ANA PAULA HENKEL

O MAL DE ROUPA NOVA

Há algum tempo venho tentando apresentar por meio de análises e artigos, e direto da Califórnia, um dos maiores caldeirões progressistas dos Estados Unidos, o que grande parte da mídia no Brasil não cobre – e jamais explorará: a preocupante guinada radical para a extrema esquerda do Partido Democrata. E, para entender o motivo de muitos se referirem à última eleição como uma das mais importantes da História, é preciso perceber o que está em jogo além de políticas públicas propostas por democratas ou por republicanos.

A Declaração de Independência e a Constituição Americana, enxuta com suas 27 emendas, não mostram apenas a solidez dos documentos mais importantes da nação mais próspera do mundo. Quando alguns bravos homens das treze colônias britânicas na América do Norte se encontraram no Segundo Congresso Continental e decidiram se unir contra a Coroa britânica, nem tudo foi suave como muitos imaginam. Eram treze colônias independentes, houve muito debate, elas brigaram muito e levantaram muitas questões, mas decidiram colocar seus nomes em um histórico pergaminho que não apenas declarava a independência da Grã-Bretanha mas poderia significar a sentença de morte de cada uma delas.

Todos estavam cientes dos tempos difíceis que adviriam, mas também era muito claro o que se defendia: independência, liberdade, representatividade no governo, republicanismo. Apesar de serem homens de colônias independentes, eles baseavam suas crenças no brilhantismo ocidental calcado nos valores judaico-cristãos, na força dos indivíduos, nos direitos naturais. Aqueles homens tiveram contemporâneos como Adam Smith e o grande Edmund Burke, com quem estavam completamente familiarizados e a quem fizeram referência em seus escritos e legado.

Aqueles homens, apesar de todas as diferenças entre eles, que não eram poucas, agarraram-se em torno do maior ponto em comum que os unia: o empenho em criar uma grande nação com o maior documento governante que a humanidade já conheceu. E eles foram bem-sucedidos. A Constituição Americana estabeleceu um governo beneficente limitado e protegeu a sociedade civil para nutrir a liberdade, a família e os direitos religiosos. Na Declaração de Direitos (Bill of Rights), também elaborada com empenho e profundidade durante anos, o ponto central, que se tornou o pilar mais sagrado para a nação, não poderia ser outro: a proteção ao indivíduo contra o governo central, a defesa da liberdade de expressão, de imprensa, de associação. E ainda: a garantia da liberdade religiosa, o direito do indivíduo de manter e portar armas contra os inimigos, sejam eles apenas indivíduos ou governamentais.

Os Pais Fundadores dos Estados Unidos ainda fizeram questão de deixar explícito na Magna Carta o devido processo legal, a necessidade de mandados com base em causa provável, julgamentos rápidos, cláusulas pétreas de proteção à propriedade privada e tudo o que é crucialmente importante para uma sociedade civil livre. Nenhum documento na face da Terra é como a Constituição Americana, baseada nas declarações de independência e nos direitos naturais inalienáveis.

O que assusta, a cada dia que passa, com a possível eleição da chapa democrata para comandar a nação mais livre do mundo, não é apenas a retórica de discursos politicamente corretos, globalistas e contra policiais, inflamados para satisfazer a sanha da turba barulhenta – e violenta – da ala mais radical do partido. O mais aterrorizante aparece quando você sai da superfície eleitoral e mergulha na plataforma oficial do partido.

Com parte do país hipnotizada durante quatro anos pela narrativa da mídia de que Donald Trump é o “novo Hitler” e que precisava ser removido a qualquer custo (Reagan, Bush, McCain, Romney… todos eles também foram “Hitler” um dia), forças nada republicanas podem estar em ascendência na sociedade norte-americana. Um mal fantasiado de bom-mocismo e caridoso, mas tão nocivo quanto em qualquer momento da História. Agora com roupagem nova, esse mal atende pelo nome de “Força-tarefa da Unidade Biden-Sanders” (Biden-Sanders Unity Task Force).

Em 110 páginas, o documento que une a ala que já foi moderada no Partido Democrata, representada por Joe Biden, à ala radical, dominante hoje na legenda e com o socialista Bernie Sanders como líder, expõe linhas de deixar os cabelos em pé. Em nenhum lugar há menção alguma à proteção da liberdade individual, ou a direitos sobre propriedade privada, ou a fé religiosa, ou mesmo à liberdade de expressão. O manifesto que celebra a união do novo Partido Democrata é um documento totalmente antagônico à Declaração de Independência, à Constituição Americana e aos valores que fundaram o país.

Não é novidade que já há algum tempo os democratas andam seguindo políticas que são impraticáveis e impossíveis. A maioria, no entanto, continua parecendo ótima no papel. E de onde eles estão tirando essas ideias? Com uma guinada tão radical para a extrema esquerda no espectro político, a semelhança entre a atual plataforma democrata e a Constituição de 1936 da União Soviética, adotada em dezembro daquele ano, chega a ser perturbadora. Mas o que diz a Constituição de Stalin? Vamos lá.

Capítulo X: Direitos e Deveres Fundamentais dos Cidadãos

ARTIGO 118. Os cidadãos da URSS têm direito ao trabalho, ou seja, têm garantido o direito ao emprego e ao pagamento do seu trabalho de acordo com a sua quantidade e qualidade.

O direito ao trabalho é garantido pela organização socialista da economia nacional, pelo crescimento constante das forças produtivas da sociedade soviética, pela eliminação da possibilidade de crises econômicas e pela abolição do desemprego.

ARTIGO 119. Os cidadãos da URSS têm direito ao descanso e ao lazer.

O direito ao descanso e ao lazer é assegurado pela redução da jornada de trabalho para sete horas para a esmagadora maioria dos trabalhadores, pela instituição de férias anuais com remuneração integral para trabalhadores e empregados e pela disponibilização de ampla rede de sanatórios, casas de repouso e clubes de alojamento dos trabalhadores.

ARTIGO 121. Os cidadãos da URSS têm direito à educação.

Esse direito é assegurado pelo ensino fundamental obrigatório universal; pela educação, inclusive superior, sendo gratuita; pelo sistema de estipêndios estatais para a esmagadora maioria dos alunos nas universidades e faculdades; pela instrução nas escolas, ministrada na língua materna, e pela organização nas fábricas, fazendas estatais, estações de máquinas e tratores e fazendas coletivas de formação profissional, técnica e agronômica gratuita para os trabalhadores.

ARTIGO 122. As mulheres na URSS têm direitos iguais aos dos homens em todas as esferas da vida econômica, estatal, cultural, social e política.

