era esse campo que eu não preenchi, “Habana Vieja”.

Professora guiando os cubanitos para a escola:

Na esteira muitos cubanos aguardavam as sacolas com “sulanca” embaladas com aquelas fitas durex largas em forma de bola. Na saída tivemos que trocar alguns euros por moeda cubana (tem 2 moedas lá: CUC e CUP), só havia uma CADECA (casa de câmbio) aberta no pavimento superior, de embarque de passageiros, como não havia nenhum avião a decolar, o salão estava muito esquisito e um rapaz nos abordou perguntando se queríamos taxi, respondemos que sim, ajustamos o preço em 25 CUC (1 CUC = 1 dólar americano), ele nos guiou para a troca de moeda e depois para o “ponto de taxi”, pense numa escuridão, não havia nenhum carro no ponto, mas rapidinho chegou um Lada com uns 30 anos de uso, colocamos as malas e entramos, e ai veio o susto: o guia passou para a direção do veículo e o motorista entrou no banco de trás, tudo muito rápido, e seguimos para o endereço. A rodovia é larga, quatro faixas de cada lado e um poste de luz a cada 2 km, fiquei com medo, o cara que ia atrás comigo percebeu que eu estava assustado e disse que eu ficasse despreocupado que em Cuba não há violência e muito menos com turistas. Depois de uns 20 minutos de conversa eu vi a imagem de Che Guevara iluminada e fiquei mais tranquilo. Realmente violência não há, mas a impressão que temos é que os cubanos estão sempre querendo lhe aplicar um golpe. Quando chegamos no prédio, uma espécie de cortiço, o motorista tirou o celular dele e ligou para a casa, a dona veio abrir a porta do prédio, essa “cortesia” da ligação custou 3 CUC. O prédio é antigo, dos anos 30, com o pé direito alto. Eles dividem um andar em dois, a casa era organizada: TV de tubo com programação americana, móveis e enfeites muito parecidos com os que eu via nos anos 70 em Tabira. O quarto era pequeno com um banheiro minúsculo. Enquanto Adeildo tomava banho, eu fui pra sala conversar com Dona Maykel, ela, como todo cubano, falava muito rápido e eu pouco entendia, mostrou a foto do filho e da filha com os netos e disse que moram na periferia de Havana, disse que o marido dela era músico, tocava marimba na noite, disse também que não gostava da programação da TV cubana, nem das novelas brasileiras, por isso assistia aos canais de noticias americanos em língua espanhola. Perguntou se queríamos café da manhã no dia seguinte por 3 CUC, cada, pagos por fora, encomendamos o “desayuno”.

Casario em ruínas, ‘desayuno’ e rua residencial

No dia seguinte acordamos cedo e fomos caminhar pelo Malecon, uma espécie de calçadão na beira mar e pela Baia de Havana. O Malecon é uma atração a parte da cidade, de um lado o mar ou a baia, do outro o casario antigo, uns preservados e outros em ruínas. O dia lá começa mais tarde, nem tanto pelo sol, pois 6 horas já está claro, mas as ruas ainda tem pouca gente, só os primeiros cubanos sonolentos, algo parecido com 4 e meia da manhã no Recife Antigo. Pelo mapa eu sabia que a caminhada ia até a Calle Obispo, principal rua de turismo de Havana, perguntei a uns moradores locais, mas ninguém soube informar, depois entendi, eles falam algo como “opirpo” com o primeiro “P” meio puxado pra “U”: “ouirpo”. Quando voltamos tava lá o café nos aguardando, Dona Meykel perguntou se eu queria café ou chá, preferi café. Suco, ovo frito, mortadela daquelas de 5 reais o quilo, pão e manga cortada, confesso que no Brasil eu teria comido só o pão com margarina, mas lá eu não sabia como seria o dia, tive que comer. O café tava frio, pra não ser chato pedi chá, mas ela falou que eu já havia escolhido o café. Depois disso, passamos a só comer frutas compradas nas ruas, no café da manhã.

Eu me atualizando nas noticias locais no Granma com Adeildo tomando uns mojitos (5 CUCs cada) na Bodeguita del Médio

A primeira impressão de havana era mais ou menos a esperada: muitos cubanos nas ruas, alegres como os nordestinos, que nos abordavam na rua e perguntavam se éramos brasileiros, acredito que identificavam o idioma, sempre se apresentavam dizendo que trabalhavam na região, em hotéis, teatros ou órgãos públicos, falavam sempre que tinham uma prima que morava no Brasil (so conhecem Bahia ou Rio) e que ali perto existia uma cooperativa que os funcionários recebiam 2 caixas de charuto por mês e os vendiam por um preço muito abaixo do mercado, um deles me ofereceu uma caixa de Cohiba por 200 dólares, eu perguntei quanto era nas lojas e ele me disse que era 700. Eu nunca tive a curiosidade de saber o valor real.

O cantor com cara de poucos amigos porque não comprei o CD por “apenas” 10 dólares

A moeda local é o Peso Cubano, essa moeda se paga o salario dos trabalhadores. Um médico ganha mais ou menos 1000 Pesos, ou 40 CUCs, ou 160 reais (1 CUC vale 25 Pesos ou CUPs).

* * *

PRÁ NÃO FICAR MUITO LONGO, CONTINUO EM OUTRA SEMANA

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

HÁ 30 ANOS: O VOO E O JOGO QUE NÃO ACABARAM

No dia 3 de setembro de 89 a seleção brasileira entrava em campo no Maracanã contra o Chile. Para os chilenos só a vitória interessava, caso o Chile vencesse, os canarinhos comandados por Lazzaroni não iriam a Copa do Mundo da Itália em 1990. O Brasil vencia por 1×0 e próximo do final do jogo uma torcedora lançou um rojão em campo, o pipoco foi dentro da pequena área, o goleiro chileno Roberto Rojas aproveitou a situação, tirou uma lâmina que guardava na luva e cortou o seu pulso. Os jogadores chilenos deixaram o campo em “protesto” contra o rojão e o árbitro argentino encerrou a partida deixando milhões de brasileiros apreensivos por não saberem o destino da seleção brasileira.

