FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

PROVINCIANISMOS

Nunca escondi de ninguém a minha estima pelo escritor português Fernando Pessoa, um legítimo poeta-aguilhão, que jamais se deixou mumificar nas torres de marfim de um intelectualismo sensaborão, contemplador do próprio umbigo, saudosista por derradeiro. Suas intervenções na realidade cultural, social e política do seu tempo, cáusticas algumas, recheadas de humor outras tantas, são minuciosamente analisadas, hoje, por cientistas sociais das mais variadas especialidades e graus acadêmicos, José Paulo Cavalcanti Filho um dos mais talentosos, admiração intelectual minha de décadas, desde os bancos universitários.

Em setembro de 1928, num artigo publicado no Notícias Populares, Pessoa busca alertar seus patrícios acerca do provincianismo lusitano, considerado por ele “o mal superior português”. Um mal que também aflige outros países, “que se consideram civilizantes com orgulho e erro”. Segundo o poeta, a síndrome provinciana se caracteriza por três sintomas: a. O entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; b. O entusiasmo e admiração pelo progresso e pela pós modernidade; 3. A incapacidade de ironia, na esfera superior.

O poeta explica o primeiro dos sintomas, afirmando que um parisiense não admira Paris, ele gosta de Paris. Não se pode admirar aquilo do qual se faz parte. “Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranoico com o delírio das grandezas”. Um trumpalhão descompensado.

Para o segundo sintoma, Pessoa é taxativo: “Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção”. Traduzindo: quem já é civilizado, não necessita arrotar grandezas ufanosas, vangloriando-se disso e daquilo, tal e qual um pavão de rabo muito lindo e pés nada charmosos. E por ser civilizado, comporta-se como os demais das outras áreas, sempre prescrevendo futuros, jamais desejando ver coisas pretéritas, como pólvora, por exemplo.

No sintoma terceiro, a incapacidade de ironia, Fernando Pessoa diz que aí reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Na definição do notável pensador, por ironia “entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário”. Recentemente, por exemplo, um ex-presidente nosso disse que ia dar um banho no sertão do Nordeste. E um outro exemplo notável foi dado por Swift, considerado o maior de todos os ironistas. Durante uma fome cruel na Irlanda, ele propôs como solução, uma sátira brutal à Inglaterra, alimentar todos pela utilização de crianças de menos de sete anos. Com a maior seriedade possível, sem possibilitar ver, nas entrelinhas, a ironia mortal. Espera-se, com esta explicação, que ninguém pense, por aqui, que a proposta é verdadeira, como auxílio emergencial.

Um exercício de primeira necessidade, eu recomendaria aos nordestinos mais civilizados, mormente os pernambucanos que estão numa luta feroz pelo soerguimento da imagem empreendedora do estado: leituras reflexivas sobre provincianismo. E mais: sobre a artificialidade do apenas progresso e os arrotos grandiloquentes de um já-fui-bom-nisso que apenas inspiram lamuriantes compadecimentos, sem nada de proveitoso.

No mais é continuar caminhando, buscando reerguer-se com a disposição de perder cada vez menos, jamais abandonando a convicção do compositor Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

PROVINCIANISMOS

Nunca escondi de ninguém a minha estima pelo escritor português Fernando Pessoa, um legítimo poeta-aguilhão, que jamais se deixou mumificar nas torres de marfim de um intelectualismo sensaborão, contemplador do próprio umbigo, saudosista por derradeiro. Suas intervenções na realidade cultural, social e política do seu tempo, cáusticas algumas, recheadas de humor outras tantas, são minuciosamente analisadas, hoje, por cientistas sociais das mais variadas especialidades e graus acadêmicos, José Paulo Cavalcanti Filho um dos mais talentosos, admiração intelectual minha de décadas, desde os bancos universitários.

Em setembro de 1928, num artigo publicado no Notícias Populares, Pessoa busca alertar seus patrícios acerca do provincianismo lusitano, considerado por ele “o mal superior português”. Um mal que também aflige outros países, “que se consideram civilizantes com orgulho e erro”. Segundo o poeta, a síndrome provinciana se caracteriza por três sintomas: a. O entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; b. O entusiasmo e admiração pelo progresso e pela pós modernidade; 3. A incapacidade de ironia, na esfera superior.

O poeta explica o primeiro dos sintomas, afirmando que um parisiense não admira Paris, ele gosta de Paris. Não se pode admirar aquilo do qual se faz parte. “Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranoico com o delírio das grandezas”. Um trumpalhão descompensado.

