AUGUSTO NUNES

AMANTE ARDILOSA

Gleisi finge enxergar um sucesso no fiasco do candidato do PT a prefeito de São Paulo

“Obrigada Jilmar Tatto e militância aguerrida do PT de S. Paulo. Defenderam o partido e nosso legado com coragem e dignidade. Engrandeceram o campo popular e de esquerda na capital, que irá mais forte e unido para o segundo turno, para eleger Boulos e Erundina”.

Gleisi Hoffmann, deputada federal e presidente do PT, conhecida pelo codinome Amante no Departamento de Propinas da Odebrecht, no Twitter, fingindo enxergar um sucesso no fiasco do candidato do partido a prefeito de São Paulo, que com 461.666 votos conseguiu ficar atrás de Bruno Covas, Guilherme Boulos, Márcio França, Celso Russomanno e e Artur do Val Mamãe Falei.

AUGUSTO NUNES

UM ASSASSINO PREMIADO COM A BOLSA DITADURA

Clemente (foto maior) e Márcio Leite de Toledo (destaque)

Márcio Leite de Toledo, paulista de Bauru, tinha 18 anos quando se engajou na Aliança Libertadora Nacional, organização de extrema esquerda fundada pelo terrorista Carlos Marighela. Tinha 19 quando foi enviado a Cuba para diplomar-se num curso intensivo de guerrilha. De volta ao Brasil em 1970, tinha 20 quando se tornou um dos cinco integrantes da Coordenação Nacional da ALN. Então com 19 anos, fazia parte do quinteto Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, o “Clemente”. Da mesma forma que o Paz da certidão de nascimento, o codinome Clemente contrastava com a alma perversa de um devoto da violência.

Em outubro de 1970, numa tensa reunião secreta, os componentes da Coordenação Nacional debateram o que fazer diante do assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, o Velho, que 11 meses antes substituíra o chefe supremo Marighela, fuzilado numa rua de São Paulo por um grupo de policiais liderado pelo delegado Sérgio Fleury. Convencido de que a ALN avançava com celeridade para a extinção, Márcio propôs aos parceiros do alto-comando uma pausa na guerra desigual. E pediu permissão para deixar o Brasil por alguns meses.

Clemente demorou dois segundos para concluir que Márcio era um desertor prestes a traí-los. Demorou duas horas para decidir que o companheiro pretendia entregar-se à polícia da ditadura e contar o muito que sabia. Demorou dois dias para convencer o restante da cúpula a avalizar seu parecer. Demorou um pouco mais para, com o endosso dos parceiros, montar um tribunal revolucionário, propor a pena capital e aprovar a sentença que, aos 20 anos, ajudou a executar numa rua de São Paulo.

Convocado para o que lhe parecia uma reunião de rotina, Márcio foi para o encontro com a morte no fim da tarde de 23 de março de 1971. Antes de sair do apartamento que lhe servia de esconderijo, o condenado que não tivera o direito de defender-se, e nem de longe suspeitava da tocaia, deixou um registro manuscrito: “Nada me impedirá de continuar combatendo”, prometeu-se. Não imaginava que fora proibido de continuar vivendo. Assim que chegou ao ponto combinado na região dos Jardins, foi abatido a tiros. Alguns foram disparados por Clemente, admitiu muitos anos mais tarde, numa entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, o terrorista em recesso.

O vídeo abaixo reproduz o trecho da conversa que transforma Clemente em assassino confesso. “Então nós fomos lá e cumprimos a tarefa”, diz o carrasco depois de resumir a decisão do tribunal revolucionário composto de três juízes com pouco mais de 20 anos de idade. “Você participou diretamente da execução, então?”, pergunta Geneton. Clemente assume a autoria do crime com a placidez de quem recita uma receita de bolo: “Essa é uma informação que até hoje eu não dei e, na verdade verdadeira, eu não dei também porque ninguém teve essa atitude de chegar e me perguntar diretamente”, divaga no preâmbulo com a expressão de coroinha que nunca roubou o vinho da missa. E então vai ao que interessa: “Participei, sim, da ação. A tiros… a tiros…”

Formada para vasculhar as catacumbas da guerra fria ocorrida durante o regime militar, a Comissão da Verdade dividiu os personagens do universo que lhe cumpria devassar em torturadores a serviço da ditadura e heróis da resistência. Uns merecem o fogo do inferno. Outros, a gratidão do país (e uma Bolsa Ditadura de bom tamanho). Em qual dessas categorias deveriam ser enquadrados Carlos Eugênio Coelho Sarmento da Paz e Márcio Leite de Toledo? O algoz pode alegar que a execução de um dissidente que também combatia a ditadura militar foi um acidente de percurso? Essa espécie de homicídio também foi anistiada? A família da vítima de um crime que o Estado não cometeu pode figurar na relação dos indenizados?

