CONSTÂNCIA UCHÔA - "IN" CONSTÂNCIAS

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ESQUECER É PERMITIR, LEMBRAR É COMBATER

O silêncio faz um muro
Cercando a violação
E ela vive no escuro
Debochando da razão
Ri da vil indiferença
Da pena, quando há sentença
Pra garantir o crescer
Se Abusou? Tem que PUNIR
Que esquecer é permitir
Mas lembrar é combater

Mãos que roubam inocências
Mãos que lucram de purezas
Lançam mão de indecências
E depois saem ilesas
Muitas vezes, nesses lares
São mãos de familiares
Manchando o sangue, o dever
Pois deviam impedir
Que esquecer é permitir
Mas lembrar é combater

Amarela, a flor sozinha
Entre o medo e a vergonha
E o adulto que espinha
Não lhe deixa que exponha
Espinhos machucam flor
Despetalam sem pudor
Ameaçam, sem temer
E a flor ? nem quer mais florir…
Que esquecer é permitir
Mas lembrar é combater

Um outro adulto duvida
Dessa história violenta
E usurpam cor da vida
Na hora que inocenta
Os abusos e injustiças
Serão sempre mães postiças
De culpa amamenta o ser
E tem que valer insistir
Que esquecer é permitir
Mas lembrar é combater

Quem sofre merece colo
E não prévio julgamento
Sem segurança no solo
Se afunda no sofrimento
Mostremos que não “tão” sós
Que a vítima não é algoz
De mãos dadas vamos ler:
Segurem pra prevenir
Que esquecer é permitir
Mas lembrar é combater.

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“CAPRICHO DOS DEUSES”

E de uma exclamação liberta, ou de uma interrogação prisioneira, processada no querer do poeta, nasce o verso!

Não compreendo, no entanto, o apreço e a dependência abusiva da poesia por Eros. As setas exclamativas que saem do arco do cupido, ferem de amor “o fingidor”. E das tochas indagativas, lançadas por esse menino travesso, emana o fogo impiedoso da paixão.

Daí são consumidos os peitos dos poetas: e haja dor, haja verso e haja sangue…

Mais do que “gosta de apanhar”, a poesia depende das feridas abertas por Eros. E nós, os poetas, consagrados à Deusa Poesia, somos sacrificados aos caprichos desses dois.

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AS DUAS

Referente à poesia Duas Luas, do poeta Dudu Morais

De corpos esculturais
Encostadas aos seus donos,
Seus gemidos roubam sonos…
Imaginem os seus ais.
São cenas do amor explícito,
Cada acorde faz ilícito,
E acordam nuas nas ruas!
Deslizam pra despertar:
Duas violas pra tocar,
Na alma de “Duas Luas”.

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O BESOURO DE MINHAS QUEIXAS 

Introito

Em terras potiguares, eu e a professora Socorro Lopes de Araújo, ou simplesmente, Maria Caramujo, escrevemos a história de Severino: Natureza Severina. (vide matéria “Natureza Severina”, publicada nesse Jornal em 21 de março de 2021).

Severino, um resignado morador do lixão, é um menino cuja família não dispõe de recursos (de real), feito as de tantos Severinos reais. No entanto, por capricho de nosso Senhor, seu espírito pertence à realeza dos céus da dignidade.

O livro, jamais publicado, fora escrito assim: esta colunista provocava a professora com alguns parágrafos e ela, com a criatividade que lhe é inerente, respondia com outros tantos.

Abaixo entrego aos leitores alguns parágrafos enviados, numa rara manhã chuvosa, à sertaneja Maria Caramujo.

II. O BESOURO DE MINHAS QUEIXAS 

Severino gostava tanto de bicho que pôs na cabeça que um sinal que tinha em seu queixo era um besouro que resolvera ficar por ali. E assim que acordava, corria para o pequeno e desgastado espelho de bordas laranjas para verificar se o besouro permanecera em seu queixo de ilusão.

Certa vez, a professora pediu para que todos escrevessem uma redação a respeito de seu melhor amigo. Eis o título da redação de nosso menino Severino: O Besouro de meu queixo.

