KARDEC EM DUAS VERTENTES

1. Creio que poucos seguidores da Doutrina Espírita leram o explicitado no Evangelho segundo o espiritismo, capítulo VI, item 5, psicografado em 1860, em Paris. Transcrevo-o, na tradução do notável brasileiro J. Herculano Pires: “Venho, como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar as plantas e que levanta as ondas. Eu revelei a doutrina divina; e, como um segador, liguei em feixes o bem esparso pela humanidade, e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis!” E conclui: “Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana; e eis que, de além-túmulo, que acreditáveis vazio, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece, Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores da impiedade!”

Quando me iniciei no estudo da Doutrina Espírita, por orientação do irmão querido Bruno Tavares, principiei uma série de leituras pronta pelos escritos do Codificador Allan Kardec. E na medida que o tempo passava, mais necessidade eu sentia de me aprofundar na Doutrina, lamentando meus parcos neurônios e percebendo que muitos ainda subestimam a necessidade de instruir-se, optando por uma superficialidade desvinculada das recomendações do notável lionês. Sempre continuarei pesquisando novas bibliografias que facilitem o meu aprendizado e as orientações apreendidas de outros irmãos talentosos.

Assim sendo, outro dia me deparei com um livro excepcionalmente didático, de autoria de Christiano Torchi, assessor jurídico do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, também voluntário da FEMS – Federação Espírita de Mato Grosso do Sul, além de docente no Centro Espírita Discípulos de Jesus, monitorando ESDE – Estudo Sistemático da Doutrina Espírita. O livro, Espiritismo passo a passo com Kardec, Brasília, FEB, 2016 (4ª.edição), 479 p., obteve grande aceitação, mesmo sendo um livro de estudos, consultas e pesquisas, conquistando a simpatia dos iniciantes, que o estão vendo como alicerce primeiro para o Pentateuco.

Na quarta capa do livro acima, um testemunho sobre o trabalho do Torchi: “Fiel aos princípios do Pentateuco – O Livro dos Espíritos, o Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o inferno, e A gênese -, ele se refere também às obras complementares, mediúnicas ou não, enriquecendo o pensamento religioso, principalmente quando recorre a André Luiz e Emmanuel, entre outros Espíritos de escol, e a pensadores encarnados, brasileiros e estrangeiros, no afã de informar com responsabilidade e clareza.”

O livro tem duas características: não tem intenções de proporcionar novidades, tampouco impor pontos de vista a quem quer que seja. Segundo o autor, o texto é um esforço de reflexão, daí nada devendo ser cegamente aceito, tornando-se indispensável a utilização de acurado senso crítico, tudo questionando, nada deixando de ser apurado, sempre em busca da Verdade, dada a falibilidade de todos, inclusive do próprio autor.

2. Para se ter uma noção mais depurada sob contexto da época, da revolução causada por Allan Kardec, no palco das revoluções políticas, sociais, culturais e científicas que se processavam no século XIX, proporcionando a mais importante revolução religiosa dos tempos modernos, é bastante significativa a leitura de Allan Kardec e sua época sob o ângulo humanista, de Jean Prieur (1914-2016), Bragança Paulista – SP, Lachâtre, 2015, 368 p. Uma biografia de Kardec contextualizada, onde o Codificador da Doutrina Espírita assim se manifestava diante dos fenômenos emergentes da época: “O espiritismo teve seu ponto de partida no fenômeno vulgar das mesas girantes. Mas como esses fatos falam mais aos olhos que à inteligência, eles despertam mais curiosidade do que sentimento. Uma vez satisfeita a curiosidade, fica-se menos interessado porque não são compreendidos, diferentemente de quando a teoria veio explicar a causa.”

A importância de Kardec se reflete posteriormente na sua inclusão no Grande Dicionário, onde Pierre Larousse reproduzia o pensar acima, com uma complementação: “Quando o Sr. Rivail ouviu falar de mesas gritantes, das supostas manifestações de espíritos batedores e de médiuns, ele pensou ter descoberto uma nova ciência e contribuiu para propagar na França essa funesta epidemia de supranaturalismo que fez tantos estragos durante uma década nas mentes das pessoas na América e na Europa.” Posicionamento alterado no próprio Larousse anos depois.

