GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

O TRISTE FIM DO VENGEANCE / MINAS GERAIS

No ano de 2001 a Marinha do Brasil colocou em operação o porta-aviões São Paulo, comprado da França para substituir o imponente, porém obsoleto, Minas Gerais. É desse segundo porta-aviões que eu vou falar, o Navio-Aeródromo Ligeiro Minas Gerais, de matrícula A-11, que serviu a Marinha do Brasil entre 1960 e 2001. Suas dimensões são magníficas, desde que não sejam comparadas com os modernos navios de guerra americanos, chineses e de outras bandeiras de países com uma marinha de guerra forte. Ele possui 211 metros de comprimento e se desloca a uma velocidade de 46 km/h e foi essa velocidade que o fez obsoleto.

Porta-aviões São Paulo A12, substituto do Minas Gerais na Marinha do Brasil

O Minas Gerais foi construído na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, à sombra dos bombardeios alemães. Foi batizado com um nome sugestivo para a época: Vengeance, Vingança em português, com a principal finalidade de combater as tropas japonesas no Pacífico e seguiu para esta zona logo após seu batismo, mas não chegou a entrar em combate, quando a guerra acabou o Vengeance estava aportado em Sidney na Austrália, porém seguiu para a região e foi o primeiro navio britânico a entrar em Hong Kong após o armistício, o navio serviu de escritório para a assinatura da rendição japonesa. O Vengeance ainda hoje é cultuado pelo povo de Hong Kong.

O Vengeance “australiano”

Durante sua estada na Austrália, o Vengeance foi preparado para a Guerra da Coréia, porém foi substituído por outro navio, já que este era emprestado pelos ingleses enquanto concluíam outro porta-aviões, o Melbourne, encomendado pela Marinha Real Australiana. Há quem acredite que essa foi uma desculpa da marinha australiana por não poder pagar e que a Inglaterra não tendo como reincorpora-lo a sua marinha, vendeu ao Brasil por um precinho camarada.

Breve história do Minas Gerais:

O Brasil construía a nova capital quando o já batizado Minas Gerais chegou ao Rio de Janeiro, o primeiro de uma marinha das Américas, excluindo os EUA, foi a nau capitânia da armada brasileira, ou seja, o mais importante da Marinha. Apesar da grande importância ostensiva do “Minas”, este nunca foi efetivamente usado em conflitos, o mais próximo que chegou de um confronto foi quando foi deslocado para aguas territoriais em Pernambuco para combater os franceses na Guerra da Lagosta, que por sorte nossa, foi resolvida sem haver necessidade de disparar um só tiro.

O NAeL Minas Gerais navegando imponente em águas brasileiras

Depois de 4 décadas de serviços prestados ao Brasil (o Minas Gerais era o último porta-aviões da Segunda Guerra ainda em operação), o gigante já não servia mais para a guerra e finalmente em julho de 2002 foi vendido em um leilão por dois milhões de dólares para um estaleiro chinês que se interessou na reciclagem do material. Entre os interessados estava uma ONG inglesa de ex-combatentes da Segunda Guerra, que o queria o-transformar em um museu flutuante, porém não conseguiu juntar dinheiro suficiente para arremata-lo. “Como um velho cachorro já sem controle sobre as próprias pernas, o Porta-aviões Minas Gerais saiu do Rio de Janeiro rebocado, abandonando assim a baía que foi sua casa por quarenta anos, e foi em direção à eutanásia nas areias de Alang, na Índia”, descreveu o site Mar Sem Fim, sobre a partida do navio que nunca disparou um só tiro em conflito. Alang é o maior “abatedouro” de navios do mundo e é lá que está em avançado estado de decomposição o pacato e majestoso Vengeance/Minas Gerais.

Jornal de Hong Kong mostra a situação do Vengeance

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A VIOLENTA E MISTERIOSA MORTE DO FOTÓGRAFO DE LAMPIÃO

Nos anos 80 eu estudava no Colégio Nóbrega e para fugir das linhas “Setúbal” e “CDU – Boa Viagem”, sempre lotadas, eu ia caminhando até a Nossa Senhora do Carmo pra pegar o “Shopping” ou “Aeroporto”, mais vagos. Nessa caminhada pela Conde da Boa Vista, eu passava por 3 lojas de revelações de fotos: a Aba Film, a Tabira Filmes e a Sonora, essa última tinha lançado a moda comercial: quem revelasse o filme lá, ganhava outro filme virgem, e a propaganda na televisão rezava: “na Sonora é assim, filme vai, filme vem”. Na Tabira Filmes eu procurava alguma foto na parede da minha cidade Tabira, mas não tinha, também nenhum funcionário tabirense, na época já me perguntavam se eu conhecia o dono, ainda hoje me perguntam. Na Aba eu dava uma parada porque tinha fotos dos cangaceiros, uma delas, grande lá no fundo, mostrava Benjamin Abrahão cumprimentando Lampião.

Imagem que havia no fundo da Aba Film da Conde da Boa Vista

Essa minha atração pela Aba Film fazia sentido por esta ter sido a empresa que revelou as fotos e filmagens do bando de Lampião na sua loja matriz em Fortaleza, propriedade do bancário Ademar Bezerra de Albuquerque, que emprestou suas iniciais para o nome da empresa, emprestou também todo o equipamento e treinamento para que o libanês Benjamin Abrahão Botto filmasse e fotografasse os cangaceiros no seu ambiente natural, a caatinga nordestina.

