ANA PAULA HENKEL

QUEM É SAUL ALINSKY, MENTOR DE BARACK OBAMA

Há um ano, morria Olavo de Carvalho. A esquerda brasileira festejou. Até aí, nenhuma surpresa. A turma da tolerância e do amor sempre festeja a morte de seus oponentes políticos ou ideológicos. Mas Olavo não era apenas um oponente ideológico, isso colocaria o professor em uma camada muito superficial no campo das ideias. Olavo estava bem acima das etiquetas, caixinhas ideológicas ou frases de efeito político. Esse Olavo provocador, desbocado e que irritava os militontos era o Olavo das redes sociais que muitos teimavam em retratar como o único Olavo. No entanto, o Professor Olavo só era conhecido por aqueles que viveram – vejam que eu não disse “leram”, mas viveram – sua obra. Seja através de seus livros, artigos, palestras, cursos de filosofia e riquíssimos vídeos espalhados pela internet, a obra de Olavo de Carvalho não é para ser lida ou assistida, mas vivida. E o poder dessa obra sempre foi a razão pela qual muitos tentaram destruir sua reputação. Olavo não era apenas um caçador de hipócritas, mas um revelador de verdades.

Olavo de Carvalho

Há exato um ano, eu publicava aqui no JBF minha homenagem àquele que me tirou da zona de conforto, que me fez pensar e me deu mais perguntas do que respostas em muitas ocasiões. Olavo me apresentou um mundo – e seus personagens e seus disfarces – através de páginas da história que eu jamais poderia pensar em entrar sozinha. Mas, como eu mencionei naquele artigo, eu não estou aqui para convencer as pessoas a gostarem de Olavo de Carvalho e, por isso, em 29 de janeiro de 2022, escrevi: O mergulho em sua obra, e não no personagem politicamente incorreto das redes sociais, é um mergulho que faz parte de uma decisão pessoal. O que eu posso dizer é que quem leu uma obra do escritor entende que ele foi um homem à frente do nosso tempo. Muito além do barulho vazio das discussões supérfluas das tóxicas plataformas sociais. Mas, como disse, não estou aqui para te convencer nem sequer a ler um artigo ou um livro do professor. Essa é uma viagem individual com passagem só de ida. É uma decisão extremamente particular exatamente por ser uma viagem sem volta.

No texto de um ano atrás, conto em detalhes como fui fisgada – sem volta – pela sabedoria e pelas perspectivas do professor sobre a vida como um todo. Em uma passagem pela sua obra, fui “obrigada” por Olavo, e confesso que de uma maneira bem incômoda, a encarar a mentira fofa que é Barack Obama. Lembro-me muito bem do meu choque com a realidade e pensei: “Como assim? Obama pode ser do partido democrata, mas é moderado, um social-democrata…”. Ledo engano. Lendo um texto em que ele desnudava o queridinho do mundo moderno, não foi fácil conceber em sua totalidade a farsa que Barack Obama foi e é. No entanto, tudo, absolutamente tudo começou a fazer sentido (Olavo nunca te dá todas as peças do quebra-cabeça de uma só vez!) depois que fui apresentada ao mentor de Barack Obama: Saul Alinsky. Mas quem é o homem por trás do homem mais querido e hipócrita da atual América? Para entender muito do cenário político nos Estados Unidos – e também no mundo -, é preciso entender quem foi Saul Alinsky e como suas lições e legado ainda conduzem boa parte da atual esquerda norte-americana, pauta a mídia e cria tentáculos tão perigosos que alcançam nossas crianças.

Para conhecer o mentor não apenas de Barack Obama, mas também de Hillary Clinton, é preciso voltar um pouco no tempo. Em 1892, a Universidade de Chicago havia lançado seu programa de Sociologia, e que tinha como foco o estudo das comunidades mais pobres de Chicago, onde abundavam organizações criminosas. Sua doutrina baseava-se na afirmação de que “a verdade e o significado eram conceitos construídos”, que podiam ser coletados, compreendidos e manipulados pelos sociólogos para “reconstruir a ordem social” com base no controle das forças sociais por meio de agentes de mudança.

O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama

Influenciado por isso, em 1926, um jovem de família judia, Saul David Alinsky, ingressou na faculdade de sociologia da Universidade de Chicago. O jovem Alinsky dedicou-se a pesquisar os fatores sociais que levavam ao alcoolismo, à prostituição, à pobreza e à delinquência, campo conhecido como “patologia social”. Em uma época conturbada nos EUA – durante o famoso período da Lei Seca e das gangues, como a de Al Capone, tão visitado e imortalizado em dezenas de filmes de séries de TV -, Alinsky viu o crime como uma das raízes da patologia social estudada na Universidade de Chicago. Em 1972, em uma entrevista a uma importante revista, declarou que sua tese de doutorado tinha como objeto a quadrilha de Al Capone: “(…) Atualmente, através de diversos contatos políticos, encontro-me em condição de observar os problemas do crime como o tráfico de bebidas, apostas, prostituição etc.; bem como a corrupção implementada e aceita pela cidade para permitir a operação desses crimes”.

Nessa entrevista, o próprio Alinsky declararia que, para desenvolver sua “pesquisa”, ele convenceu integrantes da máfia de Al Capone de que poderia ser uma espécie de “intérprete” dos métodos da gangue para o mundo exterior, sendo apresentado a ninguém menos do que Frank Nitti, então o número dois da organização criminosa e conhecido como “O Executor”, por usar métodos bárbaros de tortura e morte contra seus inimigos. Na mesma entrevista, Alinsky disse: “Nitti me pôs sob sua proteção. Eu o chamava de professor e me tornei seu aluno. Os rapazes de Nitti me levavam para todos os lugares”. Tutti buona gente.

Os “rapazes de Nitti” eram os mais sanguinários executores de Chicago da época, e até as forças policiais tinham medo de qualquer confronto com a “famiglia” de Al Capone. Pois era exatamente com eles que andava Saul Alinsky. E foi com eles, e especialmente com seu “professor” Frank Nitti, o braço direito de Al Capone, que Alinsky desenvolveu as ideias de sua “revolução social” que seriam condensadas e apresentadas em um livro intitulado Regras Para Radicais: Uma Cartilha Pragmática Para Radicais Realistas. Nas primeiras páginas, o autor dedica sua obra a Lúcifer: “O primeiro e verdadeiro radical conhecido pelo homem, que se rebelou contra a ordem estabelecida e fez isso com sucesso o bastante para ter seu próprio reino, foi Lúcifer.”

Saul Alinsky

O documentário “A Wolf in Sheep’s Clothing”, sobre a vida de Alinsky, mostra até que ponto seus tentáculos se espalharam no funcionamento filosófico dos Estados Unidos, infiltrando-se também na Igreja Católica e semeando as sementes da polarização política que vemos tão difundidas agora. O produtor do documentário, Richard Payne, que estudou a vida de Alinsky profundamente, afirma que o mentor de Obama foi realmente central para as profundas convulsões dentro da Igreja: “Toda a sua visão da realidade quebra os princípios fundamentais do ensinamento moral católico, de que o fim não justifica os meios. A Igreja em Chicago comprou e apoiou seu trabalho, e isso teve um impacto profundo na década de 1960 nos projetos de cuidado com os pobres. Ele desenvolveu afiliados e organizadores comunitários em todo o país, teve grande influência nas organizações, e muitos movimentos modernos são financiados por indivíduos treinados em Alinsky, pessoas que alimentam as chamas da violência para a obtenção do controle social”.

Outro ponto bastante interessante nesse documentário é que ele mostra de maneira muito clara a mudança de tática da extrema esquerda. Em 1919, Lenin desenvolveu o instituto marxista, que se afastou das formas brutais do marxismo dos soviéticos para um movimento mais “clandestino”, menos “óbvio”, porém devastadoramente eficaz. E a Escola de Frankfurt, outra rica fonte de Saul Alinsky, desempenhou um papel essencial nessa revolução, trazendo elementos como a rebeldia e a liberdade sexual, baseadas no pansexualismo de Freud, que no fim dos anos 1930 e 1940 foram fundidas com movimentos que mais tarde criariam exatamente a revolução de gênero. Tudo isso influenciou profundamente Alinsky, que por sua vez desenvolveu mecanismos modernos que moldam os movimentos sociais e as ideologias de hoje.

Embora a Escola de Frankfurt fosse neomarxista, muitos de seus adeptos estavam menos interessados em economia e redistribuição de riqueza do que em refazer e transformar a sociedade por meio de mudanças culturais e de atitude. Eles incorporaram a teoria de classe marxista à sociologia e à psicologia, ao mesmo tempo em que assimilaram as teorias de Freud sobre a sexualidade. Assim, a teoria de Marx da dialética do conflito perpétuo foi unida às ideias neuróticas de Freud, criando uma espécie de movimento “freudiano-marxista”. O objetivo declarado era uma transformação total da sociedade, quebrando as normas e as instituições tradicionais, como as relações monogâmicas e a família tradicional. Isso deveria ser conseguido promovendo e legitimando a permissividade sexual desequilibrada sem restrições culturais ou religiosas.

Seria praticamente impossível falar de Saul Alinsky, da Escola de Frankfurt e de sua péssima, porém profunda influência na atual sociedade em um artigo apenas. Por isso, neste primeiro aniversário de morte do Professor Olavo de Carvalho, recomendo vivamente seus vídeos sobre o tema, para entendermos o que está acontecendo com o Brasil e o mundo, e que vai muito, mas muito além da política, para que possamos encontrar as armas corretas nessa guerra.


Olavo conseguiu nos tirar da inércia política em um país que era ignorante, sem cultura e sem o verdadeiro aprofundamento no que – de fato – molda sociedades. O professor conseguiu nos tirar da inércia política em um país que era ignorante e sem cultura. Despertar esse caminho nas pessoas é um dom que poucos têm. Por isso, ele era rejeitado e difamado por seus detratores. Uma vez aberta a porta para as obras do escritor, essa porta daria entrada para um vasto mundo de independência intelectual. Olavo não era um professor, Olavo era um mestre. Continuaremos, professor. Sabe quando vamos parar? Nunca. Seu legado vive!

ANA PAULA HENKEL

O VÉU DA ‘CERTEZA MORAL’

No best-seller A Visão dos Ungidos (The Vision of the Anointed), o escritor e economista Thomas Sowell – e um dos maiores pensadores norte-americanos contemporâneos – observa que um grupo de elite, sem ter sido nomeado por ninguém, há alguns anos resolveu declarar sua moralidade superior e seu papel crítico na “correção dos erros da sociedade”. Publicado em 1996, o livro mostra ser incrivelmente relevante hoje, mais de duas décadas após sua publicação. Os atuais ungidos continuam a ter a arrogância de acreditar que é seu papel, com sua visão e ideias superiores, resgatar as vítimas da “opressão” da sociedade, impondo sua vontade coletiva sobre os outros.

Como explica Sowell, os ungidos – uma classe composta de membros de instituições, mídia, acadêmicos e políticos progressistas de elite – acreditam piamente que seu papel é resgatar classes vitimizadas e desprivilegiadas e, hoje, proteger o meio ambiente e salvar o planeta terra, mesmo defendendo ideias estapafúrdias e sem nenhum contexto científico. Seu mecanismo-padrão para corrigir as injustiças é, claro, invariavelmente o Estado. Sowell apresenta uma crítica devastadora da mentalidade por trás das políticas sociais progressistas fracassadas durante três décadas e aponta que o que aconteceu durante esse tempo não é uma série de erros isolados, mas uma consequência lógica de uma visão maculada cujos defeitos levaram a crises na educação, na dinâmica familiar, nos índices de criminalidade e outras patologias sociais. Nesse livro, ele descreve como as elites – os ungidos — substituíram os fatos e o pensamento racional por afirmações retóricas, alterando assim o curso de nossa política social.

A Visão dos Ungidos (The Vision of the Anointed), livro de Thomas Sowell

Um dos pontos mais importantes para os ungidos é protegerem-se do escrutínio sobre fatos e políticas com o véu da “certeza moral” que também os torna altamente resistentes às evidências. Ciência? Fatos? Oh, details. Alexandria Ocasio-Cortez, membro da atual Câmara dos Deputados nos EUA (House of Representatives) e da casta de ungidos, recentemente disse em uma entrevista: “Acho que há muita gente mais preocupada em ser precisa, factual e semanticamente correta do que em ser moralmente correta”. A declaração da representante da extrema esquerda do atual radical Partido Democrata demonstra perfeitamente a tendência dos ungidos de se verem “moralmente em um plano superior”. Sowell diz em sua obra que muitas vezes é inútil tentar corrigir aqueles que adotam tal mentalidade, uma vez que “aqueles que discordam da visão predominante dos ungidos são vistos não apenas como estando em erro, mas em pecado”.

Os ungidos, de acordo com Sowell, devem também se recusar a aceitar que seus oponentes ideológicos compartilhem compaixão por grupos marginalizados – muitos marginalizados propositalmente por eles para que sejam usados apenas como conduíte de suas ideias. Se os ungidos reconhecessem que a compaixão e o cuidado são compartilhados por ambos os lados, essas emoções perderiam sua força política e sua força de ação e coação. O monopólio da compaixão é a plataforma sobre a qual eles colocam sua superioridade moral.

