ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

SONETO DE DESPEDIDA

Novamente fechada está minha alma,
fugida a última ilusão dileta.
De novo a mão do gelo aqui se espalma.
Adeus! Volta ao silêncio e à sombra o poeta.

De minha alma no fundo de tua alma
fique apenas vibrando esta secreta,
inominada luz que é fúria e calma
e que aos céus e aos infernos me projeta.

De mim o puro Canto imaginado
leva contigo. Apague-se a voz rouca.
De ti não levo mais do que o sonhado…

O teu olhar no meu — volúpia louca!
Este incêndio em meus olhos derramado!
Esse gosto de estrela em tua boca!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

DOIS SONETOS

SONETO DAS MÃOS

Quando na minha a tua mão aperto,
enlouquecem-me todos os sentidos.
Na esquerda mão pendente o peito aberto
vejo-te então de anseios e gemidos.

Duas flores de pétalas esguias
aromando o vergel de teus cabelos.
Pentagramas iriais de meios-dias
luminescendo anelos e desvelos.

Langues lírios de lúcidos desmaios…
Fanam-se as minhas de seus longes maios,
no delicioso inferno de querê-las.

Mãos que sorriem sobrevoando escolhos…
No céu vertiginoso de teus olhos
as tuas mãos cintilam como estrelas!

* * *

SONETO DOS PÉS

Sói-se dizer dos pés das bem-amadas
que são pequenos, alvos e mimosos.
Ah! quantos, quantos versos mentirosos
tornam pés de pavões em pés de fadas!

Tu, grandes não nos tens, nem tão pequenos
(ouço o rumor festivo de teus passos)
que cansem de trazer-te até meus braços;
marfíneos também não, que são morenos.

Se mal os pinto no último quarteto,
é tão-somente, doce amiga, —juro!—
porque de todo inda os não vi descalços…

Não, não calques aos pés o mau soneto!
O sentimento que o ditou é puro,
por mais que os versos te pareçam falsos.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

SAUDADE

Que nostalgia nos chorosos, lentos
carros de boi monótonos da aldeia!
Que tristonha beleza nos rebentos
de meu sertão, à luz da lua cheia!

Recordo agora os rostos poeirentos
dos tropeiros da vila quieta e feia…
E o coração, revendo esses momentos,
de longínqua saudade se incendeia.

Repentino clamor de cavalgadas
na síncope noturna das estradas
vem devolver-me extintas emoções.

E no cheiro da terra e na ramagem
pressinto o rouco pássaro selvagem
que cantava nas minhas solidões…

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

ANGÚSTIA

Quando foge o luar, em noites silenciosas,
vem tomar-me uma angústia, um desespero enorme,
um desejo sem nome, um pesadelo informe
como o torvelinhar das grandes nebulosas.

Durma o corpo: adernado, o coração não dorme.
E debato-me em vão nas ondas voluptuosas
de um sonho dúbio: um céu de pedras e de rosas,
com promessas de luz no seio amplo e disforme.

E, como o mar se arqueia em busca do infinito,
ergo a mão para o céu, num desespero mudo…
Mas tudo foge, em roda, e estou só, louco e só.

O sonho se dissipa. E eis-me confuso, aflito,
vendo uma sombra má em cada canto, e em tudo
o olho morto de um sol que se desfaz em pó.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

SONETO DE ALFA E ÔMEGA

O teu amor é todo o meu conforto,
o cais a que recolho as minhas velas,
eu — capitão de rotas caravelas,
tu — senhora da noite, enseada e porto.

E, quando irrompe o sol e, rumo ao pego,
ao abismo da vaga ondeante e amarga,
enfuna as velas o meu barco, e larga,
é teu amor o mar em que navego.

Por cinco lustros já teu sol amigo
e tua noite —de outros sóis povoada—
vêm-me dando a jornada e dando o abrigo.

Assim tens sido para mim, querida,
o ponto de partida e o de chegada,
o amor que circunscreve a minha vida.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

MAR PROCELOSO

Meu coração é um pélago de amores
onde flutua o teu olhar sutil.
Oh! quem dera teus olhos fossem flores,
pétalas vivas a boiar no anil!

Desfeito em pranto, diluído em dores,
galguei da vida o ríspido alcantil.
E ao ver no espaço os astros teus cantores
toda a minha alma em lágrimas se abriu.

Ouvindo de teu canto as notas quérulas
o coração transborda-me dos olhos
e traz-me ao rosto um turbilhão de pérolas.

E, negro, na tormenta da ansiedade,
ergue as vagas, que tombam nos escolhos,
aos súbitos clarões da tempestade!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

MEU DESEJO

Embalei minha vida, meus afetos
nos olhos virginais de uma criança.
Embalei-me na cálida esperança
de abrasar-me em seus mares mais secretos.

Meus almejos revoam quais insetos
em torno à flâmea sina! E não se cansa
meu coração de arder naquela trança,
naqueles brandos olhos inquietos.

Eu quisera afogar-me nos seus prantos,
naufragar-me nas vagas de seus olhos,
sufocar-me de amor nos seus encantos!…

E, afinal, envolvê-la nestes cantos
que brotam de minha alma em santos óleos,
e aquecê-la ao calor de sonhos tantos!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

UM OLHAR

Aves de arribação, que passais tristes
e buscais o calor de novos lares…
aves de arribação, acaso vistes
as asas de um amor cortando os ares?

Se da esperança a voz sumida ouvistes,
se lágrimas de luz brotando aos pares
de ocultos arquipélagos sentistes,
nos vôos rente ao dorso azul dos mares,

dizei-me onde é que estão, porque são minhas!
…No entanto elas se foram, tênues linhas
já prestes no horizonte a mergulhar.

Não responderam… Nem sequer me olharam…
Mas diz o coração — que naufragaram
na profundeza de um celeste olhar.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

LASCIVA EMBRIAGUEZ

Lasciva embriaguez da poesia,
da música e do amor! uma só cousa
sois vós para quem quer, para quem ousa
o mergulho na vaga fugidia

que é o impulso da vida. Fugidia
mas constante, um arder que não repousa,
que desconhece o falso estar da lousa,
que funde o ser na sempiterna via.

Ó lasciva embriaguez, toma-me os passos
e deixa-me sonhar pelos espaços
do Ser, indiferente à realeza

da fortuna e da glória, inteiro e salvo
de toda circunstância, que é teu alvo
o coração fremente da Beleza!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

CANÇÃO DE AMOR

O perfume do sândalo trescala
nos teus lábios, que falam de alegria.
Fitas-me… e ouço uma ardente melodia…
É a voz do amor, que nos teus olhos fala!

É a música do céu, maviosa e pura,
que da luz das estrelas se reveste
e canta e voa na região celeste
e desce à terra e em teu olhar murmura!

É uma suave canção que se desliza
nas curvas de teu corpo, soluçante,
e de repente, ardendo, se encapela!

É tua alma de luz dizendo à brisa
que a vida é um oceano palpitante
e o nosso amor é um barco na procela!