ANA PAULA HENKEL

POR QUE OS DEMOCRATAS QUEREM OS IMIGRANTES ILEGAIS

Um dos slogans da campanha de Donald Trump em 2016, desde as primárias republicanas, foi o famoso Build the wall (“Construa o muro”), uma marca registrada que ele também carregou durante os quatro anos na Casa Branca. A frase, que foi usada incansavelmente por seus opositores para tentar implicar Trump numa política xenófoba de imigração, refletiu durante sua passagem pelo Salão Oval como um dos pontos importantes para seus eleitores e para aqueles que têm a intenção de discutir o sensível tema da imigração ilegal com um mínimo de honestidade intelectual.

Entre as mais de 40 ordens executivas já assinadas por Joe Biden está aquela que determina a paralisação imediata dos trabalhos para a construção do longo muro que protege as fronteiras norte-americanas com o México. A obra foi iniciada ainda na administração de Bill Clinton, mas nunca teve apoio político dos democratas para avançar, mesmo durante os anos do governo de Barack Obama. Donald Trump, com sua agenda America First (“América Primeiro”), de não apenas empregar e dar atenção prioritária a norte-americanos, mas também de tentar reduzir a criminalidade no país, retomou a construção do muro sem medo de a medida ser usada negativamente por democratas defensores da agenda politicamente correta.

Dentro do novo espectro de medidas da ala radical de Biden e Harris está a concessão de cidadania a milhões de imigrantes ilegais. Normalmente, o caminho para a legalização da permanência desses imigrantes seria o green card. Entretanto, portadores de green card – o documento que assegura o direito a residir legalmente no país – não podem votar em eleições para cargos públicos nacionais, tais como deputados, senadores e presidente. Há poucas exceções, apenas para algumas eleições locais. A manobra dos democratas é clara: conceder cidadania norte-americana ao maior número possível de imigrantes ilegais para ganhar o voto desse contingente e assegurar a permanência no poder. O número oficial de estrangeiros ilegais é de 11 milhões, mas a Universidade de Yale e o Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) calculam que exista uma quantidade relevante de “invisíveis”. O total estaria entre 16 milhões e 29 milhões, uma vez que muitas dessas pessoas se recusam a responder ao Censo com receio de deportação.

O radicalismo das fronteiras abertas de Joe Biden é um convite a um tsunâmi humano de migração ilegal. Isso já é demonstrado pelas mais recentes estatísticas da US Border Patrol (Patrulha de Fronteira dos EUA): as apreensões de adultos na fronteira sul em janeiro de 2021 aumentaram 182% em relação a janeiro de 2020, de 86.449 para 244.053 no total. Os movimentos de Biden parecem enfraquecer a fronteira. Além disso, sinalizam um pesadelo econômico, humanitário e de segurança nacional.

A América do ex-vice de Barack Obama já suspendeu todas as deportações e está desmantelando a política altamente eficaz que a administração Trump estabeleceu de “permanecer no México” para os requerentes de asilo. Biden pediu ao Congresso, de maioria democrata, que conceda anistia em massa àqueles que já estão aqui. Ele também anuncia promessas de benefícios públicos generosos para novos estrangeiros ilegais, como assistência médica financiada pelo pagador de impostos. Interesses poderosos se alinham para ajudar Biden a recompensar as grandes corporações com mão de obra barata e o Partido Democrata com novos constituintes.

Dr. Peter Navarro, importante conselheiro econômico da administração Trump na Casa Branca, acaba de publicar um novo relatório detalhando estatísticas que retratam o tamanho do risco, especialmente para a classe trabalhadora. O valor do trabalho de baixa qualificação tende a despencar, dada a concorrência desleal que adviria. Navarro também detalha os impressionantes custos da migração ilegal em massa. Em Estados progressistas, comandados pela ala radical democrata, como a Califórnia, o sistema de saúde Medicare já está aberto a todos os residentes, incluindo os ilegais. Somando-se as despesas com escolas públicas para crianças que vivem ilegalmente no país aos custos de moradia e julgamento para falsos pedidos de asilo, o gasto total do governo em todo o país para a imigração ilegal ultrapassa US$ 100 bilhões anualmente.

Além dos custos financeiros colossais, o tributo humano de fronteiras abertas acaba por infligir uma miséria totalmente desnecessária aos cidadãos norte-americanos das classes mais baixas. A maioria dos imigrantes ilegais chega sem intenção criminosa, mas uma minoria muito perigosa nesses grupos aterroriza as ruas praticando crimes 100% evitáveis. A violenta gangue mexicana MS-13 agora opera amplamente em todo o país e propaga o “script do asilo” para importar da América Central novos criminosos. As vítimas de seus crimes, notavelmente, quase sempre são cidadãos de ascendência hispânica.

Essa realidade contradiz a falácia democrata de que controlar a imigração é, de alguma forma, intrinsecamente uma medida preconceituosa. Na verdade, as minorias sofrem desproporcionalmente com a concorrência ilegal de salários e também com o crime perpetrado por ilegais perigosos.

O livro sobre o tema do historiador norte-americano Victor Davis Hanson, Mexifornia: A State of Becoming, é duramente criticado pela esquerda nos EUA, que acusa o professor do Hoover Institute, em Stanford, de ser racista e isolacionista. Hanson já abordava o tema em 2003, quando a obra foi lançada. Ele expôs graves preocupações que se provaram prescientes, como a de que muitas cidades californianas se tornariam “meio México, meio América”, rumo a um declínio cultural e econômico.

Em 2005, dois relatórios do Government Accountability Office, atualizados em 2011, já mostravam como Victor Davis Hanson estava correto: o primeiro levantamento descobriu que os estrangeiros criminosos (legais e ilegais) constituíam 27% de todos os prisioneiros federais. No entanto, de acordo com o Center for Immigration Studies, os não cidadãos representavam apenas cerca de 9% da população adulta do país. Assim, a julgar apenas pelos números nas prisões federais, os não cidadãos cometem crimes federais três vezes mais que os cidadãos.

No segundo relatório, as informações são ainda mais perturbadoras. Aos números: durante o ano de 2003, 55.322 estrangeiros encarcerados no país haviam entrado ilegalmente nos EUA e continuavam ilegais no momento da prisão; eles já haviam sido presos 459.614 vezes – uma média de 8,3 detenções por estrangeiro ilegal – e cometeram quase 700 mil crimes – média de 12,7 crimes per capita.

De todas as prisões, 12% foram por crimes violentos, como assassinato, roubo, agressão e crimes relacionados a sexo; 15% se deveram a roubo, furto e danos materiais; 24% eram por delitos de drogas; e as demais infrações foram por dirigir alcoolizado, fraude, falsificação, porte e posse de armas ilegais e obstrução da justiça.

Hans von Spakovsky, advogado, membro da Heritage Foundation e autoridade respeitada em assuntos atinentes a direitos civis e imigração, acrescenta que esses relatórios não fornecem um número preciso de crimes cometidos por estrangeiros ilegais: “Se houvesse uma maneira de incluir todos os crimes, os números provavelmente seriam mais altos, porque os promotores muitas vezes concordam em retirar as acusações contra um estrangeiro ilegal se tiverem a garantia de que as autoridades de imigração entrarão com processo de deportação”. Independentemente de como analisar essas estatísticas, as evidências suportam a tese original do professor Hanson e suas recomendações: necessidade de fiscalização nas fronteiras, documentos de identidade, sanções ao empreendedor que emprega imigrantes ilegais e, não menos importante, um programa de assimilação do estrangeiro ao país.

Um dos tópicos de destaque do livro de Hanson é a diferenciação da imigração mexicana de fluxos migratórios anteriores. Os defensores do status quo costumam dizer que há algumas estatísticas negativas relacionadas à primeira geração de imigrantes mexicanos, mas o mesmo ocorreu com italianos. O problema dessa afirmação, para Hanson, são os dados sobre a segunda geração de mexicanos. É grande a pobreza, a dependência da previdência estadual ou federal, a evasão do ensino médio e, finalmente, a ocorrência de atividades criminosas. Um em cada três homens mexicano-americanos com idade entre 18 e 24 anos na Califórnia relatou ter sido preso. O cenário na educação é dramático. O Distrito Escolar de Los Angeles, que é 73% hispânico, registra uma taxa de graduação de 60%. E, entre aqueles que se formam, apenas um em cada cinco se qualifica para o ingresso numa faculdade.

Em Mexifornia, Victor Davis Hanson defende também a tese de que um dos principais fatores para a não assimilação de muitos mexicanos é a proximidade geográfica de seu país de origem. Um agricultor indígena que veio da zona rural do México pode deixar Los Angeles e estar no país vizinho em três horas — menos que o tempo para vencer a distância entre São Paulo e Rio de Janeiro. Em contrapartida, imigrantes de nações como Japão, Filipinas, China e até Espanha estão completamente isolados da nação-mãe e são forçados a aprender inglês, assimilar a cultura local e juntar-se ao famoso melting pot, em vez de viver num enclave étnico.

Nascido e criado na Califórnia, Victor Davis Hanson se viu parte de uma minúscula minoria branca em meio a uma maioria mexicana e mexicano-americana durante boa parte de vida escolar. Por causa do casamento misto em sua família, os hispânicos estão bem representados em sua árvore genealógica e Hanson defende a ideia de que uma reforma migratória é necessária até para proteger aqueles que já estão nos Estados Unidos e contribuem de forma importante e honesta para a sociedade.

Para isso, o respeitado professor de Stanford diz que há uma razão pela qual as pessoas vêm construindo muros há 5 mil anos e alerta para a seriedade do debate, que deve ser estabelecido longe do campo do preconceito. O momento de discussões rasas sobre o assunto é perigoso e expõe a falácia dos justiceiros sociais. “Construa pontes, não muros”, repetem aqueles que, escolhendo o aplauso rápido e fácil, propagam frases de efeito em suas redes sociais a partir de seus smartphones, enquanto desfrutam de pleno conforto em condomínios fechados cercados de muros e proteção.

ANA PAULA HENKEL

O NOVO MACARTHISMO

No início da década de 1950, alguns líderes norte-americanos repetiam incansavelmente ao público que todos deviam temer a influência comunista subversiva em sua vida. Os comunistas, eles diziam, poderiam estar à espreita em qualquer lugar, usando suas posições como professores universitários, artistas ou jornalistas em favor do programa mundial de dominação marxista. O movimento ficou conhecido como Red Scare. Atingiu seu ápice entre 1950 e 1954, quando o senador Joe McCarthy, de Wisconsin, um republicano, lançou uma série de investigações sobre a suposta atuação comunista dentro do Departamento de Estado, na Casa Branca, no Departamento de Tesouro e até no poderoso Exército dos Estados Unidos.

McCarthy foi eleito para o Senado em 1946. Ganhou destaque em 1950, depois de um inflamado discurso no Estado de Virgínia Ocidental em que afirmou que quase 60 comunistas haviam se infiltrado no Departamento de Estado. A busca subsequente de McCarthy por comunistas na Agência Central de Inteligência (CIA) e em outras áreas do governo o tornou uma figura incrivelmente polarizadora e tóxica. Após a reeleição de McCarthy, em 1952, ele obteve a presidência da Comissão de Operações Governamentais do Senado e da Subcomissão Permanente de Investigações. Nos dois anos seguintes, esteve constantemente sob os holofotes, investigando vários departamentos e interrogando inúmeras testemunhas sobre suas supostas afiliações comunistas. Embora ele tenha falhado em apresentar um único caso plausível, suas acusações habilmente apresentadas causaram a expulsão de alguns funcionários públicos e destruíram a reputação de muitas pessoas, que experimentaram a condenação popular.

Desde então, o termo macarthismo (McCarthyism) é usado para apontar a prática de difamação de caráter por meio de alegações indiscriminadas amplamente divulgadas, sobretudo com base em acusações infundadas, com retórica inflamada, exageradas e extremamente prejudiciais àqueles que são alvo da perseguição.