O livro de Sowell mostra de maneira não apenas brilhante, mas atual, que os ungidos fazem de tudo para silenciar ou ignorar a razão e as evidências – inclusive científicas – e, em vez disso, concentram-se em acusações de intenções sinistras de seus oponentes. “O que é notável é como poucos argumentos são realmente envolvidos em fatos e quantos substitutos para os argumentos existem”, observa Sowell. Talvez o mais preocupante seja que os ungidos tenham infestado os centros de poder mais significativos da sociedade. A “elite intelectual” é hoje dominada por essas figuras, incluindo a mídia de massa, a política e governos pelo mundo, muitos com grande influência na determinação do curso seguido por toda uma sociedade desde as escolas dos filhos.

O livro de Sowell de 1996 faz uma impressionante conexão com a real sociedade mundial em 2023. Se prestarmos atenção nos últimos anos, notaremos a óbvia natureza invertida da linguagem moderna. Praticamente tudo é precisamente o oposto do que os ungidos afirmam ser. As pessoas que dizem defender a democracia promovem o autoritarismo disfarçado de bondade, afinal, eles podem sufocar e até matar a democracia com a desculpa de que trabalham para salvar a democracia.

Thomas Sowell

Nesta semana, os ricos e poderosos viajaram para a bela cidade de Davos, na Suíça, para o Fórum Econômico Mundial anual. Dezenas e dezenas de jatos particulares pousaram na humilde cidade suíça com o intuito de reunir a nata – os ungidos – da elite global para que possam traçar estratégias para salvar nossas pobres almas de nós mesmos. Sim, eu disse jatos particulares. Desculpe, não entendi – você disse o quê? Poluição? Emissão de gases? Não, amigos. Vocês não estão entendendo: essa é uma emissão de gases poluentes do bem, para o nosso bem. Gás ruim, de acordo com os ungidos, só os puns das vacas. Isso, sim, precisa acabar! E daí que o Greenpeace publicou um estudo das viagens de jato particular do ano passado para a cúpula anual na cidade suíça de esqui e descobriu emissões de carbono equivalentes a “cerca de 350.000 carros médios”? As vacas precisam de fraldas para estancar esse gás nocivo do pum delas!

O Brasil mandou ao fórum globalista a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e Fernando Haddad, ministro da (err) Economia. Ah, é… É Fazenda agora, não é mesmo? O ministro da Fazenda do presidente do sítio! Perfeito. Ele pode dar um jeito nos puns das vacas! Como não pensamos nisso antes?! Mas já vamos avisando aos ungidos de Davos que só podemos emprestar o Haddad apenas depois de resolvermos nosso problema levantado pela ministra do Meio Ambiente para todo o mundo ver: os nossos 120 milhões de pessoas famintas no Brasil. Não, não há “agência de checagem” em Davos. Totalmente desnecessário. Tudo o que eles dizem é verdade. Gastar tempo e dinheiro com “Fact checkers” enquanto vacas soltam pum e vamos morrer por isso. Só vocês mesmo querendo “checagem de declaração”, coisa de fascista. Eu, hein…

Marisol Argueta de Barillas, Fernando Haddad e Marina Silva no Fórum Econômico Mundial de Davos

Os EUA mandaram John Kerry, enviado presidencial especial para o clima, que rasgou elogios aos participantes da reunião anual por tentarem salvar o planeta. Kerry caracterizou os esforços para combater as mudanças climáticas e salvar o planeta como “quase extraterrestres”. Ele também minimizou as críticas que foram feitas contra o ativismo climático, observando que “a maioria das pessoas” acredita que ele e os outros participantes do fórum mundial são apenas “loucos” abraçadores de árvores: “Quando você começa a pensar sobre isso, é bastante extraordinário que nós – grupo seleto de seres humanos, por causa de tudo o que nos tocou em algum momento de nossas vidas – somos capazes de nos sentar em uma sala e nos reunir e realmente conversar sobre salvar o planeta. Quero dizer, é quase extraterrestre pensar em salvar o planeta”. Quase escorreu uma lágrima aqui.

Kerry, que fez o discurso durante uma sessão do Fórum intitulada “Filantropia: um catalisador para proteger nosso planeta”, acrescentou que “seres humanos adultos supostamente sábios ainda querem ignorar a ciência, a matemática e a física das mudanças climáticas”. Ele também disse que metade das espécies na Terra já foi morta, uma aparente referência a um estudo de 2020 que previa que o aquecimento global eliminaria metade das espécies animais e vegetais do planeta até 2070. Discurso parecido com o do Al Gore, lembram? O ex-vice-presidente de Bill Clinton e ativista ambiental (leia-se “ecoterrorista”) dos EUA que fez um documentário (An Inconvenient Truth) e encheu a mídia mundial com a narrativa catastrófica de que as camadas de gelo no Ártico estariam praticamente derretidas em meados de 2013. Sim, ele também estava lá e, sim, ele também foi com o seu jatinho particular, afinal, alguém precisa emitir gases poluentes para salvar a humanidade dos gases das vacas.

Não custa lembrar que foram os ungidos do chamado Fórum Econômico Mundial que disseram ao governo do Sri Lanka para desistir de fertilizantes modernos. O resultado? O país entrou em colapso, e as pessoas passaram fome. Não custa lembrar que foi o Fórum Econômico Mundial que promoveu o esquema de pirâmide (Ponzi scheme) de Sam Bankman-Fried, a maior fraude financeira da história. Aparentemente, os sábios do Fórum Econômico Mundial simplesmente não conseguiram dizer que o garoto inquieto, e que literalmente jogava videogame durante as entrevistas, era um golpista totalmente transparente. Eles não tinham ideia e pensaram que ele era um gênio, assim como eles.

O ex-CEO da FTX Sam Bankman-Fried deixa o Tribunal Federal, em Nova Iorque, em 3 de janeiro de 2022

E, claro, foi o Fórum Econômico Mundial que previu que os lockdowns na pandemia de covid “melhorariam silenciosamente as cidades” e não as transformariam em um sinistro cenário infernal de desemprego, vício em drogas, crime e depressão e suicídio. Parecia um bom plano na época, não sejam tão rigorosos, amigos leitores! “Ei, tive uma ideia. Vamos impedir as pessoas de frequentarem escolas, igrejas, viajar e trabalhar. Isso vai deixá-las ricas na alma e vai melhorar a vida de todos. Eles vão reclamar, mas nós sabemos o que é melhor para o mundo!”. Esse é o Fórum Econômico Mundial para você — não para eles.

O livro de Thomas Sowell trata muito bem dos ungidos que vivem de palavras, mas que deveriam viver também de argumentos. Como Sowell documenta ricamente, a elite progressista moderna não é tão boa em argumentar quanto em encontrar substitutos para o argumento. E a tática é tão clara como a luz do dia: primeiro somos apresentados a uma quantidade de “fatos” descontextualizados e estatísticas absurdas, todos indicando a existência de uma “crise” que somente o governo pode resolver. Há sempre também a tentativa de simplesmente declarar vitória ao rotular as propostas políticas atuais como direitos inerentes: é anunciado, por exemplo, em termos vagos, mas dogmáticos, que todos têm direito a uma moradia decente e que, portanto, o governo é obrigado a fornecê-la. Se necessário, a fundamentação desse “novo direito” pode ser descoberta em uma Constituição que signifique o que quer que seja que a mais recente escola de juristas decida que isso signifique. E é assim para todos os outros assuntos que permeiam nossa vida.

Se mesmo esses métodos não conseguirem conquistá-lo, a atenção será redirecionada da questão política para sua própria falta de moralidade. Será insinuado que pessoas como você e eu são simplistas ou perversamente opostas à mudança, carentes de compaixão e aliadas às “forças da ganância” e da “extrema direita”. Como observa Sowell, são sempre os pagadores, e não os que gastam impostos, que estão com os pescoços na guilhotina sob a acusação de ganância.

A visão dos ungidos exige que poderes amplamente ampliados sejam dados a governantes, formuladores de políticas econômicas, educadores morais e implementadores de mandatos constitucionais – mesmo que algumas ordens sejam absolutamente inconstitucionais. Esses poderes serão exercidos por pessoas que compartilham os pressupostos ideológicos e os modos de ação política dos ungidos. Os reforços mútuos de ideologia, posição política e hábitos de trabalho comum são suficientes para constituir uma classe governante que envolve a elite da imprensa, dos bilionários e seus jatinhos e do Estado como um todo – até o Judiciário, para lhe arrancar tudo se você reclamar.

E o Fórum Econômico Mundial, reunido numa luxuosa estação de esqui na Suíça, está lutando contra os teóricos da conspiração que dizem que ele e seu fundador, Klaus Schwab, estão buscando a dominação global por meio de uma “grande reinicialização” – The Great Reset – destinada a despojar as massas de sua propriedade privada, industrializando a economia e fazendo todo mundo comer insetos.

fórum econômico mundial

O presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, durante sessão plenária da organização – 22/1/2019

“Não seja dono de nada e seja feliz.” Já ouviu essa frase por aí? Ah… Não se preocupe, é apenas mais uma teoria conspiratória da internet ou daquele velho doido da Virgínia. O pessoal de Davos só quer nos proteger. Mesmo que para isso eles tenham de destruir nossas vidas.

ANA PAULA HENKEL

UM MINISTÉRIO DO ESPORTE CONTRA AS MULHERES

O novo velho governo subiu a rampa. Junto com a nova velha administração, o velho DNA petista de dezenas e dezenas de ministérios, que durante os próximos quatro anos serão aparelhados por sanguessugas ideológicos e serão usados apenas como vitrine política e moeda de troca de favores em Brasília.

Como manda o conhecido manual petista de abocanhamento geral e irrestrito da política nacional, uma das primeiras medidas na volta à(s) cena(s) do(s) crime(s) foi ressuscitar o famigerado Ministério do Esporte, extinto por Michel Temer, em 2018 (Amém, irmãos! Pena que durou pouco). A pasta, que já teve os comunistas Aldo Rebelo e Orlando Silva como ministros, deixa a categoria de secretaria – enxuta, eficiente e focada nos problemas do esporte de base, como sempre deveria ter sido -, e volta para as maravilha$ de um oceano de oportunidade$ em quase 40 ministério$.

Muitos podem pensar que uma pasta só para o esporte pode ser uma boa notícia. A verdade é que o ressurgimento do Ministério do Esporte não traz boas lembranças, nem sequer alguma esperança de que a pasta não será usada como mais um dos tentáculos em esquemas obscuros de patrocínios e favores. Em praticamente todos os anos do ministério, os “projetos” montados pelos administradores deixavam sempre na última ponta da cascata de recursos exatamente quem mais importava: atletas, principalmente os que deveriam receber incentivo e apoio nas categorias de base, em que futuros talentos olímpicos podem ser moldados e verdadeiras revoluções sociais podem acontecer.

Lula e Ana Moser, ministra do Esporte

A boa notícia da velha pasta poderia ser que ela agora vem com um nome ligado ao esporte: a ex-atleta Ana Moser. Porém, a má notícia se materializa diante do fato de que a medalhista olímpica não é companheira, mas “cumpanhêra”. Ideologicamente, ela não é muito diferente dos comunistas que já gerenciaram a pasta. Mas, antes de prosseguir, eu preciso deixar alguns pontos claros em relação ao nome “Ana Moser”.

Muitos sabem que a minha história se entrelaça com a de Ana Moser nas páginas da inédita medalha olímpica do vôlei feminino de quadra em Atlanta, em 1996, evento que marcou uma geração de nomes e também de espectadores. A clássica semifinal contra Cuba é uma das partidas de vôlei mais vistas do YouTube. A rivalidade, a tensão, as discussões e a briga depois do jogo marcaram o esporte. Lembro-me de detalhes como se fosse hoje, mas isso eu deixarei para outro artigo. Havia alguns problemas pessoais no time, mas éramos extremamente unidas em quadra, e o nível comprometimento e profissionalismo que tínhamos coroou nossa geração com a histórica medalha de bronze em outro jogo dramático contra a Rússia.

Jogadoras cubanas e brasileiras discutem durante as semifinais dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996

Aquela Olimpíada marcava o fim da carreira de algumas jogadoras, como Ida, Márcia Fu, Ana Flávia e Ana Moser. Depois de amargarmos um quarto lugar em Barcelona, em 1992, até Atlanta e a nossa medalha olímpica, foram muitos altos e baixos vividos individualmente e também em equipe: contusões, viagens, dramas, lágrimas, frustrações, brigas, tréguas, experiências e algumas importantes vitórias ao longo do caminho, como o vice-campeonato no Mundial de 1994, em São Paulo. Há certos momentos na vida de atletas de alta performance que são eternizados. Não falo tanto de glórias e pódios – esses podem ser sempre acessados por meio de fotografias e vídeos, onde as memórias têm cores e alegria ou tristeza podem ser revividas no papel ou na tela de TV. Há momentos, no entanto, tão únicos e especiais, que só com os olhos fechados é possível acessar o que ficou marcado no coração. São histórias de superação física e emocional. Pessoas diferentes que tiveram seus caminhos entrelaçados por difíceis objetivos em comum. Os caminhos, no decorrer das páginas, viravam trincheiras, e, como soldados, defendíamos uma bandeira e uma Nação, mas também vivíamos umas pelas outras.