A possibilidade de exercer esses direitos é assegurada às mulheres pela outorga de direitos iguais aos do homem ao trabalho, remuneração pelo trabalho, descanso e lazer, seguro social e educação, e pela proteção estatal dos interesses da mãe e da criança, pré-maternidade e licença-maternidade com vencimento integral e oferta de ampla rede de lares de maternidade, creches e jardins de infância.

Poderia parecer apenas o discurso de Kamala Harris, Elizabeth Warren ou do socialista Bernie Sanders, todos lhe pregando um sermão para que não se preocupe pois o Estado vai cuidar de você, de sua vida e, obviamente, de suas escolhas, caso não saiba escolher “o correto”.

Mas não acredite em mim. Mergulhe nas páginas do manifesto do Partido Democrata e leia:

Os democratas se comprometem a firmar um novo contrato social e econômico com o Povo americano – um contrato que investe nas pessoas e promove a prosperidade compartilhada, não um que beneficie apenas as grandes corporações e as poucas mais ricas. Um novo contrato que reconhece que todos os americanos têm direito a cuidados de saúde de qualidade. Um contrato que afirme que moradia é um direito e não um privilégio, e que assuma o compromisso de que ninguém ficará sem teto ou passará fome no país mais rico da Terra. Um novo contrato econômico que aumente os salários e restaure os direitos dos trabalhadores para organizar, aderir a um sindicato e negociar coletivamente. Um contrato que finalmente sustente famílias trabalhadoras e a classe média, garantindo salários iguais para as mulheres, férias familiares pagas para todos e o capital próprio.

Faço o convite para que todos leiam esse texto. A quantidade de medidas que poderão ser implementadas por meio de “ordens executivas”, de acordo com o documento do partido, é assustadora e ao mesmo tempo inacreditável para qualquer nação que tenha um Congresso responsável pela atividade legislativa. E o que dizer da nação que tem em suas bases o federalismo, com ampla autonomia e independência dos Estados?

As medidas que seriam resolvidas na caneta democrata são preocupantes: descriminalização da maconha em todo o país, corte de recursos para corporações policiais, aumento de poder e investimento federal em sindicatos – enaltecendo as decisões coletivas, e não as individuais – e revogação da espetacular reforma tributária da administração de Donald Trump, que por meio das Oportunity Zones trouxe enormes benefícios e pleno emprego a mais de 8 mil comunidades negras pelo país. Em um trecho do manifesto, o partido afirma “que os democratas continuam a apoiar a abolição da pena de morte”, mas, na plataforma oficial, assinala comprometimento com recursos federais para as clínicas de aborto em todo o país (verba cortada por Donald Trump), sob a cantilena de “cuidados com a saúde das mulheres”.

Sobre a pandemia, o documento afirma que Donald Trump é responsável pela morte de dezenas de milhares de norte-americanos e pela atual recessão econômica. O bizarro “contrato com os EUA” (parece familiar?) promete uma série de aumentos de salários, benefícios estendidos a todos, como educação gratuita desde o jardim de infância até a universidade, perdão das dívidas universitárias de milhões de pessoas, extensão para licenças-maternidade e paternidade remuneradas – tudo isso sem aumentar impostos da classe média. A conta não fecha. A cereja desse bolo de Halloween? Criar algumas empresas estatais que, segundo os ungidos democratas, trarão enormes benefícios à sociedade norte-americana. Eu conto, ou vocês contam?

Não acabou, não. O ex-partido de John F. Kennedy, que deve estar se revirando no túmulo com o sequestro de sua agremiação pelo Psol ianque, não apoia apenas a criação de mais sindicatos, mas firma compromisso com a obrigação de um minimum wage de US$ 15 por hora para todo o país. O utópico roteiro tragicômico de 110 páginas ainda inclui como as boas almas democratas deixarão o país mais verde e feliz – e sem aumentar um centavo de impostos da classe média: “Democratas vão lançar uma revolução por meio de investimentos históricos em energia limpa, transporte limpo, eficiência energética e fábricas limpas e avançadas. Vamos consertar todas as nossas rodovias, estradas, pontes, portos e aeroportos e lançar a segunda revolução ferroviária no país, investindo em ferrovias de alta velocidade”. Alô, Dilma, é você? Discurso tão bonito que até escorreu uma lágrima aqui.

Eu poderia me estender em mais uma hora de resenha só acerca do manual direto do inferno dos democratas que prega um Estado maior, mais centralizado e mais poderoso, e com menos liberdades individuais – ou seja, tudo o que sempre pregou o marxismo de roupa nova, cabelo cortado e sapato de marca.

A América, o pilar mais sólido na defesa inviolável da liberdade no Ocidente e no mundo, pode estar a um passo de uma perigosa mudança, aquela que vem de dentro para fora. A prosperidade que os desmiolados democratas pregam nesse funesto manifesto não é apenas irreal e inatingível, é perigosa para os norte-americanos e para o resto do mundo.

Embora figuras como Thomas Jefferson e George Washington possam vir mais facilmente à mente quando pensamos no período revolucionário e na fundação da América, o principal defensor da causa da independência foi verdadeiramente John Adams. Ninguém fez mais discursos vigorosos pela liberdade do que o admirável e dedicado advogado de Boston. Por causa disso, ele foi o líder de um comitê de cinco notáveis que redigiram a Declaração de Independência. Adams tornou-se o defensor mais ardente desse documento e de seus princípios.

Em um de seus memoráveis discursos, aquele que veio a se tornar o quinto presidente dos EUA disse: “A tirania dificilmente pode ser praticada em um povo virtuoso e sábio”. Rezo para que as palavras de homens tão fundamentais para a América como John Adams, agora mais do que nunca, sejam redescobertas no inconsciente da nação, e que o povo norte-americano entenda que a América é a nação mais próspera porque é a mais livre. E não o contrário.

ANA PAULA HENKEL

QUEM É (DE VERDADE) KAMALA HARRIS

Em uma eleição presidencial norte-americana tão controversa como a que estamos presenciando, muitos podem concentrar o foco das atenções nos protagonistas Donald Trump e Joe Biden. A mídia norte-americana, assim como grande parte da brasileira, já declarou Joe Biden com número de delegados suficiente para se eleger presidente. Em meio a alegações de fraude em alguns Estados e à espera das declarações oficiais de que o candidato democrata venceu (nenhum Estado oficializou seus números ainda), as ações legais da parte da campanha de Trump se tornam as peças centrais da cobertura jornalística e das redes sociais.

