ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Meus amigos estão carecas de saber que sou Engenheiro Industrial Mecânico, pela vetusta Escola Politécnica, da Praça do Clube Internacional do Recife, turma de 1979. Por esta razão, desde adolescente até recentemente, foi na área industrial onde ganhei o pão e consegui sustentar e criar meus três filhos.

Nas funções que desempenhei, sempre senti uma pungente necessidade por conhecimentos na área das Ciências “Sociais”. Coisas como Planejamento Estratégico, Administração de R.H., Legislação Trabalhista, Relações Humanas, Planejamento e Gestão Financeira, Logística, Dinâmica de Grupos, Gestão de Mudanças, Legislação Tributária, Relações Internacionais, e mais toda uma miríade de outras competências e conhecimentos que não me haviam sido ensinados ou cobrados na velha escola de engenharia. Afinal, como diz o próprio nome, aquela era uma escola de ENGENHARIA.

Este eterno sentimento de ignorância me levou a fazer uma fieira de cursos de pós-graduação, todos voltados para as Ciências Sociais, razão pela qual me considero, hoje, muito mais um aprendiz de humanista que engenheiro. Apesar de que, o raciocínio cartesiano e matemático, aprendido na velha escola de engenharia, continua presente e fortíssimo na minha personalidade

De todos os cursos feitos, um dos que mais marcou meu modo de raciocinar foi um MBA conduzido pelo Coordenador de Pós-Graduação da Universidade de Colúmbia, em Nova York: Peter Kolezar. Este curso foi realizado no ano de 1989. Dentre os assuntos lá aprendidos, a cereja do bolo foi a escola de psicologia conhecida por aqui como “Behaviorismo” (ou behaviourismo, segundo a grafia inglesa).

É o seguinte: O Dr, Freud, ao tentar decifrar os mecanismos pelos quais funciona nossa mente, desenvolveu uma tríade de elementos componentes que nunca antes haviam sido detalhados. Ele os denominou: ID, EGO e SUPEREGO. Tentou, com isso, explicar uma série de comportamentos humanos e males psicológicos.
Não vou entrar em detalhes sobre as teorias freudianas, mas, o que interessa mesmo, para esta minha tosca explanação, é o fato de que os psicólogos dos Estados Unidos, com aquela tendência que lhes é inata ao pragmatismo, objetividade e praticidade, sentiram-se muito mais inclinados a desenvolver as ideias de um famoso experimentador russo chamado Pavlov.

A ideia desse russo era considerar a mente humana como sendo uma grande “Caixa Preta”, em que o que menos interessava ao pesquisador era o que haveria lá dentro, ou mesmo como se processavam as informações por ela recebidas. O mais importante seria, apenas e tão somente, a relação existente entre os estímulos recebidos e as respostas comportamentais geradas a partir desses estímulos. Deste raciocínio, originou-se a célebre experiência de badalar um sino sempre que fosse alimentar os cães. Após algum tempo, bastava badalar o sino e os cachorros passavam a salivar abundantemente, num comportamento que o pesquisador denominou de “Reflexos Condicionados”.

O principal continuador das suas ideias foi um judeu alemão migrado para os Estados Unidos antes da 2ª Grande Guerra: Kurt Lewin. Suas grandes contribuições para a psicologia, dentre inúmeras outras, foram a “Teoria Dinâmica da Personalidade” e a “Teoria do Campo de Forças”. A partir dessas ideias, B.F. Skinner, professor na Universidade Harvard de 1958 até sua aposentadoria, em 1974, aprofundou tanto este raciocínio que passou a considerar o livre arbítrio uma simples ilusão. Considerava a ação humana como sendo sempre dependente das conseqüências de ações anteriores. Esta tornou-se a base de seu projeto educacional.

Conforme escrevi em minha crônica de 09 de março do ano passado, Kurt Lewin , com sua Teoria Dinâmica da Personalidade, considerava que o ser humano, já ao nascer e seja por que motivo for (herança genética, reencarnação, composição aleatória, circunstâncias do período gestacional, etc.), parece já vir com traços básicos bem definidos e específicos em cada ser humano. Por que é assim? Ninguém sabe!

Quem, como eu, tem mais de um filho, sabe bem que as personalidades parecem já sair formadas da barriga da mãe. Cada um deles apresenta características altamente específicas e que os diferenciam uns dos outros de forma quase que absoluta. A partir deste arcabouço básico, as vivências e convivências vão moldando as características. Primeiro, as lições recebidas junto com o leite materno vão inculcando na mente da criança, tal qual numa folha em branco, os valores básicos que irão guiar seu comportamento durante toda a vida. Depois, já na escola e no convívio com amigos e parentes, vão sendo-lhe agregados princípios de comportamento. Por fim, ao estudar o mundo que o rodeia e ao processar uma multitude de informações recebidas, vão sendo formadas as opiniões que, a depender da forma como se estabelecem, são embasadas em fatos mais ou menos mutáveis. Por fim, as opiniões que, por serem de menor importância para o indivíduo, e por terem sido menos ponderadas, fariam parte de um conjunto de meros palpites, mutáveis a depender de novas argumentações e fatos que vierem a ser conhecidos.