“O que quer o jornalista Augusto Nunes quando publica um artigo como este?”, quis saber o homicida aposentado em novembro de 2008, quando tornei a exumar o episódio infame. Muito simples: queria deixar claro que não há nenhuma diferença entre o torturador que matou Vladimir Herzog e o terrorista que executou Márcio Leite de Toledo. Ambos são assassinos. A Comissão da Verdade discordou. Márcio ficou fora da lista de mortos e desaparecidos divulgada no relatório final. Clemente ficou fora da relação dos responsabilizados por violências contra inimigos do regime. O assassino foi absolvido. A condenação ao esquecimento perpétuo consumou o segundo assassinato da mesma vítima. Os sherloques do passado, diplomados na escola do cinismo, decidiram que um terrorista podia tudo. Até matar o companheiro de luta armada. Haja canalhice.

Em 2010, candidato a deputado federal pelo PSB do Rio, Carlos Eugênio Coelho Sarmento da Paz juntou o prenome de batismo ao codinome “Clemente”, adotado pelo antigo militante da ALN, expropriou o título de “Combatente da Guerra e da Paz” e foi à luta no horário eleitoral da TV. Como o tempo era curto, Carlos Eugênio Clemente espalhou pela internet um perfil resumido: Um dos mais valentes e temidos líderes da Ação Libertadora Nacional, homem de confiança de Carlos Marighella, o líder daquela organização. Temidíssimo pela repressão por sua coragem, furou mais de cem cercos à bala, matou pelo menos seis militares em seus confrontos nas ruas e um empresário que colaborava financeiramente com a tortura. Hoje é professor de música da UFRJ.

Faltou dizer que o professor de música já não precisava trabalhar. Graças à indenização concedida pela Comissão de Anistia, sobraram horas ociosas para a campanha. O que faltou foi voto: conseguiu apenas 567. “Eu só tive alguns segundos na televisão”, balbuciou o náufrago das urnas. A campanha serviu ao menos para mostrar que o pupilo de Marighella aprendeu com o mentor “a beleza que há em matar com naturalidade”. O serial killer dos anos 70 sempre acreditou que “ser terrorista é motivo de orgulho”. Ao morrer, em junho de 2019, o alagoano nascido em 1950 desfrutava em Ribeirão Preto da vida mansa que lhe garantira a decisão anunciada na portaria número 34 de 3 de fevereiro de 2010:

Declarar CARLOS EUGENIO SARMENTO COELHO DA PAZ, portador do CPF nº 022.477.858-75, anistiado político, reconhecer o direito as promoções à graduação de Terceiro-Sargento com os proventos da graduação de Segundo-Sargento e as respectivas vantagens, conceder reparação econômica em prestação mensal, permanente e continuada no valor de R$ 4.037,88 (quatro mil, trinta e sete reais e oitenta e oito centavos), com efeitos financeiros retroativos da data do julgamento em 13.08.2009 a 14.08.1998, perfazendo um total de R$ 577.416,84 (quinhentos e setenta e sete mil, quatrocentos e dezesseis reais e oitenta e quatro centavos), nos termos do artigo 1º, incisos I e II, Parágrafo Único da Lei nº 10.559 de 13 de novembro de 2002.

Se estivesse vivo, o assassino que encerrou sem arrependimentos nem remorsos sua torpe passagem pelo planeta estaria assinando manifestos em defesa da democracia. Mas não haverá outro Clemente. Assim como os Buendía de Cem Anos de Solidão, também um crápula condenado a 50 anos de abjeção não terá uma segunda chance sobre a terra.

AUGUSTO NUNES

CEGUEIRA MALANDRA

Lula finge que a derrota do PT nas eleições foi uma grande vitória

“A extrema direita de Bolsonaro foi a grande derrotada nessas eleições. O fortalecimento da esquerda e de seus valores humanistas e de justiça social, mostra que reconstruir um outro Brasil, mais fraterno e solidário, é possível”.

Lula, no Twitter, fingindo não ter notado o fiasco protagonizado pelo PT, que conseguiu piorar a performance raquítica de 2016 ao eleger menos de 200 prefeitos.

