AS MAZELAS DE SEU JOAQUIM

Mi proguntaro ôto dia
Cumé qui tutais Juaquim?
Respondi sem arrilia
E foi mais ou meno assim,
Eu tô mei disleriado
Os mocotó tá inchado
Tô sintinno um farnizin
Pió qui pirão de sebo,
Andano iguarmente um bebo
Sem mi aprumá no camim.

Um gôgo me aperriano
Queu tusso pra mi lascá,
Um insporão me furano
Bem no mei do caicanhiá
Qui me dexa essa manquera,
Tomém sinto uma cocêra
Aqui nas parte da frente,
Vivo anssim nessa quizila
Num tenho a vida tronquila
Quiném tinha antigamente.

Sofro de dô incausada,
De ispinhela caída,
De junta descunjuntada,
Na canela uma firida
Qui vevi a martratá eu,
Já virô “sarou morreu”
Disso tô ciente e certo,
Arre cum quanta mazela!
Tô cum pigarro na guela,
Tomém cus’peitos aberto.

Tô tumano uma meizinha
Qui seu Mané fêis pra eu,
Cum titica de galinha,
Cidrêra, eiva-doce, breu,
Tem casca de quixabêra,
De pau-carrasco, aruêra,
Raspa de pau-angelim,
Jucá, jatobá, angico,
Catuaba, grão-de-bico,
Feijão-de-boi e gergelim.

Mé de abêia jataí,
Cravo do reino, pimenta,
Semente de calumbí,
Tem jurubeba, água benta,
Tem foia de maiva-rosa,
Inté baba de babosa
Ali Seu Mané butô!
Tumei cum todo coidado
Num rugime insagerado
E as mazela num passo.

Aí eu dixe tá rim
Pos tô cada veis pio,
Minha véia dixe assim
Acho quisso é catimbó,
Vai lá no congá de Lica
Que toda essa trumbica
Qui tu tem vai se acabá,
Sinti assim um receio
Mai sigui o seu cunceio
Fui direto pro Congá.

Dona Lica proguntô
Uqué qui voismicê tem?
Dixe: é as mão cum tremedô
Os pés tremeno tomem,
Disarranjo de institino,
Meu pescoço já tá fino
E o bucho incho e cresceu,
Nos uvido inscuito uns grilo,
Nem me alembro mai daquilo
Num sei o qui acunteceu!

Sinto um fastí disgamado
Uma sede da bixiga
Amarelo, dicorado,
Arroto-choco, lumbriga,
Vista curta dô de uvido,
Cum o coipo esmurecido
Sem corage sem alento!
Dona Lica, eu sofro tanto
Pois se dói conde eu levanto
Tomém dói conde eu me asscento.

Uma inxaqueca incremente
Um drifuço disgraçado,
Sarna, impimge, dô de dente,
Me acordo todo mijado
Qui inté pareço um minino,
Vivo nesse disatino
E já to pensano assim
Qui todo esse dirmantêlo
Qui parece um pasadêlo
É arte do coisa ruim.

E pru tê acumitido
Tanta praga, tanto azá
Já quaje disiludido
Resorvi lhe apercurá
Mim dixeor cá sinhora
Inspanta quaique caipora
Qui icomoda o sujeito
Minha mulé mi atiçô
Foi conde eu dixe, eu vô
Lá vê se incrontoo defeito.

Ela dixe insperaí
Queu vô vê se dô um jeito,
Pru favô se assente ali
Incaloque a mão no peito
E arripita o que digo,
Pra mode eu vê se eu cunsigo
Discubri o qui se passa
Nessa sua mente fraca,
Acho q’essa urucubaca
É um feitiço da disgraça,

Pegô rezá uns bendito
Cuns gai de arruda bateno,
Quaje qui nun acredito
Naquilo queu tava veno,
Ela chorava gemia
A boca fechava e abria
Suava de riba a baxo,
Passô uma meia hora
Dispois disse vassimbora
Vou lhe aprontá um dispacho.

Amenhã ditardezinha
Voismicê torne a vortá,
Mi traga quato galinha
Um bode mode matá
Qui é pra vê se agrada o santo,
E afugenta esse quebranto
E tudo o qui o sinhô sente,
E além do que já foi dito
Nesse papé tá inscrito
Os zoto zingridiente.

Dalí saí ligerin
Vortei pra casa cansado,
No otô dia cedin
Tudo qui tava anotado
Comprei lá in “Seu Bigode”,
Peguei as galinha, o bode,
Juntei tudo e fui in frente
Cum aquelas mercadoria
E bem no finar do dia
Eu cheguei lá novamente.

Fiz a intrega do pedido
O qui acunteceu num sei,
Mai já tô arrepindido
Pois in nada miorei,
Se o santo num se agradou
Ô se Lica num honrô
O cumpromisso selado,
Feiz um seviço fulêro
Eu só fiz gastá denhêro
E continuei lascado.

Num tomo meizinha mai
Nem vô pra catimbozêro,
Pruque milaigre quem fai
É nosso Deus verdadêro
Que é pai e superiô!
Vou procurá um dotô
Pra vê se fico curado,
Cum meizinha e catimbó
Gastei dinhêro qui só
Sem ter nenhum resultado.

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