AUGUSTO NUNES

O ESTRANHO CASO DE ALEXANDRE DE MORAES

Quem lê um livro de Alexandre de Moraes e ouve um improviso de Alexandre de Moraes desconfia que o professor de Direito Constitucional e o ministro do Supremo Tribunal Federal não são uma pessoa só. Muita gente continua acreditando na versão espalhada pelos estudantes da Faculdade do Largo de São Francisco: os Alexandres formam uma dupla de gêmeos separados ao nascer, que usam o mesmo nome só para confundir. As dúvidas fazem sentido. Os textos que Alexandre publica são gentis com o idioma tratado com ferocidade pelo Alexandre que fala (sem um papelório nas mãos). Os livros que assinou têm sido fonte de consulta para incontáveis advogados em gestação. Os improvisos são tão imprestáveis quanto as discurseiras de Lula.

A espécie a que pertence Alexandre de Moraes, convém ressalvar, não deve ser confundida com a tribo que tem no ex-presidente presidiário um pajé exemplar. Quando Lula agarra um microfone, a gramática se refugia na embaixada portuguesa, a concordância se asila em velhos dicionários, a regência verbal se esconde no sótão da escola abandonada, o raciocínio lógico providencia um copo de estricnina sem gelo, a razão pede a proteção da ONU para livrar-se de outra sessão de tortura, os plurais saem em desabalada carreira e a verdade se dirige à delegacia mais próxima para jurar que é mentira. O ministro Alexandre também guilhotina SS e RR, declama maluquices com a pose de quem está fazendo um pronunciamento à nação, muda de ideia conforme as circunstâncias e mente mais do que respira. Mas Lula é da turma que fugiu da escola e se orgulha da ignorância vitoriosa. Alexandre diplomou-se nas Arcadas e virou professor no Largo de São Francisco. Para seviciar o português, vale-se de um repertório maior que o vocabulário de 300 palavras decoradas pelo palanque ambulante.

O ministro do Supremo tampouco se enquadra na linhagem de Dilma Rousseff – até porque ninguém mais no mundo sabe falar o subdialeto que a ex-presidente inventou, muito menos suas ramificações. Há o dilmês rústico, o vulgar, o castiço e o erudito. Ela domina todas essas formas complicadíssimas de não dizer coisa com coisa. Numa recente live no Instagram, por exemplo, discorreu sobre o vírus chinês. Cientistas, governantes, negacionistas incuráveis, crédulos de nascença, vacinados e infectados continuam sem saber direito o que está acontecendo. Dilma, que nada sabe sobre tudo, entrou no assunto com a segurança de Ph.D. em pandemia. “Nós estamos enfrentando um vírus com a capacidade de transmissão muito… muito… solerte”, decolou a ex-presidente, que em seguida tentou traduzir o que acabara de dizer: “Ele é… é… é esperto. O vírus chega devagarzinho… fica… tem um tempo de incubação significativo e pode, portanto, surpreender”. Em seguida, prescreve a receita para combater o inimigo invisível: “Esse método é o isolamento social. E o isolamento social é horizontal”. E se antecipa à pergunta que perturba as cabeças na plateia: “Por que que é horizontal? Porque as famílias são horizontais. Você tem as famílias… tem várias gradações”.

Não há outra maneira de ganhar a guerra, insiste Dilma, que em seguida capricha no fecho glorioso: “Até que toda essa busca por uma vacina resulte em algo concreto, ou que se tenha um vácuo capaz de tratar essa doença, nós teríamos só essa forma de lidar com ela. Primeiro porque, caso contrário, todos os modelos matemáticos mostram que, se você não fizer nada, o nível de mortandade é algo estarrecedor, na faixa de 1 milhão de pessoas”. Alguém aí entendeu? Ninguém? Não se preocupem. A moça no alto da tela que tenta traduzir a discurseira em linguagem de Libras também não está entendendo nada. E a própria Dilma certamente não entende o que diz. Alexandre de Moraes, é verdade, também estaciona em reticências sem rumo, tropeça em vírgulas bêbadas, escava fossos entre sujeito e predicado, junta palavras que não conversam entre si e produz sopas de letras intragáveis. Mas seria injusto equipará-lo à singularíssima criadora do dilmês.

O clube que Alexandre frequenta abrange, por exemplo, os que nunca chegam a alguma cidade. Sempre chegam em. Também são sócios eméritos os que jamais entenderão a diferença entre onde e aonde, ou que os dois advérbios se referem a algum lugar, nunca a um espaço de tempo. “Estou falando da semana aonde me encontrei com o governador”, disse o candidato a ministro, mais de uma vez, na sabatina no Senado que chancelou sua indicação para a vaga aberta pela morte de Teori Zavascki. O escolhido por Michel Temer seria reprovado em qualquer prova oral para ingresso na magistratura. Os senadores validaram sorrindo a indicação, fingindo que haviam compreendido o falatório truncado por travessões que transformaram as falas do sabatinado numa enxurrada de frases que nunca chegavam ao fim.

Neste fevereiro, o carrasco de vogais e consoantes conseguiu que os dez ministros que completam o Timão da Toga aprovassem por unanimidade duas invencionices que produziu para consumar a prisão ilegal do deputado Daniel Silveira. Ao expedir um mandado de prisão em flagrante, e justificá-lo com o fantasiosa teoria de que a flagrância só se encerraria quando fosse banido da internet o vídeo promovido a prova do crime, o ministro criou o flagrante eterno. Ao decidir que há limites para o artigo da Constituição segundo o qual nada do que diz um congressista pode ser enquadrado como crime, concebeu a imunidade relativa. Deve ser prima da democracia relativa proclamada pelo general-presidente Ernesto Geisel nos anos 1970.