A verdade é que a eleição no país mais livre do mundo e com as instituições mais sólidas do planeta se transformou em circo de horrores. No meio da pandemia histórica, os democratas usaram o pânico para recomendar que as pessoas ficassem em casa e votassem pelo correio – afinal, o partido que demonizou os eleitores de Trump durante quatro anos estava preocupado “com todos”. Para nós, brasileiros, acostumados com as urnas eletrônicas, a pergunta é: mas voto pelo correio em massa? O que pode dar errado? Quase tudo.

Além das evidências de que milhares de cédulas de pessoas mortas foram usadas, problemas em softwares que transferiram votos de Donald Trump para Joe Biden em 47 lugares, denúncias de funcionários do correio de que supervisores instruíram agentes da empresa a carimbar cédulas com data retroativa ao dia da eleição, há mais uma dezena de eventos no mínimo bizarros. E, na atual politização de absolutamente tudo que cruza nosso caminho nos dias de hoje, o Brasil não ficou atrás com sua dose de bizarrice, mesmo em uma eleição norte-americana.

Liberais (pero no mucho) comemoraram a possível eleição de Joe Biden com entusiasmo, alegria e esperança em um mundo melhor.

– Viva! Biden venceu!

– Mas você conhece a plataforma da chapa dele?

– Não, mas e daí? O amigo do Bolsonaro caiu, e é isso que importa!

– Mas você não é liberal, não preza as liberdades individuais, um Estado mínimo, enxuto? Reformas tributárias importantes, desregulações e menos intervencionismo no mercado?

– Sim. Mas o amigo do Bolsonaro perdeu, e isso é bom!

– Você sabia que se corre o risco de Biden não terminar o mandato? Além dos indícios de corrupção do filho e de tráfico de influência quando era vice de Obama, ele não está tão bem de saúde e pode ter sido usado pela ala radical do partido para emplacar políticas públicas absurdas até para os antigos democratas.

– Mas o homem laranja perdeu, é isso que importa!

– Você conhece a Kamala Harris, a vice do Joe Biden?

– A primeira mulher negra a ser vice? Empoderada, hein!

– Pode até ser. Mas você sabe o que ela defende? Suas ideias e suas plataformas?

– Não importa. Orange man bad.

Essa poderia ter sido uma conversar fictícia, mas não foi. Foi com uma amiga brasileira que mora aqui em Los Angeles e acredita ser liberal, já que o marido é um empreendedor, e que o voto em Joe Biden foi importante porque… bem, porque “orange man bad”. E, enquanto o “homem laranja do mal” continua sendo o protagonista das notícias ruins, a primeira mulher negra, empoderada e tudo de bom de acordo com as listas do politicamente correto segue como a estrela do circo. Mas quem é Kamala Harris?

A primeira coisa que muitos precisam saber, principalmente os liberais de Taubaté do Brasil, é que Kamala pode estar prestes a conduzir a nação mais poderosa do mundo e que de liberal ela não tem absolutamente nada. Todos aqui nos EUA já entenderam o plano, principalmente os doadores do Partido Democrata. Os grandes bancos que controlam Joe Biden há décadas, desde quando ele era senador, ficaram nervosos quando o candidato acenou ainda na campanha para outros nomes mais moderados para o posto de vice. Quando Biden escolheu Kamala, muitos doadores não conseguiram conter o entusiasmo, jogaram para o alto o velho pragmatismo norte-americano e foram às redes sociais celebrar.

Enquanto os gordos doadores e lobistas do partido comemoravam o nome politicamente correto de Harris, a verdade é que muitos eleitores nunca mostraram muito entusiasmo por ela. Na verdade, Kamala era tão notavelmente impopular que, nas primárias democratas, apesar da imensa torcida e dos empurrões da mídia, ela teve de desistir da corrida. E foi ainda durante um debate nas primárias que Kamala acusou Joe Biden de ser racista e segregacionista (talvez pelos antigos e profundos laços com senadores ligados à Ku Klux Klan, como Robert Byrn). Também durante as primárias, quando Biden se viu acusado de assédio sexual por sua antiga secretária, Tara Reade, Kamala foi uma das primeiras a dizer na TV: “Devemos acreditar na vítima! Eu acredito nela!”. Mas, em nome do amor à ascensão política, à glória e à cadeira atrás da Resolute Desk, Kamala nunca mais – nunca mais – tocou no assunto. Mexeu com uma… ah, deixa pra lá.

Mas esse não foi o primeiro episódio em que Kamala se apaixonou por poder e ascensão com uma certa, digamos, ética seletiva. Em meados da década de 1990, ela namorou Willie Brown, que foi investigado pelo FBI por conflitos de interesses quando era o presidente da Assembleia da Califórnia e o prefeito de São Francisco. Kamala teve um caso extraconjugal com Brown e se beneficiou de seu patrocínio político. Brown, um dos homens mais poderosos da Califórnia, nomeou Kamala duas vezes para cargos de destaque, que a lançaram na política. Quando ela anunciou sua candidatura presidencial, em janeiro de 2019, Brown escreveu um artigo para o San Francisco Chronicle intitulado: “Claro, namorei Kamala Harris, e daí?”. Num trecho, ele informa: “Sim, nós namoramos. Isso foi há mais de vinte anos. Sim, posso ter influenciado sua carreira ao indicá-la para postos estaduais importantes quando era o presidente da Assembleia da Califórnia”. Na época, Brown tinha 60 anos, e Kamala, 29.

Logo em seguida, Kamala subiu ao posto de promotora da cidade de São Francisco. Uma de suas maiores manchas da época foi o fato de ela ter parado de investigar supostos abusos infantis dentro da Igreja Católica. O antecessor no cargo tinha todos os arquivos sobre padres abusadores, mas, assim que Kamala assumiu o posto, ela se recusou a compartilhá-los com as vítimas e os documentos foram engavetados. Até hoje, a vice de Biden carrega o estigma de não ter ajudado de forma proativa nos processos civis contra o clero durante os anos em que atuou como promotora.

De acordo com várias vítimas e seus advogados, nos sete anos como promotora distrital, Kamala também ignorou pedidos de ativistas e sobreviventes para acessar arquivos que poderiam ter ajudado a garantir a ação da Justiça. Joey Piscitelli, uma das vítimas, afirma que mesmo depois de Kamala ter sido eleita procuradora-geral da Califórnia, em 2010, ela continuou a evitar qualquer ação relacionada ao problema.

