CARLOS IVAN - ENQUANTO ISSO

Cada governo tem sua maneira particular de governar. Dificilmente, um governo dar prosseguimento nas ações deixadas pelo antecessor. A preferência é esquecer. Fazer de conta que não viu a obra herdada. É dessa forma que caminha a política brasileira. Cheia de altos e baixos. Abarrotada de erros e acertos. Mais desacertos, que prudência.

Na administração de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 a 2003, dois mandatos, o Brasil enfrentou novos desafios. A história marca que, além de batalhar pela estabilidade econômica, obrigação do cargo, FHC privatizou.

Copiou a iniciativa do governo anterior que primava pela globalização. FHC foi um perfeito privatizador de empresas públicas. Provou essa destreza, ao arrecadar com as vendas, 78,6 bilhões de reais para os cofres públicos.

Aconteceram acertos de FHC na privatização. A telefonia, na época super-atrasada, abriu as portas para a concorrência. Facilitou o acesso ao telefone fixo. Antes, para conseguir uma linha, a fila dobrava esquinas. Aprovou a comercialização do celular no país. A novidade começou pelo Rio de Janeiro e Salvador, em 1990.

Mas, também ocorreram fatos negativos nos mandatos de FHC. Coisa normal nos governos do país. A privatização do setor energético, mal planejada, trouxe os apagões. No comércio exterior, as exportações, sofreram desagradáveis consequências, fazendo o país perder divisas.

Realmente, Fernando Henrique Cardoso, embaralhou-se. Apanhou com os desequilíbrios fiscais, a dívida pública aumentou, o salário do trabalhador achatou, o serviço público e a infraestrutura, principalmente a de estradas e de aeroportos, foram sucateadas.

Em três anos, a dívida pública da União, estados, municípios e estatais disparou. Em 1997, pulou para R$ 306 bilhões. Um absurdo.

O que elevou a dívida pública foi a alta dos juros, a fuga de investidores estrangeiros e a pouca vergonha dos estados em permanecer contraindo novos empréstimos, pouco se importando com os juros em alta e a pouca arrecadação dos estados, fracos em desenvolvimento industrial.

Então, sentindo-se incapaz de encontrar saída para o problemão, FHC não teve dúvidas. Resolveu assumir as dívidas estaduais. Em troca, exigiu dos govenadores maior austeridade nos gastos.

No entanto, a desobediência de alguns estados acentuou os problemas. O endividamento dos estados duplicou, as receitas estacionaram.

Insatisfeito com a braba crise econômica que arruinava o país, FHC partiu para o saneamento financeiro. A intenção era, evitar o crescimento da dívida pública, aumentar a receita, cortar gastos e eliminar as empresas deficitárias.

A lógica para FHC era privatizar empresas do Estado, especialmente os bancos estaduais desequilibrados, viciados no redesconto.

Então, para facilitar as vendas de empresas estatais e bancos dos estados, criou o Conselho Nacional de Desestatização.

Segundo a história, Fernando Henrique Cardoso tomou uma medida certa. Diminuiu o tamanho do Estado na economia, na versão neoliberalista.

Superou as privatizações de governos anteriores. No rolo, foram incluídas grandes empresas: Vale do Rio Doce, Telebrás, Eletropaulo e a malha ferroviária, que permitiu extinguir a RFFSA.

Os 13 bancos estaduais problemáticos, também entraram no programa da privatização. Sem direito a contestação. A culpa, foi dos governadores que transformaram as instituições financeiras em jogo político. Na privatização, os bancos foram federalizados. Forçados a trocar os títulos que lastreavam suas carteiras, por títulos do Tesouro Nacional, transformado em dinheiro na hora.

Vendo uma saída imediata, o governo paulista, altamente endividado, não perdeu tempo. Renegociou a dívida, com a inclusão do Banespa e mais a Fepasa e a Ceagesp na transação.

Já as 180 prefeituras paulistas, e mais a da capital, São Paulo, optaram por parcelar a monstruosa dívida pelo prazo de 30 anos.

