JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Tenho estreitas e excelentes lembranças da infância. Da minha infância, recheada de aprendizado e de convivência que formou meu caráter – ao lado dos irmãos, primos, e parentes próximos. Não tenho nenhum motivo para me envergonhar.

Tudo que vivi, e que ainda lembro, repetiria sem qualquer sentimento de culpa ou de arrependimento. Meus avós e pais me ensinaram tudo – e, me posiciono como bom aluno na escola da vida.

Hoje, relembro, como se tudo tivesse sido um interminável período de férias – cheia de alegrias, doces brincadeiras e guloseimas das melhores qualidades, porque feitas com muito carinho.

I – Puxa-puxa

Puxa-puxa que obrigava a limpeza dos dentes com os dedos

Minha mãe era uma mestra no “fazer puxa-puxa”, porque deixava queimar no ponto exato que atingia o paladar e o cheiro. Ela, que aprendera com minha Avó, separava o leite líquido, açúcar cristal, bicarbonato de sódio e um pouco de sal.

Numa panela ou “alguidar” de barro, aquecia até queimar, 1 Kg de açúcar, acrescentando o leite, e os demais ingredientes, sem parar de mexer. Botava mais açúcar até “dar o ponto”. Tirava do fogo e deixava esfriar afim de cortar em pedaços (tipo pequenos bombons).

De tanto olhar, eu ganhava de presente, a panela. Era maravilhoso passar parte da tarde raspando a panela.

II – Quebra-queixo

Quebra queixo tinha formato e gosto de infância

O quebra queixo já garantiu e ainda garante o sustento de muita gente que, por algum motivo não conseguiu se especializar e fazer algo melhor e mais rentável.

E muitos locais das grandes cidades ainda é possível encontrar algum ambulante cortando e vendendo “quebra queixo”, doce caseiro que faz parte da culinária dos nossos antepassados.

Aprendi fazer “quebra queixo”, também com a Vovó Raimunda Buretama, que tinha o costume de afirmar que, “carregado de açúcar, até o cu da jumenta é doce”!

Ela sentava num tamborete (aquele mesmo com assento feito de couro de bode, que ela mandara fazer um buraco no meio para facilitar as “bufas”) e debaixo da bunda colocava um “raspa-côco” e raspava até deixar as quengas limpinhas. Depois pegava uma porção de açúcar (ela ainda usava o mascavo), água e duas bandas de limão.

Levava tudo ao fogo no alguidar de barro que usava também para torrar o grão do café. Açúcar, suco do limão e um pouco d´água até garantir a transformação de tudo naquela calda cheirosa. Depois era só acrescentar o coco ralado, continuar mexendo e tirar do fogo. Ela usava um tabuleiro de alumínio, ou colocava sobre uma tábua e espalhava para esfriar.

III – Alfenim

Alfenim era sempre o doce mais doce do sertão

Desses três doces, o único totalmente “orgânico” é o alfenim. É feito diretamente da cana de açúcar, ainda em estado líquido. Essa forma de fazer é mais demorada e, por isso, menos utilizada.

Há, entretanto, quem use açúcar refinado, suco de limão, água e goma (polvilho) de mandioca.

Nessa forma de fazer, em quase nada é diferente da preparação do puxa-puxa, embora haja a preocupação de não deixar açucarar. Leve ao fogo os ingredientes, depois de espalhar a goma (polvilho) sobre uma tábua ou folha de bananeira verde. Após a fervura da calda, deite sobre a goma (polvilho) e, se preferir, mexa. Mas o melhor é misturar tudo e espalhar para esfriar. Está pronto o alfenim.

Minha Avó tinha o hábito de levar ao sol (nunca entendi essa necessidade), dizendo que o doce ficava mais doce – enquanto eu achava que ficava enjoativo (eu era o “provador oficial” dessas guloseimas, pelo fato de ser criança).

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