GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

Lá pelos mil novecentos e quarenta e três, Marcel Aymé escreveu um conto que tem sido considerado o precursor do realismo fantástico.

Trata-se de O Passa-Paredes, ambientado em Paris, que conta a história de um cabra safado que adquiriu a capacidade de atravessar estruturas sólidas e que, nessa condição, passou por dentro de portas, paredes e cofres-fortes, assaltou um banco e tornou-se figura central do noticiário jornalístico da época.

Não li o livro, ainda, me contaram que ele teve um probleminha e perdeu os poderes justamente no meio da passagem por uma parede, ficando preso ali, meio dentro, meio fora.

Talvez estivesse vindo ou indo de seus encontros amorosos, pois consta que as mulheres suspiravam por ele, por recebê-lo em seus aposentos pudicos da bèlle époque.

Pensei que isso fosse só lenda, quando, descendo as sinuosas ruas de Montmartre, encontro a parede onde o cara ficou atravessado!

Sim, lá está ele! Como tenho bom coração, achei que poderia tirá-lo de lá, segurei-lhe a mão e puxei, mas… nada! Ele está preso e bem preso à parede.

Abandonei-o lá, meio para dentro, meio para fora, penalizado com sua situação.

Alguns dias depois, recebi a notícia de que uma mulher desvendou o segredo dele, de passar por dentro das paredes – uma palavra especial, ou alguma poção poderosa? – e que sofreu o mesmo destino: ficou agarrada pelo meio.

As autoridades afirmam que ela também fez uns assaltos e que fugia pelo caminho inverso ao do passa-paredes anterior.

E concluíram que por algum motivo, aquela parede, aquela única parede onde os dois ficaram presos, tem a capacidade de desfazer o encanto.

Porém, diferentemente do Passa-Paredes original, essa mulher deixou escrita a fórmula para adquirir o poder de atravessar as paredes: estava em um papel preso debaixo do seu pé, que vi e retirei.

Dizia assim : L’amour traverse le mur.

É falar a frase e enfiar o pé na parede.

Experimentei, deu certo. Já atravessei várias em Paris.

Brasil, me aguarde!

Só espero não ficar também agarrado pelo meio dentro de uns tijolaços aí quando eu for ver o Lula.

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