Benjamim enquanto secretário de Padre Cícero do Juazeiro

Benjamin era um mascate libanês que veio para o Brasil correndo da I Guerra Mundial e aqui se estabeleceu, depois conheceu Padre Cícero e ficou sendo seu secretário, foi através deste posto que conheceu Lampião na sua passagem por Juazeiro do Norte em 1926, quando foi pedir a benção de “Padim Ciço Romão” e receber a patente de Capitão para combater a Coluna Prestes. Após a morte do Padre Cícero, Benjamin tentou entrar no ramo dos souvenires, cortou o cabelo do “padim” e vendia para os romeiros, ganhou muito dinheiro durante uns 6 meses, tempo suficiente para perceberem que o padre não possuía essa quantidade toda de cabelos, foi ai que Benjamin procurou Lampião para pedir para acompanha-lo nos deslocamentos e filmar o dia-a-dia dos cangaceiros, Lampião topou e Benjamim foi para Fortaleza pegar o material com Ademar da Aba Filmes.

Foto antiga da Aba Film de Fortaleza. A empresa faliu em 2010 por falta de clientes

O governo de Getúlio Vargas não gostou muito deste feito, de divulgar o Brasil sem lei no interior do Nordeste e apreendeu os filmes dando um enorme prejuízo a Benjamin e principalmente a Ademar que teve o equipamento confiscado e não pode ganhar dinheiro com as filmagens. Após a fama ganha como fotógrafo veio um novo desemprego e Benjamin foi procurar trabalho de fotógrafo no Diário de Pernambuco, e conseguiu, nesse período da vida do libanês não há muito registro e os que tem são desencontrados. Em 7 de maio de 38, Benjamin Abrahão Botto foi morto em Pau-ferro, hoje Itaíba, à época distrito de Águas Belas, em Pernambuco, com 42 facadas. O crime não teve seu autor nem sua motivação desvendada, especula-se que foi latrocínio, porém com ele nada havia de valor. Outra versão diz que foi morto a mando do sistema.

Cobertura fotográfica feita por Abrahão para o DP da vaquejada de Pau-ferro

Sobre a Tabira Filmes eu descobri o porquê do nome. Na década de 50 foi construído um grande edifício para a época na Av. Conde da Boa Vista, e o seu construtor homenageou o amigo deputado estadual Pedro Pires Ferreira, dando o nome da sua terra natal, Tabira, que recentemente havia mudado seu status de distrito para cidade, uma das lojas no térreo do Edifício Tabira foi batizada com o nome do prédio: Tabira Filmes. Atualmente a empresa conta com várias lojas em shoppings do Recife e passou a se chamar Tabira Digital.

Loja Tabira Digital no Shopping Recife

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OS 75 DIAS QUE PERNAMBUCO VIROU UMA NAÇÃO

Esse mês de março de 2020 começou com um feriado inusitado na primeira sexta-feira do mês, feriadão no dia 6, era a primeira comemoração da Data Magna da tomada do poder dos portugueses, que ficou conhecida como Revolução dos Padres ou Revolução Pernambucana. Na verdade a comemoração já existia há algum tempo, porém era deslocada para o primeiro domingo de março e como feriado não combina com domingo, ficou esquecida da população até que agora virou folga e praia para os pernambucanos.

Praia lotada no feriado de 6 de março de 2020

A Revolução Pernambucana teve início por ideia dos maçons revoltados com o alto vulto de impostos que era enviado da capitania pernambucana para o Rio de Janeiro a fim de custear as despesas da coroa portuguesa que havia se mudado para a capital do Brasil. A corte era gastadeira: muitas construções, roupas caras, grande número de funcionários e festas ocasionavam a necessidade de transferência de riquezas das capitanias para o Rio, por outro lado, faltava dinheiro para resolver problemas locais, como enfrentamento das secas, infraestrutura urbana e até pagamento dos soldados.

Tela “Benção das Bandeiras da Revolução de 1817” de Antonio Parreiras

A Revolução contou com apoio internacional, Os Estados Unidos haviam aberto seu primeiro consulado no hemisfério Sul na capital pernambucana. Os militares franceses que haviam apoiado Napoleão também se ofereceram para ajudar o movimento com uma condição: resgatar Napoleão Bonaparte de uma ilha no meio do Oceano Atlântico, essa ilha eu já falei dela aqui no SÓ SEI QUE FOI ASSIM, ficou curioso? Clica aqui. Depois de resgatado, Napoleão seria trazido para Pernambuco e posteriormente para Nova Orleans, nos EUA. Alguns destes soldados chegaram a Pernambuco, mas já era tarde, a revolução já havia sido debelada. Assim que chegaram foram presos.

Mapa diagrama dos deslocamentos das forças reais

Após o início da revolução, as províncias da Paraíba e Rio Grande do Norte se juntaram a Pernambuco, o Ceará veio logo depois. Mandaram Cruz Cabugá como embaixador para os Estados Unidos, Cabugá é considerado o primeiro embaixador brasileiro, “era um mulato rico, solteiro, farrista e apreciador dos prazeres da vida. O apelido “Cabugá” lhe foi posto na ourivesaria de seu pai, por conta de certa dificuldade de dicção dele ao falar “bugar”, que é limpar o ouro”, afirma Gustavo dos Santos Ribeiro em “A Missão Cabugá nos EUA”. Criaram uma bandeira e promulgaram uma constituição baseada na da Colômbia. A bandeira era igual a atual de Pernambuco, sendo que tinha três estrelas, simbolizando as três províncias rebeldes. O bairrismo já existia, as hóstias passaram a ser de mandioca e o vinho foi trocado por cachaça.

Bandeira de Pernambuco revolucionário

Pernambuco ainda tentou o apoio de outras províncias, mas sem sucesso. Para a Bahia foi enviado Abreu e Lima, o Padre Roma, que foi fuzilado a mando do governador Conde dos Arcos logo ao desembarcar, a população comemorou cantando: “Bahia é cidade; Pernambuco é grota; Viva Conde d’Arcos; Morra patriota!”. Esse Abreu e Lima é o pai do general homônimo que dá nome a refinaria da Petrobrás e à cidade de Abreu e Lima.

