FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

UMA ONG PARA A PÓS COVID-19

Apavorado, amigo de longa data, tempos recifenses, me liga quase desesperado para o telefone da minha salinha residencial de trabalho. Declarando-se de pernas bem fechadas, tronco semi-curvado a la frei Damião e olhos arregalados, foi logo desabafando: “Nando, quando é que vão instituir o SOS Pinto, uma ong para salvaguardar os interesses dos que ficam, na maior parte da vida útil , de cabeça baixa?. Não se pode ser omisso, ficando de pernas cruzadas, diante das giletadas, mordidas, foiçadas, águas ferventes, torcidas propositais e unhadas mórbidas que estão no noticiário jornalístico diário, praticadas por todos os gêneros, do hétero ao LGTBSDTYZ”.

Avaliando, do meu canto, o medo estampado nas duas cabeças do amigo querido, boemia frente e verso e muito mel de décadas, recomendei-lhe tomar um chá bem frio (quente ele poderia entender como uma intenção mórbida!) e busquei introduzi-lo num assunto menos cacete para o momento. Pedi esclarecimentos, assegurando-lhe que estava pronto para o que desse e viesse, pau pra toda obra.

O que eu ouvi merece a criação, em regime de urgência, de uma Ong especializada no combate aos que atentam para a integridade física de um dos responsáveis, sejamos diretos e duros, pela perpetuação da espécie humana, que paulatinamente vem se assenhoreando da História Cósmica. Os relatos dele, sob hipótese alguma, não deixam água na boca. Não respeitam qualquer tamanho, vitimando encapuzados e carecas. Maculando até os derredores, simples containers de material liquefeito.

E o amigo de longa data ainda revelou um outro inconveniente: todos os dirigíveis vitimados não tinham caixa preta, impossibilitando qualquer anotação acerca do acontecido durante os preliminares procedimentos de subida.

Imaginei algumas iniciativas atenuadoras:

1. Proibição, nos locais adequados e específicos, de portar qualquer instrumento cortante, estrangulante ou perfurante, inclusive dentaduras e pontes;

2. Instalação, nas portas de entrada dos ambientes lovelescos, daqueles detectores de metais utilizados nos aeroportos e bancos, recolhendo-se canivetes suíços, beliros de cabelo, tesourinhas, alicates de unhas, correntes de todos os tamanhos, fios dentais, alfinetes, canetas de pena, clips de metal, cadarços de sapatos e fivelas de todas as marcas;

3. Posicionar, ao lado de cada uma das portas de entrada, funcionária devidamente capacitada, que ajustaria os tamanhos das unhas da clientela, deixando-as em grandeza inofensiva.

Na área judicial, acredito que as mais diversas varas também ficarão sensibilizadas com a problemática, devendo erguer-se duramente na defesa das vítimas de dentadas erradicadoras, decepações simples, decepações com esmagamentos, estrangulamentos e beliscões dolosos e culposos.

Os seguros-saúde com certeza reformatarão suas apólices, autorizando cirúrgicos remendos, restaurações e transplantes de pintos novos e velhos, cada solicitação devendo ser avaliada por uma junta cujos membros entendam do riscado, sabendo rapidamente decidir, sem frigir os ovos.

Que o SOS Pinto seja brevemente inaugurado, favorecendo nobilíssimas missões de cabeças erguidas, para que todos possam continuar desbravando interiores de todos os tipos, cuspindo sempre com muita energia, apesar dos perigos. Pois adentrar é preciso, embora viver não o seja tanto.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

NOMES E SOBRENOMES

Nas varas especializadas de família, os processos correm em segredo de justiça, embora alguns casos, por não possibilitarem constrangimentos, sejam passíveis de divulgação.

No mundão lusófono, como nas demais localidades do planeta, acontece cada coisa que até o Homão lá de cima duvida. Agora mesmo, amigo fraterno de Oeiras, uma das mais hospitaleiras cidades portuguesas, me envia cópia de uma petição, fato acontecido em plena África de língua camoniana, com um não menos interessante despacho de magistrado reconhecido pela sensatez dos seus pronunciamentos.

A petição tem o seguinte teor, resguardada a identidade da sede da comarca e também do país:

Sincranópolis, 5 de março de 2002.
Ao Senhor Juiz da Vara e Família.
Assunto: Solicitação para mudança de nome.

Eu, Maria José Pao, casada, do lar, gostaria de saber da possibilidade de se bulir no sobrenome Pao de meu nome, já que a presença do Pao tem me deixado embaraçada em varias situações. Desde já antecipo agradecimento e peço deferimento. Maria José Pao.