Pensando bem, o enigma dos Alexandres nada tem de misterioso para quem sabe como nascem certos livros. Para textos, basta contratar um ghost writer discreto e um revisor atento. Improvisos verbais não podem ser terceirizados. Existe um único Alexandre, o torturador do idioma. Só uns poucos jornalistas bem-humorados insistem na tese dos gêmeos univitelinos. Esses juram que, no momento da separação, o Alexandre que escreve levou também o cérebro do Alexandre que fala.

AUGUSTO NUNES

O ESTUPRO DA PRIVACIDADE

A 2ª turma do Supremo Tribunal Federal legalizou o estupro da privacidade dos homens da lei que enfrentam bandidos ilustres. Ao resolver que Lula terá acesso às mensagens trocadas pelos procuradores da Lava Jato, roubadas por uma quadrilha de hackers, um quarteto de ministros fez uma opção estranha e perigosa.

É estranha por entregar a um corrupto condenado em duas instâncias material obtido ilicitamente – e por isso mesmo proibido de figurar entre as provas do processo. É perigosa por ter criado um precedente cujos desdobramentos podem ser desastrosos.

Nesta sexta-feira, o presidente Bolsonaro informou que também reivindicará o acesso ao material. Ele resolveu seguir o exemplo de Lula ao saber que seu nome é citado em algumas mensagens. E se todos os mencionados quiserem conferir o papelório?

A pergunta deve ser repassada ao ministro Ricardo Lewandowski. Foi ele quem primeiro trucidou o direito à privacidade e o sigilo da correspondência, com a prepotente distribuição de cópias do papelório furtado. Que o ministro diga agora o que se pode domar o bicho que soltou.

AUGUSTO NUNES

O ASTRO DO FAROESTE À BRASILEIRA

As obras que inauguraram o faroeste à brasileira, surgido na primeira década deste século, patentearam uma fórmula mais audaciosa que qualquer ousadia do Cinema Novo. Os roteiros viram pelo avesso os similares norte-americanos. É o bandido que persegue o mocinho, é o vilão que vive tentando prender o xerife, as mulheres bonitas são cúmplices dos delinquentes e o final é infeliz para gente honesta: os fora da lei acabam se livrando da cadeia. Foi assim, por exemplo, em O Mensalão Não Existiu, um clássico do gênero. Alguns figurantes foram transferidos do semianonimato para a gaiola. Mas os oficiais graduados do exército de gatunos nem esquentaram o merecidíssimo catre. Logo devolvidos à liberdade, seguiram berrando que a roubalheira foi uma invencionice de inimigos dispostos a tudo para minar a popularidade do chefão que dormia sonhando com a erradicação da pobreza e acordava planejando o sumiço da miséria absoluta.

Essas manifestações de cafajestagem farisaica, elevadas à categoria de arte nos oito anos de governo Lula, parecem coisa de principiante se confrontadas com a safra mais recente de faroestes à brasileira. Agora, os bandidos perseguem o mocinho e os vilões buscam prender o xerife com a ajuda de integrantes do grupo formado por 11 juízes que podem julgar qualquer coisa ou decidir o destino de qualquer vivente e não podem ser julgados por ninguém. São nove homens e duas mulheres, que se reúnem no Supremo Tribunal Federal. Todos cobrem com togas negras o terno escuro-Brasília ou o vestido missa das 10 no interior. Entram no plenário em fila indiana, para a abertura da sessão ou para recomeçá-la, com o semblante severo de quem chegou ao velório no momento do fechamento do caixão. Falam um dialeto inacessível a quem só fala língua de gente. Referem-se uns aos outros como “eminente ministro” (ou “eminente ministra”). Alternam o latinório com citações de juristas alemães ou italianos. O mais antigo da turma é chamado de “decano”.

Bonito é pouco para qualificar o buquê de pompas e fitas. Feio é pouquíssimo para definir o papelão que anda fazendo a maioria dos doutores em tudo. Neste fevereiro sem Carnaval, o elenco se divide entre os discípulos de Gilmar Mendes e os outros. Já faz tempo que Ricardo Lewandowski, Dias Toffolli e Alexandre de Moraes se orientam pela palavra do Mestre, que anda se gabando de ter transformado o trio em quarteto com a anexação de Cármen Lúcia. Se não estiver mentindo, e contando com o líder da bancada, já são cinco. Único indicado por Jair Bolsonaro, Kássio Marques ainda engatinha no Pretório Excelso. Mas o bloco se tornará majoritário caso o caçula continue percorrendo caminhos que levam ao colo de Gilmar Mendes. Se tal desastre for consumado, tirem as crianças da sala quando os seis derem as caras na TV Justiça. E preparem o estômago, reiterou nesta semana o desempenho de Gilmar, Cármen Lúcia, Lewandowski e Marques na sessão da Segunda Turma que fez o diabo para transformar um corrupto juramentado em vítima de medonhas injustiças, Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato em algozes desalmados e a mais produtiva operação anticorrupção de todos os tempos numa tentativa de assassinato do direito de ampla defesa e do devido processo legal. Haja cinismo.