Bárbara de Alencar, heroína de 1817, primeira presa política do Brasil

A coroa mandou 8 mil homens para combater a revolução, pelo mar fecharam o porto e por terra chegaram pelo sertão vindos da Bahia, a batalha final se deu em Ipojuca. Após a vitória da coroa, a comarca de Alagoas pertencente a Pernambuco foi desmembrada em agradecimento aos produtores alagoanos que ficaram ao lado dos portugueses. A Bahia ganhou toda a parte da margem esquerda do Rio São Francisco que hoje pertence ao território baiano. Mesmo sem obter êxito, a Revolução Pernambucana foi importante para que o povo brasileiro se tornasse independente de vez, pois foi a semente da Proclamação da República de 1922.

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A BRIGA DE TOMAS EDISON COM TESLA E A MORTE DA ELEFANTA

Em 1875 nascia na Ásia a elefanta Topsy, posteriormente foi contrabandeada para os Estados Unidos com fins de ser atração de circo. Era anunciada pelo Circo Forepaugh como a primeira elefanta nascida nos EUA, mas ela não se adaptou a vida circense e se envolveu em vários incidentes, chegando a matar um espectador do circo, uma pessoa que caminhava pela rua e o seu domador. Com estes atos, ela foi condenada a morte por enforcamento, o ato seria uma atração com ingressos pagos, porém a sociedade de defesa dos animais não permitiu e o show macabro foi cancelado.

Cartaz do Circo Foreipauh da época

Nesta mesma época, os Estados Unidos buscavam uma solução para a geração de energia elétrica com a finalidade de iluminar as cidades e mover indústrias e eletrodomésticos. A energia que fazia sucesso inicialmente era a de Tomas Edison, a corrente contínua, DC em inglês, proveniente de enormes geradores, as energias das pilhas e baterias são deste tipo. Tinha uma vantagem: não dava choque, porém perdia força na transmissão por fios de cobre. Os geradores tinham de ser montados a distâncias de no máximo 2 km da unidade consumidora. A energia de Tesla, a corrente alternada, que alimenta nossas residências, AC em inglês, tinha uma perda menor em grandes distâncias e exigia fios menos grossos, o que facilitaria a concentração dos geradores ou aproveitamento da energia hidrelétrica. A ideia inicial era aproveitar a força das cataratas do Niágara para rodar geradores elétricos, essa etapa não era difícil, o grande problema estava em transmitir esta energia até Nova Iorque.

Usina de geração de energia de corrente alternada da empresa Westinghouse

Nikola Tesla havia trabalhado na empresa de Tomas Edison, inclusive apresentou o estudo da corrente alternada para o patrão, que não se interessou pelo projeto, se-arrependeu anos depois. Tesla se uniu ao engenheiro e empresário George Westinghouse e criaram uma empresa para concorrer com a firma de Edison, e deu certo. A corrente contínua perdia espaço para a corrente alternada. A energia enviada do Niágara para Nova Iorque era alternada e muitas cidades americanas mudaram seus sistemas. Edison continuou perdendo clientes, os bondes, por exemplo, eram eletrificados pelos trilhos e não poderiam ser energizados com corrente alternada, até que criaram os bondes com os cabos aéreos. Algumas poucas cidades continuaram com a de Edison, Helsinque, por exemplo, só mudou o sistema para a AC em 1940, mas a grande maioria das cidades usava a energia inventada por Tesla.

Cartaz do filme Batalha das Correntes

Vendo a possibilidade da corrente alternada dominar de vez o mercado, Edison investiu na propaganda, mostrando o risco da AC, a ideia era mostrar o perigo de ter em casa esta ferramenta mortal, e para mostrar este perigo eletrocutou gatos, cachorros de rua e bois. Em 4 de janeiro de 1903, Edison anunciou mais uma peça de divulgação negativa da energia de Tesla: a eletrocussão da elefanta Topsy em praça pública. O ato seria filmado e vendido em cinescópios, também invento de Edison, uma espécie de Youtube acionado por moedas e com apenas 1 vídeo. No Parque Luna em Nova Iorque, colocaram Topsy com os fios nas patas e no pescoço e descarregaram 6600 volts na frente de cerca de 1500 pessoas. Das patas saiu uma fumaça branca e em menos de 1 minuto a elefanta estava morta. Em 2003 foi colocado um monumento em sua homenagem no museu de Coney Island.

Vídeo da eletrocussão de Topsy

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BANIDOS DE CUBA E SUCESSO NO MUNDO

Nos anos 50 Cuba era um dos países mais desenvolvidos da América Latina, o país tinha uma próspera indústria açucareira, de charuto, rum e café, tinha também a terceira maior renda percápita da América Latina, superava até a da Itália e Espanha. Havana foi a primeira cidade a ter telefone com discagem direta, sem necessidade de telefonista, o país era moderno e atraia muitos investimentos e turistas americanos.

La Sonora Matancera nos anos 50, com Célia Cruz como vocalista

A noite havaneira era de muita salsa, bolero e chá-chá-chá, entre muitos artistas que se destacavam na época, estavam Celia Cruz e Bienvenido Granda (Perfume de Gardenia), sucesso na Ilha de Fulgencio Batista e no mundo. Quando Fidel Castro entrou na ilha e o comunismo foi implantado, os dois cantores se transferiram para o México, solicitaram vistos provisórios para realização de shows, Bienvenido já em carreira solo e Célia como componente da Sonora Matanceira, ao expirar o visto, Célia não mais voltou, junto com parte da banda e posteriormente foi morar em Nova Iorque e Bienvenido foi para Colômbia, Venezuela e Brasil até retornar para o México onde residiu até morrer em 1983. Celia Cruz morou entre EUA e México até a morte em 2003, ambos com muito sucesso no continente, nunca mais retornaram a Cuba devido ao regime de Fidel. Na ilha, esses dois nomes foram praticamente esquecidos, La Sonora Matancera, grupo cubano em que ambos foram componentes em diferente épocas, não tocava seus sucessos, “la revolucion” não permitia que “traidores” da pátria fossem lembrados pelo povo cubano, e eles foram esquecidos pelas novas gerações.

