CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

UM PEDIDO AOS FILHOS MEUS

Eu hoje olhando no espelho é que me dei conta
Que o peso dos anos fizeram-me afronta
E que a juventude a tempo eu perdi,
Partiu sem me dar a chance de evasiva ou fugas
Deixando na face carquilhas e rugas
Dando sinais claros que eu envelheci.

Meus passos estão muito lentos e fora de escala
Recorro ao auxilio de uma bengala
Pra com segurança me locomover,
Mas essa é a lei da vida que a todos conduz
Nasce cresce nutre-se e se reproduz
Deixa a descendência pra depois morrer.

Meus filhos no fluir da vida rascunhei os traços
Conquistei vitorias amarguei fracassos
Tive encantamentos e desilusões,
Mas hoje olhando o passado é que compreendo
Que muitas pendências fiquei lhes devendo
Isso é o que me causa tantas frustrações.

Não deixo fortunas fazendas, ou se quer poupança,
Porem com orgulho deixo como herança
Para que prossigam com seus ideais,
A marca da minha humildade para ser seguida
Os muitos conselhos e as lições de vida
Que aprendi na infância com meus velhos pais.

Então filhos meus agora lhes faço um pedido
Cuidem desse velho que já foi vencido
Pelo tempo ingrato que sem condolência,
Causou uma enxurrada de tombos e trancos
Meus cabelos loiros ora já estão brancos
Enturvando o brilho da minha aparência.

Portanto eu quero que saibam que estou coeso
Que jamais pretendo transformar-me em peso
Nem num embaraço que encubra a essência,
No seio das suas famílias sombreando os brilhos
Então o que peço pra vocês meus filhos
É bastante calma e muita paciência.

Meus filhos aqui eu encerro esse meu poema
E cada mensagem que passei no tema
Servirá pra um dia na posteridade,
Vocês lembrarem de mim como um pai modesto
Mas com o nome limpo e um passado honesto
Que deu bons exemplos para humanidade.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

APOLOGIA AO MATUTO!!!

Matuto iletrado, da mão calejada,
Do cabo da enxada, da luta do gado,
Jamais imagina o que é vaidade,
E a felicidade mora em seu roçado.

Sente-se feliz, vivendo na roça,
Na pobre palhoça, de barro e sapé,
Morando distante, da modernidade,
Que tem na cidade, nem sabe o que é.

Se o homem da rua, zomba do teu jeito,
Não chega ao teu peito, o ódio, o rancor,
Tua alma é pura, não guarda maldade,
Só tem na verdade, lugar para o amor.

Teu suor salgado, tem gosto de terra,
No teu Pé-de-Serra, tu és tão feliz,
A vida roceira, não troca por nada!
Pois lá está fincada, a tua raiz.

Pois, o que chasqueia, e até te destrata,
Despreza, maltrata, renega teu nome,
Não vê que é da roça, cheia de impureza,
Que leva pra mesa, de tudo que come?

Por isso te exalto! Oh nobre matuto!
Presto-te um tributo, te dou nota cem,
Por ser oriundo, das brenhas, do mato,
Assim sou de fato, matuto também!

Portanto, te orgulha, matuto brejeiro!
Do jeito matreiro, do teu linguajar,
Do lugar que vive, no aceiro da mata,
Ouvindo a cascata, e olhando o luar.

E não te aborreça, se te chamam “Jeca”,
“Caipira sapeca”, “Zé do interior”,
Quem sabe se tocam, e até compreendem,
Que em tudo dependem desse lavrador!