Em tese, os ministros estavam numa sala do STF para decidir se Lula deveria ou não ter acesso a mensagens supostamente trocadas por profissionais engajados na Lava Jato e furtadas por hackers. Quem vê as coisas como as coisas são enxergou nitidamente o último ensaio dos canastrões empenhados em anular a condenação de Lula pelas maracutaias que envolveram o tríplex no Guarujá. Até as cadeiras do Supremo sabem que promotores de Justiça e magistrados costumam conversar sobre processos e investigações em andamento. Sabem que o conjunto de mensagens apenas reitera que Moro e os procuradores trabalharam unidos para desmontar o maior esquema corrupto da história. Sabem que nenhum inocente foi preso. Sabem que a condenação imposta por Moro foi ratificada pelo Tribunal Regional Federal. Mas a trupe de Gilmar faz de conta que o ex-presidente foi alvo de um complô de dimensões siderais arquitetado por gente que só pensa em prender gente que presta. O líder da bancada, claro, foi o protagonista do teatrão de quinta categoria.

(Alguns leitores hão de lembrar do velho Victor Mature em Sansão e Dalila. A força de Sansão estava nos cabelos. Mas o intérprete se concentrava nas sobrancelhas. Obedientes ao script, e orientados pelos sentimentos a traduzir – paixão, fúria, angústia, altivez -, os tufos de pelos subiam e desciam, moviam-se para os lados, juntavam-se no centro da testa ou estacionavam em perfeita simetria. Se quisesse, Mature poderia ficar mudo do início ao fim do filme. Falariam por ele as sobrancelhas. O ator Gilmar Mendes não consegue dispensar a voz, o olhar e o suporte gestual quando se exibe no palco do Supremo. Mas a performance não teria nada de mais se não fosse o beiço. O estranho fruto produzido pelo abraço dos lábios é para o superministro o que foram as sobrancelhas para Victor Mature.)

O beiço fez o possível para convencer a plateia de que Gilmar nunca vira nada tão revoltante quanto o comportamento dos responsáveis pela devassa do escândalo do Petrolão. Projetou-se como o braço do pugilista que desfere um direto de direita, por exemplo, quando o orador despejou o palavrório decorado dias antes: “Em algum lugar mais sensível e talvez mais ortodoxo em matéria de Direito, é de se dizer: essa gente estava se permitindo torturar pessoas”. O ministro não identificou os torturados, nem esclareceu se Lula está entre eles. O beiço garantia que Gilmar estava dominado pela perplexidade. A folha corrida informa que ele só fica perplexo com sentenças condenatórias. Como demonstrou Ana Paula Henkel num artigo publicado na revista Oeste, nenhuma absolvição é capaz de deixá-lo assombrado.

Entre outras obscenidades, o ministro livrou da cadeia o doutor em estupro Roger Abdelmassih, o vendedor de nuvens Eike Batista, oficiais graduados do bando de Sérgio Cabral, o irrecuperável Anthony Garotinho, o amigo José Riva (recordista de bandalheiras em Mato Grosso), o parceiro Silval Barbosa (ex-governador do Estado em que Gilmar nasceu e ladrão compulsivo) e o compadre Jacob Barata (chefão da máfia dos transportes no Rio). A fábrica de habeas corpus que administra nos porões do Supremo funciona também em fins de semana e feriados. Gilmar não se espanta com nada. O Brasil decente é que não para de espantar-se com a desfaçatez do ministro que na metade deste ano se tornará o decano do Supremo. Ele sempre sonhou com o posto que fez de Celso de Mello o Pavão de Tatuí. Antes mesmo de chegar lá, o padroeiro dos culpados capricha na pose de Maritaca de Diamantino.

AUGUSTO NUNES

O PRÍNCIPE AUTORITÁRIO E A PREFEITA NEGRA

A jornalista Suéllen Rosim, 32 anos, é prefeita de Bauru por ter convencido grande parte do eleitorado de que estava mais preparada que os adversários para solucionar os principais problemas da cidade. O mais antigo é a escassez de água potável. Esse pode ser resolvido com verbas e métodos modernos. O mais recente é a pandemia de coronavírus. Esse é bastante complicado. Se ainda não apareceu a estratégia perfeita para o combate à covid-19 em nenhum município, ninguém pode dizer com segurança o que deve ser feito num município cuja economia, afetada pela carência de indústrias, se ampara no vigor do comércio e do setor de serviços. É o caso de Bauru. Ao longo da campanha eleitoral, Suéllen optou por uma fórmula destinada a reduzir perdas e danos: fortalecer a franzina rede hospitalar e, simultaneamente, adotar rígidas normas de distanciamento social que evitassem a paralisia por períodos extensos demais dos alicerces econômicos de Bauru. É o que ela tem tentado fazer desde 1º de janeiro, quando assumiu o cargo.

Passados 35 dias de mandato, milhares de bauruenses constataram que, neste momento, o ranking dos piores problemas enfrentados pela prefeita é o governador João Doria e seus generais metidos na guerra em curso na frente paulista. Como sabem os espectadores da Ópera dos Soldados da vida, ninguém ama com tanta intensidade os brasileiros de São Paulo quanto o sumo sacerdote da seita que detém o monopólio da paixão pela vida. Ninguém enfrenta o vírus chinês com o tino e a tenacidade do líder de máscara negra, amparado na disciplina dos devotos que capricham no papel de coadjuvantes há quase 200 entrevistas coletivas. Os integrantes do alto-comando baseado no Palácio dos Bandeirantes conhecem todas as cidades paulistas muito mais que seus prefeitos. Quem ousa contestar uma única vírgula dos decretos baixados pelo chefe supremo é sumariamente remetido às galés em que gemem bolsonaristas, terraplanistas, inimigos da ciência e da vida. É lá que o clube dos adoradorias sonha instalar Suéllen Rosim.

