CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

UM APELO AO TEMPO

Tempo ingrato, mordaz e inclemente,
Tu, com tua atitude inconsequente,
Corroestes tão progressivamente
O luzir dos meus dias joviais!
Sem dar chance pra uma escapatória
Desmanchastes a minha farta história
Meus momentos de êxito, de vitória,
Tu levaste, e não trará jamais.

Minha face contém profundas rugas
As carquilhas, as pregas e verrugas,
Não me dão uma chance para fugas,
Minha cara já está desfigurada,
O espelho é sincero! Não me ilude,
Já me disse que agiste em plenitude,
Enviando-me para a decrepitude
De uma forma brutal, despudorada.

Deste cabo da minha mocidade
Sem ternura, sem maviosidade,
E o transporte sem freio da idade
Pela estrada da vida me conduz,
Vou seguindo em paz, resignando,
No caminho por Deus determinado,
Redimido, contido e sufocado,
Com o peso excessivo dessa cruz.

Mas em meio a tanto desalento,
Não reclamo, lastimo nem lamento,
Ao tempo, eu apelo no momento,
Pra que tenha comigo a sensatez,
De um viver que contenha qualidade
Dando a aura, a possibilidade,
Pra ceder-me a oportunidade
De chegar ao final com lucidez.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

JAMAIS PERCA A FÉ EM DEUS

Quem está tristonho, arrasado, deprimido,
Acha que a vida perdeu todo o seu sentido,
Que é azarado, um infeliz que não tem sorte,
Sem ter prazer, nem quer viver, prefere a morte?
Se, incriminar, se censurar ou se culpar,
Eu lhe garanto que não vai adiantar,
Pra lhe ajudar, tentar curar os males seus!
Dou-lhe um conselho, dobre o joelho e ore a Deus!

Não interessa se o seu Deus é um Deus pagão!
Pois Deus é Uno em qualquer religião,
Quem crê em Deus necessita força e fé,
Para o que crê, não importa Deus quem é,
Seja Deus Pai, seja Jesus, ou seja, Alá,
Deus de Abraão, Deus de Jacó ou Jeová,
Seja Orixá, ou se é Javé, Deus dos hebreus,
Quem implorar alcançará graças de Deus.

Então implore, faça fé na sua crença,
Deus vai ouvir e vai curar sua doença!
Vai dar-lhe apoio, lenitivo, subsídio,
Na hora infausta que planeja um suicídio!
Jamais esqueça que Deus é eficiente,
Onipresente, Onipotente, Onisciente,
E até aquele que se diz um antideus,
Ao crer em si passa a ser seu próprio Deus.

Deus está pronto pra tirá-lo do abismo,
Sem requerer paga, cota, taxa ou dízimo,
Deus é clemência, é bondade, é paz, amor,
Sem definir nação, credo, raça ou cor,
Mesmo que esteja em missa, culto ou oração,
Faça a morada de Deus em seu coração,
Não se proclame um ser maior, um semideus!
Só os humildes estarão perto de Deus.

Deus não só está nos altares da igreja
Deus lhe protege em qualquer lugar que esteja!
Deus não se agrada de algazarra e alarido,
Quem pede a Deus em silêncio, é mais ouvido,
Quem ora a Deus confiante, com firmeza,
Deus vai ouvi-lo e socorre-lo, com certeza!
E na mensagem que passei nos versos meus
Deixo um alerta! Jamais perca a fé em Deus.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

AS COISAS DO MEU LUGAR

Ó Senhor! Como eu queria,
Retornar ao meu rincão,
Pra sentir a brisa fria
Que em noites de verão
Chega pra nos refrescar!
E no pomposo arrebol
Escutar o rouxinol
Contente a cantarolar
Na hora do sol nascer!
Eu bem queria rever,
E outra vez me embevecer,
Com as coisas do meu lugar.

Ouvir do vento o açoite,
Banhar-me lá no regato,
E em cada boca de noite
Sentir o cheiro do mato,
Que com seu odor ameno
Em contraste com o sereno
Inebria o nosso olfato.
Daqui fico a implorar
Pedindo a Deus um aprovo,
Pra que eu volte de novo,
Pra curtir junto ao meu povo,
As coisas do meu lugar.