Para o segundo sintoma, Pessoa é taxativo: “Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção”. Traduzindo: quem já é civilizado, não necessita arrotar grandezas ufanosas, vangloriando-se disso e daquilo, tal e qual um pavão de rabo muito lindo e pés nada charmosos. E por ser civilizado, comporta-se como os demais das outras áreas, sempre prescrevendo futuros, jamais desejando ver coisas pretéritas, como pólvora, por exemplo.

No sintoma terceiro , a incapacidade de ironia, Fernando Pessoa diz que aí reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Na definição do notável pensador, por ironia “entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário”. Recentemente, por exemplo, um ex-presidente nosso disse que ia dar um banho no sertão do Nordeste. E um outro exemplo notável foi dado por Swift, considerado o maior de todos os ironistas. Durante uma fome cruel na Irlanda, ele propôs como solução, uma sátira brutal à Inglaterra, alimentar todos pela utilização de crianças de menos de sete anos. Com a maior seriedade possível, sem possibilitar ver, nas entrelinhas, a ironia mortal. Espera-se, com esta explicação, que ninguém pense, por aqui, que a proposta é verdadeira, como auxílio emergencial.

Um exercício de primeira necessidade, eu recomendaria aos nordestinos mais civilizados, mormente os pernambucanos que estão numa luta feroz pelo soerguimento da imagem empreendedora do estado: leituras reflexivas sobre provincianismo. E mais: sobre a artificialidade do apenas progresso e os arrotos grandiloquentes de um já-fui-bom-nisso que apenas inspiram lamuriantes compadecimentos, sem nada de proveitoso.

No mais é continuar caminhando, analisando a vontade do Povo Brasileiro nas eleições de 15 de novembro, buscando reerguer-se com a disposição de perder cada vez menos, jamais abandonando a convicção do compositor Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

SABER, FÉ E HUMOR

Revisitei online o querido companheiro João Silvino da Conceição, amigão de muitas caminhadas, nordestino arretado de sabido, paupérrimo de letras e reais, milionário em criatividade, de deixar PhD de tese que ninguém leu sem glossário e de cueca sem money. Num casebre devidamente preservado das chuvaradas últimas, acompanhado da patroa, de uma filha separada e de dois pirralhos metidos a netos, o Silvino parece duplicar, a cada ano, seu saber, sua fé e seu admirável senso de humor, como que a consolidar seu maior título, o de filho amado da Criação.

Como sempre, encareço seus apontamentos últimos, sapiências explicitadas em garranchos escritos em cadernos populares. Todos datados e devidamente sincronizados com os acontecimentos.

Interesso-me por dois assuntos: Jesus Cristo e a esquerda, assuntos diferentes, de cenários distintos, sem quase nada a ver um com o outro. E o meu espanto se inicia com a tranquilidade do Silvino. Pede para começar pela figura do Homão da Galileia, segundo ele o maior líder revolucionário da humanidade de todos os tempos. Para Silvino, o Nazareno deixou uns “recados” para os seus seguidores. Tomei nota de alguns:

1. Não critique por criticar, colabore, atravessando o rio em que você está;

2. Nunca se omita, sempre participe, renegando os macaquinhos chineses, entendendo o alcance da parábola dos talentos;

3. Nunca prenda seu navio numa âncora, pois quem perde a sua coragem perde tudo;

4. Sinta-se sempre vivo, jamais azedo, possuindo uma serenidade comportamental que nulifica tentativas dos fuxicosos;

5. Resolva os problemas da sua área, sem dela se arredar, para num engrossar o cordão dos cavilosos;

6. Haja sempre como irmão, nunca como fiscal, supervisor, auditor ou inquisidor, como se fosse o único dono da verdade.

Complementando os apontamentos, anotações bíblicas, estão correlacionadas com os recados acima:

“Quando eu era criança, agia como criança, racionava como criança. Agora que sou adulto, ajo como adulto e raciocino como adulto”;

“Aconteça-me segundo a tua vontade”;

“Esqueço-me do que fica para trás e avanço para o que está na frente”;

“Examinem tudo e fiquem com o que é bom”.