Em resposta, o douto magistrado lhe remeteu a seguinte correspondência:

Cara Senhora Pao:

Sobre sua solicitação de remoção do Pao, gostaríamos de lhe informar que a nova legislação permite a retirada do seu Pao, mas o processo é deveras complicado. Se o Pao tiver sido adquirido após o casamento, a retirada é mais fácil, pois, afinal de contas, ninguém é obrigado a usar o Pao do marido se não quiser. Se, entretanto, o Pao for do seu genitor, o caso se torna ainda mais difícil de solução imediata, pois o Pao a que nos referimos é de família e vem sendo usado por várias gerações. Se a senhora tiver irmãos ou irmãs, a retirada do Pao a tornaria diferente do resto da família. Não seria agradável cumprimentar todos com Pao, menos a sua pessoa. Por outro lado, cortar o Pao de seu pai deverá magoá-lo de modo irreversível, deixando-o decididamente infeliz. Outro problema, porém, está no fato de seu nome completo vir a conter apenas dois nomes próprios, ficando esquisito caso não haja nada para colocar no lugar do Pao. Isso sem falar que as demais pessoa s estranharão muito ao saberem que a senhora não possui mais o Pao do seu marido. Uma opção bastante viável seria a troca da ordem dos nomes. Se a senhora colocar o Pao na frente da Maria e atrás do José, o Pao pode restar mais escondido, porque a senhora poderia assinar o seu nome como Maria P. José. Nossa opinião é a de que o preconceito contra este sobrenome já acabou há muito tempo e que, já que a senhora usou o Pao do seu marido por tanto tempo, não custa nada usá-lo um pouco mais. Eu mesmo possuo Pao, sempre usei e muito poucas vezes o Pao me causou embaraços. Atenciosamente, Desembargador Joaquim Manoel Pao, Vara de Família do Tribunal de Justiça.

Em tempos pandêmicos como os atualmente vivenciados planetariamente, provocando uma veloz mediocrização mundial, a desvalorização do sobrenome da jovem peticionária é por demais sintomática. Em nosso país, por exemplos, diante de uma rabolatria que substitui as posturas artísticas mais sensíveis em programas televisivos, percebe-se a urgência de se noticiar iniciativas mais ajustadas às irreversíveis reestruturações sociais de todos os quadrantes terrestres, favorecendo debates sementeiros que erradiquem os execráveis níveis educacionais que apenas conduzem as massas populares para charcos nada sobrevivenciais.

A responsabilidade não é só da área pública. Ainda ontem, vi uma propaganda televisiva pernambucana, onde o proprietário da empresa pinotava e fazia caretas imitando um macaco em plena floresta, o símio com desempenho muito bem representado pelos gestos tresloucados do empresário-saguim.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

HUMOR JUDAICO

Confesso minha felicidade em ter um montão de amigos judeus pelos quatro cantos do Brasil, alguns do outro lado do Atlântico e uma meia dúzia nos Estados Unidos, sempre enviando notas e análises sobre as Trumpalhadas de um careca emperucado que almeja uma reeleição presidencial mesmo desprezando a etnia negra que se prepara para não decepcionar o ideário deixado pelo inesquecível Martin Luther King, aquele que pronunciou o muitas vezes por mim lido Eu Tive um Sonho.

E de todos eles, sem exceção, guardo uma característica, a de um humor inteligente, muitas vezes até voltado contra si mesmos.

De um deles, o Jacozinho, folião que nem eu do carnavalesco Bloco da Saudade quando tínhamos resistências musculares para os desfiles momescos. Ele sempre costumava repetir o que tinha lido num livro que me presenteou no ano retrasado: “Se alguém te diz ‘és um burro’, não dês importância. Mas se duas pessoas te disserem a mesma coisa, atrela-te a uma carroça”.

Profissionalmente altamente qualificado na área tecnológica, ele possuía uma programação de leituras de textos humanísticos nacionais e estrangeiros, possuindo um sólido nível cultural que o fazia indispensável em todas as reuniões sociais que participava.

Nós detestávamos hipócritas, fingidos, babaovistas, boçais, farofeiros e merdálicos, aqueles que se imaginam nunca se imaginam inseridos nos interiores penicais do mundo.

O livro que foi presenteado por ele – Do Éden ao Divã: Humor Judaico, Companhia Das Letras, organizado por Moacyr Scliar, Patrícia Finzi e Eliahu Toker – contém deliciosas historietas pejadas de humor inteligente.

Nas últimas eleições de Israel, conta-me Jacozinho, um chassid – um acendedor de lampiões que sabe que a chama não lhe pertence – foi conversar com seu rabino. E logo foi dizendo: Rabi, sonhei que liderava trezentos chassidim. Ouviu o rabino uma recomendação pra lá de arretada: – Volta quando trezentos chassidim sonharem que és o líder dele.

O que eu mais apreciava, quando desfilava no Galo da Madrugada com Jacozinho, era ouvir suas historietas, prá lá de cáusticas algumas, que ele desfiava sem parar não deixando quieto ou extenuado quem estivesse ao seu derredor. Lembro-me de algumas até hoje, que me deixam com uma saudade danada dos papos daquele amigo, hoje sediado na capital paulista. Enumero algumas delas, homenageando toda a gente hebraica, de quem sou irmão desde Salomão, Isaac e Jacob. Apenas como aperitivos:

1. Dois judeus estão sentados em silêncio num banco de praça há mais de duas horas. Finalmente, um deles dá um longo suspiro seguido de um oi saído do fundo do coração.

O outro logo responde: – Para mim, você vai ter que contar.