Quando Kamala subiu ao posto de procuradora-geral da Califórnia, suas ações mostraram uma série de contradições. Ela pressionava por programas de auxílio a criminosos responsáveis por delitos considerados menos graves em vez de colocá-los na prisão. Ao mesmo tempo, mantinha milhares de pessoas trancafiadas mesmo depois de terem provado inocência. Ela se recusou a advogar a pena de morte contra um homem que matou um policial, mas defendeu a pena capital em tribunal.

Certa vez, Kamala impediu a realização de um teste de DNA que poderia ter inocentado Kevin Cooper, um presidiário no corredor da morte. Cooper foi condenado em 1983 pelo assassinato de três crianças, entre elas sua filha Jessica, de 10 anos. Com o avanço da ciência forense, seus advogados lutaram por testes avançados de evidências de DNA, mas Kamala se opôs aos testes de Cooper e de mais uma dezena de presos enquanto ocupava o comando da Procuradoria-Geral da Califórnia. No ano passado, depois que o caso foi divulgado pelo The New York Times, ela disse ao jornal que se sentia “péssima com isso” e agora apoiaria os testes. Too little too late.

Foi também como procuradora-geral que ela passou anos subvertendo uma decisão de 2011 da Suprema Corte que determinava a redução da população carcerária do Estado. Trabalhando em conjunto com o governador Jerry Brown, Kamala e sua equipe apresentaram moções que foram condenadas por juízes e especialistas legais como obstrucionistas, de má-fé e sem sentido, sugerindo que a Suprema Corte não tinha jurisdição para ordenar a medida. A intransigência das ações de Kamala resultou, na consideração dos juízes que presidiam o caso, na condenação do Estado por desacato ao tribunal. Essa extrema resistência a uma decisão da Suprema Corte foi feita para evitar a libertação de menos de 5 mil infratores não violentos que vários tribunais já haviam inocentado por apresentar quase nenhum risco de reincidência ou ameaça à segurança pública.

Como toda boa e aplicada seguidora do manual da hipocrisia, Kamala também colocou cerca de 1,5 mil pessoas na prisão por violações de uso de maconha, mas riu depois em uma entrevista quando lhe perguntaram se alguma vez havia fumado a droga. Na época, durante seu mandato como procuradora-geral, a venda e o porte de maconha eram ilegais na Califórnia. Os eleitores do Estado decidiram legalizar a maconha recreativa apenas em 2016, o mesmo ano em que Kamala foi eleita para o Senado dos EUA e deixou seu posto de procuradora.

Durante os recentes protestos violentos nas grandes cidades norte-americanas do grupo marxista Black Lives Matter e do grupo terrorista Antifa, a vice de Biden não condenou uma única vez os saques e o vandalismo, e ainda acrescentou que essas vozes deveriam ser ouvidas e que não poderiam parar. Durante muitos protestos que acabaram em violência e prisões, Kamala mostrou suas verdadeiras cores. Ela apoiou o perigosíssimo movimento Defund the Police, que visa ao corte do orçamento das corporações policiais em todo o país. Foi além: divulgou na internet uma página que arrecadava doações para tirar da cadeia bandidos que estavam ateando fogo no país.

A pergunta que não quer calar é se Biden, oficialmente eleito, sucumbirá à plataforma radical da ala extrema no partido a que Kamala Harris pertence. Aumento de impostos, regulações, Estado inflado, políticas de fronteiras abertas, aproximação perigosa e sem freios com a China, agenda ambiental utópica, banimento de combustíveis fósseis, principalmente agora que o país é autossuficiente, agenda agressiva para a política de gênero.

As políticas que Kamala Harris apoia são perigosas: basta olhar seu passado e o próprio site oficial da chapa. A preocupação não resulta apenas do canto de sereia de figuras como Kamala aliado a uma imprensa que perdeu qualquer escrúpulo e contato com a realidade. O problema também está em como muitos “liberais”, por pura picuinha política, estão fechando os olhos para políticas que afetarão – negativamente – a vida de todos nós em efeito cascata, e para consequências muito piores do que as malcriações no Twitter do homem laranja do mal.

ANA PAULA HENKEL

O NOVO PARTIDO REPUBLICANO

Como se não bastassem todos os acontecimentos do ano, 2020 com certeza será um capítulo à parte nos livros de História. Para coroar um ano repleto de eventos marcantes para a humanidade, a cereja do bolo ficou por conta das eleições presidenciais norte-americanas. Mas na controversa disputa pela Casa Branca já há um vencedor: o Partido Republicano. Goste-se ou não da figura do atual presidente, o efeito transformador que Donald Trump produziu no Partido Republicano moldará a instituição nos próximos anos, independentemente do resultado das eleições de 2020.

Graças às políticas de Donald Trump e ao entusiasmo que ele engendra, o Partido Republicano está mais saudável, mais vigoroso (com recorde de jovens filiando-se ao partido), mais unificado e tem um alcance mais amplo do que teve em décadas. O partido da dinastia Bush, ou de homens sérios e engessados como Mitt Romney, sem nenhuma comunicação com o público mais jovem ou a classe operária americana, ficou para trás.

Em 2016, talvez Donald Trump tenha sido eleito porque do outro lado da cédula havia Hillary Clinton, figura tóxica até para democratas. Trump também recebeu votos em massa de evangélicos e cristãos em geral que depositaram no republicano a confiança de indicações conservadoras para a Suprema Corte norte-americana, na esperança de que o tribunal possa reverter um dos maiores ativismos judiciais da História na decisão Roe vs. Wade (1974), que legalizou o aborto no país. E isso aconteceu. Em quase quatro anos, Trump colocou na Suprema Corte três juízes conservadores e originalistas (apenas a Constituição como está escrita é o norte jurídico). Entre eles, uma mulher, Amy Coney Barrett.

Mas as vitórias da administração de Donald Trump, apesar de toda a gritaria de grande parte da mídia, censura das plataformas digitais e perseguição constante pelo Partido Democrata, não param por aí. Há várias críticas que podem ser feitas ao presidente norte-americano, isso é verdade. Sua retórica agressiva, sua fama de brigão, seus tuítes malcriados, sua língua afiada sempre vencendo a diplomacia do cargo. No entanto, quase quatro anos sob pesadas críticas, xingamentos diários e ameaças de impeachment, desta vez os maiores cabos eleitorais de Trump – e por isso a transformação do partido – foram suas políticas domésticas e internacionais e seus sólidos resultados.

Há vários aspectos na política externa de Donald Trump que resultaram em acordos de paz históricos entre Israel e países árabes, aproximação das duas Coreias, renegociação de acordos comerciais que não eram bons para os norte-americanos e redução do Estado Islâmico a pó. Mas talvez essas medidas não tenham sido as razões pelas quais se alteraram alguns ponteiros do mapa eleitoral norte-americano, de modo que importantes grupos tradicionalmente eleitores do Partido Democrata migraram para as hostes republicanas.