No tocante às esquerdas, o Silvino tem um respeito incomum pelos que se dedicam anos a fio pelas causas populares. Mas nutre uma aversão fulminante aos “esquerdopatas”, aqueles sectários que denigrem sem construir, mentem descaradamente mesmo contra suas próprias convicções, possuem uma prática populista idêntica aos demais, são autoritários e não desejam uma nova ordem, pois lutam pela manutenção da desordem generalizada, ninguém sendo ninguém no frigir dos ovos, caldo ótimo para suas sobrevivências. Num canto de uma página, encontrei uma afirmação de Guerreiros Ramos:

“No Brasil de hoje há poucos homens de esquerda, porém muitos esquerdeiros. Estes vivem da gesticulação revolucionária e de ficções verbais”.

O Silvino torna-se cada vez mais cidadão. E com radinho de pilha, sempre ao alcance do braço, a voz do Lulu Santos parecia surgir num instante combinado: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”…..

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

PONTOS E CONTRAPONTOS NO DIA DOS MORTOS

1. Um dos mais notáveis líderes de todos os tempos, o Mahatma Gandhi, afirmava que “mais perigoso que o pouco conhecimento, é o grande conhecimento acoplado à ausência de um caráter forte e com princípios, posto que desenvolvimento intelectual sem o desenvolvimento interno do caráter condizente é a mesma coisa que entregar um potente carro esporte nas mãos de um adolescente drogado”. Lição notabilíssima para todos aqueles que possuem responsabilidades de bem conduzir a vida social de uma comunidade. Com vocabulário próprio de homem público culto e de bom caráter.

2. Após a COVID-19, os mapas estão definitivamente superados. O instrumento ideal para perscrutar os horizontes do amanhã é a bússola, ícone do homem público contemporâneo. Ela aponta direções, subsidia orientações estratégicas, fortalece lideranças e consolida posturas inovadoras. E também baliza as avaliações acerca das quebras de hierarquias, dos caos desagregadores e das iniquidades e injustiças que violentam a dignidade do ser humano, seja quem for.

3. Estamos vivenciando dias de turbulência bastante significativos. E o fenômeno é universal, com características mais marcantes nos países menos desenvolvidos, detentores de imaturidades as mais diferenciadas. E a mais gigantesca das imaturidades é a imaturidade emocional-cognitiva, matriz de quase todas as demais, posto que uma das causas primeiras de todo e qualquer atraso governamental. Nós, brasileiros, como civilização que ainda ensaia seus primeiros passos, às vezes nos posicionamos como detentores de uma contemporaneidade embasada num aprendizado efetivado há muitos anos. Tornamo-nos, com frequência, inflexíveis, fundamentados em lições apreendidas em contextos outros, muito diferenciados dos atuais, vinculados a ontens e anteontens que não mais retornarão, nem pelas mão de simples capitão.

4. Certa feita, o saudoso economista Celso Furtado declarou: “O mercado é um instrumento maravilhoso, mas ele não desempenha todas as funções. Quando se trata de resolver conflitos numa sociedade heterogênea, a saída não pode ser pelo mercado. Tem que ter a mão de quem defenda o interesse público, a solidariedade social. É importante que as duas formas de conceber a organização social caminhem juntas. O mercado baseia-se no heroísmo, na iniciativa, na astúcia, para dar dinamismo ao processo. Já o Estado busca a solidariedade, tem que proteger os fracos. Isso é que forma uma sociedade moderna”. Multipliquemos os Celsos Furtados no cenário nacional, abjurando bundões, chinfrins e blá-blá-bladores travestidos de liberaloides olavianos.

5. A classe média brasileira necessita melhor direcionar e redimensionar sua postura estratégica de formatar cenários futuros. Sua capacidade associativa está a exigir um reposicionamento mais consequente, para diferenciar bem coalizões necessárias de associações espúrias, demagógicas, populistas e eleitoreiras. Cada vez engolfada por alguns desencantos do cotidiano, ela precisa voltar a apreender melhor a realidade social do país, redimindo-se das mancadas cometidas, ampliando seu atual nível de criticidade binoculizadora.