A eleição de Donald Trump, em 2016, mexeu profunda e consideravelmente no tabuleiro político norte-americano, assim como nas peças da geopolítica global. Depois de oito anos do governo de Barack Obama – que, discretamente, alimentou a divisão racial e política no país -, durante os quatro anos da administração Trump vimos a polarização política atingir níveis históricos entre democratas e republicanos. A eleição presidencial de 2020, cheia de perguntas ainda sem respostas, e a troca de cadeiras na Casa Branca não ajudaram a apaziguar os ânimos. E, para piorar, o discurso vazio de Joe Biden sobre “unir o país” não condiz com a realidade e com a atual carnificina virtual perpetrada por seus seguidores. Ao apagar das luzes republicanas em Washington, seguiu-se uma vil perseguição – ainda em curso – a todos os que trabalharam na administração Trump e em sua campanha de reeleição. Os novos soldados do cancelamento tentam achar até eleitores do “novo Hitler” para caçá-los, exibi-los, tirar seus empregos, redes sociais e até diplomas. A suposta escória da sociedade precisa ser exposta com as letras escarlates MAGA no peito – o acrônimo do slogan Make America Great Again. É o encontro de Robespierre com Joe McCarthy.

As guilhotinas virtuais não estão apenas espalhadas por redes sociais, encorajadas a atuar sem dó depois que o Twitter baniu para sempre a conta do então presidente Trump. A virulência do espírito do encontro da Revolução Francesa com o novo macarthismo alimenta 5 mil estudantes e professores da Harvard que exigem o cancelamento dos diplomas de Direito do senador republicano Ted Cruz e da ex-secretária de imprensa da Casa Branca Kayleigh McEnany. Único motivo: eles serviram à administração Trump. É evidente que, caso os diplomas venham de fato a ser cancelados, a encrenca acabaria nos tribunais. E a tendência da Justiça seria dar ganho de causa aos prejudicados. Mas o desgaste na imagem pública já está feito.

David Schoen, um dos advogados que representaram Trump durante o recente julgamento de impeachment, disse que uma faculdade cancelou um curso de direitos civis que ele daria em breve: “O curso estava programado para o outono. Já tínhamos conversado e planejado. Escrevi para eles e disse: ‘Quero que saibam que vou representar Donald Trump no caso de impeachment. Não sei se isso impacta em sua decisão de ter meu curso no calendário’. Eles disseram que gostavam muito do meu material, mas que, infelizmente, isso deixaria ‘alguns alunos e professores desconfortáveis’, então teriam de me desligar do curso”.

David Schoen, advogado do ex-presidente Donald Trump

O clima atual da cultura do cancelamento evoca, de fato, as digitais do macarthismo, mas ela chega a ser ainda mais assustadora e destrutiva. Enquanto o limite para a condenação na era McCarthy era a alegada condição de “simpatizante comunista”, o suficiente hoje é a mera negativa à adesão pública a novas bandeiras politicamente corretas, tais como o combate a figuras históricas tachadas de racistas, fascistas, misóginas ou homofóbicas.

Assim como agora, a vítima mais grave da década de 1960 foi a autoridade adulta. Nos Estados Unidos, Ronald Reagan sustentou um pilar de autoridade por um tempo, mas então veio Bill Clinton e, com uma estagiária no Salão Oval, restaurou o modelo adolescente. O melhor remédio para a cultura do cancelamento seria a resistência de líderes adultos fortes – reitores de universidades, editores de jornais, chefes de corporações, pais, tios, técnicos esportivos – capazes de enfrentar as crianças mimadas, barulhentas, chatas e sem limites do Twitter e do Vale do Silício. Mas é improvável que esse “milagre” aconteça. A turba do cancelamento, assim como as hienas, caça em matilhas. E, atualmente, os que têm autoridade são covardes e não querem dar chance alguma à guilhotina virtual dos mini-Robespierres.

Com o tempo, o macarthismo se extinguiu e seus personagens foram devorados pelo próprio contexto surreal. O senador McCarthy, após ser censurado por seus colegas em 1954 e afundar no alcoolismo, morreu pouco tempo depois. Essa nova cultura do cancelamento, travestida de boas intenções com sinalizações de virtudes, será mais difícil de matar do que o macarthismo. O senador McCarthy era um monstro de filme B. A turma do cancelamento é um apocalipse zumbi.

ANA PAULA HENKEL

A BANALIZAÇÃO DAS PALAVRAS E A DISTORÇÃO DA HISTÓRIA

Emilio Gentile, 72 anos, é um dos principais historiadores italianos especialistas em fascismo. O fascismo histórico e real, não o imaginário que existe na mente de dez entre dez pessoas que não concordam politicamente com Jair Bolsonaro ou Donald Trump. O professor aposentado da Universidade de Roma prega que o uso indiscriminado da palavra “fascista” produz uma banalização perigosa do termo: “Usar demais a palavra fascismo não cria uma reação hostil a ele. Ao contrário, torna-o fascinante para tantos desgraçados em busca de respostas simples. Quem se apropria de maneira irresponsável dessa palavra arrisca a ampliar o neofascismo, em vez de combatê-lo”.

Banalizar, conforme ensinamento do nosso recorrente Aurélio, significa vulgarizar. Em outras palavras, tornar irrelevante aquilo que é significativo. Valores importantes passam a ser minimizados e aquilo que é errado passa a ser considerado normal, principalmente quando praticado por pessoas importantes do cenário público.

A banalização de termos sérios e profundos como “fascista” e “nazista”, usados para xingamentos em discussões tão rasas quanto um pires, não tem sido exclusividade de pessoas que não mostram o mínimo de respeito pela História e pelas vítimas de regimes devastadores. Em uma sociedade cada vez mais robotizada e ignorante, celebridades e até jornalistas que deveriam proteger o real significado das palavras usam, distorcem e desrespeitam o léxico e os eventos históricos apenas para satisfazer a sanha militante de sua mente já comprometida com a cegueira ideológica. A banalização das palavras e, consequentemente, dos atos sérios que elas significam, como cassação e impeachment, é um sintoma de sociedade que parece não querer mais pensar.

Nesta semana, foi iniciado mais um processo de impeachment contra Donald Trump no Senado norte-americano. O processo passou pela Câmara a toque de caixa, sem julgamento, sem testemunhas, sem muito papo. Em dois dias a votação foi concluída. A única acusação é que ele teria incitado o motim do qual o Capitólio foi alvo no dia 6 de janeiro. Seu propósito ao provocar a insurreição seria contestar os resultados das eleições de 2020. Mas, objetivamente, as ações de Trump não atendem à definição legal de incitamento, tampouco insurreição.

Diante de cobertura sofrível da mídia norte-americana sobre um impeachment inconstitucional, Anderson Cooper foi o retrato da era dos sentimentos que se sobrepõem aos fatos – era marcada predominantemente pelo ativismo de uma imprensa militante e irresponsável. O âncora da CNN, “emocionado”, comparou o episódio da invasão do Capitólio aos genocídios na Bósnia e em Ruanda, que mataram centenas de milhares de pessoas. “Vimos na Bósnia, vimos em Ruanda, onde as rádios diziam às pessoas que os tutsis eram baratas, incitando o genocídio. E você vê nesses vídeos [da invasão do Capitólio] pessoas que se dizem patriotas enfrentando os policiais”, disse Cooper.

Não foi a primeira vez que o âncora comparou os horríveis eventos do início de janeiro a genocídios históricos. Cooper ofereceu a mesma análise em seu programa em 12 de janeiro, naquela ocasião comparando eleitores de Donald Trump a racistas: “Eu estava em Ruanda no genocídio… Ouço pessoas falando sobre a Guerra Civil na América, fico tão chateado quando ouço essas pessoas em comícios – comícios de Trump falando sobre a Guerra Civil como se fosse uma espécie de limpeza”. A irresponsabilidade e a desonestidade jornalística em seu primor.

As atrocidades em Ruanda ceifaram a vida de cerca de 800 mil pessoas em cem dias em 1994. Outros 8 mil foram assassinados no genocídio da Bósnia, em Srebrenica, durante o verão de 1995. Cinco morreram nos ataques no mês passado no Capitólio dos EUA: uma pessoa foi pisoteada; outra, baleada por um policial; duas parecem ter tido ataque cardíaco; e a polícia do Capitólio ainda não divulgou a confirmação da causa da morte de um policial.

Cooper não usou tais comparações inflamadas com os manifestantes do movimento Black Lives Matter que perpetraram repetidas explosões de violência política no verão passado. Devido à violência, várias dezenas de norte-americanos morreram em meio a distúrbios e centenas de outros foram assassinados enquanto a polícia se retirava de suas funções em meio a críticas violentas.

Mas nem só da banalização das palavras – e do que elas significam – vive a atual sociedade. Revisionismos históricos e a criação de vilões que alimentam as ideologias nefastas são pontos importantes na banalização do pensamento jovem.

Na semana passada, a revista The New Yorker fez uma entrevista com a presidente do conselho escolar de São Francisco, Gabriela López, uma ex-professora de 30 anos que anda liderando a missão do distrito do norte da Califórnia de enterrar a História norte-americana. Sob sua liderança, o sétimo maior distrito escolar do país passou seu tempo não ensinando seus 57 mil alunos – que estão “aprendendo” on-line por quase um ano inteiro -, mas planejando tirar nomes de figuras históricas de mais de 40 edifícios distritais. Os nomes destinados à remoção incluem Abraham Lincoln, George Washington e Thomas Jefferson, entres outros presidentes e fundadores da nação mais próspera do planeta.

O esforço faz parte de uma onda de iconoclastia antiamericana que varreu os Estados Unidos no ano passado. Incluiu ativistas violentos derrubando e vandalizando estátuas ilegalmente e prefeitos removendo monumentos e nomes de escolas legalmente, às vezes na escuridão da noite. Cristóvão Colombo e Thomas Jefferson estão entre as figuras históricas mais visadas nessas varreduras ideológicas, assim como figuras religiosas, incluindo santos e Jesus Cristo.

A entrevista com Gabriela López, uma das pessoas mais importantes na educação do Estado da Califórnia, revela como a ideologia política substituiu o conhecimento entre os esquerdistas norte-americanos. Eles procuram validar e replicar sua ignorância entre os mais jovens, colocando líderes históricos na lista negra e, assim, menosprezando ideais e valores que se tornaram a base civilizatória do país mais livre do mundo. Às vezes, é assustador como esse movimento lembra a revolução cultural chinesa dos anos 1950 e 1960, que também apresentou desfiguração de monumentos, revisionismo histórico e eterno assassinato de caráter.

Em tempos obscuros, em que crianças estão fora da escola e muitos andam aceitando qualquer informação regurgitada pela imprensa militante, gaste um tempo a mais com os filhos, netos e sobrinhos. Abra um livro de História, discuta os defeitos de homens e mulheres. Precisamos ajudar a futura geração a não acreditar apenas em manchetes. Como dizia Roger Scruton, filósofo e escritor inglês que se especializou em estética e filosofia política: “Uma pessoa que diz que a verdade é relativa está pedindo para você não acreditar nela”.

ANA PAULA HENKEL

HOMENS NÃO SÃO MULHERES COM DEFEITO

Há quase três anos venho tentando trazer um pouco de racionalidade para o debate público sobre transexuais no esporte. Em meu último artigo, escrevi sobre minha indignação e de tantas outras atletas olímpicas depois da ordem executiva que autoriza homens biológicos a competir com mulheres – bastando, para tal, apenas “identificar-se como mulheres”. Essa falsa inclusão significa a exclusão de meninas e atletas femininas de seus espaços no esporte, além de óbvia judicialização. A invasão de homens biológicos nos esportes femininos não é apenas errado, é um ataque frontal e um desrespeito inaceitável às mulheres – a própria discussão é, em si, ultrajante e humilhante. Mas hoje é a vez de sair em defesa dos homens.