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

GLOSAS

Mote:

Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

Um alerta a quem goza a juventude
Pra que esteja em plena consciência!
Que esta fase que está em florescência
Em que esbanja vigor, força e saúde,
Breve passa, e a decrepitude,
Com o acúmulo dos anos lhe procura,
Transformando de vez sua figura
Com o peso do fardo da idade,
Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

Todo jovem na sua caminhada
Preconiza a beleza em que ostenta,
Quando sobe a ladeira dos quarenta
Ver que a face de vez foi transformada,
Sua pele que era acetinada,
Escarpada está, e a desventura,
Se, apodera daquela criatura,
Pra roubar-lhe o luzir da vaidade,
Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

No outrora comigo foi assim
Eu pensava que não envelhecia,
Mas um dia seguido de outro dia
Com uma noite nomeio fez de mim
Um vetusto que já avista o fim
Da estrada sombria e muito escura,
Que se encerra na fria sepultura
Onde irei habitar pra eternidade,
Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

A idade aos poucos nos transforma
Desviando os nossos ideais,
Que oscilam de formas desiguais
Indo além dos padrões de regra e norma,
Nem sequer uma chance pra reforma
O período do tempo lhe assegura,
Um conselho pra geração futura!
Usufrua da jovialidade,
Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

APOLOGIA A CACHAÇA!!!

No outrora só bebia
Caboclo, negro e mulato,
Hoje gente de recato
Bebe de noite e de dia,
Até vossa senhoria
Eu já vi acontecer
Nas ruas tombar, pender,
Fazer seus passos errados
Pois, se bebe os ilustrados,
Não é defeito eu beber.

Eu, já vi no bar bebendo,
Engenheiro, deputado,
Major, coronel, soldado,
O Pastor, o Reverendo,
Pelo que estou percebendo
A bebida deve ser
Algo que só dar prazer
E não imoralidade,
Se, bebe a autoridade,
Não é defeito eu beber.

Bebe o padre, bebe a freira,
Bebe o espírita e o crente,
Suponho que a aguardente!
Aquela cana brejeira
Conquista de uma maneira
Que como se pode ver
Se, bebe aquele que crer,
Crente, espírita, freira e padre,
Então veja meu compadre,
Não é defeito beber.

Bebe-se por quem nasceu
Quando ao mundo veio a luz!
Ou se acaso deixa a cruz
No lugar em que morreu,
Quem foi que já não bebeu
Alguém queira me dizer,
Simplesmente por prazer
Por alegria ou tristeza
Secando a taça na mesa,
Não é defeito beber.

Se o time for vencedor
De uma competição,
Haja comemoração
Bebendo cana em louvor!
Mas, se houver o dissabor,
De ver seu time perder
Bebendo para esquecer
Nela o torcedor se vinga
Metendo a cara na pinga
Não é defeito beber.

Um bêbado inveterado
Que já está de cara inchada,
Levanta de madrugada
Toma um gole caprichado!
Chega fica arrepiado
Sentindo a cana descer,
Ele espera amanhecer
Levanta de perna fraca
Vai correndo pra barraca
Não é defeito beber.

Chegam em casa com ressaca
As mulheres não aceitam,
Tem delas que até os enfeitam
Com alguns “biliros de vaca”!
Diz: não aguento a inhaca
Sendo assim não vou querer
Estragar o meu viver
Com um ser dessa qualidade!
Ele, diz com humildade,
Não é defeito beber.

O ébrio não é doente
É apenas viciado,
Se, acaso for bem tratado,
Abandona a aguardente,
Quando sóbrio e consciente
Logo irá compreender
Que depende do querer
Para mudar de repente!
Bebendo socialmente
Não é defeito beber.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

VIVER NA ROÇA É ASSIM

Às quatro e meia levanta
Para cuidar da ordenha
Faz o fogo e lasca a lenha,
Pra fazer almoço e janta,
Vai para o roçado e planta,
Feijão, milho, amendoim,
A batata e o gergelim,
Jerimum, alho e verdura,
Pra que garanta a fartura,
Viver na roça é assim.

Joga milho no terreiro
Para as galinhas e o galo,
Bota reação pra o cavalo,
Ceva o porco no chiqueiro,
Chama o cachorro trigueiro,
Cujo nome é “arlequim”,
Irriga um pé de jasmim,
Pra que brote a flor cheirosa,
Também rega o cravo e a rosa,
Viver na roça é assim.

