CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Tinha tudo para ser um dia normal na Delegacia do município de Tuparetama (PE), grande polo de confecção de roupa de chita.

O delegado chegara ao Distrito Policial logo cedo com uma disposição e um bom humor de fazer inveja a Frank Drebin, personagem cinematográfico interpretado pelo ator Leslie Nielsen, no cômico filme policial “Corra que a Polícia Vem Aí”.

Deu bom dia ao seu auxiliar, aos dois policiais de plantão, aos auxiliares de serviços gerais terceirizados. Sentou-se à sua cadeira tradicional e continuou a leitura do livro que narra a história do município, editado por Tárcio Oliveira que descreve que, segundo a tradição oral, o povoado de Sertão do Pajeú, foi crescendo a partir da primeira residência construída na localidade, que também funcionava como ponto de comércio a retalhos e de parada para os viajantes a caminho de Afogados da Ingazeira e de São José do Egito. A data da construção da primeira casa é de 1910.

Dez minutos depois de ter iniciado a leitura do livro o delegado teve de interromper, pois recebeu a visita do escrivão aflito informando haver uma ruma de gente o aguardando na antessala para resolver uma cambulhada familiar.

Mal o escrivão terminara de contar o ocorrido ao Delegado, eis que de repente abre-se a porta e doze irmãos invadem o recinto para resolver o pandemônio instalado na família, cada um mais afoito do que o outro.

De imediato o delegado percebeu que estava diante de um caso escabroso: uma briga de feder a bote cheiroso entre irmãos por causa de herança. Ninguém queria ceder um palmo do seu latifundiário, como diria Neguinho de Maria Tabacão, vate do Pajeú, inspirado em João Cabral de Melo Neto, o poeta do rigor estético.

O Delegado, nesse momento, mandou que todos se sentassem no banco reservado aos queixosos e começou a perguntar um por um a razão de mais de dez irmãos estarem na delegacia para uma conversa com o delegado.

Quando o Chefe de Polícia terminou de perguntar o porquê daquela multidão estar na delegacia um se queixando do outro por causa de partilha de bens, ao invés de estarem trabalhando e cuidando de seus afazeres, os irmãos se acusavam mutuamente um ao outro de ladrão, cafajeste, dilapidador de patrimônio, cachaceiros, agiotas, gigolôs de viúvas, pegas veados, sapatonas enrustidas, coroas incrustadas. Ninguém se entendia.

Nesse momento o delegado, já acostumado com aquele tipo de situação e percebendo que a coisa ia chegar ao extremo se não interviesse nos ânimos exaltados e começasse a ouvir um irmão de cada vez, depois que eles saíssem dali poderia haver uma tragédia antes de chegarem a suas casas.

Começou o interrogatório pelos mais velhos. Cada um contando uma versão diferente para o caso. O buruçu era tão grande que o delegado começou a ficar impaciente com aquelas acusações mútuas entre irmãos sem pé nem cabeça.

Nesse momento, depois de ouvir uns seis irmãos e perceber que a briga entre eles era a herança e por isso mesmo ninguém se entendia, o delegado resolveu ouvir uma branquelazinha que ficou muda durante todo o bafafá. Se dirigindo à jovem e alertando aos outros irmãos que, se dessem um pio durante o interrogatório da irmã iria enjaular todo mundo na cela ao lado, e perguntou:

– Minha jovem, eu gostaria que você desse sua versão para o que está acontecendo com a sua família, o que está provocando essa desavença entre vocês que vieram parar aqui na delegacia.

Bufando de ódio e possessa, parecendo a personagem Regan MacNeil, magnificamente interpretada pela atriz mirim Linda Blair no extraordinário filme americano de terror THE EXORCIST (1973) (O Exorcista), do diretor William Friedkin, a jovem levanta-se da cadeira e começa a xingar os irmãos, dizendo aos gritos que não tem um que preste. Que são todos ladrões, veados, cachaceiros, preguiçosos, aproveitadores e que estão acabando com tudo que os pais deixaram. E que as irmãs eram putas, sapatonas, comedoras dos maridos das vizinhas. Por isso, queria uma intervenção do delegado para o caso antes que houvesse uma tragédia.