Com novo inquilino na Casa Branca, morador que abriu as portas para as pautas da extrema esquerda e presta reverências ao politicamente correto, nesta semana voltou a circular nas redes sociais um comercial de TV de 2019 da Gillette, a famosa fabricante de lâminas e cosméticos do gigante Procter & Gamble. A peça ataca o que os produtores imaginam ser a atitude-padrão dos homens: estuprar, assediar, agredir e oprimir. Entre outras narrativas absurdas apresentadas no comercial, e propagadas pelos desmiolados da nova geração que idolatra programas de TV em que subcelebridades ficam trancadas em uma casa, a Gillette propõe a todos os homens “barbear sua masculinidade tóxica”. Segundo alguns “especialistas” em comportamento humano, a mudança teria começado com os movimentos feministas radicais, como o Me Too, o mesmo que demorou vinte anos para se levantar dos sofás das produtoras de Hollywood, já que nunca teria ocorrido a ninguém na história que estuprar, assediar ou agredir era errado na época em que algumas das mesmas atrizes do movimento se empanturravam de dinheiro dos produtores predadores.

Meninos e meninas, evidentemente, têm qualidades e defeitos e cabe a todos nós, como sempre coube, mostrar os melhores exemplos, educar, disciplinar, impor limites e orientar. Quando uma corporação cria uma campanha milionária com foco em um estereótipo extremo, evidentemente não representativo da grande maioria dos homens que adquirem seus produtos, ela está sendo, e não há outra palavra para usar, preconceituosa. Um comercial com a mesma ideia sobre mulheres ou qualquer minoria é possível? Você sabe a resposta.

Vou sempre sair em defesa de homens maravilhosos e honrados como meu pai, meu marido, meu filho e grandes amigos. Sei que são educados demais e ocupados o suficiente para não responder a ofensas de certas elites completamente desconectadas da realidade, encapsuladas em seu mundinho de autorreferências e que necessitam sinalizar virtude demonizando todos os homens. O que essa gente não percebe é que a atitude – na verdade, narcisista e autoindulgente – acaba exatamente por facilitar a vida de estupradores, assediadores e agressores. Estes, de sua parte, podem alegar que são apenas “homens como todos os outros” e assim desaparecer na multidão. Se o comportamento abusivo é padrão e natural, como condenar os criminosos por seus crimes? Eles estariam só “sendo homens” na lógica perversa e pervertida do extremo feminismo e dos homens-geleia que precisam do aplauso fácil da turba de cabelo azul.

Esse comportamento empurrou a sociedade para um transe coletivista em que muitos homens acreditam que é preciso pedir desculpas pelo pecado de outros, pelos pecados históricos, sejam lá quais tenham sido, e, inclusive, pedir perdão pelo futuro. Na atual e absurda relação de dívidas históricas, os homens estão lá, os primeiros da lista com a letra escarlate no peito por todo mal que há no mundo, no passado e agora, prontos para a guilhotina. E ai ai ai deles se não se desculparem – os novos jacobinos virtuais cancelam tudo a seu redor. Numa sociedade na qual o indivíduo e suas responsabilidades viraram coadjuvantes, onde o que vale é o coletivo, machismo e masculinidade foram parar no mesmo balaio. E, em vez de vilipendiar a masculinidade, é preciso reforçar o papel histórico dos homens na proteção das mulheres e do lar, na parceria na criação e no cuidado com os filhos, e não o uso de espantalhos ideológicos preconceituosos para agradar à sanha de meia dúzia de ativistas enlouquecidas e mal resolvidas e da turba sedenta de poder e submissão.

Desde que o mundo é mundo, há estupradores, assediadores e agressores, e a maneira de combater esses crimes passa necessariamente pelo trabalho heroico de homens de bem. Um breve estudo comparado das diversas sociedades ao longo da história bastaria para qualquer um concluir que a América contemporânea é, sem nenhuma dúvida, o melhor lugar para que mulheres possam viver, trabalhar, estudar, criar os filhos e realizar-se plenamente em todos os papéis que sonharem.

Em 1984, na celebração de 40 anos do desembarque das tropas norte-americanas nas praias da Normandia na 2ª Guerra Mundial, o presidente Ronald Reagan fez um discurso histórico, com a presença de alguns dos rangers que sobreviveram àqueles dias: “Vocês eram jovens quando tomaram esses penhascos. Alguns de vocês eram apenas garotos com os maiores prazeres da vida diante de vocês e mesmo assim arriscaram tudo aqui. Por quê? Por que fizeram isso? […] Nós olhamos para vocês e de algum jeito sabemos a resposta. Fé e crença. Lealdade e amor”. Isso é força. Isso é caráter.

A histórica evacuação maciça das tropas aliadas das praias e do porto de Dunquerque, também na 2ª Guerra, que envolveu centenas de embarcações da Marinha e civis e serviu como um ponto de virada para o esforço de guerra dos Aliados, é maravilhosamente retratada no excelente filme Dunkirk, de 2017, dirigido e produzido pelo britânico Christopher Nolan. O trecho que resume a ideia central do filme é aquele no qual um piloto de avião abatido, resgatado boiando no mar e traumatizado, grita com o homem comum que segue com seu pequeno barco para tentar resgatar soldados a pedido de Winston Churchill na França ocupada. “Você tem de voltar! Seu lugar é em casa!”, grita o piloto abatido.

Para o piloto, vivido pelo brilhante ator irlandês Cillian Murphy, o cidadão comum deve deixar a guerra para os profissionais, mostrando que o mais prudente é ausentar-se, omitir-se, proteger-se na própria casa, enquanto o destino da nação está sendo decidido por outras mãos. A resposta de Mr. Dawson, interpretado espetacularmente por Mark Rylance, não poderia ser mais definitiva e atual: “Se não ajudarmos, não haverá mais casa, filho”.

Não se esconder. Jamais. Isso é masculinidade, força e proteção. Homens reais são pessoas com quem os outros podem contar. Seja simplesmente para fazer o que disseram que fariam, ou para estar no lugar certo na hora certa. Tornar-se um homem significa ser consistente. Qualquer um pode fazer as coisas certas de vez em quando, mas as chances são de que, se você olhar para os homens que mais admira, todos eles ganharam seu respeito e confiança por meio da consistência.

A humildade é muitas vezes considerada um traço “suave” – dificilmente é a primeira coisa que vem à mente quando pensamos em “homem”. Mas a verdade é que a arrogância é mais frequentemente exibida por aqueles que, em sua falsa humildade, precisam ser o centro das atenções. Suas inseguranças aparecem à medida que buscam os elogios que precisam desesperadamente por meio da sinalização de virtude e falsa empatia. Os homens reais estão seguros de suas habilidades e não acham necessário colocar-se em mais alta estima do que aqueles a seu redor.

A grande geração que salvou o mundo do eixo nazifascista há mais de sete décadas era composta de heróis na essência do termo, em pensamento e ação, em força e capacidade de sacrificar tudo por todos. Lembrando G. K. Chesterton, eram jovens que não foram movidos pelo ódio do que estava na frente, mas por amor ao que deixavam para trás.

Tenho vergonha, como mulher, por todas as ingratas que costumam relativizar crimes em outras culturas em que mulheres não têm nenhuma voz na sociedade e que, ao mesmo tempo, não reconhecem a força de homens bons, que nutrem o companheirismo, a proteção, a consistência e a humildade que compõem a masculinidade, essencial para uma sociedade integrada e bem estruturada. Fica cada dia mais óbvio que o atual feminismo e os engajados pagadores de pedágio ideológico têm muito mais raiva dos homens do que amor pelas mulheres.

Há ainda os néscios que querem pregar a ideia bizarra de que homens são “mulheres com defeito”, e que basta “castrá-los”, fazê-los pedir desculpas pelos pecados de todos os homens para que sejam dóceis, obedientes e respeitadores. Aqui deixo meu apreço e carinho a todos os homens que são injustamente enquadrados em peças publicitárias vazias ou discursos hipócritas, feitos apenas para envernizar a narrativa idiota e inútil do “Mulheres X Homens”. Sinto também pelos homens que, na falta de consistência, hombridade, humildade e parceria, precisam fingir um arrependimento histórico que, na verdade, não passa de uma olhada no espelho para alimentar o próprio ego.

Tenho poucas certezas na vida, mas aqui apresento uma: a certeza de que falo em nome de muitas mulheres gratas aos bons homens que lutam há séculos por um mundo livre e seguro para todas nós. Foram bons homens que lutaram pela liberdade e criaram as leis que proíbem os crimes que supostamente incomodam as feministas mais radicais. E esses homens são a regra, não a exceção.

ANA PAULA HENKEL

HOMENS EM ESPORTES FEMININOS?

No artigo anterior, relatei como o novo presidente dos Estados Unidos é uma antiga peça da velha política de Washington no novo cenário da esquerda norte-americana. Joe Biden transita pelos corredores do Capitólio e da Casa Branca há 47 anos. É o que era chamado por Donald Trump de mais uma “criatura do pântano” – uma referência aos bancos de rios e ao solo úmido da planície inundada sobre a qual foi construída a capital. A expressão “drenar o pântano” foi usada incansavelmente por Trump em sua administração com a intenção de passar a mensagem de que a velha política de compadrio de Washington seria combatida e as “criaturas do pântano”, expostas.

Mas, depois de quatro anos de malcriações digitais e políticas reais, o bufão laranja perdeu. O pântano venceu. Pelo menos por agora. E junto com essa vitória, com ou sem fraude, suas criaturas estão de volta, ouriçadas com a possibilidade do poder absoluto – aquele que disseram que Trump usaria – por pelo menos dois anos. Além da Presidência, os democratas agora detêm o controle das duas casas legislativas. Oligopólios e tecnocratas financiaram a campanha que elegeu políticos para proteger oligopólios e tecnocratas. Lobistas endinheirados pendurados em cargos na Casa Branca operam para que a vontade de cidadãos comuns não interfira na ordem do dia ou na vida de oligopólios e tecnocratas que financiam campanhas… É o pântano em seu maior esplendor.

Ainda há quem insista em dizer que não existe esquerda nos Estados Unidos e que o Partido Democrata seguiria apenas uma linha social-democrata. Bem, se estivéssemos falando de algumas décadas atrás, até concordaria com essa afirmação. No entanto, hoje, infelizmente, essa não é a realidade do antigo partido de John F. Kennedy – se estivesse vivo, ele provavelmente seria um republicano.

Com a desculpa da pandemia, os debates presidenciais antes das eleições norte-americanas de novembro foram cancelados. Com um candidato escondido no porão, o país não pôde ver, entender ou ter certeza das plataformas da dupla Biden/Harris. Coletivas com jornalistas eram sempre evitadas pelo então candidato democrata. As entrevistas, quando aconteciam, eram ensaiadas com os mesmos militantes da imprensa. E mesmo com todas as evidências do caminho que a dupla seguiria existia uma pontinha de esperança de que, se Donald Trump não conseguisse a reeleição, Biden, uma vez no topo do poder, não seguiria a agenda da esquerda radical de sua vice, Kamala Harris. Como Biden sempre foi ligado à ala moderada do partido (e talvez por isso tenha saído vitorioso das primárias democratas), havia uma pequena expectativa de que ele não se ajoelharia diante da agenda globalista raivosa. Mas a tal pontinha de esperança e a tal pequena expectativa viraram pó logo na largada do mandato.

Nas primeiras 72 horas como presidente dos Estados Unidos, Biden já havia assinado trinta ações executivas, sendo 19 ordens executivas diretas, todas seguindo os perturbadores caminhos da nova esquerda. Dez das canetadas de Biden reverteram direta e imediatamente as políticas de Trump. Apenas para efeito de comparação, nos mesmos primeiros três dias na Casa Branca, Donald Trump assinou uma única ordem executiva; Barack Obama, cinco; George W. Bush, nenhuma; Bill Clinton assinou apenas uma.

