ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

SONETO DOS LÁBIOS

Finos, firmes, sensuais, no entanto plenos
de espiritualidades misteriosas,
desenham-se os teus lábios como rosas
nas rosas do teu rosto almo e sereno.

Violetas ou rubis, conforme coras
ou descoras na sucessão dos dias,
são teus lábios, nas horas de alegria,
róseos, rubros, rorados – como auroras.

Se tu falas, – são zéfiros tremendo.
Se tu cantas, – enfloram-se de alados,
doces bandos de pássaros nascendo.

Vermelho céu de estrelas pequeninas…
Se os beijo, amor, são como um céu fechado
– que um sorriso, de súbito, ilumina!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

À MARGEM DO TEMPO

As eras que passaram têm o encanto
de uma atmosfera azul de fantasia,
que aumenta os breves surtos de alegria
e apaga as rugas que fizera o pranto.

Por isso, quando os portos do passado
demandamos, na etérea nau da mente,
sentimo-nos levados, de repente,
a imprevisto e fantástico Eldorado.

O tempo inda por vir também descerra
uma encantada e deslumbrante aurora…
E apenas isto o exílio sobre a Terra

mais suportável torna, e menos duro:
a transfiguração feliz do outrora
e a esperança bendita do futuro.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

A UM SOLITÁRIO

Habitante da noite, espantos ladras
e à lua cheia angústias fundas uivas.
Os altos risos das estrelas ruivas
no torvo olhar de solitário enquadras.

Mas, por mais que as dianteiras patas juntes,
não te socorrem no atrevido intento
nem os anjos senis no firmamento
nem na terra os estúpidos transeuntes.

Ninguém te entende os íntimos arcanos;
mas, se o tentam acaso alguns insanos,
ninguém te estende as mãos que lhas não mordas.

E contrafeito comes – ou deliras? –
tua ração de raiva enquanto atiras
o magro olhar para as estrelas gordas.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

SERESTEIRO

Contemplando-a do céu, sem compreendê-la,
a ofuscar das estrelas o disperso,
tênue clarão, a lua, eterna vela,
singra o céu claro, como um claro verso.

Ah! pudesse eu vogar como uma estrela
nas paragens divinas do universo,
e toda noite espiá-la, da alta umbela,
todo na sua alva nudez imerso!

Seresteiro de branca primavera
eu seria, a sonhar num céu bendito!
desceriam meus versos da alma esfera

celeste ao seio dela, e eu junto, aflito,
ardendo na volúpia da quimera,
me atirava das grimpas do infinito!

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

CÁCTUS

Quando a última ilusão se for, perdida
no deserto brumoso do passado,
onde é, como este cáctus desolado,
roxa saudade, apenas, permitida;

quando tu e a desgraça lado a lado
marchardes, sem conforto e sem guarida,
canta, minha alma, canta, pela vida,
inda que um canto apenas balbuciado.

Canta. Canta, e recorda: que a saudade
é o cáctus doloroso do deserto,
que, tocado, nos fere sem piedade:

mas sob a crosta enrijecida e morta
dorme um gênio acre-doce, que, desperto,
dessedenta, suaviza e reconforta.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

DENTRO DE TI

Existir fora de ti
é quase igual que não ser.
Melhor fora não querer
teu amor que andar assi.

Nada esperar, ou esquecer
o tudo que és para mi;
que desde quando te vi
minha vida é um desviver.

Nada ter e não sonhar;
ou ser só… o teu olhar!
ser mais tu mesma do que eu!

Que, a viver qual vivo aqui,
antes fora um sonho teu:
vivera dentro de ti.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

ARCANO

Cai o luar na terra, docemente,
embalsamando a plácida cidade.
E penetra em meu seio, lentamente,
um misto de esperança e de saudade.

Vem a noite apagar sob o clemente
manto de sombra as sombras da vaidade.
Iluminas-me, ó noite erma e silente,
de uma interior, divina claridade!

Para a minha alma, quando morre o dia,
em vez de espectros de funérea voz,
surge, da tarde à plácida agonia,

um turbilhão de risos e de sóis,
e do arcano da treva se irradia
um hino de longínquos rouxinóis.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

UM PURO AMOR

Busque eu num puro amor força e sustento
com que tanta paixão manter nutrida,
para tão longa noite amanhecida
bem cedo ver em canto e luzimento.

Mas viva eu antes de uma esp’rança ardida,
e espere, e sonhe, e já não tenha alento:
que é do amor o primeiro mandamento
morrer de amor, por merecer-lhe a vida.

E alfim, Senhora, aos vossos pés curvado,
vencido e vencedor, possa eu dizer-vos
de meu sofrido amor o fado incerto:

o inferno que sofri por merecer-vos,
tão longe o coração amargurado
quanto o quisera ter aqui bem perto.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

PESADELO

Não sei que torvo ser, que espírito insolente,
que tenebroso gênio evadido às florestas
em visionária noite acorda-me funestas
multidões que a dormir jaziam-me na mente.

Toscas aparições de atormentadas testas
com um olho só a olhar alucinadamente,
braços avulsos, mãos em garra, de repente,
caíram-me de mim — rindo impudentes estas,

aquelas a estender-me uns dedos asquerosos,
gritando, escancarando as fauces, fulminando
meu roto coração com seu olhar nefando.

E, à luz tentacular de globos pavorosos,
abre-me o pesadelo as portas, lado a lado,
mostrando-me a espantosa imagem do Pecado.

ANDERSON BRAGA HORTA - SONETO ANTIGO

CATALEPSIA

Noite. Em repouso, as flores e as serpentes.
Tudo na mesma quieta letargia.
Todas as forças de Natura fria
se escondem, catalépticas, latentes.

Sim, todas as potências na sombria
noite descansam, para enfim aos entes
dar solidárias luzes esplendentes,
na mesma formidável sinergia!

O espírito, cansado, no abandono
abisma-se de um caos de longas calmas,
nas dobras de noturnas solidões…

exsurgindo afinal do estranho sono
no coletivo despertar das almas
para as eternas iluminações!