O Estado da Flórida é uma importante peça no jogo do Colégio Eleitoral, não apenas por seus 29 delegados na corrida pelo “mágico 270”, número necessário de delegados para a eleição de um presidente nos EUA, mas por ser considerado uma “mini-América” em razão de sua diversidade de etnias, classes sociais e faixas etárias. E foi exatamente na Flórida, mapeada em todas as pesquisas como território democrata, que a retórica de vitrola quebrada parece não ter funcionado.

Durante quase quatro anos, Donald Trump foi chamado de racista, homofóbico e xenófobo por seus oponentes. Tantos xingamentos pela “turma do amor e da tolerância” tinham obviamente alguns alvos: as minorias. Negros, latinos, homossexuais, mulheres e asiáticos são constantemente empacotados pelos democratas em balaios coletivistas e expostos à única salvação de suas almas, o voto no bom e caridoso Partido Democrata. Enquanto a judicialização da eleição mais importante do mundo parece inevitável, como esses grupos votaram em 2020 também parece difícil de ignorar.

Joe Biden está muito perto de conseguir o “mágico 270”, mas há pontos importantíssimos nesta eleição que os democratas não podem deixar de admitir. Eles não apenas tropeçaram feio na Flórida, um campo de batalha fundamental, principalmente entre os latinos, mas perderam um bloco de construção crucial da coalizão que agora está se voltando para o Partido Republicano. Para o partido cada vez mais esquerdista dos senadores Bernie Sanders, Elizabeth Warren, da deputada Alexandria Ocasio-Cortez e da vice de Joe Biden, Kamala Harris, essa derrapagem na Flórida representa um problema de longo prazo.

Em 2016, a candidata democrata à Presidência, Hillary Clinton, venceu no condado de Miami-Dade, por exemplo, por cerca de 30 pontos porcentuais. Os democratas não esperavam que Joe Biden se saísse tão bem no maior condado da Flórida como Hillary, que perdeu no Estado; no entanto, eles não poderiam imaginar que Trump não apenas venceria, mas que a vitória seria por uma margem de mais de 20 pontos. Em Miami Gardens, a maior cidade negra da Flórida, Trump obteve quase 16% dos votos. Em 2016, não ultrapassara os 6%. Nelson Diaz, presidente do Partido Republicano em Miami-Dade, assim avaliou os resultados: “Estamos vendo uma revolta contra candidatos que apoiam as agendas socialistas”.

Mas esse movimento dos imigrantes não é o único fator que explica o avanço dos republicanos. No distrito de Robeson County, na Carolina do Norte, onde os nativos norte-americanos são a maioria dos eleitores, Barack Obama obteve 59,4% dos votos em 2012 e o republicano Mitt Romney, 39,2%. Em 2020, 70% dos votos foram para Donald Trump e apenas 30% para Joe Biden. Entre os negros, Donald Trump já é o segundo presidente republicano com o maior número de votos da História.

A famosa Blue Wall, uma imaginária parede azul (cor do Partido Democrata), por muitas décadas cercou o Cinturão da Ferrugem (Rust Belt), evitando que republicanos atuassem com robustez na região. No entanto, Estados considerados decisivos em eleições, como Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, foram capturados pelas políticas de cortes tributários, incentivos fiscais, desregulações, desburocratização e investimentos na indústria da administração de Donald Trump. A parede azul hoje está no chão – e, de acordo com o Centro de Doações Eleitorais, em 2020 os maiores doadores para a campanha presidencial do republicano foram exatamente trabalhadores da construção civil, fazendeiros, caminhoneiros, membros do Exército e pessoas físicas, enquanto Joe Biden recebeu suas maiores doações de bancos, grande corporações e da indústria farmacêutica.

Para muitos dos eleitores latinos da Flórida, a adesão quase cega dos democratas às reformas esquerdistas radicais lembra os regimes socialistas opressores dos quais eles ou seus familiares fugiram para vir para os Estados Unidos. Liberdade. As promessas de assistência médica gratuita, inclusive para imigrantes ilegais, faculdade gratuita e a expansão do Estado de bem-estar na vida das pessoas (welfare state), junto com bloqueios draconianos em nome da segurança pública, foram recebidas com ceticismo entre eleitores que já viveram experiências comunistas na América Latina. Deu certo a retórica de Trump e dos republicanos segundo a qual a agenda radical do Partido Democrata poderá levar os Estados Unidos ao mesmo caminho sombrio.

A guinada perigosa para a extrema esquerda dos democratas não é exclusiva de sua ala socialista. Biden se mostra de joelhos para a turba do politicamente correto. A obsessão dessa turma com a política identitária e seu apelo quase segregacionista aos negros corroeram a posição dos democratas entre latinos e a classe trabalhadora em geral. O partido que ajudou a empurrar os direitos civis nos anos 1960 para um patamar histórico vive hoje uma obsessão perigosa, quase tribalista, que não se dissolverá após a semana das eleições.

Os precursores da cultura do cancelamento que estão no comando do Partido Democrata, diante do fiasco nas urnas com seus grupos para manipulação, agora partem da lógica de que todas as minorias estão hipnotizadas (por empregos e progresso?) e operando com a maioria branca em uma sociedade sistematicamente racista. A realidade das ações públicas eficientes mostra uma experiência muito diferente da narrativa retratada pelos apoiadores do movimento marxista Black Lives Matter. Muitos imigrantes vieram para os Estados Unidos sem absolutamente nada, mas trabalharam seu caminho para o sucesso, ilustrando que o sonho americano ainda está muito vivo.

Os democratas também tiveram um desempenho muito inferior nas disputas pelo Senado e pela Câmara nesta semana, perdendo terreno em áreas críticas como Iowa e Flórida. Houve um número significativo de mulheres conservadoras, algumas das quais veicularam anúncios de campanha destacando que seus oponentes apoiavam o socialismo, o corte de fundos para a polícia e pautas identitárias.

Certa vez, Ronald Reagan disse: “O melhor programa social é um emprego”. Talvez Donald Trump não seja comparável ao cowboy que conquistou seu segundo mandato vencendo em 49 dos 50 Estados norte-americanos. Talvez Donald Trump não tenha o mesmo carisma ou a mesma diplomacia que o 40º presidente dos Estados Unidos. Mas se há algo em comum entre Ronald Reagan e Donald Trump é a transformação do Partido Republicano por meio do contato direto com a classe trabalhadora, pilar forte desta nação que foi deixado à margem, trocado pelo discurso barato de políticas sentimentalistas vazias e platitudes dos sinalizadores de virtude.