A razão para tantas ordens executivas poderia ser a pandemia? Poderia. Mas boa parte delas nada tem a ver com o vírus, e sim com a agenda radical democrata. O pacote de ordens é uma clara demonstração do que mais arrepia os conservadores e os verdadeiros liberais: a sanha intervencionista do Estado sobre os cidadãos por meio de um governo onipresente e onipotente, sem a menor participação da sociedade.

As pautas ideológicas da nova esquerda norte-americana andam a todo o vapor. Seguem uma tendência histérica no mundo. A mesma turma que grita “ciência” para quase tudo defende a ideia de que não há diferença entre um homem biológico e uma mulher biológica – embora celebre Kamala Harris como a primeira mulher a ser vice-presidente dos EUA. Dentre as ordens executivas que Joe Biden assinou, uma é muito preocupante: ela coloca meninas competindo com meninos nos esportes. É isso mesmo. Trump havia ordenado exatamente o oposto, obrigando o governo federal a respeitar a obviedade – veja você – científica do sexo biológico. A canetada de Biden proíbe o governo federal de “discriminar com base na orientação sexual ou identidade de gênero”. A medida autoriza que atletas transgênero, meninos e homens biológicos, possam competir com meninas e mulheres em escolas e universidades apenas identificando-se como mulheres. Isso é gravíssimo.

Ryan T. Anderson, pesquisador sênior do Departamento de Princípios Americanos e Políticas Públicas da Heritage Foundation, em uma entrevista nesta semana foi além. Ele tocou em um ponto que sempre menciono em minhas palestras e artigos sobre transexuais no campo esportivo feminino: a judicialização no esporte – agora com o agravante de que as mulheres que não são atletas também terão de buscar a defesa de seus direitos naturais nas cortes. Insanidade! Anderson disse: “Pelos próximos quatro anos, veremos litígios intermináveis sobre a privacidade feminina quando se trata de espaços exclusivos para mulheres, como banheiros, vestiários e abrigos para sem-teto, onde os homens que se identificam como mulheres dirão que têm o direito civil de entrar e usar aqueles espaços. Haverá litígios em nome de atletas do ensino médio e universidades que perderão corridas e competições para meninos do ensino médio que se identificam como meninas. Veremos litígios de médicos e enfermeiras. É a guerra cultural que atingiu o enésimo grau com o presidente que estava falando sobre união e a cura da nação”, finaliza o pesquisador.

Curiosamente, a consequência dessa ordem absurda do democrata pode trazer união. Não a união que Joe Biden finge que prega, tampouco a que ele desejaria que acontecesse. Um dia depois de assinar a ordem executiva determinando que toda e qualquer instituição educacional que receba financiamento federal deve obedecer ao critério de “como as pessoas se identificam”, e não seu sexo biológico, a hashtag “#BidenErasedWomen” (Biden apagou as mulheres) disparou no Twitter. O movimento nas redes sociais reuniu mulheres democratas, republicanas e pessoas de ambos os lados do espectro político. Todos apontavam os vários perigos da medida que elimina o significado do sexo e traz vários efeitos devastadores para as mulheres. Com a permissão para que homens biológicos possam competir com mulheres em esportes femininos, além do perigo de lesões graves nas modalidades de contato físico para as mulheres, meninos receberiam bolsas universitárias designadas especificamente para as mulheres sob a Lei Título IX (Title IX) – lei federal que garante às atletas o direito a oportunidades iguais nos esportes em instituições educacionais beneficiadas por recursos federais, desde escolas primárias até faculdades e universidades.

E seguimos. A lista das canetadas de Biden em menos de 72 horas incluiu apagar várias determinações da administração Trump em relação a imigração e segurança doméstica. O novo presidente e queridinho da velha mídia desfez as diretrizes relativas à adição de imigrantes ilegais ao Censo. A nova ordem agora permitirá que eles sejam adicionados ao Censo norte-americano e, obviamente, ao número que determina a representação no Congresso, inflando a representação dos Estados com porcentuais mais elevados de imigrantes presentes ilegalmente. Biden também cessou imediatamente a construção do muro da fronteira sul e até sugeriu substituir a palavra “imigrante ou estrangeiro” por “não cidadão” nas leis de imigração dos EUA.

O democrata também propôs a Lei de Cidadania dos Estados Unidos de 2021. Trata-se de um projeto de lei que oferece anistia e cidadania norte-americana imediata a aproximadamente 11 milhões de imigrantes ilegais. Ele também suspendeu as deportações e ordenou que o Immigration and Customs Enforcement (ICE) liberte todos os imigrantes ilegais detidos. Um memorando interno do ICE divulgado por Tucker Carson, âncora do canal Fox News, diz aos agentes para “liberar todos imediatamente”. Se isso se aplica a todos os 14.195 detidos sob custódia do ICE, convém destacar que 71% desse contingente é comporto de criminosos condenados ou acusados de crimes — além de ingresso e permanência ilegais no país. Ou seja, na prática, Biden terá ordenado a libertação de mais de 10 mil criminosos. Praticamente um STF ianque.

Quando Trump implementou a proibição de viagens à China nos primeiros dias da pandemia de coronavírus em janeiro de 2020, o então candidato Biden criticou a ação executiva como “xenófoba”, alegando que tais restrições não funcionariam. Um ano depois, Biden, por meio de mais uma ordem executiva, implementou suas proibições de viagens ao Brasil, à África do Sul, à Grã-Bretanha e a outros 26 países europeus.

Desde que assumiu o cargo, na última quarta-feira, a caneta de Joe Biden parece ter vida própria. Entre as decisões executivas, algumas afetarão profundamente os assuntos internos, como o cancelamento da licença para a construção do oleoduto Keystone XL – assunto sobre o qual tratei no artigo da semana passada. A medida é terrível para canadenses e norte-americanos. O oleoduto de quase 2 mil quilômetros do Canadá até Nebraska se juntaria a redes já existentes para que 830 mil barris diários de petróleo canadense chegassem facilmente a refinarias e portos na Costa do Golfo. De lá, poderiam ser exportados para o resto do mercado mundial.

Infelizmente, o projeto Keystone se tornou uma vítima da política ideológica de esquerda. Embora o Departamento de Estado do presidente Barack Obama tenha descoberto por meio de cinco estudos separados que o projeto não teria impacto nas emissões de gases do efeito estufa, grupos ambientalistas lutaram contra o oleoduto desde o primeiro dia. Uma análise adicional mostra que o transporte de petróleo por trem ou navio-tanque geraria mais emissões de gases de efeito estufa e mais riscos de vazamento. Mais de 60 mil empregos foram apagados com essa assinatura de Joe Biden.

Entre as ordens impostas por Biden em menos de uma semana está a volta imediata ao Acordo Climático de Paris e à Organização Mundial da Saúde, instituição que errou em praticamente tudo acerca da pandemia histórica e hoje não passa de uma extensão do comando ditatorial chinês.

Desde o fim da década de 1980, presumimos que a abertura do comércio à China comunista transformaria o Estado repressivo daquele país. Os EUA apostaram nisso mesmo depois da cena histórica na Praça da Paz Celestial. Não funcionou. Agora temos uma China ainda mais comprometida em reprimir seu povo e os trabalhadores norte-americanos acabaram perdendo ao longo das últimas décadas postos valiosos em razão da usurpação chinesa. Trump iniciou uma guerra comercial e, apesar de muitos hoje estarem cientes das várias facetas do jogo desonesto chinês, figuras do pântano continuam fingindo cegueira, uma vez que estão de mãos dadas com negócios da China. Literalmente.

Também contra todas as probabilidades, e arrumando brigas no Pentágono que podem ter custado sua reeleição, Trump reduziu os níveis de tropas norte-americanas no exterior, especialmente no Iraque, no Afeganistão e na Síria. Ele provou algo que parecia quase impossível ou inimaginável: a ideia de que um presidente norte-americano não iniciaria novas guerras. Em menos de uma semana, Biden já aumentou o contingente de tropas no exterior e sinalizou aos senhores das armas do pântano que a torneira não vai secar.

A velocidade com que a lista de desejos da esquerda foi concedida por meio das ordens executivas de Joe Biden mostra exatamente onde estamos. Os democratas e a sanha da agenda globalista não desejam união, eles querem dominação. Sobre as famílias e seus filhos, sobre as comunidades e suas decisões. Podemos até debater se Donald Trump é um verdadeiro conservador, no sentido original da palavra, ou se ele é apenas um narcisista de carteirinha. No entanto, durante quatro anos, sua agenda foi implementada de acordo com uma plataforma conservadora baseada em liberdade e responsabilidade. E, para isso, acredito não haver retorno. O norte-americano voltou a sentir o tato das rédeas em suas mãos. Ser conduzido por burocratas e tecnocratas em uma união global com um governo distante é o maior dos pesadelos – é a última coisa que um cidadão comum por aqui desejaria, democrata ou republicano.

Pela velocidade com que a caneta de Biden anda atuando, não me surpreenderia se o mau uso da nova tinta azul trouxesse de volta aquele velho e surrado boné vermelho. Pode ser que “Make America Great Again” volte não apenas por ser moda ou um movimento político de oposição, mas por acabar tornando-se uma realidade.

ANA PAULA HENKEL

A NOVA VELHA CASA BRANCA

No último dia 20, Donald Trump despediu-se do Salão Oval. Finalmente, depois de 47 anos pelos corredores de Washington, Joe Biden entrou na Casa Branca como o presidente da nação mais poderosa do mundo. Mas não fez isso sozinho. Com ele, também entrou a velha política de compadrio dos grandes caciques dos dois grandes partidos americanos. A posse do democrata aconteceu sem o povo nas ruas, que estavam lotadas com mais soldados do que os que compõem as atuais tropas no Oriente Médio e no Afeganistão. E por falar em guerras, até o ex-presidente republicano George W. Bush, senhor de muitas guerras, usando uma gravata azul, cor do Partido Democrata, marcou presença na posse daquele que, segundo a velha mídia, foi o presidente mais votado da história americana. Depois de quatro anos tentando derrubar um outsider, parece que a velha mídia está, novamente, feliz com a volta da velha Casa Branca.

Os milhares de bandeiras norte-americanas e de vários Estados que cobriam o enorme gramado que vai do prédio do Capitólio até o Memorial George Washington nem de longe pareciam compor o cenário de um retrato da América vibrante, colorida e barulhenta que vemos em posses presidenciais. Para o evento que empossou o segundo presidente católico dos EUA, os eleitores podiam contribuir (apenas os vivos) comprando uma bandeira para ser colocada no gramado. A doação, já que Biden é homem de fé, seria enviada para a Planned Parenthood, as clínicas de aborto espalhadas por todo o país, encontradas principalmente em bairros pobres e nas comunidades negras (nem todas as vidas negras importam…). O silêncio era fúnebre e a única cor que se misturava com as árvores no dia frio de inverno na capital era o mesmo verde dos uniformes dos soldados Guarda Nacional Americana.

Mas isso não importa. A velha mídia não viu nada disso e seguiu como tem seguido. Cega. Em um transe bizarro, todos os canais repetiam, como se tivesse sido imposto por algum ditador, que tudo estava lindo e poético. Até as palavras eram iguais. Lady Gaga cantou o hino nacional e, em suas últimas estrofes, encheu o peito, abriu os braços no melhor estilo Eva Peron, e apontou para o nada, já que a população estava em casa de máscara e em lockdown: “O’er the land of the free and the home of the brave!”. Já no encerramento, a imagem sobrevoava as bandeiras no vasto espaço e tivemos de ouvir o comentarista de uma grande rede de TV dizer que “as luzes refletidas por toda a extensão do gramado pareciam os braços de Joe Biden abraçando Washington”.