Desde o dia da posse, aflita com a ofensiva do coronavirus na região, Suéllen faz o que pode para conseguir os leitos de UTI que faltam há muitos meses e encontrar secretários estaduais dispostos a ouvi-la sobre as urgências e peculiaridades da cidade que governa. Em São Paulo não encontrou nenhum. Voou para Brasília e descobriu o aliado ideal: Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação e, mais importante ainda, nascido em Bauru. O único astronauta brasileiro abriu-lhe as portas de ministérios relevantes e conseguiu que fosse recebida por Jair Bolsonaro. No mesmo dia, Suéllen divulgou a foto dos dois. Os brasileiros normais viram na imagem o presidente da República e a prefeita de Bauru. O governador enxergou uma dupla de inimigos. E então emergiu a terceira e talvez definitiva versão de João Doria. É bem diferente das anteriores.

A versão original parecia saída das páginas de um manual de boas maneiras. Jornalista bem informado, empresário bem-sucedido, educado, procurava controlar-se mesmo quando lidava com atropeladores de sua mais aguda obsessão: a pontualidade de matar de inveja um lorde britânico. Nem sempre conseguia. Para não antecipar ou retardar o horário das centenas de eventos dos encontros que promovia na ilha de Comandatuba, o presidente do Lide interrompia com um apito o jogo de vôlei a dois pontos do fim, ou negava os 30 segundos a mais solicitados pelo orador autorizado a discursar por três minutos. Agora está claro que o respeito à pontualidade camuflava o autoritarismo que ficou mais nítido no Doria prefeito e começa a exibir dimensões preocupantes no modelo governador.

O empresário cavalheiresco, risonho, gentil não se reconheceria no político que produziu em 1º de fevereiro a enxurrada de grosserias que deixaria constrangido até um Nicolás Maduro. “Infelizmente, existem os poucos que, como a prefeita de Bauru que, de forma negacionista, ainda faz vassalagem ao presidente Jair Bolsonaro, visitando-o no Palácio do Planalto, ao invés de proteger a população de Bauru e defender a saúde e a vida de seus habitantes”, desandou o governador que em dezembro, depois de fechar São Paulo de novo, decolou rumo às lojas de uma Miami livre de quarentenas. A prefeita acusada de negacionismo jamais fechou os olhos à pandemia de coronavírus e à necessidade de combatê-la. O que Doria reduziu a um ato de vassalagem foi uma audiência concedida pelo presidente da República à prefeita de uma grande cidade. Ainda durante a campanha eleitoral, Suéllen deixou claro que concordava com várias ideias de Bolsonaro e discordava de outras tantas. “Nunca fui vassala de ninguém”, frisou a mulher que se transformou em alvo do chilique insultuoso por ter incorrido, aos olhos de Doria, no pecado da independência e no crime de altivez.

Dias antes, tão logo recebeu o decreto que castigou São Paulo com outro lockdown fantasiado de “fase vermelha”, assessores da prefeita editaram um decreto municipal que incluiu o comércio e o setor de serviços na relação de atividades consideradas essenciais. Colérico, Doria revidou com um recurso logo acolhido pelo Tribunal de Justiça. Suéllen conformou-se com o golpe sofrido pela economia de Bauru. E reagiu ao besteirol agressivo com uma aula de civilidade, encerrada com o recado pedagógico: o governador deve tratar a prefeita tão respeitosamente quanto a prefeita trata o governador [veja o vídeo abaixo]. A ira não cessou. No meio da semana, o decreto que abrandou a quarentena na maior parte do Estado manteve Bauru na zona vermelha. “A liberação de 120 leitos de UTI já me deixou feliz”, consolou-se Suéllen.

A elegante firmeza da moça que cuida de Bauru contrasta com o servilismo obsceno de jovens áulicos que aplaudem até escorregões do governador. Um deles é Marco Vinholi, 36 anos, secretário do Desenvolvimento Regional, que se apressou em bajular o chefe com uma nota escrita em português de colegial sem chances no Enem. “Suéllen age não apenas como uma militante bolsonarista, age como fã; e fã faz tudo pelo ídolo, inclusive ser pouco racional”, delirou Vinholi. “Num momento em que Bauru tem recorde de casos de coronavírus e 90% dos seus leitos de UTI, a prefeita passa por cima da Ciência e da Medicina, lançando mão de negacionismo.” Sempre torturando o idioma com selvageria, Vinholi ameaçou instalar Bauru no fim da fila da vacinação. “Muita gente faz priorização por partido, por política ou por qualquer outro tipo de questão”, avisou em inglês castiço. “A nossa priorização será para aqueles que respeitam a vida. Todos terão parceria, mas a prioridade serão com os gestores responsáveis.” Vassalagem é isso aí. Vassalagem e ignorância, berra esse “a prioridade serão com”. Nos anos 60, Nelson Rodrigues advertiu que os idiotas haviam perdido a vergonha e estavam por toda parte. O cronista genial talvez soubesse que, 60 anos depois, estariam congestionando os primeiros escalões do poder.

No momento da agressão a Suéllen, mulher e negra, onde estavam os movimentos feministas e antirracistas que localizam misoginia na ausência de mulheres na final da Libertadores, e enxergam um sórdido preconceito no branco das paredes nuas? O que não teriam feito se a ofendida fosse alguma militante do PT ou do Psol? Como a prefeita negra é também evangélica e conservadora, foi abandonada por esses clubes de farsantes. Para eles, gente assim não é gente. É uma não pessoa. E portanto pode ser chicoteada verbalmente por um figurão da elite branca que não consegue disfarçar o ódio a divergências e o desprezo pelo convívio dos contrários, sem o qual não existem genuínas democracias.

