FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

ICAT – INICIATIVA URGENTE

Amanheci certo dia, depois de horas de conversação noturna regada de muito humor com um grupo de amigos interneticamente antenados, absolutamente convencido de que incontáveis acontecimentos, pessoais e institucionais, somente na aparência estão desconexos ou são esdrúxulos. Porque apenas vistos sob uma ótica racional, linear, mapeeira (de mapa), jamais bussoleira (de bússola). Sempre a menosprezar, com frequência, aquele ditado popular, pra lá de otimamente sábio, que diz que “Deus escreve certo até por linhas muito tortas”.

Percebi, nos meus últimos decênios, que muitos companheiros de caminhada ainda não descobriram a essência das suas missões individuais, por sempre impossibilitarem a emersão de seus sentimentos nobilitantes, os únicos capazes de amordaçarem horóscopos e amuletos, falsos brilhantes, raposices, fingidos e amacacados. E imaginei como seria útil a atuação de um ICAT – Instituto de Conexões Aparentemente Tardias, entidade com a finalidade única e precípua de explicitar, mesmo que sob vieses desconcertantes, os “enxergamentos” mínimos para os encontros vivenciados de mãos nunca sujas, quilômetros distanciados das torres de marfim que asfixiam e cegam, subestimam, mitificam, enclausuram e mumificam.

Nos estatutos do ICAT, alguns parâmetros germinais favoreceriam contínuos reposicionamentos, para se evitar um viver morrendo destemperado e virótico, também letal e neurótico:

1. O bem-querer terá prevalência sobre todas as lógicas destrutivas;

2. Os méritos serão sempre coletivos e jamais fingidos, nunca individualizados;

3. As amizades conquistadas são o maior patrimônio de todo ser humano em contínua evolução em direção à Luz;

4. Esmagar potencialidades é crime de lesa-convivialidade;

5. Jamais abandonar um aprender-desaprender-reaprender que ressalte as diferenças substantivas entre permanência e mutação;

6. Tornar-se águia sem mentalidade de galinha, por mais emplumada que esta seja;

7. Entender que mente saudável, além de saber fazer, faz também acontecer;

8. Saudades bem sentidas, nostalgias contidas;

9. Umbrais ultrapassados, sonhos recuperados;

9. Para se ver no futuro, saber enxergar-se nos demais tempos;

10. A meta maior é o somatório de inúmeras e pequeninas outras metas, também importantes.

Nos seus eventos pioneiros, o ICAT enalteceria seu mandamento primeiro: os talentos são recursos que devem ser utilizados para a felicidade de todos, posto que solitariamente jamais se conviverá prazerosamente com a Vida e com os demais Mundos.

No mais, o ICAT retemperaria seus buscadores, enaltecendo a qualidade do sal, a busca constante pela viabilização do aparentemente impossível, as complementaridades do gênero humano. E ainda almejaria a paz nunca cemiterial, os objetivos cósmicos, artes e espaços nunca dantes navegados. Ampliando, sem pedanterias, as fronteiras da autoestima, tornando-se vocacionalmente misericordioso com os ananzados e os fanfas, principalmente se portadores de muita jactância e poucos neurônios em posturas televisivas.

No ICAT não teriam vez nem voto os merdalhosos, os insinceros, os babaovistas, os fuxicosos, fakenewseiros, os não-caminhantes, tampouco os que nunca leram a reflexão do Dostoievski: “O mistério da existência humana não está em apenas se manter vivo, mas em encontrar algo pelo que viver.”

O ICAT seria uma Ong nunca obscurecida pelos amerdalhamentos dos eventos bbbostélicos das televisões nada criativas, apenas lucrativas diante das alienações de milhões.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

GESTÃO DO CONHECER PARA INFORMAR

Impressiona a ânsia com que algumas personalidades do meio técnico-científico-cultural brasileiro se arvoram de conhecedoras de tudo, mal sabendo diferenciar dado, informação e conhecimento, ignorando por completo, posto que contaminadas por inadequadas vaidades comunicacionais, o alerta sempre oportuno de Sydney J. Harris: “O verdadeiro perigo não é que os computadores comecem a pensar como seres humanos, mas que os seres humanos comecem a pensar como computadores”.

A advertência acima me faz recordar algumas panaceias e fórmulas mágicas mirabolantes oferecidas por lustrosos ispecialistas, os quais imaginam, equivocada ou convenientemente, que qualquer tecnologia de ponta pode dispensar a qualidade e a avaliação de um trabalho humano experiente e consolidado cientificamente. Fruto de anos de pesquisas e reflexões submetidas a um saber-fazer consistente e de efeitos sociais duradouros.