6. O momento que estamos vivendo não permite apenas meras contemplações. Os mais responsáveis estão incentivando a ampliação da participação de todos. Faz-se necessário ampliar a enxergância pós pandemia, para que mudanças aconteçam, eliminando-se os sectarismos inconsequentes e as marginalizações espúrias, obtendo-se um agir menos hedonista, rejeitadas as ingenuidades de todos os naipes. Para a felicidade de todos, os de paletó, farda, macacão ou vestes religiosas.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

CITAÇÕES DE UM TALENTO POR OUTRO TALENTO

Quarentenado, fiz uma arrumação nas minhas estantes, para dar uma nova visibilidade nos meus livros preferidos, e eis que me deparo com um livro que me foi oferecido em 2013 por um talento pernambucano que admiro desde os tempos de Universidade Católica de Pernambuco, ele cursando brilhantemente o Curso de Direito, herdando a experiência do pai, eu fazendo Economia, admirando entusiasmado as exposições analíticas do professor Germano de Vasconcelos Coelho, nosso paraninfo da turma e futuro prefeito consagrado de Olinda, transformada em sua gestão em Patrimônio Cultura da Humanidade.

O livro que me foi presenteado, à minha então mulher e a mim, tinha tinha um título sedutor: Fernando Pessoa – o livro das citações, era editado pela Record, e seu autor chamava-se José Paulo Cavalcanti Filho, hoje também colaborador semanal do Jornal do Commercio e do Jornal da Besta Fubana, este coordenado pelo escritor Luiz Berto, autor do extraordinário O Romance da Besta Fubana, já na quarta edição, sempre lido, relido, rabiscado, comentado e gargalhado.

Confesso que a releitura do livro do Zepaulinho, como muitos o chamam, me trouxe recordações muitas, saudades infindas e múltiplos balizamentos novos para os tempos contemporâneos de COVID-19, quando o mundo se prepara uma fecunda reestruturação planetária, minimizando as diferenças de rendas entre povos e nações, erradicando preconceitos e discriminações, favorecendo uma Educação Fundamental Libertadora pública e gratuita para todas as crianças e adolescentes.

Com a devida permissão de todos os fubânicos, reproduzo abaixo algumas citações que muito poderiam consolidar caminhadas cidadãs e militâncias mais solidárias em prol de uma economia essencialmente mais humanizante e nada esquizofrênica. Citações de quem, em seu tempo, se encontrava anos-luz de sua comunidade, a lusitana, profundamente conservadora e provinciana à época. Ei-las, encarecendo alguns bons instantes de reflexão e construção de propósitos, tudo balizado numa reflexão imaginada pelo poeta luso, emitida por um seu homônimo, Bernardo Soares, no Livro do Desassossego, que recomendo como uma complementação d’alma, após bem assimiladas as citações pesquisadas pelo Zepaulinho: ”Penso às vezes, com um deleite triste, que se um dos dia, num futuro a que eu já não pertença, estas frases que escrevo, durarem com louvor, eu terei enfim a gente que me compreenda, os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado.”

As frases abaixo foram acolhidas por quem, pernambucanamente, sem medo e sem ódio, nariz arrebitado por merecimentos e aplausos, também mente acasalando porrilhões de neurônios, fez “a mais completa e detalhada reconstituição que jamais se fez da vida do artista”:

“Quanto mais eu abro as asas mais sei que não sei voar.”

“Só as criatura que nunca escreveram uma carta de amor é que são ridículas.”

“Quem se esquiva a travar um bom combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado , porque não se bateu.”

“Eu tenho Deus em mim,”

“Não sejamos sínteses, sejamos somas: a síntese é Deus.”

“Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social.”

“Todo hoje tem um amanhã.”

“Fui educado pela Imaginação / Viajei pela mão dela sempre / Amei, odiei, pensei sempre por isso.”

“A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente.”

“Nada pequeno é justo e bom.”

“Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que outros fizeram.”

“Nós somos nossos sonhos.”

Reflexões de um poeta arretado, citadas por um jurista pra lá de também muito arretado !!

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

FAROFAGENS ELEITORAIS

Tenho uma patológica aversão a um tipo de gente que se imagina sempre gota-serena, muito embora viva nostalgicamente voltada para não sei quantos anos atrás. Completamente mofada, com ideias vagaluminosas, aquelas que somente reluzem pela parte rabolativa.

Mas a minha antipatia se quintuplica quando vejo uma pessoa belle époque arrotando grandezas mil, fantasistas todas, não imaginando jamais que o germe mais maléfico da atual crise brasileira é o do faz-de-conta, aquele que somente aumenta o cordão dos adeptos de uma baita alienação política, nunca analisando com seriedade não sectária os caminhos necessários para o desenvolvimento nacional amplamente integrador, sem populismos e demagogias viróticas.