Para o governo FHC, a renegociação das dívidas foi uma sensata medida. Pelo menos, permitiu à União decretar severo ajuste fiscal nos estados e municípios e implantar mudanças, até então impossíveis, nas áreas fiscal, cambial e monetária.

A contradição da privatização, foi o Banespa. O Banco do Estado de São Paulo era um banco público de fomento. Atendia, prioritariamente, a lavoura paulista. Além disso, financiava a produção cinematográfica brasileira, na década de 50, colaborava no Plano de Ação do Governo de Juscelino Kubitschek ao conceder empréstimos para os programas de eletrificação, transporte público, viação aérea e ferrovias. Estruturalmente, forte, o Banespa fomentava o progresso brasileiro.

Na década seguinte, deu suporte financeiro à agricultura, à indústria e ao comércio nacional, além de prestar ajuda às obras públicas de caráter social.

A contragosto, o estado de São Paulo vendeu o lucrativo Banespa por R$ 7 bilhões. Valor criticado por especialistas. A crítica tinha motivos. O preço de venda foi superbaixo. Representa na verdade uma venda feita a “preço de banana”. O ágio de 281%, acabou transformado em crédito tributário, permitindo ao Santander abater o montante nos balanços. Enfim, o estado de São Paulo renunciou a valiosos lucros nesses vinte anos do desaparecimento do Banespa. Quem aprovou a medida, errou feio.

Por isso, embora consolidada legalmente, a privatização do maior banco estadual do país, ainda repercute. O dia 20 de novembro de 2000 foi desastroso. Foi dia de choros, decepções, sentimentos frustrantes e de medo para os banespianos transferidos para o Santander, automaticamente. Eles temiam o desemprego, receosos de não chegar à aposentadoria. Condição sacramentada na esfera Banespa, salvo exceções.

Com a privatização do Banespa, aconteceram fechamento de agências, demissões e retirada de direitos trabalhistas de 32 mil ex-funcionários. Número que, por motivos diversos, ficou reduzido para apenas 8.062 pessoas, atualmente.

A perda de direitos trabalhistas motivou a tramitação de dois processos, ainda pendentes, que correm há duas décadas na lenta Justiça. A longa demora para a sentença é causada pela vagarosidade judicial e pela avalanche de recursos, impetrados pelo Santander, com efeitos puramente postergatórios. Devido a falhas na legislação, o judiciário não rejeita um instrumento sequer para desespero dos participantes dos processos.

Mas uma lembrança da venda do Banespa não foi apagada. A chama de vitalidade da classe banespiana. Apesar de sofrer dissabores com a perda do padrão de vida, a flama permanece acesa, esperando a Justiça fazer justiça para a recuperação dos antigos e eternos direitos, garantidos até a morte, por regulamento de pessoal.

Afinal, foram quase seis anos de luta contra a decisão federal de privatizar o Banespa. Liminares voaram nos gabinetes da Justiça, primeiro contra a intervenção e depois com a federalização, até esbarrar no vergonhoso leilão da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

Sob todos os aspectos, a venda do Banespa acarretou prejuízos, sentimentais e financeiros. O estado de São Paulo perdeu R$ 5 bilhões. Os 32 mil ex-funcionários e os paulistas ficaram frustrados contra a inaceitável decisão do governo de FHC. Aliás, é difícil batalhar, quando a regra, previamente estabelecida, é simplesmente vender. Nem que seja por cima de pau e pedra.

Lamentável, o Banespa, o maior fomentador do crédito agrícola de São Paulo, desapareceu. É penoso aceitar de uma hora para outra, o fechamento de 577 agências e 785 postos de atendimento espalhados pelo Brasil para administrar 3 milhões de contas bancárias.

Contudo, o pior da história é a mídia e a equipe econômica de FHC, via BNDES, finalmente reconhecer que o Banespa não quebrou, em 1994, como foi estabelecido. O prejuízo era falso. Foi armação política para Mário Covas renegociar a dívida que o Estado tinha com o Banespa para pagamento em longas parcelas.

No entanto, consta que a causa do desarranjo financeiro de São Paulo, foi o governo de Fleury, atrasar o pagamento de uma parcela de R$ 30 milhões, por apenas 15 dias. O terrível atraso, gerou toda a confusão. De triste memória.

