AUGUSTO NUNES

LULA E A MULHER-ARANHA

O ex-presidente duas vezes condenado em segunda instância por lavagem de dinheiro e corrupção passiva voltou ao noticiário político policial pendurado na lista dos caloteiros da Receita Federal. Nas declarações de imposto de renda, Lula escondeu uma pequena parte do que ganhou de empreiteiros agradecidos para sonegar R$ 1,2 milhão. É mais que os R$ 321 mil tungados pelo sobrinho Taiguara Rodrigues dos Santos. É dinheiro de troco perto do que o Fisco está cobrando de José Dirceu: R$ 68 milhões. É sobretudo a confirmação de que Lula se tornou o avesso de Getúlio Vargas, a quem costuma comparar-se. Um deixou a vida para entrar na História. Outro saiu da História para cair na vida – sempre em companhia de comparsas que reivindicaram o monopólio da honradez até a descoberta de que o templo das vestais camuflava o bordel das messalinas sem remorso.

O advogado Cristiano Zanin, claro, debitou o caso na conta da Operação Lava Jato. “As condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal”, recitou. Zanin merece um zero com louvor em Direito Tributário, informa a curta lição de Everardo Maciel. “Uma coisa nada tem a ver com a outra”, ensina o ex-secretário da Receita Federal. “Se o patrimônio aumentou, paga-se o imposto e ponto final.” Mesmo que o crime praticado por um ladrão esteja prescrito, exemplifica, o produto do roubo tem de ser taxado. A imprensa velha não deu importância à aparição da face sonegadora, descoberta pela revista Veja. E os jornalistas devotos trataram de enxergar mais uma fake news, inventada pelo gabinete do ódio. Quem não consegue enxergar a folha corrida de Lula deveria ser indiciado por miopia conveniente, processado por vigarice voluntária e condenado a prestar serviços gratuitos a um clube dos cafajestes.

Para a tribo dos cretinos fundamentais, não existiram o Mensalão, o Petrolão, as negociatas bilionárias envolvendo empreiteiros, as palestras de US$ 400 mil, as bandalheiras com ditaduras africanas, o maior esquema corrupto desde o Dia da Criação, fora o resto. Tudo foi parido por um imaginoso juiz que decidiu ser ministro ainda nos tempos do berçário e por um bando de procuradores especializados em acusar até bebês de colo. Mas já não fico perplexo quando vejo na TV alguém reafirmando aos berros a inocência de Lula. Limito-me a recordar o que houve com Newton Menon Gonçalves quando passou por Taquaritinga a mulher-aranha. Eu tinha 9 anos quando fui conhecer a singularíssima criatura junto com meu primo Newton, 1 ano mais velho.

A mulher-aranha chegara na véspera a bordo de um trailer implorando por reparos, pilotado pelo homem que – soube-se horas mais tarde – acumulava as funções de motorista, marido e vendedor dos ingressos que custavam 2 cruzeiros. Por essa módica quantia, podia-se entrar no interior escuro do veículo, contemplar a atração a dois passos de distância e ouvir, contada pela protagonista, a história que explicava por que havia virado aranha da cintura para baixo. Ambos com 5 cruzeiros no bolso da calça curta, percorremos os 50 metros que separavam a casa dos meus pais do trailer estacionado num canto da praça principal. Nos sete dias seguintes, naquele palco improvisado, o drama incomparável seria exposto ao povo de Taquaritinga. Ou às crianças da cidade, corrigia a fila de bom tamanho mas desprovida de adultos.

A cada meia hora, um grupo de cinco espectadores substituía o que acabara de sair. Entrei com meu primo e três moleques que não conhecia, e durante alguns minutos examinei a paisagem esquisita. O corpo da mulher-aranha era dividido horizontalmente por uma mesa. Na metade superior, vi uma mulher normal, gente como a gente, aparentando a idade da minha mãe. O espanto emergia na parte de baixo: no lugar de pernas e pés, havia quatro pares de patas com pelos, gordas e longas, como que expropriadas de uma superlativa caranguejeira de filme de ficção científica. O exame visual foi interrompido pelo começo do relato: “Eu nasci normal, e cresci com aparência humana, mas me tornei uma pessoa muito má”, disse a voz tristíssima. A continuação da narrativa escancarou uma feroz espancadora dos dez mandamentos, uma praticante compulsiva dos sete pecados capitais, uma incansável agressora dos códigos legais, da moral, da ética e dos bons costumes. Só poderia dar no que deu: já mulher feita, fora transformada por castigo divino em mulher-aranha, condenada a vagar por cidades, vilas e lugarejos em perpétua penitência.

Já do lado de fora e com cara de velório, Newton avisou que queria ver tudo de novo. Entrou na fila, pagou mais 2 cruzeiros, sumiu no interior do trailer e, meia hora mais tarde, reapareceu chorando convulsivamente. O ritual repetiu-se pelo menos uma vez nos dois dias seguintes. Inconformado com as dimensões da tragédia, ele derramou cataratas de lágrimas. Só parou de revisitar o palco do drama por falta de dinheiro. Decretado o corte de verba, a mãe e duas tias tentaram inutilmente convencê-lo de que aquilo não passava de tapeação, pura vigarice, coisa para enganar moleques de miolo mole e caipiras que creem até em mula sem cabeça. Ele só começou a convalescer da mais cava depressão com a partida do trailer – e da personagem da saga apavorante. Newton morreu muito cedo. Antes que lhe perguntasse se, casado e pai de duas filhas, continuava acreditando na mulher-aranha.

Nada de mais se dissesse que sim. Multidões de brasileiros engolem sem engasgos o ilusionismo barato de Lula, as mentiras de Dilma e as sucessivas variações da ópera do malandro encenadas pelos canastrões da “esquerda brasileira”. Se tantos marmanjos juram que o prontuário ambulante não cometeu uma única e escassa delinquência, por que não poderia um homem com coração de menino comover-se com a má sorte de um ser metade gente e metade aracnídeo? A mulher do trailer ao menos procurava costurar uma história com começo, meio e fim para que a medonha metamorfose parecesse verossímil. O deus da seita da missa negra nem se deu ao trabalho de tentar mascarar parcialmente o vasto acervo de patifarias com álibis menos mambembes. Apenas recita que é a alma viva mais pura do Brasil, talvez do mundo, e acha que duvidar de tal verdade devia dar cadeia. Acossado por incontáveis provas materiais, evidências robustas, indícios veementes e pesadas suspeitas, Lula preferiu inventar o faroeste à brasileira: os vilões é que perseguem o mocinho, ladrões fazem o diabo para prender xerifes. Mesmo quando a plateia exige a vitória dos homens da lei, os juízes da capital garantem que os bandidos desfrutem do final feliz.

Os fatos, contudo, sempre acabam prevalecendo. Como aconteceu com aquele trailer, um dia a farsa se vai. E então o Brasil entenderá que foi menos absurdo acreditar na história da mulher-aranha do que na pureza incompreendida de um meliante sem cura.

AUGUSTO NUNES

O CIRCO BRASIL VERMELHO

Por falta de um BNDES irresponsavelmente perdulário, como o que torrou bilhões de reais nos tempos de Lula e Dilma, jamais saberei se o Circo Brasil Vermelho me transferiria dos apartamentos da classe média para as coberturas dos ricaços. A ideia foi parida pelos eventos de dimensões siderais ocorridos no último quarto do século 20. Como um personagem de Nelson Rodrigues, acompanhei com o olho rútilo e o lábio trêmulo a queda do Muro de Berlim, em 1989, o meteórico derretimento da União Soviética, em 1991, e, num mundo redesenhado em dois anos, o fim da Guerra Fria. Convalescia do espanto quando constatei, assombrado, o sumiço da espécie que proliferava desde 1848 no Velho Continente: o comunista europeu. Nenhum desses filhotes da Mãe Rússia resistira à surpreendente orfandade. Marx, Engels, Lenin, Stalin e outros alvos da adoração da seita pareciam coisa de tempos remotíssimos. Mais grisalhas que o Império Romano, mais antigas que as pirâmides do Egito, as divindades sem devotos não espantariam ninguém se revelassem que haviam testemunhado o desentendimento inaugural entre Abel e Caim.

