GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

A SAGA DE UMA BRASÍLIA SEM NIEMEYER

Entre os anos de 1956 e 1960 ocorreu a construção da nova capital brasileira. Brasília foi idealizada e construída pelo presidente Juscelino Kubitschek e usada como propaganda ufanista do governo do único país da América Latina a possuir um porta aviões, o imponente Minas Gerais, do qual eu já contei a história aqui no Jornal da Besta Fubana, para ler clique aqui. Brasília era uma capital moderna encravada no centro do Brasil, numa área de cerrado, longe da antiga capital Rio de Janeiro e de toda a movimentação política que ocorria na Guanabara. Uma cidade moderna, planejada pelos arquitetos Oscar Niemeyer e Lucio Costa.

Placa indicando a direção da construção da nova capital e um retirante chegando em busca de trabalho

Alguns anos antes, longe dali, na região Nordeste, mais precisamente na capital pernambucana, o então governador Carlos de Lima Cavalcanti aterrou uma parte do estuário do Pina para a construção de um campo de aviação, para isso, teve que expulsar os moradores das palafitas da região, esses não tendo para onde ir, invadiram uma área mais ao norte, um sítio que ficava entre a Bacia do Pina e a praia, um lugar cheio de coqueiros e uma beleza exuberante chamado de Areal Novo, pertencente ao governo do estado, que ali pretendia construir tanques de armazenamento de combustíveis, esta foi a primeira invasão do Recife, sem Niemeyer, Lucio Costa, arquiteto ou qualquer tipo de planejamento, estava criada Brasília Teimosa. Mas o local era muito valorizado e logo os invasores foram expulsos, mas sem ter para onde ir, voltaram e construíram tudo novamente, e esse ciclo de destruição e reconstrução se arrastou por anos, nesse período dois incêndios misteriosos consumiram todos os barracos, mas os moradores não desistiam e reconstruíam tudo no mesmo lugar, os barracos eram construídos durante a noite e destruídos pelo poder público durante o dia.

População alinhada para receber o então presidente Lula em 2003, com as antigas palafitas ao fundo

O nome Brasília Teimosa é uma “homenagem” à capital nacional, construída na mesma época do bairro, e da teimosia dos moradores que construíam seus barracos e palafitas mesmo sabendo que seriam derrubados no dia seguinte pelo estado. Essa luta durou muito tempo e a população soube esperar e conseguir seus objetivos, aliás, esperar é o que a comunidade mais sabe fazer. Quando as linhas de ônibus já se espalhavam por toda a zona Sul do Recife, Brasília Teimosa ainda tinha que esperar o vai e vem dos barcos a remo que atravessavam a Bacia do Pina transportando quem precisava se deslocar até o centro da cidade para resolver suas demandas. Anos depois, a luta dos “brasilienses” por linhas de ônibus foi vencida, a CTTU incluiu na sua malha duas linhas para o bairro: “Brasília Teimosa” e “Brasília – Conde da Boa Vista”, e tome demora, essas linhas além de ter poucos ônibus disponibilizados, ainda circulam pelas estreitas ruas de um bairro que cresceu sem nenhum ordenamento como a Brasília de Oscar Niemeyer, para embarcar passageiros, que ao invés de caminharem até a Av. Antônio de Góes, onde passa um número maior de ônibus, ficam nos pontos conversando e olhando as redes sociais nos celulares, aguardando a partida do próximo ônibus.

Campinho na Praia do Buraco da “Véia” em Brasília teimosa. Ao fundo os arranhas céus dos bairros classe A do Pina e Boa Viagem

Só a partir de 2004 foi que Brasília foi recebendo melhorias: retirada das palafitas, urbanização da orla, asfalto nas ruas, posto de saúde e rede de esgotos, antes de 2004 só tinha o Escola Infantil Bernard Van Leer, sustentada pela fundação holandesa com o mesmo nome da escola, que ajuda crianças em vários países pobres e na Holanda, esse nome holandês difícil de pronunciar, foi substituído pelo do cantor brasileiro, as mães dos estudantes chamam de “Bernado Ivan Lins”. O bairro também conta com um grande número de comércios, principalmente de restaurantes, que atraem pessoas de toda a capital pernambucana e até turistas, como o famoso Biruta (hoje Vila Formosa) na beira mar ou o Bar do Samurai, com seus pratos de camarão vila franca, siri mole e lagosta a um preço bem convidativo, se comparado com os dos restaurantes dos vizinhos Pina e Boa Viagem.

Prato de siri mole do Bar do Samuray no site Tripadvisor

Para se chegar ao que o bairro tem hoje, os moradores lutaram desde o principio, “Rio de Janeiro – Após 35 dias de peripécias e tormentas numa longa travessia, chegaram hoje, a esta Capital, os heróicos pescadores do Recife, recebidos festivamente na Praça Quinze. Vieram defender reivindicações da classe e contam com a simpatia da Primeira Dama do País – Sra. Sara Kubitschek. São da Colônia Z-1, de Pernambuco. Voltarão de avião, pois a experiência foi amarga”, publicou o jornal carioca “A Noite” em 30 de janeiro de 1956, esses corajosos pescadores foram para a posse do presidente Juscelino para chamar a atenção do governo para a luta dos moradores em busca de uma moradia próxima ao local de onde tiram seus sustentos: o rio e o mar. Um dos pescadores aventureiros, Seu Salviano contou que a viagem de 1124 milhas de mar (cerca de 2080 km) foi em uma jangada de sete metros de comprimento por 1,80 de largura, mesmo analfabetos, sabiam que a propaganda surtiria efeito. Chegando no Rio foram recebidos pelo presidente, posaram para fotos ao seu lado e ganharam 11 motores para barcos. Perguntado pelo presidente se a viagem havia sido difícil, Seu Salviano respondeu: “viver no mar não é sacrificoso, difícil mesmo é voltar pra casa e ver o seu barraco queimado”.