Joe Biden, democrata, está com um pé na Casa Branca. O Partido Republicano? The Republican Party is great again.

ANA PAULA HENKEL

EUA — O QUE ESTÁ EM JOGO

Há exatos 40 anos, o mundo assistia ao debate da eleição presidencial nos Estados Unidos que mudaria para sempre o rumo da nação. O confronto entre Jimmy Carter e Ronald Reagan em Cleveland, Ohio, no dia 28 de outubro de 1980, foi o segundo debate mais visto na história.

Como Donald Trump, Carter foi um presidente em primeiro mandato cujo caminho para a reeleição se mostrou desafiador, para dizer o mínimo. É difícil imaginar dois homens mais diferentes do que Jimmy Carter, o fazendeiro da Geórgia, e Donald Trump, o magnata do mercado imobiliário, mas há alguns paralelos que podemos fazer entre eles.

Obviamente, os tempos são outros. O cenário político norte-americano é bem diverso daquele em 1980. No entanto, no último ano de seus primeiros mandatos, Jimmy Carter e Donald Trump enfrentaram crises para as quais eles e o país que lideravam não estavam preparados. Para Trump, foi a pandemia de covid-19 e suas consequências políticas. Para Carter, o desafio foi a crise dos reféns de 1979, quando 52 norte-americanos foram mantidos na embaixada norte-americana em Teerã por 444 dias. Aquela veio a ser a primeira grande experiência dos Estados Unidos com radicais islâmicos, e as tentativas de Carter de negociar não prosperaram, já que o governo formal no poder no Irã tinha pouco controle sobre os estudantes que controlavam os reféns. Em abril de 1980, Carter recorreu a uma ousada operação de resgate militar que falhou espetacularmente, matando militares norte-americanos quando uma aeronave caiu no deserto antes mesmo de chegar à capital iraniana.

Para Trump, o vírus chinês acabou com sua maior vantagem: uma economia pulsante com baixa inflação e com os mais baixos índices de desemprego da história. À medida que o país se fechava em lockdowns severos, principalmente nos Estados democratas, o desemprego disparou e milhões de trabalhadores demitidos começaram a temer nunca mais voltar a trabalhar. O ano eleitoral de Carter também foi marcado por problemas econômicos. Em janeiro de 1980, o país estava em recessão. Sob sua supervisão, a taxa de inflação disparou para dois dígitos e o desemprego aumentou, uma ocorrência incomum na economia dos EUA.

De lá para cá, os partidos também mudaram. O Partido Democrata de John F. Kennedy, ícone da política norte-americana, não existe mais. A social-democracia de Bill Clinton ficou no passado. Hoje os democratas estão mais perto do Psol do que do PSDB e não apenas aplaudem mas tentam implementar políticas tão progressistas que beiram o socialismo “tradicional”.

O Partido Republicano também mudou. O partido de Reagan que duelou com Carter em 1980 há tempos não existe. Os republicanos que não gostam de Trump querem “voltar ao normal”, mas o fato é que está morto o velho GOP, o Great Old Party. A grande virada se deu em 2016, quando Trump “sequestrou” o partido e, embora fosse considerado um republicano, o apoio que o impulsionou à vitória veio de uma nova configuração do eleitorado. Muitos republicanos convencionais ainda não entendem isso, mas provavelmente nenhum outro candidato teria vencido naquele ano.

O que fica cada dia mais óbvio é que ambos os partidos estão travando guerras civis internas. A extrema esquerda do Partido Democrata está se lançando ao socialismo e à destruição não só de estátuas, mas dos valores norte-americanos e dos princípios fundamentais da nação mais livre do mundo. Na verdade, a retórica crescente atualmente empregada pela esquerda não apenas silencia os dissidentes, busca também eliminá-los e forçar, até com o uso da violência, a matriz de suas ideias marxistas. A América está lutando não apenas pela própria identidade, mas por sua vida.

E, com o pêndulo ideológico tão volátil, o que está em jogo na eleição mais importante das últimas décadas? Muito se fala da postura de Donald Trump e Joe Biden, que poderiam estar em lados completamente opostos em um concurso de personalidade, mas o que eles trazem de concreto em suas plataformas que pode afetar não apenas o país, mas o mundo todo?

Política tributária

Há um enorme abismo entre os candidatos presidenciais quando o assunto é política tributária – e estamos falando de trilhões de dólares na próxima década. O presidente Trump está em campanha para dar continuidade à maior conquista legislativa de seu governo, a Reforma Tributária de 2017, que reduziu impostos sobre empresas e indivíduos, trazendo uma série de benefícios para o país, inclusive a repatriação de grandes empresas. Joe Biden, por outro lado, propõe forte aumento de impostos sobre empresas para pagar por programas sociais e ambientalistas, além da taxação de grandes fortunas. Até agora, sua proposta de impostos mais altos não faz parte de nenhum plano de redução do déficit – que também cresceu no governo Trump, verdade seja dita. A agenda tributária democrata inclui impostos mais elevados que financiarão novas agendas verdes malucas de trilhões de dólares, planos de saúde e assistência médica “gratuita” para imigrantes ilegais.

Política externa

Donald Trump e Joe Biden mostram profundas diferenças nas principais áreas da política externa dos EUA, e apenas esse tópico daria um artigo inteiro. Isso inclui alianças, relações com Arábia Saudita, Irã e União Europeia. No entanto, o republicano e o democrata têm opiniões semelhantes sobre alguns objetivos importantes, como o limite de envio de tropas para o Oriente Médio e o Afeganistão.

China

O presidente Trump traçou uma política de confronto com a China mais intensa do que seus antecessores republicanos e democratas adotaram nas quatro décadas desde que Washington e Pequim estabeleceram relações diplomáticas plenas. Essa linha dura provavelmente continuará com uma vitória de Trump, com a guerra tarifária e a proteção à propriedade intelectual norte-americana. Se o democrata levar a eleição de 2020, há indícios suficientes de que os EUA amolecerão com o Partido Comunista Chinês, uma vez que durante a última semana documentos apresentados ao FBI por um ex-parceiro de negócios de Hunter Biden, filho de Joe Biden, mostram laços comerciais fortes da família Biden com empresários chineses desde a época em que o agora candidato era vice de Barack Obama.