O farofeiro se reinventa pra trás. Adepto de bugigangas televisivas e falas idióticas pela redes sociais, é individualista por excelência, sempre buscando subverter Fernando Pessoa, ao alardear, pelo comportamento aparentemente civilizado, que “tudo vale quando a alma é muito pequena”. E nunca assimilando, porque inculto e imediatista, o significado da advertência de Karl Mannheim: “Toda nossa tradição educacional e nosso sistema de valores ainda estão adaptados às necessidades de um mundo paroquial e no entanto espantamo-nos porque as pessoas se saem mal quando têm de agir num plano mais amplo”.

Todo farofeiro alimenta uma nada sutil detração pelos que pensam mas são financeiramente frágeis, o pensamento nunca fazendo parte do interior do farofeiro metido a arretado. Todo farofeiro chama de “sonhador” aquele que não sabe levar vantagem em tudo. E menospreza, quase xingando, os que pensam como Georg Groddeck: “Acredito que os homens que, nas fantasias tornam possível o impossível realizam mais e melhor, não mais sendo atormentados pela ambição há muito satisfeita”.

O farofeiro compra obra de arte por metro quadrado, não tem o hábito da boa leitura, menospreza o humor inteligente, é puritano de carteirinha e não percebe que a ignorância é a maior multinacional do mundo. E certamente repreenderia Graciliano Ramos, então revisor do Correio da Manhã, por ele ter instruído um repórter que usara a palavra “outrossim” da seguinte maneira: “Outrossim é a puta que pariu!”.

E o riso “hiênico” de um farofeiro? Alguém já reparou o quanto ele se esforça para rir quando não entende bulhufas de um crítica inteligente? Qualquer pessoa pode fazer tal experiência. Recordo sempre que posso, para os farofeiros, uma reflexão inesquecível do Eduardo Galeano, consagrado autor de As Veias Abertas da América Latina: “Nos últimos anos, duplicou-se a brecha que separa o Norte do Sul. Será preciso inventar um novo dicionário para o século que vem. A chamada democracia universal pouco ou nada tem de democrática, como o chamado socialismo real pouco ou nada tinha de socialista. Nunca foi tão antidemocrática a distribuição de pães e peixes”.

Numa pandemia histórica e histérica, “simples gripezinha” para desligadões da ambiência científica, gostaria de dizer a cada farofeiro: como filho da Criação, saiba diferenciar-se pela capacidade de integrar-se solidariamente consigo mesmo, em primeiro lugar. Entendendo que somente aquele que tem a mão de alguém para segurar sobrepujará modismos embriagadores. Saiba desafiar-se e encontre alguma coisa humana para fazer todos os dias, acercando-se de gente de QI ajustado aos desafios de um futuro que já se encontra entre nós. E sem jamais esquecer o ensinamento do rabino Harold Kushner: “Não há jeito de evitar a morte. Mas a cura para o medo da morte é o sentimento de ter vivido”.

Para todos aqueles que continuam sinceramente pugnando por um Outro Mundo, sem sectarismos nem medoe e ódios, nordestinados cada vez mais, a lição deixada por um deles, o inesquecível Celso Furtado: “Num triângulo, o quadrado da hipótese é igual à soma dos quadros dos outros dois lados. Mas será que o triângulo será mesmo retângulo?”

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

CAFAJESTADAS BRASILEIRAS

Às vezes fico a imaginar por que o brasileiro reclama de tudo e de todos, nada prestando para ele, posto que, na sua caminhada existencial, ele é autor de uma série de cafajésticas posturas e desabridas malandragens. Vejamos as mais frequentes praticadas por todas as classes sociais, de norte a a sul do país:

1 – Coloca nome em trabalho acadêmico que não participa.

2 – Coloca em aula nome de colega ausente na lista de presença.

3 – Paga para alguém fazer seus deveres escolares.

4 – Saqueia cargas de veículos acidentados nas beiras das estradas.

5 – Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas.

6 – Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo ilicitude.

7 – Troca voto por areia, cimento, tijolo, e até dentadura, quando não por alguns reais.

8 – Fala no celular enquanto dirige veículo.

9 – Usa o telefone da empresa onde trabalha para ligar para o celular dos amigos.

10 – Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento.

11 – Para em filas duplas e triplas em frente das escolas.

12 – Viola a lei do silêncio, buzinando em frente de hospitais, altas madrugadas.

13 – Dirige após consumir bebida alcoólica.

14 – Fura filas nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas.