AUGUSTO NUNES

AMANTE NA TORCIDA

Gleisi mostra que continua liderando a turma do quanto pior, melhor

“Quero ver qual desculpa que Bolsonaro e Guedes vão dar caso se confirme a projeção da FGV de que o Brasil terá desemprego acima da média em 2020 na comparação com os 10 países mais impactados pela pandemia. Acusar o PT não cola mais, vão ter que procurar outro inimigo imaginário”.

Gleisi Hoffmann, deputada federal e presidente do PT, conhecida pelo codinome Amante no Departamento de Propinas da Odebrecht, no Twitter, caprichando no papel de líder da turma do quanto pior, melhor.

AUGUSTO NUNES

CRIME É ISSO AÍ

Mercadante acusa Bolsonaro de fazer com a Saúde o que ele fez com a Educação

“Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade. A vacina vai levá-lo ao caminho do impeachment. Ele não pode continuar prejudicar o povo brasileiro, celebrando a morte”.

Aloizio Mercadante, sem explicar direito o que é crime de responsabilidade na cabeça de quem foi ministro da Educação de Dilma Rousseff e espanca a língua portuguesa sem misericórdia.

AUGUSTO NUNES

CHANCELER DE BOLSO

Celso Amorim mostra como funcionava a política externa da canalhice

“A derrota de Trump já é algo muito importante porque é não só o ídolo de Bolsonaro mas de vários líderes políticos. Ele acaba sendo um modelo para determinado tipo de comportamento que evoca o que há de pior no ser humano”.

Celso Amorim, chanceler do governo Lula, sem dizer se o comportamento “evocado” por Donald Trump é melhor ou pior que o invocado por seguidores de Nicolás Maduro e Fidel Castro, entre outros ídolos de Celso Amorim.

AUGUSTO NUNES

NUNCA HAVERÁ UMA PRIMAVERA COMO AQUELA

Os assombros daquela primavera começaram com a chuva de rã que teve como epicentro o jardim na frente da casa de Eulália Menon Montenegro. De pé na soleira da porta de entrada, com o semblante sereno de quem já não se surpreende com nada, ela olhava alternadamente para os pequenos objetos voadores que continuavam desabando na grama ou nas roseiras e para o sobrinho encolhido na cadeira de balanço austríaca, pálido de susto, com um gibi do Flash Gordon na mão direita, a esquerda agarrada ao braço de madeira e tentando decifrar o que estava acontecendo naquele fim de tarde de 27 de setembro de 1957. “Essa é a maior que já vi”, murmurou Eulália. Fez uma pausa e completou: “Quando chove rã, coisas estranhas acontecem em seguida”. Assim ela avisou que nunca haveria uma primavera como a de 1957, que começou com a tempestade de batráquios e prosseguiu com uma sequência de esquisitices, sempre envolvendo o céu, e acabou engolindo todas as estações seguintes até cessar, tão misteriosamente quanto chegou, no início da primavera de 1958.

Duas semanas depois da chuva de rã, soube pela minha mãe que a estrelinha que piscava no céu desde 4 de outubro era a primeira nave espacial lançada pelos comunistas russos. Não entendi direito por que a invenção do Sputnik 1 representava uma humilhação para os norte-americanos e uma ameaça à liberdade, mas alistei-me na guerra contra a Rússia e o restante da União Soviética ao descobrir que o Sputnik 2, com decolagem marcada para 4 de novembro, seria tripulado pela cadela Laika numa viagem só de ida. Vi nos jornais o olhar tristíssimo da cachorra condenada sumariamente à morte sem culpa e estava pronto para esquentar a Guerra Fria quando o povo do lugar quase caiu de costas com a cena de cinema: pendurada num paraquedas, uma cadela que só podia ser Laika saiu do meio das nuvens, aproximou-se sem pressa da superfície da terra, pousou na estradinha que começava onde as casas acabavam e foi recolhida por dois homens a bordo de um jipe que acelerou rumo a um destino ignorado. Os 10 mil moradores curaram a frustração com a certeza de que Laika não morreu. Voltou à Terra e aterrissou na cidade em que nasci.