Foto aérea dos três bairros com praias do Recife, com a visível divisão entre Brasília Teimosa e os hoje homogêneos Pina e Boa Viagem

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A MORTE DE CORONÉ LUDUGERO EM UM AVIÃO DA POBRE TAMBÉM AVUA

Nos anos 60 uma música fez grande sucesso na voz de Gigliola Cinquetti: “Dio Come ti Amo“, o filme homônimo também foi estouro de bilheterias, eu lembro que era sinal de casa cheia quando vinha essa película italiana para o Cine Alvorada em Tabira. A cena mais conhecida era a que Mark Damon embarcava em um voo de volta para a Espanha e pelo microfone Gigliola cantava a canção e o avião parava e desembarcava o passageiro para o casal se encontrar e o filme ter um final feliz. Pois bem, esse arrodeio todo foi pra falar do avião, o Fokker 27.

Cena do filme Dio, Come ti Amo

O Fokker 27 era um avião holandês de grande sucesso nas décadas de 60 e 70, voou no Brasil pela Varig e TAM. A aeronave foi também fabricada nos Estados Unidos pela Fairchild com algumas modificações. Esse foi o modelo escolhido pela Paraense para compor sua frota de cinco aviões, o Fairchild Hiller FH-227-B, como o nome era muito difícil de se pronunciar, a empresa de aviação do Pará rebatizou-o de Hirondelle, andorinha em francês. A PTA, Paraense Transportes Aéreos, deve ter sido a primeira low coast brasileira, tinha bons preços e descontos para estudante ou grupos de pessoas que podiam chegar a 50%, por causa desses preços e da sigla, PTA, a empresa foi apelidada de “Pobre Também Avua”. A companhia voava desde o Acre até RJ e SP, operava também no Recife.

Folders da PTA com o Hirondelle

Em 1972 um avião similar foi escalado para levar uma equipe de rugby de Montevideu no Uruguai para Santiago no Chile, com o tempo ruim para transpor a Cordilheira dos Andes, os pilotos resolveram pernoitar em Mendoza na Argentina e só no dia seguinte seguir viagem, o “Hirondelle” uruguaio não era apropriado para atingir uma altitude suficiente para cruzar os Andes em qualquer lugar da sua extensão, teria que procurar um ponto mais baixo para fazer essa transposição, e no dia seguinte assim o fez, foi para o Sul e no local planejado virou a direita e seguiu em frente, sendo que a tecnologia era limitada e o relógio era o que se tinha no momento, e com o tempo de voo calculado, sabia-se que estavam no local mais baixo da cordilheira que devia-se chegar ao Chile, porém com o vento contra, esse tempo não foi suficiente para atingir o local exato e o avião seguiu por uma rota de grande altitude e caiu sobre a cordilheira, longe de tudo e cercado de gelo e serra por todos os lados. Os que sobreviveram comeram carne humana dos que morreram no acidente, os que não conseguiram se alimentar dessa forma não ficaram para contar a história. O filme “Vivos” de 1993 conta essa triste epopeia. Outro sucesso de bilheteria do Cine Alvorada, “Sobreviventes dos Andes”, contou essa tragédia nos anos 70, eu assisti, pensei que era ficção, mas não era.

Destroços do Fairchield fotografado pelo salvamento

Dois anos antes desse caso do Chile, em 13 de março de 1970, um voo de um Fairchield da PTA partiu do Recife com escalas em Fortaleza, Parnaiba e São Luiz e as 5:30 do dia 14, uma manhã chuvosa, o voo chegava ao fim. Já na aproximação do aeroporto de Belém, o Hirondelle prefixo PP-BUF colidia com a água da Baia de Guajará, a poucos metros da cabeceira do Val de Cans, na queda morreram quase todos os ocupantes, só três sobreviveram, sendo que um dos sobreviventes faleceu no hospital. Entre os passageiros estava Luiz Jacinto Silva, humorista pernambucano mais conhecido por Coroné Ludugero, acompanhado de Irandir Perez Costa (Otrope) e equipe de apoio, Mercedes del Prado (Felomena) não estava no voo, a trupe havia embarcado em São Luiz na madrugada e ia fazer um show em Belém. A Paraense era famosa também pelo grande número de acidentes, tinha outro apelido: “Prepara Tua Alma”, este foi o 9º acidente da companhia antes de entrar para a lista de companhias aéreas brasileiras que deixaram de operar.

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O TRISTE FIM DO VENGEANCE / MINAS GERAIS

No ano de 2001 a Marinha do Brasil colocou em operação o porta-aviões São Paulo, comprado da França para substituir o imponente, porém obsoleto, Minas Gerais. É desse segundo porta-aviões que eu vou falar, o Navio-Aeródromo Ligeiro Minas Gerais, de matrícula A-11, que serviu a Marinha do Brasil entre 1960 e 2001. Suas dimensões são magníficas, desde que não sejam comparadas com os modernos navios de guerra americanos, chineses e de outras bandeiras de países com uma marinha de guerra forte. Ele possui 211 metros de comprimento e se desloca a uma velocidade de 46 km/h e foi essa velocidade que o fez obsoleto.