AUGUSTO NUNES

CONVERSAS COM PASSARINHOS E GOTINHAS MILAGROSAS

Em 2 de abril de 2013, Nicolás Maduro inaugurou a campanha para a eleição presidencial com uma revelação espantosa até para plateias que pareciam ter renunciado ao direito de se espantar com alguma coisa: menos um mês depois da morte, o comandante Hugo Chávez reencarnara num passarinho e resolvera visitar o herdeiro político. Única testemunha da façanha do padrinho, o candidato contou que estava rezando numa capelinha de madeira quando a versão alada de Hugo Chávez apareceu de repente, entrou em órbita logo acima da cabeça de Maduro, fez três giros seguidos, pousou numa viga e começou a assoviar. Maduro assoviou de volta, com a naturalidade de quem sabia quem era o visitante. “Senti o espírito dele”, explicou. “Eu o senti como uma bênção, dizendo-nos: ‘Hoje começa a batalha. Vocês têm as minhas bênçãos. Rumo à vitória’. Eu o senti na minha alma.”

(Devolvido pelo fim do mandato ao ócio sem dignidade, de novo sem emprego fixo, com tempo e dinheiro de sobra, o ex-presidente Lula decidiu intrometer-se na eleição venezuelana. Ele estava no palanque ao lado de Maduro quando ouviu a história do passarinho. Não viu nada de mais naquele palavrório de Napoleão de hospício. Ao discursar em português indigente, recomendou aos venezuelanos que transformassem em presidente da República o filhote do companheiro Hugo Chávez. Não deu um pio sobre o calote de bilhões de dólares prometidos pela caricatura de Simón Bolívar ao sócio brasileiro no contrato para a construção da Refinaria Abreu e Lima, até hoje inacabada. Alguns dias mais tarde, Lula foi visto no sítio em Atibaia festejando a vitória de Maduro.)

Em julho de 2014 , numa das comemorações do 60º aniversário da divindade morta aos 59, Maduro confirmou os rumores de que fora reprisado o encontro com um passarinho. Em vez da reencarnação de Chávez, conversara com um emissário escalado pelo chefe também por ser fluente em espanhol. “Vou confessar a vocês que outro passarinho se aproximou de mim e disse que nosso comandante está feliz e cheio de amor por causa da lealdade do seu povo”, garantiu Maduro num discurso na cidade de Sabaneta, onde Chávez nasceu. Até o momento em que encerrávamos esta edição, não se soube de uma terceira aparição. O homem-passarinho talvez acredite que o sucessor já não precisa de conselhos nem de recados estimulantes. Talvez tenha descoberto que instalou no trono em Caracas um caso perdido.

(Dilma Rousseff certamente cravaria a primeira opção. Em cinco anos e meio de desgoverno, o coração rabugento só batia em descompasso quando o cubano Raúl Castro se instalava na Granja do Torto ou trocava meigas mensagens com o gerente da ditadura que vem mantendo a Venezuela na trilha à beira do penhasco. A temperatura do flerte beirava o ponto de combustão nos vídeos em que ambos caprichavam no papel de cabo eleitoral do parceiro. Nenhum venezuelano votou em Maduro para atender ao apelo da presidente do Brasil. Nenhum brasileiro votou em Dilma para atender ao apelo do capataz da Venezuela. O sorriso e o tom da voz faziam chegar ao destinatário o recado que interessava a ambos: haviam nascido um para o outro. A sorte é que o destino os manteve separados. Se agissem em dupla, nenhum dos dois países sobreviveria para testemunhar o desembarque do coronavírus na América do Sul.)

O sumiço das aves falantes não provocou a ruptura das amistosas relações entre um bigodão sem cérebro e espécies do mundo animal. Em maio de 2017, quase três anos depois da última conversa com um passarinho, Maduro deixou claro que troca ideias também com vacas. Na abertura de uma feira agropecuária em Caracas, caminhou em direção aos currais para que todo o rebanho ouvisse a discurseira. “Convoco desde já a Constituinte”, disse aos devotos que o escoltavam enquanto mirava as eleitoras com quatro patas. “Quero que vocês, líderes e produtores do campo, sejam os próximos deputados e deputadas constituintes.” Perto do cercado, com o indicador direito a centímetros dos bichos, dispensou-se de rodeios. “Vocês vão me acompanhar?”, perguntou. “Ou vocês querem protestos, violência e morte?”. Nem uma coisa nem outra, respondeu o silêncio bovino.

(Não pode governar país nenhum quem conversa com passarinhos e interpela vacas, certo? Errado, berram os devotos da seita que promoveu a único deus um corrupto duas vezes condenado em segunda instância. Aos olhos estrábicos dos democratas de manifesto e dos libertários de galinheiro, cabeça com severas avarias é a de Jair Bolsonaro. Não é possível respeitar o resultado de uma disputa nas urnas se o vencedor exibe a face escura na hora de enfrentar um desastre sanitário. A pandemia, repetem de meia em meia hora os adoradores de larápios, rasgou a fantasia que camuflava o genocida, o negacionista, o inimigo das vacinas, o sociopata que deve ser demitido pelo impeachment antes que o Brasil acabe.)

Haja cinismo. Se o País do Carnaval acabasse, nenhum dos órfãos da União Soviética, nenhum dos nostálgicos do Muro de Berlim, nenhuma das tantas viúvas de Stálin se arriscaria a buscar abrigo no inferno carente até de papel higiênico. Se estivesse efetivamente entusiasmada com o desastroso desempenho de Maduro, a turma toda já estaria congestionando os caminhos que levam a Caracas, disposta a tudo para conseguir o remédio que inspirou o vídeo divulgado nesta semana. “Apresento o medicamento que neutraliza 100% dos sintomas do coronavírus: o Carvativir, mais conhecido como as gotinhas milagrosas do doutor José Gregorio Hernández”, gabou-se Maduro, que aproveitou para anunciar a iminente chegada de milhões de doses da vacina russa Sputnik.