E então bateu-me a certeza de que nada disso ocorreria no impávido colosso nascido para desafiar a lógica e desmoralizar a razão. Só o Brasil fala português. No subcontinente amalucado, foi império enquanto a vizinhança proclamava a independência de republiquetas, virou República sem abdicar da nostalgia pelos dois Pedros e, depois de exigir nas ruas a volta das eleições diretas para presidente, é frequentemente governado por vices dispensados da luta pelo voto. Na terra em que se plantando tudo dá, é compreensível que tenha vicejado – e seja hoje amplamente majoritário – o comunista que esconde que é comunista. Com a morte de Luiz Carlos Prestes e Oscar Niemeyer, comunistas confessos tornaram-se tão raros quanto a ararinha-azul. Os militantes do Partido da Causa Operária (PCO), mesmo quando não estão a bordo da van em que cabe a turma toda, não ocultam o sonho de reprisar no Brasil o pesadelo imposto por 70 anos às nações subjugadas pelo império soviético. Em contrapartida, até os filiados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) preferem negar o que o nome de batismo afirma. Seguindo o exemplo dos primos ideológicos homiziados no PT, no Psol e em outras legendas, declaram-se apenas esquerdistas, recitam juras de amor ao Estado Democrático de Direito e fazem de conta que a busca obsessiva da ditadura do proletariado foi substituída pela construção da sociedade socialista. Todos capricham nas fantasias. Mas não é difícil reconhecer um comunista sob a camuflagem de guerreiro da liberdade..

O disfarce desanda quando a conversa é desviada para questões internacionais. Todos acham que Cuba só não virou uma Inglaterra em espanhol por causa do bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Amam o paraíso caribenho, mas rejeitam a socos e pontapés a ideia de lá morar porque antes precisam dar um jeito no Brasil. Queriam ser Fidel quando crescessem e mantêm pendurado num velho guarda-roupa aquele pôster de Guevara. Depois da segunda dose de rum e da terceira baforada, miram a fumaça do charuto enquanto murmuram a doce lição do carrasco do paredón: Hay que endurecer, pero sin perder la ternura. Comovidos com o sofrimento dos palestinos, admitem que não seria má ideia afogar Israel no Mar Vermelho, ou dissolver a única democracia da região com uma bomba atômica de procedência iraniana. Ainda inconformados com a partida precoce de Hugo Chávez, aprovam o desempenho de Nicolás Maduro com um único reparo: na Venezuela há democracia até demais. Torceram pelas FARC contra os presidentes eleitos pelos colombianos, e agora exigem uma anistia ampla, geral e irrestrita para os colecionadores de sequestros e assassinatos.

Quem não tiver paciência para enfrentar o tsunami de cretinices pode chegar à verdade pelo caminho mais curto: basta chamar de “americano” alguém nascido nos Estados Unidos. O certo é norte-americano, ouvirá no segundo seguinte. Melhor ainda: estadunidense. As incontáveis correntes, tendências, alas e facções em que se divide o conglomerado dos comunistas brasucas aprende ainda no berçário que qualquer filho da América é americano. É preciso, portanto, revogar com urgência urgentíssima outra afronta arquitetada pelo país que, por considerar-se dono do planeta, expropria até palavras. A esquerda não se une nem na cadeia, dizia-se nos botequins em que se agrupavam guerrilheiros de festim. Errado. Todas as ramificações sempre estiveram unidas no ódio ao imperialismo ianque. É esse o Grande Satã universal, o inimigo comum e irremissível, a origem de todas as angústias, dores e tragédias que afligem o resto do galáxia, o Mal a ser erradicado. O balaio esquerdista festejou o 11 de setembro de 2001 e chorou quando Osama Bin Laden virou banquete de peixe. Agora celebra a reconquista do Afeganistão pelo Talibã. Não está claro se mudará de lado com a entrada em cena da dissidência do Estado Islâmico que acha moderados demais tanto os decepadores de cabeças quanto os que garantem que mulher sem burca é homem – e outro infiel a explodir.

A ideia do Circo Brasil Vermelho amadureceu quando entendi que as extravagâncias aglomeradas nas malocas do comunismo à brasileira dariam um zoológico e tanto. Por que não juntar num mesmo picadeiro representantes de cada subespécie, e enriquecer com excursões pelo mais civilizado dos continentes? Quem nasceu depois de 1980 não perderia a chance de conhecer, por um punhado de euros, tantas evidências de que o melhor do realismo mágico é menos delirante que o acervo de esquisitices que abundam por aqui. Em vez de ursinhos ciclistas, por exemplo, a plateia veria a filósofa Márcia Tiburi, escalada pelo PT, empunhando um megafone para resumir em duas frases a Teoria da Supremacia Anal: “O xx é sobretudo laico. A gente tem de libertar o xx”. Em vez de afligir-se com os voos dos trapezistas, os espectadores se divertiriam com o jornalista designado pelo Partidão. Inventor do Uber gratuito para terroristas, ele contaria como conseguiu resistir bravamente a torturas sofridas por outros presos. Um jogral do PCdoB declamaria pensamentos do homicida albanês Enver Hoxha. O decano do PSTU berraria “morte à burguesia” em javanês. E o mais recente filiado ao Psol repetiria em linguagem tupi a primeira coisa que diz o filho do casal de devotos que acabou de aprender a falar: “Morte ao imperialismo ianque”. A segunda é “mamãe”.

Trinta anos depois da implosão do Leviatã soviético, a paisagem política brasileira não ficou tão diferente. As atrações de picadeiro continuam por aí. Não devo desistir de virar dono de circo.

AUGUSTO NUNES

O USAIN BOLT DA LADROAGEM

A façanha que tornou Sérgio Cabral merecedor de uma sala exclusiva na ala principal de um futuro (e obrigatório) Museu da Bandalheira no Brasil foi ignorada pelas primeiras páginas dos jornais, não viralizou na internet nem foi aplaudida de pé por toda a população carcerária. Em julho passado, o ex-governador do Rio de Janeiro desbancou Marcos Camacho, o Marcola, da liderança do ranking dos bandidos condenados a mais tempo de cadeia. A marca estabelecida pelo chefão do PCC – 330 anos de gaiola – parecia insuperável até a entrada em cena desse Usain Bolt da ladroagem. Com inverossímeis 390 anos – 60 de vantagem sobre o rival -, Cabral tem tudo para ampliar a distância. Há quatro anos numa cela do presídio de Bangu 8, ainda não se sabe tudo o que fez. Qualquer que seja o recorde mais espantoso estabelecido pelo gatuno de altíssimo rendimento, é difícil entender por que só ele, entre os mais de 550 fora da lei pilhados pela Operação Lava Jato, permanece preso em regime fechado? Por que só a Cabral o Supremo Tribunal Federal tem negado sistematicamente a liberdade concedida a tantos patifes juramentados?

É verdade que uma soma de penas equivalente a três séculos e meio não é para um salafrário qualquer. Mas ninguém vive tanto tempo, e no Brasil nem Jack, o Estripador poderia ultrapassar o limite dos 30 anos de cadeia. Também é certo que a rede criminosa tecida por Cabral envolveu todo o secretariado, a Assembleia Legislativa, a magistratura, o Ministério Público, o Tribunal de Justiça, o Tribunal de Contas, grandes empresários, entidades de classe e agregados em geral, além de 50 vizinhos pra cá e 50 pra lá. Nenhum cofre público livrou-se do saque. Ainda assim, a taça reservada ao maior esquema corrupto do mundo está na sala de troféus de Lula, capitão da seleção de larápios que planejou o Petrolão. É possível que o pecado capital do ex-governador tenha sido a inclusão do ministro Dias Toffoli no elenco que apimentaria sua delação premiada. “Quem acusa um juiz do Supremo está ofendendo a instituição”, avisou o presidente da Corte, Luiz Fux, ao apoiar a prisão do deputado Daniel Silveira e do presidente do PTB, Roberto Jefferson. Quando Cabral se dispôs a contar tudo o que sabe, não estava tão claro que, aos olhos dos integrantes do Pretório Excelso, mexer com um é mexer com todos. O próprio Timão da Toga tratou de sepultar o acordo.

Grogue com a sucessão de contragolpes, Cabral vai-se rendendo às evidências de que, mesmo com a Lava Jato algemada pela aliança entre réus, parlamentares com culpa no cartório e juízes cúmplices, o Brasil não voltou a lembrar o imenso viveiro de condenados à perpétua impunidade. Naquele país obsceno, o vigarista que se elegeu governador em 2006 e renovou o mandato em 2010 viveu seus anos dourados, eternizados em vídeos que mostram em ação um astro do bloco Sabe Com Quem Está Falando? Em outubro de 2012, por exemplo, um repórter da TV Globo perguntou-lhe se temia a surpreendente quebra do sigilo bancário da Construtora Delta, pertencente ao amigo e patrocinador Fernando Cavendish. “Imagina! Por que que eu temeria?”, irrita-se o reizinho do Rio. “Por que que eu temeria?”, repete a voz de soprano. “Acho até um desrespeito da sua parte me perguntar isso. Uma coisa é a relação pessoal que eu tenho com empresários ou não empresários, outra coisa é a impessoalidade da decisão administrativa”.