Para enrolar o cigarro
Usa uma palha de milho,
Bate a enxada no trilho,
Pega a quartinha de barro,
Logo atrela os bois no carro,
Um é “brinco” outro é “marfim”
Convida o filho Crispim,
E juntos vão pra campina,
Para cumprir a rotina,
Viver na roça é assim.

Monta no velho alazão
Que se chama “pirilampo”,
E vai percorrer o campo,
Pra cuidar da criação,
Vai buscar um boi ladrão,
Que tem instinto ruim,
Quando encontra o bicho, enfim,
Leva e prende no curral,
Confinando o animal,
Viver na roça é assim.

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CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

PAPAI NOEL SERTANEJO

Papai Noel, o Natal,
Está chegando novamente,
Veja aí se esse ano
O senhor faz diferente!
Tomando outra direção
Vá visitar o sertão
Aonde a seca castiga,
E a criança chupa o dedo
Sem se lembrar de brinquedo
Só quer encher a barriga.

Passe lá Papai Noel
E veja a situação,
E ao invés de levar
Carrinho, boneca, avião,
Pra essa gente sofrida
Leve bastante comida
Pra que matem sua fome,
Tem criança tão carente
Que está magrinha e doente
Pois faz tempo que não come.

Conheça os pais de família
Que vivem no “ora veja”,
E olhe dentro do olho
Daquela mãe sertaneja
Que no peito sobra magoa
Mas no pote não tem água
Nem na panela alimento
Pra saciar sua prole.
Papai Noel, não é mole,
Viver nesse sofrimento.

Trenó com rena e sininho!
Não se dê a esse trabalho,
Suba num carro de bois
Vá balançando um chocalho,
E em vez daquela risada
Garanto que a criançada
Vai lhe dar mais atenção,
Se num aboio bonito
Disser num sonoro grito
“Papai Noel no sertão”!

Em vez da roupa encarnada
Toda enfeitada de ouro,
Vista perneira e gibão
E use um chapéu de couro,
Vá seguindo pela roça
Entrando em toda palhoça
E abraçando as crianças,
Que são pobres desse jeito
Porém, carregam no peito
Muitos sonhos e esperanças.

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CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

A VIDA VIVIDA NO SERTÃO

Oh, seu moço da cidade
Quem vive de fino trato
Vem ver a felicidade
Que se tem aqui no mato,
Na alvorada do dia
Respirar a brisa fria
Pura, sem poluição,
Comer com a mão, na panela,
Vem ver como a vida é bela
Vivida no meu sertão!

Vem ouvir a melodia
De um vaqueiro caprichoso,
Cheio de melancolia
Soar seu canto saudoso,
Com esmero e sutileza
A bela voz com clareza
Entoando uma canção,
Cativa a jovem donzela.
Vem ver como a vida é bela
Vivida no meu sertão!

Vem andar pela campina
Beber água lá da fonte
Pura, limpa e cristalina
Que nasce naquele monte
Bem pertinho ali em frente.
O fluir dessa vertente
Faz bem pra teu coração
E cura qualquer mazela
Vem ver como a vida é bela
Vivida no meu sertão!

Vem cá escovar teu dente
Com raspa de juazeiro
Depois sentar no batente
Sob a luz de um candeeiro
Prosear, contar piada,
Com a viola afinada
Solfejar uma canção
Da maneira mais singela
Vem ver como a vida é bela
Vivida no meu sertão!

Vem ver a Lua de prata
Todo o campo prateando
Ouvir o vento na mata
Lá bem distante zoando
Vem ver uma vaquejada
Fazer uma “farinhada”
Cavalgar num alazão
Montar no pelo sem sela
Vem ver como a vida é bela
Vivida no meu sertão!

