J.R. GUZZO

Joseph Biden e todas as forças políticas, econômicas e sociais que o apoiaram nas eleições presidenciais norte-americanas representam, acima de qualquer outra coisa, o retrocesso. É curioso que seja assim, pois em condições normais de temperatura e pressão o candidato de oposição ao governo é o mocinho que está lutando pela mudança, contra o bandido que quer deixar tudo do jeito que está. Mas nos Estados Unidos de hoje nada apresenta condições normais de temperatura e pressão. O resultado é que Biden, o Partido Democrata e quase tudo o que existe em volta deles significam o mais decidido avanço em direção ao passado que a sociedade norte-americana já fez nos últimos 50 anos – ou sabe-se lá quantos.

O candidato de oposição a Donald Trump, logo de cara, antes e acima de qualquer outra coisa, é o símbolo por excelência do sistema eleitoral em que os Estados Unidos se encontram hoje – ou em que acabaram caindo, no imutável esforço de tantos políticos de remar sempre contra o progresso e a favor da piora. Essas eleições em que se vota de todas as maneiras, mas em que o resultado é um ectoplasma que vai tomando forma de acordo com a vontade das 50 máquinas de apuração diferentes que operam em cada Estado norte-americano, não foram um momento heroico de transformação, nem uma nova lição de democracia para o resto do planeta. Foram uma piada mundial – a primeira vez, possivelmente, em que os Estados Unidos se viram comparados com alguma Banana Republic da América Central ou com uma ditadura de grotão africano, onde a discussão não é quem ganhou, mas quem roubou a eleição.

É difícil querer alguma coisa diferente num sistema em que a votação não tem hora certa para começar, nem para acabar, em que vale voto pelo correio, por e-mail e de gente que já morreu (até candidato morto acabou sendo eleito para o Congresso), ou em que a apuração leva dias inteiros para terminar. Aqui no Brasil, país de “governo fascista”, que massacra índios, negros e girafas, e que deixa as almas democráticas norte-americanas em estado permanente de pavor, o resultado sai poucas horas depois de encerrada a votação. Podemos eleger políticos piores que os deles – embora haja controvérsias a respeito. Mas sem dúvida elegemos mais depressa.

Biden é o retrato e a consequência desse sistema – e, no momento, exerce o papel de depositário fiel da reação do Partido Democrata, da máquina intelectual e daquilo que nos Estados Unidos se chama de “liberais” contra a transformação do país. É isso: quem muda, nos Estados Unidos de hoje, é Donald Trump, que a sabedoria dos cientistas políticos considera conservador, ou de “extrema direita”; quem exerce a função de reacionário é Biden, mais os grupos que estão com ele. Sua resistência (ou impaciência, ou irritação, ou franca hostilidade) não é apenas em relação aos valores tradicionais da sociedade norte-americana, ou, pensando um pouco melhor, de qualquer sociedade livre – família, trabalho, patriotismo, religião, direito à propriedade, direito a ganhar dinheiro, livre escolha, mérito individual, igualdade de oportunidades, mas não de resultados, e por aí afora. A resistência, na verdade, é contra o novo. É a crença de que a principal necessidade dos Estados Unidos de hoje é uma dose maciça de monotonia na vida pública do país.

Mais do que uma crença, trata-se do grande objeto de desejo do velho sistema político, da classe social em que a mídia de hoje se transformou e do celebrity set de quase sempre. O que as elites culturais e políticas querem, acima de tudo, é que Biden torne a política norte-americana aborrecida outra vez. Esperam que ele traga de volta para Washington e vizinhanças a calma, o silêncio, a normalidade e a ordem dos velhos tempos. “Mais especificamente”, escreve Brendan O’Neill, da revista inglesa Spiked, conta-se com Biden para “restaurar a ordem, a velha ordem, a ordem pré-Trump na qual a política era algo fundamentalmente chato, técnico, gerencial, coisa para as elites educadas e não para populistas ruidosos e os enxames de gente excitada que se junta a fim de ouvir o que dizem e bater palmas para eles”. (Gerencial? Lembra Dilma.)

Pois então: há método, e propósito, no anseio “liberal” pela chatice que vem junto com Biden. “Não se enganem”, diz O’Neill. “A celebração do tédio trazido por Biden representa um desejo elitista de drenar a fagulha popular e democrática da vida política, e devolver as questões públicas à clausura distante e burocrática na qual estavam fechadas antes da chegada de Trump.” Como observa O’Neill, o que esteve em jogo durante esse tempo todo nos Estados Unidos não foi uma eleição – foi uma restauração. “Biden não é um político”, diz ele. “É uma mascote. É uma bandeira. É, no fundo, uma figura simbólica, representando acima de tudo o anti-Trump, o antipopulismo.” Sua presença na Casa Branca vai, segundo espera o velho establishment, dar musculatura a seus esforços para rebalancear a política norte-americana – “para voltar, segundo um redator do Los Angeles Times, à expertise da era anterior a Trump.”

Que expertise teria sido essa? Nada que a população em geral pudesse identificar como positivo. Mas o que importam esses detalhes? O que vale não são as realidades – e sim, para os políticos que não querem largar o osso, o conforto de uma situação em que eles se metem no disfarce de especialistas em questões públicas e resolvem o que é bom para o povo norte-americano. Por algum motivo, o que é bom para todos é sempre bom para eles em primeiro lugar. “Virada” no Arizona do Leste, na Geórgia do Norte ou em Cochabamba? Biden e seus amigos estão pedindo que você não acredite neles. Então não acredite.

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