Meu Deus. Não conseguimos conter a risada em casa. Eu poderia usar alguma frase mais elaborada que reflita o estado atual da velha mídia, mas a verdade, nua e crua, é que a velha mídia perdeu qualquer resquício do senso de ridículo. Chris Wallace, jornalista renomado que mediou um dos debates entre Trump e Biden e cobre a Presidência desde a década de 1960, disse, em tom emocionado, que “nunca, nunca havia visto um discurso tão maravilhoso na vida”. JFK? Reagan? Obama? Nada disso. Joseph Biden, além de ser o presidente mais votado da história dos EUA, também fez o discurso mais impactante de todos os tempos.

Será que a mídia sempre foi assim, mas, como antes não tínhamos o poder da informação na palma de nossas mãos, como ainda éramos agentes verificadores de tanta bobagem dita, toda essa patacoada passava sem que pudéssemos perceber quanto fomos ludibriados pelo clube da pós-verdade?

Não é preciso uma leitura mais aprofundada para ver o óbvio. Depois de um ano inteiro repetindo atrocidades no meio de uma pandemia histórica (tudo “em nome da ciência”), depois de um papel vergonhoso durante uma campanha presidencial norte-americana, quando, em conluio com as Big Techs, esconderam a sujeira da família Biden com a China, chegou a hora de vermos o show demagogo diário da velha mídia com a velha Casa Branca.

A antiga mídia não existe mais. Desapareceu aquela imprensa investigativa de Watergate, que acabou forçando Richard Nixon a renunciar. Ou do famoso caso conhecido como Pentagon Papers, em que foram expostos documentos do Pentágono que demonstravam, entre outras coisas, que a administração de Lyndon Johnson havia mentido sistematicamente sobre a guerra do Vietnã, não apenas para o público, mas também para o Congresso. E bastou apenas um dia da administração Biden/Harris – um dia apenas – para suspeitarmos do que vem pela frente.

Em suas primeiras falas à imprensa como vice-presidente, Kamala Harris foi entrevistada por uma grande rede de TV norte-americana e, diferentemente de Candace Owens, ativista negra conservadora e casada com um homem branco, Harris não foi devorada pela cultura do cancelamento por esse motivo. Ao contrário de Owens, a primeira mulher negra na vice-presidência, também casada com um homem branco, foi celebrada pela “bela família multirracial”. A ex-senadora, que durante as primárias democratas acusou Joe Biden de racismo, foi bombardeada por perguntas muito difíceis sobre… moda e sapatos. Sim, no meio de uma pandemia histórica, com a China querendo engolir tudo o que puder nos Estados Unidos e no mundo, moda e sapatos foram os temas abordados entre gargalhadas da entrevistada e da entrevistadora. Nada, nem um tiquinho, sobre política doméstica, covid, economia norte-americana em colapso nos Estados democratas que empregaram o lockdown severo, ou sequer sobre, segundo a própria Harris, o “racista” Joe Biden ou as acusações de assédio sexual por parte de uma antiga secretária, Tara Reid. Na época das primárias democratas, Harris declarou que acreditava em Reid antes de qualquer coisa. Acusações como essas empurradas para debaixo do tapete pela velha mídia, para proteger a nova velha Casa Branca.

O primeiro dia do governo Biden foi cheio de mais do mesmo. A mesma e velha hipocrisia do combo Democratas/Mídia, que viu várias cidades serem destruídas, que ignorou por completo a violência imposta pelos grupos Antifa e Black Lives Matter, que chamou milhões de norte-americanos de genocidas por questionarem o lockdown e o uso de máscara, agora perdeu a vergonha de vez (se é que ainda tinha alguma).

Jen Psaki, nova assessora de imprensa da Casa Branca, foi questionada na quinta-feira por que Joe Biden e membros de sua família não usavam máscara no Lincoln Memorial, logo depois de o presidente ter assinado uma ordem executiva para o uso do protetor facial em toda e qualquer propriedade federal. A resposta? “Ele estava comemorando um dia histórico em nosso país… Temos coisas maiores com que nos preocupar.”

Imaginem, apenas imaginem, se qualquer pessoa ligada à administração Trump respondesse dessa maneira.

E foi também já no primeiro dia de governo Biden que 17 ordens executivas foram assinadas. Entre elas, a volta à Organização Mundial da Saúde e ao acordo climático de Paris, e a revogação da licença para construir o oleoduto Keystone, um projeto de US$ 8 bilhões que ligaria Alberta, no Canadá, ao Texas, nos Estados Unidos, e ajudaria a América do Norte a manter sua independência energética. A decisão de Biden pode levar o país de volta à dependência de mercados estrangeiros de energia controlados pela Opep e outros cartéis de petróleo. O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, alinhado ideologicamente com as atuais políticas climáticas dos democratas, criticou o colega norte-americano por revogar a licença que encheria os cofrinhos canadenses de dólares norte-americanos. A canetada democrata também extingui 11 mil empregos gerados diretamente pelo projeto, e outros 60 mil serão perdidos indiretamente com postos relacionados à indústria.

Outra declaração nas primeiras 24 horas do governo Biden deixou muitos cidadãos de cabelo em pé, mas agradou aos senhores das armas e das guerras na velha Casa Branca e no Pentágono. O novo presidente e velho político já considera enviar mais tropas para o Iraque, depois que Donald Trump, cumprindo uma promessa de campanha, trouxe mais de 2.500 soldados de volta para os EUA.

O mais incrível dessas primeiras 24 horas sob nova direção: não houve por parte da imprensa uma pergunta sequer ao novo morador da Casa Branca sobre suas ordens executivas, algumas já controversas e envolvendo vizinhos e aliados. Metade do país já pergunta se haverá algum espaço ou vontade da velha mídia para críticas quando o novo governo cometer algum erro, ou se os atuais militantes travestidos de jornalistas correrão para suas redações e estúdios para justificar os “equívocos bem-intencionados” do velho político da velha Casa Branca.

Um novo governo na maior potência mundial – até aqui – se inicia. Jamais torceremos contra a América e a sustentação de seu firme farol apontado para a liberdade, que mesmo em tempos obscuros se mantém firme. A América não é perfeita e sua história mostra isso, mas ela nasceu de bravos e corajosos homens que, como todos nós, também eram imperfeitos. Até Pais Fundadores que estiveram juntos na Guerra Revolucionária cortaram relações por causa de divergências políticas. John Adams, o segundo presidente norte-americano, perdeu sua reeleição para Thomas Jefferson e, assim como Donald Trump, não compareceu à posse de seu sucessor. Passaram anos sem se falar. No decorrer da história, já aposentados e em suas propriedades, começaram a trocar cartas e durante anos reavivaram o que os unia. O amor pela pátria. Morreram no mesmo dia, 4 de julho de 1826, quando a Declaração de Independência, escrita por Jefferson, completava 50 anos.

Provavelmente seria romantizar demais uma reaproximação da velha política e da velha mídia com os velhos valores que ainda sustentam a base genética norte-americana. Durante sua vida e seu governo, Donald Trump também cometeu erros. Talvez alguns tons da sagacidade de Adams ou da diplomacia de Jefferson tivessem ajudado durante sua administração, mas o fato é que, mesmo como um elefante numa loja de cristais, ele deixou um legado significativo. Bateu de frente com o globalismo, colocou a América em primeiro lugar para os norte-americanos (America First) e trouxe de volta um velho tripé que andava meio sumido. O tripé dos “Ps”, estabelecido por Ronald Reagan em seus oito anos de Casa Branca: paz, patriotismo e prosperidade. Trump foi um grande acidente no caminho da agenda globalista, das elites mundiais e do country club dentro do Partido Republicano, e por isso é necessário apagá-lo até da vida digital.

Apesar da apreensão de milhões de norte-americanos diante da agenda ideológica da extrema esquerda de Joe Biden, a agenda econômica preocupa muito a todos os que entendem que o caminho sempre em direção à liberdade foi exatamente o que permitiu a prosperidade. Apesar das incertezas de um presidente que passou toda a sua campanha trancado no porão de casa, e de que o interrogatório pela mídia agora será sobre seu sabor favorito de milk-shake ou sobre suas meias fashion, o legado de Trump, que vai além dos números econômicos e dos acordos de paz assinados, ainda pode surpreender.

A história mostra que, mesmo durante momentos turvos e desconexos, os Estados Unidos sempre reagiram. Não será diferente agora. Trump foi imprevisível para nós, mas foi ainda mais imprevisível para todos eles. A velha Casa Branca está de volta. Mas lá fora, nas ruas, a velha conexão com os valores que o Ocidente busca – e precisa – conservar foi restabelecida. A reafirmação daquilo que realmente amamos e que, hoje, vemos mais claramente que é parte essencial da sobrevivência das raízes ocidentais e de todos nós não vai a lugar algum. O elefante, por muitas vezes desajeitado, não tem ideia de quantos cristais quebrou, mas o barulho, ainda bem, acordou muita gente.

ANA PAULA HENKEL

A VIDA EM 2021

É desnecessário dizer que 2020 foi um ano difícil para o mundo. A pandemia não veio aterrorizar apenas em seu aspecto viral propriamente dito, pondo em risco a saúde de bilhões de pessoas. Também jogou na UTI economias sólidas e entubou, já com risco de morte, economias fracas e suscetíveis a ações de tiranos. Ela nos trouxe o perigo dos anos nefastos das páginas de História em que o autoritarismo cerceava liberdades, prendia quem pensava diferente e usava tragédias para projetos de poder.

E 2020 chegou ao fim. Aos trancos e barrancos. Muito aprendemos sobre ciência, vírus, hipocrisia, falsos liberais, instituições e agentes políticos emaranhados com o Partido Comunista Chinês, democratas de mãos dadas com ditadores e uma eleição presidencial no mínimo bizarra e cheia de perguntas sem resposta na República mais sólida do planeta. O que esperar então para o próximo ano?

Em uma sociedade na qual sempre estamos olhando para fora, para os acontecimentos que se sucedem numa velocidade hipnotizante, numa era de total adoração ao imediatismo, onde encontrar alguma faísca de maturidade e renovação de que algo possa melhorar em 2021? Onde pousar o pensamento para refrigerar a alma e seguir sem desanimar?

Pessoas diferentes encontram estratégias diferentes de reclusão, análise e imersão. O que serve para mim pode não servir para você. Ao longo do ano de 2020, construímos uma relação de afeto a cada semana. Por isso, sinto-me à vontade para dividir onde encontrarei o alento para seguir firme no ano que se aproxima. E, como o Natal nos mostra, a força está na própria vida, nas tradições que não se desbotam com o tempo, na família, nas palavras sábias de pessoas mais velhas que a atualidade parece não ter mais tempo de ouvir.

O ano era 2000. O mundo se preparava para a virada do milênio e eu me preparava para minha terceira Olimpíada. Ela seria disputada do outro lado do mundo, em Sydney, na Austrália, e seria minha primeira Olimpíada pelo vôlei de praia depois de disputar dois Jogos Olímpicos pelo vôlei de quadra.

Depois de uma sólida e dedicada carreira no vôlei de quadra, o sucesso de minha ida para o vôlei de praia era incerto, mas lá estava eu, começando mais um desafio em mais um ciclo olímpico. Foi quando apareceu um aliado importantíssimo, vital para prosseguir com um plano sério de duros treinamentos, estratégia e dedicação: o patrocinador dos sonhos.

Um patrocinador dos sonhos no esporte não é aquele que simplesmente estaciona na porta de sua casa com um caminhão de dinheiro e lhe deseja boa sorte. Um patrocinador dos sonhos é um aliado que tem um plano amplo, com várias vertentes e campos de ação para atletas de alta performance. Um patrocinador dos sonhos é um aliado que não lhe pagará apenas um bom salário, mas traçará planos de voo com uma equipe técnica composta de experts em estatísticas, análises, preparação física, medicina esportiva, marketing. Um patrocinador dos sonhos é aquele que lhe dá toda a segurança e estrutura para que você possa se dedicar ao máximo – e apenas isso – aos intensos e quase infinitos treinamentos, a única chance possível de chegar ao Olimpo. E lá estava eu, aos 28 anos, depois de sonhar – e trabalhar – por muitos anos com o patrocinador dos sonhos. Tudo o que eu precisava fazer era o que eu vinha fazendo desde os 16 anos. Treinar. Treinar feliz, treinar com dores, treinar no sol, treinar na chuva, treinar, treinar e competir.