Porta-aviões São Paulo A12, substituto do Minas Gerais na Marinha do Brasil

O Minas Gerais foi construído na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, à sombra dos bombardeios alemães. Foi batizado com um nome sugestivo para a época: Vengeance, Vingança em português, com a principal finalidade de combater as tropas japonesas no Pacífico e seguiu para esta zona logo após seu batismo, mas não chegou a entrar em combate, quando a guerra acabou o Vengeance estava aportado em Sidney na Austrália, porém seguiu para a região e foi o primeiro navio britânico a entrar em Hong Kong após o armistício, o navio serviu de escritório para a assinatura da rendição japonesa. O Vengeance ainda hoje é cultuado pelo povo de Hong Kong.

O Vengeance “australiano”

Durante sua estada na Austrália, o Vengeance foi preparado para a Guerra da Coréia, porém foi substituído por outro navio, já que este era emprestado pelos ingleses enquanto concluíam outro porta-aviões, o Melbourne, encomendado pela Marinha Real Australiana. Há quem acredite que essa foi uma desculpa da marinha australiana por não poder pagar e que a Inglaterra não tendo como reincorpora-lo a sua marinha, vendeu ao Brasil por um precinho camarada.

Breve história do Minas Gerais:

O Brasil construía a nova capital quando o já batizado Minas Gerais chegou ao Rio de Janeiro, o primeiro de uma marinha das Américas, excluindo os EUA, foi a nau capitânia da armada brasileira, ou seja, o mais importante da Marinha. Apesar da grande importância ostensiva do “Minas”, este nunca foi efetivamente usado em conflitos, o mais próximo que chegou de um confronto foi quando foi deslocado para aguas territoriais em Pernambuco para combater os franceses na Guerra da Lagosta, que por sorte nossa, foi resolvida sem haver necessidade de disparar um só tiro.

O NAeL Minas Gerais navegando imponente em águas brasileiras

Depois de 4 décadas de serviços prestados ao Brasil (o Minas Gerais era o último porta-aviões da Segunda Guerra ainda em operação), o gigante já não servia mais para a guerra e finalmente em julho de 2002 foi vendido em um leilão por dois milhões de dólares para um estaleiro chinês que se interessou na reciclagem do material. Entre os interessados estava uma ONG inglesa de ex-combatentes da Segunda Guerra, que o queria o-transformar em um museu flutuante, porém não conseguiu juntar dinheiro suficiente para arremata-lo. “Como um velho cachorro já sem controle sobre as próprias pernas, o Porta-aviões Minas Gerais saiu do Rio de Janeiro rebocado, abandonando assim a baía que foi sua casa por quarenta anos, e foi em direção à eutanásia nas areias de Alang, na Índia”, descreveu o site Mar Sem Fim, sobre a partida do navio que nunca disparou um só tiro em conflito. Alang é o maior “abatedouro” de navios do mundo e é lá que está em avançado estado de decomposição o pacato e majestoso Vengeance/Minas Gerais.

Jornal de Hong Kong mostra a situação do Vengeance

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A VIOLENTA E MISTERIOSA MORTE DO FOTÓGRAFO DE LAMPIÃO

Nos anos 80 eu estudava no Colégio Nóbrega e para fugir das linhas “Setúbal” e “CDU – Boa Viagem”, sempre lotadas, eu ia caminhando até a Nossa Senhora do Carmo pra pegar o “Shopping” ou “Aeroporto”, mais vagos. Nessa caminhada pela Conde da Boa Vista, eu passava por 3 lojas de revelações de fotos: a Aba Film, a Tabira Filmes e a Sonora, essa última tinha lançado a moda comercial: quem revelasse o filme lá, ganhava outro filme virgem, e a propaganda na televisão rezava: “na Sonora é assim, filme vai, filme vem”. Na Tabira Filmes eu procurava alguma foto na parede da minha cidade Tabira, mas não tinha, também nenhum funcionário tabirense, na época já me perguntavam se eu conhecia o dono, ainda hoje me perguntam. Na Aba eu dava uma parada porque tinha fotos dos cangaceiros, uma delas, grande lá no fundo, mostrava Benjamin Abrahão cumprimentando Lampião.

Imagem que havia no fundo da Aba Film da Conde da Boa Vista

Essa minha atração pela Aba Film fazia sentido por esta ter sido a empresa que revelou as fotos e filmagens do bando de Lampião na sua loja matriz em Fortaleza, propriedade do bancário Ademar Bezerra de Albuquerque, que emprestou suas iniciais para o nome da empresa, emprestou também todo o equipamento e treinamento para que o libanês Benjamin Abrahão Botto filmasse e fotografasse os cangaceiros no seu ambiente natural, a caatinga nordestina.

Benjamim enquanto secretário de Padre Cícero do Juazeiro

Benjamin era um mascate libanês que veio para o Brasil correndo da I Guerra Mundial e aqui se estabeleceu, depois conheceu Padre Cícero e ficou sendo seu secretário, foi através deste posto que conheceu Lampião na sua passagem por Juazeiro do Norte em 1926, quando foi pedir a benção de “Padim Ciço Romão” e receber a patente de Capitão para combater a Coluna Prestes. Após a morte do Padre Cícero, Benjamin tentou entrar no ramo dos souvenires, cortou o cabelo do “padim” e vendia para os romeiros, ganhou muito dinheiro durante uns 6 meses, tempo suficiente para perceberem que o padre não possuía essa quantidade toda de cabelos, foi ai que Benjamin procurou Lampião para pedir para acompanha-lo nos deslocamentos e filmar o dia-a-dia dos cangaceiros, Lampião topou e Benjamim foi para Fortaleza pegar o material com Ademar da Aba Filmes.