Os que ainda não se hipnotizaram pelos que torcem por uma informática-fim, nunca apenas meio, se encontram convencidos de que a única vantagem sustentável que uma organização possui é aquilo que ela coletivamente domina, a eficiência com que ela usa o que sabe e a prontidão com que ela adquire e usa os novos conhecimentos, apreendidos de um modo integral e perscrutador, sem os imediatismos cretinos provocados pela pandemia do COVID-19. Tudo isso a ratificar o pensar de Peter Drucker, segundo o qual o conhecimento está sendo identificado como a nova viga mestre da competitividade na sociedade pós-capitalista, posicionando-se essencialmente imbricado com atividades crescentemente comunitárias. Uma opinião que se consolida no ideário de Paul Romer, Prêmio Nobel, renomado economista de Stanford, segundo o qual o conhecimento é, hoje, o único ativo que aumenta com o uso, sendo considerado um recurso ilimitado. Ele era economista, nunca economerda.

Se, por exemplo, um profissional de razoável bagagem militar se considera capaz de exercer suas funções gerenciais em qualquer área, até mesmo no setor da saúde pública, poderá ele estar sendo vitimado por uma fixidez funcional, também denominada de “psicoesclerose”, um endurecimento de atitudes burocráticas, que inevitavelmente o levará a se manifestar, sempre da mesma maneira em qualquer ambiente de trabalho, através de justificativas superadas, sem um mínimo de criatividade executiva. É por isso que o professor-médico e psiquiatra John Kao, da Harvard Business School afirma em documento que “a teoria administrativa tradicional é analítica, movida por uma disposição mental administrativa tradicional, podendo causar danos irreparáveis em ambientes movidos pela criatividade”.

Concordo com entusiasmo com quem considera a informática um dos insumos mais revolucionários de todos os tempos, se bem utilizada para o aprimoramento do todo, sem as BOI – Bostejadas Opinativas Informacionais dos que anseiam por meros segundos televisivos.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

DESOPILAÇÃO DA MODA

Os tempos internéticos têm proporcionado um gigantesco crescimento dos conhecimentos técnico-científicos, a multiplicação de “talentos cibernáuticos”, a mundialização de algumas idiotices e a aparição de umas tantas vaidades dinossáuricas neste Brasil de meu Deus, com algumas grosserias presidenciais que revelam um nível cultural amplamente deficitário. Mais ou menos idênticas à daquele recém pós-graduado sulista que está inserindo na rede Internet capítulos e mais capítulos de sua tese de doutorado, patrocinada por uma fabriqueta de bolachas.

Mas a maior alegria na Internet está acontecendo com a emersão de centenas de taglines, pequenas frases que revelam trocadilhos, gozações, deboches e desmoralizações com ideários tidos e havidos como de ontens que não mais retornarão.

Classifiquei uma vintena de taglines, para proporcionar a todos uma avaliação acerca da criatividade brasileira, apesar de todos os pesares e desatenções educacionais possíveis. Ei-la:

1. Não há nada no escuro que você possa ver;

2. Mulher é um conjunto de curvas capaz de levantar um segmento de reta;

3. Parte do automóvel que é vendida no Egito: os faraóis;

4. A ejaculação precoce era conhecida na Antiguidade como mal que mela;

5. Nunca ligou para dinheiro, quando ligou estava ocupado;

6. Rouba dos ricos e dá aos pobres, além de ladrão é gay;

7. Barganhar: receber um botequim de herança;

8. Se barba impusesse respeito, bode não teria chifres;

9. Deus criou o homem antes da mulher para não ouvir palpites;

10. Já que a primeira impressão é a que fica, use uma impressora laser;

11. Abelha morre eletrocutada numa rosa-choque;

12. Estouro: bovino que sofreu operação de mudança de sexo;

13. Menstruação é ruim? Pior é quando ela não vem!;

14. A zebra disse pra mosca: você está na minha lista negra;

15. Se bebida curasse alguma coisa, cachaça tinha bula;

16. Tudo na vida é passageiro, menos motorista e cobrador;

17. Loira Gelada é só uma mulher esticada numa mesa do IML;

18. No dia que chover mulher, quero uma goteira em cima da minha cama;

19. Meu gato morreu em miados do ano passado;

20. Virgindade é que nem picolé: acaba no pau.

Homenageio, transcrevendo as taglines acima, um notável pesquisador, pioneiro na coleta do que havia de mais pitoresco em para-choques de caminhão: Marcos Vinicios Vilaça, hoje personalidade consagrada internacionalmente. Ele revelou ao país inteiro, em 1961, a criatividade e o humor, as ironias e as farpas dos caminhoneiros brasileiros nos para-choques dos seus caminhões. Algumas:

– “Não sou pipoca, mas pulo um pouco”;

– “Cerveja só gelada, mulher só quente”;

– “Mulher e parafuso, comigo é no arrocho”;

– “Sem amar não sem vive”;

– “Mulher feia e urubu, comigo é na pedrada”.

