MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Em Mato Grosso do Sul, perto de Corumbá, a empreiteira para a qual meu pai trabalhava chamava-se J. O. Machado Cia. Ltda., com sede em Bauru, SP, cuja razão social era derivada do nome de seu dono, o Engenheiro José Olinto Machado.

Cada 2 a 3 meses o sr. José Olinto viajava até as bandas de Corumbá para ver como estavam as obras da construção da estrada de ferro sob responsabilidade de sua empresa. Claro, quem vai à região do Pantanal mato-grossense não pode deixar de participar de uma caçada ou de uma pescaria. O sr. José Olinto não perdia uma única oportunidade dessas.

Numa dessas visitas ele, juntamente com alguns dos funcionários da empresa, reuniu seus apetrechos e foi pescar; os homens foram no final da tarde a um rio da região, ocasião em que se depararam com um magote de rãs em um brejo, imediatamente capturadas e colocadas dentro de um saco. Não é necessário dizer que o sr. José Olinto era fanático por pernas de rãs, e a ocasião de comê-las não podia passar em branco.

Os dotes culinários de minha madrasta, D. Joaninha Macedo Bezerra, eram merecedores da sua indicação ao Prêmio Nobel de Gastronomia se tal galardão existisse, e eram sobejamente conhecidos e louvados desde Kuala Lumpur, na Malásia, até Cururupu, no Maranhão, a ponto de o patrão sempre requisitar seus serviços cozinheirísticos (recompensados com boas retribuições financeiras) quando ia visitar as obras.

O único obstáculo para seu deleite gastronômico do dia seguinte era fazê-la cozinhar as pernas das rãs, já que minha madrasta sabidamente tinha horror e nojo a três tipos de animais: aranhas, sapos e políticos. Como consequência, qualquer bicho que se assemelhasse, mesmo de longe, a essas bestas era motivo de extensa repulsa por parte dela. E, cá pra nós, eu asseguro a vosmecê que nem mesmo a ameaça de o Alexandre de Morais mandar botar uma tornozeleira eletrônica nela poderia convencê-la de que rãs eram diferentes de sapos.

Foi então arquitetado um plano bem sacudido. Antes de chegar de volta da pescaria os homens matariam as rãs, as esfolariam e limpariam completamente, ficando apenas com as pernas das bichinhas. Com isso poderiam convencê-la de que eram pernas de aves já depenadas, limpas e sem os pés. E o plano foi adiante.

No próximo dia, mesmo ressabiada, D. Joaninha aceitou a explicação e preparou as pernas das rãs à milanesa como se fossem pernas de aves. Foi uma festa arretada para o patrão.

A tragédia pipocou no final do dia, quando uma vizinha cascavilheira abriu o bico e contou para ela que aquilo eram pernas de rãs.

Minha madrasta, furibunda e mais desvairada que a Joyce Hasselmann, juntou todas as panelas, pratos, guardanapos e talheres que haviam estado em contato com as pernas das rãs e jogou tudo no lixo; limpou o fogão, a mesa e o chão com creolina e lavou a toalha três vezes com água sanitária Q-boa!

No mesmo dia uma caminhonete veio da cidade com um lote novinho de utensílios para substituir todos os que foram jogados fora. O patrão pagou a conta. Êita rãs caras da moléstia!

5 pensou em “AS RÃS DO SR. JOSÉ OLINTO

  1. Mag, meu pai tinha horror a répteis e um vizinho nosso fez ele comer teju (não sei se você conhece com esse nome, mas é como um camaleão unicromatico). Trouxe um “pratinho” delicioso e ele comeu com se fosse galinha. Minha mãe, coitada, foi acusada de saber e não avisar. Ela não sabia…

    • Grande Maurício: lembro-me da minha meninice no Rio Grande do Norte e de dois animais: o teju (achava que era “teiju”) e da giboia, que era caçada para se lhe arrancar a pele e vendê-la para fazedores de cintos. Mas nunca comi nenhuma delas. Por outro lado, como sucuri em Mato Grosso (uma posta de sucuri parece de peixe branco) e fatias de cascavel no Arizona, como aperitivo (aliás, não gostei).
      Nada como se relembrar dos tempos idos.
      Um abraço, e tenha um bom final de semana.

  2. Mag Nífico,
    Minha irmã, ainda criança, viu um sapo ser cortado ao meio por um trem, lá em minha Desengano querida, gerando trauma jamais vencido e quase morreu em visita à China (minha irmã é professora e comunista ferrenha, com poster do Mao e tudo), quando serviram rã, escorpião e cobra em um restaurante típico do lugar…

    A coisa é tão grave, que quando começaram a chamar o “Nine” de Sapo Barbudo, ela “descurtiu” o PT e só vota no PCO ou PSol.

    Inclusive, se quiser ver ela soltar cobras,marimbondos e lagartos é só convidá-la para dia 7 ir à Paulista vestida em verde-amarelo.

    Já Sancho, dia 7 estará na Paulista, lá no MASP às 13:30 hs, como sempre…

    • Sancho, você é demais! Você não tem idéia de como curto suas tiradas!
      Provavelmente estaremos em Miami no domingo, onde haverá uma motociata em homenagem ao Mito (não temos moto, mas temos honra no peito).
      Um abraço,

      • Por aqui, nesta terras tupiniquins a gente vai lá e aluga uma moto para desfilar em verde-amarelo quando temos a tal motociata.

        Abração, manu véi. Diria que não somos DEMAIS, somos (eu e tu) na CONTINHA CERTA.

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