ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

MEU DESEJO

Embalei minha vida, meus afetos
nos olhos virginais de uma criança.
Embalei-me na cálida esperança
de abrasar-me em seus mares mais secretos.

Meus almejos revoam quais insetos
em torno à flâmea sina! E não se cansa
meu coração de arder naquela trança,
naqueles brandos olhos inquietos.

Eu quisera afogar-me nos seus prantos,
naufragar-me nas vagas de seus olhos,
sufocar-me de amor nos seus encantos!…

E, afinal, envolvê-la nestes cantos
que brotam de minha alma em santos óleos,
e aquecê-la ao calor de sonhos tantos!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

UM OLHAR

Aves de arribação, que passais tristes
e buscais o calor de novos lares…
aves de arribação, acaso vistes
as asas de um amor cortando os ares?

Se da esperança a voz sumida ouvistes,
se lágrimas de luz brotando aos pares
de ocultos arquipélagos sentistes,
nos vôos rente ao dorso azul dos mares,

dizei-me onde é que estão, porque são minhas!
…No entanto elas se foram, tênues linhas
já prestes no horizonte a mergulhar.

Não responderam… Nem sequer me olharam…
Mas diz o coração — que naufragaram
na profundeza de um celeste olhar.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

LASCIVA EMBRIAGUEZ

Lasciva embriaguez da poesia,
da música e do amor! uma só cousa
sois vós para quem quer, para quem ousa
o mergulho na vaga fugidia

que é o impulso da vida. Fugidia
mas constante, um arder que não repousa,
que desconhece o falso estar da lousa,
que funde o ser na sempiterna via.

Ó lasciva embriaguez, toma-me os passos
e deixa-me sonhar pelos espaços
do Ser, indiferente à realeza

da fortuna e da glória, inteiro e salvo
de toda circunstância, que é teu alvo
o coração fremente da Beleza!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

CANÇÃO DE AMOR

O perfume do sândalo trescala
nos teus lábios, que falam de alegria.
Fitas-me… e ouço uma ardente melodia…
É a voz do amor, que nos teus olhos fala!

É a música do céu, maviosa e pura,
que da luz das estrelas se reveste
e canta e voa na região celeste
e desce à terra e em teu olhar murmura!

É uma suave canção que se desliza
nas curvas de teu corpo, soluçante,
e de repente, ardendo, se encapela!

É tua alma de luz dizendo à brisa
que a vida é um oceano palpitante
e o nosso amor é um barco na procela!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

DISFARCE

Eu cantarei de amor tão loucamente
que nos sentidos meus porás cuidado:
terei o olhar no teu olhar dobrado,
cantos verei na tua voz silente.

Dir-me-á de ti o teu perfume alado
como um anjo de vôo impenitente.
Mas eu direi melhor de ti, somente
com teu nome espalhar por todo lado.

Tu sorrirás, decerto: “Que tolice!
Como pode esse insano embriagar-se
de palavras de amor que eu não lhe disse?”

E eu tudo te direi, sem dizer nada.
Nem será, meu falar, mais que o disfarce
do silêncio de uma alma enamorada.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

DE NOVO O AMOR

De novo o amor e suas esquivanças,
na ardente-ocídua luz do fim do dia.
De novo o amor, trazendo a esta invernia
um fogo todo feito de esperanças.

Retorna amor! Com um raio me alumia
o poço desolado das lembranças.
Como o astro solitário das mudanças,
exibe a ardente, e oculta a face fria…

Qual o pássaro Fênix, renovado,
de minhas próprias cinzas me alço, leve.
Ah! mortal já não sou! Extinto é o fado!

E a asa cansada ao voo inda se atreve,
se de uns olhos o incêndio derramado
ateia um sol no coração da neve!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

À MODA ANTIGA

Eu lhe daria, à moda antiga, um beijo,
e, à moda antiga, ela enrubesceria.
Depois, tão longo o dia duraria
quão breve a noite para o meu desejo.

Serás a lira, amada (eu lhe diria,
todo imerso num sonho benfazejo);
serei o vento a desferir o arpejo.
Serei o sol… serás a cotovia.

Tu sorrindo em meus olhos, eu sorrindo
nos teus, e ambos ansiando, ambos fremindo
ao luar, sobre a relva, à moda antiga…

E a vida passaria tão de leve
que a continuaria a morte, em breve,
como uma doce e acolhedora amiga.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

DIA APÓS NOITE

Vendo o azul, que dilúculos augura,
da madrugada, e a mágoa do sol-posto,
quedo-me triste, e penso, com desgosto:
O mesmo céu que é berço é sepultura.

Assim também, um dia, no teu rosto,
nos teus olhos de cálida brandura,
vi tua alma a acenar-me, inda mais pura
sob o véu do cabelo descomposto.

Como a noite, porém, sucede a aurora,
tu me fugiste, e a luz, que me envolvia,
nas trevas se tornou em que ando agora.

Retorna entanto o sol, que antes morria.
E a minha alma, por isto, já não chora,
mas espera o raiar de um novo dia.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

CÂNTICO

Quero-te as mãos ensolaradas
nas minhas pobres mãos escuras,
que as minhas mãos são sepulturas
e as tuas mãos são alvoradas.

Quero-te os olhos, prematuras
luas num claro céu plantadas,
dentro em meus olhos, enseadas
noturnas onde, alta, fulguras.

Quero-te os lábios, favos doces
de etéreo mel, sobre os meus lábios.
Quero-te assim como se fosses

estrela azul e noite eu fora,
estrela ignota aos astrolábios,
que de meu céu, e só, pastora.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

JESUS

I

Noite clara em Belém. Canta em surdina
o luar no firmamento constelado.
Natal – noite de luz, noite divina.
Cristo – um lírio na treva do pecado.

Brilha agora, no céu da Palestina,
meigo, intenso clarão abençoado:
do espaço, a Estrela aos simples ilumina
o berço do Senhor recém-chegado.

Os Reis Magos e os cândidos pastores
dão-lhe incenso, ouro e mirra, hinos e flores…
E o Menino, alegrando-se, sorria.

José fitava o céu, todo ventura.
E as estrelas, chorando de ternura,
cintilavam nos olhos de Maria.

II

Filho de Deus, lançando entre a alcatéia
dos homens a lição da Caridade,
prega Jesus, além da Galiléia,
o Evangelho do Amor e da Verdade.

A sua Voz os simples persuade
e lega ao mundo a luminosa Idéia,
para sofrer o insulto da vaidade
e a amarga ingratidão da gente hebréia.

Enfim, vergado à traição de Judas,
chora Jesus, interiormente, mudas
lágrimas de agonia, de desgraça…

– Senhor! se a Terra inda é mais vil agora,
se não se iluminou da tua aurora,
por que bebeste o fel daquela taça?