– Doutor – continuou ela se dirigindo ao delegado: toda essa mundiça que está aqui, a começar – e apontando o dedo na direção de um irmão branquelo mais velho e barbudo – por aquele cabra safado que está ali sentado, todos são pilantras, ladrões, safados, trambiqueiros, agiotas. São tão nojentos e imundos que, se o senhor cochilar, eles são capazes de até comerem o senhor e o senhor não sentir que foi comido!

Foi nesse momento que o delegado, percebendo que a coisa não ia acabar bem e escondendo os lábios para não rir da afirmação da jovem, deu um murro na mesa que todos os objetos que estavam em cima dela caíram, e olhando olho no olho de cada um por um, vociferou:

– É o seguinte: todos que estão aqui, antes de saírem, vão ter de assinar um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta, se comprometendo com o que vai ficar escrito. Se amanhã algum de vocês chegar aqui na Delegacia dizendo que um rompeu com o que ficou acordado aqui, vou mandar prender naquele cubículo – e apontando para a cela – e cada um vai ter de limpar os banheiros da penitenciária da cidade um dia por semana para aprender a ser gente! Estão ouvindo, não é? Depois não digam que eu não avisei!

Nesse momento o delegado chamou o escrivão e mandou preparar o Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta e, enquanto o escrivão datilografava, percebeu que havia um silêncio tumular entre os irmãos que chegaram à Delegacia parecendo uns bestas- feras querendo engolir um ao outro.

O exemplo do delegado de ser duro com os brigões surtiu efeito. Isso mostra que quem tem cu tem medo. Não adianta ficar só na ameaça, na conserva mole para boi dormir, no blábláblá. Autoridade tem de ser autoridade, tem de dar o exemplo, baixar o cacete quando preciso for. A Justiça ficou foi para impor ordem e não ficar brincando de jogo de esconde-esconde feito marica, uma cachorra viçando, com o cachimbo arreganhado para qualquer vira lata enfiar a vara!

5 pensou em “BARRACO NA DELEGACIA

  1. Que aula maravilhosa traz o seu texto, mestre Cícero.

    Certamente que a ética e a conduta são chanceladas pela civilidade e o civismo. Fazendo valer ,necessariamente, o devido respeito pelas leis para uma convivência sadia no seio de uma sociedade dita organizada.

    Há de se preservar o respeito pelas instituições e pela leis.

    Excelente!

  2. Caríssimo causídico Marcos M. Cavalcanti,

    Conheço o delegado que me passou essa história (não gosto da palavra estória). Estória não são fatos, e mesmo na ficção fatos romanceados são histórias.

    Ele não quis me narrar as manifestações da branquela se manifestando na hora da “ouvida” por ser provavelmente impróprias de serem contadas aqui no nosso JBF, que já tem Chupicleide e Polodoro avacalhando esse ambiente familiar.

    Ele me falou que, mesmo as partes tento assinados o Termo de Ajustamento de Conduta, continuaram numa briga eterna de acusações mútuas sem fim. E que tudo só veio ao fim quando as partes receberam seus quinhões hereditários, partilhados pela Justiça.

    Fraternais saudações, amigo!

  3. O grande cronista Cícero Tavares me faz gostar do Estado de Pernambuco, até mesmo com os nomes das cidades: Tuparetama, irradiando para Afogados da Ingazeira e São José do Egito e não muito distante de: Aguas Belas, Bom Conselho, Lagoa do Ouro, Belo Jardim, Brejo da Madre de Deus, Bodocó, Nazaré da Mata, Glória do Goitá e nomes complicados como Garanhuns, ou simples como Jupi, que era resquício de uma aldeia de índios, quando lá nasci em 1950.

  4. Brito, meu mestre das crônicas minibiográficas geniais, o mestre está muito jovem ainda.

    Vai viver e muito para publicar todas essas belíssimas minibiografias publicadas no JBF para revolucionarem a história dos personagens que foram esquecidos por muito tempo pela historiografia oficial.

    A Mulata que escreveu “Quarto de Despejo” é uma dessas gênias quase esquecidas que o nobre pesquisador resgatou.

  5. Texto excelente e hilário, querido cronista Cícero Tavares! Típico de antigas cidades do interior nordestino, onde fazendeiros ricos não respeitavam o Delegado de Polícia.

    Se a autoridade policial não tivesse reagido, mandando lavrar um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta, a ser assinado pelos 12 herdeiros, obrigando-os a encerrar a briga, e sob pena de ser recolhido a uma cela aquele que descumprisse o compromisso, a baixaria teria continuado….rsrs

    Um abraço!

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