Ver a lua majestosa
Despontar por trás da serra,
Tão imponente e garbosa
Prateando a minha terra,
Espalhando no baixio
Um lençol fino e macio,
Onde a beleza se encerra.
Eu, estando a contemplar,
Tenho a fiel impressão
Que o Autor da Criação
Atingiu a perfeição
Nas coisas do meu lugar.

Como eu queria morar
Na casa grande, alpendrada,
Para outra vez me acordar,
No final da madrugada
Escutando os passarinhos,
Que ao deixarem seus ninhos
Pra saudar a alvorada
Declamam seu poetar
Sem que saia do esquema.
Cada um com seu poema,
Na dissertação do tema?
As coisas do meu lugar.

Hoje vivo tão distante
Da minha terra querida,
Sendo um mero viajante,
Pelas estradas da vida,
Deus que tudo determina,
Fará com que minha sina
Um dia seja cumprida,
Jamais canso de esperar!
Peço a Deus por caridade
Que me dê a liberdade,
Pra que eu mate a saudade,
Das coisas do meu lugar.

Meu desejo é só um sonho
Não passa de uma quimera,
Mas, meditando eu suponho,
Quem sabe o mesmo prospera?
Se esse é meu objetivo
Vou tentar mantê-lo vivo,
Implorando, ah! Quem me dera
Que eu pudesse retornar!
Praquele meu solo amado,
Aonde eu deixei guardado,
No cofre do meu passado,
As coisas do meu lugar.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

ESSE O BRASIL DA GENTE

O nosso Brasil possui
Dimensões continentais,
Mas, os bens são divididos,
Em proporções desiguais
De um lado a elite nobre
Que dispõe de ouro e “cobre”
Não tem do que reclamar!
Usa perfume francês,
E com o vinho português
Degusta um bom caviar.

Do outro lado a pobreza
“Rala” pra sobreviver!
E rende graças a Deus
Quando arranja o que comer,
Paga caro a condução,
Só come arroz com feijão,
Macaxeira, mungunzá,
Salame, cachorro-quente!
Esse o Brasil da gente
Daqui, do lado de cá!

A vida é bem diferente
Do que vive no outro lado,
Que veste roupas de marca,
Passeia em carro importado,
Desfruta do privilégio
De estudar em bom colégio.
Se acaso acomete um mal
Que venha a lhe incomodar?
Vai depressa se tratar
No mais pomposo hospital.

Do lado de cá a vida
É dura, e não tem padrão,
Que estabeleça uma norma
Mínima, pra que o cidadão,
Sinta um breve refrigério.
Se, adoece, o caso é sério,
Tem que apelar pra Jesus
Pra que venha o socorrer,
Porque senão vai morrer
Na espera pelo SUS.

Só tem do lado de lá
Promotor, advogado,
Prefeito, vereador,
Governadores de estado,
Deputados, senadores,
Além dos grandes gestores
Que mandam nessa nação,
Cheios de pompas e brilhos
Já vão preparando os filhos
Pra dar continuação.

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CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

VIDA E MORTE FRENTE A FRENTE

Na frente do cemitério
Tem uma maternidade,
Achei que era muito sério
Aquela fatalidade,
Infeliz coincidência
Ou total incompetência?
Quem sabe, falta de sorte,
Ficar em contrapartida
De um lado a casa da vida
Do outro a casa da morte.
Na primeira a esperança
Renova-se a cada instante,
Vindo à luz uma criança
Do ventre de uma gestante,
Dando o seu primeiro passo
Para um futuro brilhante,
Traz confiança e alegria,
Que momento interessante!
Na segunda, é a tristeza,
Que ali vive impregnada,
Os prantos rolam nas faces,
A saudade faz morada,
Onde se escuta lamentos
De dor e de sofrimentos
E é ali que a criatura
Deixou a missão cumprida
E o corpo baixa sem vida
Numa fria sepultura.
Assim em lados opostos
Situações diferentes,
A primeira traz a vida
Que nos deixa bem contentes,
Na segunda, menos sorte,
É a casa que abriga a morte
Pra o descanso eternamente.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

O BEIJA-FLOR!!!