Imigração, muro e fronteiras

A imigração foi o tema central da campanha do presidente Trump em 2016 e, desde que assumiu o cargo, ele buscou reduzir quase todas as formas de imigração para os EUA. Entre as mudanças de Trump: construção de muro de fronteira, proibição de viagens provenientes de vários países e fechamento temporário da fronteira sul para requerentes de asilo durante a pandemia do coronavírus. Biden formulou sua própria política de imigração como uma refutação dos termos de Trump, prometendo desfazer quase todas as mudanças implementadas pelo governo republicano.

Polícia, crime e injustiça racial

Policiamento, crime e injustiça racial tornaram-se temas importantes na eleição presidencial deste ano, alimentados em parte por uma série de encontros fatais entre policiais e negros. O presidente Trump e o ex-vice-presidente Joe Biden ofereceram respostas diferentes a essas questões. O democrata dá sinais de seguir a linha da ala radical do partido que quer diminuir com robustez o orçamento para as corporações policiais em todo o país. Já o republicano promete o caminho inverso, aumentar o orçamento e melhorar as condições de treinamento dos policiais.

Comércio

A eleição de Donald Trump em 2016 levou à maior transformação na política comercial dos EUA desde a 2ª Guerra Mundial. Enquanto ele propõe seguir a estratégia de renegociar acordos desfavoráveis aos Estados Unidos, uma vitória de Joe Biden pode mudar de direção novamente. O democrata diz que vai cortejar os aliados atingidos pelas sanções comerciais de Trump, repensar o uso de tarifas e tentar criar uma frente única para enfrentar a hegemonia da China em alguns importantes setores.

Clima e energia

A eleição presidencial de 2020 coloca um candidato que considera a mudança climática como parte de sua plataforma, contra outro que rejeita seu protagonismo e promete continuar promovendo uma agenda de energia sustentável sem acabar com os combustíveis fósseis. A política ambiental é um dos maiores contrastes entre o presidente Trump e Joe Biden. Empresas de energia, montadoras e sindicatos poderão ver grandes mudanças se houver rotatividade na Casa Branca.

Biden tem se atrapalhado com o debate relacionado aos combustíveis fósseis, tema de extrema importância para Estados que podem decidir as eleições como, por exemplo, a Pensilvânia. O democrata adapta sua retórica dependendo do público desde as primárias, segundo os números das pesquisas. Ele não admite publicamente que o fracking (extração de gás e petróleo do solo) tenha libertado os EUA da dependência de meio século do Oriente Médio e reduzido as contas de gás do consumidor. Biden promete implementar o Green New Deal, proposta absurda da ala radical do partido que, além de vários pontos utópicos, pretende acabar com o uso dos combustíveis fósseis em dez anos.

Saúde

A maioria das diferenças entre o presidente Trump e Biden tem a ver com uma disputa central: Trump quer reduzir o papel do governo federal na saúde dos americanos, enquanto Biden quer expandi-lo. Trump prefere conceder autonomia a Estados e cidadãos, de modo que possam escolher o tipo de plano de saúde. Biden quer um sistema integrado.

Oriente Médio

O atual presidente tem pressionado mais países árabes para normalizar as relações com Israel. Três importantes acordos de paz foram assinados, negociados por Trump, e isso faz com que os EUA tenham mais aliados na região. Se Biden vencer, existe a dúvida se ele faria esforços para reviver o acordo nuclear de 2015 com o Irã, assinado por Barack Obama, e com isso perturbaria Israel e os países árabes.

Quando Ronald Reagan subiu ao palco na noite de 28 de outubro de 1980, a América não imaginava como o ex-governador da Califórnia terminaria aquele debate com uma série de perguntas que são levantadas até hoje em época de eleições presidenciais. Em suas considerações finais, o ex-ator olhou firmemente para a câmera e perguntou à nação: “Você está melhor do que há quatro anos? É mais fácil sair e comprar coisas nas lojas do que há quatro anos? Existe mais ou menos desemprego no país do que há quatro anos? A América é respeitada em todo o mundo como era? Você acha que estamos seguros e fortes quanto éramos há quatro anos?”.

Saberemos em breve se Trump sairá como Carter, ou se colherá os frutos das políticas domésticas e internacionais do livro de Reagan.

ANA PAULA HENKEL

DOIS PAPAS, DOIS PRESIDENTES E DUAS IDEOLOGIAS

Nesta quinta-feira, 22 de outubro, a Igreja Católica comemorou o Dia de São João Paulo II. Foi nessa data que, em 1978, Karol Wojtyla celebrou sua primeira missa como papa, iniciando seu pontificado.

João Paulo II faleceu em 2005, mas o legado de João de Deus, como era carinhosamente chamado pelos cristãos brasileiros, não foi deixado apenas para os que vivem na fé católica, mas também para os que entendem o real significado da palavra liberdade. Há muitas evidências nas ações desse homem fantástico, respeitado por pessoas de todas as religiões e, inclusive, agnósticos, de que o mundo em que vivemos hoje talvez não seria tão livre e próspero se não fosse por diversas de suas obras com seus aliados, Ronald Reagan e Margaret Thatcher.

Ronald Reagan, João Paulo II e Margaret Thatcher tinham a verdadeira perspectiva histórica e defendiam os temas que estão na civilização ocidental desde os tempos greco-romanos e mesmo bíblicos. Eles entenderam que a liberdade não é o estado natural nem normal da sociedade, mas algo que é estabelecido por meio de um contrato social. Um contrato social no qual seus valores fundamentais devem ser reforçados e, quando necessário, protegidos contra as pressões do estatismo, como o da União Soviética, e as forças do mal, como o comunismo.

John Lewis Gaddis, professor de História Militar da Universidade de Yale, uma vez escreveu que, ao beijar o chão no Aeroporto de Varsóvia em 2 de junho de 1979, em sua primeira viagem como papa, João Paulo II iniciou o processo pelo qual o comunismo na Polônia – e finalmente em todos os lugares – chegaria ao fim.

Gaddis, que não é católico, mostra por que sua perspectiva sobre a queda do comunismo começa naquele dia de junho. Um milhão de poloneses se reuniram dentro e ao redor da Praça da Vitória em Varsóvia para uma missa pública – impensável na Polônia comunista, exceto pelo fato de que não pôde ser negada a um papa polonês. Enquanto João Paulo pregava a verdadeira história de seu país – a história de um povo formado por sua fé -, um canto rítmico ecoava pelas ruas até a praça: “Queremos Deus! Queremos Deus!”. Era a voz da Polônia, parte do bloco comunista, onde a guerra da doutrina marxista-leninista contra a religião imperava, gritando para o mundo todo ver e ouvir que a fé e a esperança não sucumbiriam ao comunismo, regime fortalecido quando o ateísmo se inicia.