Em outras cenas deprimentes, Cabral debocha do menino negro que se negara a enxergar o Rio Maravilha que o governador exibia ao amigo Lula, assassina o idioma inglês na Sapucaí para apresentar Dilma Rousseff a uma Madonna perplexa, louva num palanque casos de polícia em campanha eleitoral, diverte-se num restaurante em Paris no meio de um bando que celebra a pandemia de propinas com o rosto coberto por guardanapos, capricha no sorriso abobalhado ao ouvir Lula comunicando aos ouvintes que o eleitorado do Rio tinha o dever moral de votar no vigarista a seu lado. A vida em companhia de Adriana Ancelmo, a quem chamava de Riqueza, que chamava o maridão de Meu Anjo, era uma festa permanente. A direção dos ventos mudou com as grandes manifestações de protesto de 2013, o olho do furacão chegou junto com a polícia às 6 da manhã, mas mesmo depois de instalado em Bangu 8 Cabral não enxergou as dimensões do desastre.

Poucas semanas depois do confisco do direito de ir e vir, o Ministério Público fluminense constatou que o prisioneiro Sérgio Cabral transformara a galeria C do Presídio de Benfica num hotel com grades. Os colchões esbanjavam conforto, os lençóis eram muito mais brancos. Sobrava em todos os aposentos a água que faltava nas celas comuns. As dependências do chefe dispunham de halteres, chaleira, sanduicheira, aquecedores, corda para crossfit e comida de restaurante cinco estrelas. O cardápio selecionado por Cabral oferecia três tipos de queijo francês: Babybel, Saint Paulin (embalado em bolinhas e vendido a R$ 279 o quilo) e Chavroux (feito à base de leite de cabra e orçado em R$ 230 a R$ 300 o quilo). O presunto fabricado na região do Porto exibia a grife portuguesa Primor e podia ser encontrado nas melhores lojas do ramo por R$ 225 o quilo. Os potes de castanhas especiais do Pará custavam R$ 120 o quilo. O serviço se estendia à cela da ex-primeira-dama Adriana Ancelmo, presa um andar acima do marido. Agora casada outra vez, Riqueza reivindica na Justiça a posse da casa que dividia com Cabral para ali morar com o novo marido.

A capitulação ocorreu dois anos mais tarde. Em mais uma audiência com o juiz Marcelo Bretas, que tratara com rispidez nos primeiros encontros, o ex-governador muitos quilos mais magro demitiu a arrogância e declarou-se culpado. Com uma atenuante não prevista nos códigos legais: roubara uma imensidão de reais por ser “viciado em poder e dinheiro”. O tiro parece ter saído pela culatra por uma ela boa e simples razão: se existe mesmo essa espécie de vício, a cura está em longas temporadas na gaiola. Dependente ou não, poucas vezes se viu alguém juntando tantas propinas para enfrentar possíveis crises de abstinência.

Em 2011, histórias sobre a vida principesca do casal já iluminavam a face escura de Sérgio de Oliveira Cabral Santos Filho. Numa noite de segunda-feira, o jornalista Sérgio Cabral, pai do governador, foi entrevistado no programa Roda Viva, então comandado por Marília Gabriela. Participei da conversa. A certa altura, o entrevistado queixou-se de notícias que não melhoravam a imagem de Serginho, contou que frequentemente escondia da mãe os jornais, reiterou a confiança na honradez do herdeiro e afirmou que o considerava o melhor governador que o Rio já tivera. Hoje com 84 anos, o jornalista está perdendo a guerra contra o mal de Alzheimer. Quando alguém se refere a Serginho, diz que o filho morreu.

* * *

ONZE HOMENS E NENHUM SEGREDO:

Alberto Youssef

Classificado pelo juiz Sergio Moro como um “criminoso profissional”, Alberto Youssef foi condenado a mais de 120 anos de prisão em nove sentenças. Em 2017, trocou a cela por um apartamento com vista para o Parque Ibirapuera, na Vila Nova Conceição, um dos espaços mais caros de São Paulo. Em 2019, O Globo noticiou que Youssef havia voltado a trabalhar com compra e venda de dólares. Desta vez, ressalvou o jornal, operando no mercado formal de câmbio.

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AUGUSTO NUNES

O GENERAL DE CORDÃO CARNAVALESCO

Por tratar como caso de polícia o que era uma questão social, o presidente Washington Luís antecipou a chegada à senilidade precoce da República Velha, enterrada sem honras pela Revolução de 1930. Por tratarem como questão social o que sempre foi um caso de polícia, os presidentes Lula e Dilma Rousseff retardaram a chegada à maioridade da democracia brasileira. Os líderes do incipiente movimento operário do século passado, que apresentavam reivindicações elementares, não mereciam cadeia. Mereciam de Washington Luís mais atenção. Os chefes de velharias ideológicas que se arrastam pelo século 21 berram exigências tão descabidas quanto a restauração da monarquia. Não mereciam a vida mansa que o PT lhes proporcionou. Mereciam cadeia.

É o caso de João Pedro Stédile e seu minguante Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Se tivessem genuíno interesse pela vida de agricultor e alguma intimidade com as coisas do campo, os militantes do MST estariam lavrando a terra há muito tempo. Sempre preferiram carregar as lonas pretas das barracas pelos caminhos da destruição, que não pouparam residências, plantações e laboratórios. Stédile não sabe a diferença entre um cafezal e uma plantação de cacau. Se tentasse manusear um machado, entraria para a História como o primeiro revolucionário a decepar a própria cabeça. Se resolvesse acompanhar o general com uma enxada, qualquer subordinado se arriscaria a amputar o pé. Todos só viram foices e martelos ao desfraldarem bandeiras da defunta União Soviética.

Quando o impeachment de Dilma Rousseff começou a desenhar-se, Lula resolveu falar grosso: “Se for preciso, eu chamo o exército do Stédile”, ameaçou. Sorte dele não ter chamado. Soldados e oficiais, que esbanjaram ousadia em ataques a fazendas indefesas, na depredação de casas e máquinas e na destruição de laboratórios rurais, desertaram pouco depois da queda do governo do PT. Com o sumiço dos privilégios federais, que incluíam mesadas, verbas e cestas básicas (além da garantia de impunidade), os combatentes deram o fora antes que a lei começasse a ser cumprida.

Na Quarta-Feira de Cinzas de 2016, Stédile ainda fingia não saber disso. Caprichando na pose de general de cordão carnavalesco, anunciou a iminente mobilização de tropas que permanecem aquarteladas na garganta do rufião da reforma agrária. Como nunca perdeu nenhuma chance de escolher o lado errado da guerra, resolvera protagonizar tiroteios imaginários na Venezuela, “em defesa do regime popular e democrático do presidente Nicolás Maduro”. Até hoje o homem que é visitado por Hugo Chávez em forma de passarinho espera a chegada da imensa infantaria inexistente. Maduro não foi o único vizinho tapeado por Stédile. Em 2008, por exemplo, ele avisou que o colosso invisível entraria em ação assim que começasse a guerra contra os imperialistas que falam português. Se o Itamaraty não topasse rever o Tratado de Itaipu, e curvar-se sem chiadeira a todas as exigências e reivindicações do sócio que fala espanhol, pelotões compostos de soldados sem-terra se juntariam às Forças Armadas do país vizinho e reforçariam a vanguarda da invasão do Brasil. Berrada a bravata, esqueceu a promessa e foi discursar em palanques bolivarianos.

Quando a Lava Jato avançou na devassa da folha de serviços criminosos acumulados por Lula, o fundador da versão brasileira do exército de Brancaleone reincidiu na bazófia: promoveria uma ofensiva tremenda contra quem ousasse tratar como bandido um fora da lei. O ex-presidente foi duas vezes condenado em duas instâncias e finalmente engaiolado sem que aparecesse um único estafeta de Stédile, que preferiu despejar bazófias em outras freguesias — e cuidar dos preparativos para mais uma capitulação vergonhosa na Venezuela de Maduro. O problema é que o exército da lona preta inspira tanto medo quanto os movimentos sociais que José Dirceu jurou que mobilizaria em 1968 (para derrubar o governo militar), em 1973 (para reeditar a revolução cubana no oeste do Paraná), em 2005 (para livrar-se da cassação do mandato decretada pela Câmara dos Deputados), em 2012 (para mostrar ao Supremo Tribunal Federal que um guerreiro do povo brasileiro não pode ser confundido com chefe de quadrilha), em 2016 (para salvar Dilma Rousseff do impeachment) e há poucos meses, para ensinar a diferença que existe entre “ganhar a eleição” e “tomar o poder”.

Uma tropa liderada por Dirceu não hesitaria em render-se incondicionalmente caso um recruta do tiro de guerra de Taquaritinga disparasse um único e escasso tiro de festim. Os comandantes Dirceu e Stédile só matam de vergonha seus comandados e fazem morrer de rir seus inimigos. Mas o herói dos campos culpa o presidente Jair Bolsonaro pelo sumiço da soldadesca. “Ainda existem 4 milhões de famílias do campo que gostariam de ter terra, mas não são loucas de virar bucha de canhão para a polícia, para esse Capitão insano que está por aí“, choramingou em agosto passado. Em 2019, as invasões foram cinco. Em 2020 houve uma. Neste ano, nenhuma.