Se as gotinhas do doutor Hernández operam milagres, por que desperdiçar dinheiro com imunizantes do doutor Putin? É perda de tempo formular perguntas assim aos que gritaram “Lula Livre”, berraram “Fora Temer” e agora querem com um pedido de impeachment o que lhes foi negado pelas urnas em outubro de 2018. Faltam-lhes programas, projetos, bandeiras, palavras de ordem ou candidatos sustentáveis. Eles tentam convencer-se de que Jair Bolsonaro é o adversário com que sonha toda oposição. Podem acabar descobrindo que todo presidente da República sonha com esse tipo de oposição.

AUGUSTO NUNES

DUAS MULHERES. OU DOIS SUCOS DE LARANJA

No fim da tarde, os dois jornalistas da revista Veja desembarcaram em Buenos Aires com a imaginação bailando ao som de sensualíssimas letras de tango. Do aeroporto foram para o hotel no centro da cidade com a libido repartindo com Carlos Gardel a interpretação de Por una Cabeza. Apressaram o check-in e subiram para o apartamento prontos para a missão noturna definida já na decolagem no Brasil.

– Hoje vamos pegar mulher – repetiu o repórter sem ter sequer desafivelado a mala.

– Vamos – endossou o fotógrafo antes de terminar a contagem dos cabides enfileirados no canto do guarda-roupa.

– Começamos pela Corrientes – alegrou-se o repórter, caprichando na pose de expert em noite argentina.

La calle que nunca duerme… – animou-se o fotógrafo, tentando camuflar a escassa intimidade com o sotaque portenho.

Saíram do hotel às 9 da noite. Nas cinco horas seguintes, com sucessivas escalas em pizzarias, bares, churrascarias e cabarés, exercitaram as pernas num buquê de ruas e avenidas – Corrientes, Florida, Rivadavia, Maipu, Tucumán e outras relíquias do velho centro. Poucas esquinas deixaram de ver passar a dupla movida a libido, mas a noitada foi um fiasco: nenhum deles conseguiu companhia feminina. Os dois estavam a 5 metros da entrada do hotel quando o repórter resolveu que ainda não chegara a hora da rendição. Haveria uma tentativa derradeira.

– Você faz de conta que está muito bravo, vai para o elevador sem cumprimentar ninguém e deixa o resto comigo – disse ao fotógrafo.

Também com cara amarrada, o pai da ideia rosnou um “buenas noches” ao cruzar a portaria guardada por um homem de cabelos brancos, que pareceu intrigado com as carrancas da dupla que, ao deixar o hotel horas antes, exibia o sorriso do mais otimista amante latino. Os dois subiram pelo elevador em silêncio e mudos entraram no apartamento. O repórter sentou-se numa das camas de solteiro, empunhou o telefone, discou o número da portaria e fez a encomenda com voz de sargento que perdeu a paciência:

Yo quiero dos mujeres!

O homem de cabelos brancos não entendeu direito que o queria exatamente aquele brasileiro de humor instável. E pediu-lhe que repetisse a solicitação.

Dos mujeres! – subiu o tom o repórter. – Dos mujeres! Dos chicas! Dos muchachas!

E então desabou a réplica tempestuosa. Muitos decibéis acima do necessário para que também o fotógrafo ouvisse tudo, o porteiro quis saber se aquele estrangeiro insolente por acaso achava que hotel era puteiro, perguntou se estavam confundindo a Argentina com um imenso viveiro de messalinas, sugeriu que requisitasse mulheres aos familiares no Brasil, sublinhando cada frase com insultos e palavrões. Grogue com a bronca, o repórter esperou que o temporal amainasse para murmurar o pedido alternativo:

Entonces, yo quiero dos jugos de naranja.

Pôs o telefone no gancho, doou ao fotógrafo o segundo suco de laranja e foi tentar dormir.

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Lembrei-me do fiasco na Argentina ao conhecer o desfecho da mais recente missão confiada pela ditadura chinesa ao embaixador no Brasil, Yang Wanming. Por determinação de Xi Jinping, gerente-geral da obscenidade comunista fundada em 1949, o impetuoso diplomata abriu a semana propondo uma barganha inverossímil. Em troca da liberação dos insumos necessários para a produção de vacinas contra a covid-19, retidos em Pequim, o governo brasileiro deveria demitir o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. O presidente Jair Bolsonaro reagiu à exigência com uma mensagem atulhada de elogios a Araújo. Desconcertado, Wanming miou: já que a barganha ultrajante não colara, os chantagistas se dariam por satisfeitos com uma nota do Planalto celebrando as boas relações entre os dois países.

Os jornalistas que queriam mulheres conformaram-se com sucos de laranja. O embaixador que jurava não admitir menos que a cabeça degolada de um ministro contentou-se com um curto palavrório em burocratês castiço. Mas o confronto dos dois episódios escancara um detalhe de dimensões siderais. Os protagonistas do fiasco em Buenos Aires recordam aquela noitada em meio a risos e gargalhadas. Se os donos da China suspeitarem que Wanming acha divertido o fracasso da missão que tentou cumprir na capital do Brasil, vai aprender do jeito mais difícil que, como disse Mao a seus discípulos, “a guerra é a diplomacia com mortos, e a diplomacia é a guerra sem mortos”. Previsivelmente, as sombras que povoam o horizonte do embaixador apressaram a entrada em ação dos sócios do Clube dos Amigos, Simpatizantes e Adoradores da República Popular da China, o CASAREPOCHIN.