Os meses seguintes produziram assombros sempre vindos lá do alto. Miniaturas de paraquedas desceram do céu com a regularidade de um voo comercial, para presentear meus conterrâneos com abridores de garrafas da Antártica; um paraquedista contratado pela prefeitura para abrilhantar a festa do aniversário da cidade saltando de um teco-teco e descendo bem no centro do campo de futebol foi traído pelos ventos e se enroscou de tal forma na mangueira do colégio das madres salesianas que só conseguiu chegar ao solo depois de socorrido por bombeiros de Araraquara; a imagem de Nossa Senhora refletida numa castigada lata de banha juntou no local do milagre uma multidão de devotos dispersada aos berros pelo padre Lourenço Cavallini; uma cratera de bom tamanho surgiu de manhã num trecho de terra que era plano até a noite anterior, provando que um disco voador visitara sem aviso prévio a Fazenda Paraguaçu; em setembro de 1958, enfim, um pequeno avião pousou na pista de terra da Fazenda Contendas – e Jânio Quadros apareceu em Taquaritinga. Entre tantas aparições estranhíssimas, nenhuma pareceu-me tão inverossímil. Ainda convalescendo do choque, ouvi meu pai comunicar que nós éramos janistas. Os outros, os adversários, esses eram ademaristas, pois o chefe da seita a que pertenciam se chamava Ademar de Barros.

A polarização, como se vê, nada tem de nova. A diferença é que nos anos 50, sobretudo nas pequenas cidades do Brasil, a temperatura política só rondava o ponto de combustão nas campanhas eleitorais. Antes e depois do tiroteio retórico nos comícios, os antagonistas praticavam com adorável naturalidade o convívio dos contrários. Mais: filhos de janistas e ademaristas dividiam todos os quintais – muitos se tornariam amigos de uma vida inteira – e mulheres dos candidatos rivais trocavam receitas enquanto os maridos trocavam chumbo verbal nos palanques. Se os líderes janistas e ademaristas fossem devidamente interrogados a respeito, talvez não conseguissem identificar as razões das desavenças. Em ambos os lados faltava um conjunto de ideias e princípios a defender ou a atacar. Havia apenas dois líderes populistas a venerar. “Confesso que tenho saudade do Ademar”, disse-me Jânio Quadros em 1980. Faz sentido: nenhum teria existido politicamente sem o outro. E nenhuma das seitas sobreviveu à morte física do sumo sacerdote. Quem vencia a eleição municipal, claro, garantia que governaria para toda a cidade, mas as coisas paravam por aí. Ninguém prometia, como agora é moda, “unificar” as tropas que regressavam do front.

Cabe a um candidato vitorioso pôr em prática o programa que defendeu, alcançar as metas que fixou e compreender que não se deve perder tempo com vinganças e desforras. A convivência civilizada depende dos eleitores: só existirá se ficar estabelecido que a democracia genuína é inseparável do convívio dos contrários. Os que sonham com a inexistência de gente que pensa diferente são órfãos de ditaduras à caça do regime de partido único. Todos os países livres (e mesmo os partidos) vivem divididos. Isso é da vida. O problema é enxergar em quem discorda um inimigo a exterminar. Mao Tsé-Tung, por exemplo, acreditava que “a política é a guerra sem mortos, e a guerra é a política com mortos”. Mais uma evidência de que o fundador da ditadura chinesa foi uma perfeita besta quadrada.

AUGUSTO NUNES

TCHAU, QUERIDO!

Lula descobre o que os brasileiros já descobriram há vários anos

“Agora tentam preparar uma chapa Huck/Moro. Cada hora inventam uma coisa. A única coisa que eles não admitem voltar é o PT e o Brasil da inclusão social. Basta ver meu habeas corpus que está há dois anos esperando julgamento. Porque politicamente pra eles não é conveniente”.

Lula, no Twitter, enfim chegando a conclusão de que qualquer coisa é melhor do que o PT.

AUGUSTO NUNES

MONTANHA DE BESTEIROL

Deputado do PT prova que o Congresso precisa de um curso de alfabetização de parlamentares cretinos

“Não é surpresa as manifestações de integrantes da famiglia Bolsonaro as manifestações transloucadas de Trump. Revelam sua sabujice e avançam em um processo de corrosão da democracia para criar um ambiente que justifique medidas autoritárias no Brasil. Vergonha pouca é bobagem!”.

Paulo Pimenta, deputado federal pelo PT gaúcho, conhecido pelo codinome Montanha no Departamento de Propinas da Odebrecht, no Twitter, provando com poucas palavras que é preciso instalar urgentemente no Congresso um curso de alfabetização de parlamentares cretinos.