Em 2007, primeiro ano do segundo mandato de Lula, chegou a 298 a soma dos atentados ao direito de propriedade. Em 2014, a sucessora Dilma Rousseff foi saudada por 200 invasões. As cifras começaram a baixar no governo Temer, quando os mandados de reintegração de posse deixaram de dormir nas gavetas dos tribunais ou nas mesas dos governadores amáveis. Bolsonaro nem precisou agir com rigor: bastou o corte dos privilégios para avisar que a festa acabara. Stédile imediatamente entendeu que a melhor opção era a rendição sem luta.

Capitulou na hora errada, informa o crescente acervo de arbitrariedades, insolências e ilegalidades colecionadas pelos 11 superjuízes. Se conhecesse direito o Timão da Toga, Stédile hoje estaria atropelando sem perigo de cadeia o direito de propriedade, a democracia e a paciência dos brasileiros decentes. O Supremo Tribunal Federal sempre se fez de estrábico quando confrontado com esses pontapés nos códigos legais. Mas nos últimos tempos passou da leniência à cumplicidade ativa. Os ministros só enxergam atos contra a democracia e ameaças às instituições se captados pela vista direita. Desde que não critique nenhum ministro, não seja tolerante com o tratamento precoce da covid-19 nem concorde com uma única vírgula dita por Jair Bolsonaro em sua live, o mais medonho terrorista de esquerda será premiado com um habeas corpus perpétuo pela Corte, que, aliás, acaba de ganhar um decano à altura dos atuais componentes: Gilmar Mendes. Os demais ministros merecem Gilmar. Gilmar merece os demais ministros. Sobretudo Alexandre de Moraes, que em nome do Estado de Direito tortura e assassina os direitos assegurados pelo regime democrático.

Coragem, Stédile. O vento sopra a favor dos arrogantes — por enquanto. Todo semideus de picadeiro que trata o povo brasileiro como se fosse um bando de idiotas acaba na cova rasa reservada às perfeitas bestas quadradas.

AUGUSTO NUNES

AS SOBERBAS LIÇÕES DE SOBRAL PINTO

O advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto e o poeta Augusto Frederico Schmidt eram amigos de muitos anos quando conversaram por telefone em 16 de outubro de 1944. Schmidt, além de versos, sabia também fazer dinheiro como editor, intermediário de transações financeiras e ocupante de cargos públicos. (Segundo a história oral da literatura brasileira, seria ele o poeta federal que tira ouro do nariz no poema de Carlos Drummond de Andrade.) Naquele outubro, foi o empresário Schmidt quem ligou, para pedir ao jurista que reservasse todo o dia 20 a um só compromisso: examinar a vasta documentação que lhe permitiria representá-lo numa questão judicial de natureza trabalhista. O alvo do pedido ponderou que, para patrocinar a causa, primeiro teria de verificar se o candidato a cliente tinha razão.

Advogado não é juiz, replicou um surpreso Schmidt, garantindo a Sobral que sobrava consistência aos argumentos de que dispunha. O jurista reiterou que sem exame prévio não poderia aceitar o convite, advertiu que o prazo era insuficiente para uma avaliação criteriosa e fez a sugestão: melhor contratar outro profissional. A conversa não terminou bem. Tanto assim que Sobral decidiu retomá-la na manhã seguinte, por meio de uma carta datilografada pela secretária. Há alguns anos, Roberto Sobral Pinto Ribeiro, neto desse jurista admirável, enviou-me cópia do texto ditado pelo avô. Trata-se de um luminoso jorro de lições sobre o exercício da profissão que o remetente sempre soube honrar, como comprovam trechos da aula magna ministrada por Sobral Pinto:

“O primeiro e mais fundamental dever do advogado é ser o juiz inicial da causa que lhe levam para patrocinar. Incumbe-lhe, antes de tudo, examinar minuciosamente a hipótese para ver se ela é realmente defensável em face dos preceitos da justiça. Só depois de que eu me convenço de que a justiça está com a parte que me procura é que me ponho à sua disposição.”

Sobral Pinto

A regra vale também para velhos amigos? Claro que sim:

“Não seria a primeira vez que, procurado por um amigo para patrocinar a causa que me trazia, tive de dizer-lhe que a justiça não estava do seu lado, pelo que não me era lícito defender seus interesses.”

Outros trechos ensinam a proteger os códigos éticos da profissão de socos e pontapés hoje desferidos por operadores do Direito:

“A advocacia não se destina à defesa de quaisquer interesses. Não basta a amizade ou honorários de vulto para que um advogado se sinta justificado diante de sua consciência pelo patrocínio de uma causa. (…) O advogado não é, assim, um técnico às ordens desta ou daquela pessoa que se dispõe a comparecer à Justiça. (…) O advogado é, necessariamente, uma consciência escrupulosa ao serviço tão só dos interesses da justiça, incumbindo-lhe, por isto, aconselhar àquelas partes que o procuram a que não discutam aqueles casos nos quais não lhes assiste nenhuma razão.”

A aula termina com palavras que deveriam ser reproduzidas em bronze nos pórticos e auditórios das faculdades de Direito do Brasil:

“É indispensável que os clientes procurem o advogado de suas preferências como um homem de bem a quem se vai pedir conselho. Orientada neste sentido, a advocacia é, nos países moralizados, um elemento de ordem e um dos mais eficientes instrumentos de realização do bem comum da sociedade.”

O que teria impedido um jurista desse calibre de se tornar ministro do Supremo Tribunal Federal? Resposta: o apreço pela coerência e a obsessiva obediência aos mandamentos éticos que balizaram sua caminhada até a morte com quase 90 anos, demonstrou Sobral Pinto ao recusar a vaga no STF oferecida por Juscelino Kubitschek. Eleito em outubro de 1955, JK teve a vitória contestada pela feroz oposição liderada por Carlos Lacerda. Previsivelmente, Sobral juntou-se aos que evitaram o atropelamento da Constituição por vigarices tão caras a chicaneiros e garantiram a chegada de JK ao poder. O convite formulado no primeiro ano de governo foi prontamente repelido. A aceitação poderia ser interpretada como um agradecimento do presidente, explicou o convidado. E ele deixara claro – sempre recorrendo a uma carta – que apoiara o presidente em defesa da legalidade presente, não em busca de favores futuros.

A falta que faz um Sobral Pinto, vivo sussurrando a mim mesmo desde que o governo Lula incluiu entre seus efeitos colaterais a expansão da tribo dos kakays, formada por advogados pagos em dólares por minuto para espancar a verdade nos tribunais, em artigos nos jornais, em entrevistas, até nos almoços domésticos. Dependendo do valor dos honorários, todos tratam de provar por A mais B que o errado está certo. Aos olhos dos doutores em cinismo, ladrão vira benfeitor, pedófilo se transforma em pai extremoso, canalha juramentado se torna exemplo de probidade – por mais hediondo que tenha sido o pecado cometido, todo cliente é inocente. O Brasil ficaria menos intragável se os bacharéis que topam tudo por dinheiro fossem merecidamente reduzidos a provas do crime. Quem contratasse um kakay nem precisaria de julgamento: a escolha do defensor deixa claro que é culpado.

A falta que faz um Sobral Pinto, ando dizendo em voz alta diante das façanhas colecionadas pelo Timão da Toga. Dos dez titulares – ainda não foi preenchida a vaga aberta por Marco Aurélio Mello -, só o presidente Luiz Fux foi aprovado num concurso de ingresso na magistratura e trabalhou como juiz em comarcas no interior do Rio de Janeiro. Os nove restantes são advogados. Pior: o que dizem e fazem avisa aos berros que decerto veriam em Sobral Pinto um ingênuo estacionado em algum século longínquo. Antes da toga, exigiam a absolvição de obscenidades ambulantes com a veemência de senador romano de cinema. Agora fantasiados de semideuses, os bacharéis em Direito fazem o diabo para consolidar a liderança da instituição no campeonato nacional de impopularidade.

Em lances individuais ou jogadas coletivas, o time cujo capitão é Gilmar Mendes reafirma de meia em meia hora que gente incapaz é capaz de tudo. Por exemplo: soltar os quadrilheiros do Petrolão enquanto pune juízes e procuradores que enquadraram os envolvidos na ladroagem colossal, prender sem julgamento deputados e jornalistas, obrigar o Congresso a instaurar CPIs, promover comícios no Senado ou na Câmara para garantir a eternização de urnas eletrônicas do século passado, proibir o presidente da República de indicar os ocupantes de cargos que desde sempre são preenchidos pelo chefe do Executivo, confiscar do Legislativo a atribuição de criar, revogar ou alterar os códigos legais, berrar ofensas a Jair Bolsonaro antes de dormir, sonhar com o impeachment e acordar gritando que mexer com um ministro do Supremo é mexer com todos.