Célia Cruz, a rainha da salsa, já no final da carreira

Pelo que li, Bienvenido Granda aceitou facilmente a vida longe do país natal, mas Celia Cruz nutria uma grande vontade de retornar a Cuba, mas nem na morte da sua mãe o governo permitiu a sua visita. Certa vez ela visitou a ilha, mas em uma parte que pertence aos Estados Unidos, a base aérea de Guantânamo. Esta base é dividida do território cubano apenas por uma cerca gradeada, e na visita, Célia colocou o braço entre a grade e apanhou um punhado de terra do lado cubano e o guardou até o final da sua vida em uma taça, pediu para que colocassem no seu caixão após a sua morte e assim foi feito.

Bienvenido Granda, o bigode que canta. Fez muito sucesso no serviço de som do Cine Alvorada nos anos 60 e 70 com ‘Angustia’, ‘Perfume de Gardenia’ e outros

Quando eu estive em Cuba em outubro de 2018, perguntei aos cubanos pelos dois famosos artistas, mas eles só balançavam a cabeça dizendo que não lembravam, pedi musicas aos grupos que cantavam em barzinhos e restaurantes porém os cantores que passavam nas mesas vendendo os CDs não os conheciam. Eu citava La Sonora Matancera ai todos conheciam, mas não recordavam desses dois ex-vocalistas da banda. Em uma das casas que eu fiquei hospedado, o proprietário era músico, tocava marimba em shows turísticos, perguntei se ele tocava muita música de Bienvenido e Celia Cruz, ele falou algo rápido que eu não entendi, mas percebi uma alteração no humor.

Compay Segundo em clip de Guantanamera, “hino” de Cuba:

Por fim estava visitando uma praça onde tinha a estátua de Tiradentes e um “solícito” cubano na faixa de 60 anos me explicou que ali eram estatuas dos libertadores da América, do Brasil além de Tiradentes tinha também José Bonifácio, e o cubano nos levou para fotografar. Depois ele se apresentou como sendo percussionista do Teatro Alicia Alonso, o principal do país, onde também dava aula de percussão, como estava diante de um especialista em música, perguntei por Bienvenido Granda e Celia Cruz, ele me disse que Celia Cruz morava no México (errou) e nos levou para um bar onde Bienvenido havia cantado, chegando no bar, ele nos mostrou fotos antigas, dos anos 70, de Raul Castro e Fidel tomando um mojito nesse bar com o cantor Compay Segundo, que também fez sucesso na ilha até a sua morte. Perguntei novamente por Bienvenido e ele fez uma cara feia e falou já mudando de tom: “não fales mais nisso”, não foi dessa vez que eu pude conversar sobre esses artistas.

Eu e Adeildo no bar onde Compay Segundo se apresentava

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A ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE JAÇANÃ E O TREM DAS 11 DE ADONIRAN BARBOSA

Na década de 1890, São Paulo precisava construir uma barragem para o abastecimento público, pois a cidade já tinha aproximadamente 65 mil habitantes, o mesmo tamanho de Pesqueira de hoje, e os reservatórios seriam insuficientes para uma cidade com aptidão de ser grande. O local escolhido foi a Serra da Cantareira e para construção desta barragem fizeram uma linha de trem com 12 quilômetros e 600 metros, começando no bairro do Tamanduateí.

Além dos trens de carga para a construção da represa, a São Paulo Tramway também colocou vários horários com trens de passageiros para atenderem a população na beira da linha. Além das estações Tamanduateí e Cantareira, foram construídas pelo meio mais nove estações: Areal (Parada Três), Santana, Quartel, Santa Terezinha, Mandaqui, Invernada, Parada Sete, Tremembé e Parada Santa. Em Areal a linha se dividia no sentido de Guarulhos, onde seguia-se passando pelas estações Carandiru, Vila Paulicéia, Parada Inglesa, Tucuruvi, Vila Mazzei, Guapira, Vila Galvão, Torres Tibagi, Gopoúva, Vila Augusta, Guarulhos, findando com a estação Cumbica, por trás do que seria o Aeroporto de Guarulhos. Este ramal só foi inaugurado em 1910.

Trem da Cantareira nos anos 50

A música “O Trem das 11” de Adoniran Barbosa fez sucesso em 1964 e relatava o enredo de um filho único que morava com a mãe no bairro de Jaçanã e não poderia ficar mais tempo com a sua amada porque o último trem partia às 11 da noite e o próximo “só amanhã de manhã”, na verdade Adoniran nunca morou em Jaçanã e o último trem partia as 8 e meia, mas a música tem uma rotina do autor que foi adaptada para romântica, mas o motivo da viagem era outro: farra com muita bebida alcoólica.

Famosa foto de Adoniran aguardando o trem na estação

Em Jaçanã ficava a Companhia Cinematográfica Maristela, a “prima pobre” da Companhia Vera Cruz de Cinema, que produziu muitos filmes, foi o primeiro estúdio da capital paulista. Por lá gravaram Procópio Ferreira, Sérgio Brito, Nair Belo, Inezita Barrozo, Mazzaropi e Adoniran Barbosa em “Mulher de Verdade” e “A Pensão de Dona Estela”. O bairro nesta época era residencial, não tendo vida noturna e após as gravações, os atores, diretores e técnicos iam para os bares na Vila Mazzei, a apenas 1 km dali. Adoniran contou em uma entrevista que muitas vezes ia a pé, mas a escuridão dificultava a caminhada, por isso preferia embarcar na estação Jaçanã e seguir no trem que passava por lá várias vezes ao dia, sendo o último às 11 da noite, “não era o trem das 11, era o de 10:59”, complementou Adoniran na entrevista. Este horário de trem existia apenas nos domingos e feriados.