Foto antiga da Aba Film de Fortaleza. A empresa faliu em 2010 por falta de clientes

O governo de Getúlio Vargas não gostou muito deste feito, de divulgar o Brasil sem lei no interior do Nordeste e apreendeu os filmes dando um enorme prejuízo a Benjamin e principalmente a Ademar que teve o equipamento confiscado e não pode ganhar dinheiro com as filmagens. Após a fama ganha como fotógrafo veio um novo desemprego e Benjamin foi procurar trabalho de fotógrafo no Diário de Pernambuco, e conseguiu, nesse período da vida do libanês não há muito registro e os que tem são desencontrados. Em 7 de maio de 38, Benjamin Abrahão Botto foi morto em Pau-ferro, hoje Itaíba, à época distrito de Águas Belas, em Pernambuco, com 42 facadas. O crime não teve seu autor nem sua motivação desvendada, especula-se que foi latrocínio, porém com ele nada havia de valor. Outra versão diz que foi morto a mando do sistema.

Cobertura fotográfica feita por Abrahão para o DP da vaquejada de Pau-ferro

Sobre a Tabira Filmes eu descobri o porquê do nome. Na década de 50 foi construído um grande edifício para a época na Av. Conde da Boa Vista, e o seu construtor homenageou o amigo deputado estadual Pedro Pires Ferreira, dando o nome da sua terra natal, Tabira, que recentemente havia mudado seu status de distrito para cidade, uma das lojas no térreo do Edifício Tabira foi batizada com o nome do prédio: Tabira Filmes. Atualmente a empresa conta com várias lojas em shoppings do Recife e passou a se chamar Tabira Digital.

Loja Tabira Digital no Shopping Recife

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OS 75 DIAS QUE PERNAMBUCO VIROU UMA NAÇÃO

Esse mês de março de 2020 começou com um feriado inusitado na primeira sexta-feira do mês, feriadão no dia 6, era a primeira comemoração da Data Magna da tomada do poder dos portugueses, que ficou conhecida como Revolução dos Padres ou Revolução Pernambucana. Na verdade a comemoração já existia há algum tempo, porém era deslocada para o primeiro domingo de março e como feriado não combina com domingo, ficou esquecida da população até que agora virou folga e praia para os pernambucanos.

Praia lotada no feriado de 6 de março de 2020

A Revolução Pernambucana teve início por ideia dos maçons revoltados com o alto vulto de impostos que era enviado da capitania pernambucana para o Rio de Janeiro a fim de custear as despesas da coroa portuguesa que havia se mudado para a capital do Brasil. A corte era gastadeira: muitas construções, roupas caras, grande número de funcionários e festas ocasionavam a necessidade de transferência de riquezas das capitanias para o Rio, por outro lado, faltava dinheiro para resolver problemas locais, como enfrentamento das secas, infraestrutura urbana e até pagamento dos soldados.

Tela “Benção das Bandeiras da Revolução de 1817” de Antonio Parreiras

A Revolução contou com apoio internacional, Os Estados Unidos haviam aberto seu primeiro consulado no hemisfério Sul na capital pernambucana. Os militares franceses que haviam apoiado Napoleão também se ofereceram para ajudar o movimento com uma condição: resgatar Napoleão Bonaparte de uma ilha no meio do Oceano Atlântico, essa ilha eu já falei dela aqui no SÓ SEI QUE FOI ASSIM, ficou curioso? Clica aqui. Depois de resgatado, Napoleão seria trazido para Pernambuco e posteriormente para Nova Orleans, nos EUA. Alguns destes soldados chegaram a Pernambuco, mas já era tarde, a revolução já havia sido debelada. Assim que chegaram foram presos.

Mapa diagrama dos deslocamentos das forças reais

Após o início da revolução, as províncias da Paraíba e Rio Grande do Norte se juntaram a Pernambuco, o Ceará veio logo depois. Mandaram Cruz Cabugá como embaixador para os Estados Unidos, Cabugá é considerado o primeiro embaixador brasileiro, “era um mulato rico, solteiro, farrista e apreciador dos prazeres da vida. O apelido “Cabugá” lhe foi posto na ourivesaria de seu pai, por conta de certa dificuldade de dicção dele ao falar “bugar”, que é limpar o ouro”, afirma Gustavo dos Santos Ribeiro em “A Missão Cabugá nos EUA”. Criaram uma bandeira e promulgaram uma constituição baseada na da Colômbia. A bandeira era igual a atual de Pernambuco, sendo que tinha três estrelas, simbolizando as três províncias rebeldes. O bairrismo já existia, as hóstias passaram a ser de mandioca e o vinho foi trocado por cachaça.

Bandeira de Pernambuco revolucionário

Pernambuco ainda tentou o apoio de outras províncias, mas sem sucesso. Para a Bahia foi enviado Abreu e Lima, o Padre Roma, que foi fuzilado a mando do governador Conde dos Arcos logo ao desembarcar, a população comemorou cantando: “Bahia é cidade; Pernambuco é grota; Viva Conde d’Arcos; Morra patriota!”. Esse Abreu e Lima é o pai do general homônimo que dá nome a refinaria da Petrobrás e à cidade de Abreu e Lima.

Bárbara de Alencar, heroína de 1817, primeira presa política do Brasil

A coroa mandou 8 mil homens para combater a revolução, pelo mar fecharam o porto e por terra chegaram pelo sertão vindos da Bahia, a batalha final se deu em Ipojuca. Após a vitória da coroa, a comarca de Alagoas pertencente a Pernambuco foi desmembrada em agradecimento aos produtores alagoanos que ficaram ao lado dos portugueses. A Bahia ganhou toda a parte da margem esquerda do Rio São Francisco que hoje pertence ao território baiano. Mesmo sem obter êxito, a Revolução Pernambucana foi importante para que o povo brasileiro se tornasse independente de vez, pois foi a semente da Proclamação da República de 1922.