Reveja a escalação dos doutores premiados com o empregão perpétuo. Gilmar, Toffoli, Lewandowski, Kássio e Fachin; Rosa e Carminha; Alexandre e Barroso. Se qualquer dessas eminências fosse julgada por insolência megalomaníaca e abuso de poder, Sobral Pinto certamente se ofereceria para trabalhar de graça como assistente da acusação.

AUGUSTO NUNES

O BANCO DA MÃE JOANA

Em agosto de 1982, apresentado por Silvio Ferraz, editor de economia da revista Veja, conheci Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, presidente do Banco Mercantil. O primeiro encontro foi também o único, mas valeu por dezenas de conversas. O prenome composto, o sobrenome quatrocentão, o corte impecável do terno azul-marinho, a simetria do nó de Windsor da gravata cinza, a alvura da camisa de linho, o sotaque britânico do sapato de cromo, a disciplina germânica dos fios de cabelo, os óculos com lentes de melhor aluno da classe, a autoconfiança abundante de quem aprendera a aumentar a fortuna da família quando ainda usava fraldas – tudo avisava aos berros que estávamos diante de um genuíno banqueiro paulista. Quem pertence a essa estirpe já nasce especialista em multiplicação de dinheiro, confirmou Vidigal ao ouvir o pedido de desculpas formulado por Silvio Ferraz.

Minutos antes da chegada ao prédio na Avenida Paulista, Silvio me contara que, na semana anterior, remetera ao dono do Mercantil um cheque cujo valor hoje estaria entre 700 e 800 reais. Era o que a Veja pagava aos autores de artigos publicados na última página da revista, e Gastão Vidigal assinara o texto publicado numa edição recente. “Fico imaginando a reação dele”, murmurou meu amigo. “Deve ter rasgado aquilo.” Foi por isso que a conversa começou com o pedido de desculpas. “Estou constrangido com aquele cheque que mandei ao senhor”, insistiu o visitante. Vidigal quis saber por quê. “A quantia é muito baixa”, explicou Silvio. “Pela primeira vez na vida vejo alguém desculpar-se por me dar dinheiro”, estranhou o anfitrião. “Isso só aconteceu com alguns que me deviam. Foram pouquíssimos.” Foi a vez de Silvio espantar-se: “O que o senhor fez com o cheque?”. A resposta: “Comprei dólares”.

Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, presidente do Banco Mercantil

É por essas e outras que uns são jornalistas e outros são banqueiros, disse a mim mesmo. Um Gastão Vidigal nunca joga dinheiro fora. Mesmo quando parece perdulário, ensinou o segundo capítulo da conversa. “Sabem quem acabou de sair daqui? O Jânio Quadros”, perguntou e respondeu Vidigal. “Veio pedir dinheiro, claro”, começou a história. Semanas antes, o ex-ministro Delfim Netto, que apoiava a candidatura do ex-presidente ao governo de São Paulo, comunicou que Jânio lhe pedira que marcasse uma audiência com o dono do Mercantil. “Você sabe o que ele quer”, preveniu Delfim Netto. “Não dê nada em espécie. Diga que vai arrumar alguns veículos para serem usados na campanha.” Foi o que fez Vidigal ao ouvir a solicitação de auxílio financeiro recitada por Jânio. “Vou te dar dez kombis”, replicou o banqueiro. Sorrindo, Vidigal reproduziu a tréplica do visitante: “Ouça-me, doutor Gastão. Não sou candidato a dono de uma frota de kombis, mas a governador de Estado. Prefiro um cheque administrativo”. Foi atendido.

Por que investir numa candidatura aparentemente sem chances de vitória? “As coisas sempre podem mudar”, ponderou Vidigal. “Aliás, eu ficaria muito feliz se ele ganhasse.” Confrontado com a expressão intrigada da dupla de jornalistas, o banqueiro produziu a mais reveladora das incontáveis frases sobre o esplêndido demagogo que em apenas 12 anos foi vereador em São Paulo, prefeito da capital, deputado estadual, governador, deputado federal e presidente da República: “O Jânio é eleito por eles e governa para nós”, resumiu Gastão Vidigal. “Eles” éramos nós – os brasileiros da classe média, os moradores dos bairros pobres, os descamisados da periferia e os profissionais da esperança que berravam “Jânio vem aí” nos comícios do messias que viera para varrer a corrupção. “Nós” eram eles – os empresários que abrandavam a sede, a lascívia e a ganância do enlouquecido pastor de multidões, os líderes da elite que engordavam o rebanho com eleitores domesticados. “Nós” eram sobretudo os donos de bancos que abasteciam o caixa da campanha eleitoral e as contas secretas na Suíça, com donativos que seriam retribuídos com juros durante a passagem pelo poder de apadrinhados agradecidos.

A fusão dos grandes bancos apressou a extinção da espécie dos gastões vidigais, que tratavam cédulas com cuidados de amante, transformavam migalhas em dólares e esbanjavam sagacidade em apostas políticas. Neste estranho começo de século, o que se viu no comando foram nulidades incapazes de escolher parceiros certos e capazes de associar-se a grotões do planeta condenados à falência ou empresários pilantras. O que diria um Gastão Vidigal caso assumisse, por exemplo, a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e examinasse o balaio de financiamentos que jogaram pelo ralo uma imensidão de reais? O que pensaria ao ser confrontado com o formidável calote imposto ao BNDES por vigaristas que mantêm Cuba e Venezuela na rota do naufrágio? É o que ando me perguntando depois de saber o que ocorreu entre 2007 e 2015, quando o Brasil foi pilotado por uma cabeça baldia e um cérebro despovoado de neurônios. Lula e Dilma transformaram o BNDES num banco da mãe joana.

Uma consulta ao site da instituição atesta que 148 empréstimos a 15 países esvaziaram os cofres do BNDES em quase R$ 50 bilhões. Os prazos para pagamento da dívida oscilaram em torno de 11 anos. Todos os devedores foram selecionados não por critérios financeiros, mas por afinidades pessoais, políticas e ideológicas com os governos do PT.

Entre outros monumentos à gastança, o BNDES bancou e as empreiteiras que seriam algemadas pela Operação Lava Jato construíram hidrelétricas no Equador, na Nicarágua e no Peru, linhas do metrô da Cidade do Panamá, um aqueduto na Argentina, uma ponte na Venezuela, uma barragem, um aeroporto e um BRT em Moçambique e uma via expressa em Angola. Em Mariel, no litoral de Cuba, a Odebrecht construiu com dinheiro do BNDES o superporto que o Brasil não tem. Prazo para pagamento do empréstimo: 25 anos. A Venezuela conseguiu juros de pai para filho: 1,2%. Tanta generosidade não comoveu seus beneficiários.

Juntas, a ditadura caribenha e a tirania bolivariana embolsaram quase R$ 11 bilhões. Em 2018, os pagamentos foram interrompidos e a conta da irresponsabilidade perdulária chegou. A soma das dívidas contraídas pela ilha-presídio e pela vizinha em decomposição passa de R$ 3 bilhões e 500 milhões. Mesmo um Gastão Vidigal dificilmente conseguiria recuperar tamanha bolada. Mas o dono do Banco Mercantil jamais teria emprestado dinheiro a caloteiros de estimação.

AUGUSTO NUNES

AUGUSTO NUNES

A VERDADE RESSUSCITADA

Com o uniforme de oficial de cordão carnavalesco, um charuto hospedado no canto da boca, Fidel Castro está de saída do Congresso do Partido Comunista Cubano promovido em 1975. No poder há 16 anos, o ditador quarentão está em boa forma: depois de discursar por 20 horas seguidas, não exibe sinais de cansaço. Só parece intrigado com aquele carrinho de bebê ao lado de três cinegrafistas que acompanham a movimentação da lenda em seu apogeu. Fidel se aproxima do carrinho que, em vez de passageiros da primeira infância, transporta instrumentos indispensáveis a quem trabalha no mundo do cinema. Mira o jovem desconhecido e pergunta quem carrega aquilo: ele ou ela? Ele é Jon Alpert, ainda um novato na arte que o transformaria em celebridade. Ela é Keiko Tsuni, mulher de Alpert. Câmeras de vídeo digital da primeira geração são bastante pesadas, explica o marido. Fidel ensaia a retirada e é detido pelo convite audacioso: “Tem uma mensagem para o povo dos Estados Unidos?”. Assim começou a primeira conversa entre o jornalista principiante e o homem que havia dois anos não concedia entrevistas à imprensa ianque.

