CONSTÂNCIA UCHÔA - "IN" CONSTÂNCIAS

QUEM CALA NÃO SENTE

Um banho para uma mulher corresponde, em prévia de jogo, a um regime de concentração compacto.

A água fria abrandara os meus pensamentos que serpenteavam no vão quente da razão. Enxuguei o meu rosto, feito quem estanca uma dúvida, para então me auto sentenciar: nas mãos de Deus.

Apressei a vestir-me. Cada peça fora separada com esmero – todas em tons pastéis e discretos. Olhei-me no espelho e algo estava descaracterizado. Claro, faltara o meu batom vermelho-boca-de-chafurdo, afinal seria um noivado e não uma canonização. Sorri com graça: estou pronta!

O trajeto ao local de festejo estava ensolarado, mas cortei caminhos, assim como poupo os leitores de alguns detalhes em nome da brevidade.

O ENCONTRO

Em meio a pessoas amadas, pareciam até bandeiras colorindo de entusiasmo o salão, avistei o meu pretenso noivo – o corpo, porque parte da alma dele não o acompanhara. Camisa amarrotada, barba por fazer, sapatos sem meias e um semblante de quem perdera toda a fé. Ter um noivo sem fé é posar para o retrato da derrota. De baixo para cima era uma piada de mau gosto, mas observado no sentido inverso, era uma alma sem luz. Como não guardo semelhança com fogueira e nem com santa – ainda bem que pus o batom – encomendaria aquela alma em trevas a outros paraísos.

Não precisei aproximar-me para saber que não dormira, o seu hálito de ressaca era visível. Uma cena indigna para ser descrita. Não sei o que senti naquele momento, mas sei com exatidão o que deixei de sentir.

Mergulhei em um planto etéreo, contudo chego a recordar que ele, no infinito de seu descaramento, pronunciara “amor sem fim, você está feliz?”

Aterrissei no solo de um meio sorriso e não respondi. Ele não merecia qualquer esforço vocálico. Pensei em um “anarriê de status”, porém a quadrilha junina formara-se, e não prosseguiria sem os seus personagens mais tradicionais. Era festa e eu não tiraria dos convidados o direito ao contentamento. Então, viva os noivos, viva!

O pedido fora feito e ele me manipulava, como que conduzisse uma boneca por cordéis em que ele era o titereiro. E, assim, trocamos as alianças.

Após o rito de passagem em que namorados atravessam-se noivos, ele novamente intercepta-me:

– ASF (poupo-nos da repetição do vocativo), não ouvi o sim.

O que dizer ante a sepultura? Nunca fui de meios sorrisos, mas adotei-os como fala padrão de noivado.

Diante de meu silêncio, ele revidou em compulsões. Parecia comer de seu remorso e beber de seu costume. Até que, como diria minha avó, abrejou e dormiu por sobre a mesa.

Despedi-me dos convidados e, discretamente, entreguei a minha aliança ao motorista de meu ex. Pois é, o noivado fora natimorto. Escrevi uma poesia, dobrei seu papel em quatro partes, coloquei-a cuidadosamente no porta-luvas e, afiançada por Deus, jamais revi aquele finado.

De rompante, um soneto.

O SIM

Me perdoe dizer, amor sem fim,
Mas aquela que um dia esnobaste,
Tem no peito um Cristo por guindaste
Que melhor que ninguém zelou por mim.

Sinto muito sair sem jeito assim,
Foi a noite a donzela que amparaste;
Que empatou nossas vidas num contraste,
E por isso sequer ouviste o sim.

Me despeço e o faço sem recado!
Como pode alguém ser condenado,
Só porque se rendeu à boemia?

Entre goles e taças se mantenha;
Se lembrares de mim, favor não venha!
Estarei em estado de poesia…

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TODO MUNDO PEREIRA

Em minha última coluna, intitulada “Os laços é que são nós”, há uma poesia escrita que ora declamo – com consultas e sem receios.

Acredito que a narrativa de um “louco genuíno”, enchera-me de ilusões…

De repente, gostem.