Mas a ideologia nefasta que já havia matado milhões pelo planeta tinha um problema pela frente, um baita problema. Ronald Reagan e João Paulo II eram homens do mesmo tempo. Ambos ficaram horrorizados com a guerra nuclear, odiavam o comunismo e o regime da União Soviética. Os dois foram baleados, sobreviveram e perdoaram seus agressores. Cresceram pobres, foram atletas e, curiosamente, atores. E foi exatamente a vida teatral que lhes forneceu a entonação correta nos discursos, a conexão com o coração de quem os via e ouvia suas palavras, e a naturalidade para estar diante de grandes audiências. O papa e o presidente tinham o poder de hipnotizar as massas com seus discursos cheios de verdade, amor e uma fé tremendamente inspiradora.

Em suas primeiras observações da varanda da Basílica de São Pedro, o papa deixou claro o que pensava dos soviéticos. Reagan não apenas criticou o comunismo durante anos, mas foi o primeiro líder mundial a chamar o regime do que ele realmente é: “Evil empire”, ou império do mal.

O mais importante, e talvez o que tenha ligado tão profundamente o papa e o presidente norte-americano, é que ambos acreditavam piamente que foram chamados por Deus para fazer grandes ações pela liberdade do mundo. E, de fato, João Paulo II disse em 1982 que “a América era chamada, acima de tudo, para cumprir sua missão” e que “as condições indispensáveis de justiça e liberdade, verdade e amor, que são os fundamentos de uma paz duradoura, eram características da América”. Em sua primeira encíclica, escreveu que a liberdade religiosa era o direito humano essencial, um tiro direto nos soviéticos. João Paulo II também começou a rebaixar ou mesmo expulsar aqueles que sempre queriam “acomodar” comunistas dentro da igreja.

Para Reagan, que foi presidente do Sindicato dos Atores de Hollywood (Screen Actors Guild) e já conhecia todos os tentáculos do comunismo desde quando a ideologia tentava se infiltrar no cinema norte-americano nos anos 1950, não havia nada mais importante que a derrota da União Soviética. Quando ficou evidente que o Vaticano estava se unindo na luta contra o “comunismo sem Deus”, e isso deve ter causado arrepios nos antigos coletivistas do Politburo, o comitê central do partido comunista soviético, Reagan sabia que sua contraofensiva pesada ao Kremlin contaria com a colaboração da cúpula da Igreja. E isso foi crucial para a derrota do império do mal.

Na mesma semana em que celebramos o legado de João de Deus, o atual papa segue surpreendendo – e desapontando – fiéis pelo mundo. Depois de não perder tempo em se manifestar sobre pandemia, racismo, queimadas na Amazônia, união homoafetiva e capitalismo malvadão, entrando para o time do aplauso fácil, Francisco, até a conclusão deste texto, ainda não havia se pronunciado especificamente sobre as igrejas incendiadas pela extrema esquerda no Chile nesta semana.

A Igreja da Assunção, após ser invadida por vândalos encapuzados durante uma grande manifestação na capital chilena, foi tomada pelas chamas criminosas. Enquanto a estrutura era destruída, muitos dos criminosos filmavam as gigantescas labaredas e comemoraram o ataque: “Deixa cair, deixa cair!”. Quando uma das torres de uma das construções veio ao chão, em chamas, gritos da celebração atingiram altos decibéis. O silêncio do papa também continua ensurdecedor. Os protestos no Chile marcaram um ano das revoltas que aconteceram no país no fim do ano passado, quando manifestantes tomaras as ruas para reclamar das políticas econômicas do governo.

Não é apenas o silêncio do papa Francisco em relação aos incêndios criminosos em igrejas no Chile que incomoda os fiéis – e afirmo isso como uma católica praticante. Depois de recusar em setembro um pedido de encontro feito pelo secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que representa a nação que mais defende a liberdade no mundo, o papa argentino decidiu renovar um acordo com o Partido Comunista da China sobre a nomeação de bispos. Na prática, a medida dá a Francisco a palavra final acerca da nomeação de lideranças católicas no país asiático. Antes do acordo provisório assinado em 2018 e renovado agora, a China se recusava a aceitar que a nomeação dos líderes religiosos viesse do Vaticano, uma vez que não reconhece o papa como chefe da Igreja Católica.

Não precisa ler novamente. Você leu isso mesmo. No dia 22 de outubro, quando celebramos o legado de São João Paulo II, que inclui a brilhante, essencial e espetacular luta contra o comunismo, o papa Francisco assinou um acordo com o Partido Comunista Chinês. A nota oficial do Vaticano diz que o acordo “pretende continuar o diálogo aberto e construtivo para promover a vida da Igreja Católica e o bem do povo chinês”.

Entre as recentes declarações no mínimo estranhas do papa Francisco, há duras críticas à visão de que o liberalismo econômico possa ser a resposta para os problemas sociais do mundo. Ele também afirmou que as limitações do capitalismo foram expostas pela crise provocada pela pandemia de coronavírus, mas que aqui vamos chamar de – Vossa Santidade, tape os ouvidos – vírus chinês. E por falar em capitalismo, o papa argentino ainda não se pronunciou sobre a excepcional economia socialista de Alberto Fernández em seu país.

João Paulo II e Reagan trabalharam juntos para pôr fim ao comunismo soviético ateu. Os dois tinham um plano divino para impedir o império soviético que estava envolvido em uma guerra contra a religião e as liberdades individuais. O trabalho de um papa e de um presidente ajudou a provocar o colapso do comunismo e gerou mais liberdade e oportunidades para as pessoas em todo o mundo.

A ascensão do capitalismo, junto com o colapso do socialismo, melhorou espetacularmente as condições de vida das pessoas em todo o planeta. Dados do Banco Mundial mostram que a parcela da população global que vivia na pobreza era de 42,3% durante o primeiro ano da Presidência de Ronald Reagan. Em 2018, caiu para 4,8%. Isso significa que quase 1,25 bilhão de pessoas saíram da extrema pobreza. Graças à liberdade e ao capitalismo. Shhh… fale baixo, seu herege.

Os (poucos) fiéis que ainda tentam defender as declarações progressistas de Bergoglio insistem que o silêncio sobre as igrejas queimadas no Chile, a perseguição a cristãos no mundo, os campos de concentração de uigures na própria China, e tantos outros eventos sérios que não mereceram a palavra da Santidade, é um silêncio sábio e humilde, inspirado por Deus para “não colocar mais lenha na fogueira” da discórdia. Fogo que merece lenha do papa, só o da Amazônia. E com os aplausos de Hollywood. Esse papa é pop.

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