O livro do Jean Prieur está repleto de sedutoras constatações. Uma delas: a longa estadia de Kardec num país protestante teve uma gigantesca vantagem, a de proporcionar um bom conhecimento da Bíblia, pois naquela época, na França, até o início do século XX, era preciso uma autorização especial do confessor para ler o Antigo Testamento, posto que à época e segundo normas vaticanas não era leitura para qualquer um.

Dentre as iniciativas promissoras contidas no livro, Prieur narra o lançamento da Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, em 1858, 1° de janeiro, sonho acalentado por Kardec, o de ter um meio de comunicação mensal com os adeptos da Doutrina. E fundou ele ainda a SPES – Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, instituição devidamente autorizada pelo prefeito de polícia em 13 de abril, obedecendo parecer favorável do Senhor Ministro do Interior e da Segurança Geral. Que ouviu o seguinte testemunho de Napoleão III: “Tive a oportunidade de ler seus escritos com a imperatriz. É um homem sério, um cidadão estimado: podeis dar-lhe a permissão que solicita.”

Allan Kardec desencarnou na manhã de 31 de março de 1869, entre 11 horas e meio-dia. As descrições contidas nas páginas últimas do livro são emocionantes, historicamente reais. E Jean Prieur, ao seu todo, ressalta um Allan Kardec batalhador, plenamente comprometido com o Evangelho do Senhor Jesus, sempre pelejando por mais instruções para todos aqueles que desejam possuir a fraternidade universal como meta ultima de um processo civilizatório direcionado para a Luz Infinita.

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EU PROTESTO

Com o título acima, o notável médium brasileiro Divaldo Branco, de reconhecimento mundial, publicou artigo no jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, no dia 7 de março passado, coluna Opinião. Uma leitura que deve ser meditada lentamente por todos aqueles que vivenciaram as euforias e estrepolias do Carnaval do Brasil 2019. Artigo que endosso sem pestanejar, inexistindo em meu interior de homem etariamente bem vivido qualquer ranço de moralismo ou puritanismo caviloso. Reproduzo-o, abaixo, encarecendo aos leitores amados uma reflexão sobre os carnavais dos amanhãs brasileiros, quando o menosprezo pelas nossas crenças estiver em níveis abaixo de zero, favorecendo manifestações animalescas que seguramente muito enodoarão o título de Brasil, Pátria do Evangelho que ostentamos com tanto orgulho. Ei-lo, na íntegra:

“Lamentavelmente, a liberdade é uma conquista que nem todos os seres humanos compreendem. Alguns setores da sociedade confundem-na com a libertinagem, a permissão que lhes faculta o direito ao desrespeito a tudo quanto lhes perturba ou lhes impõe disciplina moral. Cada dia acompanhamos a perversão dos costumes e os atentados de vária ordem, utilizados insensatamente por esses libertinos escudados no direito que negam aos outros.

Não há muito, em nome da cultura, vimos exibir-se despido um homem no Museu de Arte Moderna de São Paulo, que se dispôs permitir-se apalpar por crianças em nome da liberdade. Outras exposições perversas foram apresentadas em Porto Alegre e em Belo Horizonte, em nome da arte, em espetáculos chulos e de baixo padrão moral, numa apresentação psicopatológica, exaltada pelos mesmos representantes do chamado progresso cultural. Há poucos dias, em São Paulo, no desfile do Carnaval, a Escola de Samba Gaviões da Fiel exibiu um quadro horripilante, ironizando Jesus, que era apresentado semidespido, surrado por Satanás, que o martirizava com um tridente, matando-O, enquanto caveiras sambavam em Sua volta. O espetáculo vulgar e agressivo mereceu a revolta de muitos foliões e pessoas outras que não puderam compreender a razão pela qual esse extraordinário vulto, considerado o maior da humanidade, cujo berço dividiu a História, naquela situação profundamente vexatória e agressiva não somente à Sua memória, assim como a todos aqueles que O respeitamos e cultuamos em nosso comportamento.

Com que direito esses sambistas arbitrários se permitiram denegrir a figura do Homem de Nazaré, respeitado mesmo por aqueles que não Lhe seguem as diretrizes filosóficas e religiosas? Esse comportamento viola todos os valores morais que a liberdade concede, naturalmente exigindo consideração ao direito dos outros. Sou espírita-cristão que aprendi com Ele a respeitar todas criaturas, credos e ateísmo, impositivos sociais e morais, não me podendo calar ante a afronta vil e zombeteira dos carnavalescos embriagados pelas paixões subalternas…

Não é a primeira vez que a crueldade ateísta de alguns indivíduos tenta macular a figura incorruptível de Jesus. Incomodados com a grandeza e excelência dos Seus ensinamentos, que eles não têm valor moral para vivenciar, dominados por conflitos sexuais e de outra ordem, buscam desacreditar o incomparável pensador e Mestre, que vem iluminando a consciência da sociedade desde há dois mil anos.