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ANA PAULA HENKEL

COMO SE TORNAR UM TIRANO

Cartaz da série “Como Se Tornar Um Tirano”, da Netflix

Não, o título deste artigo não tem nada a ver com o atual cenário no Brasil. Como Se Tornar um Tirano é uma série da Netflix para a TV que apresenta um, digamos, “manual para o poder absoluto”. Muito da série é pura ironia, mas ela é tragicamente baseada nas táticas e estratégias reais usadas por Josef Stalin, Mao Zedong, Adolf Hitler, Muammar Gaddafi, Kim Il-sung e Saddam Hussein. (Não, eu não pensei em ninguém no Brasil, mas se você pensou, cuidado com a polícia do pensamento!) De acordo com a série, se você tem a ambição de ser o “dono de algum país”, a história te dá todas as dicas. Não fiquem chocados se, estranhamente, tudo parecer familiar demais com o que vivemos e a política a que estamos sujeitos.

Bem, vamos lá. De acordo com Como Se Tornar um Tirano, se você quer ser um ditador, primeiro você precisa ser um tipo específico de pessoa. Para começar, você deve ser, ou pelo menos apresentar-se, como uma das pessoas “comuns” da vida. Hitler foi soldado, Mussolini era filho de ferreiro, Saddam Hussein foi criado por um tio depois da morte do pai e abandono pela mãe, e Muammar Gaddafi veio de uma família humilde e seu pai ganhava uma escassa subsistência como pastor de cabras e camelos. Você precisa ser uma pessoa “comum” que retrate o velho ditado “Um homem que compartilha seus sonhos pode realizá-los”. Portanto, um professor ou sindicalista, por exemplo, serviriam muito bem.

A partir desse ponto, a série revela outras páginas do “manual” para se tornar um tirano de sucesso e cada episódio escolhe um princípio-chave de um ditador da história para ilustrar as regras despóticas de engajamento. Por exemplo: como tomar o poder (Hitler), como esmagar seus rivais (Saddam Hussein), como reinar através do medo (Idi Amin, de Uganda) e assim por diante. A série é sombriamente sarcástica, aliás, define tirania não como “governo de um governante cruel e opressor”, mas como um “governo para pessoas que querem resultados” e que não necessariamente se importam com a forma como esses resultados são obtidos. Mas, repito, para deixar claro para o novo Ministério da Verdade no Brasil: fatos parecidos com o atual cenário político são mera coincidência.

Série da Netflix Como Se Tornar um Tirano

O aspirante a tirano deve acreditar em si mesmo com uma autoestima inabalável. A série afirma que “uma crença megalomaníaca em suas habilidades convence os outros delas”. Portanto, seja o poder místico de usar sal grosso para lavar áreas antes habitadas pelo inimigo, ou o poder de acabar com a democracia para salvar a democracia, se você estiver convencido disso, pode ter certeza de que muitos outros também concordarão com você se você souber persuadi-los. No entanto, nosso suposto ditador precisa de mais uma qualidade de caráter: o dom da fala, ou, na verdade, a capacidade mais importante de atrair a atenção. O bigode de Hitler era sua característica definidora, aquilo era inequivocamente “o cara”. Mas uma barba branca também pode servir. Ou uma careca lustrosa, por exemplo. Nada tão específico. Há boas variedades por aí. A série revela que os ditadores têm em comum a habilidade de serem publicitários natos para encontrar o que completará a identidade visual marcante. A imagem detalhadamente pensada sob o manto da falsa naturalidade é o pontapé para o início da descrição das táticas que os tiranos normalmente usam para chegar ao poder e consolidar seu domínio sobre ele.

Bem, a primeira delas é: aumentar a indignação. Mostre às pessoas que os inimigos delas são seus inimigos! A genialidade do tirano está em entender e explorar a natureza do ressentimento que existe no coração das pessoas – verdadeiro ou não -, e, então, se apresentar como o meio de se vingar das pessoas de que elas ressentem. Desumanizar oponentes ajuda bastante. Afinal, para ser um tirano que se preze, você precisa acusar outros de serem tiranos.

Compre lealdade. Já se estabeleça no poder com isso em prática desde o início. O futuro pode ser incerto, mas a maneira mais eficiente de permanecer no poder é comprar a lealdade de seus aliados políticos e de seus rivais políticos também. E de onde vem o dinheiro para isso? Da cleptocracia, é claro. Roubar os recursos da nação – roubos sempre disfarçados de bondade – é questão sine qua non. Afinal, não é barato manter luxos, esmagar dissidentes e inimigos, comprar a imprensa, ajudar companheiros e aspirantes a ditadores, comprar juízes, políticos etc. Toda a bondade de uma tirania pelo povo e para o povo custa caro.

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ANA PAULA HENKEL

AS LIÇÕES DE 1940 PARA 2023

Gary Oldman, como Winston Churchill, no filme Darkest Hour

Não foi apenas todo o ano de 2022 do brasileiro que foi conturbado, o final do ano foi um caos. Eleições nada transparentes, sistema eleitoral comprometido com juízes ativistas que, claramente, favoreceram um candidato corrupto, inconstitucionalidades sendo chanceladas por ministros com o “novo normal jurídico”… A lista de absurdos no Xandaquistão aumenta em uma velocidade alarmante. Sem contar as semanas de “Sobe a rampa. Não sobe a rampa”.

Mas e aí? Como entraremos em 2023? Sento-me para escrever o último artigo de 2022 e penso: esta edição sairá no dia 30 de dezembro de 2022, mas o que será do dia 31? O ex-presidiário vai subir a rampa? O presidente Bolsonaro acionará algum artigo constitucional para restabelecer as leis e a ordem no país, destruídas por militantes da Suprema Vergonha?

Ninguém sabe. Ok, mas então o que podemos levar para o ano que está para nascer já com medo de nascer velho, se não sabemos o que esperar desse parto? Creio que entraremos em rota de inúmeros medos e também certezas que são de arrepiar. Aquelas que, se concretizadas, trarão o período mais nefasto da nossa história. A pior gangue política que o Brasil, quiçá o mundo, já viu e agora de volta à cena do crime com requintes de crueldade e vingança.

Saio do computador. Faço um café e volto. Não posso encerrar o ano escrevendo um texto “para baixo”, apesar do cenário devastador sendo pintado – com ou sem rampa para o ex-presidiário. Mesmo nesse tabuleiro do medo sendo formado, precisamos arrancar as lições de tudo o que passamos até aqui, de tudo o que foi dito e feito desde 2018. Um ciclo presidencial se fecha automaticamente, e as lições agora se abrem para o aprendizado. E elas não são poucas.

Seria impossível desenrolar todas as nuances dos eventos dos últimos quatro anos e tocar em suas cicatrizes, para o bem ou para o mal. Nesta semana, a conexão do que passamos no Brasil foi me apresentada através de uma obra do cinema que retratou páginas inesquecíveis da história da humanidade. É impressionante como exemplos de líderes em certos eventos, até cronologicamente distantes do mundo atual, podem ressoar de maneira profunda até hoje.

Líderes políticos se reúnem para um retrato no topo da Cidadela de Quebec durante a segunda Conferência de Quebec em Quebec, Canadá, em 19 de agosto de 1943. No sentido horário, a partir do canto superior esquerdo estão: Primeiro Ministro canadense Mackenzie King; Primeiro Ministro Winston Churchill; o Conde de Athlone, Governador Geral do Canadá; e o presidente Franklin D. Roosevelt

O espírito divino

O filme O Destino de uma Nação (Darkest Hour, 2017) é uma daquelas obras a que você pode assistir três, quatro, cinco vezes. Toda vez que sentarmos diante dessa obra, vamos notar alguma coisa que pode ter passado de maneira tímida ou até despercebida, mas que, por alguma razão, vai saltar aos olhos no último repeteco como se você nunca tivesse visto o filme antes.

Recentemente, escrevi sobre a histórica operação em Dunquerque, batizada oficialmente de “Operação Dynamo”, quando 200 mil soldados britânicos e 140 mil soldados franceses e belgas foram salvos numa evacuação maciça das praias e do Porto de Dunquerque, na França, com a ajuda de centenas de embarcações navais e civis. O filme Dunkirk, um sucesso do cinema que nasceu com etiqueta de clássico, retrata com maestria as aflições humanas em meio a uma guerra, e a beleza do espírito divino que pode se manifestar em todos nós diante do medo e do horror.

Imagem do filme Dunkirk

Às vezes, esse espírito se manifesta organicamente, sem uma liderança específica, como uma ferramenta de sobrevivência das massas. Às vezes, ele é despertado por almas pinçadas a dedo no espectro especial na humanidade para que lições de liderança se eternizem – e os bons prosperem. Dunkirk é espetacular, assim como Darkest Hour, ou como poderíamos chamar, “Os bastidores de Dunkirk”. A performance de Gary Oldman como Winston Churchill foi agraciada com inúmeras premiações e sua atuação foi também coroada com o Oscar de melhor ator em 2018.

Darkest Hour oferece o lado diplomático do que vemos em Dunkirk. A história se desenrola com o drama da ascensão do primeiro-ministro britânico Winston Churchill ao poder durante a invasão nazista da França, em maio de 1940. O antecessor de Churchill, Neville Chamberlain, havia perdido a confiança do povo inglês e do governo britânico. Sua fracassada tentativa de uma conciliação com Adolf Hitler e os desastrosos primeiros nove meses da Segunda Guerra Mundial pareciam ter feito a Grã-Bretanha perder todas as possibilidades de vitória no conflito.

Churchill, mesmo não sendo o nome preferido dentro do Partido Conservador, foi convidado a se tornar primeiro-ministro no mesmo dia em que Hitler invadiu a França, a Bélgica e a Holanda. Os exércitos das três democracias, que juntos eram maiores do que as forças militares da Alemanha, entraram em colapso em poucas semanas. Cerca de 200 mil soldados britânicos foram milagrosamente salvos pela ousada decisão de Churchill de arriscar evacuá-los pelo Mar de Dunquerque, para onde a maior parte do que restava da Força Expedicionária Britânica havia recuado. Mas o maior problema de Churchill não era apenas salvar o Exército britânico, mas enfrentar a realidade de que, com a conquista alemã da Europa, o Império Britânico não teria aliados. A União Soviética quase se juntou à Alemanha de Hitler sob o infame “Pacto de Não Agressão” de agosto de 1939, e os Estados Unidos estavam determinados a permanecer neutros a todo custo. O triste telefonema de Churchill com o presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, retrata a sinuca entre os líderes: FDR garante a Churchill que, em teoria, ele queria ajudar, embora na verdade não havia nada que ele pudesse fazer, já que o Congresso Americano havia votado pela neutralidade.

Com Hitler espalhando o terror pela Europa com suas violentas conquistas territoriais, um paralisante temor se espalhou por todo o governo britânico. Membros do novo gabinete de guerra de Churchill queriam pedir a paz. Chamberlain e Edward Wood (conhecido como Lord Halifax) acreditavam que Churchill estava desordenado por acreditar que a Grã-Bretanha poderia sobreviver à barbárie de Hitler. Ambos os apaziguadores acreditavam que o ditador italiano Benito Mussolini poderia ser persuadido a implorar a Hitler que cancelasse sua planejada invasão da Grã-Bretanha. Eles queriam acreditar que Mussolini poderia salvar um fragmento da dignidade inglesa por meio de uma rendição britânica arranjada. Mas Churchill, não.

Winston Churchill em Washington durante sua “missão à América”, janeiro de 1942

Diferentemente de Dunkirk, com cenas apenas ao ar livre, Darkest Hour ocorre quase exclusivamente em ambientes fechados durante as sessões do Parlamento, reuniões privadas e cenas entre Churchill e sua igualmente brilhante esposa, Clementine. Os diálogos são fascinantes, e as atuações soberbas. E foi em uma cena de uma reunião com seu gabinete de guerra no bunker britânico que um diálogo saltou aos meus olhos nessa quarta ou quinta vez assistindo ao filme.

Perigo mortal

Naquele dia, havia apenas um tópico a ser discutido entre os presentes: a abordagem sugerida para que a Itália fosse uma intermediária de um acordo de paz. Lord Halifax, que demonstrava veemente oposição aos planos de Churchill de continuar lutando na guerra, precisava mostrar força a um gabinete acuado, sugerindo que o papel da Itália como mediadora entre o Reino Unido e a Alemanha em um acordo de paz com Hitler seria a melhor opção para os britânicos. A troca entre Halifax e Churchill em 1940 nunca foi tão útil e preciosa em 2022. Empenhado em desafiar Churchill e mostrá-lo como um arrogante e irresponsável, Halifax inicia o discussão:

– Primeiro-ministro, a questão das conversações de paz.

– Devemos segurar nossos nervos. Sinalizar apenas que pretendemos lutar até o fim. Uma oferta de paz telegrafa nossa fraqueza. – Churchill responde.

E continua de maneira mais enfática:

– E, mesmo que fôssemos derrotados, não estaríamos em situação pior do que estaríamos se abandonássemos a luta. Se o pior acontecer, não seria uma coisa ruim para este país cair lutando por outros países que foram vencidos pela tirania nazista. Evitemos, portanto, ser arrastados pela ladeira escorregadia com conversas sobre paz negociada!

– “Ladeira escorregadia”? A única ladeira escorregadia é…

Churchill, esbravejando, então interrompe Hallifax:

– Lord Halifax, a abordagem que você propõe não é apenas fútil, mas nos envolve em um perigo mortal.