(República Popular da China: eis aí um codinome e tanto para o país asiático cujos governantes revogaram há mais de 70 anos todos os valores republicanos e continuam controlando do parto à morte o que dizem, fazem ou pensam os cidadãos comuns. Só tem direito à existência o partido comunista. Não há eleições: a cúpula decide quem vai mandar em quem e quem vai governar o quê. Os que ousam discordar são presos, mortos ou simplesmente desaparecem. Os meios de comunicação são estreitamente vigiados por censores que não se contentam com a ausência de críticas: todo jornalista deve também louvar a clarividência dos condutores da nação. Nada disso preocupa os sócios do clube, todos preocupados em tempo integral com a preservação da democracia ameaçada por Bolsonaro. Não há limites para o cinismo no mundo dos libertários de picadeiro.)

O deputado Rodrigo Maia, por exemplo, resolveu despedir-se da presidência da Câmara fantasiado de presidente da República. Depois de visitar o embaixador para uma conversa reservada, culpou o governo brasileiro pela criminosa retenção de vacinas e insumos. Durante uma entrevista coletiva em São Paulo, o governador João Doria sacou do coldre o tresoitão retórico para proibir a freguesia de criticar os negociantes malandros. “Tratem bem a China!”, advertiu. “Respeitem a China! Se necessário, eu iria à China para buscar um acordo, sim!”. Que acordo?, quer saber a imensidão de brasileiros crentes de que está tudo acertado desde o dia em que Doria fechou contrato para a aquisição de milhões de doses de CoronaVac. Já que o governador exige respeito também a milenares tradições chinesas, que tal aproveitar o possível regresso a Pequim para encarar publicamente uma sopa de morcego?

No calendário chinês, acabou em 31 de dezembro de 2020 o Ano do Rato. O balanço da semana sugere que, no Brasil, o Ano do Rato chegou ao fim de janeiro sem prazo para terminar.

AUGUSTO NUNES

ESSE É GÊNIO

Lula insinua que Bolsonaro é responsável por todos os brasileiros que morreram desde 1.500

“A cada dia que passa, a irresponsabilidade do atual governo mata três vezes mais brasileiros do que todos nossos mortos na II Guerra Mundial”.

(Lula, culpando Bolsonaro por todas as mortes causadas pela pandemia no país, pronto para debitar na conta do presidente da República os pracinhas que morreram durante a 2ª Guerra Mundial)

AUGUSTO NUNES

LULA NAMORA NA ILHA QUE AMA

Em 1º de janeiro de 1961, quando os guerrilheiros vitoriosos entraram na capital de Cuba, havia uma ditadura a desmontar, prostitutas demais em Havana e uma economia dependente da cana-de-açúcar. Passados 61 anos, há em Cuba uma ditadura comunista a derrubar, prostitutas demais em Havana e uma economia que depende da monocultura da cana. A história nem sempre se repete como farsa. Pode ser uma reprise mais angustiante da tragédia anterior.

Conheci Cuba em 1987. Nunca mais quis repetir a dose. Sete dias por lá bastaram para constatar que não há valor maior que a liberdade. Que as deformações sociais podem e devem ser eliminadas sem a supressão do estado democrático de direito. Que governantes fantasiados de homens providencias são apenas patéticos. Que a vida numa ditadura é uma sequência de perdas e renúncias, impostas pelo Estado onisciente, onipotente e onipresente.

Aprendi naquela semana que o regime cubano emagrece. Nas ruas só havia gente magra. Descobri no jantar de despedida que os gordos estavam todos em altos cargos do governo, distantes dos conformados com décadas de racionamento. “Se o povo visse isso, a ditadura naufragaria no dia seguinte“, disse a mim mesmo ao contemplar o cenário de filme épico sobre o Império Romano. A decoração incluía cataratas de frutos do mar e iguarias desconhecidas pela gente comum.

Lula ignora o mundo dos cubanos sem privilégios, sem horizontes, sem esperança. O ex-presidiário foi desfrutar de férias em Cuba, levando junto a namorada Janja, porque o universo que frequenta na ilha-presídio é privativo dos amigos do rei.

Enquanto o pesadelo durar, Lula pode passear por Havana sem ouvir as verdades que o acuariam se desse as caras numa rua do Brasil. Lá, ele é um companheiro injustamente preso por motivações políticas. Aqui, é apenas um corrupto, resgatado da gaiola por cúmplices alojados no Supremo. Sempre será.

AUGUSTO NUNES

FILHÃO NOSTÁLGICO

Zeca Dirceu está com saudade do tempo em que o PT controlava os cofres da Petrobras

“Saudade daquele ‘Brasil quebrado pelo PT’ que tínhamos financiamento habitacional, o dólar estava a R$1,99, dava para viajar, escolher emprego, acesso à educação, aposentar, comprar gás de cozinha a preço justo, comer carne, trocar de carro…”

Zeca Dirceu, deputado federal pelo PT do Paraná e filho do prontuário José Dirceu, com saudade do tempo em que a companheirada – especialmente o paizão – tinha grana de sobra graças à generosidade de empresários amigos e ao saque de estatais.

AUGUSTO NUNES

O SUMIÇO DOS ESTADISTAS

Com a voz embargada, quatro lágrimas aguardando a hora de entrar em cena nos dois cantos de cada olho, Angela Merkel bordou o argumento que guardava para provar por A mais B que nenhum alemão deveria driblar os rigores da quarentena de fim de ano. “Se tivermos muitos contatos até a chegada do Natal e este acabar sendo o último Natal com os nossos avós, então teremos feito algo de errado”, avisou a chanceler no pronunciamento de 9 de dezembro. Os partidários do isolamento horizontal por um lockdown se uniram no orgasmo coletivo. Se até a mulher de ferro que conduz a nação desde novembro de 2005 se emocionara com a impossibilidade de lutar contra um vírus chinês, só mesmo os negacionistas, os terraplanistas e os fascistas em geral poderiam insistir no genocídio dos velhinhos da família, concordaram os loucos por um lockdown.