Adoniran no filme “A Pensão de Dona Estela” do Estúdio Maristela

A estação de Jaçanã foi aberta em 1910 com o nome Guapira e por volta de 1930 foi rebatizada como Jaçanã, nome que permaneceu até o término das operações com trens no trecho. Era uma estação movimentada, pois servia ao asilo dos inválidos, além da população das redondezas. A estação foi demolida em junho de 1966, dois anos depois do estrondoso sucesso da música que tornou famosa a estação, gravada pelos Demônios da Garoa. No local da antiga estação hoje tem a Praça Comendador Alberto de Souza.

Demônios da Garoa e o Trem das Onze:

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HÁ 81 ANOS: CAIO MARTINS, O HERÓI DO ACIDENTE ESQUECIDO

Caio Vianna Martins foi um escoteiro herói, com apenas 15 anos de idade deu sua vida para ajudar outros escoteiros e passageiros de um acidente de trem próximo a Barbacena em Minas Gerais. Após a colisão entre duas composições, uma de passageiros que ia de Belo Horizonte para São Paulo e outra de carga que seguia no sentido contrário, o jovem escoteiro, com fortes dores abdominais, juntou a tropa, porém só contou 23, então coordenou a busca dos outros dois que não estavam ali, acenderam fogueiras para iluminar a busca e já ao amanhecer encontraram Helio Marcos de Almeida e Gerson Hissa Satuf já sem vida. Caio continuou a ajudar outras vítimas do acidente, muitas delas eram imigrantes baianos que seguiam para a capital paulista em busca de trabalho. A ajuda de Barbacena só chegou pela manhã, alguns escoteiros buscaram ajuda dos socorristas para que estes conduzissem Caio para o hospital, mas Caio vendo que a quantidade de macas era insuficiente para todos os feridos, recusou ajuda: “Um escoteiro caminha com as próprias pernas“, e assim fez: “Foi andando, junto a seus amigos, até a cidade, mas, ao chegar ao hotel, sentiu-se mal e foi levado à Santa Casa, onde veio a falecer, por conta do rompimento de vísceras e um grave derrame interno”, relatou Elton Belo Reis na página de Barbacena no facebook. Seu corpo foi levado para Belo Horizonte, onde foi enterrado no mesmo dia junto com os outros dois escoteiros falecidos no acidente.

Capa da página do grupo no facebook

A estação de João Ayres fica a menos de 14 km da cidade de Antonio Carlos, um trecho azarado da movimentada linha férrea que liga BH, Rio e São Paulo. Outros acidentes ocorreram neste trecho, dois antes, em 1925 e 1934 e outro depois, em 1951. Este acidente ocorreu na madrugada do dia 19 de dezembro de 1938 e foi o maior desastre ferroviário até aquela data, mais de 40 mortos e dezenas de feridos. O “trem nocturno”, uma composição que seguia entre as capitais mineira e paulista todos os dias, uma em cada sentido. Era formada por uma locomotiva, vagões de primeira e segunda classes, restaurante (chamava-se buffet), dormitório, correios e carga. Os escoteiros seguiam na primeira classe, os dois vagões da segunda classe estavam lotados de imigrantes baianos que seguiam para São Paulo em busca de dias melhores.

Hotel e estação João Ayres. Veja a esquerda da segunda foto o que sobrou do hotel (fotos do site estacoesferroviarias.com.br)

O trecho é de linha singela mas em algumas estações tinha linha dupla para cruzamento de trens. O N-2 (nocturno) parou na estação de Sítio (atual Antonio Carlos) para embarque e desembarque de passageiros, e para aguardar uma composição cargueira, a CEC-81, que vinha do Rio de Janeiro, conforme determinava a licença (autorização com instruções dada pelo chefe da estação para prosseguir viagem). Quando a CEC-81 passou, o N-2 Nocturno seguiu para João Ayres com a licença que rezava: “o trem N-2 aguarda passagem do trem CEC-81 cargueiro com destino a Belo Horizonte, após a passagem do trem CEC-81 poderá seguir viagem até a estação João Ayres, onde ganharia outra licença para poder descer a serra sentido Mantiqueira e a Santos Dumont”. Na estação João Ayres dois trens cargueiros passaram no sentido contrário, o CEC-81 e logo em seguida o C-65. O conferente Werneck Rodrigues comandava a estação e deixou as duas licenças para os trens cargueiros, uma autorizando a composição CEC-81 seguir e outra determinando que a C-65 aguardasse a passagem do N-2 nocturno. A CEC-81 passou sem parar na estação e consequentemente não pegou a licença, quando a C-65 parou, o ajudante desceu e pegou a licença do CEC-81, mandando seguir viagem, e assim seguiu, na direção contrária e na mesma linha singela do trem nocturno mineiro. faltavam só uns 3 km para o acidente.

Revista O Malho de 29-12-38

José Rabelo era o maquinista da C-65, locomotiva da composição cargueira do acidente, sofreu ferimentos graves. No depoimento disse que o foguista (auxiliar do maquinista) José Moyses viu um clarão pela frente, achou tratar-se do nocturno e que a licença que tinha em mãos estava errada, era para outro trem. Neste momento não pensou duas vezes e pulou do trem.

Recorte do Estado de São Paulo da época

O maquinista do nocturno era Franklin Carlos que declarou: “… fui licenciado na estação de Sítio, onde cruzei com a CEC-81, longe estava de supor que logo atrás daquela havia outro cargueiro que o agente de João Ayres também licenciara. O certo é que a uma distância de 500 metros vi faróis na minha frente, a princípio julguei que fosse algum automóvel na estrada de rodagem, mas logo me veio a lembrança que a estrada não passa por ali, … fiz funcionar o apito por duas vezes e quando percebi que tinha a frente uma composição, lancei mão de todos os freios ao mesmo tempo, gritei para o graxeiro e foguista que pulassem da locomotiva: Saltem porque vamos morrer, …, ambos morreram estupidamente sem saber o que se passou…”

Igreja da Boa Morte em Barbacena, com as vítimas fatais

Após saber do acidente, Werneck “andava como louco na estação andando para lá e para cá”. Enlouqueceu quando soube das consequências do seu erro, fugiu e suicidou-se. Entre os passageiros mortos estava Escragnolle Rocha, conhecido capitalista (agiota) de Belo Horizonte “o qual, segundo se adianta, era conhecido pelo seu apego ao dinheiro, motivo porque viajava na segunda classe, como era do seu hábito. Destinava-se ele ao Espírito Santo, a chamado do seu filho”, fofocava o Estadão no dia seguinte.