Halifax mostra que não está disposto a desistir de sua estratégia:

– O perigo mortal aqui é essa fantasia romântica de lutar até o fim. Qual é o fim? Se não a destruição de todas as coisas! Não há nada de heroico em cair lutando se isso puder ser evitado! Nada remotamente patriótico em morte ou glória, se as probabilidades estiverem firmes no primeiro. Nada inglório em tentar abreviar uma guerra que estamos claramente perdendo!

Churchill tenta argumentar que não estão perdendo e que a Europa… Quando é interrompido por Halifax que grita:

– A Europa está perdida!! E antes que nossa força seja completamente aniquilada, agora é a hora de negociar, a fim de obtermos as melhores condições possíveis! Hitler não insistirá em termos ultrajantes. Ele conhecerá sua fraqueza. Ele será razoável.

Churchill permanece em silêncio, se ajeita na cadeira depois de uma breve pausa e, enfurecido, explode diante de todos:

– Quando a lição será aprendida?!

E com um murro na mesa, repete:

– Quando a lição será aprendida?! Quantos ditadores mais deverão ser cortejados, saciados, com imensos privilégios concedidos antes de aprendermos?!

E em uma brilhante frase, resume o que devemos levar para inúmeras situações da vida:

– Você não pode argumentar com um tigre quando sua cabeça está na boca dele!!

Sozinho, Churchill viu um caminho para a vitória contra todas as adversidades. Como observa o filme, Hitler poderia ter tido o maior Exército do mundo na primavera de 1940, mas ainda não tinha como transportá-lo através do Canal da Mancha, devido ao domínio naval britânico esmagador. Churchill assumiu que, se a Grã-Bretanha e seu império ultramarino pudessem resistir, um Hitler frustrado poderia se voltar para outro lugar – e assim ganhar novos inimigos, e os britânicos, novos aliados.

E foi exatamente isso o que aconteceu em junho de 1941, um Hitler frustrado invadiu a União Soviética. Mais tarde, ele declararia guerra aos Estados Unidos e, em dezembro de 1941, a Alemanha estava em guerra contra a maior economia do mundo (americana), a maior marinha (britânica) e o maior Exército (soviético) ao mesmo tempo.

Winston Churchill inspeciona rifle durante uma visita à 53ª Divisão em Kent, 20 de novembro de 1942

Neste final de semana, quero convidá-los a preparar um futuro além de 2023. Peguem as crianças já em idade escolar capazes de entender a história mundial, tirem os adolescentes do TikTok, comprem pipoca, limonada e sentem para ver Dunkirk e Darkest Hour juntos. Além da especial maratona cinematográfica juntos, nada substitui um tempo com a família e amigos. Podemos – e devemos! – colocar sementes importantes nesses jovens corações para que eles entendam o sacrifício a que homens e mulheres se submeteram para que a atual liberdade pudesse ser desfrutada.

O magistral Churchill do ator Gary Oldman lembra a uma geração de jovens globais amnésicos que, há mais de 80 anos, o desafio obstinado de um inglês resmungão de 66 anos e com pouco mais de 1,50 metro salvou a civilização ocidental da barbárie nazista. E que tudo, absolutamente tudo sobre aquela geração, pode – e deve! – ser aproveitado em 2023.

Gary Oldman como Winston Churchill no filme Darkest Hour

Para nós, adultos, exauridos com tudo a que fomos submetidos neste ano, eu sei, estamos cansados. Foi uma pancada atrás de pancada e a sensação de derrota é acachapante e dolorida demais. Mas vamos olhar a história: no final da batalha de Dunquerque, 235 navios foram perdidos, com pelo menos 5 mil soldados. Os alemães conseguiram capturar 40 mil soldados. Embora a operação milagrosa tenha sido considerada uma “derrota” militar, a retirada com pesadas baixas e o resgate de quase meio milhão de soldados de Dunquerque passaram a ser uma das vitórias mais importantes e inspiradoras da guerra – e podem muito bem ter mudado seu resultado de tudo. Dunquerque foi o começo do fim do Terceiro Reich.

Esperança! Muitos passaram por eventos muito piores e a vitória veio em algum momento, porque estavam do lado certo da história. Como nós estamos.

Obrigada pela preciosa companhia de todos toda semana aqui no JBF durante mais um ano de parceria e confiança. Vamos seguir mais firmes do que jamais estivemos.

ANA PAULA HENKEL

UM NATAL NA COZINHA, E NÃO NAS REDES SOCIAIS

Meu pai. Personagem constante em artigos e entrevistas para aqueles que me acompanham há algum tempo. Creio que meu pai seja a pessoa mais acessada em minha assembleia de vozes. São tantos ensinamentos que, quando penso em escrever um livro sobre o meu mestre na vida, fica difícil saber por onde começar. Nesta época do ano, lembramos sempre com mais saudade daqueles que já nos deixaram. Mas tempos difíceis, como agora, colocam meus pensamentos em nossas conversas… O que ele estaria dizendo? Quais seriam os pontos de reflexão que meu velho traria para as nossas conversas na mesa da cozinha ao amanhecer, no meio da madrugada ou no meio da tarde depois de passar um café fresco para tomar comendo queijo?

Falaríamos muito sobre a família, mas, certamente, falaríamos de política. Meu pai não se privava das frustações e das esperanças que a política traz, fazia questão de discuti-las na mesa com todos nós. É claro que estaríamos falando de nomes, mas, antes de qualquer coisa, estaríamos falando de ideias, projetos e ações. Professor e diretor pedagógico, meu pai era um homem apaixonado pelo que fazia, por seus alunos e pela vida. Mas ele também era pragmático, racional e profundamente ligado à sua própria assembleia de vozes. Ah… são tantos casos e lições com o meu pai…

Esta colunista com o seu pai

Nos anos 1980, depois de se dedicar durante décadas em salas de aula como professor de matemática, ele passou a comandar, como diretor-geral e pedagógico, uma das instituições mais antigas e respeitadas do sul de Minas: o Instituto Gammon, em Lavras – escola onde estudei boa parte da vida e também onde minha mãe, professora de inglês, lecionou durante anos.

Certo dia, eu devia ter uns 12 ou 13 anos, meu pai chegou em casa contando que aquele ano letivo seria particularmente tumultuado. A ameaça de greves de professores em toda a cidade e região começava a sair do papel e tomar corpo. Lembro, como se fosse ontem, que o telefone da minha casa não parava de tocar. Durante algumas semanas, meu pai foi o interlocutor entre sindicatos, professores, donos de escolas, pais e políticos. Apesar da gravidade de uma greve geral de professores em toda a região, o professor Monteiro, como meu pai era chamado, sempre encerrava as ligações com calma. Preocupado, lógico, mas sereno. Mas naquele dia, especificamente, ele estava inquieto. Parecia que não havia mais como contornar os ânimos de muitos e que algo grande e ruim para todos seria inevitável. Eu estava à mesa almoçando com a minha mãe quando meu pai terminou mais uma ligação e, claramente frustrado, disse: “O que Reagan faria?”.

Fiquei com aquele nome na cabeça e cresci ouvindo histórias sobre esse tal de Reagan. Quem era o cara por quem o meu ídolo tinha enorme admiração, que sempre mencionava em tempos de animosidade e insegurança e sempre inspirava meu mentor diante de algumas incertezas?

Foi com o meu pai que também ouvi pela primeira vez o nome de Margaret Thatcher e Mikhail Gorbachev. Quando Thatcher chegou ao poder, em 1979, muitos no Ocidente acreditavam que a Guerra Fria não podia ser vencida. Quando deixou o cargo, o Muro de Berlim havia caído e a Europa Oriental havia sido libertada. Um ano depois, a União Soviética desmoronou no lixo da história. A democracia e a liberdade estavam avançando, e o mundo assistia às ações do trio espetacular que deu a maior contribuição para que isso pudesse acontecer: Thatcher, Reagan e o papa João Paulo II. E foi com meu pai, em muitas conversas na mesa da cozinha, que ouvi não apenas pela primeira vez os nomes desses líderes históricos, mas atualizações do que acontecia no mundo. As conversas que tivemos durante décadas sobre esses ícones mundiais que mudaram o curso da humanidade são um legado preciosíssimo que tenho comigo.

Presidente Reagan, com a então primeira-ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, durante um almoço de trabalho em Camp David, em 1984

Foi também graças ao meu pai que aprendi quem eram José Roberto Guzzo e Augusto Nunes. As revistas semanais para as quais esses dois mestres escreviam chegavam religiosamente toda sexta-feira em casa. Antes de qualquer notícia, meu pai sentava-se à mesa da cozinha e passava as páginas até chegar aos artigos de Guzzo e Augusto. Do quarto, era possível ouvi-lo de vez quando falando com ele mesmo, ou quem sabe com os colunistas, com seu delicioso sotaque mineiro: “Mas o que isso minha gente…”. Bastava minha mãe aparecer na cozinha e ele dizia para ela como se estivesse oferecendo um doce irresistível: “Senta aqui, Maria. Você precisa ler o Guzzo hoje!”. Assuntos controversos e importantes que precisavam ser debatidos com professores em algum momento na semana? Sem problema. Meu pai usava uma tática infalível e sem o menor confronto: os artigos de Augusto Nunes eram “despretensiosamente” deixados abertos na mesa do cafezinho da sala dos professores. Em pouco tempo, o debate saudável girava em torno dos textos, com importantes pontos vencidos para a visão liberal que meu pai sempre teve, mas que às vezes encontrava resistência em alguns professores.

E parece que foi ontem quando Augusto e Guzzo me convidaram para um jantar em São Paulo, pela ocasião de uma visita que eu fazia ao Brasil. Como já éramos amigos e já havíamos nos encontrado em outras ocasiões, fiquei feliz em vê-los novamente. Para a minha surpresa, a conversa dessa vez era sobre um projeto que estava prestes a nascer – a Revista Oeste – e o interesse para que eu fizesse parte dele. Curiosamente, em uma daquelas sacadas do destino, nessa noite em particular, eu havia levado dois presentes para os meus dois mestres, dois livros sobre a vida de Ronald Regan. Meu pai nos deixou em 2012, mas tenho certeza absoluta, diante da imensa admiração que ele tinha por Guzzo e Augusto, que ele ajudou a mexer nessa trama lá de cima para que o meu caminho profissional chegasse até esses mestres.

Há outras tantas histórias com o meu pai que, sim, dariam um livro. Histórias e conversas pessoais que me marcaram e mudaram minha vida, como no ano em que fiquei grávida ou quando decidi me aposentar do esporte.

Mas há um outro lado do meu pai que só conhecemos em sua totalidade e beleza após a sua morte. O lado do verdadeiro cristão, homem de fé, ou simplesmente um ser humano digno e correto em ajudar o próximo sem contar a ninguém, sem anunciar aos quatro ventos a bondade feita, ou se agarrar a uma das pragas da atual sociedade imediatista e narcisista: a sinalização de virtude.

Durante o velório do meu pai, minha irmã e eu percebemos muitas pessoas chorando copiosamente como nós estávamos, embora essas pessoas não fossem familiares, amigos ou conhecidos. Alguns se apresentaram, prestaram sua solidariedade e contaram suas histórias com o meu pai. Um rapaz, na casa dos 30 anos e com uma filhinha de uns 3 anos, se aproximou e nos contou como meu pai o ajudou a se livrar das drogas, depois que toda a família havia desistido dele e depois de anos consumindo drogas e furtando objetos em casa para sustentar seu vício. Ele contava, com lágrimas nos olhos, como meu pai, aos poucos, de encontro em encontro, foi convencendo-o a se internar em uma clínica de reabilitação. Depois de convencido, meu pai encontrou a clínica e fez um acordo com o dono para pagar o tratamento, que durou quase um ano. Depois de sair de lá, meu pai foi o avalista para seus empregos durante seu duro recomeço no mercado de trabalho. Passados alguns anos, o rapaz se casou, teve duas filhas e agora trabalha como bancário em uma cidade próxima a Lavras. Ele nos relatou em detalhes uma relação de anos com o meu pai, como um mestre e um amigo que teve. E nós, da família, nunca soubemos dessa história.

Assim como esse caso, ao longo dos meses que se seguiram à morte do meu pai, mais histórias como essas não paravam de chegar até nós. Pessoas que foram amparadas emocional e financeiramente pelo meu pai sem que nunca soubéssemos. Histórias incríveis de gente humilde e de gente abastada que foi ajudada de alguma maneira pelas palavras e pelas ações do meu pai. Em algumas circunstâncias, eu pude testemunhar a entrega do meu pai a outras pessoas, mas jamais imaginei que sua dedicação – na mesma intensidade em que ele se dedicava à nossa família – seria tão abrangente e profunda a pessoas muito fora do nosso círculo familiar e de amizade. E ninguém, a não ser as pessoas envolvidas, soube da extensão da bondade do Professor Monteiro. Esse é mais um legado de um homem que seguiu o que está no livro de Mateus (um de seus favoritos junto com os Salmos), capítulo 6, versículos 2, 3 e 4, na Bíblia:

“Por essa razão, quando deres um donativo, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Com toda a certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita. Para que a tua obra de caridade fique em secreto: e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”.