Quem tem a cabeça no lugar entendeu que Angela Merkel apenas confirmou a abrangência da epidemia de mediocridade que escancarou o deserto de estadistas de dimensões planetárias. Responsabilizar os netos pela morte dos avós, sabendo-se que são insignificantes as taxas de contaminação e transmissão da covid-19 entre crianças e adolescentes, é coisa de porta-voz de necrotério. Chefes de Estado que recorrem a fórmulas que não funcionaram antes por acreditarem que podem dar certo agora, caso do confinamento para todos, são primos em primeiro grau dos napoleões de hospício. Confronte-se uma Merkel com um Winston Churchill ou um Franklin Roosevelt e se verá o abismo que separa os gigantes que derrotaram a Alemanha nazista dos pigmeus apavorados com a pandemia. Estes acham que é possível chegar à vitória de recuo em recuo. Aqueles sabiam que nenhum país ganha uma guerra com sucessivas retiradas.

Em 13 de maio de 1940, três dias depois de nomeado, Churchill resumiu numa frase o que os ingleses poderiam esperar do novo chefe de governo: “Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”, disse já no primeiro pronunciamento. Em 5 de junho, menos de um mês depois da posse, revelou num soberbo discurso no Parlamento o que deveriam esperar da Inglaterra os comandantes do colosso militar alemão: “We shall never surrender” (“Nós nunca nos renderemos”). Hitler achou que era bravata. Cinco anos mais tarde, o líder nazista estava morto e a Alemanha em escombros. Deveria ter ouvido a advertência explicitada no monumento à retórica: “Nós lutaremos na França, nós lutaremos nos mares e oceanos, nós lutaremos com confiança crescente nos céus, nós defenderemos a nossa ilha seja qual for o custo. Nós lutaremos nas praias, nós nunca nos renderemos”, avisara o gênio da oratória.

Passados 80 anos, há um apalermado Boris Johnson no posto que foi ocupado pelo maior estadista de todos os tempos. Neste 2 de dezembro, por exemplo, ao anunciar o começo da vacinação em território britânico, Johnson até que foi bem no trecho inicial. “O Reino Unido foi o primeiro país do mundo a garantir 40 milhões de doses da vacina da Pfizer”, elogiou-se. O escorregão ocorreu quando enumerava os “enormes problemas logísticos” que o desafiavam. “O vírus precisa ficar armazenado a 70 graus negativos”, exemplificou. Ao confundir a covid-19 com o seu causador e trocar a cura pelo disseminador da doença, virou piada nas redes sociais. Quem precisa dessa temperatura é a vacina, claro. No caso do vírus, basta um Boris Johnson no governo de um país. Diante da oscilação para cima das curvas desenhadas pelo número de casos confirmados e de óbitos, o assustadiço Johnson decretou mais um lockdown. Churchill certamente teria intensificado a vacinação.

O homem que resistiu a Hitler não foi o único dos vencedores da 2ª Guerra Mundial a enriquecer o acervo das preciosidades retóricas. Horas depois do ataque aéreo a Pearl Harbor, ilha do Pacífico que abrigava uma grande base militar norte-americana, o presidente Franklin Roosevelt assim começou seu discurso no Congresso: “Ontem, dia 7 de Dezembro de 1941 – uma data que há de marcar para sempre a história da infâmia -, os Estados Unidos foram súbita e deliberadamente atacados por forças navais e aéreas do Império Japonês”. O traiçoeiro bombardeio foi eternizado no calendário da História como o Dia da Infâmia. E a entrada ostensiva dos EUA na guerra até então travada solitariamente pela Inglaterra selou o destino da Alemanha, da Itália fascista e do Japão fanatizado.

A propósito: algum leitor enxergou algum gesto ou frase aproveitáveis ao longo deste estranho 2020? No lugar do “sangue, trabalho, lágrimas e suor” prometidos por Churchill, ouviu-se a sequência de mantras recitados por João Doria: “Fique em casa”, “Use máscaras” e, de novo, “Fique em casa”. Encerrada uma grande batalha, Churchill costumava embarcar rumo ao local do conflito para animar a tropa. Cansado de guerra, Doria suspendeu o duelo contra esquadrilhas formadas por vírus chineses, chamou o piloto do jatinho e foi rever a vida sem confinamento em Miami. Resgatou-o do inclemente bombardeio na internet a oportuna contaminação do vice Rodrigo Garcia. O furo desta revista Oeste, a primeira a noticiar uma das mais desastradas viagens registradas desde o Dia da Criação, não aconteceria se o governador paulista tivesse mais intimidade com pedagógicos episódios da 2ª Guerra Mundial.

Em 6 de junho de 1944, por exemplo, o marechal Erwin Rommel estava de folga na Alemanha, para comemorar o aniversário da mulher, quando soube que tropas inimigas haviam cruzado o Canal da Mancha e desembarcado na França. Péssima notícia para o militar encarregado de bloquear no litoral francês a invasão da Europa pelos Aliados. A Raposa do Deserto, superlativo com que fora condecorado depois das vitórias nas areias da África, entendeu que naufragara nas areias das praias da Normandia. E descobriu tarde demais que um comandante não pode abandonar o front. Mesmo a pedido da mulher, não pode interromper missões para cumprir deveres domésticos. Mesmo que se sinta exausto, um estadista não tem direito a férias.