CONSTÂNCIA UCHÔA - "IN" CONSTÂNCIAS

OS LAÇOS É QUE SÃO NÓS

O destino de nascer no Seridó Potiguar nos impõe uma marca, dentre tantas: a obstinação por genealogia. Assim se explica o nome do ilustre conterrâneo, também colunista dessa gazeta escrota, “Jesus de Ritinha de Miúdo”.

Peço ao leitor um parêntese para relatar uma história de como esse apreço por laços sanguíneos pode chegar até a adiar o nascimento do Menino Jesus. Conversava com Jesus, o da Terra, debatíamos o modo a ser escrito o Auto de Natal do Seridó, quando surgira o impasse: a Maria seridoense não escutaria o anjo Gabriel antes de saber minuciosamente das referências familiares daquele portador do recado divino. Ali vislumbramos de pronto a Maria regional exclamativa a interrogar:

– Gabriel, filho de quem? Seria dessa forma com os Reis Magos e com quem mais surgisse naquele enredo sagrado que tentávamos contextualizar ao nosso torrão. O mais foi muito. As respostas a Maria nos fizeram adiar os escritos natalinos.

Alguns meses antes, um tio querido, afirmara-me com olhos vibrantes de convicção científica e com o respaldo doutrinário que o fizeram autoridade no assunto:

– O Adão do Seridó, chamava-se Tomaz de Araújo Pereira. Todos nós descendemos dele.

O sobrenome “Pereira” não tardaria a descer do sótão de meu juízo ao arsenal de guerra de minhas mãos.

O Seridó é uma civilização, conforme afirmara Dr. José Augusto Medeiros.

O lugar que teria tudo para ser uma região inóspita, seca, quente e infértil, o seu conteúdo humano transformara em prosperidade. Provavelmente características como a fé, a intensidade, a união, o talento e a beleza de seu povo foram-lhe fios condutores da escassez à fartura, tal qual a multiplicação do pão e do vinho realizada por Jesus, o que subiu aos céus, frisemos.

Peço licença para dois apostos. Como ilustração observemos a união in casu com que todos somam forças para resolver a celeuma de Maria Pereira e no exagero, fé e praticidade presentes na fala do poeta ao sugerir no enredo o nome para a criança:

– Batize logo de Mundo! Referendando essa característica de somar forças e de apreço pelo assunto genealógico, o escritor seridoense Luiz Rodrigues, ao se deparar com a poesia que ora apresento aos diletos leitores do Jornal Besta Fubana, de imediato alertou que adaptá-la-ia, para minha felicidade, ao teatro.

Fora então baseada na genialidade desse povo, do qual gravitacionalmente me excluo, mas ao qual louca e poeticamente pertenço, que escrevi: Todo Mundo Pereira.

Abotoemos os nossos laços.

Eis a poesia anunciada:

TODO MUNDO PEREIRA

Quando o saber nos vasculha,
Nos empoeirando a alma;
Confunde toda a visão,
De uma estrada antes calma.
Não adianta o espano,
Parecendo ser engano,
Do bom tanto que se espalha;
Saber em demasiado
Pode até ser engraçado,
Mas que atrapalha, atrapalha.

No telhado do equilíbrio,
Conectando umas telhas,
É fraco o lacre da mente,
Nas peças frágeis vermelhas;
Da loucura se aproxima,
Quando vistas lá de cima
Podem parecer distantes,
Mas por dentro pra ser louco
Precisa de muito pouco…
…Pra endoidecer: são instantes.

Era seca de oito anos,
O solo estava enrugado.
No sertão do Seridó
Maria tinha emprenhado.
Tão ardente era a fome,
Nem pôde pensar no nome;
Queimada de precisão;
Desejando ter arroz,
Deixou pra escolher depois
De findada a gestação.

O parto fora esgotante.
Tão faminta e tão sozinha,
Precisava dar um nome
Para pôr na pulseirinha;
Que o hospital exigia
Pra todo ser que nascia
Ter uma nomenclatura.
Mandou pôr o nome dela,
Foi pensar junto à janela
No nome da criatura.

Pra registrar a criança,
Sem pai e sem ter saber,
Como chamaria a cria
Que acabara de nascer.
– É preciso, oficial?
– Qual o problema, afinal;
– Não pode ser apelido?
– Necessário nominar,
– Pra criança registrar.
Respondeu aborrecido.