Foi quando a vida, sem me preparar, sem me avisar, sem sequer me dar a mínima pista, disse: “Tenho outros planos pra você”. Atletas são pagos e patrocinados enquanto estão em atividade, treinando e competindo — afinal, as marcas que investem precisam aparecer e estar em evidência. Lesões cancelam contratos. Gravidez cancela contratos. E eis que em um hotel em Gstaad, na Suíça, no meio de uma importante competição para a classificação olímpica do ano de 2000, o mundo “desabou” em duas linhas verdes numa caneta branca comprada na farmácia: positivo. Eu estava grávida.

Um silêncio inesquecível tomou conta de minha mente, de meu quarto de hotel, do mundo. Era como se eu estivesse em algum tipo de transe. “Não pode ser!”, pensei. Estava num relacionamento de muitas idas e vindas – hoje somos grandes amigos!. Em três segundos, um filme se formou em minha frente… “relacionamento… família… patrocínio… Olimpíada… imprensa…”. Não havia uma ordem nos pensamentos, e eu não conseguia organizar as ideias.

Depois de jogar mais duas etapas do Circuito Mundial (e de mais quatro testes positivos), decidi voltar ao Brasil e contar primeiro a meus pais toda a situação. Embora sinta um amor profundo por minha mãe, desde pequena sempre tive uma ligação muito forte com meu pai. Via nele um mestre e um amigo. Por isso, estava extremamente nervosa com a reação daquele a quem eu nunca quis desapontar na vida.

Viajei até a casa de meus pais e, eu e eles sentados à mesa da cozinha, disparei sem rodeios uma única frase: “Estou grávida”. Pelo semblante de minha mãe, aquele filme que passou em minha cabeça no quarto de hotel na Suíça agora acontecia com ela. Eu já não era nenhuma adolescente, mas, mesmo com 28 anos, a preocupação de mãe tomou conta da conversa. Ela começou a chorar e a repetir: “Mas e seu relacionamento? Vocês estão juntos? E o patrocínio? Você trabalhou décadas para isso… e a Olimpíada? O que a imprensa vai falar? Como será a vida?”.

Minha mãe sempre foi muito emocional e protetora e, confesso, já esperava que sua reação inicial seria assim. Meu pai, no entanto, estava em absoluto silêncio e aquilo me incomodava e deixava apreensiva. Foi quando, entre um suspiro de preocupação e outro, minha mãe, em lágrimas, ficou em silêncio e meu pai resolveu falar. Eu gelei. Para minha surpresa, ele olhou para minha mãe, e não para mim, e disse: “Você sabe quantas pessoas no mundo estão chorando neste exato momento, como você, porque alguém que elas amam está morrendo e as deixando? E você chora porque a vida está batendo na porta de minha casa?”. Imóvel e sem sequer piscar, parecia que eu havia entrado em outro estado de transe. E ele continuou: “Não me interessa a condição. A vida está batendo na porta de minha casa, e eu vou abrir, e eu vou celebrar”.

Um amor tão grande e tão divino tomou conta de mim. Comecei a tremer. Meu pai, segurando uma cerveja que acabara de abrir, repetiu: “A vida está batendo na porta de minha casa, e eu vou abrir, e eu vou celebrar”.

O ano de 2000 voou. A delegação brasileira na Olimpíada de Sydney não trouxe nenhuma medalha de ouro, mas eu, no Brasil, ganhei a minha. Gabriel, nome escolhido por meu pai por se tratar de “um mensageiro de boas notícias”, como ele mesmo ressaltou, decidiu nascer um mês antes do previsto e chegou pouco antes do Natal, no dia 19 daquele ano. O melhor presente de minha vida.

Os anos se passaram, eu me mudei para Los Angeles e, logo que cheguei à progressista Califórnia, participei de um grupo de treinamento para fazer parte de uma ONG chamada Pregnancy Help Center. Criada em 1976, essa ONG ajuda e acolhe mulheres grávidas que, por alguma razão, consideram o aborto, estão confusas e precisam de ajuda. A equipe é composta de vários voluntários, desde conselheiras (meu posto, a primeira pessoa com quem as mulheres conversam quando chegam lá) até médicos, enfermeiras, assistentes sociais, psicólogos, policiais etc.

Durante os anos que passei na organização, presenciei histórias muito impactantes de mulheres que, diante da proteção da legislação que favorece o aborto no Estado e da facilidade com que isso acontece, resolveram prosseguir no procedimento nas clínicas abortivas. Foram algumas noites sem conseguir dormir pensando naquelas moças de vinte e poucos anos que, em uma ficha, escreviam que já estavam no segundo, terceiro aborto. Obviamente, para a organização, toda mulher que decidia seguir a gestação, assistida e cuidada durante e após a gravidez gratuitamente por uma grande equipe, era motivo de muita celebração.

Nas muitas conversas que eu tinha com essas mulheres, em um gesto de conexão afetiva e empatia, eu relatava minha história. Contava sobre meu pai e as palavras que ele tinha dito na cozinha de sua casa, sobre os medos, as dúvidas, as lágrimas. E é exatamente dessas ocasiões, do encontro com mulheres fortes que desafiaram qualquer situação, que tenho guardadas hoje as medalhas mais preciosas de minha vida. Ao longo do trabalho na instituição, recebi algumas dezenas de fotos de bebês enviadas pelas mães. Elas relataram que as palavras de meu pai foram um bálsamo, uma luz para a única e possível decisão para aquela ocasião. Meu pai, já falecido naquela época, havia se tornado, sem saber, vida após sua morte.

E a vida não está apenas na gestação no ventre de uma mulher. A vida está nos detalhes que o imediatismo, a tecnologia em excesso, o egoísmo, a carreira na frente de tudo, a superficialidade das redes sociais escravizantes não nos deixam mais apreciar. Casais se separam não por falta de amor, mas por falta de paciência. Jovens estão em depressão não por problemas, mas pela proteção excessiva a que são submetidos.

Hoje, tudo tem de ser aceito. Tudo tem de estar “tudo bem” o tempo todo. E, quando vem um ano como 2020, não sabemos conversar, desaprendemos de pensar e discutir como sairemos de enrascadas pequenas, grandes, particulares e públicas, porque as ferramentas não estão no “tudo tem de estar bem o tempo todo”. Nossos filhos não podem ser envoltos em plástico-bolha e protegidos dos males do mundo, do sofrimento, dos desafios. Assim famílias são fortalecidas e homens e mulheres fortes são forjados.

Apesar do conturbado ano, foi um prazer estar aqui com vocês toda semana. Desejo a todos nós, parceiros na caminhada da defesa inviolável da coragem e da liberdade, que Johann Goethe (1749-1832), filósofo, cientista e escritor alemão, autor de Fausto, poema trágico e obra-prima da literatura alemã, nos inspire em 2021 com seu célebre pensamento: “No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge a nosso favor. Como resultado da atitude, seguem todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém em si mesma o poder, o gênio e a magia”.

A coragem contém em si mesma o poder, o gênio e a magia. Um abençoado 2021.

ANA PAULA HENKEL

O CAMPO E AS TORRES DE MARFIM

Quantas vezes durante a nossa infância assistimos a filmes hollywoodianos que retratavam “o espírito da América” em clássicos de guerra ou “o sonho americano” representado por atores como John Wayne ou Clint Eastwood nos famosos westerns nas tardes e noites de sábado?

A América, além de patriota, é vista por muitos como defensora irrestrita da liberdade. Para outros, apenas uma nação imperialista e arrogante. No entanto, quem passeia com honestidade pela história dos Estados Unidos consegue entender que nem sempre o país foi uma potência. Houve décadas de sangue e fogo, lutas, glórias e derrotas. Ainda assim, e apesar de uma guerra civil que produziu marcantes cicatrizes, a nação preservou o espírito patriótico dos Founding Fathers – não só em 1776, ano da declaração de independência, mas durante todo o estabelecimento dos pilares institucionais. Algo único sempre moveu o povo à prosperidade. Um profundo respeito pela liberdade individual para o bem coletivo.

Embora o DNA do patriotismo não tenha se perdido desde a espetacular vitória contra a Grã-Bretanha – na época, uma grande potência militar -, a América sempre vivenciou diferenças políticas e sociais. Mas, diante de inimigos comuns, essas diferenças eram deixadas de lado. O povo norte-americano sempre reagia a tropeços históricos trazendo para a superfície a força de sua genética de bravura, luta e união. Frente a impasses que poderiam mudar a rota de seu excepcionalismo, a América sempre reagiu.

Para muitos historiadores, no entanto, os últimos anos da política norte-americana e a eleição presidencial de 2016 solidificaram uma divisão no país que foi iniciada com o bom-mocismo de Barack Obama. O nível dessa fragmentação pode ter sido registrado apenas durante a Guerra de Secessão, quando, em meados do século 19, os Estados Unidos viviam uma era de tremendo crescimento com uma diferença econômica fundamental entre as regiões norte e sul do país.

No norte, a manufatura e a indústria estavam bem estabelecidas, e a agricultura mantinha-se principalmente limitada a fazendas de pequena escala. Em contraste, a economia do sul era baseada num sistema de agricultura em grande escala que dependia do trabalho de escravos negros para o cultivo de culturas como algodão e tabaco.

O crescente sentimento abolicionista no norte após a década de 1830 e sua oposição à extensão da escravidão aos novos territórios ocidentais levaram muitos sulistas a temer que a espinha dorsal de sua economia pudesse quebrar. Forças pró e antiescravagistas lutaram violentamente de 1861 a 1865. Assim, no norte, nasceu uma nova entidade política baseada no princípio da completa objeção à extensão da escravidão aos territórios ocidentais, o Partido Republicano – a agremiação política de nomes como Abraham Lincoln.

As décadas se passaram e o norte tornou-se uma região cosmopolita, hoje com grande maioria de eleitores democratas. O sul, escravagista e fiel aos confederados, homens que compunham a massa do Partido Democrata na Guerra Civil, hoje é composto de fiéis eleitores republicanos que há muitos anos “votam vermelho”, a cor do partido.

As diferenças ideológicas foram recalibradas não apenas como áreas rurais ou urbanas – estabelecidas de maneira muito clara desde a concepção da nação – mas também no que diz respeito a questões como aborto, licença para porte de armas, impostos e política externa. Republicanos, no passado estabelecidos em áreas de grandes cidades do norte, hoje são demograficamente representados em milhares de cidades pequenas nas áreas rurais. O progressismo ficou nas costas, nos grandes subúrbios e nas áreas cosmopolitas.

E é exatamente aqui, mesmo ante a dificuldade de compreendermos o sistema eleitoral norte-americano, que entra a bela engenhosidade do Colégio Eleitoral. Durante a última eleição, vimos muitos jornalistas, por militância ou ignorância, tachar o sistema de elitista e antidemocrático. Ora, o que seria de Montana, West Virginia, Utah ou dos fazendeiros de Wyoming sem o sistema? Acabariam politicamente castrados e esmagados por Califórnia, Nova York, Boston e Filadélfia. A ideia de um colégio eleitoral, Estados que mandam seus representantes de acordo com a população, é considerada escandalosamente “injusta” e terrivelmente “antidemocrática” por acadêmicos e pela mídia. Como assim, um fazendeiro de Montana ter a mesma importância e a mesma voz na direção do país do que milhares de outros moradores colados no globalismo das cidades?

É preciso – sempre – ressaltar que a América não é uma democracia pura. A América é a ideia do republicanismo que salvaguarda exatamente as artérias da democracia, não permitindo que 51% de uma população cada vez mais urbana e amontoada nas costas progressistas crie leis sempre que desejarem sem considerar todo o resto do país.