O goleiro Roberto Rojas simula uma lesão e a fumaça do rojão

Ao término do jogo Brasil e Chile, 54 brasileiros não estavam preocupados com o destino da seleção, e sim com as suas vidas, essas pessoas estavam a bordo de um avião perdido na selva amazônica, eram os passageiros e tripulação do voo Varig 254 que seguia de Marabá para Belém, ambas no Pará. O avião fazia a rota Guarulhos – Uberaba – Uberlândia – Brasilia – Imperatriz – Marabá – Belém. A tripulação composta pelo comandante Garcez, o co-piloto Zilli e 4 aeromoças havia embarcado em Brasília. O avião estava bem abaixo do peso suportado, 48 era o número de passageiros.

Boeing 737 200 da Varig, similar a do acidente

A Varig, 4 meses antes, havia mudado a rotina de inserção da direção do voo no painel do avião, antes bastava girar o botão e alterar os 3 dígitos, já que os ângulos variam de 001 a 360, com a mudança foi acrescentado um dígito decimal. De Marabá para Belém o ângulo da bússola é 27° ou 027 pelo método anterior, no método novo, o manual determinava que os pilotos girassem o botão para 0270, sendo o último zero, o decimal, mas os pilotos interpretaram que tinha que eliminar o zero a esquerda e digitaram 270, e o voo que seguiria para o Norte tomou o rumo Leste. Este erro já havia ocorrido várias vezes em outros voos da Varig sem maiores consequências.

Rota que o voo deveria percorrer (vermelha) e a que percorreu (amarela)

A aeronave Boeing 737 200 levantou voo de Marabá às 17 horas e 35 minutos com previsão de chegada em Belém 50 minutos depois. Ao iniciar o voo o co-piloto relatou que o correto seria que o sol estivesse se pondo do lado esquerdo, mas o comandante não deu muita atenção, chegou-se a cogitar que os pilotos estavam concentrados na partida de futebol que decidia a classificação do Brasil para a copa. Alguns passageiros também estranharam a posição do sol, um deles chamou a aeromoça para informar ao piloto o fato. A aeromoça foi a cabine falou com Garcez, alguns minutos depois Garcez acalmou os passageiros pelo som do avião, informou que o Brasil tinha aberto o placar no Maracanã, 1×0, gol contra de Astengo.

Jornal da época noticia o desaparecimento do avião

Já na hora de pousar no Val de Cans, o co-piloto chamou a torre e esta não respondeu pelo rádio, o co-piloto mudou para uma frequência mais potente e menos nítida (tipo rádio FM para AM) e conseguiu contato com Belém, informou que ia pousar e foi autorizado, o voo começou a diminuir a altitude e Zilli novamente conversou com Garcez: “cadê as luzes de Belém?” Após o avião atingir sua altura de aproximação perceberam que não tinha aeroporto nem Belém por perto. Zilli ainda deu a sugestão de voltar, mas Garcez não deu ouvidos. As 20 horas e 30 minutos os pilotos conseguiram se comunicar com outros voos da Varig que seguiam próximos: “estou com todas as luzes (do painel de emergência) acesas, Só tenho 100 quilos de combustível e vou tentar o pouso”, depois finalmente se comunicou com os passageiros: “tivemos uma pane no sistema de bússola, estamos com o nosso combustível já no final ainda com 15 minutos. Pedimos a todos que mantenham a calma”. Após esse diálogo o comandante começou a iniciar o pouso, um piloto em outra aeronave perguntou o que aconteceu, Garcez informou que foi problema na bússola, logo depois disse: “o motor 1 acabou de parar, a gente vai ter que descer agora, eu não vou poder falar mais, que a gente vai se preparar para o pouso” e as 21 horas o Boeing pousou na mata fechada em São José do Xingu, Mato Grosso.

Matéria do Fantástico da Globo sobre o acidente:

Na aterrizagem no meio da floresta, um misto de pericia dos pilotos e sorte de todos: o charuto (parte principal do avião, onde ficam os tripulantes e os passageiros) saiu com poucos danos, as mortes dos 11 ocupantes e ferimentos em outros 43 (um desses morreria posteriormente por causa das lesões) se deram por conta das poltronas que se soltaram e amontoaram na frente da aeronave. Com a demora em chegar o resgate, que realizavam as buscas em outras regiões mais prováveis, 4 passageiros seguiram em busca de socorro e 4 dias depois chegaram na sede de uma fazenda, e via rádio, comunicaram-se com os órgãos de buscas até serem localizados as 16:25 do dia 5. Os primeiros corpos e sobreviventes foram resgatados já na noite do dia 5.

Capa da revista Playboy com Rosenery Mello, a fogueteira do Maracanã

Os pilotos foram condenados a 4 anos de prisão e essas penas foram convertidas em serviços comunitários. O Chile foi suspenso de campeonatos internacionais por 8 anos, o goleiro chileno Rojas, atleta são-paulino, foi banido do futebol e não conseguiu trabalho no Chile, sendo acolhido pelo São Paulo que o empregou como treinador de goleiros e a torcedora que soltou o rojão ficou conhecida como Rosenery Fogueteira, ficou famosa, pousou para a Playboy, voltou para o anonimato e morreu em 2011 com 45 anos de idade de aneurisma cerebral.