Maria na inocência,
Tinha criado um impasse,
Não acertava escolher
Um nome que se chamasse.
No cartório quis palpite,
E um doido no pós limite,
Gritou com ares de engodo:
– Devido à vossa demanda,
– Duas partes formam banda,
– Mas o inteiro se faz Todo.

De tanta complexidade,
Ante à loucura exposta,
Revestida de ilusão,
Maria deu a resposta;
– Todo! Que nome imponente!
Mas um poeta do repente
Improvisou o dizer:
– Não rima com quase nada,
– Se chamá-lo na toada,
– Não dará para entender.

O poeta navegava,
Pois queria algo profundo;
Feito as águas do oceano.
– Batize logo de Mundo!
– Que o mundo é a beleza,
– O céu e toda grandeza,
– Feitos por Cristo Jesus,
– No mundo dessa criança,
– Contenha toda a esperança,
– De Maria aos pés da cruz.

Maria indecisa estava
Orgulhosa e rindo à toa,
Que o Todo era completo
Mas, Mundo era coisa boa.
Nessa hora um tal doutor,
Desses de interior,
Que sabe um tanto de tudo,
Disse que nome composto
Era nome de bom gosto
De gente que dá pra estudo.

O médico ficou pensando
Naquilo que ele ouvia,
O poeta mastigando
Seus versos já de poesia,
O doido que era astuto
Sabido “desses matuto”
Que não abrem nem pro trem,
Falou com o dedo em riste:
-Mãezinha, não fique triste
-Nome todo mundo tem.

Em sua fala concreta
Despida de lucidez,
Todo Mundo é a glória,
Que seja o nome da vez;
E a mãe feliz e eufórica,
Adotando a retórica
Desse louco genuíno;
O doutor se agradou,
O poeta então rimou
Com o nome do menino.

Diante dessa peleja
Da astúcia desse povo,
Atendeu, a sertaneja
Registrou um nome novo;
– És: Todo Mundo Pereira.
A mãe falando faceira,
Foi embora o empecilho,
Com o registro na pasta,
Mal sabia que era vasta
A memória de seu filho.

Era gênio o nascituro,
De conhecimento denso,
E já tornando maduro
Foi ficando mais intenso,
De história à matemática
Explicava com didática,
Se preciso em esperanto
Inglês, francês e alemão.
Diziam “quelera” o cão
Incorporado num santo.

Ninguém sabia o motivo
Todo Mundo era assim,
Falava em qualquer ser vivo
Do princípio até o fim.
A Bíblia? era de cor
Seu enredo era o maior,
Em genética ele era o bamba,
Em todo jogo apitava.
Os ritmos que ensinava?
Do xaxado até o samba.

Foi parar em Hollywood
Aquele rapaz estranho;
Meio gênio e meio bobo,
De saber sem ter tamanho.
A repórter interessada,
Quis ouvir pra ser narrada,
As raízes da existência.
– Como é saber demais?
– E o que é que o senhor faz?
– De onde vem a sua essência?

– Das mãos de mãe que calejam,
A pergunta respondendo,
– E o sol que é implacável,
– Apura o quengo fervendo,
– As condições adversas,
– São rascunhos das conversas,
– Que hoje palestro aqui,
– No Rio Grande do Norte
– Ou se nasce logo forte,
– Ou se diz logo: morri.

– Meu destino foi prescrito
– Pelas mãos de um doutor.
– O poeta deu pitaco,
– Lá no meu interior;
– Mas foi um doido danado,
– De proceder arretado,
– Que resolveu meu dilema;
– Feito carroça de boi,
– Definiu o foi não foi,
– Todo Mundo foi o tema.

– Ele herdou dos três os dons,
Disse em terceira pessoa.
– Consulta e faz bons versos,
– Tudo isso sempre ecoa,
– Do doido tem o juízo.
Finalizou no improviso,
Aquele rapaz calado:
– “De médico, poeta e louco
Todo mundo tem um pouco”.
Daí nasceu o ditado.