Divisões ideológicas fazem parte do mundo há séculos, mas talvez a atual sociedade esteja testemunhando um dos períodos de maior animosidade no campo político. Em um palco cada dia mais polarizado, a dicotomia parece ter sido estabelecida como traço decisivo no cenário político não apenas dos Estados Unidos, mas em várias democracias ao redor do mundo. Posições individuais e da própria mídia são cada dia mais expostas – e a parte da imprensa que se traveste de “isenta”, mas doura pílulas diárias de militância progressista, afasta-se do coração da nação.

Em um momento político global de quebra de paradigmas e narrativas, no qual o monopólio da informação não mais existe, apesar das tentativas incansáveis das Big Techs de suprimir importantes notícias, fica cada dia mais evidente que muitos analistas e jornalistas ainda não conseguem entender a voz das áreas rurais, cada dia mais reverberante. O descolamento das chamadas “classes falantes” e elites progressistas do senso comum expressa a desconexão da realidade, o desprezo pela verdadeira ideia de democracia – felizmente professada pelos que teimam em não seguir suas ordens.

Parte dessa elite atual, formada em sua grande maioria por esquerdistas, impregnados com a autodenominação de justiceiros sociais, perdeu completamente o elo com o povo. O movimento, hoje percebido por qualquer pessoa que tenha acesso à internet, foi muito bem descrito no necessário livro The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy (“A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia”), do crítico social e historiador norte-americano Christopher Lasch.

Neste que foi seu último livro, publicado postumamente em 1995, depois de sua morte, em 1994, o sociólogo descreve um princípio da filosofia política identificado adiante, em 2016, no referendo do Brexit e na eleição de Donald Trump nos EUA e, em 2018, na vitória de Jair Bolsonaro no Brasil. Um movimento que, mesmo com a estranha eleição de Joe Biden, carregada de dúvidas e incertezas, mostra que pontos comuns entre grupos rurais e urbanos deixaram de ser a regra e, com raras exceções, perderam seu protagonismo e poder de união. As diferenças, hoje, falam mais alto.

“A Rebelião das Elites” é um ensaio impiedoso contra a atuação de alguns segmentos elitistas da sociedade e vem carregado de observações e dados esclarecedores, fundamentais em tempos de análises jornalísticas embasadas em pura “achologia”. Lasch mostra um movimento populista – muitas vezes iniciado em áreas rurais que celebram a meritocracia -, sem dar à palavra o tom pejorativo. O movimento consiste na tentativa de resgate da responsabilidade direta dos políticos perante a sociedade, principalmente com aqueles que não vivem nas bolhas urbanas, supostos grandes centros de justiça social.

O princípio político de Lasch é que as elites, que deveriam cumprir o papel de dar o exemplo moral e intelectual, se enclausuram em seus mundos ao ver suas vontades políticas não se concretizando. Assim, revoltam-se contra a própria sociedade civil. Exibem um comportamento similar à rebelião das massas que José Ortega y Gasset descreve no clássico livro da década de 1930 – o título do livro de Lasch, a propósito, é uma ironia ao também necessário Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset. O sociólogo descreve como essas elites foram se trancando em suas torres de marfim, manipulando e manobrando a informação e o conhecimento ao longo de anos. A brilhante provocação de Lasch é exatamente esta: as elites que deveriam nutrir e proteger as artérias democráticas acabam por trair a democracia (subtítulo do livro). Elas não conseguem disfarçar seus discursos tirânicos e autoritários.

O que pensa a intelligentsia – segundo Lasch, composta de partidos políticos, grandes veículos de comunicação, universidades e intelectuais – engloba uma série de opiniões unicamente enquadradas no que ela acredita ser melhor para todos. Todos. Inclusive os fazendeiros e moradores das áreas rurais de metade da América. Lasch é enfático ao descrever o comportamento como uma espécie de tirania que sufocou o cidadão comum. O nojo e o desprezo dessas elites aos milhões de fazendeiros e cidadãos de classe média que votaram em Trump, à classe trabalhadora que vota em conservadores para suas legislaturas estaduais, ficam mais latentes e impossível de ser mascarados com o forte movimento de adesão a pautas conservadoras, a verdadeira espinha dorsal norte-americana.

ANA PAULA HENKEL

A OBSESSÃO DA IMPRENSA POR DONALD TRUMP

E a grande imprensa oficializou Joe Biden como o próximo presidente dos Estados Unidos. Desde o dia 3 de novembro eleitores de Donald Trump tomaram as ruas do país, vandalizam prédios e saqueiam estabelecimentos comerciais. Veja as fotos… Não, não há fotos, e você não verá imagens também, porque elas não existem. Parece que pessoas que pertencem aos espectros políticos opostos reagem de maneiras diferentes quando não conseguem o que querem. Tapumes em portas e janelas por todo o país foram colocados como medida de segurança e proteção. Será que o propósito era conter a fúria de grupos pró-Donald Trump?

Ah, não importa, Trump está fora. E foram quatro anos de “problemas intermináveis”. Desde 2016, os Estados Unidos viviam “os piores anos de sua História”, bastava abrir os jornais, estava tudo lá. Recessões econômicas sempre à vista, guerras prontas para ser iniciadas, índices de desemprego nas alturas, vários processos de impeachment de um dos piores presidentes norte-americanos, cidades sendo queimadas com violentos protestos por culpa do bufão do Twitter e, para coroar o inferno na América, a pandemia do novo coronavírus. Tudo culpa de Donald Trump. Pelo menos, era isso que os jornais dos EUA – em um mundo paralelo – noticiavam.

E, como num passe de mágica, os Estados Unidos acordaram em plena harmonia. Não há mais “brutalidade policial sistêmica”, não há mais racismo. A pandemia, que estava totalmente fora de controle até 3 de novembro, agora tem em sua rota a vacina de Joe Biden e o povo está livre para acreditar – e entrar como um rebanho de ovelhas – em outro lockdown que não tem data para terminar. A paz reina novamente. Quem poderia imaginar que seria tão fácil tirar o “novo Hitler” da Casa Branca? Com a ajuda da fé (e dos votos) do além, o xenófobo, homofóbico, nazista e fascista finalmente vai nos deixar em paz. Você disse recontagem e votos auditados? Batalhas judiciais? Não, não se preocupe, os pen drives e relatórios eleitorais já estão sumindo e as cédulas sendo destruídas. Nada para ser visto, agora é só comemorar, o bufão laranja está de malas prontas para a Flórida.

Durante quatro anos, a imprensa norte-americana vendeu “o caos da administração de Donald Trump”. Todos – absolutamente todos – os fatos e feitos de suas políticas públicas foram distorcidos ou escondidos. Seus juízes indicados para a Suprema Corte não apenas tiveram a vida devassada, mas foram xingados, zombados e alvo de mentiras absurdas e humilhantes. Sua família, perseguida.

Melania Trump, esposa do presidente, nasceu na Eslovênia e é a segunda mulher estrangeira (cidadã norte-americana naturalizada) a deter o título de primeira-dama, e a primeira cujo idioma nativo não é o inglês (but wait, a imprensa me disse que Trump era xenófobo). Melania veio para os Estados Unidos jovem, tornou-se uma supermodelo e empreendedora de sucesso, e é uma das mulheres mais bonitas e elegantes do mundo. Em qualquer outra situação em que houvesse um mínimo de honestidade jornalística, ela estaria em todas as capas de revista, sendo colocada em um pedestal como ícone fashion e modelo a ser seguido. Mas, durante quatro anos, Melania foi uma das chacotas favoritas da mídia, principalmente a feminina, recheada de mulheres feias rancorosas.

Mesmo com os resultados da eleição ainda sub judice, o bufão laranja e sua família provavelmente sairão da Casa Branca em janeiro de 2021. Mas e aí? O que será notícia nos veículos de imprensa dos Estados Unidos sem um bufão, sem um “novo Hiltler” para chamar de seu? Sem um caos para ser reportado ou criado? Ou uma crise econômica para ser incentivada? Quem será o culpado dos sentimentos jornalísticos destroçados por serem chamados de fake news?

Uma das eleições presidenciais mais importantes dos últimos tempos ainda não foi oficialmente concluída, os Estados ainda não enviaram suas certificações e o processo legal só será encerrado em 14 de dezembro, quando os delegados se encontrarão no Colégio Eleitoral para oficializar quem venceu a disputa. Mas, desde 4 de novembro, um dia após as eleições, a grande imprensa já declarou Joe Biden o vencedor e vem entrevistando o democrata como “presidente eleito”.

Conhecido nos Estados Unidos como o rei das gafes – mesmo passando os últimos meses escondido em seu porão durante uma campanha -, Biden tem concedido entrevistas, no mínimo, peculiares. Além das matérias na imprensa sobre suas meias e seu cachorrinho de estimação, as perguntas direcionadas ao ex-vice de Barack Obama não são sobre políticas públicas ou sobre os possíveis laços financeiros da família Biden com empresas na Ucrânia e na China. Joe Biden é constantemente “bombardeado”, durante ho-ras, com perguntas sobre… Donald Trump.

Biden terá de arrumar estratégias para evitar um possível golpe para derrubá-lo dentro do próprio partido, tudo para que a agenda globalista seja empurrada a todo o vapor na América, e isso não será exposto pela grande mídia. As brigas e a divisão óbvia e irreversível entre os democratas também não serão noticiadas. Nesse tempo, será curioso observar a imprensa não parar de falar sobre Donald Trump depois de afirmar por quatro anos que teve o suficiente de Donald Trump.

Pouco podemos afirmar em um cenário político tão polarizado e dividido, mas, se existe algo claro como a luz do dia, é o fato de que Trump continuará sendo notícia. Algo saiu errado? Culpe a administração passada. A mídia não conseguirá ser a mídia que é sem correr atrás do último tuíte ou declaração do orange man bad. Eles não podem e não vão deixá-lo, seu único propósito é ser anti-Trump e eles não saberão o que fazer se não puderem se ofender com tudo o que ele diz. Jornalistas vão perambular pelos campos de golfe de Trump, vão acampar na frente de suas residências na Flórida e ainda ficarão indignados com seu jeito e seus tuítes. Watch.

E o que pode restar para Donald Trump com apenas dois meses no cargo de homem mais poderoso do mundo, depois de uma das mais importantes reformas tributárias da história, depois de nomear mais de 200 juízes federais e três juízes conservadores para a Suprema Corte (que nesta semana já julgaram inconstitucional as medidas do governador de Nova York de fechar igrejas e sinagogas durante a pandemia), que assinou três acordos de paz no Oriente Médio, que trouxe de volta para o Partido Republicano o voto de negros e latinos e da classe trabalhadora?

Trump poderia abrir as portas da “Área 51” e matar nossa curiosidade sobre os aliens, ou tirar o selo de sigiloso dos documentos sobre a morte de JFK. Ou, já que Trump não começou nenhuma guerra – fato inusitado para aquele que, segundo a imprensa, começaria a terceira guerra mundial -, poderia invadir Portland com a Guarda Nacional, cidade que arde em chamas e violência há meses sem que as autoridades mexam um dedo para cessar o caos. Ou, quem sabe, Trump poderia aplicar um derradeiro golpe no movimento Defund the Police e assinar um último pacote de estímulos às corporações policiais.

Se a imprensa, os democratas, os republicanos traidores, as centenas de pessoas que foram às ruas não para celebrar a vitória de Biden mas para gritar “Fora Trump” não gostavam do presidente Donald Trump, aguardem o ex-presidente Donald Trump. Se ver o Godzilla em ação foi divertido, ver o Godzilla em ação de férias será mais divertido ainda.

ANA PAULA HENKEL

O MAL DE ROUPA NOVA

Há algum tempo venho tentando apresentar por meio de análises e artigos, e direto da Califórnia, um dos maiores caldeirões progressistas dos Estados Unidos, o que grande parte da mídia no Brasil não cobre – e jamais explorará: a preocupante guinada radical para a extrema esquerda do Partido Democrata. E, para entender o motivo de muitos se referirem à última eleição como uma das mais importantes da História, é preciso perceber o que está em jogo além de políticas públicas propostas por democratas ou por republicanos.