Tem-se insistido em informar que Jesus era gay, em tentativa de diminuir-lhe a dignidade, e advogam, ao mesmo tempo, que os gays merecem todo respeito e consideração. Claro que os gays são credores de nosso respeito, pois que são pessoas normais e dignas, mas aqueles que assim procedem visam diminuir-Lhe o conceito de honradez, o que não deixa de ser um paradoxo. Espero que outros cristãos decididos apresentem a sua recusa e protesto a esses adversários da dignidade humana, demonstrando-lhes que as suas demências não servirão de modelo moral à sociedade em construção neste momento quando iniciamos uma Era Nova de justiça e amor. Jesus não é apenas um símbolo do Mundo melhor, mas o exemplo que é guia para a conquista da plenitude.”

Sou radicalmente contrário à qualquer ofensa assacada contra os atuais símbolos religiosos vigentes no mundo contemporâneo. Inclusive manifesto profundamente meu respeito fraterno para com aqueles que não possuem qualquer crença. Tenho um amigo querido, o PHM, brilhante advogado pernambucano, que é agnóstico convicto, sempre respeitador das crenças as diversas. Como tive uma admiração gigante por Paulo Cavalcanti, comunista e ateu, caráter exemplar, advogado militante que atuava na Justiça de Pernambuco. Um especialista em Eça de Queiroz.

Que tenhamos respeito pelas convicções dos que nos rodeiam, sejam elas quais forem.

O Mahatma Gandhi costumava incentivar todos a ter bons valores, porque os valores de cada um se transformam no seu próprio destino.

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GRANDEZAS E PENÚRIAS

Fernando Antônio Gonçalves

Na sociedade moderna, onde um individualismo perverso está asfixiando uma sadia individualidade cósmica, assusta demonstrar solidariedade, manifestar sensações fraternais, condoer-se com os menos favorecidos, ser ombro amigo. Melhor ser solidário à distância, sensibilizar-se com as crianças da Bósnia, horrorizar-se com os massacrados vitimados pelos sectários islâmicos, sair em passeata pelos negros assasinados na África do Sul ou protestar contra o quase findo Maduro. Ser herói na pele dos outros. No Ayrton, que já se foi. No Neimar, o primeiro mega-estrela pós Pelé, o derredor sendo só eu, eu e as minhas circunstâncias neurotizantes, sobrecarregadas de uma ininteligível sensação, a de culpa por ser um animal a nível corporal, e um pseudo-deus a nível egóico, uma contradição que continuamente amplia um viver com medo da existência.

A sociedade moderna foi edificada a partir do desenvolvimento do ego. Mas a sabedoria popular ensina que “quanto mais se verga o arco, mais longe voará a flecha, quebrando-se o arco se a curvatura for excessiva”. As promessas de vida fácil, com muito dinheiro estão multiplicando os otários compulsivos, a compulsão deles bem mais elevada que o apenas racional. E se o idiotizado é honestamente advertido, o otário sente-se ressentido, como se o mundo inteirinho estivesse tentando destruir seu projeto de enriquecimento acelerado.

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ENCARANDO A SOLIDÃO

Fernando Antônio Gonçalves

Encontro-me com o Fredinho Lucas, hoje engenheiro tarimbado, colega de Marista da Av. Conde Boa Vista do Recife, curso científico, atleta de volibol, campeão dos Jogos Estudantis Pernambucanos, de épocas áureas. Recentemente desquitado, morando com um irmão mais novo, me confessou ser a solidão um dos seus principais problemas atuais, ele às vésperas de uma aposentadoria medianamente confortável, filhos criados, pais desencarnados, avô de dois, atualmente envolvido numa baita desacreditação de tudo, fruto de um nível de felicidade advindo de uma baixa densidade cultural, consequência primeira de muito trabalho tecnológico e quase nulas horas de leitura humanística.