O mais loquaz orador do Caribe ficou uns poucos segundos em silêncio antes de declamar a mensagem. Louvou as virtudes dos norte-americanos comuns, elogiou os esforços dos intelectuais e trabalhadores e desejou-lhes sorte. “Quanto ao governo”, ressalvou, “todos sabem que não há nenhuma simpatia entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos.” Foi a primeira (e a mais curta) das muitas conversas que teriam nas quatro décadas seguintes. Em 2016, às vésperas do 90º aniversário do ditador aposentado, encontraram-se pela última vez na casa de Fidel em Havana. O anfitrião depauperado autografa o colete de trabalho do visitante. Agora um sessentão grisalho, Alpert beija o rosto da lenda em seu crepúsculo. Ele voltaria semanas depois para filmar o sepultamento do fundador do regime comunista. Ao partir de Havana, levava o material que faltava para a edição do melhor de todos os grandes documentários que concebeu: Cuba e o Cameraman, lançado nos EUA em 2017 e incorporado recentemente ao catálogo brasileiro da Netflix.

Documentaristas interessados no resgate de períodos históricos vivem derrapando em roteiros que enfileiram entrevistas cara a cara tão excitantes quanto um desfile militar na Bolívia. Alpert reconstituiu a trajetória de Cuba entre os anos 70 e a morte de Fidel amparado num microcosmo composto de interlocutores selecionados com argúcia e sensibilidade — e dividido em três núcleos. Os irmãos Borrego são agricultores que aram a terra com juntas de bois. O negro Luis Amores e seus amigos sobrevivem com transações comerciais situadas na difusa fronteira que separa a contravenção do crime. E Caridad tenta resistir ao lado do casal de filhos à desesperança que começou com a renúncia ao sonho de prosperar como enfermeira. Os diálogos e imagens resultantes das visitas aos vértices desse triângulo e das conversas com Fidel fazem de Cuba e o Cameraman o mais soberbo, tocante, honesto e revelador documentário sobre a Era Fidel. Graças às sucessivas incursões pela ilha, Alpert se torna uma espécie de primo norte-americano dos integrantes do elenco e um amigo temporão do líder revolucionário. Nada disso impede que veja as coisas como as coisas são e conte o caso como o caso foi. Na primeira viagem a Havana, era um admirador dos revolucionários triunfantes. A visita derradeira foi feita por mais um ferido pela decepção. Em nenhum momento o cameraman emite juízos de valor, opina ou argumenta. O que mostra dispensa manifestos e discurseiras. Ao longo de 114 minutos, o palco do drama estaciona no tempo ou piora. Só não mudam os carrões norte-americanos que sacolejam nas ruas seja qual for o ano, o dia ou a hora da visita de Alpert.

Havana e seus carrões antigos | Foto: Dorothea Oldani/Unsplash

Sem barulhos nem berreiros, o documentário implode mitos e crendices plantados pelos jardineiros do paraíso socialista no Caribe. O sistema de educação é gratuito e universal, certo? “Gostaria de comer mais”, diz uma estudante instada a revelar seu maior desejo. Nenhum cubano passa fome? “Ninguém consegue carne há muitos meses”, lamenta uma mulher na fila do racionamento ao saber que, naquela semana, sua família teria de contentar-se com um pão por dia. Num encontro com os Borrego, Alpert constata que um dos irmãos perdera a voz para o câncer na garganta. Na cena seguinte, ele conversa no hospital desprovido de remédios onde o lavrador ficara internado. Assombrado com a aparência e a idade do instrumento jurássico utilizado na cirurgia, Alpert pergunta ao jovem médico quanto o governo lhe paga por mês. Vinte dólares, ouve. Desolado, o documentarista aparece na visita seguinte com um aparelho que, acoplado ao pescoço, reproduz um som vagamente parecido com a voz humana. A euforia do agricultor octogenário revela as diminutas dimensões dos sonhos possíveis.

Em 1975, as gordas mesadas remetidas pela União Soviética espalharam pela ilha a sensação de que as promessas revolucionárias seriam enfim cumpridas. A enxurrada de rublos financiou casas populares, novas escolas, equipamentos hospitalares, medalhas olímpicas, mais comida e outras razões para animar os intermináveis discursos de Fidel com gritos de Patria o Muerte. Nos anos 80, prédios em decomposição, a universalização da falta de água, o sumiço da coleta de esgoto e outras carências aflitivas prenunciaram mais uma estação tempestuosa. A queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da União Soviética dois anos depois anteciparam o pior dos invernos. É o único trecho do documentário que mostra Fidel Castro, um poço de certezas aparentemente inesgotável, sem saber o que dizer. Em algumas aparições, para espanto da plateia, vê-se um homem ligeiramente parecido com gente como a gente. Sempre traduzindo em voz alta para o inglês o que ele próprio acabara de dizer em espanhol, Alpert filma e narra momentos em que Fidel exibe o peito nu para provar que não usava coletes à prova de bala, ou garante que não teme atentados porque só morreria quando chegasse a sua hora, ou esparrama o corpo pela cama do quarto na Missão Cubana em Nova York, onde baixara para discursar na Assembleia-Geral da ONU. A bordo do avião que o trouxera de Havana havia um único cidadão norte-americano. Jon Alpert, naturalmente.

Nos anos 80, Cuba já exibia prédios em decomposição | Jason Gamble/Unsplash

Cuba e o Cameraman confirma que o embargo decretado pelos Estados Unidos causa estragos de bom tamanho, mas infinitamente inferiores aos provocados pela economia planificada. Somem a cerveja, o rum, o leite, a carne. Multiplicam-se os exploradores do mercado negro, os traficantes de drogas, os ladrões, entre os quais os que consumiram em churrascos os animais que compõem o patrimônio dos Borrego. Camuflada pela ditadura comunista, a penúria em expansão é escancarada no documentário que, ao mostrar Cuba como Cuba é, torna bem menos surpreendente a onda de protestos que agitou a ilha há poucas semanas. Pena que Alpert não estivesse lá para filmar a verdade torturada por liberticidas sem remédio. O mais repulsivo dos negacionismos é negar que uma ditadura é uma ditadura. E não há patrulha mais torpe do que a que tenta silenciar quem enxerga a nudez do reizinho de estimação.

Essas torpezas ajudam a entender por que a chegada ao Brasil de Cuba e o Cameraman foi escondida pela Netflix e ignorada pelos segundos cadernos dos jornais. No País do Carnaval, os chamados críticos de cinema ficam com cara de criança que viu Nossa Senhora quando topam com idiotices do calibre de Democracia em Vertigem. E têm orgasmos múltiplos quando Petra Costa capricha na voz de quem canta incelenças desde o estágio no berçário. O documentário sobre Cuba comprova que uma Petra só teria chances de juntar-se à equipe que o produziu caso se escondesse no carrinho de bebê. Nesse caso, é provável que Fidel preferisse afastar-se às pressas. E não teria conhecido Jon Alpert.

Edifícios antigos em Havana | Foto: Shutterstock

AUGUSTO NUNES

A ESCURIDÃO DA FACE EXTERNA

Seja qual for o tema, Lula mente mais do que respira, mas consegue esconder o que acha só ao tratar de assuntos internos. Quando se mete em questões internacionais, o bandido de estimação do Supremo acaba confessando quem é, e o que faria se um chefe de governo tudo pudesse. Lula é o contrário da Lua: sua face sombria é a externa. A reação do ex-presidente presidiário às manifestações de protesto ocorridas em Cuba neste mês, por exemplo, escancarou a escuridão da política externa que sonha ressuscitar. “O que está acontecendo de tão especial pra falarem tanto?!”, perguntou e exclamou nas redes sociais o admirador militante da ilha-presídio. “Houve uma passeata. Inclusive vi o presidente de Cuba na passeata, conversando com as pessoas”, caprichou na tapeação. Decidido a fingir que ainda não sabe se os manifestantes são simpáticos ou hostis à ditadura, só Lula viu a cena que não houve. E só ele deixou de ver as imagens que documentam a metodologia do tiro, porrada e bomba. Só ele não viu evidências de que incontáveis cubanos já não suportam a sufocante supressão da liberdade.

Para um sabujo de Fidel Castro, o único problema da ditadura sexagenária é o imperialismo ianque. “Se Cuba não tivesse o bloqueio dos Estados Unidos, poderia ser uma Holanda”, garantiu o torturador de fatos. Por que a Holanda, onde o então presidente brasileiro esteve por menos de três dias? Chegou numa noite de quarta-feira e partiu na sexta de manhã, depois de desmentir na quinta outra mentira: em mais de uma entrevista, Lula jurou que parou de beber durante a Copa do Mundo de 1974, mais precisamente “no dia em que o Brasil foi derrotado pela seleção holandesa”. Por que envolver na comparação um país que desconhece profundamente? Talvez tenha visto em Amsterdã, por onde passou em alta velocidade, a capital de uma ilha. Talvez queira que a pátria de Johan Cruyff fique parecida com Cuba para vingar-se do time que o fez virar abstêmio. Não é fácil decifrar o que ocorre numa cabeça baldia. Voltemos à bem-vinda rebelião dos oprimidos.