Com a certeza de que deveria tirar vantagem do esquecimento do governo de Fleury, a equipe econômica de FHC/BNDES não perdeu tempo. Decidiu cancelar o acordo de refinanciamento dos R$ 5 bilhões e lançar o montante no Balanço do Banespa, como prejuízo indiscutível.

Relata a mídia que a forjada quebra do Banespa foi derivada de atos de abusos financeiros, corrupção e dívidas feitas em duas governadorias.

Todavia, desfeita a arrumação, o Conselho Monetário Nacional autorizou o Banespa a publicar os balanços de 1995, 1996 e 1997, mostrando que houve lucros de verdade. E não fictícios prejuízos, como badalaram.

Num ponto, os paulistanos e os ex-funcionários podem se orgulhar. De fato, o grande e saudoso Banespa nunca quebrou. Muito pelo contrário. Foi um banco lucrativo nos negócios e eficiente fomentador do desenvolvimento, apesar da interesseira política. Pelo menos, enquanto existiu, o Banespa mandou brasa. Obteve positivos reconhecimentos públicos. Ah, saudades da seriedade. Ah repúdio ao trapalhão embaraço político brasileiro.

14 pensou em “BANESPA

    • Caro Cristóvão Garcia Neto, é, infelizmente é a nossa sina. Esperar pela demorada justiça. Haja paciência. São vinte anos de total desconforto. .

      • jose milton de andrade marques

        CARLOS IVAN PARABÉNS PELOS COMENTÁRIOS, MAS ESQUECE DE DIZER DE NOSSOS PROBLEMAS, QUE SÃO APESAR DE SERMOS IDOSOS, MUITOS COM DOENÇAS GRAVES ETMSO DOIS PROCESSOS GANHOS EM TODAS INSTÂNCIAS DAS JUSTIÇAS, MAS QUE COM MAIS DE 20 ANOS CADA UM NÃO CHEGAM AOS FINALMENTE , O MAIS VELHO QUE É DE GRATIFICAÇÕES QUE ATÉ DIZ RESPEITO AOS BALANÇOS DE SEU COMENTÁRIO É O DE Nº 00424001319985020036, QUE TRAMITOU POR TOAS INSTÃNCIAS DA JUSTIÇA TRABALHISTA E FOI ATE O STF ONDE O ARE 675945 CHEGOU TRANSITAR JULGADO COM ACÓRDÃO A FAVOR DOS FUNCIONÁRIOS IDOSOS E APOSENTADOS, PORÉM O BANCO ENTROU COM RECURSO NO TST E ABSURDAMENTE FOI DADA LIMINAR E VOLTOU AO STF QUE DEVOLVEU AO TST, QUE PEDIU DESCULPAS, MAS NÃO LIBERA O PROCESSO PARA SER EXECUTADO PELA 36 VARA DO TRT 02 EM SP, ONDE FOI AUTORIZADO A TRAMITAÇÃO, MAS DEVERÁ AGUARDAR O PROCEDIMENTO QUE DESDE SETEMBRO DE 2019, ESTAVA AGUARDANDO PAUTA QUE FOI AGENDADA PARA 31 DE MAIO DE 2020, E NO DIA FOI RETIRADO DE PAUTA E ATÉ O PRESENTE MOMENTO AINDA NÃO RETORNARAM PARA PAUTA DE JULGAMENTO SERÁ QUE AGORA COM O RETORNO DAS FÉRIAS DOS MINISTROS SERÁ PAUTADO, OU HAVERÁ MAIS DESCULPAS PARA NÃO COLOCAREM EM PAUTA, É UMA VERGONHA. DESRESPEITANDO A LEI DOS IDOSOS, QUE DIZEM QUE TEMOS DIREITOS E DEVERIA TER UMA TRAMITAÇÃO PREFERENCIAL, MAS SERÁ QUE O PODER DO BANCO PREVALECE???
        O OUTRO ESTA NO TRF 03 SP DESDE 2002 O Nº É 00113035420024036100 TRAMITA E TAMBÉM FOI AOS TRIBUNAIS SUPERIORES RETORNOU E JÁ FORAM DADAS VÁRIAS SENTENÇAS DE PRIMEIRA INSTÂNCIAS E O BANCO ATÉ HOJE NÃO RESPEITOU NENHUMA E TAMBÉM NADA ACONTECEU COM O PODER ECONÔMICO (BANCO) .TAMBÉM FOI AGENDADA PAUTA DE JULGAMENTO PARA O DIA 11 DE MAIO DO CORRENTE ANO 2020, MAS TAMBÉM NO MOMENTO FOI RETIRADO DE PAUTA E AGORA ESTÃO ACABAR A PANDEMIA PARA MARCAR OUTRA DATA E SE NÃO TERMINAR ADITA CUJA , COMO VAMOS FICAR??? A JUSTIÇA TEM QUE DETERMINAR A PAUTA E QUEM NÃO COMPARECER ARCARA COM AS CONSEQUÊNCIAS, OU SERÁ QUE O PODER ECONÔMICO TEM MAIS DIREITOS, QUE OS IDOSOS E NÃO FALARAM NADA PARA NÓS IDOSOS, E NEM APRESENTARAM A LEI QUE OS PROTEGE,. QUEM SOUBER FAVOR DE NOS AVISAR OU ENTÃO PUBLIQUE A MESMA PARA QUE TODO POVO BRASILEIRO VENHA A TER CONHECIMENTO.
        QUEM SABE A IMPRENSA AGORA A PAR DISSO PODERÁ NOS ESCLARECER OU DIVULGAR.