As tiradas de ontem e as de agora são sinais vitais da vivacidade intelectiva de um povo, o brasileiro, apesar das boçalidades bolsonáricas. Um povo criativo por excelência, pronto para desenvolver o seu território pátrio, se lhe derem vez, voto, vacina, emprego, renda, terra, enxada e mais democracia participativa.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

MEGAS IDIOTAGENS

Nada me irrita mais que papo de abilolado, aquele que se encontra integralmente desligado de tudo e de todos, como se o tempo tivesse estacionado.

Vez por outra me deparo com um, de carro zerinho, relógio gota serena e celular dos mais tampas, olhar de desdém para com o resto da humanidade e frases pré-fabricadas, tiradas geralmente de um senso comum defasado que não bota mais ninguém pra frente.

Ano passado, numa capital nordestina, praieira por excelência e bem atraente turisticamente, “enfrentei” duas horas de convivência com um “homus bobus” sulista, travestido de entendido em fatos e feitos da conjuntura contemporânea, “especializado” em merda muita e despreocupado com as regras gramaticais e as estruturas lógico-formais da epistemologia.

Racista por derradeiro, embora nitidamente não-branco, confessava sua irritação com todos aqueles que defendiam os menos favorecidos, por ele considerados farinha de mesmo saco. Explicitamente equino nas Ciências Humanas, não compreendia nadica-de-nada de penas alternativas, e acreditava que a pena de morte seria a melhor das soluções para os atuais índices de criminalidade, não admitindo tampouco a ação do Estado na proteção e fomento dos despossuídos. E ainda considerava que o objetivo último do bem viver estava intrinsecamente vinculado a três fatores: mulher, dinheiro e poder, o viver sendo melhor usufruído por quem melhor soubesse conciliar o “trinômio” acima.

Indagado sobre as leituras feitas nos últimos três anos, esboçou um sorriso debochoso, quase me deixando convencido da existência de um pedaço da humanidade que não teria seguido à risca os parâmetros evolucionais de Darwin. E perguntou de supetão, se valia a pena ler, quando outros meios de comunicação estavam à disposição de qualquer um.

Devidamente adentrado nos anos trinta, corpo bronzeado e olhos bem negros, confessou malhar duas horas por dia, caminhar oito quilômetros e cumprir sesta de duas horas todas as tardes, religiosamente, embora não acreditasse em nada relacionado com o além-vida, ainda que, no pulso esquerdo, exibisse duas fitinhas amarelas que pareciam bem amarradas, embora quase apodrecidas.

Ao lhe dizer o que eu fazia ensino e pesquisa, espantou-se sem relinchar: “Como você aguentou ser isso?” E olhou-me como se eu fosse uma espécie raríssima, certamente um “homo-imbecilis”, desses que perdem muito tempo com um monte de besteiras: vocação docente, cultura, empregabilidade, democracia, dignidade, ética, desenvolvimento de todos, direitos humanos e cenários futuros.

No abraço final, respeitosamente me aconselhou: “Tás ainda ágil, amigo. Entra numa boa, que dê muito ibope, tutu e mulher, que é o que hoje vale. O resto é cascata pura, cada um devendo procurar o melhor para si, sem se preocupar em dar colher de chá pros outros”.

Almocei com um amigo de infância paraibano ainda sentindo a sensação de ter encontrado uma espécie não-rara do atual cenário brasileiro. Que será amplíssima maioria, caso as autoridades responsáveis pelos nossos destinos, juntamente como os demais segmentos comunitários, não binoculizarem estratégias educacionais compatíveis com as metas de um desenvolvimento econômico-social que privilegie um saber-fazer lastreado numa responsabilidade solidária jamais individualista, conservadas as peculiaridades típicas de cada um.