A professora sorriu com o título e chorou com o lirismo dos escritos. Ela percebera que os colegas debochavam do referido e indiscreto sinal de seu aluno. Severino significara aquela marca como um sinal de amor, afinal era “carne de sua carne”, como tão bem descrevera no corpo de sua redação.

Era uma declaração de amor ao infortúnio. Nela trazia consigo, dentre outras, a reflexão seguinte: “Não me deixa e nem se queixa por ouvir as minhas queixas, fica ali tão satisfeito. Tão abusado que sou! Ele jamais reclamou, por não lhe dividir meu pão. Rezo por mim e por ele, pois ter um amigo daquele, vale qualquer oração. E fica ali em meu queixo, “me perdoa” se lhe deixo, às vezes, sem atenção. Ele pode contar comigo, pois não tem somente amigo, nós somos também irmãos”.

Dona Romilda percebera que seu aluno seria um escritor e resolveu estimulá-lo: publicou no jornal da Escola. Na oportunidade, sugerira apenas a mudança do título respectivo para: O Besouro de minhas queixas.

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A ESTRADA DE UMA FLOR

Ficando só, seria natural emurchecer-se. Mas não senhor, tinha gosto à vida.

Cantemos a isto: à resistência exalante do amor!

Faz-me necessária a coragem para assumir-se flor em essência. São nas intempéries que a essência é verdadeiramente confessada.

Seu empoderamento era a sutileza.

Ponderada e sensível flor. Será que ainda voga?

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NATUREZA SEVERINA

Texto escrito em parceria com a Professora Maria Caramujo

I. O FILHOTE DE SABIÁ

O sabiá sangrava, talvez para fazer Bastião sentir-se forte. Parecia que havia no menino – ao menos em parte dele – um vampiro cuja vaidade era alimentada com sangue. De fato, existem pessoas assim: precisam de ferir o alheio para julgarem-se heroicas e prezam por diminuir o outro para sentirem-se maiorais. Bastião, tão moço ainda, aparentava ser destas. Roguemos ao oratório dos tempos por sua evolução.

Nesse momento exato, Severino saíra pelo portão azul-céu de sua escola, deparando-se, na calçada daquele lugar, com o que parecia ser o retrato falado do inferno: três a quatro colegas parabenizavam Bastião e apontavam eufóricos para o filhote de sabiá gravemente atingido.

Severino assistira à cena encharcado no vinho da compaixão. As batidas de asas agonizantes da pequena ave, davam o compasso das batidas de seu coração de menino bom. O sofrimento do pequeno sabiá emprestava a cadência ao tom do sofrimento terno daquele menino.

Era maduro Severino, apesar de sua pouca idade, contava com incompletos oito anos; era, ou deveria de ser, o princípio de sua maturação e todos os princípios são espinhosos. Parecia que Severino fora amadurecido em carbureto. Nada para Severino chegara florido, mas ele tratava de plantar, regar, enfeitando assim os campos da vida – atitudes comuns às almas elevadas e livres de amarguras. Primaverava no viver, aquela criança.

Mesmo sem rancor, não entendera o motivo da diversão em se matar uma ave não-comestível só por brincadeira.

– O cantar do sabiá é tão lindo e verdadeiro que parecia até mentira calá-lo só por maldade. Que surdez de alma seria aquela do colega? Qual o nome dessa brincadeira desumana, onde o término se dá com fins extremados para os participantes: um ri vitorioso, o outro é ferido para morrer? Refletiu tomado por indizível tristeza.

Severino observara que até a baladeira parecia sorrir. Somente ele e o pássaro não compartilhavam daquela euforia perversa.

– O sabiá! gritou saindo de seu momento de distração e voltando o seu olhar para os olhos do sabiá. – Seus olhos estão sem alma, pensou estremecido no frio da desilusão.

O nosso menino não conteve as suas lágrimas. E foi com devoção hierática que o corpo do bichinho fora movido para o andor de seus braços e, com extremo pesar, levado em procissão solitária, para ser enterrado. O amor ofertado por Severino dispensava orações, mesmo assim ele as fizera.