15 – Espalha churrasqueira e mesas nas calçadas públicas, como se fossem suas.

16 – Pega atestado médico sem estar doente, só para faltar alguns dias ao trabalho.

17 – Faz “gato” de luz, de água e de TV a cabo.

18 – Registra imóveis no cartório num valor abaixo do comprado, para pagar menos impostos.

19 – Compra recibos médicos para abater na declaração de imposto de renda.

20 – Muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas.

21 – Quando viaja a serviço pela empresa, pede notas superfaturadas.

22 – Comercializa objetos doados nas campanhas de solidariedade.

23 – Estaciona descaradamente em vagas exclusivas para idosos ou portadores de deficiências.

24 – Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado.

25 – Compra produto pirata com plena consciência de que é pirata.

26. – Diminui a idade do filho para que passe por baixo da roleta do ônibus.

27 – Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA.

28 – Frequenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho.

29 – Leva das empresas clipes, envelopes, canetas, lápis… como se isso não fossem furtos.

30 – Comercializa os vales transporte e refeição que recebe das empresas onde trabalha.

31 – Falsifica tudo, tudo mesmo… só não falsificando ainda o não foi inventado.

32 – Quando volta do exterior, mente sempre quando o fiscal pergunta o que traz na bagagem.

33 – Quando encontra algum objeto perdido, na maioria das vezes não devolve.

34 – Só cumprimenta bem quem lhe é hierarquicamente superior.

35 – Se manifesta quando somente enxerga benefícios assistencialistas.

36 – Fala bem alto nos restaurantes, rindo que nem uma hiena.

37 – Limpa os dentes de boca aberta, sem a menor discrição social.

38 – Arrota grandezas descaradamente mentirosas

39 – Desrespeita ostensivamente as recomendações sanitárias contra o COVID-19.

40 – Entrevista dirigente público ou empresariais, tratando-os, sem pudor mínimo, por você.

E AINDA QUER QUE OS POLÍTICOS SEJAM HONESTOS….

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

PESQUISADORA BRASILEIRA ARRETADA DE ÓTIMA

Recentemente, uma patrícia me deixou com uma vontade de ser mais brasileiro, apesar das merdalidades ambientais cometidas por travestidos de ministros que imaginavam engabelar a inteligência nacional, fazendo passar ilícitos por debaixo dos panos e das ventas da criticidade pátria, desejando castrar o meio ambiente.

Não a conheço, mas a entrevista concedida pela demógrafa Márcia Castro, professora da Universidade de Harvard, publicada na FSP, domingo 27/09, deveria ser reproduzida nos jornais todos, numa época eleitoral onde milhares de desinformações se postam, como a daquele candidato a vereador, de sobrenome Furico e de lema Não Prometo, Dou Sempre!

Sem lero-leros, ela pontifica com pertinência histórica: “A época em que professores tinham sua salinha, davam sua aula, publicavam seus artigos e ficavam famosos já era.” Segundo ela, o momento é de engajamento com políticos, companheiros docentes, líderes comunitários e também com os discordantes, para um combate às desinformações sobre a pandemia no Brasil, posto que ainda existem milhares de abilolados que proclamam que a COVID-19 é apenas uma simples gripezinha, nunca uma pandemia fodona.

No departamento que chefia, na Universidade de Harvard, Márcia Castro estrutura um amplo programa de estímulos e debates no combate às múltiplas desigualdades que humilham mundo afora, a demógrafa se especializando na batalha contra às doenças contagiosas, malária uma delas, que afetam os mais carentes, negros a maioria.

Ela conta uma história acontecida com ela que ilustra a imbecilização gritante que campeia nos quatro cantos terrestres. Na Carolina do Sul, onde ensinava, um aluno seu, branquinho, riquinho e jumentinho, tirou nota baixa numa avaliação. Pedindo reavaliação, obtendo a mesma nota. Não satisfeito, escreveu para ela desaforadamente: “Volta pra Cuba!”. Interpretando mal a origem do seu sobrenome Castro e demonstrando uma dupla estupidez, comportamental e cultural, pois seu sobrenome Castro é originário de Portugal, dado seu pai ter emigrado para o Brasil.

A professora Castro lamenta os docentes que se deslocam para trabalhar em instituições estrangeiras e não mais se relacionam com seus pares brasileiros, muitos deles tratando até mal o contexto pátrio, como se aqui nada prestasse.