Se isso não acontecer, os BBBs serão cada vez mais frequentados por idiotas chorões, incultos, ególatras e acafajestados, sem uma mínima criatividade estratégica.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

NEGATIVISMOS

Não existe gente mais azeda do que aquela que carrega na ponta da língua um monte de nãos recheados de um pessimismo gota serena de cretino. Que se assusta com qualquer peido-do-meio, não se desgrudando das preocupações mais abestadas, sempre transformando tudo em odiosas acusações prenhes de derrotismos, sempre culpando a imprensa pelas suas merdalidades diárias. Quando tal negativismo desagregador se instala, o azedume é explícito, risível, fazendo aflorar, em alguns, um saudosismo da bexiga-lixa, em outros uma vontade mórbida de se escafeder, sem qualquer esperança num melhor amanhã, havendo aqueles que se valem de um andar de motoca para afugentar as bosteiras cometidas.

Os negativistas, hoje seita bastante crescidinha, são, regra quase geral, mal amados, possuem uma estupidificante insuficiência cultural, apesar dos bens adquiridos e parcerias já concluídas. De muito ínfima razão crítica, portadores de crasso egoísmo, envenenam-se com as mentiras que enaltecem seus pseudo-sucessos e/ou empobrecem políticos que despudoradamente se auto-anistiam ou cinicamente se portam como xeleléus chupadores.

O reinado dos negativistas se robustece quando a parte menos protegida do corpo social se acostuma com os sintomas de uma perversa decadência moral, apavorada com a possibilidade de ser tragada em definitivo por um ciclo econômico onde apenas refestelam-se os eleitos de um autofágico mercado financeiro. Diante de uma acomodação cínica, acreditam os negativistas que voar e rastejar são verbos destinados a categorias sociais distintas, com as exceções que se fazendo necessárias apenas para confirmarem a regra geral.

Sem uma educação cidadã, colonizados e colonizadores não domesticarão seus instintos primários. A lição do mais que notável Albert Einstein baliza quem busca propósitos altaneiros: “Se os homens, como indivíduos, cedem ao apelo de seus instintos básicos, evitando a dor e buscando satisfação apenas para si próprios, o resultado para todo o seu conjunto é, forçosamente, um estado de insegurança, medo e sofrimento geral. Se, além disso, eles usam sua inteligência numa perspectiva individualista, isto é, egoísta, baseando suas vidas na ilusão de uma existência feliz e descompromissada, as coisas dificilmente podem melhorar. Em comparação com os outros instintos e impulsos primários, as emoções do amor, da piedade e da amizade são fracas e limitadas demais para conduzir a sociedade humana a uma condição tolerável”.

Cultivar amizade com pessoas de espírito elevado, ainda que de opiniões divergentes, eis ainda um grande mote revivificador. Admirar pessoas de pensamentos não nostálgicos, criadoras de uma atmosfera sadia, que abjuram ser donas da verdade, cultivando serenas apreensões, oxigenadoras de salutares estratégias de superação de situações conflituosas, faz civicamente muito bem.

Estejamos sempre aptos para destruir os comodismos e as boçalidades, os principais adversários da inovação, tratando todos com equidade de direitos e prestígios individuais e coletivos. Reconhecendo que as vassouras novas, além de novas, devem estar de pelagem luzidia, sem pregos-esporões nem enviesamentos cavilosos, mesmo que travestidos de liberais.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

TERRA DE ALTOS COQUEIROS

Diante das últimas patacoadas públicas praticadas por presidente, ministros e governador de estado rico, o palmarense Luiz Berto, autor do lido, relido e sempre muito atual O Romance da Besta Fubana, está coberto de razão: “Pode-se perdoar tudo num homem, menos que não bote força para deixar de ser burro”. E se juntar tal ensinamento com outra sabedoria dele – “Humildade demais não faz bem ao caráter de um cidadão decente” – pode-se inferir, sem medo de errar, que as duas vertentes parecem estar ausentes há anos do cotidiano da vida pernambucana, da terra dos altos coqueiros, imortal, imortal. Para tristezas múltiplas dos hoje recifensizados, que para aqui se deslocaram nos anos cinquenta. E que se sentem tão maurícios quanto os outros, até com mais responsabilidades, posto que, “estrangeiros”, buscam social e profissionalmente retribuir da melhor maneira a hospitalidade oferecida pelos daqui.

O Mário Souto Maior, pesquisador da cultura popular, também daqui deslocado para o Alto, vindo de Bom Jardim, cidade natal de gente boa, tinha a consciência plena de não deixar esborralhar as trilhas fecundantes já percorridas por Luiz da Câmara Cascudo, Edison Carneiro, Napoleão Figueiredo, Manuel Diegues Junior e tantos outros que estudaram o nosso folclore, sempre atentos para a erradicação dos alienados de sempre, deseducados e eternos adoradores acríticos de feitos e fatos alienígenas.