Severino só não fazia chover, mas de tudo ele inventava. Não havia mau tempo no tempo que ele criava. Tratou logo de plantar uma árvore onde enterrou o corpo do animal: onde fora despedida seria encontro; onde fora morte, seria vida. Todos os dias então, ele iria ver a plantinha e visitar o sabiá. Logo o sorriso voltara à face de luz de um candelabro conhecido por Severino.

Os coleguinhas riam tanto dele, mas ele nem ligava. No bairro em que Severino morava a água só chegava às torneiras uma vez por semana, mas mesmo assim, ele dividia a água do banho com a plantinha; um pé de goiaba. Por aquele cantinho ser especial para ele e em memória ao cantar da ave que fora ali sepultada, pôs nome e placa no lugar. O menino escreveu caprichosamente, usando um resto de tinta branca encontrada no lixão, em um pedaço de pneu velho: O canto da Goiabeira.

II. O DIA DA INDEPENDÊNCIA

Severino era diferente dos outros meninos de sua idade. Gostava de flores e de borboletas. Plantava beldroegas ao redor da casa, para que as borboletas viessem até ele. Ele tinha um sinal no queixo que diziam parecer com um besouro. Nossa! Como ele gostava da ideia de ter um besouro no queixo.

Como seus pais eram catadores de lixo, um adulto certa vez dissera que ele já tinha a catinga impregnada ao corpo. Ele mesmo sendo tão pequeno, sentiu-se constrangido e criou a rotina de passar alfazema braba na pele para tentar ficar cheiroso e não causar incômodos.

Ele jamais sentira o odor fétido do lixo, não porque se acostumara, mas porque focava no aroma das flores. Aquele cenário cinza do lixão, nunca lhe pertencera, nem tampouco ele ao lugar. Severino era a vegetação do sertão, a chuva matando a sede do chão rachado, era a diversidade de sons dos bichos livres persistindo pela vida, era o vento balançando os galhos secos, era a sombra de amor na aridez da indiferença tosca e era, por fim, uma luz infinda aos que nas sombras restaram.

No quintal da casa dele tinha um pé de bucheira. Essa criança esfregava tanto a bucha vegetal em seu corpo, tentando tirar o mau cheiro que o lixo deixara, que muitas vezes ferira a sua pele (vestes da melhor alma que ali já passara).

Mal sabia Severino que sua alma ingênua exalava o aroma mais puro dos lírios sublimes do paraíso. Que o lixo atingira a camada de sua epiderme, mas que a limpidez de caráter chegava desinfetar parte do mundo.

Era sete (07) de setembro. Como ele gostava daquela data! Amava o seu país e as cores de sua bandeira. Afirmava com rigor “que pertencer ao país com a maior verde-mata em sua bandeira, era ser escolhido por Deus para ser um defensor da natureza”.

Caprichou mais que de costume em seu banho. Caminhou para a sua escola com a responsabilidade nas costas de um estadista. O menino parecia ouvir a cadência da banda marcial e então…ele marchava, com toda sua verdade. Postura corporal irrepreensível a combinar com a de gestos. Peito estufado de orgulho de sentir-se pertencente à Pátria Gentil da Natureza.

Ao despedir-se da mãe naquele dia, bradou com voz de comando: – minha mãe, o seu filho acaba de ser convocado para uma missão tática especial. Sempre a postos para a pátria. A mãe balançou a cabeça com um sorriso tímido nos lábios já tão rescaldados pelo tempo e, com os olhos opaquecidos de quem há muito teve qualquer rastro de esperança jogado no lixo. Abençoou sem ânimo o seu filho.

Ao chegar à concentração em frente à Escola Calixto dos Anjos, ele estava mais suado que de costume. Gastaria energia demais ao deslocar-se em marcha em seu percurso habitual – cinco (5) quilômetros de casa até a sua escola.

Nenhum remanescente perto do menino. Parecia carregar consigo o efeito granada: aonde Severino chegava todos se afastavam.

– Será que estou parecendo um comandante e os meus soldados se intimidam em estarem por perto? Fui zeloso demais, meu Deus, me excedi…refletia com ares de culpa, aquele menino tão bom o quanto sonhador.

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