Ela tem toda razão quando diz: “Se a gente só conversa com quem concorda com a gente, não se muda a cabeça de ninguém.” E explica: “É importante para entender o que faz cada um pensar do jeito que pensa. Ajuda a encontrar a melhor forma de falar, os melhores argumentos”.

Sobre os estupidificantes movimentos anti-vacinas, ela se declara altamente preocupada, pois já se percebe em algumas regiões um retrocesso percentual da cobertura vacinal. E revela que o índice de confiança na vacina contra dengue, do Instituto Butantã, que era de 76% em 2015, atualmente se situa na faixa de apenas 56%.

As pesquisas da Dra. Márcia Castro atualmente se concentram na identificação de riscos sociais, biológicos e ambientais associados a doenças transmissíveis por vetores nos trópicos, identificando estratégias de combates efetivas. Na Amazônia, por exemplo, ela atualmente estuda a mobilidade humana e infecções assintomáticas de malária e seus impactos potenciais na transmissão da doença. E também reclama de programas de Saúde da Família travados por implicâncias políticas entre prefeitos e governadores.

Um economista sueco famoso, Gunnar Myrdal, já proclamava que “o pior subdesenvolvimento é o mental”. E quanto esse subdesenvolvimento vem acompanhado de sectárias e fundamentalistas posturas políticas ou religiosas, não tem fundo que aguente, como dizia minha avó Zefinha, já do outro lado da rua, que muito me tem auxiliado nas minhas enxergâncias binoculizadoras, separando saberes de safadezas, grandezas posturais de miudezas cagânicas.

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

SAUDADES DE UM TALENTO

Fui um contumaz leitor de Ronildo Maia Leite, um cronista arretado de ótimo do Jornal do Commércio. Sua coluna BOM DIA, RECIFE, sempre historicamente acidorresistente, despertavam os abilolados, desnudavam hipócritas, arrebicavam oportunistas e posturas fingidoras, dilacerando uma macacaria que apenas desejava levar vantagens político-eleitoreiras, aproveitando-se da mitografia de alguns manhosos.

Diante das maracutaias vergonhosas que ainda continuam circunvizinhando na atual quadratura política brasileira , onde uma desmesurada bandidagem parece asfixiar a honradez e a dignidade de milhões de eleitores brasileiros, tenho quase certeza que o notável Ronildo andou se abeberando num livrinho de humor tão corrosivo quanto inteligente, por mim lido e relido várias vezes.

Com sucessivas edições italianas , brasileiras, castelhanas e catalãs, francesas e belgas, o Discurso Sobre o Filho-da-Puta, do lusitano Alberto Pimenta, em primorosa tiragem da Fenda Edições, está aliviando sobremaneira as angústias individuais e coletivas dos que ainda têm vergonha, nesta quarentena pandêmica. 

A edição por mim compulsada retrata, com refinada ironia, os comportamentos hipócritas, públicos e privados. Segundo Pimenta, sobre o FDP múltiplas lendas são contadas. O autor do Discurso estabeleceu, para iniciação dos ainda leigos no assunto, algumas linhas que servem para pressentir a presença de um deles . O saudoso Ronildo seguramente sabia, de trás pra frente, tais grandes linhas, posto que suas deliciosas e oportuníssimas crônicas estão repimpadas de mortíferas entrelinhas.

Para os ex-leitores do Ronildo, como eu, torno públicos alguns dos parâmetros do Alberto Pimenta, para possibilitar uma melhor identificação dos que estão merecendo levar umas cipoadas cidadãs, não mais fazendo de besta os eleitores de um estado já muito politicamente sacrificado:

1. O FDP existe e está em todas as partes. Nunca se define à primeira vista. Não usa sinais explícitos, nem distintivos, sempre dizendo o que pretendia dizer o maioral seu chefe.

2. O FDP não consente na despreocupação. Pretende chegar a todos os lugares sem chegar a sair pra lugar nenhum, vocacionado para não deixar fazer.

3. Os FDP conhecem-se bem. Sabem comunicar-se muitíssimo eficazmente uns com os outros. E têm sempre um bom motivo coletivo para os seus atos particulares e um excelente motivo particular para seus atos públicos.

4. Todo FDP detesta o sucesso das investigações dos outros e se preocupa obsessivamente com a ascensão profissional dos companheiros de trabalho, jamais se aperfeiçoando porque jamais se desligou das caminhadas bem sucedidas dos seus colegas , de infância, de trabalho ou de comunidade.