Em uma afluente sociedade pós-moderna de liberdade e oportunidades quase ilimitadas, celebridades, acadêmicos, políticos, jornalistas carreiristas, atletas milionários mimados e “influencers” lutam pela relevância em um sentido revolucionariamente vazio, tentando vender tolerância e amor ao próximo através da sinalização de virtude. As trombetas sendo tocadas nas páginas de jornais, noticiários e nas redes sociais, que são infestadas de “bondade” e que se tornaram uma epidemia de hipocrisia.

Em uma era em que o pecado é definido principalmente como “crimes de pensamento” ou a raça/classe/gênero às quais alguém pertença, os ricos, influentes e a elite cultural – famosa por suas obras ou apenas efêmera pelas redes sociais – precisam empacotar suas virtudes e colocar na vitrine. Talvez para compensar seu próprio senso de pecado ou com medo de que suas próprias vidas sejam antitéticas às ideologias que defendem – ou às vezes simplesmente como um movimento de carreira sábio -, essa gente inunda o mundo virtual com “bondades” que precisam ser anunciadas através de incontáveis fotos e textos que demonstram o tamanho do altruísmo daquela pessoa. Não é raro chegar ao fim desses textos ou stories no Instagram e se deparar – depois de uma chuva de “bondade e preocupação com outros” – com um link para comprar algum curso naquele perfil. O que já foi algo quase exclusivo da esquerda, a sinalização de virtude é agora o refúgio dos canalhas em todo o espectro político, ideológico e social.

Olhem ao redor. Pessoas que surfaram na onda “conservadora/liberal” nos últimos quatro anos, que venderam cursos sobre os pilares do conservadorismo, da liberdade econômica etc., passaram a demonizar a administração de Jair Bolsonaro como um todo pelo fato de o atual presidente não ser um conservador “puro-sangue” (Ora, quem é no Brasil?). Quando as eleições se aproximaram, eles se reaproximaram do movimento para vender livros, cursos e pacote de bondades à audiência do presidente. E assim segue o ciclo.

A “sinalização de virtude”, de acordo com o Dicionário Cambridge, é “uma tentativa de mostrar a outras pessoas que você é uma boa pessoa, por exemplo, expressando opiniões que serão aceitáveis para elas, especialmente nas mídias sociais”. A expressão é frequentemente usada para sugerir que a virtude que está sendo sinalizada é exagerada ou insincera. Para vender, aumentar o alcance, ter “likes”, vender produtos e estar sob o holofote, a falsa ou exagerada virtude toma conta do mundo virtual. A internet virou uma grande e vazia batalha de egos: quem sabe “informações privilegiadas”, quem tem a “palavra certa” para tudo e todos, quem vai à missa todo domingo ou é o cristão perfeito, quem está sempre amparando a dor dos injustiçados e daqueles que passam por momentos difíceis… Tudo anunciado aos quatro ventos em trombetas virtuais e em sequências intermináveis de posts.

Não somos perfeitos. Fato. Mas em que ponto da história recente nos tornamos tão vazios, tão falsos, tão imediatistas? E diante de tanta liberdade, tanta informação? A sinalização de virtude é agora um substituto barato e prolífico para a virtude real. A virtude – ou a sinalização dela – tornou-se amplamente proposital. Não é mais entendida como algo que exija dedicação em silêncio, mas agora reside em grande parte no defender as “crenças certas” e “estar do lado certo de uma causa” – muito mais na ideia do que no ato. Você condena as coisas corretas? Defende o justo e faz isso publicamente? Ponto pra você.

O exagero em demonstrar “bondades” está tornando nossa sociedade mais dura, vazia. Estamos focados demais em demonstrar preocupação com os outros – e sinalizar essa preocupação – sem termos nossas casas em ordem. Como Jordan Peterson, psicólogo canadense, sempre aponta: “Arrume sua cama primeiro antes de querer consertar o mundo”.

O mundo anda doente. Neste Natal, desligue seu celular, desligue a TV, saia das redes sociais. Há uma razão pela qual Madre Teresa disse que a maneira de mudar o mundo é ir para casa e amar sua família. Ela conhecia a tristeza e a injustiça do mundo, e também conhecia a solução.

Desejo a todos um Natal repleto de boas conversas com a sua família. Páginas ricas e coloridas que serão contadas por filhos e netos no futuro com prosas registradas na cozinha, e não nas redes sociais.

Voluntários distribuem comida quente para os necessitados no inverno, antes do Natal, na Polônia

ANA PAULA HENKEL

LIÇÕES DA COPA PARA A VIDA

Técnico do Japão e Tite, após eliminação da Copa do Mundo do Catar

Iniciei minha vida no voleibol aos 12 anos de idade. Aos 16, competi em meu primeiro campeonato mundial. Depois de quatro Olimpíadas e mais de duas décadas dedicadas ao vôlei brasileiro, posso tranquilamente afirmar que o esporte é o campo mais inclusivo, mais tolerante e com a maior diversidade que alguém pode imaginar. Crenças, religiões, opções sexuais, a posição de cada um no espectro político-ideológico ou a cor da sua pele – nada disso importa. O que está em jogo é única e exclusivamente sua capacidade atlética. De quatro em quatro anos podemos testemunhar essa celebração – e a verdadeira mensagem de tolerância – nos Jogos Olímpicos e na Copa do Mundo de Futebol.

Pela imensa força e capacidade do esporte de propagar mensagens, geralmente de união e tolerância, competições e atletas não ficam imunes de serem usados como veículos para pautas políticas e ideológicas. Infelizmente, nos últimos anos, atletas consagrados também se tornaram alvos de ódio e intolerância exatamente por expressarem suas escolhas políticas. É claro que é preciso fazer uma distinção óbvia entre o direito de qualquer esportista de se manifestar politicamente, o que todos têm direito de fazer (e sou a primeira a apoiar), e a invasão de agendas político-partidárias em competições esportivas, dividindo um espaço reservado para a união de atletas, torcedores, culturas, povos e nações.

Esta coluista com seus pais, Atlanta 1996

Mesmo em um clima de alta competição, o esporte – especialmente nos Jogos Olímpicos e na Copa do Mundo – sempre semeou um campo onde as diferenças, além das esportivas, não brotavam. Qualquer desavença política sempre foi tratada como apenas um figurante que mal aparece em um filme bom. Roteiro que, de quatro em quatro anos, sempre deixa histórias de superação e enredos dramáticos de derrotas e vitórias espetaculares. Inimigos geopolíticos dão ao mundo esperanças de paz durante as semanas de competição – como uma trégua. O espírito e o orgulho que podem levar a tantas guerras também podem semear a paz. Mas o que mudou nos últimos anos? Infelizmente, algo vem atingindo a alma do esporte, dentro e fora das arenas esportivas. E isso vem sendo demonstrado da maneira mais estúpida possível, por uma sociedade repleta de personalidades imaturas, afetadas e hedonistas.

Depois de alguns ciclos políticos que trouxeram não apenas a banalização da história – com o politicamente correto tomando conta de cada palavra, cada uniforme, cada gesto -, a ressaca desse movimento em que há a politização de tudo é a mediocrização da espinha dorsal do esporte. Nada mais importa: competição, histórias de superação, união entre as nações e também dentro dos países entre correntes de diferentes pensamentos – tudo jogado no lixo para dar espaço à sinalização de virtude, ao politicamente correto e agora ao ataque a atletas por suas escolhas políticas. Repórteres esportivos – correspondentes nessas competições – acham necessário dar opiniões sobre política também. O esporte já dava sinais que não ia escapar à “idiotização” política, com frases repetidas como papagaios e atletas de importantes campeonatos, como a NBA e NFL, se ajoelhando para a palhaçada do politicamente correto e para os sequestradores de almas que precisam entrar em algum balaio coletivista por afirmação.

Mas a imbecilidade e a imaturidade dos idolatrados e dos endinheirados que jogam todas as baboseiras politicamente corretas no terreno sadio do esporte não ficaram restritas apenas a esses milionários atletas. A imprensa e os torcedores esportivos resolveram atuar no campo da política até quando opiniões são dadas fora das arenas. A Copa do Mundo deste ano foi um exemplo disso.

Na vitória da Seleção Brasileira contra a da Sérvia, por 2 a 0, a atuação de Richarlison, autor dos dois gols brasileiros, foi celebrada por petistas, já que o atacante faz coro com algumas políticas defendidas pelo PT e seus partidos satélites e é chamado de “progressista”. Durante a partida, Neymar sofreu uma lesão no tornozelo e deixou o jogo chorando. Por declarar apoio ao presidente Jair Bolsonaro, petistas e apoiadores do ex-presidiário Lula ironizaram e comemoraram a saída do jogador do PSG, fazendo o que de melhor faz a turma do “mais amor”: odiar.

Do campeão de fake news na campanha presidencial, André Janones, à presidente do PT, Gleisi Hoffman, todos fizeram piada com a lesão de Neymar, que o tirou do jogo. Em seu perfil no Twitter, o deputado escreveu: “Machucou, agorinha! Tava andando e colocou a mão na perna! Agora, agorinha!”. No intervalo do jogo, a presidente da facção de Lula foi questionada sobre Neymar e disse: “Nem vi ele (sic) no jogo”. Ao término da partida, ao ser perguntada novamente por jornalistas sobre a saída do jogador, disse em tom de deboche: “Foi tarde”. O senador Randolfe Rodrigues, claro, não ficaria de fora da festa da hipocrisia, declarou: “Desde que Neymar passou a apoiar Bolsonaro, nunca mais foi o mesmo”.

Casemiro, um dos líderes da equipe, ressaltou sua decepção com o fato de que, nas redes sociais, diversas pessoas chegaram a celebrar a lesão do camisa 10. “Infelizmente, a vida tem dessas coisas. Isso é muito grave e ficamos tristes. O Neymar não merece isso.” Em apoio a Neymar, o ex-jogador Ronaldo Fenômeno divulgou uma carta condenando a covardia e a maldade daqueles que debocharam da lesão do atacante. Em sua publicação no Instagram, Ronaldo pediu para Neymar não exaltar “os covardes e os invejosos”. “A que ponto chegamos?”, escreveu Ronaldo. “Que mundo é esse? Que mensagem estamos passando para os nossos jovens? Vai sempre existir gente torcendo contra, mas é triste ver a sociedade num caminho de banalização da intolerância, de normalização dos discursos de ódio”:

“Não poderia começar essa carta aberta de outra forma: você é foda, Neymar! Gigante!

Estou certo de que a maioria dos brasileiros, como eu, te admira e te ama. Seu talento, aliás, te levou tão longe, tão alto, que tem amor e admiração por você em cada canto do mundo. E é também por isso, por ter chegado aonde chegou, pelo sucesso que alcançou, que tem que lidar com tanta inveja e maldade. Num nível de comemorarem a lesão de uma estrela como você, com uma história como a sua. A que ponto chegamos? Que mundo é esse? Que mensagem estamos passando para os nossos jovens? Vai sempre existir gente torcendo contra, mas é triste ver a sociedade num caminho de banalização da intolerância, de normalização dos discursos de ódio.

É na contramão dessa violência verbal com poder destrutivo que te escrevo hoje: volte mais forte! Mais esperto! Com mais fome de gol! O bem que você faz dentro e fora de campo é muito maior que a inveja na sua direção. Não se esqueça nem um segundo do caminho percorrido que fez de você um ídolo do futebol mundial. O Brasil te ama! A torcida de verdade – a que torce a favor – precisa dos seus gols, dribles, ousadia e alegria!

Não exalte os covardes e os invejosos. Celebre o amor que vem da maior parte do seu país. Você vai dar a volta por cima, Neymar! E que todo o ódio vire combustível”.

Neymar Jr. se machuca durante jogo entre Brasil e Sérvia, em 24 de novembro

Logo após as covardes reações de esquerdistas que celebraram a contusão de um atleta que estava defendendo o Brasil e a certeira carta de Ronaldo, muitos me abordaram para que eu opinasse sobre toda a situação, já que estive por ali, com a nossa bandeira no peito e na alma por mais de duas décadas. Minha resposta, de coração, foi a de que eu jamais – jamais! – torceria contra o Brasil por Tite, técnico da Seleção, ser esquerdista, admirador de Fidel Castro e apoiador de Lula. Uma bandeira em um uniforme significa a defesa de sua soberania. Seja em guerras militares, seja em guerras esportivas. Contra meu inimigo externo, meu adversário interno é meu aliado – simples assim. A primeira medalha olímpica do vôlei feminino, em 1996, na Olimpíada de Atlanta, veio assim. Não éramos amigas, não éramos confidentes, havia alguns grupos bem diferentes dentro daquela seleção, MAS, quando estávamos em quadra, não havia uma única diferença, pequena ou grande, que pudesse ser capaz de bloquear nosso único objetivo: a histórica medalha olímpica. A clássica semifinal, com Cuba, perdida no tie-break, trouxe lágrimas, muitas lágrimas. O sonho do ouro havia terminado, mas aquela derrota nos mostrou não apenas uma união especial para dar a volta por cima e conquistar o bronze, mas o elo que criamos para uma vida.