O palavrório do chefe do Petrolão informa que Lula, caso volte ao poder, ressuscitará já no dia da posse a política externa da canalhice. Nascido do acasalamento de stalinistas farofeiros do PT e nacionalistas de gafieira do Itamaraty — uns e outros ainda sonhando com a Segunda Guerra Fria —, esse aleijão subiu a rampa do Planalto em 1° de janeiro de 2003. Nos oito anos seguintes, fantasiado de novo-rico caridoso, o Brasil acoelhou-se com exigências insolentes do Paraguai e do Equador, suportou com passividade bovina bofetadas desferidas pela Argentina, hostilizou a Colômbia democrática para afagar os narcoterroristas das Farc, meteu o rabo entre as pernas quando a Bolívia confiscou ativos da Petrobras e rasgou o acordo para o fornecimento de gás. Fora o resto.

Hugo Chávez, Néstor Kirchner e Lula

Confrontado com bifurcações ou encruzilhadas, Lula fez invariavelmente a escolha errada e curvou-se à vontade de parceiros vigaristas. Quando o Congresso de Honduras, com o aval da Suprema Corte, destituiu legalmente o presidente Manuel Zelaya, o Brasil se dobrou aos caprichos de Hugo Chávez. Decidido a reinstalar no poder o canastrão que gostava de combinar chapelão branco-noiva com bigode preto-graúna, e fora convertido ao bolivarianismo pelos petrodólares venezuelanos, Chávez obrigou Lula a transformar a embaixada brasileira em Tegucigalpa na Pensão do Zelaya. Para afagar Fidel Castro, o governo deportou os pugilistas Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, capturados pela Polícia Federal quando tentavam fugir para a Alemanha depois de abandonarem o alojamento da delegação que participava dos Jogos Pan-Americanos do Rio. Entre a civilização e a barbárie, o presidente da República sempre cravou a segunda opção. Com derramamentos de galã mexicano, prestou vassalagem a figuras repulsivas como o faraó de opereta Hosni Mubarak, o psicopata líbio Muammar Kadafi, o genocida africano Omar al-Bashir, o iraniano atômico Mahmoud Ahmadinejad e o ladrão angolano José Eduardo dos Santos.

Lula e Muammar Kadafi

Coerentemente, o último ato do mitômano que se julgava capaz de liquidar com conversas de botequim os antagonismos milenares que sangram o Oriente Médio foi promover a asilado político o assassino italiano Cesare Battisti. Herdeira desse prodígio de sordidez, Dilma manteve o país de joelhos e reincidiu em parcerias abjetas. Entre o governo constitucional paraguaio e o presidente deposto Fernando Lugo, ficou com o reprodutor de batina. Juntou-se à conspiração que afastou o Paraguai do Mercosul para forçar a entrada da Venezuela. Rebaixou-se a mucama de Chávez até a morte do bolívar de hospício que visita o sucessor em forma de passarinho. Para adiar a derrocada de Nicolás Maduro, arranjou-lhe até papel higiênico. Ao preservar a política obscena legada pelo padrinho, a afilhada permitiu-lhe que cobrasse a conta dos negócios suspeitíssimos que facilitou quando presidente, em benefício de governantes amigos e empresas brasileiras financiadas pelo BNDES.

Nicolás Maduro e Dilma Rousseff

Disfarçado de palestrante, o camelô de empreiteiras que se tornariam casos de polícia com a descoberta do Petrolão ganhou pilhas de dólares, um buquê de imóveis e a gratidão paga em espécie dos países que tiveram perdoadas suas dívidas com o Brasil. Enquanto Lula fazia acertos multimilionários em Cuba, Dilma transformava a Granja do Torto na casa de campo de Raúl Castro, também presenteado com o superporto que o Brasil não tem. Ela avançava no flerte com os companheiros degoladores do Estado Islâmico quando a Operação Lava Jato começou. Potencializada pela crise econômica, a maior roubalheira da história apressou a demissão da mais bisonha governante do mundo.

Raúl Castro E Dilma Rousseff

“O Brasil vai perder o protagonismo e a relevância mundial”, miou Dilma ao voltar para casa. O que o país perdeu foi o papel que desempenhou desde 2003: o de grandalhão idiota e obediente aos anões da vizinhança. A restauração da altivez precipitou a colisão entre o Brasil e os populistas larápios, os ditadores assumidos e os tiranos ainda no armário que prendem quem discorda, assassinam oposicionistas e sonham com a erradicação do Estado de Direito. Essas parcerias cafajestes poderão ser resgatadas da cova rasa com uma vitória do PT em 2022.

Juscelino Kubitschek afirmava que fora poupado por Deus do sentimento do medo. No caso de Lula, defeitos de fabricação revogaram o sentimento da vergonha e proibiram qualquer espécie de remorso. Essa conjunção de avarias talvez explique a naturalidade com que Lula reincidiu na louvação de regimes liberticidas. Os comentários sobre as corajosas manifestações de rua reafirmam que Lula pertence à subespécie dos criminosos que voltam assoviando ao local do crime. Gente assim se imagina condenada à perpétua impunidade por juízes camaradas.

AUGUSTO NUNES

A ANUNCIAÇÃO DA PRIMAVERA CUBANA

Estou há seis dias em Havana fazendo o que faz desde janeiro de 1959 todo jornalista que desembarca em Cuba atraído pela promessa de um encontro com Fidel Castro: esperando El Comandante aparecer. Quem conhece os hábitos de Fidel sabe que é melhor esperar sentado. Nenhuma entrevista tem dia e hora marcados. Ele aparece de repente, quando lhe sobra um tempo ou quando lhe dá na telha. Além dos 12 jornalistas, aguardam a aparição 28 deputados paulistas. Chegamos domingo, 13 de dezembro de 1987, no avião da Vasp que inaugurou a rota São Paulo-Havana. A ideia será testada por três meses com um voo por semana. Se a taxa de ocupação de assentos for satisfatória, a decolagem na capital paulista e o pouso na capital cubana livrarão os passageiros de viagens dramaticamente alongadas por escalas e desvios. As curvas no caminho são desesperadoras até para comunistas brasileiros que leram O Capital no berçário. Em alemão.

Nesta noite de 18 de dezembro, uma sexta-feira, faltam só 48 horas para o embarque de volta ao Brasil. O Homem até agora não deu as caras, mas o diplomata escalado para acompanhar-nos segue repetindo o que recitou assim que pisamos no asfalto da pista do aeroporto: “O Comandante gostou muito da ideia de conversar com vocês. Vai aparecer a qualquer momento”. Desde 1º de janeiro de 1959, quando Fidel e seus guerrilheiros entraram triunfalmente em Havana, não foram poucos os que voltaram sem ver a figura mitológica. É verdade que gosta de conversar. Mas gosta tanto que a fila de espera não cabe numa agenda. Como a fila não anda, os enfileirados se distraem mudando de lugar. No primeiro dia em Havana, esperei no saguão do Hotel Riviera. Neste sexto dia em Cuba, espero no salão imenso do Ministério das Relações Exteriores, palco da recepção oferecida pelos gerentes da ilha caribenha.

Na terça, por exemplo, passei a manhã esperando na piscina com ondas e água salgada que vira doce, outro requinte do hotel construído pela máfia de Miami e inaugurado em meados de 1958, pouco antes da derrocada da ditadura de Fulgencio Batista. Estou pensando no que teria acontecido aos que garantiram aos chefões que Cuba continuava sob controle quando me bate a ideia de jerico: subir as curvas da escada que terminava no trampolim a 10 metros da superfície. Vista daquela altitude, a piscina parecia menor que o tanque de lavar roupa da minha avó. Decidi saltar assim mesmo, para não fazer feio aos olhos de algum companheiro de viagem que estivesse contemplando a minha escalada. Sentado não vai doer, presumi. Fui desmentido pela colisão com o paredão azul que me deixou descadeirado. Nadei no estilo cachorrinho até a borda. Aliviado com a constatação de que ninguém testemunhara aquele mau momento, aguardei que o quadril se recuperasse do encontro com as águas e fui almoçar.

Resolvi passar a tarde esperando Fidel nos dois restaurantes mais conhecidos da ilha, La Bodeguita del Medio e La Floridita, caprichando na pose de Ernest Hemingway aos trinta e poucos anos. Em homenagem ao escritor que bebeu todas quando morou por aqui, tracei meia dúzia de mojitos no bar do primeiro e oito papa dobles no bar do segundo. Retomei a espera na piscina do hotel quando comecei a ver a miragem duplicada do Comandante. Na quarta-feira, esperei quatro horas na fila da sorveteria Coppelia até chegar ao balcão e pedir o famoso sorvete de limão que tinha acabado duas horas antes. Consolei-me com o de abacaxi, que não me pareceu grande coisa. Na quinta, de volta ao bar do La Floridita, descobri que a capital cubana se tornara um grande cenário de filme de época. No fim dos anos 80, não saíra dos 50, informavam o casario implorando por pintura, os garotos que oferecem aos turistas rum, charutos ou a irmã, sobretudo os carrões norte-americanos sacolejando pelas ruas.