A Declaração de Independência e a Constituição Americana, enxuta com suas 27 emendas, não mostram apenas a solidez dos documentos mais importantes da nação mais próspera do mundo. Quando alguns bravos homens das treze colônias britânicas na América do Norte se encontraram no Segundo Congresso Continental e decidiram se unir contra a Coroa britânica, nem tudo foi suave como muitos imaginam. Eram treze colônias independentes, houve muito debate, elas brigaram muito e levantaram muitas questões, mas decidiram colocar seus nomes em um histórico pergaminho que não apenas declarava a independência da Grã-Bretanha mas poderia significar a sentença de morte de cada uma delas.

Todos estavam cientes dos tempos difíceis que adviriam, mas também era muito claro o que se defendia: independência, liberdade, representatividade no governo, republicanismo. Apesar de serem homens de colônias independentes, eles baseavam suas crenças no brilhantismo ocidental calcado nos valores judaico-cristãos, na força dos indivíduos, nos direitos naturais. Aqueles homens tiveram contemporâneos como Adam Smith e o grande Edmund Burke, com quem estavam completamente familiarizados e a quem fizeram referência em seus escritos e legado.

Aqueles homens, apesar de todas as diferenças entre eles, que não eram poucas, agarraram-se em torno do maior ponto em comum que os unia: o empenho em criar uma grande nação com o maior documento governante que a humanidade já conheceu. E eles foram bem-sucedidos. A Constituição Americana estabeleceu um governo beneficente limitado e protegeu a sociedade civil para nutrir a liberdade, a família e os direitos religiosos. Na Declaração de Direitos (Bill of Rights), também elaborada com empenho e profundidade durante anos, o ponto central, que se tornou o pilar mais sagrado para a nação, não poderia ser outro: a proteção ao indivíduo contra o governo central, a defesa da liberdade de expressão, de imprensa, de associação. E ainda: a garantia da liberdade religiosa, o direito do indivíduo de manter e portar armas contra os inimigos, sejam eles apenas indivíduos ou governamentais.

Os Pais Fundadores dos Estados Unidos ainda fizeram questão de deixar explícito na Magna Carta o devido processo legal, a necessidade de mandados com base em causa provável, julgamentos rápidos, cláusulas pétreas de proteção à propriedade privada e tudo o que é crucialmente importante para uma sociedade civil livre. Nenhum documento na face da Terra é como a Constituição Americana, baseada nas declarações de independência e nos direitos naturais inalienáveis.

O que assusta, a cada dia que passa, com a possível eleição da chapa democrata para comandar a nação mais livre do mundo, não é apenas a retórica de discursos politicamente corretos, globalistas e contra policiais, inflamados para satisfazer a sanha da turba barulhenta – e violenta – da ala mais radical do partido. O mais aterrorizante aparece quando você sai da superfície eleitoral e mergulha na plataforma oficial do partido.

Com parte do país hipnotizada durante quatro anos pela narrativa da mídia de que Donald Trump é o “novo Hitler” e que precisava ser removido a qualquer custo (Reagan, Bush, McCain, Romney… todos eles também foram “Hitler” um dia), forças nada republicanas podem estar em ascendência na sociedade norte-americana. Um mal fantasiado de bom-mocismo e caridoso, mas tão nocivo quanto em qualquer momento da História. Agora com roupagem nova, esse mal atende pelo nome de “Força-tarefa da Unidade Biden-Sanders” (Biden-Sanders Unity Task Force).

Em 110 páginas, o documento que une a ala que já foi moderada no Partido Democrata, representada por Joe Biden, à ala radical, dominante hoje na legenda e com o socialista Bernie Sanders como líder, expõe linhas de deixar os cabelos em pé. Em nenhum lugar há menção alguma à proteção da liberdade individual, ou a direitos sobre propriedade privada, ou a fé religiosa, ou mesmo à liberdade de expressão. O manifesto que celebra a união do novo Partido Democrata é um documento totalmente antagônico à Declaração de Independência, à Constituição Americana e aos valores que fundaram o país.

Não é novidade que já há algum tempo os democratas andam seguindo políticas que são impraticáveis e impossíveis. A maioria, no entanto, continua parecendo ótima no papel. E de onde eles estão tirando essas ideias? Com uma guinada tão radical para a extrema esquerda no espectro político, a semelhança entre a atual plataforma democrata e a Constituição de 1936 da União Soviética, adotada em dezembro daquele ano, chega a ser perturbadora. Mas o que diz a Constituição de Stalin? Vamos lá.

Capítulo X: Direitos e Deveres Fundamentais dos Cidadãos

ARTIGO 118. Os cidadãos da URSS têm direito ao trabalho, ou seja, têm garantido o direito ao emprego e ao pagamento do seu trabalho de acordo com a sua quantidade e qualidade.

O direito ao trabalho é garantido pela organização socialista da economia nacional, pelo crescimento constante das forças produtivas da sociedade soviética, pela eliminação da possibilidade de crises econômicas e pela abolição do desemprego.

ARTIGO 119. Os cidadãos da URSS têm direito ao descanso e ao lazer.

O direito ao descanso e ao lazer é assegurado pela redução da jornada de trabalho para sete horas para a esmagadora maioria dos trabalhadores, pela instituição de férias anuais com remuneração integral para trabalhadores e empregados e pela disponibilização de ampla rede de sanatórios, casas de repouso e clubes de alojamento dos trabalhadores.

ARTIGO 121. Os cidadãos da URSS têm direito à educação.

Esse direito é assegurado pelo ensino fundamental obrigatório universal; pela educação, inclusive superior, sendo gratuita; pelo sistema de estipêndios estatais para a esmagadora maioria dos alunos nas universidades e faculdades; pela instrução nas escolas, ministrada na língua materna, e pela organização nas fábricas, fazendas estatais, estações de máquinas e tratores e fazendas coletivas de formação profissional, técnica e agronômica gratuita para os trabalhadores.

ARTIGO 122. As mulheres na URSS têm direitos iguais aos dos homens em todas as esferas da vida econômica, estatal, cultural, social e política.

A possibilidade de exercer esses direitos é assegurada às mulheres pela outorga de direitos iguais aos do homem ao trabalho, remuneração pelo trabalho, descanso e lazer, seguro social e educação, e pela proteção estatal dos interesses da mãe e da criança, pré-maternidade e licença-maternidade com vencimento integral e oferta de ampla rede de lares de maternidade, creches e jardins de infância.

Poderia parecer apenas o discurso de Kamala Harris, Elizabeth Warren ou do socialista Bernie Sanders, todos lhe pregando um sermão para que não se preocupe pois o Estado vai cuidar de você, de sua vida e, obviamente, de suas escolhas, caso não saiba escolher “o correto”.

Mas não acredite em mim. Mergulhe nas páginas do manifesto do Partido Democrata e leia:

Os democratas se comprometem a firmar um novo contrato social e econômico com o Povo americano – um contrato que investe nas pessoas e promove a prosperidade compartilhada, não um que beneficie apenas as grandes corporações e as poucas mais ricas. Um novo contrato que reconhece que todos os americanos têm direito a cuidados de saúde de qualidade. Um contrato que afirme que moradia é um direito e não um privilégio, e que assuma o compromisso de que ninguém ficará sem teto ou passará fome no país mais rico da Terra. Um novo contrato econômico que aumente os salários e restaure os direitos dos trabalhadores para organizar, aderir a um sindicato e negociar coletivamente. Um contrato que finalmente sustente famílias trabalhadoras e a classe média, garantindo salários iguais para as mulheres, férias familiares pagas para todos e o capital próprio.

Faço o convite para que todos leiam esse texto. A quantidade de medidas que poderão ser implementadas por meio de “ordens executivas”, de acordo com o documento do partido, é assustadora e ao mesmo tempo inacreditável para qualquer nação que tenha um Congresso responsável pela atividade legislativa. E o que dizer da nação que tem em suas bases o federalismo, com ampla autonomia e independência dos Estados?

As medidas que seriam resolvidas na caneta democrata são preocupantes: descriminalização da maconha em todo o país, corte de recursos para corporações policiais, aumento de poder e investimento federal em sindicatos – enaltecendo as decisões coletivas, e não as individuais – e revogação da espetacular reforma tributária da administração de Donald Trump, que por meio das Oportunity Zones trouxe enormes benefícios e pleno emprego a mais de 8 mil comunidades negras pelo país. Em um trecho do manifesto, o partido afirma “que os democratas continuam a apoiar a abolição da pena de morte”, mas, na plataforma oficial, assinala comprometimento com recursos federais para as clínicas de aborto em todo o país (verba cortada por Donald Trump), sob a cantilena de “cuidados com a saúde das mulheres”.

Sobre a pandemia, o documento afirma que Donald Trump é responsável pela morte de dezenas de milhares de norte-americanos e pela atual recessão econômica. O bizarro “contrato com os EUA” (parece familiar?) promete uma série de aumentos de salários, benefícios estendidos a todos, como educação gratuita desde o jardim de infância até a universidade, perdão das dívidas universitárias de milhões de pessoas, extensão para licenças-maternidade e paternidade remuneradas – tudo isso sem aumentar impostos da classe média. A conta não fecha. A cereja desse bolo de Halloween? Criar algumas empresas estatais que, segundo os ungidos democratas, trarão enormes benefícios à sociedade norte-americana. Eu conto, ou vocês contam?

Não acabou, não. O ex-partido de John F. Kennedy, que deve estar se revirando no túmulo com o sequestro de sua agremiação pelo Psol ianque, não apoia apenas a criação de mais sindicatos, mas firma compromisso com a obrigação de um minimum wage de US$ 15 por hora para todo o país. O utópico roteiro tragicômico de 110 páginas ainda inclui como as boas almas democratas deixarão o país mais verde e feliz – e sem aumentar um centavo de impostos da classe média: “Democratas vão lançar uma revolução por meio de investimentos históricos em energia limpa, transporte limpo, eficiência energética e fábricas limpas e avançadas. Vamos consertar todas as nossas rodovias, estradas, pontes, portos e aeroportos e lançar a segunda revolução ferroviária no país, investindo em ferrovias de alta velocidade”. Alô, Dilma, é você? Discurso tão bonito que até escorreu uma lágrima aqui.

Eu poderia me estender em mais uma hora de resenha só acerca do manual direto do inferno dos democratas que prega um Estado maior, mais centralizado e mais poderoso, e com menos liberdades individuais – ou seja, tudo o que sempre pregou o marxismo de roupa nova, cabelo cortado e sapato de marca.

A América, o pilar mais sólido na defesa inviolável da liberdade no Ocidente e no mundo, pode estar a um passo de uma perigosa mudança, aquela que vem de dentro para fora. A prosperidade que os desmiolados democratas pregam nesse funesto manifesto não é apenas irreal e inatingível, é perigosa para os norte-americanos e para o resto do mundo.

Embora figuras como Thomas Jefferson e George Washington possam vir mais facilmente à mente quando pensamos no período revolucionário e na fundação da América, o principal defensor da causa da independência foi verdadeiramente John Adams. Ninguém fez mais discursos vigorosos pela liberdade do que o admirável e dedicado advogado de Boston. Por causa disso, ele foi o líder de um comitê de cinco notáveis que redigiram a Declaração de Independência. Adams tornou-se o defensor mais ardente desse documento e de seus princípios.

Em um de seus memoráveis discursos, aquele que veio a se tornar o quinto presidente dos EUA disse: “A tirania dificilmente pode ser praticada em um povo virtuoso e sábio”. Rezo para que as palavras de homens tão fundamentais para a América como John Adams, agora mais do que nunca, sejam redescobertas no inconsciente da nação, e que o povo norte-americano entenda que a América é a nação mais próspera porque é a mais livre. E não o contrário.