AUGUSTO NUNES

O GÊNIO SOBREVIVEU À NULIDADE

O genial Nelson Rodrigues protagonizou tantos e tão admiráveis assombros que sobreviveu à morte física: seu último dia de vida foi também o da estreia na eternidade. O Nelson dramaturgo inventou o teatro com diálogos em português do Brasil. O ficcionista devassou o universo habitado por aquela que muitos anos depois seria batizada de “nova classe média”. O cronista que via a vida como ela é criou metáforas luminosas, frases imortais, imagens sublimes, personagens que resumem não o que os nativos gostariam de ser, mas o que efetivamente são. E o apaixonado por futebol descobriu, por exemplo, que “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. Fora o resto.

Quem usa a cabeça para pensar sabe que alguém assim talvez não caiba num livro com a espessura da Bíblia. O cérebro baldio de Dilma Rousseff achou possível espremer Nelson Rodrigues num parágrafo que irrompeu, sempre caindo de bêbado, no meio de qualquer discurseira sem pé nem cabeça. Por algum motivo misterioso, em setembro de 2012 ela deu de exumar, para tratar invariavelmente a pauladas, o escritor que teve a sorte de partir sem conhecer a doutora em nada. Dilma precisou de dois ou três palavrórios para deixar claro que nunca leu Nelson Rodrigues. Ou passou os olhos e não entendeu nada.

Em março de 2013, por exemplo, a presidente descobriu uma frase famosa de Nelson: “O escrete é a pátria em chuteiras”, reiterava o cronista quando se referia à Seleção Brasileira. Na gíria do futebol, escrete é sinônimo de time. Na cabeça avariada da inventora do dilmês, a pátria em chuteiras virou “a pátria de chuteiras”. Um mês mais tarde, Dilma fundiu a expressão mutilada e uma teoria celebrizada pelo cronista para incluir a maluquice na selva de vogais e consoantes que tentava louvar a Copa de 2014 e a seleção de Luiz Felipe Scolari. Reproduzido sem retoques nem correções pelo Portal do Planalto, o discurso improvisado por Dilma assassinou com requintes de selvageria Nelson Rodrigues, o raciocínio lógico e a língua portuguesa. Trecho:

“Uma outra coisa importantíssima surgiu no Brasil, importantíssima. E eu vou falar o que é. Ela está ligada, de uma certa forma, a uma crônica feita por um senhor que se tivesse nascido em qualquer lugar de língua inglesa seria considerada gênio lá. Ele fez uma crônica – ele chamava Nelson Rodrigues, ele era muito engraçado – ele fez uma crônica que chamava “Complexo de Vira-lata”. Ele dizia que – isso foi na época, se eu não me engano, do jogo com a Suécia, final com a Suécia, não tenho certeza, mas foi na final, um pouco antes da final com a Suécia – ele fez uma crônica que ele dizia o seguinte: que o Brasil tinha complexo de vira-lata e que ele não podia ter complexo de vira-lata, e que a equipe era boa, tanto que a equipe era boa que ela era boa tecnicamente, taticamente, fisicamente, artisticamente. Tanto é que nós dessa vez ganhamos a Copa. Mas ele sempre falava desse complexo de vira-lata que pode… a gente pode traduzir como um pessimismo, aquela pessoa que sempre acha que tudo vai dar errado, que ela é menor que os outros. E ele dizia uma coisa, e eu queria dizer isso para vocês. Ele dizia que se uma equipe entra… eu não vou citar literalmente, não, mas se uma equipe entra para jogar com o nome Brasil, se ela entra para jogar com o fundo musical do Hino Nacional, então ela é a pátria de chuteiras”.

Semanas depois, ao festejar em Brasília a reabertura do Estádio Mané Garrincha, Dilma emocionou-se com o monumento à ladroagem e espantou a plateia com uma triangulação envolvendo a oradora, o cronista e o artista do drible. Confira:

“O Garrincha, na sua simplicidade, era um jogador que demonstrou que o Brasil não era de maneira alguma, nem tinha por que, era um vencedor, e não tinha porque ter esse arraigado complexo de vira-lata que o nosso cronista esportivo Nelson Rodrigues, um dos maiores teatrólogos do nosso país, nas vésperas da Copa do Mundo, da Copa da Suécia, denunciou a existência pela quantidade de gente que previa um fracasso”.