O garçom me contou que qualquer um podia ser usado como táxi. Era só pagar 1 dólar e dizer o destino. Fossem quais fossem o trajeto e a duração da corrida, o preço seria o mesmo. Paguei a conta e fui conferir. Estendi o braço ao ver um um Studebaker verde-limão, o motorista encostou na calçada. O garçom não estava brincando. Nas três horas seguintes, pela módica quantia de 5 dólares, esperei Fidel no banco do copiloto daquele Studebaker, de um Oldsmobile vermelho em estado aceitável, de um Mercury preto implorando por oficinas mecânicas, de um Chevrolet rabo de peixe azul e do Buick de cor indefinida que me devolveu ao hotel. Acordei no começo da tarde seguinte sem saber em que ano estava. E agora espero Fidel naquele salão de dimensões amazônicas, pensando o que pensa todo estrangeiro sem algemas ideológicas ao topar com uma tremenda boca-livre bancada pela ditadura cubana: se o povo visse isto aqui, o regime comunista não chegaria à sobremesa.

Extensa, espessa e sólida como um píer escocês, a bancada do bufê suporta um tsunâmi de lagostas, camarões, siris e caranguejos de filme de ficção científica, mariscos e ostras, cardumes de peixes de espantar o protagonista de O Velho e o Mar. Aquilo parece banquete patrocinado por um Nero de cinema. E então tropeço na mais espantosa visão desde o momento do desembarque: tem até gente gorda. Os razoavelmente obesos, os medidos em arrobas, barrigudos de pernas finas, ou com pernas mais largas que o ventre de bom tamanho. Há seis dias zanzando por Havana, só vi gente magra. O governo jura que ninguém morre de fome. Pode ser. Mas também é verdade que nenhum cubano comum come o suficiente para matá-la. Isso é para quem frequenta recepções oficiais. Contemplo uma lagosta abraçada a dois camarões quando me bate a certeza: todos os gordos da ilha estão aqui.

No momento em que tento saber como é que explicam a um magro curioso aquelas toneladas excedentes, flutua sobre o oceano de cabeças o aviso multiplicado por centenas de vozes: “É ELE!”. ELE é Fidel; quem mais poderia ter o prenome berrado em maiúsculas por tanta gente? Junto-me aos parceiros de momento histórico e vamos todos para uma sala com quatro poltronas e dois sofás de bom tamanho. Percebo que alguns terão de ficar em pé e capturo uma poltrona. Cinco minutos mais tarde, a porta se abre e ELE finalmente aparece. Aos 61 anos, no poder havia 28, a figura emoldurada pela soleira traja uma farda verde-oliva bem cortada e parece em ótima forma. Levanto-me para cumprimentar Fidel e constato que nossos queixos se alinham na mesma altitude. ELE tem, portanto, de 1m85 a 1m87, incluindo o salto carrapeta do coturno preto. Só alcança os míticos 2 metros de altitude aos olhos apaixonados dos devotos. A expressão satisfeita e o olhar confiante confirmam que o ditador adora o que faz e pretende manter o emprego enquanto viver. Também se tornou mais cauteloso, sorrio ao conferir o cinto paisano: não há nenhum vestígio de coldres e armas.

Fidel Castro aprendeu que não se deixa impunemente uma arma de fogo ao alcance de jornalistas brasileiros naquela noite de abril de 1960, quando a lenda em seu começo chegou com algumas horas de atraso à embaixada do Brasil em Havana. Todos empunhando copos ou garrafas, ali o esperavam o embaixador Vasco Leitão da Cunha, que organizou a recepção, Che Guevara, escalado pelo chefe para distrair os visitantes, o recentíssimo amigo de infância Jânio Quadros, figurões do janismo e jornalistas que cobriam a visita a Cuba do candidato à Presidência da República. No corredor da embaixada, Fidel fez uma derradeira escala no lavabo para deixar sobre a caixa da descarga o cinto com o revólver no coldre que completava o uniforme de guerrilheiro. Entrou na sala de jantar falante e feliz. Só deu a conversa por encerrada no meio da madrugada. Um dos últimos a retirar-se, embarcou num jipe pilotado pelo ajudante de ordens e desapareceu na noite. Reapareceu às 5 da manhã para buscar o que esquecera no lavabo. E então descobriu que o cinto não estava mais lá. Nem o coldre. Nem o revólver.

O jornalista Villas-Boas Corrêa, que testemunhou a cena, resumiu num artigo no Jornal do Brasil a reação de Fidel. “Ele perde a calma, insiste na busca. A criadagem é acordada. Ninguém vira ou tinha notícia da pistola que, segundo Fidel, o acompanhava desde Sierra Maestra, uma mascote que era parte da sua vida.” À beira de um ataque de nervos, a vítima suspendeu as buscas e foi tentar dormir. Mas não se renderia, conta Villas-Boas Corrêa: “Compareceram à embaixada, horas depois, o comandante Raulito Diaz Argueille, chefe do Birô de Investigações, e o capitão Chino Figueiredo, do serviço secreto, reclamando a lista com os nomes de todos os que compareceram à recepção e deixando claro que Fidel exigia a devolução da arma no prazo de 24 horas”.

Teria de esperar o dobro. Só depois de 48 horas o arquiteto da molecagem procurou Leitão da Cunha para propor o acordo: ele devolveria o produto do roubo desde que o alvo da audácia jamais soubesse quem fora o algoz. O embaixador levou o segredo para o túmulo. Apenas contou a dois ou três amigos que se surpreendera com a inscrição na plaqueta de ouro incrustada no cabo do revólver: “Ao herói do povo cubano, a amizade de Anastas Mikoyan”. Fidel mentira de novo. Aquele parabélum russo, um presente do então ministro das Relações Exteriores da União Soviética, desembarcara na ilha pouco antes do incidente — e não tinha a menor ideia de onde ficava Sierra Maestra. A História não registrou a identidade do jornalista brasileiro que conseguiu o que tantos norte-americanos poderosos tentaram em vão: desarmar Fidel.

O passeio por 1960 é interrompido pela voz que anuncia o início de un rato de charla. Um dedo de prosa com Fidel não dura menos que duas horas. Tivemos direito a quase três. Sem o socorro de aparelhos de som que a engrossam, soa esganiçada a voz que ecoava desde 1959 nos intermináveis comícios na Praça da Revolução. Naquela noite, a usina de autoconfiança desancou a ganância desumana do Grande Satã ianque, atribuiu o desempenho bisonho da economia ao bloqueio decretado pelos EUA, celebrou os resultados do esforço destinado a atrair mais turistas estrangeiros, elogiou o sistema de saúde, louvou o êxito do sistema de educação e deixou claro que só a morte o afastaria do coração do poder. Nascido em agosto de 1926 numa família de latifundiários, o advogado Fidel Alejandro Castro Ruz chegara lá com 32 anos. Decidiu os destinos de Cuba até 2008, quando passou oficialmente ao irmão Raúl o bastão de mando. Mas só com a morte, em 2016, deixaria de exercer o direito à palavra final.

Os participantes daquela entrevista na Chancelaria não poderiam imaginar que o Muro de Berlim só duraria mais dois anos, que a URSS seria dissolvida em 1991, que secaria a fonte de mesadas que garantira nos 30 anos anteriores a sobrevivência de Cuba, que na virada do século o patrocínio da ilha seria assumido pela Venezuela bolivariana — e se estenderia por quase 20 anos. Sempre foi impossível antecipar as espantosas proezas do líder que começou a revolução em 1956, ao desembarcar numa praia cubana com outros 81 combatentes. Estavam à espera do grupo tropas de Batista. Os 12 sobreviventes conseguiram refugiar-se na Sierra Maestra. Menos de três anos depois, o mundo se emocionou com as imagens dos jovens barbudos entrando na capital cubana pendurados em jipes e tanques, decididos a dar um jeito em problemas amedrontadores.

Havia em Cuba uma ditadura a sepultar, havia uma economia asfixiada pela monocultura da cana implorando pela diversificação e havia prostitutas demais em Havana. Neste julho de 2021, milhares de cubanos que lutam nas ruas pela liberdade democrática terão de retomar a missão portentosa. Há prostitutas demais em Havana, um oceano de canaviais no caminho da modernidade econômica e uma ditadura sexagenária a derrubar. O regime caquético terá alguns anos de sobrevida. Mas os atos de protesto deste julho, engrossados por multidões de jovens, podem ter antecipado para o outono caribenho a surpreendente anunciação da primavera.