Um beija-flor pequenino
É grande a sua bravura!
Parece que o seu destino
É viver nessa aventura!
Corre risco o valentão,
Ao bater num gavião
Quando voa a grande altura,
Pois tem coragem de sobra,
Ao fazer essa manobra.
Ele encara e é bom que diga
Que além de ser bom de briga,
Para se livrar da cobra
A sua grande inimiga
Encontra logo um jeitinho
Para construir seu ninho
Nos galhos de um pé de urtiga.
A sua plumagem única
Realça sua beleza,
E essa tão bela túnica
Recebeu da natureza,
Ave polinizadora
Tornou-se uma defensora
Das obras da criação!
Beija o pistilo das flores
Deleita-se com seus sabores
E ativa a procriação,
Sua utilidade é tanta
Que Deus se enleva e se encanta
Com essa sua invenção.
Eu, como um simples poeta,
Acho que atingi a meta
Fazendo a dissertação.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

UM PEDIDO AOS FILHOS MEUS

Eu hoje olhando no espelho é que me dei conta
Que o peso dos anos fizeram-me afronta
E que a juventude a tempo eu perdi,
Partiu sem me dar a chance de evasiva ou fugas
Deixando na face carquilhas e rugas
Dando sinais claros que eu envelheci.

Meus passos estão muito lentos e fora de escala
Recorro ao auxilio de uma bengala
Pra com segurança me locomover,
Mas essa é a lei da vida que a todos conduz
Nasce cresce nutre-se e se reproduz
Deixa a descendência pra depois morrer.

Meus filhos no fluir da vida rascunhei os traços
Conquistei vitorias amarguei fracassos
Tive encantamentos e desilusões,
Mas hoje olhando o passado é que compreendo
Que muitas pendências fiquei lhes devendo
Isso é o que me causa tantas frustrações.

Não deixo fortunas fazendas, ou se quer poupança,
Porem com orgulho deixo como herança
Para que prossigam com seus ideais,
A marca da minha humildade para ser seguida
Os muitos conselhos e as lições de vida
Que aprendi na infância com meus velhos pais.

Então filhos meus agora lhes faço um pedido
Cuidem desse velho que já foi vencido
Pelo tempo ingrato que sem condolência,
Causou uma enxurrada de tombos e trancos
Meus cabelos loiros ora já estão brancos
Enturvando o brilho da minha aparência.

Portanto eu quero que saibam que estou coeso
Que jamais pretendo transformar-me em peso
Nem num embaraço que encubra a essência,
No seio das suas famílias sombreando os brilhos
Então o que peço pra vocês meus filhos
É bastante calma e muita paciência.

Meus filhos aqui eu encerro esse meu poema
E cada mensagem que passei no tema
Servirá pra um dia na posteridade,
Vocês lembrarem de mim como um pai modesto
Mas com o nome limpo e um passado honesto
Que deu bons exemplos para humanidade.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

APOLOGIA AO MATUTO!!!

Matuto iletrado, da mão calejada,
Do cabo da enxada, da luta do gado,
Jamais imagina o que é vaidade,
E a felicidade mora em seu roçado.

Sente-se feliz, vivendo na roça,
Na pobre palhoça, de barro e sapé,
Morando distante, da modernidade,
Que tem na cidade, nem sabe o que é.

Se o homem da rua, zomba do teu jeito,
Não chega ao teu peito, o ódio, o rancor,
Tua alma é pura, não guarda maldade,
Só tem na verdade, lugar para o amor.

Teu suor salgado, tem gosto de terra,
No teu Pé-de-Serra, tu és tão feliz,
A vida roceira, não troca por nada!
Pois lá está fincada, a tua raiz.

Pois, o que chasqueia, e até te destrata,
Despreza, maltrata, renega teu nome,
Não vê que é da roça, cheia de impureza,
Que leva pra mesa, de tudo que come?

Por isso te exalto! Oh nobre matuto!
Presto-te um tributo, te dou nota cem,
Por ser oriundo, das brenhas, do mato,
Assim sou de fato, matuto também!