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CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

VIDA E MORTE DE GUGU LIBERATO

O Brasil estupefato
Sofre mais um golpe forte
Com a notícia da morte
De Augusto Liberato!
Que aqui findou seu contrato
Foi pra outra dimensão.
Lá na sagrada mansão
Terá acolhida intensa
Porém a lacuna imensa,
Desgasta a televisão.

Gugu, esse brasileiro,
De carreira promissora,
Teve uma mãe vendedora
E um pai, caminhoneiro.
Sendo um gênio verdadeiro
Tornou-se celebridade,
Pela criatividade
Mostrou que era talentoso,
Mesmo sendo tão famoso
Nunca perdeu a humildade.

Com os seus saberes tantos
Demonstrou aptidões
Ao escrever sugestões
Pra o “Programa Silvio Santos”,
Que por despertar encantos
Já lhe incluiu em seus planos,
E sem que temesse danos
Contratou-lhe de repente
Sendo ainda adolescente
Contando quatorze anos.

Assim deu-se a sua entrada
De vez, na televisão!
Na área de produção
Teve a vaga assegurada,
De maneira inusitada
Pra o sucesso fez embarque!
Foi em “Domingo no Parque”
Que a carreira teve início
Pra dedicar-se ao ofício
Sem prazo pra desembarque.

O seu primeiro programa
Pra prosseguir na jornada,
Foi a “Sessão Premiada
Paulista”, acendendo a chama,
Que abriu a porta pra fama
De forma espetacular.
“Viva a Noite” veio ao ar
Tendo um sucesso graúdo
Lançando os grupos “Menudo”,
“Dominó” e “Polegar”.

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CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

A CASA QUE NASCI NELA

Numa viagem recente
Que fiz ao meu Pé-de-Serra
Pra visitar minha terra
Achei tudo diferente,
Senti a dor comovente
Por não ver mais a cancela
E nem a casa amarela
Que foi a minha morada,
Hoje não resta mais nada
Da casa que nasci nela.

Vendo a macabra tapera
Fiquei bastante abalado
Apagou-se o seu passado
Não demonstra mais quem era,
No embalo dessa quimera
Concentrei-me com cautela
Lembrando o quanto era bela
De saudade até chorei,
E num papel rabisquei
A casa que nasci nela.

Devagar imaginando
Fui seguindo passo a passo
Juntando cada pedaço
Conforme ia me lembrando,
E aos poucos restaurando
Como um pintor que pincela
Fiquei dando uma olhadela
E riscando no papel,
Para ilustrar meu cordel
Da casa que nasci nela.

Daquele alpendre imponente
Não vi sequer os sinais
Como também os portais
Ou ao menos um batente,
Não encontrei tão somente
Um ferrolho, uma tramela,
Senti a cruel sequela
Pesar por sobre meus ombros,
Ao revirar os escombros
Da casa que nasci nela.

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CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

A MULA SAPECA

Taquei a espora na mula
Mas, passei por aperreios,
A mula deu tanta popa
Que rebentou os arreios.

A mula é baixeira
Sapeca mimosa
Disposta fogosa
Sagaz e ligeira,
Vou nela pra feira
Mais ela é assim
Cheia de pantim,
De malinação,
Prestou atenção
Quando dei bobeira
Por ser traiçoeira
Jogou-me no chão.

Botei-lhe a cangalha
Fui buscar ração,
Capim colonião,
Grama, bredo e palha.
Porém minha falha
Não se justifica,
Com uma tabica
Bati na garupa
Com tão grande upa,
Fiquei cabisbaixo
Botou tudo abaixo
Só por minha culpa.

Nessa mula minha
Muito eu empreendo,
Não troco e nem vendo
Porque a bichinha,
Gosta de uma rinha
Mas é viajante!
Pra perto ou distante
Está preparada,
Não fica enfadada
Nem sente cansaço.
Jamais me desfaço
Daquela danada.

Taquei a espora na mula
Mas, passei por aperreios,
A mula deu tanta popa
Que rebentou os arreios.