No Nordeste, para evitar a multiplicação dos parlapatões, o Mário Souto Maior, contemplado com duas citações no Dicionário Aurélio Eletrônico For Windows, Editora Nova Fronteira, exerceu um eficaz papel de “desabestalhador”, evitando que se fique “despido de respeito” quando o regional for aflorado em conversas acadêmicas ou mundanas. Num dos seus livros, Riqueza, alimentação e folclore do coco, edição custeada do próprio bolso, ele possibilita ao leitor uma visão da cultura do coco na Zona da Mata, das suas páginas se podendo extrair várias iniciativas.

Uma das ilações da pesquisa do Souto Maior prende-se à área alimentar. Os restaurantes do Recife, tão avaros em sobremesas regionais, encontrariam no livro sobre a cultura do coco um montão de sugestões deliciosas. Quem não apreciaria, findo almoço ou janta, provar uma baba-de-moça? Ou uma cocada, a branca feita com açúcar cristalizado e a preta com mascavo, ambas de deixar água na boca, rememorando Nando Cordel, esse danado de bom do forró. Quem sabe fazer uma fritada-de-camarão sem o próprio, que está caro pra caralho, reservado apenas para os dias de comemoração festiva? No livro do Mário, a receita se encontra detalhada tim-tim por tim-tim, sem um mil-réis de omissão. E muitas outras preciosidades de inundar o céu de boca, mesmo em época de pandemia bravia: quejadinha, sabongo, beiju, bolo-caroço-de-jaca, quindins, lelê e vira-vira, ficando por aqui para não deixar leitor do JBF babando.

A medicina empírica também marca presença na publicação do Mário: lavar a cabeça, manhã bem cedinho, com água de coco, dá ótimos resultados; chá da bucha de coco para hepatite; óleo de coco pra chulé de menino e adulto; azeite de coco para bicho-de-pé e mijada-de-potó; chá de estopa de coco para urina solta. Inúmeras outras mostram a utilização extra alimentar do coco e seus derivados.

O texto do Souto Maior destina-se aos bravos guerreiros, de soberbo estendal, que desejam ser modernos, século 21, sem perder as características regionais mais marcantes, sem jogar na lata dos imprestáveis os contextos folclóricos que sedimentaram um caminhar comunitário mais que tricentenário, arretado de muito ótimo.

A partir de uma leitura do livro do Mário, sabe-se de muitas coisas, não se torna um coco-de-pau de qualquer enjoado-como-farinha-de-coco. Nem se deixa levar-no-coco por qualquer catemba-de-coco travestida de doce-de-coco, que busca tirar-o-coco com os mais desatentos, sem camisinha alguma.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

OS PAUS DO MÁRIO

Todas as quintas-feiras muito me divirto assistindo um evento internético coordenado pelos notáveis escrotólogos Maurício Assuero e Luiz Berto, onde a cultura popular é explicitada sem mas-mas-mas por personalidades especializadas, belas mulheres de QI arretados e homens idem, advindos de todas as regiões brasileiras. Que declamam, contam estórias, relatam acontecidos molecais, enaltecem o seu derredor regional e ainda divulgam fatos pitorescos inesquecíveis dos nossos ontens brasileiros não oficiais, que jamais deveriam ser relegados.

Rendo minhas homenagens aos construtores da cultura popular brasileira. Ela ainda não bateu pino graças aos esforços de muitos abnegados, que efetivam suas mostras tirando dos magérrimos próprios bolsos o necessário para divulgação dos seus estudos, feitos e fatos.

Nesse resistente universo, o lugar do folclorista pernambucano Mário Souto Maior, já na eternidade, está no primeiríssimo escalão. Os seus livros Nomes Próprios Pouco Comuns, Dicionário do Palavrão e Dicionário Folclórico da Cachaça, subsidiam centenas de estudiosos, que necessitam de trilhas seguras e honestas, distanciadas dos embusteiros macunaímicos e vivaldinos.

Integrando a trilogia acima, o Souto Maior, certa feira, fez entrega à sociedade, de um guia pra lá de arretado de ótimo: Geografia Popular do Pau Através da Língua Portuguesa. Trezentas e cinquenta expressões analisadas, sem resvalar para o chulo e o grotesco. Sem obscenizar seu meticuloso ensaio, ele demonstra como o pau contribuiu para as manifestações do nosso brasileiríssimo dia-a-dia, ainda não de todo tragado pelos importados modismos primeiromundistas colonizadores.