2. O Morris encontra-se com o Meyer de cara trombuda, logo lhe perguntando:

– Por que essa cara, Meyer?

– Eu vou te dizer a causa. Na semana retrasada, minha tia Rozete morreu e me deixou cinquenta mil dólares de herança. Na semana passada, meu tio Chaim morreu e me deixou setenta mil dólares de herança. Mas nesta semana ninguém morreu! Não é horrível?

3. Um turista americano desembarca no aeroporto Ben-Gurion e toma um táxi, encarecendo ao motorista:

– Leve-me para onde os judeus se desfazem em lágrimas.

Imediatamente o chofer atravessou toda Jerusalém, indo diretamente para o Ministério das Finanças…

Um país por mim muito amado, terra natal de um Irmão Libertador de todos nós.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

POR UM NOVO ENSINO SUPERIOR EM PERNAMBUCO

Parabenizando com euforia a UPE e a UNICAP pelo convênio firmado recentemente, indagaria a ambas se não teria chegada a hora de se estruturar, em Pernambuco, uma Secretaria de Ensino Superior, com um Conselho de Educação Superior, desafogando a atual Secretaria de Educação de Pernambuco e dinamizando IES públicas e privadas?

Outro dia li uma declaração de pesquisador do Reino Unido, Ronald Barnett, com a qual concordo integralmente: “A universidade pós-moderna está transformando a maneira como nós educadores e gestores teremos de lidar com os desafios que estão surgindo e repensar como nossas Instituições irão sobreviver em uma era de supercomplexidades.”

Em nosso estado, os dirigentes de ensino superior bem que poderiam distribuir nos primeiros dias de aula dos vestibulandos, o Mapa do Fracasso, de Paul Krugman, Nobel de Economia:

1. Pensar em curto prazo – Não projetar, nem raciocinar para além de cinco anos;

2. Ser obsessivo – Ter como objetivo ganhar sempre, sem considerar os seus limites;

3. Acreditar que existe sempre alguém mais tolo do que você – Desprezar o ditado que diz “Sempre haverá alguém, como você, suficientemente estúpido para só perceber o que está acontecendo quando for tarde demais”;

4. Acompanhar a manada – Não ouvir as vozes discordantes, que são até ridicularizadas e silenciadas;

5. Generalizar sem limites – Criar preconceitos e condenar ou louvar instituições e pessoas por critérios difusos e subjetivos, na maioria bestiais;

6. Seguir a tendência – Procurar ver o que está dando certo, copiando acriticamente e esperar que os resultados se repitam;

7. Jogar com o dinheiro dos outros – Progredir com o investimento alheio.

Em época de passividades mil que estamos vivenciando, urge um planejamento estratégico não vago nem fantasioso, tampouco carimbológico, não obstaculizando metas sementeiras, nem favorecendo a diluição demagógica dos objetivos estabelecidos.

Em toda universidade ou instituição de ensino superior do Estado de Pernambuco, pública ou particular, o como começar não deverá ser viabilizado de uma única maneira. Cada uma deverá preservar suas peculiaridades, que exigirão procedimentos específicos capazes de proporcionar um aproveitamento ideal entre talento e experiências já vivenciadas.

Na construção de horizontes universitários mais promissores para Pernambuco, todo cuidado é pouco com os medíocres. Necessitamos, através das múltiplas maneiras de debater e deliberar com objetividade, presencial ou onlinemente, as diretrizes alavancadoras para o nosso ensino superior:

1. Qual é a missão do ensino superior estadual?; 2. Como saber bem diferenciar erro de negligência?; 3. Que iniciativas poderão, a curto e médio prazos, serem implementadas diante das mudanças velozes que estão se processando?; 4. Como efetivar o planejamento estratégico com maturidade, sem as fobias advindas da idiótica dicotomia direita-esquerda? 5. Como ser dirigentes conscientes, sem bajulações e subserviências?; 6. Como assimilar o desconhecido, sempre se vendo como um eterno aprendiz, sabendo bem diferenciar aprender e apreender?; 7. Que razões mais substantivas exigem ações sem procrastinações?; 8. Como explicitar inquietações propositivas, nunca se comportando tal e qual aquele cego num quarto escuro procurando um gato preto que lá não mais se encontra?; 9. Como favorecer uma maior integração operacional – ensino x pesquisa x extensão x divulgação – entre todas as IES estaduais?; 10. Como combater a “cegueira do progresso”, expressão feliz do filósofo Adorno, evitando a transformação da vida universitária brasileira em espetáculo circense?

Não seria o caso de analisar melhor a Secretaria de Ensino Superior de São Paulo, uma iniciativa eminentemente catapultadora? Ou de se instituir uma Federação de Ensino Superior de Pernambuco – FESUPE -, sem vínculos oficiais, envolvendo iniciativas públicas e particulares, capaz de favorecer uma dinâmica integração Tecnologia x Ciências Sociais e Humanas x Área Médica x Ciências Exatas, para alavancar uma nova era iluminista para um estado que muito amamos?

Pensar um tiquinho mais nunca fez mal a ninguém.