Capa do jornal A Noite

Se este acidente tivesse ocorrido em um país que valoriza a história, lá no local da colisão teria um monumento e seria ponto de visitação, mas no Brasil é um fato esquecido. Tão esquecido como o acidente é o jovem escoteiro de 15 anos que lutou o quanto pode pela vida dos outros, deixando de lado a sua, a única grande homenagem a Caio Martins estava no estádio de Niterói onde o Botafogo mandava seus jogos antes de ir para o Engenhão, mas no inicio dos anos 2000, a câmara de vereadores de Niterói mudou o nome do Caio Martins para Mestre Ziza (Zizinho), ex-jogador niteroiense que atuava pelo Flamengo.

Jogo do Botafogo no Estadio Caio Martins, hoje Mestre Ziza

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O OUSADO SEQUESTRO DO EMBAIXADOR AMERICANO

O ano era 1969, o bairro Botafogo no Rio de Janeiro, há 50 anos aconteceu um fato inesperado, um grupo formado por revolucionários brasileiros ousou sequestrar um embaixador dos Estados Unidos: Charles Elbrick era o seu nome. Às 9 horas da manhã do dia 4 de setembro o grupo se posicionou para a ação na região do Largo dos Leões, dois deles hoje são muito famosos, não pelo sequestro, mas pela vida política que seguiram: FERNANDO GABEIRA, jornalista, político e escritor e FRANKLIN MARTINS, jornalista, ministro da secretaria de comunicações do governo Lula.

Esse era o horário que embaixador passaria na Rua Marques, esquina com Irajá, e não atrasava, mas nesse dia atrasou. Meio-dia chegou um aviso do líder do grupo: temos que almoçar, e assim fizeram no boteco Pé Sujo, ponto de encontro de boêmios, cachaceiros e trabalhadores na hora do almoço, mas voltaram para suas posições combinadas e as 14 horas e 20 minutos surgiu o carro diplomático em um sentido diferente do costumeiro. Sebastião Rios, um dos sequestradores não faz o sinal, percebeu que o veículo era da embaixada de Portugal, se não fosse por esse zelo de Rios, talvez o sequestrado teria sido do português.

Cadillac da embaixada americana abandonado após o sequestro

Às 14 horas e 30 minutos, o grupo já começava a demonstrar sinais de cansaço, mas surge um Cadillac preto com a bandeira americana balançando sobre um dos paralamas, o carro era blindado, mas vinha com os vidros abertos, a placa CD-3 indicava ser o alvo, Rios que segurava um jornal a altura do umbigo desde às 9 da manhã, o levantou para o nível dos olhos, esse era o sinal, começou ai a história de jovens revolucionários apoiados por outros mais experientes, o episódio visava libertar o líder estudantil Vladimir Palmeira, preso no congresso estudantil da UNE em Ibiuna.

O Cadillac parou para um Fusca azul manobrar na rua, o Fusca era conduzido por Franklin Martins e fazia parte da emboscada, o motorista do embaixador quando percebeu a movimentação engatou a marcha ré, mas já era tarde, por trás outro Fusca vermelho, dirigido por Rios impedia o retorno, quatro do grupo se aproximaram, tomaram a direção do motorista. Paulo de Tarso gritou para Charles: “be quiet” já com o revolver apontando para sua cabeça, e seguem até a Rua Vitório Costa onde uma Kombi os aguarda, transportados todos para a Kombi, o embaixador reagiu e tentou tomar o revólver de Virgílio, um dos terroristas, mas tomou uma coronhada de Cyrilo e desistiu.

O Cadillac diplomático é abandonado com o motorista e uma carta com duas exigências do grupo: ler uma manifesto nas rádios e libertar 16 presos, entre eles José Dirceu e João Leonardo (já contei a história deste aqui no JBF. Clique aqui pra reler)

Casa cativeiro de Charles Elbrick, hoje é uma republica de estudantes

O governo autorizou a leitura do manifesto, escrito por Gabeira e libertou os 16 presos, que foram enviados para o México em um avião Lockheed Hércules da FAB. Apesar de a ideia inicial ser de libertar Vladimir Palmeira, os sequestradores incluíram outros com o objetivo de evitar uma futura perseguição direcionada a Vladimir e favorecer outros companheiros que sofriam na prisão. Alguns dos libertados não sabiam por que estava sendo libertados e ao chegarem ao México, a autoridade militar daquele país entrou na aeronave brasileira e ordenou: “saquen las esposas”, Ibraim, um dos libertados respondeu: “nós viemos sós, nossas esposas ficaram no Brasil”, João Leonardo cochichou no seu ouvido: “esposa em espanhol é algema, ele mandou o soldado soltar nossas mãos”. Ao chegar a notícia no Brasil, os sequestradores iniciaram uma operação para libertar o embaixador.

13 presos libertados no embarque na Base Aérea do Galeão, no Rio, mais dois se juntariam ao grupo: Gregório Bezerra no Recife e Mario Zangonato em Belém do Pará

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

CUBA: UMA VIAGEM AOS ANOS 50. TRINIDAD E VARADERO

Em de outubro de 2019 eu fui a Cuba e já contei o começo da viagem aqui no Besta Fubana.

Antes de ler essa postagem, dê uma lida na postagem anterior, clicando aqui.