Devemos observar que, segundo este modelo de personalidade tipo “Pérola”, em camadas, os valores centrais seriam extremamente “duros” e difíceis de serem modificados. Já os demais aspectos da personalidade, à medida que se aproximam da superfície, seriam cada vez mais influenciados pelos contatos com o meio ambiente e flexíveis. Foi segundo esta visão que Homero, na Odisseia, fez Ulisses declarar “Sou o que sou e parte de tudo aquilo que encontrei”, ao ser questionado pela esposa a respeito da severidade de sua atitude ao matar todos os amigos que tinham lhe atraiçoado quando tentaram se casar com ela para ganhar o trono. De forma semelhante, Ortega y Gasset declara que “O homem é o que é e suas circunstâncias”.

Acrescentava ainda o mestre Lewin que a personalidade seria eterno “Campo de batalha” entre forças opostas, e que ele denominou “Reforços”. O resultado desta quebra de braço entre os reforços recebidos pela personalidade seria o comportamento resultante. Era, portanto, uma soma vetorial entre estes reforços, uns positivos e outros negativos. Não foi à toa que Willhelm Reich denominou a personalidade como sendo “A Armadura do Caráter”.

Aí, aparecem multidões de imbecis arrogantes se dizendo “EDUCADORES”, quando não passam, na realidade e com muita boa vontade, de meros instrutores ou treinadores. Princípios e valores, quem dá, são os pais! Junto com o ambiente em que a criança foi gestada e criada. É quando Skinner vem de lá e, de maneira totalmente “lacradora”, diz o seguinte: – Deem-me uma criança e consigo fazer dela qualquer coisa! Dizia ainda o mestre: – “Um ambiente físico e cultural diferente e melhor fará necessariamente um homem diferente e melhor” ou “Poderíamos solucionar muitos dos nossos problemas de delinquência e criminalidade, se pudéssemos mudar o meio em que foram criados os transgressores”.

Por tudo isso, concluo só existem DUAS maneiras de moldar comportamentos: 1-Agindo no campo de forças interno, cuja base são os princípios e valores inculcados na mente da criança junto com o carinho e desvelo dos pais. Estes sobrepujam qualquer influência posterior. 2-Agindo no campo externo, cujo grande moldador é o medo da reação da polícia, dos tribunais, e dos comparsas que nos cercam.

Nosso problema hoje: BRASIL NÃO DISPÕE DE NENHUM DOS DOIS FREIOS AO COMPORTAMENTO!

Primeiro: 2/3 das crianças nascem de mães solteiras, adolescentes e analfabetas, e são criados ao léu. Depois, a partir do momento em que o crime passou a ser considerado como consequência de pobreza, como afirma mestre Fernando Gonçalves, no item 13 do seu último artigo, dizendo que “A pobreza é mãe do crime”, todos os crimes passaram a ser justificados por uma difusa “Dívida Social”. Liberou geral para a criminalidade! O resultado está bem aí para quem quiser ver, especialmente quando os comunistas passaram a considerar os marginais como sendo os “Arautos do Paraíso Socialista”, já que a classe média só quer mesmo assistir ao Big Brother.

O Piauí, por exemplo, antes da chegada dessa visão de mundo, era o Estado menos desenvolvido economicamente da federação e, ao mesmo tempo, o que apresentava os menores índices de criminalidade. Era extremamente pobre, porem com uma população digna e decente. Agora, é pobre e com mentalidade de bandido. Virou petista!

6 pensou em “BEHAVIOURISMO

  1. Adônis, lendo seu instigante texto veio à minha memória, dos tempos em que era professor, a obra de Piaget: “O ser humano é um ser biopsicossocial”. Aceite o abraço do JCS

  2. Língua Ferina como sempre sem papas na língua. Gostei da conclusão: “continua pobre e com a mentalidade de bandido”. Quem é nordestino é só olhar de lado e vê que é verdadeiro.

  3. Prof. Adonis, ler suas cronicas, é um bálsamo neste mundo de idiotas, para um cabra de teve o amor de Afrodite (em outra encarnação), tudo é possível, inclusive o conhecimento do que é feio neste mundo atual, seu texto é didático, o ultimo parágrafo é esclarecedor: o Piaui, apesar da pobreza, era feliz e não sabia.

  4. Também sou Engenheiro da mais soft das engenharia a Agronomia e também dediquei tempo ao estudo das humanidades.
    Afora uma coisa e outra de muito pouca utilidade foi.
    Saudações!

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