De pronto, recomendei ao Fredinho a leitura de um livro recentemente editado, voltado para seres humanos carentes. Balizamentos existenciais para enfrentar uma atual epidemia planetária, onde a prática criminosa parece ser fortalecida por impunidades mil, sempre a coibir a ação de uma Justiça efetivamente aplicada: O Dilema do Porco Espinho: como encarar a solidão, Leandro Karnal, São Paulo, Planeta, 2018, 192 p. é muito recomendável. Páginas que reforçaram alguns dos meus fundamentos existenciais, ampliando minha condição de trabalhador da Casa dos Humildes, onde aprendi a assimilar sólidas lições da Doutrina Espírita, após assimilar leituras orientadoras dos bem mais capacitados na vivência teórica e prática dos ensinamentos do Mestre, coordenados por Allan Kardec e outros notáveis.

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PARA BOM ENTENDEDOR

Fernando Antônio Gonçalves

Numa cidade interiorana de pequeno porte, um circo de dimensões acanhadas debatia-se com uma receita cada vez mais diminuta. O mote para vender os duzentos e poucos ingressos de cada sessão tinha se exilado de muito, desacreditando a companhia e tornando difícil de pagar a conta da pensão de Dona Lu, uma viúva distinta que tinha alugado doze dos seus quinze quartos para o pessoal circense.

As dificuldades pareciam eliminadas, quando se anunciou a estreia de um jovem trapezista de apenas dezesseis anos, corpo e cara de menino, jeitão de quem ainda não tinha qualquer intimidade com o ritmo adão-em-eva. E a faixa estendida entre dois postes da calçada da Matriz era prenúncio da mais pura adrenalina: “Triplo salto mortal!!. Sem rede de proteção!! Desafio de Cabra Macho!!! Não percam!! Pode ser o nosso último espetáculo!!”.

Além disso, para ampliar a ansiedade da pacata comunidade, um megafone fora instalado nos costados de um jegue alugado por dois ingressos, um para o dono do jegue e outro para a “mínima” que andava com ele pra tudo quanto era lugar. Uma gasguita ainda sem os apetrechos, metida a locutora de comercial, que berrava os dizeres contidos na faixa, vez em quando tomando água num caneco “artesanalizado” a partir de uma lata de azeite.

O Vieira Gonzales, nome artístico do Nando da Silva, carregava anos de ensinamentos transmitidos por um velho acrobata, bom de trapézio até alguns anos passados, quando um tiro de marido pouco amado deixara-o sem a musculatura rígida de uma das coxas. Paciente, soubera transmitir os segredos do salto triplo mortal ao Vieira, ele que se especializara como ninguém em pular de galho em galho, incontável a sua galeria de bem “contempladas”.

No sábado anunciado pela faixa da Matriz e pela gasguita montada no jumento, os ingressos logo se esgotaram, os últimos sendo adquiridos num puxa-encolhe dos diabos, valendo até amolegada para tirar senhoras mais pudicas da fila de compra.

Apresentado pelo Danilo, mestre-de-cerimônia também sócio-fundador da companhia, o Vieira caminhou até a escada de corda sob o rufar de um tambor meio avariado. Antes de principiar a subir, ouviu a voz sussurrante do seu instrutor:

– Está com algum tipo de medo? Algo até hoje eu ainda não lhe tinha dito. Lá em cima, em qualquer circunstância, aja com o coração, pois ter coragem é saber agir com o coração. Lembre-se sempre que, ao saltar, lançando seu coração sobre a barra do trapézio, você estará se lançando sobre aquilo em que acredita. O mundo pertence a quem põe o coração em tudo que é feito, seja qual for o tamanho do efetivado.

O circo demorou-se na cidade por um bom tempo, com seus duzentos e poucos lugares integralmente vendidos nos finais de semana. O arrecadado deu até para adquirir uma outra carrocinha de fazer cachorro-quente e um novo conjunto de cordas para o trapézio do Vieira, agora tornado estrela maior, muito embora continuasse simples como sempre foi.

Dona Lu, contente que só, ia aplaudir, todo final de semana, as evoluções do rapazote, sempre acreditando piamente numa frase de Voltaire, lida num pé de página de uma revista de palavras cruzadas: “O trabalho afasta de nós três grande males: o tédio, o vício e a necessidade”.

Trabalhar o futuro com as ferramentas do presente e com o coração, eis a receita. O resto é ficar chorando sobre o leite derramado.

