A PALAVRA DO EDITOR

E duro, eu dizia.

Dunas e mais dunas, areia por todo lado, camelos que perambulam aspirando o deserto de idéias, beduínos com a cara do Omar Shariff vestidos dos pés à cabeça neste calor tórrido, eu, de sunga e havaianas, perscrutrando, perscrustando, prescutando ou sei lá o que à procura de alga, digo, água, estou ficando confuso pela insolação, quando vejo, enfim, um oásis.

Certamente é miragem. Corro e pulo sobre a água, esperando rolar sobre a areia da imagem imaginária, mas caio de barriga no precioso líquido azul que me mata a sede.

Isso não interessa tanto, quero o wi-fi. Quede o wi-fi? Berro.

Um beduíno me responde deixa de ser doido, tás vendo alguma torre? Não queremos torres aqui, não me torres com o fim do acento diferencial que não faz falta alguma, assim como as torres.

Oquei, respondo, e desmaio.

Acordo com uma senhora da caravana rezando sobre mim.

Pergunto do Brasil, ela me diz que ninguém sabe nada e que estão todos preocupados com Bolsonaro, digo, ela diz, com a a estabilidade mental dele.

Ela me diz que votou nele e que continua tendo muitas esperanças. Como eu, ela quer notícias, das quais há dias estamos privados e que só teremos quando vencermos dunas e mais dunas de areia interminável.

Ela põe a mão no coração e me diz:

– Rezei tanto! Rezei muitas vezes e rezei mais quando Lula foi nomeado para ser ministro de alguma coisa, acho que da Casa Civil, ia ser um desastre, mas minhas orações foram ouvidas.

Finjo de morto, para não ouvir mais, mas ela continua.

– Oramos juntos, um grupo consciente, para que o Brasil não virasse uma nova Venezuela. E tenho certeza de que nossas preces fizeram a diferença. Eu não consigo compreender uma coisa: nós temos muitos amigos de grande cultura, juízes, advogados, jornalistas, que deveriam saber das coisas, são pessoas consideradas inteligentes, mas… como podem querer isso para o nosso Brasil?!

Olho para os lados, só areia, não tenho para onde fugir. Talvez pudesse pelo menos comê-la, mas tornou-se inviável qualquer possibilidade de tesão .

Enchi o cantil de água. De cantil e saco cheios continuei minha jornada seguindo a caravana, enquanto cães ladravam, ladravam e ladravam porcarias, uivando pela liberação geral das armas e pelo isolamento dos viados em um lugar inacessível da floresta amazônica, menos os amigos do presidente, que seriam não só poupados como nomeados para algum ministério de pouca importância.

A esperança de encontrar uma torre me dá forças e sigo em frente.

Notícias! Notícias! Lula está solto?

O governo caiu?

Tão cedo não saberei e essa ignorância me mantém firme.

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