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A BRIGA DE TOMAS EDISON COM TESLA E A MORTE DA ELEFANTA

Em 1875 nascia na Ásia a elefanta Topsy, posteriormente foi contrabandeada para os Estados Unidos com fins de ser atração de circo. Era anunciada pelo Circo Forepaugh como a primeira elefanta nascida nos EUA, mas ela não se adaptou a vida circense e se envolveu em vários incidentes, chegando a matar um espectador do circo, uma pessoa que caminhava pela rua e o seu domador. Com estes atos, ela foi condenada a morte por enforcamento, o ato seria uma atração com ingressos pagos, porém a sociedade de defesa dos animais não permitiu e o show macabro foi cancelado.

Cartaz do Circo Foreipauh da época

Nesta mesma época, os Estados Unidos buscavam uma solução para a geração de energia elétrica com a finalidade de iluminar as cidades e mover indústrias e eletrodomésticos. A energia que fazia sucesso inicialmente era a de Tomas Edison, a corrente contínua, DC em inglês, proveniente de enormes geradores, as energias das pilhas e baterias são deste tipo. Tinha uma vantagem: não dava choque, porém perdia força na transmissão por fios de cobre. Os geradores tinham de ser montados a distâncias de no máximo 2 km da unidade consumidora. A energia de Tesla, a corrente alternada, que alimenta nossas residências, AC em inglês, tinha uma perda menor em grandes distâncias e exigia fios menos grossos, o que facilitaria a concentração dos geradores ou aproveitamento da energia hidrelétrica. A ideia inicial era aproveitar a força das cataratas do Niágara para rodar geradores elétricos, essa etapa não era difícil, o grande problema estava em transmitir esta energia até Nova Iorque.

Usina de geração de energia de corrente alternada da empresa Westinghouse

Nikola Tesla havia trabalhado na empresa de Tomas Edison, inclusive apresentou o estudo da corrente alternada para o patrão, que não se interessou pelo projeto, se-arrependeu anos depois. Tesla se uniu ao engenheiro e empresário George Westinghouse e criaram uma empresa para concorrer com a firma de Edison, e deu certo. A corrente contínua perdia espaço para a corrente alternada. A energia enviada do Niágara para Nova Iorque era alternada e muitas cidades americanas mudaram seus sistemas. Edison continuou perdendo clientes, os bondes, por exemplo, eram eletrificados pelos trilhos e não poderiam ser energizados com corrente alternada, até que criaram os bondes com os cabos aéreos. Algumas poucas cidades continuaram com a de Edison, Helsinque, por exemplo, só mudou o sistema para a AC em 1940, mas a grande maioria das cidades usava a energia inventada por Tesla.

Cartaz do filme Batalha das Correntes

Vendo a possibilidade da corrente alternada dominar de vez o mercado, Edison investiu na propaganda, mostrando o risco da AC, a ideia era mostrar o perigo de ter em casa esta ferramenta mortal, e para mostrar este perigo eletrocutou gatos, cachorros de rua e bois. Em 4 de janeiro de 1903, Edison anunciou mais uma peça de divulgação negativa da energia de Tesla: a eletrocussão da elefanta Topsy em praça pública. O ato seria filmado e vendido em cinescópios, também invento de Edison, uma espécie de Youtube acionado por moedas e com apenas 1 vídeo. No Parque Luna em Nova Iorque, colocaram Topsy com os fios nas patas e no pescoço e descarregaram 6600 volts na frente de cerca de 1500 pessoas. Das patas saiu uma fumaça branca e em menos de 1 minuto a elefanta estava morta. Em 2003 foi colocado um monumento em sua homenagem no museu de Coney Island.

Vídeo da eletrocussão de Topsy

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BANIDOS DE CUBA E SUCESSO NO MUNDO

Nos anos 50 Cuba era um dos países mais desenvolvidos da América Latina, o país tinha uma próspera indústria açucareira, de charuto, rum e café, tinha também a terceira maior renda percápita da América Latina, superava até a da Itália e Espanha. Havana foi a primeira cidade a ter telefone com discagem direta, sem necessidade de telefonista, o país era moderno e atraia muitos investimentos e turistas americanos.

La Sonora Matancera nos anos 50, com Célia Cruz como vocalista

A noite havaneira era de muita salsa, bolero e chá-chá-chá, entre muitos artistas que se destacavam na época, estavam Celia Cruz e Bienvenido Granda (Perfume de Gardenia), sucesso na Ilha de Fulgencio Batista e no mundo. Quando Fidel Castro entrou na ilha e o comunismo foi implantado, os dois cantores se transferiram para o México, solicitaram vistos provisórios para realização de shows, Bienvenido já em carreira solo e Célia como componente da Sonora Matanceira, ao expirar o visto, Célia não mais voltou, junto com parte da banda e posteriormente foi morar em Nova Iorque e Bienvenido foi para Colômbia, Venezuela e Brasil até retornar para o México onde residiu até morrer em 1983. Celia Cruz morou entre EUA e México até a morte em 2003, ambos com muito sucesso no continente, nunca mais retornaram a Cuba devido ao regime de Fidel. Na ilha, esses dois nomes foram praticamente esquecidos, La Sonora Matancera, grupo cubano em que ambos foram componentes em diferente épocas, não tocava seus sucessos, “la revolucion” não permitia que “traidores” da pátria fossem lembrados pelo povo cubano, e eles foram esquecidos pelas novas gerações.