Em Atlanta, podemos dizer que, apesar da amarga derrota, saímos com uma vitória. No entanto, os incontáveis momentos de fracassos e lágrimas ao longo de todos os anos dedicados ao esporte são muito mais constantes do que os troféus e as medalhas. E é ali, em tantos caminhos trilhados por frustrações e tristeza que encontramos lições que carregamos para absolutamente todas as outras áreas da vida pessoal e profissional, seja qual for o novo campo de atuação depois da carreira de atleta. Há imensas lições no esporte. E há imensas lições através das pessoas que estão no esporte com você. Há lembranças e lições de vitórias espetaculares, cenas que, de tempos em tempos, cruzam a mente, principalmente quando ouvimos nosso Hino Nacional. No entanto, as melhores ferramentas às quais somos expostos ao longo de toda uma jornada de horas, dias e anos são colhidas nos tropeços, na humilhação, na incredulidade de acontecimentos que você jamais imaginou que chegariam até você. E é aqui, exatamente aqui, que você aprende; vendo com os seus próprios olhos e sentindo na própria pele quem é técnico e quem é líder.

As memórias que tenho de algumas derrotas são perturbadoras até hoje. Mas elas mantêm meus pés no chão e a cabeça lúcida quando a neblina insiste em embaçar a visão. A dor diante de absolutos fracassos ressurge em frutos ao longo dos anos na forma de pragmatismo, avaliação, autocontrole, mais dedicação e lealdade – uma lealdade digna de filmes de guerra. Atletas têm mania de ver lições em quase tudo, nada é descartado e, mesmo diante de uma Copa do Mundo atípica, devido ao importante momento político no Brasil com o grave cenário de ruptura constitucional promovida pelo STF, a desclassificação do Brasil nos deixa lições. Lições para nosso esporte, para a nossa vida pessoal e profissional, para nossa capenga política e seus peões, para magistrados, para qualquer um que queira fazer diferença em nossa sociedade.

Como já bastante elucidado nesta nossa resenha, não há nada mais comum no esporte do que as derrotas e as dores, lágrimas e lições que elas trazem. Derrotas fazem parte do próprio contexto do êxtase que existe nas glórias. O que não é aceitável é a suprema covardia de quem abandona seus comandados, de quem, em um rompante narcisista e egoísta, abandona seus soldados em campo depois de uma batalha perdida. O que Tite, técnico da Seleção Brasileira de Futebol, fez depois da eliminação do Brasil para a Croácia é o degrau mais baixo que um técnico ou dirigente pode cruzar: o abandono de campo com o seu batalhão ainda preso na trincheira pelo abate, pelas lágrimas, pela frustração e pela tristeza diante da derrota. Assim que o jogo terminou, Tite saiu do campo sem acolher os jogadores, que choravam no gramado.

O abandono de campo – e de seus jogadores ainda em campo – foi de uma covardia difícil de engolir, mais até que a derrota em si. Não vou entrar no mérito técnico da partida ou dos pênaltis, não sou expert em futebol e não tenho problemas em assumir isso, mas o Brasil, apesar de brilhantes jogadores, perdeu para um técnico arrogante e covarde. O esporte não premia covardes – vencer não é o mesmo que ser premiado. Comandar não é o mesmo que liderar. A covardia é repugnante, abjeta e inesquecível. E é exatamente nas derrotas que os covardes mais aparecem.

Mas a Copa do Mundo, assim como os grandes eventos esportivos, e por isso é preciso evitar a politização deles, deixa lições excepcionais, para o mundo, para os brasileiros e para Tite. Tite deveria aprender com o técnico da seleção japonesa, Hajime Moriyasu, também eliminada pela Croácia nos pênaltis. Após a frustrante e dolorosa eliminação, Moriyasu foi até a torcida, agradeceu com o tradicional gesto japonês, voltou ao meio do campo, falou com o grupo de jogadores que estava unido em um círculo, e depois cumprimentou cada um dos jogadores com lágrimas e gratidão nos olhos.

Tite, eliminado nas quartas de final da Copa do Mundo

As imagens correram o mundo e encheram novamente meu coração de que ainda há homens dignos no mundo, capazes de serem grandes até nas adversidades. No esporte, há uma GIGANTESCA diferença entre ser um técnico ou um comandante e ser um LÍDER. Líderes deixam lições e memórias que você carregará por toda a vida. Lições de companheirismo, princípios, ética e lealdade digna de campos de batalhas.

Quando me perguntam sobre as minhas inesquecíveis derrotas no esporte, posso enumerar uma penca delas. Creio que quando essa pergunta é dirigida aos brasileiros, a resposta vem num piscar de olhos: o fatídico 7 x 1 diante da Alemanha, na Copa do Mundo de 2014, no Mineirão. A Seleção Brasileira era uma das favoritas para conquistar o hexa. Comandada por Luiz Felipe Scolari, o Felipão, técnico do título do penta, o Brasil havia sido campeão da Copa das Confederações em 2013. Jogando em casa, o time tinha todo o apoio da torcida que lotava os estádios. Mas aquele 8 de julho jamais será apagado da nossa memória, mas também pelo emocionante comportamento do técnico, que, diante de histórica humilhação, não abandonou o campo, abraçando e consolando cada um dos jogadores. Diante do profundo estado de choque de quem assistia àquele atropelo pela TV, ver Felipão de mãos dadas com seus jogadores e chamando para si toda a responsabilidade da derrota na coletiva de imprensa é o que ficou na minha memória daquele dia. Talvez por conhecer de perto as marcas do abandono e da liderança diante da humilhação, marcas mais inesquecíveis que a própria glória e o transe das vitórias.

Aos meninos do Brasil: valeu, meninos! Valeu, Neymar. Vocês lutaram como puderam, mesmo sem um comando digno da entrega de vocês. Ao Brasil e seus agentes políticos, uma das muitas frases dos inspiradores discursos de Ronald Reagan, 40º presidente norte-americano: “O maior líder não é necessariamente aquele que faz as maiores coisas. Ele é quem leva as pessoas a fazerem as maiores coisas”.

ANA PAULA HENKEL

O VEXAME DA IMPRENSA

Pedro Castillo, ex-presidente do Peru

O famoso “Ministério da Verdade” ganha mais um capítulo nesta semana. O ministério encarregado de reescrever a história através de distorções e mentiras é a estratégia usada no famoso 1984, romance de George Orwell, para recriar os fatos para evitar maiores distúrbios sociais. No livro, mais atual do que nunca, a ficção criada por Orwell em 1949 chega a ser assustadoramente similar com a atualidade: “Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas e os prédios de rua foram renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia e minuto a minuto. A história parou. Nada existe a não ser um presente sem fim no qual o Partido tem sempre razão. Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”.

Depois do “Fique em casa, SE PUDER” e “O senhor não deve nada à Justiça”, vexames protagonizados por dois jornalistas na sequência da operação lava-Lula, nesta semana tivemos outro vexame nas páginas da carcomida imprensa para tentar salvar a reputação de um companheiro do ex-presidiário favorito do TSE/STF. Três colegas da mesma emissora de Renata Vasconcellos e William Bonner noticiaram o impeachment de Pedro Castillo, ex-presidente socialista do Peru que tentou dar um golpe de Estado no país, de “conservador e um político alinhado com a direita”.

Sim, eu sei. Pode rir! Foi difícil para mim também conter a gargalhada.

Na transmissão da GloboNews com a “análise” dos comentaristas, o jornalistas Marcelo Lins – talvez um dos maiores ativistas da extrema esquerda na imprensa – descreve o ex-presidente peruano como um “conservador que se alinha à direita”. Julia Duailibi, apresentadora do painel, ao passar a bola para o correspondente do canal em Buenos Aires, Ariel Palacios, acrescenta que Castillo é parecido “com a direita brasileira”. Palacios concorda com a descrição e colabora com a operação lava-Castillo dizendo que o peruano é conhecido por ser “altamente reacionário” e “uma fotocópia do presidente Jair Bolsonaro”.

Não se contenha! Eu disse que é difícil não rir!

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro (à esq.), e o ex-presidente do Peru, Pedro Castillo

Pedro Castillo é marxista ferrenho e sindicalista de extrema esquerda. Durante sua campanha presidencial em 2021, ele propôs estatizações, uma nova Constituição, a regulação da imprensa e até a dissolução do Tribunal Constitucional do país. Desde que assumiu como presidente, em julho do ano passado, ele estabeleceu toque de recolher, determinou a entrega de armas pela população e tentou decretar que a Justiça, o Judiciário, o Ministério Público, o Conselho Nacional de Justiça e o Tribunal Constitucional fossem declarados em recuperação judicial – tudo isso com a tentativa da dissolução do Congresso.

Em novembro, após as eleições presidenciais no Brasil, Castillo disse que foi convidado diretamente pelo ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva para comparecer à posse do petista. Segundo os companheiros, há um mês, os dois membros do Foro de São Paulo conversaram pelo telefone, e, na ocasião, Castillo parabenizou o petista pela vitória e pelo “propósito de fortalecer a democracia”. No Twitter, Castillo escreveu: “Como parte desta conversa, agradeço seu convite pessoal para participar de sua cerimônia de posse”.

Mas, para Julia, Marcelo e Ariel, o membro e fiel escudeiro do marxista Foro de São Paulo ao lado de Lula é “conservador alinhado à direita”, “altamente reacionário” e “uma fotocópia do presidente Jair Bolsonaro”.

Não é só Barroso que pensa que somos manés. Eu tenho certeza absoluta que essa gente mentirosa da imprensa carcomida pensa a mesma coisa. “Eles são burrinhos, tadinhos… uns manés. O que a gente empurrar eles vão engolir”, eles devem comentar rindo de milhões de brasileiros. Ou é isso, ou essa gente simplesmente mente que nem sente. E eles sabem que nós sabemos que o vexame diário é hoje uma realidade inevitável. Assim como Alexandre de Moraes, eles atingiram um ponto de não retorno. Resta, então, dobrar a aposta nas distorções, nas mentiras e na enganação com ares de intelectualidade barata.

Quem não se lembra de outra colega de Renata, Bonner, Julia, Marcelo e Ariel, a apresentadora Maju Coutinho, que, depois de dizer uma das maiores mentiras da pandemia, a de que os especialistas eram unânimes em forçar o lockdown, proferiu com a maior naturalidade, mostrando uma insensibilidade inacreditável diante de tanto sofrimento da população, o famoso “O choro é livre”. Talvez hoje ela até acrescentaria “manés” – O choro é livre, manés! Enquanto os mais necessitados, os mais pobres e vulneráveis iam sendo afetados de maneira cruel a cada dia de trancamento forçado, com direito à truculência policial encampada por governadores tiranos, Dona Maju, Dona Renata, Seu William a turba da GloboNews continuavam trabalhando de estúdios com ar refrigerado ou em home offices enquanto postavam em suas redes sociais “Fique em casa”, hoje “Fique em casa, SE PUDER”. Fique em casa, se puder, mané.

A hipocrisia dessa gente beira algum distúrbio psicológico. Há páginas e mais páginas documentadas do que, de fato, aconteceu durante a pandemia e o que foi dito. Assim como há todas as exposições – de tuítes, acordos e afagos a documentos do próprio Foro de São Paulo – ligando Pedro Castillo a Lula, à extrema esquerda e ao projeto de poder lulocomunista para a América Latina.

Existe um mito piedoso, consagrado pela Primeira Emenda nos EUA e protegido pela Constituição Brasileira, solenemente transmitido de geração em geração de jornalistas, de que a imprensa livre, como “quarto Poder”, situado fora dos corredores do poder oficial, é um baluarte contra o absolutismo, a tirania e a mentira e, portanto, o guardião indispensável de uma sociedade livre. Até um certo ponto, isso pode ser considerado verdade. O poder do Estado é limitado (deveria ser, pelo menos) em princípio pelo fato de que ele só pode coagir externamente por meio do poder policial e da força da lei. No entanto, hoje é claro que o que Estado não pode fazer, a mídia pode coagir mais sutilmente de dentro, determinando o que e como vemos e definimos o mundo no qual vivemos e agimos. Uma imprensa absoluta, que jamais pode ser questionada, ou sua turba de jacobinos logo aparece, preenche mais perfeitamente o totalitarismo do que um Estado absoluto, pois em um sistema perfeitamente totalitário – cujo domínio é de fato total – ninguém jamais reconheceria que está sendo coagido.

Talvez o problema não seja apenas o mau jornalismo, mas o bom jornalismo. Nossa noção de imprensa livre é moldada, claro, por nossa noção moderna de liberdade de que podemos resumir, mais ou menos de forma adequada, com a capacidade de agir sem restrições externas. Embora seja verdade que o Estado não deva restringir a imprensa em nenhum sentido óbvio, ele dificilmente precisa fazê-lo: a boa imprensa contemporânea não é livre para seguir o mesmo padrão de independência e liberdade que a má imprensa tem, como defendemos. Cabe a nós, animais racionais pensantes, decidir o que comer e o que consumir.

Ordem de prisão a Pedro Castillo

Essa ausência de restrição é, na visão tradicional, uma compreensão bastante insignificante da liberdade. Um animal irracional age instintivamente em resposta a estímulos imediatos, não porque se possa dizer que ele entende por que deveria iniciar certa ação, como caçar, por exemplo. Os seres humanos, ao contrário, são livres não apenas porque podem responder a estímulos, mas porque podem compreender, agir e ordenar suas vidas de acordo com o que consideram verdadeiro e bom. E, como na maioria das vezes não queremos ser enganados, viver esse desejo requer a capacidade de distinguir o que é verdadeiramente bom do que apenas parece. A liberdade humana, em outras palavras, é mais uma questão de razão do que de pura vontade, o que significa que a liberdade humana finalmente depende da verdade. Os atuais projetos tirânicos pelo Brasil e pelo mundo que querem e cerceiam a liberdade de expressão e de imprensa não estão embasados no estímulo de estancar a mentira, mas de esconder a verdade. Sem verdade, sem liberdade.