Imaginei logo uma pessoa distanciada das raizes da nossa gente entender o significado da frase “no largo da feira de Casa Amarela encontrei o Dr. Fulano a-meio-pau, caindo pelas tabelas”. Ou outra, querelosa com os atuais anos de bunda esfregada nos bancos da póspósgraduação, ao não entender o pensar de um companheiro de universidade: “o deputado fulano de tal está sujo-que-nem-pau-de-galinheiro na CPI do orçamento”.

Outro dia, uma faxineira declarava para uma madame perua que era pau-pra-toda-obra, indo logo por-cima-de-paus-e-pedras quando algum afoito desejava por-os-pauzinhos-ao-sol. E o marido da soçaite quase cai em desespero, ao ouvir da auxiliar, alto e bom som, que estava de olho grande num pauzão e que por conta disso já estava ajeitando o pauzinho-do-matrimônio. E que o casório aconteceria rapidamente, pois gostava mesmo era de pau-na-égua. Pedia apenas ao dono da casa, autoridade de primeira entrância, que fosse na sua vara bulir-com-os-pauzinhos, pois, mais que ninguém, o patrão era habituado a conhecer-o-pau-pela-raiz .

Para não fazer-casa-com-pau-bichado, li muitas vezes, de cabo a rabo, o imperdível livro do Mário Souto Maior. Também não desejando ser pau-de-amarrar-égua, nem tolerando os que adoram viver-à-sombra-do-pau, fiz questão de ganhar-os-paus para me deliciar com a leitura da pesquisa do Mário, meu ex-companheiro da Fundação Joaquim Nabuco, pai do Jan, esse arretado da informática, consultor de tudo que é gente, inclusive burra que nem eu, um metido, vez por outra, a descobrir-o-mel-de-pau na minha área de trabalho.

Tomei ciência que souto, em Portugal, é bosque espesso. E o Mário Souto Maior, folclorista popular de primeira linha, nunca desejou mudar-de-pau-pra-cacete, ficando sempre no bosque dele, convencido que nem-todo-pau-dá-esteio.

Não desejando deitar-os-pauzinhos-fora, este texto é uma demonstração de querer bem a um intelectual que jamais quis ser um dois-de-paus, em tempo algum desejando disputar-pau-a-pau com quem quer que fosse.

Um autêntico sábio nordestino, o Mário Souto Maior. Agrestino, jamais negou que se um-dia-é-do-pau-o-outro-é-do-machado. Ele certamente faria um sucesso arretado todas as quintas-feiras no Bordel do Berto gerenciado pelo Assuero.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

BALIZAMENTOS PARA 2021

Todo início de ano serve para se redimensionar ações, atitudes e comportamentos. Reestruturar é o verbo mais conjugado, ainda que uma minoria prossiga conjuminando-o num modo sempre amanhã, como se o agora jamais dele se ressentisse. Em plena pandemia da COVID-19, vigente e sem vacinas, inúmeros dirigentes econômicos se olvidam de uma notável advertência do economista nordestino Celso Furtado, aqui não sendo listados os que, em mandatos maiores, não entendem da chita nem um tiquinho: “Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de autodestruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas ” (Celso Furtado ).

Percebe-se, sem qualquer esforço, que a sociedade civil brasileira, hoje cambaleante entre uma expressividade oportunista e uma politização incompleta, necessita revigorar-se, como alicerce, para uma nova edificação estrutural, a chicotada do australiano Robert Hughes, sendo mais que oportuna: “A velha divisão de direita e esquerda acabou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosamente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimento no mundo real “.

Dever dos mais conscientes é militar por um 2021 repleto de muita cidadania, para a felicidade geral e soberana sobrevivência do todo nacional, com vacinas aplicadas em todo território, sem esbanjar energias com penduricalhos inúteis e projetos populistas de bolorentos ontens.

Para os primeiros dias deste janeiro ainda sem qualquer programação vacinal instituída por uma tecnocracia embasada de muita incompetência, onde o branco dos aventais se curva diante do verde e do coturno, pediria vênia para recomendar com muito entusiasmo a leitura de dois livros indispensáveis para quem busca entender o atual panorama mundial. A ordem é meramente aleatória, sem qualquer preferência:

1. O NAUFRÁGIO DAS CIVILIZAÇÕES, Amin Maalouf, São Paulo, Vestígio, 2020, 253 p.

As páginas refletem uma análise profunda sobre o nosso tempo para entender as três feridas do mundo moderno: as conflitos identitários, o islamismo radical e o ultraliberalismo.