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ORIENTAÇÕES IMEDIATAS

Fernando Antônio Gonçalves

Alguém já disse que os que se esquecem do passado não conseguem bem caminhar para desafiadores amanhãs, mais intrincados que os ontens, onde “todos reconheciam seus lugares.” Alguns livros guardam uma notável atualidade, inúmeros tornando-se releituras obrigatórias para os que desejam, estabelecendo vínculos com o passado, enxergar futuros brasileiros, alinhavando procedimentos estratégicos capazes de viabilizar emergentes e complexos cenários. Para os que buscam adquirir, ou proclamar, ou difundir uma brasileiríssima cidadania, recomendaria uma acurada releitura de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, uma outra de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e o notável O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, esse intelectual com “incrível capacidade de viver muitas vidas numa só”, segundo Antônio Cândido.

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ANTES DO GALO SAIR

Fernando Antônio Gonçalves

Ás vésperas de mais uma saída sempre triunfal, no Recife, do Galo da Madrugada, uma editora brasileira relançou um manual didático diferenciado . Um manual que ensina como se defender de “ispertos” postulantes a cargos eletivos, todos eles recheados de promessas mirabolantes, algumas até envolvendo as próprias Forças Armadas . Denominada COMO NÃO SER ENGANADO NAS ELEIÇÕES, tal cartilha aponta os truques e as vadiagens (e viadagens) utilizados numa campanha eleitoral (atenção para 2020!), as frases de efeito, as encenações ilusórias, as falsas pesquisas, os efeitos visuais, as dicotomias superadas (esquerda/direita, moço/velho, usineiro/camponês), algumas delas ainda em plena vigência nos núcleos eleitorais mais desatentos.

A proposta do Manual é simples, ainda que oportuníssima. Através de um texto didático, leve, recheado de bom humor, estruturado pelo jornalista Gilberto Dimenstein, casos concretos serão explicitados tim-tim por tim-tim, favorecendo esclarecedoras discussões em ambientes sociais.

Neste muito trepidante milênio, um cuidado especial deveria ter todo eleitor de bom senso, cidadania calibrada, cabeça acima da bunda e bem distante dos emocionalismos cavilosos praticados pelos candidatos oportunistas. A lição de John Lukacs , analista social e ganhador do Prêmio Ingersoll, bem traduz essa preocupação: “Devemos tomar cuidado com a tentação perigosa de ver a História basicamente do ponto de vista do presente, embora tenhamos consciência de que o que sabemos no presente seja um reflexo inerente à nossa visão do passado”.

Nada ameaça mais um regime democrático que a gestão daqueles que desconhecem a tese fundamental, límpida e cristalina para os mais conscientes: “em toda democracia, as respostas são difíceis diante de uma demanda facilmente induzida”. Nesta semifalida sociedade brasileira, versão 2019, Brumadinho como exemplo maior, é preciso ampliar a noção sobre os nossos erros e acertos, omissões e fragilidades comportamentais. Repensar acerca das indecências sociais que redundaram no atual estado de coisas. Sem carecer apontar quem acertou ou errou, posto que os erros e os acertos são de todos nós, brasileiros .

Acima das ideologias e resguardadas as individualidades, faz-se mister um inadiável repensar nacional/regional/estadual/municipal, apreendendo com eficácia a advertência famosa de Ortega y Gasset: “Como é possível as rãs discutirem sobre mar, se nunca saíram do brejo?”. Urge que a nova classe média brasileira saiba discutir sobre mar, sem os moralismos faniquiteiros que não a levaram a nada nos últimos cem anos, salvo a ter mais medo de tudo, de todos e de um amanhã plúmbeo que já nos ameaça de longa data.

Nós, às vezes , ficamos muito seguros do nosso aprendizado do passado. E sentimo-nos bem fundeados sobre coisas que aprendemos quando éramos moços, perdendo, por essa ingenuidade, o bonde da história. Porque o bonde sempre está em movimento e com uma velocidade cada vez maior. E quando as pessoas perdem esse bonde , começam só a olhar para o passado, nostálgicas, sem qualquer sintoma reoxigenador.

O educador baiano Anísio Teixeira posicionava-se admiravelmente: “Eu não tenho responsabilidade nenhuma com as minhas ideias. Eu tenho, sim, uma responsabilidade com a verdade”. Quem tem esse grau de maturidade, sabe andar. Quem não tem, apenas continua sobrevivendo mal, atrelado ao me-disseram antissocialmente mundano. Saindo no Galo da Madrugada, na turma do tabaco leso.

No mais, saber divertir-se sem exageros, preparando-se para um ano 2019 repleto de reformulações estruturais amplamente indispensáveis. E barragens criteriosamente auditadas

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