Esse caminho, hoje firmado até por ministros da suprema corte no Brasil, o de assegurar a quebra da constitucionalidade sem corar, “mesmo que só até segunda-feira”, parece ser uma grande reação ao terror atual dos encastelados da política, do judiciário e da carcomida imprensa: quanto maior o alcance da razão de uma pessoa, quanto maior sua independência intelectual, mais ela compreende o verdadeiro significado de suas ações e, consequentemente, mais livre ela pode ser considerada, mesmo que a compreensão dessa verdade limite seu leque de possibilidades de ação naquele momento. Se é verdade que a inteligência é parte integrante da liberdade, segue-se também que uma imprensa cega, estúpida ou incompreensiva não pode ser realmente uma imprensa livre, e que uma sociedade cujos horizontes são determinados por tal imprensa – uma sociedade que não pode realmente pensar, apenas regurgitar o que lhe foi colocado na boca – não pode realmente ser uma sociedade livre.

Os problemas do atual jornalismo não são apenas as ações como mais um membro do famigerado “Ministério da Verdade”, hoje comandado por Alexandre de Moraes e seus asseclas na imprensa com suas distorções e manipulações. A supressão de fatos e notícias relevantes – que podem afetar os peões políticos do sistema – é um ato grave contra o Estado de Direito e as próprias instituições de um país.

Frédéric Bastiat, economista francês e escritor, que desenvolveu o conceito econômico de custo de oportunidade e introduziu a parábola da janela quebrada, certa vez escreveu: “Nenhuma sociedade pode existir a menos que as leis sejam respeitadas até certo ponto”. Direitos que vêm da natureza – o que os norte-americanos chamam de “God given rights” – e são aclamados pelo povo antes mesmo de serem codificados em lei possuem poder de permanência inerente. O respeito à prática da liberdade de expressão e às leis que a aplicam se reforçam mutuamente e fazem o certo, além de evitar que o governo as atropele. Na teoria…

Thomas Sowell

Em seu livro de 1995, A Visão dos Ungidos, Thomas Sowell observou que um grupo de elite, sem ter sido nomeado por ninguém, declarou sua moralidade superior e seu papel crítico na correção dos erros da sociedade. Os ungidos de hoje continuam a ter a arrogância de acreditar que é seu papel, com sua visão e ideias superiores, resgatar as vítimas da “opressão” da sociedade, denunciar os “abusadores” (hoje antidemocráticos) impondo sua vontade coletiva sobre os outros. Como explica Sowell, os ungidos – uma classe livre composta de membros da mídia, acadêmicos e políticos progressistas – acreditam que é seu papel resgatar classes vitimizadas e desprivilegiadas, corrigir injustiças percebidas através do monopólio da moralidade e, hoje, reescrever a história para que nós, manés, não perturbemos no futuro com esse troço chato chamado verdade.

É preciso dar um BASTA em toda essa parafernália vergonhosa que compõe grande parte do Estado no Brasil hoje: partidos políticos que só pensam em sugar o dinheiro do pagador de impostos alinhados a uma corte aparelhada por nada mais do que peões políticos que, alimentada por outros peões políticos na imprensa, nutrem corruptos em todas essas esferas. Depois de lavarem o Lula e tentarem lavar Castillo, não esperem outra coisa por parte dessa gente malandra da imprensa a não ser a limpeza do caminho imundo que Alexandre de Moraes pavimentou para o Brasil. Diante de tanto descalabro, veremos também banho de loja em figuras como Renan Calheiros, que, com seu superpacote da democracia que não permite questionar políticos, colocará o país em um lamaçal de (mais) impunidade e censura.

“Força, Renan!”

ANA PAULA HENKEL

NAS TRINCHEIRAS E NAS RUAS

Manifestantes protestam contra o resultado da eleição presidencial em frente ao Comando Militar do Sudeste, em São Paulo (24/11/22)

As similaridades entres os cenários políticos no Brasil e nos Estados Unidos nos últimos anos vão muito além das semelhanças dos governos de Jair Bolsonaro e Donald Trump e suas pautas e políticas conservadoras e liberais. Os mesmos ataques sem limites da velha mídia demonstraram que jornalistas se tornaram assessores de imprensa de partidos políticos, e muitos veículos de (des)informação não fizeram nada além mentir, difamar, distorcer e privar cidadãos de debates com o mínimo de honestidade intelectual.

Há outras similaridades entre Brasil e Estados Unidos, como o fato de que são duas Repúblicas Federativas Presidencialistas, ou seja, ambos possuem um presidente que é eleito democraticamente, embora os métodos para a escolha do Chefe do Executivo sejam bem diferentes. Os pontos em comum entre as duas nações não param por aí, mas as diferenças também são muitas, desde o nascimento dos países, passando por revoluções e guerras, até os dias de hoje.

Manifestação contra o resultado da eleição presidencial

Essas diferenças, no entanto, não nos impedem de olhar para pontos da história americana para buscarmos alguma fonte de inspiração, e até um certo alento, diante do complicado contexto político-social que enfrentamos no Brasil. Milhões de brasileiros estão nas ruas há exatos 31 dias, pedindo muito mais do que uma auditoria das urnas eletrônicas que já se mostraram incapazes de serem submetidas a uma auditoria séria e transparente para que nosso processo eleitoral – e seus eleitos – viaje no tempo sem suspeitas.

Há 31 dias, brasileiros – pais, mães, avós, crianças e adolescentes – estão nas ruas por todo o Brasil. Nossa nação foi lesada e nossa democracia ferida fatalmente. Desde 2018, temos assistido atônitos a abuso de autoridade, interferência em outros Poderes e aos desmandos inconstitucionais do Supremo Tribunal Federal – tudo com a anuência de um Congresso apático e a covardia de um Senado – e seu presidente, Rodrigo Pacheco – que escolheram não usar a ferramenta constitucional de freios e contrapesos que detém para estancar ilegalidades cometidas pela Suprema Corte. Em 2022, as inconstitucionalidades do STF também se transformaram em rompantes narcisistas de alguns ministros com, como disse um deles certa vez, “pitadas de psicopatia”. Uma manobra ativista no STF para soltar um condenado em três instâncias não foi suficiente para a desmoralização da Corte, um corrupto também foi alçado a candidato favorito para concorrer ao cargo de presidente da nação.

Diante do completo deboche à nossa Constituição e do assalto à democracia, com direito a expressões de quem, de fato, rouba algo, o brasileiro resolveu botar a boca no trombone e carros, barracas, motos, caminhões e bandeiras – muitas bandeiras! – nas ruas. Há exatos 31 dias, a coragem de defender o Brasil contra a tirania jurídica e a ditadura de toga, algo como a faísca que inspirou um punhado de colonos a defender sua liberdade e representatividade contra a tirania de um rei, tomou conta dos portões de centenas de quartéis e áreas militares pelo Brasil. Há duas semanas, escrevi aqui no JBF sobre as manifestações e, mesmo achando tudo profundamente inspirador, pensei: é lindo, pena que não vai durar muito. Shame on me. Justo eu, uma ex-atleta profissional, acostumada a provas físicas e emocionais extenuantes diante de situações que demandaram mais do que eu achava que possuía, não enxerguei a costura que firmou essas manifestações para que elas permanecessem não apenas intactas, mas maiores e mais fortes. Trinta e um dias e ainda contando. Shame on me.

Judicário

Rodrigo Pacheco

E vendo esses brasileiros espetaculares por todo o Brasil, nas grandes capitais e em cidades do interior, sem pensar em desistir, como se estivéssemos em uma trincheira que separa a vida e a morte, me lembrei de um discurso do 40º presidente norte-americano, Ronald Regan. Creio que, em nossos encontros semanais, muitos de vocês já perceberam minha admiração por aquele que considero um dos melhores presidentes da história dos EUA e uma das figuras mais influentes da humanidade na defesa pela liberdade. Já escrevi sobre alguns discursos famosos dele aqui em nossas páginas, como “A Time for Choosing”, de 1964 (surpreendentemente atual!) e o famoso “Mr. Gorbachev, tear down this wall”, de 1987, proferido na Alemanha, dois anos antes da queda do Muro de Berlim. Mas foi na releitura de seu primeiro discurso como presidente dos Estados Unidos da América, aplicada para esses dias sombrios no Brasil, que percebi a conexão com nossos bravos cidadãos que estão usando nossa bandeira como uniforme de guerra contra a coroação da impunidade.

Em 1981, diante de uma plateia hipnotizada por seu carisma e profunda entrega às palavras, já quase no final de seu discurso de posse em seu primeiro mandato, Reagan embala a audiência nas cadeias genéticas do povo norte-americano: lutar sem pensar em desistir diante de mais uma situação de conflito, diante de mais uma situação de entrega por seu país e por uma causa nobre como a liberdade. Pela primeira vez na história dos EUA, a cerimônia de posse fora realizada no lado oeste do Capitólio. Ali, Reagan convidou as pessoas a contemplarem os monumentos à volta de todos e fazerem uma reflexão:

“De pé aqui, deparo-me com uma vista magnífica, abrindo-se para a beleza e história especiais desta cidade. No final desta vasta área estão os santuários para os gigantes em cujos ombros nos apoiamos. Bem à minha frente, o monumento a um homem monumental, George Washington, pai de nosso país. Um homem de humildade que chegou à grandeza com relutância. Ele levou a América da vitória revolucionária para o nascimento de uma nação. De um lado, o majestoso memorial a Thomas Jefferson. A Declaração de Independência inflama com sua eloquência. E então, além da Reflecting Pool, as dignas colunas do Lincoln Memorial. Quem quiser entender em seu coração o significado da América o encontrará na vida de Abraham Lincoln”.

E Reagan continua observando o significados do que está ao redor de todos:

“Além desses monumentos ao heroísmo está o Rio Potomac e, na outra margem, as colinas inclinadas do Cemitério Nacional de Arlington (cemitério militar), com suas fileiras e mais fileiras de lápides brancas simples com cruzes ou estrelas de David. Eles somam apenas uma pequena fração do preço que foi pago por nossa liberdade. Cada uma dessas lápides é um monumento ao tipo de herói de que falei anteriormente. Suas vidas terminaram em lugares como Belleau Wood, The Argonne, Omaha Beach, Salerno e do outro lado do mundo em Guadalcanal, Tarawa, Pork Chop Hill, Chosin Reservoir e em centenas de arrozais e selvas de um lugar chamado Vietnã.

Sob uma dessas lápides está um jovem, Martin Treptow, que deixou seu emprego em uma barbearia de uma pequena cidade em 1917 para ir para a França com a famosa tropa Rainbow Division. Lá, na frente ocidental, ele foi morto tentando levar uma mensagem entre batalhões sob forte fogo de artilharia”.

Aqui, o experiente Ronald Reagan, depois de ter dedicado anos à carreira política, se emociona e segue com seu discurso tentando conter o nó na garganta:

“A história nos é contada que em seu corpo foi encontrado um diário. Na contracapa, sob o título “Minha promessa”, ele havia escrito estas palavras: ‘A América deve vencer esta guerra. Portanto, vou trabalhar, vou salvar, vou sacrificar, vou suportar, vou lutar com alegria e fazer o meu melhor, como se o resultado de toda a luta dependesse apenas de mim’”.

Não farei justiça à profunda maneira como Reagan entregou esse discurso para a história, para os norte-americanos e, por que não, para nós brasileiros e todos aqueles que podem sentir com suas próprias mãos o valor de uma luta, de um sacrifício pela justiça e liberdade. Por favor, vá até o YouTube e veja – ou melhor, sinta – o valor desse discurso.

E Reagan finaliza:

“A crise que enfrentamos hoje não exige de nós o tipo de sacrifício que Martin Treptow e tantos milhares de outros foram chamados a fazer. Requer, no entanto, o nosso melhor esforço e a nossa vontade de acreditar em nós mesmos e acreditar na nossa capacidade de realizar grandes feitos, acreditar que juntamente com a ajuda de Deus podemos e iremos resolver os problemas que agora nos confrontam. E, afinal, por que não deveríamos acreditar nisso? Nós somos norte-americanos”.

Há preciosas páginas inspiradoras em nossa assembleia de vozes, como Reagan. No Brasil, as pacíficas e ordeiras manifestações que clamam pelo respeito ao império das leis vai se tornando histórica e já será lembrada como parte de nossa assembleia de vozes para as futuras gerações. Pessoas comuns que desafiaram a tirania de impostores disfarçados de juízes e homens do povo. Tudo para elevar nosso país ao posto de nação.