Eis aí uma cretina fundamental!, teria exclamado Nelson se confrontado com a deformação delirante do que escreveu em 1958 – meses antes do início da Copa da Suécia, não às vésperas da final. O complexo de vira-lata se limitou ao País do Futebol. Surgido em 1950, quando a derrota na final contra o Uruguai transformou o brasileiro no último dos torcedores, o fenômeno foi revogado dez anos depois pelo triunfo na Copa da Suécia. Na Era PT, o que assolou estes trêfegos trópicos foi o oposto do complexo de vira-lata. Foi a síndrome do Brasil Maravilha, uma disfunção produzida por ilusionistas de picadeiro que induziu os muito malandros e os imbecis de nascença a enxergar um jovem ricaço no pobretão que trajava um fraque puído nos fundilhos.

Farsas desse gênero vicejam mais facilmente em terrenos adubados por velhas crendices. O brasileiro aprende ainda no útero que nossa bandeira é a mais bonita do mundo, embora ninguém se atreva a sair por aí combinando uma camisa azul e uma calça verde com o paletó amarelo. Aprende no berço que nosso hino é o mais bonito do mundo, muitos sustenidos e bemóis acima da Marselhesa. Aprende no jardim da infância que Deus é brasileiro, e portanto deve-se aguardar dormindo em berço esplêndido a chegada do futuro. Não é surpreendente que, no auge da popularidade de Lula, apenas 4% dos nativos tenham continuado a ver as coisas como as coisas são e a contar o caso como o caso foi.

Esses teimosos 4% seguiram vendo o Brasil em que metade da população estava excluída da rede de coleta de esgotos e distribuição de água tratada. Continuaram a enxergar a incompetência dos governantes, a inépcia dos oposicionistas, a corrupção endêmica, as fraturas do sistema de saúde, o sistema de ensino em frangalhos, os mais de 14 milhões de brasileiros incapazes de ler ou escrever, os incontáveis analfabetos funcionais, a economia à deriva, os morros sem lei, as fronteiras desguarnecidas, as organizações criminosas em expansão, a demasia de horrores a combater e tumores a extirpar. O rebanho seguiu balindo o mantra: se melhorar, estraga. O padrinho de Dilma fez de conta que todos os pobres tinham sido promovidos a gente de classe média. A afilhada de Lula fingiu ter erradicado a miséria. E os dois recitavam que só quem tinha complexo de vira-lata não conseguia contemplar a edição melhorada de Pasárgada parida pelo presidente que nunca leu um livro e aperfeiçoada pela presidente que jamais pronunciou uma frase com começo, meio e fim. Só poderia dar no que deu.

A síndrome do Brasil Maravilha apressou o parto da política externa da canalhice, fruto do cruzamento da soberba com a ignorância. Lula não viu diferenças entre os ódios milenares que separam árabes e judeus e a troca de desaforos numa briga de casal em Sapopemba. Por nunca ter folheado um livro de História nem dado as caras numa aula de Geografia, informou na Jordânia que, aos olhos dos brasileiros, “árabe é tudo turco”. Salvou-o o intérprete que certamente sabia o que ocorreu durante o Império Otomano. Por escassez de neurônios, Dilma Rousseff baixou por lá recomendando o diálogo com os psicopatas do Estado Islâmico. Gentis, os anfitriões evitaram sugerir-lhe que fizesse o primeiro contato. Entre nós: para uma Dilma, a perda da cabeça não faz falta alguma.

Gente que pensa há séculos se aflige com três enigmas: quem somos?; de onde viemos?; para onde vamos? Se tais perguntas forem formuladas num botequim do Brasil deste estranho 2020, ao menos uma resposta estará na ponta da língua de todos os frequentadores. Eles decerto ignoram quem somos e para onde vamos. Mas todos já sabem de onde viemos: do imenso buraco negro escavado durante 13 anos por um corrupto irrecuperável, uma nulidade insolente e um bando de comparsas vigaristas.

Daqui a 500 anos, como a maior parte da obra de Shakespeare, não estarão grisalhos os melhores momentos de 17 peças, 9 romances, 7 livros de contos e crônicas e milhares de artigos em jornais escritos por Nelson Rodrigues. O legado impede a morte de um gênio. A criatura que não sabe juntar sujeito e predicado logo estará enterrada, ao lado do criador, na vala comum das velhacarias históricas. Para Nelson Rodrigues, a seleção era a pátria em chuteiras, a dar botinadas em todas as direções. Dilma e Lula são a pátria de ferraduras. De ferraduras e pisoteando com ferocidade todas as formas de vida inteligente.