Célia Cruz, a rainha da salsa, já no final da carreira

Pelo que li, Bienvenido Granda aceitou facilmente a vida longe do país natal, mas Celia Cruz nutria uma grande vontade de retornar a Cuba, mas nem na morte da sua mãe o governo permitiu a sua visita. Certa vez ela visitou a ilha, mas em uma parte que pertence aos Estados Unidos, a base aérea de Guantânamo. Esta base é dividida do território cubano apenas por uma cerca gradeada, e na visita, Célia colocou o braço entre a grade e apanhou um punhado de terra do lado cubano e o guardou até o final da sua vida em uma taça, pediu para que colocassem no seu caixão após a sua morte e assim foi feito.

Bienvenido Granda, o bigode que canta. Fez muito sucesso no serviço de som do Cine Alvorada nos anos 60 e 70 com ‘Angustia’, ‘Perfume de Gardenia’ e outros

Quando eu estive em Cuba em outubro de 2018, perguntei aos cubanos pelos dois famosos artistas, mas eles só balançavam a cabeça dizendo que não lembravam, pedi musicas aos grupos que cantavam em barzinhos e restaurantes porém os cantores que passavam nas mesas vendendo os CDs não os conheciam. Eu citava La Sonora Matancera ai todos conheciam, mas não recordavam desses dois ex-vocalistas da banda. Em uma das casas que eu fiquei hospedado, o proprietário era músico, tocava marimba em shows turísticos, perguntei se ele tocava muita música de Bienvenido e Celia Cruz, ele falou algo rápido que eu não entendi, mas percebi uma alteração no humor.

Compay Segundo em clip de Guantanamera, “hino” de Cuba:

Por fim estava visitando uma praça onde tinha a estátua de Tiradentes e um “solícito” cubano na faixa de 60 anos me explicou que ali eram estatuas dos libertadores da América, do Brasil além de Tiradentes tinha também José Bonifácio, e o cubano nos levou para fotografar. Depois ele se apresentou como sendo percussionista do Teatro Alicia Alonso, o principal do país, onde também dava aula de percussão, como estava diante de um especialista em música, perguntei por Bienvenido Granda e Celia Cruz, ele me disse que Celia Cruz morava no México (errou) e nos levou para um bar onde Bienvenido havia cantado, chegando no bar, ele nos mostrou fotos antigas, dos anos 70, de Raul Castro e Fidel tomando um mojito nesse bar com o cantor Compay Segundo, que também fez sucesso na ilha até a sua morte. Perguntei novamente por Bienvenido e ele fez uma cara feia e falou já mudando de tom: “não fales mais nisso”, não foi dessa vez que eu pude conversar sobre esses artistas.

Eu e Adeildo no bar onde Compay Segundo se apresentava

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A ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE JAÇANÃ E O TREM DAS 11 DE ADONIRAN BARBOSA

Na década de 1890, São Paulo precisava construir uma barragem para o abastecimento público, pois a cidade já tinha aproximadamente 65 mil habitantes, o mesmo tamanho de Pesqueira de hoje, e os reservatórios seriam insuficientes para uma cidade com aptidão de ser grande. O local escolhido foi a Serra da Cantareira e para construção desta barragem fizeram uma linha de trem com 12 quilômetros e 600 metros, começando no bairro do Tamanduateí.

Além dos trens de carga para a construção da represa, a São Paulo Tramway também colocou vários horários com trens de passageiros para atenderem a população na beira da linha. Além das estações Tamanduateí e Cantareira, foram construídas pelo meio mais nove estações: Areal (Parada Três), Santana, Quartel, Santa Terezinha, Mandaqui, Invernada, Parada Sete, Tremembé e Parada Santa. Em Areal a linha se dividia no sentido de Guarulhos, onde seguia-se passando pelas estações Carandiru, Vila Paulicéia, Parada Inglesa, Tucuruvi, Vila Mazzei, Guapira, Vila Galvão, Torres Tibagi, Gopoúva, Vila Augusta, Guarulhos, findando com a estação Cumbica, por trás do que seria o Aeroporto de Guarulhos. Este ramal só foi inaugurado em 1910.

Trem da Cantareira nos anos 50

A música “O Trem das 11” de Adoniran Barbosa fez sucesso em 1964 e relatava o enredo de um filho único que morava com a mãe no bairro de Jaçanã e não poderia ficar mais tempo com a sua amada porque o último trem partia às 11 da noite e o próximo “só amanhã de manhã”, na verdade Adoniran nunca morou em Jaçanã e o último trem partia as 8 e meia, mas a música tem uma rotina do autor que foi adaptada para romântica, mas o motivo da viagem era outro: farra com muita bebida alcoólica.

Famosa foto de Adoniran aguardando o trem na estação

Em Jaçanã ficava a Companhia Cinematográfica Maristela, a “prima pobre” da Companhia Vera Cruz de Cinema, que produziu muitos filmes, foi o primeiro estúdio da capital paulista. Por lá gravaram Procópio Ferreira, Sérgio Brito, Nair Belo, Inezita Barrozo, Mazzaropi e Adoniran Barbosa em “Mulher de Verdade” e “A Pensão de Dona Estela”. O bairro nesta época era residencial, não tendo vida noturna e após as gravações, os atores, diretores e técnicos iam para os bares na Vila Mazzei, a apenas 1 km dali. Adoniran contou em uma entrevista que muitas vezes ia a pé, mas a escuridão dificultava a caminhada, por isso preferia embarcar na estação Jaçanã e seguir no trem que passava por lá várias vezes ao dia, sendo o último às 11 da noite, “não era o trem das 11, era o de 10:59”, complementou Adoniran na entrevista. Este horário de trem existia apenas nos domingos e feriados.