Ao relembrar o Ronildo Maia Leite lendo seus artigos, todos eles recheados de oportuníssimas vergastadas, creio que o melhor indicador para os atuais isolamentos é a releitura bem mastigada das notas do Alberto Pimenta. Para melhor identificar os “vocacionados“. E também para não se converter em mais um deles . Mas sobretudo para poder trabalhar prevenido em ambientes onde eles pululam , quase todos travestidos de coadjuvantes da construção do bem estar social … deles.

O Ronildo era um baita cronista diferenciado. Daqueles que absorveram eficazmente o balizamento magistral de Bernard Shaw : “Alguns homens vêm as coisas como são e perguntam POR QUE? Eu sonho com as coisas que nunca existiram e pergunto POR QUE NÃO?”

FERNANDO ANTONIO GONÇALVES - DE UM SEMPRE NORDESTINADO

UMA ONG PARA A PÓS COVID-19

Apavorado, amigo de longa data, tempos recifenses, me liga quase desesperado para o telefone da minha salinha residencial de trabalho. Declarando-se de pernas bem fechadas, tronco semi-curvado a la frei Damião e olhos arregalados, foi logo desabafando: “Nando, quando é que vão instituir o SOS Pinto, uma ong para salvaguardar os interesses dos que ficam, na maior parte da vida útil , de cabeça baixa?. Não se pode ser omisso, ficando de pernas cruzadas, diante das giletadas, mordidas, foiçadas, águas ferventes, torcidas propositais e unhadas mórbidas que estão no noticiário jornalístico diário, praticadas por todos os gêneros, do hétero ao LGTBSDTYZ”.

Avaliando, do meu canto, o medo estampado nas duas cabeças do amigo querido, boemia frente e verso e muito mel de décadas, recomendei-lhe tomar um chá bem frio (quente ele poderia entender como uma intenção mórbida!) e busquei introduzi-lo num assunto menos cacete para o momento. Pedi esclarecimentos, assegurando-lhe que estava pronto para o que desse e viesse, pau pra toda obra.

O que eu ouvi merece a criação, em regime de urgência, de uma Ong especializada no combate aos que atentam para a integridade física de um dos responsáveis, sejamos diretos e duros, pela perpetuação da espécie humana, que paulatinamente vem se assenhoreando da História Cósmica. Os relatos dele, sob hipótese alguma, não deixam água na boca. Não respeitam qualquer tamanho, vitimando encapuzados e carecas. Maculando até os derredores, simples containers de material liquefeito.

E o amigo de longa data ainda revelou um outro inconveniente: todos os dirigíveis vitimados não tinham caixa preta, impossibilitando qualquer anotação acerca do acontecido durante os preliminares procedimentos de subida.

Imaginei algumas iniciativas atenuadoras:

1. Proibição, nos locais adequados e específicos, de portar qualquer instrumento cortante, estrangulante ou perfurante, inclusive dentaduras e pontes;

2. Instalação, nas portas de entrada dos ambientes lovelescos, daqueles detectores de metais utilizados nos aeroportos e bancos, recolhendo-se canivetes suíços, beliros de cabelo, tesourinhas, alicates de unhas, correntes de todos os tamanhos, fios dentais, alfinetes, canetas de pena, clips de metal, cadarços de sapatos e fivelas de todas as marcas;

3. Posicionar, ao lado de cada uma das portas de entrada, funcionária devidamente capacitada, que ajustaria os tamanhos das unhas da clientela, deixando-as em grandeza inofensiva.

Na área judicial, acredito que as mais diversas varas também ficarão sensibilizadas com a problemática, devendo erguer-se duramente na defesa das vítimas de dentadas erradicadoras, decepações simples, decepações com esmagamentos, estrangulamentos e beliscões dolosos e culposos.

Os seguros-saúde com certeza reformatarão suas apólices, autorizando cirúrgicos remendos, restaurações e transplantes de pintos novos e velhos, cada solicitação devendo ser avaliada por uma junta cujos membros entendam do riscado, sabendo rapidamente decidir, sem frigir os ovos.

Que o SOS Pinto seja brevemente inaugurado, favorecendo nobilíssimas missões de cabeças erguidas, para que todos possam continuar desbravando interiores de todos os tipos, cuspindo sempre com muita energia, apesar dos perigos. Pois adentrar é preciso, embora viver não o seja tanto.