        • Caro José Milton, desculpe, mas o Guerra deu o palpite para falar obre a privatização, No entanto. vamos dar um tempinho e breve vou tocar neste palpitante assunto. É que não tinha dados para falar dos processos. Mas, agora vc repassou e vou guardar pra uma nova ocasião. Aliás, caso vc deseje explorar o tema, pode fazer um texto que consigo publicação. Vc. além da competência jurídica, é da área e estar a par de tudo. . Obrigado pelo elogio sobre a matéria .

          • Calos Ivan, Boa Tarde: Receba meus parabéns pela inserção da nossa história e do Banespa no Jornal da Besta Fubana, o mais escroto da internet. Repassei para mais de 200 banespianos da gema. Na próxima divulgação, cita os dados processuais do José Milton. Abs.
            Oscar Machado Filho

            • Meu Caro Oscar Machado Filho muito grato por pronta colaboração sobre o meu artigo enfatizando a privatização do Banespa, inclusive pela distribuição a 200 colegas de sua lista de banespianos da gema. Fico muito grato. Afinal, o velho, forte e saudoso .Banespa merece toda a nossa atenção. .

  1. O banco Espanhol SANTANDER pagou sete bilhões e 50 milhões pelo EXTINTO BANESPA. A mídia “COMPROMETIDA” fez estardalhaço informando que OS ESPANHÓIS pagaram 281% DE ÁGIO. Não foi nada disso, isso porque o BANESPA, depois de saneado, uma vez que as estatais paulistas deviam mais de 24 bilhões, o BANESPA ficou “ENXUTINHO”. E a revista EXAME no ano 2000, publicou o ranking dos bancos na parte de “ATIVOS FINANCEIROS”; e o BANESPA tinha VINTE E OITO BILHÕES de reais, isto é, QUATRO VEZES mais do que os sete bilhões que espanhóis pagaram. Foi um VERDADEIRO “NEGÓCIO DA CHINA” a venda do BANESPA, ou melhor, Fernando Henrique “CARIDOSO” deu o BANESPA de presente aos ESPANHÓIS!

  2. O brasileiro não tem uma boa memória. O que fizeram com o nosso Banespa não é nada diferente do projeto que Paulo Guedes está arquitetando, vender BB, Casa da Moeda e por aí vai. Raul Seixas cantava que a solução era “alugar” o Brasil, mas este maldito governo quer é vender mesmo. “Ora pro nóbis”.

  3. Parabens , Gostaria de colocar as minhas verdadeiras intenções, mas, não basta escrever, seria necessário reaver o Banespa.

Deixe uma resposta