Segundo o Financial Times, “Maalouf é exatamente o tipo de interlocutor necessário ao período atual. Ele penetra profundamente em veios inexplorados da história cultural, escavando elegantemente e desafiando os clichês e o senso comum.”

Os livros do Maalouf já foram traduzidos para mais de cinquenta idiomas. E ele foi eleito, em 2011, para a Academia Francesa, ocupando a cadeira que pertenceu a Claude Lévi-Strauss.

O livro citado possui um posfácio do autor para a edição brasileira.

2. SEM DATA VENIA: UM OLHAR SOBRE O BRASIL E O MUNDO, Luís Roberto Barroso, Rio de Janeiro, História Real (intrínseca), 2020, 272 p.

O autor, ministro do Supremo Tribunal Federal, atualmente também presidente do Tribunal Superior Eleitoral, analisa a atual situação brasileira, a partir de uma reflexão sua pra lá de significativa: “A elevação pública e da ética privada no Brasil é trabalho para mais de uma geração. A notícia boa é que começou.”

O livro é composto de três partes, além da Introdução: I – Uma visita ao passado; II – Um olhar para o mundo; III – Um olhar sobre o Brasil.

Nas páginas finais, uma declaração de muita coragem: “O Brasil vive um momento difícil e complexo. Além disso, encontra-se dividido, polarizado, com discursos agressivos de parte a parte. Devemos buscar consensos mínimos, capazes de aglutinar as pessoas em torno de alguns denominadores comuns patrióticos.”

O ministro propõe três grandes pactos: um Pacto de Integridade, um Pacto de responsabilidade fiscal, econômica e social, e um Pacto pela educação.

Leituras que fortalecem a cidadania brasileira e consolidam uma militância em prol de uma humanidade mais fraterna, justa socialmente e mais civilizada.

SABENDO LER MAIS, PARA SER BRASILEIRO CAPAZ, SEM MAS-MAS-MAS.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

REFLEXÕES PARA UM 2021 CHEGADO

Morremos muitas vezes ao longo dos doze meses passados quando amigos se vão, diante dos punhais cravados pelos parentes aparentes, pelas animalidades praticadas pelos dirigentes de mentirinha, pelos preconceitos vários praticados, pelas merdalidades machistas presidenciais contra uma ex-presidenta, pelas arrogâncias dos cretinos que corroem um muito debilitado humanismo século XXI, quando dirigentes megalomaníacos se passam por salvadores do mundo ou quando sectários sem mínima cultura buscam jogar povos e nações uns contra os outros pela internet, depois apagando a brabeza todos cagados.

Ao longo das nossas vidas, diante da inexorabilidade da morte, tomamos quatro atitudes diferentes. Quando crianças, a morte nos é indiferente. Nutrimos por ela uma curiosidade idêntica às demais sentidas diante do imprevisto. Nenhum valor específico lhe atribuímos, posto que ela não provoca reação mais profunda. Um acidente da vida como outro qualquer. O escuro, quando se é criança, provoca muito mais medo que a própria morte. Para não falar das almas do outro mundo. Brinca-se até de morto como se brinca de bandido ou de mocinho. Ou de professor. Ou de dona de casa, as meninas-da-casa fazendo comidinha para as meninas-visitas, as mais sabidas.

Na adolescência, entretanto, principiamos a pensar na morte. Idealizamos a morte, mitificamos a morte. Começamos a pensar na própria morte. E principiamos a morrer, diante dos primeiros desmoronamentos provocados em nosso castelo-derredor. Mas ainda encaramos a morte como final de uma aventura, sem tropeços nem maldades, apenas coroamento, sem as pedras do caminho. Na juventude, a morte torna-se companheira quase brincante. Conceito romântico, substituindo a indiferença da primeira idade.

A inimizade se inicia na porteira da maturidade. A morte torna-se a maior inimiga, temida, mais analisada filosófica e religiosamente. A indagação de São Paulo inquieta: “Morte, onde está tua vitória?” A morte é término ou passagem? Túmulo ou túnel, como magistralmente um admirável pastor costumava dizer em suas pregações. Com crença ou sem ela, a agonia da morte se torna presente e o viver um contínuo e resoluto foco de resistência.