Na viagem estava programado que a gente ia conhecer o interior, nós escolhemos Trinidad, a ‘Parati” cubana e Varadero, a praia dos ricos com seus resorts de luxo. Dona Meikel, dona da casa que estávamos hospedados em Havana sugeriu que nós fôssemos de carro para Trinidad, era um pouco mais caro mas economizaríamos no translado de casa para a rodoviária e ganhávamos tempo, concordamos com ela e pedimos que a lotação fosse um almedron, carros dos anos 50 que fazem muito sucesso na ilha com os turistas, ela não garantiu, quando chegamos no local combinado estava lá o almedron (foto), porém já estava lotado, o outro carro era um Peugeot dos anos 90, com o motor diesel e o cheiro de fumaça dentro do carro. Adeildo, o mais velho do grupo, sentou logo na frente, eu entrei atrás com um casal de australianos que não falava espanhol muito menos português. A minha porta não abria, tinha que sair pelo outro lado, e lá fomos nós.

Almedron taxi clandestino e Auto pista Nacional

Na saída passamos por baixo da baia de Havana, num túnel dos anos 50, construído antes da revolução, moderno e bem cuidado, depois de mais alguns minutos entramos na Autopista Nacional, uma via expressa com 4 faixas de cada lado, que liga a capital ao Oriente da ilha. Muitos taxis novos da marca Lada e ônibus chineses modernos da marca Yutong dividiam a rodovia com velhos caminhões, tratores e carros dos anos 50 e com o nosso Peugeot. Na beira da estrada muita gente pedindo carona paga (eles balançam dinheiro na mão pra mostrar que não estão lisos e querem pagar), vários postos de combustíveis modernos, bonitos porém pequenos. Depois de um certo tempo o motorista entrou numa estradazinha de terra por uns 500 metros e parou na sede de uma fazenda, lá foi recebido por um senhor e por um rapaz que após alguma conversa entre eles, trouxe um balde de 20 litros de óleo diesel e passou para o tanque do taxi, o motorista pagou e seguimos para Trinidad. Já próximo do destino a rodovia margeia a praia, onde desfruta-se de uma bela paisagem do Mar do Caribe até o destino final: Trinidad.

Placa na lanchonete de beira de estrada: “é melhor ser um bêbado conhecido do que um alcoólico anônimo”. O tratorista transferindo diesel para o taxi

Em Trinidad ficamos na casa de um casal, Yokabi e Rodin, ela dentista e ele médico cirurgião oftalmologista, que havia passado 2 anos em Angola e falava (se comunicava) em português. Falou que tinha amigos médicos no Brasil. Depois de uma conversa, fomos conhecer a cidade, Rodin nos indicou a Cervejaria Trinitaria, um prédio antigo de uma prisão que foi reformado por uma fábrica de cerveja austríaca, disse que não tinha ido porque os preços eram muito caros para o padrão cubano, mesmo para um casal de médico e odontóloga. Lá, tomamos um chopp artesanal e de tira-gosto pedimos ‘brochetas’ sem saber o que era, prá nossa surpresa era o famoso espetinho.

Escadaria, ponto de encontro de turistas em Trinidad, ainda com pouca gente

Em Trinidad os preços das bebidas são muito mais baratas que em Havana, os drinks mojito, daiquiri e um local canchánchara são oferecidos a 1 CUC (lembrando que 1 CUC vale 1 dólar), cada. Uma escadaria com wifi (1 CUC a hora) fica lotada de turistas, ao lado uma feirinha de artesanato. Uma bodega do governo com uma vendedora sonolenta vendia mantimentos com preços muito baixos, mas com limite de compra por família, eles levam uma caderneta para o controle da mercadoria consumida no mês. De manhã, muitos alunos indo à escola a pé, nas carrocerias de caminhões e em charretes. Vários grupos musicais tocavam ritmos locais tradicionais, mas já se vê muitos jovens com as caixinhas de som chinesas tocando reggaeton estilo ‘Despacitos’, El Chacal é cantor sucesso do momento.

Rua de Trinidad e a bodega do governo

Sempre que conversávamos com algum cubano, perguntávamos o que eles sabiam sobre o Brasil, falavam de Lula, novelas e futebol. Encontramos um deles que só conhecia três times brasileiros: Santos, Flamengo e Sport Recife (vídeo abaixo), acredite se quiser. O transporte intermunicipal público é dividido por duas empresas de ônibus: a Viazul, para estrangeiros, cubanos podem viajar, mas pagam os preços dos turistas (20 CUCs por uma viagem de 300 km), e a Omnibus Nacionales, que só transporta cubanos com preços muito baratos, cerca de 1 CUC para o mesmo trajeto. As duas empresas usam veículos novos. Como é relativamente comum o cancelamento das viagens na Viazul, preferimos o taxi para o próximo deslocamento para Varadero.

A viagem de Trinidad para Varadero é por regiões agrícolas, muitas vilas nas margens da rodovia. O dono do taxi clandestino era filiado ao Partido Comunista Cubano, elogiou muito Fidel Castro e Che Guevara. Falou que para possuir um taxi legalizado novo é preciso pagar 20 CUCs por dia ao governo que cede o carro, o motorista tem que manter o veículo, inclusive com as revisões em oficinas autorizadas. Em Varadero tem muitos resorts de empresas estrangeiras, principalmente espanholas, ficamos em um hotel All Inclusive do governo cubano. Lá não se paga nada a mais, o café, almoço, bebidas e tira-gostos estão tudo incluso no preço da diária. O café, almoço e jantar são de primeira, com grande variedade, só não tem itens mais caros como peixe, por exemplo. Outro detalhe: eles demoram a repor o grill, o que faz com se crie filas desnecessárias, em uma fila com 10 pessoas, o assador colocam só a carne solicitada pelo primeiro, após assar e colocar no prato do cliente é que eles colocam outros pedaços de carne. Tirando esses probleminhas, eu dou nota 8 ao restaurante. Na parte das bebidas alcoólicas e petiscos ai a coisa fica feia, eles só servem em alguns horários e o pior o horário do chopp, por exemplo, não coincide com o horário dos petiscos e vice-versa. A moça que abastecia o chopp e outras bebidas não saia do celular e o povo ficava na fila sem reclamar, até que ela dava uma pausa no whatsapp e atendia os clientes. Os drinks eram artificiais, de péssima qualidade. Neste hotel ficavam hospedados os cosmonautas russos nos anos 60, várias fotos nas paredes da recepção comprovavam o fato.