Adoniran no filme “A Pensão de Dona Estela” do Estúdio Maristela

A estação de Jaçanã foi aberta em 1910 com o nome Guapira e por volta de 1930 foi rebatizada como Jaçanã, nome que permaneceu até o término das operações com trens no trecho. Era uma estação movimentada, pois servia ao asilo dos inválidos, além da população das redondezas. A estação foi demolida em junho de 1966, dois anos depois do estrondoso sucesso da música que tornou famosa a estação, gravada pelos Demônios da Garoa. No local da antiga estação hoje tem a Praça Comendador Alberto de Souza.

Demônios da Garoa e o Trem das Onze:

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

HÁ 81 ANOS: CAIO MARTINS, O HERÓI DO ACIDENTE ESQUECIDO

Caio Vianna Martins foi um escoteiro herói, com apenas 15 anos de idade deu sua vida para ajudar outros escoteiros e passageiros de um acidente de trem próximo a Barbacena em Minas Gerais. Após a colisão entre duas composições, uma de passageiros que ia de Belo Horizonte para São Paulo e outra de carga que seguia no sentido contrário, o jovem escoteiro, com fortes dores abdominais, juntou a tropa, porém só contou 23, então coordenou a busca dos outros dois que não estavam ali, acenderam fogueiras para iluminar a busca e já ao amanhecer encontraram Helio Marcos de Almeida e Gerson Hissa Satuf já sem vida. Caio continuou a ajudar outras vítimas do acidente, muitas delas eram imigrantes baianos que seguiam para a capital paulista em busca de trabalho. A ajuda de Barbacena só chegou pela manhã, alguns escoteiros buscaram ajuda dos socorristas para que estes conduzissem Caio para o hospital, mas Caio vendo que a quantidade de macas era insuficiente para todos os feridos, recusou ajuda: “Um escoteiro caminha com as próprias pernas“, e assim fez: “Foi andando, junto a seus amigos, até a cidade, mas, ao chegar ao hotel, sentiu-se mal e foi levado à Santa Casa, onde veio a falecer, por conta do rompimento de vísceras e um grave derrame interno”, relatou Elton Belo Reis na página de Barbacena no facebook. Seu corpo foi levado para Belo Horizonte, onde foi enterrado no mesmo dia junto com os outros dois escoteiros falecidos no acidente.

Capa da página do grupo no facebook

A estação de João Ayres fica a menos de 14 km da cidade de Antonio Carlos, um trecho azarado da movimentada linha férrea que liga BH, Rio e São Paulo. Outros acidentes ocorreram neste trecho, dois antes, em 1925 e 1934 e outro depois, em 1951. Este acidente ocorreu na madrugada do dia 19 de dezembro de 1938 e foi o maior desastre ferroviário até aquela data, mais de 40 mortos e dezenas de feridos. O “trem nocturno”, uma composição que seguia entre as capitais mineira e paulista todos os dias, uma em cada sentido. Era formada por uma locomotiva, vagões de primeira e segunda classes, restaurante (chamava-se buffet), dormitório, correios e carga. Os escoteiros seguiam na primeira classe, os dois vagões da segunda classe estavam lotados de imigrantes baianos que seguiam para São Paulo em busca de dias melhores.

Hotel e estação João Ayres. Veja a esquerda da segunda foto o que sobrou do hotel (fotos do site estacoesferroviarias.com.br)

O trecho é de linha singela mas em algumas estações tinha linha dupla para cruzamento de trens. O N-2 (nocturno) parou na estação de Sítio (atual Antonio Carlos) para embarque e desembarque de passageiros, e para aguardar uma composição cargueira, a CEC-81, que vinha do Rio de Janeiro, conforme determinava a licença (autorização com instruções dada pelo chefe da estação para prosseguir viagem). Quando a CEC-81 passou, o N-2 Nocturno seguiu para João Ayres com a licença que rezava: “o trem N-2 aguarda passagem do trem CEC-81 cargueiro com destino a Belo Horizonte, após a passagem do trem CEC-81 poderá seguir viagem até a estação João Ayres, onde ganharia outra licença para poder descer a serra sentido Mantiqueira e a Santos Dumont”. Na estação João Ayres dois trens cargueiros passaram no sentido contrário, o CEC-81 e logo em seguida o C-65. O conferente Werneck Rodrigues comandava a estação e deixou as duas licenças para os trens cargueiros, uma autorizando a composição CEC-81 seguir e outra determinando que a C-65 aguardasse a passagem do N-2 nocturno. A CEC-81 passou sem parar na estação e consequentemente não pegou a licença, quando a C-65 parou, o ajudante desceu e pegou a licença do CEC-81, mandando seguir viagem, e assim seguiu, na direção contrária e na mesma linha singela do trem nocturno mineiro. faltavam só uns 3 km para o acidente.

Revista O Malho de 29-12-38

José Rabelo era o maquinista da C-65, locomotiva da composição cargueira do acidente, sofreu ferimentos graves. No depoimento disse que o foguista (auxiliar do maquinista) José Moyses viu um clarão pela frente, achou tratar-se do nocturno e que a licença que tinha em mãos estava errada, era para outro trem. Neste momento não pensou duas vezes e pulou do trem.

Recorte do Estado de São Paulo da época

O maquinista do nocturno era Franklin Carlos que declarou: “… fui licenciado na estação de Sítio, onde cruzei com a CEC-81, longe estava de supor que logo atrás daquela havia outro cargueiro que o agente de João Ayres também licenciara. O certo é que a uma distância de 500 metros vi faróis na minha frente, a princípio julguei que fosse algum automóvel na estrada de rodagem, mas logo me veio a lembrança que a estrada não passa por ali, … fiz funcionar o apito por duas vezes e quando percebi que tinha a frente uma composição, lancei mão de todos os freios ao mesmo tempo, gritei para o graxeiro e foguista que pulassem da locomotiva: Saltem porque vamos morrer, …, ambos morreram estupidamente sem saber o que se passou…”

Igreja da Boa Morte em Barbacena, com as vítimas fatais

Após saber do acidente, Werneck “andava como louco na estação andando para lá e para cá”. Enlouqueceu quando soube das consequências do seu erro, fugiu e suicidou-se. Entre os passageiros mortos estava Escragnolle Rocha, conhecido capitalista (agiota) de Belo Horizonte “o qual, segundo se adianta, era conhecido pelo seu apego ao dinheiro, motivo porque viajava na segunda classe, como era do seu hábito. Destinava-se ele ao Espírito Santo, a chamado do seu filho”, fofocava o Estadão no dia seguinte.