No último quadrante da vida, entretanto, “a mesa está posta e a cama feita”, como nos dizia o poeta Bandeira, que vivia aos trancos e barrancos com a Última Dama. Nessa fase, exige-se muita serenidade, capacidade de rever caminhadas menos felizes, emergindo a convicção de que bem outras seriam algumas das estratégias tomadas se os fatos fossem encarados com a mentalidade de agora.

Creio que a concepção da morte é determinada pela concepção que se faz da vida. Superar a morte, eis o desafio maior dos libertos dos encantamentos supérfluos, das prestimosidades dos lambetas, das “influenciadoras” sabichonas, dos burregos tecnocratas que desconhecem os valores de uma sociedade emergente e dos recalcados que se imaginam eternas vítimas, cordeirinhos imolados de um mundo que não os compreende.

Que 2021 nos proporcione, já bem vacinados, reflexões capazes de favorecer um caminhar dignamente resoluto, solidário, fraterno e bem mais humanístico na direção do ômega chardiniano. Sem medo de ser feliz, sob nenhuma hipótese. Sabendo dormir sem arma alguma e de mente pacificadora sem culpas nem complexos. Tampouco sem os machismos escrotos dos incultos e mentalmente ananicados. E com memoráveis encontros fubânicos, sempre sob as batutas do Luiz Berto e do Maurício Assuero, o primeiro idealizador e o segundo gerente geral da escrotaria.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

INOCÊNCIAS

Vez por outra o meu nível irritacional se situa acima da normalidade. Alguns fatores tornaram-se provocadores por derradeiro. Um deles, o blá-blá-blá melosamente academicista de políticos em algumas falas à Nação Brasileira, como se todos nós fôssemos uns ouvintes atoleimados, crentes na existência de Papai Noel, Perna Cabeluda e Comadre Fulosinha.

Outro eficaz estopim é a “inocência” que algumas personalidades nordestinas transmitem em seus pronunciamentos, posando de eternas desligadas, desconhecendo causas e efeitos, desmoralizando até os seus próprios neurônios, numerosos, embora cínicos. Com a maior cara-de-pau, aqueles “nenéns políticos” continuam imaginando que a culpa das nossas desditas socioeconômicas e culturais é da seca, da mistura das raças, da vontade do Criador, da pouca assistência que nos é dada pelo empresariado e mil outras desculpas babaquaras. A falta de roxidão colhuda, um fator sempre olvidado, inclusive na COVID-19.

Diante das últimas sandices, multiplicadas às vésperas das manifestações eleitorais, recordo-me de um chamamento feito, há muitos anos, pelo Souza Barros, ex-Secretário Geral da ASCOFAM – Associação Mundial de Luta Contra a Fome, pernambucano, sociólogo e economista: “O Norte e o Nordeste não poderão continuar numa situação de completo alheamento dos seus problemas, pois essa atitude corresponde, politicamente, a uma espécie de menoridade. Não basta, porém, que se coloque o problema do ponto de vista de uma ação lamento, de um constante clamor contras as causas climatéricas, as causas físicas”.

A irritação também se avulta quando constatamos, Brasil afora, um festival de eventos on line técnico-tabacudos, a arregimentar lesos, semi-lesos, idiotas e amalucados, abilolados todos. Um deles, vez por outra anunciados como a quinta-maravilha do Cosmos, foi devidamente denunciado pelo médico Nelson Spritzer, MSc em cardiologia e PhD em nefrologia, detentor da máxima graduação em PNL-Programação Neurolinguística (Trainer): “Infelizmente, a PNL, como toda a tecnologia poderosa, tem atraído ‘aventureiros’ que, após cursos de um fim de semana se julgam aptos a transformarem-se nos mais novos arautos das boas vindas”. O Dr. Nelson Spritzer, inclusive, ratifica denúncia do insuspeito Dr. Richard Bandler, um dos criadores da PNL: “Uma das coisas mais sórdidas que fizeram com a PNL foi mistificá-la e complicá-la a tal ponto que só iniciados ou privilegiados intelectuais possam praticá-la corretamente”.

Acredito que uma das vacinas mais utilizadas no combate às inocências dinossáuricas é a compreensão sólida da reflexão do saudoso economista Celso Furtado, um dos nossos cientistas sociais mais lúcidos: “Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de autodestruição. Que possamos encarar esse desafio, sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas”.

Que nunca tenhamos vergonha de Pernambuco, berço da nacionalidade brasileira, posto que de Guararapes agigantou-se a vontade de nunca se dobrar, apesar dos homens da força. E dos tecnocratas do Planalto.