Portanto, te orgulha, matuto brejeiro!
Do jeito matreiro, do teu linguajar,
Do lugar que vive, no aceiro da mata,
Ouvindo a cascata, e olhando o luar.

E não te aborreça, se te chamam “Jeca”,
“Caipira sapeca”, “Zé do interior”,
Quem sabe se tocam, e até compreendem,
Que em tudo dependem desse lavrador!

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

GLOSAS

Mote:

Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

Um alerta a quem goza a juventude
Pra que esteja em plena consciência!
Que esta fase que está em florescência
Em que esbanja vigor, força e saúde,
Breve passa, e a decrepitude,
Com o acúmulo dos anos lhe procura,
Transformando de vez sua figura
Com o peso do fardo da idade,
Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

Todo jovem na sua caminhada
Preconiza a beleza em que ostenta,
Quando sobe a ladeira dos quarenta
Ver que a face de vez foi transformada,
Sua pele que era acetinada,
Escarpada está, e a desventura,
Se, apodera daquela criatura,
Pra roubar-lhe o luzir da vaidade,
Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

No outrora comigo foi assim
Eu pensava que não envelhecia,
Mas um dia seguido de outro dia
Com uma noite nomeio fez de mim
Um vetusto que já avista o fim
Da estrada sombria e muito escura,
Que se encerra na fria sepultura
Onde irei habitar pra eternidade,
Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

A idade aos poucos nos transforma
Desviando os nossos ideais,
Que oscilam de formas desiguais
Indo além dos padrões de regra e norma,
Nem sequer uma chance pra reforma
O período do tempo lhe assegura,
Um conselho pra geração futura!
Usufrua da jovialidade,
Quem for novo aproveite a mocidade
A velhice é um mal que não tem cura.

CARLOS AIRES - PROSEANDO NA SOMBRA DO JUAZEIRO

APOLOGIA A CACHAÇA!!!

No outrora só bebia
Caboclo, negro e mulato,
Hoje gente de recato
Bebe de noite e de dia,
Até vossa senhoria
Eu já vi acontecer
Nas ruas tombar, pender,
Fazer seus passos errados
Pois, se bebe os ilustrados,
Não é defeito eu beber.

Eu, já vi no bar bebendo,
Engenheiro, deputado,
Major, coronel, soldado,
O Pastor, o Reverendo,
Pelo que estou percebendo
A bebida deve ser
Algo que só dar prazer
E não imoralidade,
Se, bebe a autoridade,
Não é defeito eu beber.

Bebe o padre, bebe a freira,
Bebe o espírita e o crente,
Suponho que a aguardente!
Aquela cana brejeira
Conquista de uma maneira
Que como se pode ver
Se, bebe aquele que crer,
Crente, espírita, freira e padre,
Então veja meu compadre,
Não é defeito beber.

Bebe-se por quem nasceu
Quando ao mundo veio a luz!
Ou se acaso deixa a cruz
No lugar em que morreu,
Quem foi que já não bebeu
Alguém queira me dizer,
Simplesmente por prazer
Por alegria ou tristeza
Secando a taça na mesa,
Não é defeito beber.

Se o time for vencedor
De uma competição,
Haja comemoração
Bebendo cana em louvor!
Mas, se houver o dissabor,
De ver seu time perder
Bebendo para esquecer
Nela o torcedor se vinga
Metendo a cara na pinga
Não é defeito beber.

Um bêbado inveterado
Que já está de cara inchada,
Levanta de madrugada
Toma um gole caprichado!
Chega fica arrepiado
Sentindo a cana descer,
Ele espera amanhecer
Levanta de perna fraca
Vai correndo pra barraca
Não é defeito beber.

Chegam em casa com ressaca
As mulheres não aceitam,
Tem delas que até os enfeitam
Com alguns “biliros de vaca”!
Diz: não aguento a inhaca
Sendo assim não vou querer
Estragar o meu viver
Com um ser dessa qualidade!
Ele, diz com humildade,
Não é defeito beber.

O ébrio não é doente
É apenas viciado,
Se, acaso for bem tratado,
Abandona a aguardente,
Quando sóbrio e consciente
Logo irá compreender
Que depende do querer
Para mudar de repente!
Bebendo socialmente
Não é defeito beber.