Capa do jornal A Noite

Se este acidente tivesse ocorrido em um país que valoriza a história, lá no local da colisão teria um monumento e seria ponto de visitação, mas no Brasil é um fato esquecido. Tão esquecido como o acidente é o jovem escoteiro de 15 anos que lutou o quanto pode pela vida dos outros, deixando de lado a sua, a única grande homenagem a Caio Martins estava no estádio de Niterói onde o Botafogo mandava seus jogos antes de ir para o Engenhão, mas no inicio dos anos 2000, a câmara de vereadores de Niterói mudou o nome do Caio Martins para Mestre Ziza (Zizinho), ex-jogador niteroiense que atuava pelo Flamengo.

Jogo do Botafogo no Estadio Caio Martins, hoje Mestre Ziza

GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

O OUSADO SEQUESTRO DO EMBAIXADOR AMERICANO

O ano era 1969, o bairro Botafogo no Rio de Janeiro, há 50 anos aconteceu um fato inesperado, um grupo formado por revolucionários brasileiros ousou sequestrar um embaixador dos Estados Unidos: Charles Elbrick era o seu nome. Às 9 horas da manhã do dia 4 de setembro o grupo se posicionou para a ação na região do Largo dos Leões, dois deles hoje são muito famosos, não pelo sequestro, mas pela vida política que seguiram: FERNANDO GABEIRA, jornalista, político e escritor e FRANKLIN MARTINS, jornalista, ministro da secretaria de comunicações do governo Lula.

Esse era o horário que embaixador passaria na Rua Marques, esquina com Irajá, e não atrasava, mas nesse dia atrasou. Meio-dia chegou um aviso do líder do grupo: temos que almoçar, e assim fizeram no boteco Pé Sujo, ponto de encontro de boêmios, cachaceiros e trabalhadores na hora do almoço, mas voltaram para suas posições combinadas e as 14 horas e 20 minutos surgiu o carro diplomático em um sentido diferente do costumeiro. Sebastião Rios, um dos sequestradores não faz o sinal, percebeu que o veículo era da embaixada de Portugal, se não fosse por esse zelo de Rios, talvez o sequestrado teria sido do português.

Cadillac da embaixada americana abandonado após o sequestro

Às 14 horas e 30 minutos, o grupo já começava a demonstrar sinais de cansaço, mas surge um Cadillac preto com a bandeira americana balançando sobre um dos paralamas, o carro era blindado, mas vinha com os vidros abertos, a placa CD-3 indicava ser o alvo, Rios que segurava um jornal a altura do umbigo desde às 9 da manhã, o levantou para o nível dos olhos, esse era o sinal, começou ai a história de jovens revolucionários apoiados por outros mais experientes, o episódio visava libertar o líder estudantil Vladimir Palmeira, preso no congresso estudantil da UNE em Ibiuna.

O Cadillac parou para um Fusca azul manobrar na rua, o Fusca era conduzido por Franklin Martins e fazia parte da emboscada, o motorista do embaixador quando percebeu a movimentação engatou a marcha ré, mas já era tarde, por trás outro Fusca vermelho, dirigido por Rios impedia o retorno, quatro do grupo se aproximaram, tomaram a direção do motorista. Paulo de Tarso gritou para Charles: “be quiet” já com o revolver apontando para sua cabeça, e seguem até a Rua Vitório Costa onde uma Kombi os aguarda, transportados todos para a Kombi, o embaixador reagiu e tentou tomar o revólver de Virgílio, um dos terroristas, mas tomou uma coronhada de Cyrilo e desistiu.

O Cadillac diplomático é abandonado com o motorista e uma carta com duas exigências do grupo: ler uma manifesto nas rádios e libertar 16 presos, entre eles José Dirceu e João Leonardo (já contei a história deste aqui no JBF. Clique aqui pra reler)

Casa cativeiro de Charles Elbrick, hoje é uma republica de estudantes

O governo autorizou a leitura do manifesto, escrito por Gabeira e libertou os 16 presos, que foram enviados para o México em um avião Lockheed Hércules da FAB. Apesar de a ideia inicial ser de libertar Vladimir Palmeira, os sequestradores incluíram outros com o objetivo de evitar uma futura perseguição direcionada a Vladimir e favorecer outros companheiros que sofriam na prisão. Alguns dos libertados não sabiam por que estava sendo libertados e ao chegarem ao México, a autoridade militar daquele país entrou na aeronave brasileira e ordenou: “saquen las esposas”, Ibraim, um dos libertados respondeu: “nós viemos sós, nossas esposas ficaram no Brasil”, João Leonardo cochichou no seu ouvido: “esposa em espanhol é algema, ele mandou o soldado soltar nossas mãos”. Ao chegar a notícia no Brasil, os sequestradores iniciaram uma operação para libertar o embaixador.

13 presos libertados no embarque na Base Aérea do Galeão, no Rio, mais dois se juntariam ao grupo: Gregório Bezerra no Recife e Mario Zangonato em Belém do Pará