Vista do hotel e taxi clandestino

Em Varadero só ficamos 1 dia e retornamos para Havana no dia seguinte, não vimos grandes movimentações de pessoas pelas ruas e praias da cidade, acredito que isto ocorra dentro dos resorts de luxo.

A terceira parte eu conto noutro dia desses.

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

MACEIÓ E AS TRÊS QUEDAS DO GOGÓ DA EMA

No dia 27 de junho de 1955 caia um dos cartões postais mais famosos das Alagoas da época: o coqueiro Gogó da Ema, que ficava na praia de mesmo nome em Maceió.

O coqueiro era ponto turístico de Maceió nas décadas de 30 a 50

O Gogó da Ema era um entre tantos coqueiros na beira mar de Maceió, quando alguma lesão fez com que o tronco perdesse rigidez e pendesse para um lado, porém logo em seguida, heroicamente, o coqueiro se recompôs e voltou a crescer pra cima. Esse formato do seu caule em forma de ‘S’ ou de um pescoço de uma ema, fez com que ele se tornasse mais famoso que os seus congêneres. Esse formato diferente começou a chamar a atenção de quem por ali passava, numa época que só pescadores frequentavam aquela região.

Imagem do dia da queda do famoso coqueiro

A praia onde ficava o coqueiro era um local de busca por petróleo e muitos poços de prospecção dividiam a paisagem com o Gogó da Ema, desde antes dos anos 30, porém a região da hoje Ponta Verde não era habitada. Até 1945, o coqueiro não recebeu nenhuma ajuda do poder público, até que em 1946 o prefeito Reinaldo Carvalho mandou fazer um muro de arrimo de troncos de outros coqueiros para protege-lo do avanço do mar, em 1948 foi a vez de outro prefeito, João Teixeira, construir uma pracinha ao seu redor com 4 bancos. Depois do sucesso turístico, o Gogó da Ema virou arte na forma de pinturas e fotografias do seu perfil, e até Luiz Gonzaga gravou uma música, que compôs com Zé Dantas falando de praias do Nordeste:

“Navega
Oh! Jangada nesse mar
Enfeitado de coqueiros
E coberto de luar
Navega
No Nordeste pela praia
Quero ver Itapoã
Quero ver minha Atalaia

Boa viagem
Gogó da Ema
Areia preta
Pontal, Tambaú
Adeus Iracema, adeus
Navega.”

Por outro lado o estado de Alagoas se desenvolvia e precisava exportar cada vez mais açúcar, e no Porto de Jaraguá, a poucos quilômetros dali, os grandes navios da época já não conseguiam atracar e foi construído um novo ancoradouro mar adentro. Esta construção mudou as correntes marítimas e prejudicou a fixação do famoso coqueiro, já não tão jovem. “As águas da enseada da Pajuçara passavam, através de um canal próximo ao Porto, para a enseada de Jaraguá, onde era o ancoradouro dos navios. O projeto era transpor essa região onde a corrente passava através de uma ponte, que não foi construída. Foi vedada a passagem dessa corrente. Por isso ela hoje, bate lá e volta, e acentuou o avanço do mar na região do Gogó da Ema”, afirmou o engenheiro Vinicius de Maia Nobre. Às 14 horas e 20 minutos o coqueiro veio ao chão, deixando toda a cidade triste, mas não inerte. No dia seguinte uma operação foi feita para reerguer o famoso maceioense, a Companhia de Força e Luz cedeu o guindaste, marinheiros, soldados do exército e os agrônomos Jesus Fortes e Olavo Machado se encarregaram da parte humana.

Os engenheiros avaliam a situação da raiz do Gogó da Ema antes da operação

Depois de três dias no chão finalmente o coqueiro estava lá de pé, de novo, com um novo aterro mais alto e um muro de troncos maior para protegê-lo das ondas das águas do mar. Um monitoramento foi feito no local, as folhas cortadas durante a operação começaram a nascer e o cartão postal de Maceió estava lá, imponente e vivo, mais famoso que antes, mas a “água mole” do mar continuava a bater forte no paredão vegetal e de areia até que dias depois o Gogó da Ema foi ao chão pela segunda vez, agora sem chance de vida, porém esta não seria sua última queda.

Algumas autoridades no local

O coqueiro caiu e morreu, mas deixou o nome da praia que antes habitou: Praia do Gogó da Ema, uma região que começara a ser valorizada e habitada, com um grande loteamento que já existia no local, o Loteamento Ponta Verde, já com muitos prédios, e os empreendedores preferiram usar o nome ‘Praia da Ponta Verde’, um nome bem mais comercial do que ‘Praia do Gogó da Ema’ para vender os lotes, apartamentos e casas, e assim ficou o nome do bairro.

Imagem atual da Praia da Ponta Verde

Recentemente fui a trabalho em Maceió e acordei cedo para dar uma corrida na beira mar da Praia da Ponta Verde. Do hotel que eu estava hospedado até o letreiro ‘ Eu amo Maceió’ da 7 km (ida e volta) e fui lá, resolvi fazer uma pesquisa: pedir informação a 10 pessoas na orla: ‘onde ficava o Gogó da Ema e onde fica o letreiro?’ Todos indicaram o letreiro, mas nove não sabiam nem o que era esse “Gogó da Ema”, o outro disse que sabia que era naquele bairro mas não o local exato. Foi assim que terminou a história do coqueiro mais famoso do mundo: no esquecimento, culpa nossa que não damos valor ao nosso passado, essa terceira queda, foi a mais dolorosa de todas para quem aprecia a nossa história.

Eu na corrida-pesquisa na linda praia da Ponta Verde, ex-Gogó da Ema