FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

O CEGO

Se eu fosse um cego
Amaria com as mãos
Quanto mais lombadas,
Mais curvas, mais depressão
Aumentaria a emoção
Bastaria uma encruzilhada
Um ponto cego ao lado
Um atalho complicado
Uma pista escorregadia
Uma colisão de frente
Certamente aconteceria:
Um cajado “molemente”
Um cego todo quebrado
Seria minha perdição.

E agora seu guarda?
Como voltar para casa?
Onde a outra me espera
Ela deve estar uma fera
Me aponte uma solução.

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

NOITE DE HORROR

Estacionei meu coração
Em um lugar proibido
Você me encontrou
Aprontou o maior drama
Depois me guinchou
Rebocou pra sua cama
Em seguida me multou
Pagamento em beijos
Sem nenhum descontos
Esse era seu desejo…
Beijei que fiquei tonto
Inda perdi sete ponto
Na minha carteira.

Oh noite de horror!
Horror de beijos.

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

BRASIL X ARGENTINA

Quem pergunta quer saber
Quem sabe, posso ajudar
Grátis, sem nada cobrar
Pra tanto basta me dizer
Como conseguem fazer
Viver sem dar uma esmola
Mas, rouba, mata, esfola…
E ainda se sentir feliz
Com tanto ladrão num país
Por que ninguém rouba bola?

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

GOSTO DO MAR

Gosto do mar
Pelo despudorado assédio
Às extrovertidas marés
E ao inocente luar

Gosto do mar
Que eu tenho em mente
E que diz a gente
Para odiar e amar

Gosto do mar
Que tenho na lembrança
Das histórias de crianças
Que viviam a me contar

Gosto do mar
Pelo despudor das sereias
Embora eu fique na areia
Só a espiar.

Ah se eu soubesse nadar!

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

MEUS DIAS

Tem dias:
Que os quero curtos
Porque estou triste
Hoje eu o quero longo
Porque você existe

Tem dias:
Que eu tenho dúvida
Como será meu porvir
Quando estou com você
Meu futuro me sorrir

Tem dias:
Que eu os quero frios
Pra que você me aqueça
Nesses dias de estios
Espero que não me esqueça

Tem dias:
Que é mais um
Especial no calendário
Nesse dia especial
É o seu aniversário

24/10/2019 esse é o dia!

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

DIVISÃO JUSTA

Dividi contigo:
O quarto a cama
Os dias da semana
Só não dividi a grana
Pois grana não havia

Dividi o amor
O mesmo espaço
Os beijos, os abraços
Só não dividi o cansaço
Não existia cansaço
Com você não havia

Dividi contigo
A alegria de uma criança
O sonho e a esperança
Só não dividi a ignorância
Não havia lugar pra tanto

Dividi contigo:
O calor desse instante
Esse sol escaldante
Só não dividi a lua
Ela estava em minguante

Dividi contigo:
As rosas dos jardins
Os cravos e os espinhos
As pedras dos caminhos
Ficaram para mim

Dividi tudo
Com sinceridade
Depois de tudo dividir
Aí então descobri
Que somos duas metades.

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

ASSASSINANDO A LÍNGUA

Ainda hoje fui ao médico
Fazer um check-up de rotina
A moça que me atendeu
Disse-me mesmo assim:
– Moço o senhor perdeu
O médico hoje “não vai vim”

Eu pensei, valha-me Deus!
E desesperado a chorar
Chamei a moça a um canto
Pedi-lhe banhado em pranto
Moça troque “não vai vim”
Por favor, por não virá.

Ela me disse solícita
– Isso aqui é uma loucura
Mas deixa isso pra lá
Não quero questionar
“Por conta” da sua frescura
Ficaste em último lugar.

– Troque “por conta” por causa
Não me deixe morre a míngua
Falando assim desse jeito
Português cheio de defeito
Você não terá saída
Irá assassinar a língua

– Para encurtar a conversa
Veja o que o senhor me fez
Deve-me R$. 200,00
Pra pagar de uma só vez.
– Fica por conta da aula
Que te dei de português

Saí dali de fininho
Deveras, sem pagar nada
Quem mandou a atendente
Só falar palavra errada.

Eu só sei que foi assim.

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

FRANCISCO ITAERÇO - MEUS RISCOS E RABISCOS

STAND-UP COM POESIA

QUERO

Quero contigo casar
Ter uma prole numerosa
Quero ter filhos e netos
Quero criar cães e gatos
Pode não ser prazeroso
Mas deve ser um barato

OLHOS PRA QUE OS QUERO

Pra que olhos?
Se pra te enxergar
Tenho as mãos
Para te sentir
Tenho o tato
Para te seguir
Tenho o coração…
Só tomo cuidado
Coração acelerado
Aumenta a pressão

TATUAGEM

Tatue um verso
Na minha pele
Sele, chancele,
À noite, ao dia
No fim, será fim
Nada mais, enfim
Será só nós, a sós
Só tu, eu e a poesia.

A COR DA FOME

“A fome é negra”
Não creio que seja
Quem assim graceja
E a cor nunca viu
É pura maldade
Com sua leviandade
Alguém se feriu
Pois há controvérsia
E pode ser conversa
De primeiro de abril.

PECAMOS NÓS

Mudo o tratamento
Te chamo senhora
Somente agora
Quando estamos a sós
Desato os nós
Da língua pátria
Altero a gramática
Desrespeito as regras
No esfrega, esfrega
Te chamo de tu
Não estou nem aí
É cada qual por si
No quarto, na cama,
No jardim, na grama…
Depois do rala e rola
Ouço o que tu me diz:
Veja só o que tu fez.
O que tá feito, tá feito
Não tem outro jeito
Eu quero outra vez.