Reagan, neste discurso e assim como em quase todos os seus discursos que viajam através do tempo sem envelhecer, toca em um ponto que é pedra angular para os norte-americanos e nos presenteia com um contundente recado, mesmo em 2022:

“Não é coincidência que nossos problemas atuais sejam paralelos e proporcionais à intervenção e à intrusão em nossas vidas que resultam do crescimento desnecessário e excessivo do governo. É hora de percebermos que somos uma nação grande demais para nos limitarmos a pequenos sonhos. Temos todo o direito de sonhar sonhos heroicos. Aqueles que dizem que estamos em uma época em que não há heróis, eles simplesmente não sabem onde procurar. Você pode ver heróis todos os dias entrando e saindo dos portões de fábricas. Outros, em bom número, produzem comida suficiente para alimentar todos nós e depois o mundo além. Você encontra heróis em um balcão, e eles estão em ambos os lados desse balcão. Existem empreendedores com fé em si mesmos e em uma ideia que criam novos empregos, novas riquezas e oportunidades. São indivíduos e famílias cujos impostos sustentam o governo e cujas doações voluntárias sustentam a igreja, a caridade, a cultura, a arte e a educação. Seu patriotismo é silencioso, mas profundo. Seus valores sustentam nossa vida nacional”.

Ronald Reagan

Os traidores da pátria, de Rodrigo Pacheco a Alexandre de Moraes, ainda não entenderam que não sairemos das ruas, da internet, das redes sociais, dos canais que criaremos para falar e falar e falar e mostrar ao mundo o que eles tentaram fazer com o Brasil. O recado vem de 31 dias ininterruptos de anos de indignação com tanta roubalheira, corrupção, ladroagem. Desprezo por Calheiros, Maias, Barrosos e seus asseclas. O recado para malandros de Brasília vem de milhões de manés pelo Brasil e está no discurso daquele que lutou bravamente contra o comunismo e os projetos de poder nefastos de gente como Luiz Inácio Lula da Silva: “Quanto aos inimigos da liberdade, aqueles que são adversários em potencial, eles serão lembrados de que a paz é a maior aspiração do povo. Vamos negociar por ela, nos sacrificar por ela; mas não vamos nos render por ela, nem agora nem nunca”.

Mr. Reagan, permita-me pegar emprestadas algumas palavras de um de seus mais inspiradores discursos, proferido não apenas para os norte-americanos, mas para o mundo: “O Brasil deve vencer esta guerra. Portanto, vou trabalhar, vou salvar, vou sacrificar, vou suportar, vou lutar com alegria e fazer o meu melhor, como se o resultado de toda a luta dependesse apenas de mim”.

Thank you, Mr. President.

Pátria amada, Brasil.

ANA PAULA HENKEL

UMA PRIMAVERA DE GIRASSÓIS

Étienne de La Boétie, francês, filósofo, escritor e fundador da “filosofia política moderna” na França foi para muitos apenas o grande amigo do eminente ensaísta Michel de Montaigne. Mesmo na França, La Boétie é uma figura que não saiu das sombras do quase anonimato. Nenhum retrato dele sobreviveu e sua vida é mal documentada, embora Montaigne o compare a Sócrates como “uma bela alma por trás de um rosto feio”. No entanto, ele é um dos teóricos políticos franceses mais influentes do século 16, embora seja mais conhecido hoje por seu ensaio Discurso da Servidão Voluntária, em que ele explora por que a maioria muitas vezes capitula voluntariamente às demandas de uma pequena minoria dominante.

Nesta curta obra, escrita por volta de 1550, o francês faz uma crítica à legitimidade de alguns governantes, chamados por ele de “tiranos”, e aborda as maneiras com que os povos podem se submeter voluntariamente ao governo de um só homem. A primeira abordagem vem pelo hábito: quem está acostumado à servidão tende a não questioná-la. Logo em seguida, La Boétie visita a servidão pela religião e pela superstição, algo que se cria em torno da figura do líder. Mas, para o filósofo, não são apenas esses dois métodos para criar a servidão voluntária. A chave da dominação consiste em envolver o dominado na própria estrutura da dominação, uma pirâmide de poder: o tirano domina meia dúzia, essa meia dúzia domina 600, esses 600 dominam 6 mil, e abaixo desses 6 mil vêm todos os outros.

Estátua do escritor Étienne de La Boétie (1530-1563), em frente ao Tribunal de Sarlat-la-Caneda, no departamento de Dordogne, no sudoeste da França

Para La Boétie, os que estão em volta do tirano são os menos livres de todos, pois, se as outras pessoas são simplesmente obrigadas a obedecer, esses, além disso, querem antecipar os desejos do tirano para não perderem seus postos. Dessa maneira, escolhem, livremente, a própria servidão. Em o Discurso da Servidão Voluntária, La Boétie propõe a reflexão sobre uma questão que está na base da política, seja em 1552, seja em 2022: o motivo que leva as pessoas a obedecerem sem enxergar o que, de fato, está em jogo ou acontecendo — e o que pode levar uma pessoa a abrir mão de sua própria liberdade. A servidão voluntária de La Boétie mergulha na perda do desejo de liberdade, uma vez que “os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados”.

E o brasileiro foi enganado por muito tempo. Obedeceu a regimes totalitários psicológicos que aprisionaram a independência intelectual e foi alimentado a pão e circo durante tempo demais. O brasileiro foi ludibriado por um sistema perfeito que fingia proteger a liberdade, que fingia se preocupar com a nação, que fingiu por muito, muito tempo que o voto representaria sua voz no Parlamento, que o Congresso trabalhava a favor do povo e que as instituições funcionavam. Mas no meio do caminho tinha um 2018, tinha um 2018 no meio do caminho. E no meio desse caminho, o povo, alimentado pelas migalhas de pouco pão, mas com fartura de circo, conheceu Adam Smith, Thomas Sowell, Jordan Peterson, Olavo de Carvalho… e tantos outros pensadores da liberdade. Liberdade preciosa que já era objeto de extrema preocupação e visita em 1552 na França de La Boétie.

E foi exatamente no caminho do calabouço intelectual em que se encontrava o brasileiro que Olavo de Carvalho, aquele das mil teorias conspiratórias que são realidade hoje, apareceu para falar de um tal “teatro das tesouras”. Eu não faria justiça aos ensinamentos do professor se tentasse colocar aqui, mesmo de maneira direta, a brilhante explicação de Olavo daquilo que foi uma mentira, um transe durante anos e anos no Brasil. A visão que Olavo nos trouxe um divisor de águas no caminho de nossa atual independência intelectual – a que, de fato, está alimentando nossa independência política – está em um artigo espetacular de 2002 para o jornal O Globo, com o título “A mão de Stalin está sobre nós”. Ali, Olavo desnuda o roteiro macabro que assolou o Brasil durante tempo: o teatro das tesouras, a falsa dicotomia entre PT e PSDB – fios do mesmo tecido político.

Olavo de Carvalho

“Neste país há três e não mais de três correntes políticas organizadas: o socialismo fabiano que nos governa, o socialismo marxista e o velho nacional-esquerdismo janguista. O socialismo fabiano distingue-se do marxista porque forma quadros de elite para influenciar as coisas desde cima em vez de organizar movimentos de massa. Seu momento de glória veio com a administração keynesiana de Roosevelt, que, a pretexto de salvar o capitalismo, estrangulou a liberdade de mercado e criou uma burocracia estatal infestada de comunistas, só sendo salva do desastre pela eclosão da guerra.

No poder, os fabianos dão uma maquiada na economia capitalista, enquanto fomentam por canais aparentemente neutros a disseminação de ideias socialistas, promovem a intromissão da burocracia em todos os setores da vida (não necessariamente os econômicos) e subsidiam a recuperação do socialismo revolucionário. Quando este está de novo pronto para a briga, eles saem de cena envergando o rótulo de “direitistas”, que lhes permitirá um eventual retorno ao poder como salvadores da pátria se os capitalistas voltarem a achar que precisam deles para deter a ascensão do marxismo revolucionário. Então novamente eles fingirão salvar a pátria enquanto salvam, por baixo do pano, o socialismo.

A articulação dos dois socialismos era chamada por Stalin de “estratégia das tesouras”: consiste em fazer com que a ala aparentemente inofensiva do movimento apareça como única alternativa à revolução marxista, ocupando o espaço da direita de modo que esta, picotada entre duas lâminas, acabe por desaparecer. A oposição tradicional de direita e esquerda é então substituída pela divisão interna da esquerda, de modo que a completa homogeneização socialista da opinião pública é obtida sem nenhuma ruptura aparente da normalidade. A discussão da esquerda com a própria esquerda, sendo a única que resta, torna-se um simulacro verossímil da competição democrática e é exibida como prova de que tudo está na mais perfeita ordem.

Josef Stalin, em 1937

“(…) No governo, nossos fabianos seguiram sua receita de praxe: administraram o capitalismo como se fossem capitalistas, ao mesmo tempo que espalhavam a doutrinação marxista nas escolas, demoliam as Forças Armadas, instituíam novas regras de moralidade pública inspiradas no marxismo cultural da Escola de Frankfurt, neutralizavam por meio da difamação midiática as lideranças direitistas, criavam um aparato de repressão fiscal destinado a colocar praticamente fora da lei a atividade capitalista e, last not least, subsidiavam com dinheiro público o crescimento do MST, a maior organização revolucionária que já existiu na América Latina. Em suma: fingiam cuidar da saúde do capitalismo enquanto destruíam suas bases políticas, ideológicas, culturais, morais, administrativas e militares, deixando o leito preparado para o advento do socialismo.”

Ah! Olavo… que falta você faz. Você tentou nos avisar, mesmo lá do Estado da Virgínia, nos EUA, mas disseram que você não batia bem das ideias – e hoje sabemos os motivos para tanta perseguição, para tantos ataques. O sistema precisava te calar. Mas chega aí, professor. Olha o que está acontecendo nas ruas, estradas, casas e mentes no Brasil. Olha a sua semente, Olavo. O povo está discutindo comunismo, socialismo, Foro de São Paulo – outra “loucura” da sua cabeça que está agora não apenas diante de nós, mas querendo engolir o Brasil. O povo não está aceitando o que fizeram com as nossas eleições, com o nosso Congresso, com a nossa Suprema Corte, com a nossa Constituição! Você está vendo daí, professor? O povo está vestido de verde e amarelo, as bandeiras do Brasil estão nas varandas, nos carros, motos e caminhões… E nem é pela Copa do Mundo de Futebol que está para começar. As bandeiras estão amarradas nos pescoços das pessoas e das crianças, viraram capas de super-heróis, Olavo. A primavera de girassóis chegou!

“É golpe!”, eles gritam. O exército está nas ruas, fato. Mas não o exército das Forças Armadas com tanques e soldados, mas os soldados pelo Brasil com as forças armadas. Uma multidão insuportável, munida de patriotismo, cooperação, resiliência e fé. Gente que não tem vergonha de cantar o hino e orar pelo país. Gente que entendeu a Parábola do Talentos, registrada no Evangelho de Mateus (25:14-30) e que foca em sua parte final a questão da necessidade da vigilância e da realidade do juízo vindouro. Jesus diz, ali naquele sermão e muito claramente, que nesse dia os salvos e os ímpios serão separados. A Parábola dos Talentos foi contada por Jesus na semana em que Ele foi traído e vale muito a pena sua leitura e reflexão para os dias de hoje. O que cada um de nós está fazendo pelo país e contra a tirania a que fomos submetidos?

Manifestações de 15/11/2022 em Brasília

Muitos querem insistir que os brasileiros estão fora de seus empregos, longe de suas casas – há 18 dias! – simplesmente por não aceitarem o resultado das eleições. Mas eles sabem que não é apenas isso. Eles sabem que foram quatro anos de tentativas de desestabilizar um governo técnico não apenas pela imprensa carcomida e vendida, mas por meios ilegais e inconstitucionais através da carcomida e vendida banda podre do Poder Judiciário. Chega. O povo está dizendo chega. Podemos até voltar para nossas casas e para a vida cotidiana, mas a vida jamais voltará ao normal diante do que foi feito, diante do imundo caminho pavimentado para soltar um bandido que assaltou o Brasil e colocá-lo na Presidência.

De volta a La Boétie e ao Discurso da Servidão Voluntária, o francês aborda as razões pelas quais os seres humanos se submetem ao domínio de tiranos. Para ele, há três razões que levam o homem à servidão voluntária. Nascer na servidão; a estrutura de poder, na qual “o tirano submete uns por intermédio dos outros”; e a covardia, ou tornar-se “covarde” sob a tirania. La Boétie escreve que, “com a perda da liberdade, perde-se imediatamente a valentia (…). Perdem também a energia em todo o resto, têm o coração abatido e mole e não são capazes de grandes ações. Os tiranos o sabem e, à vista deste vício, fazem tudo para piorá-lo”. Por isso, seduzem os povos através de jogos, de maneira que, “assim ludibriados (…), divertiam-se com o vão prazer que lhes passava diante dos olhos e habituavam-se a servir com simplicidade igual à das crianças (…)”.

Senhor Alexandre, chega aí. O senhor vai ter de mandar prender muita gente. Milhares, milhões. O brasileiro está mostrando suas verdadeiras cores, e a covardia não é uma delas.

Em 1552, Étienne de La Boétie argumentou que a liberdade e o desejo por ela são os estados naturais da humanidade, e que, mesmo sob a tirania, a liberdade é facilmente recuperada:

“Resolva não servir mais, e aí está você, livre. Eu não quero que você o empurre ou o derrube, mas simplesmente não o segure mais, e você o verá, como um enorme colosso com a base retirada, desmoronar sob seu próprio peso e se desfazer”.

Pois é… Parece que um bando de “manés”, como diria uma figura tosca do quadro da tirania brasileira à la Étienne de La Boétie, vai continuar amolando, para o desespero dos malandros.