VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Impaciente e nervoso com o “confinamento” compulsório, decorrente da pandemia do Coronavírus, que já ultrapassou a “sessentena”, Martinho, servidor público aposentado, para se distrair, resolveu ir a um supermercado, que tem fama de que, lá, “tudo é mais barato”.

O homem foi a esse supermercado, muito mais por curiosidade e compulsão de comprar, do que por necessidade. Em sua casa, a despensa estava sortida, não faltando nada, que justificasse o sacrifício de enfrentar filas.

Usando a obrigatória máscara de proteção à boca e nariz, Martinho posicionou-se na fila, para entrar no supermercado, o que acontecia de um em um freguês. Isso demorou uns 40 minutos . Ao chegar sua vez de entrar, foi abordado por um segurança, que o “convidou” a higienizar as mãos com álcool gel, cuja garrafa ali estava à disposição dos fregueses.

Livre do segurança, Martinho pegou um carrinho de compras e embrenhou-se por tudo o que era gôndola com mercadorias. À medida que olhava para as prateleiras, seus olhos piscavam cada vez mais. E cada vez mais, Martinho ia enchendo o carrinho de produtos variados, inclusive vinhos, queijos e carnes. Realmente, ali era tudo mais barato, embora algumas marcas fossem desconhecidas.

Com o carrinho esborrotando de produtos alimentícios, incluindo frutas e biscoitos variados para os netos, o homem achou pouco e pegou outro, para comprar produtos de limpeza e higiene.

Consumidor compulsivo e viciado nas “parcelinhas” do cartão de crédito, Martinho esbaldou-se nas compras, como se estivesse sozinho no supermercado. Nem atentava para a quantidade enorme de pessoas simples, que também faziam compras, observando a lista que traziam nas mãos e empurrando seus carrinhos.

Ao encerrar as compras, por já ter lotado o segundo carrinho, foi que Martinho percebeu que as filas dos caixas pareciam quilométricas. Entrou em uma delas, empurrando os dois carrinhos. Logo a fila aumentou, também, atrás dele. Foi aí que percebeu os olhares de revolta dos fregueses, sobre os seus dois carrinhos, exageradamente cheios de produtos variados. Dariam para o resto do ano.

O homem sentiu que estava sendo olhado com censura e indignação, e ouviu alguns xingamentos, por causa do grande volume de produtos que estava comprando.

Assustado, sua primeira vontade foi sair dali depressa e devolver às prateleiras todos os produtos que havia pegado. Mas, com isso, perderia mais um tempão. Outra vontade, foi abandonar ali os dois carrinhos, fingindo que iria pegar um produto, do qual havia esquecido. Mas, mesmo irritado e indeciso, terminou aguardando a sua vez.

Os xingamentos contra Martinho aumentaram e quando chegou sua vez no caixa, ele já estava com os nervos em pandarecos. Praticamente, rebolou as compras, no espaço a elas destinado para registro, de forma tão apressada, que o caixa lhe pediu para colocar os produtos com mais calma.

Nessa hora, Martinho ouviu alguém dizer:

– Esse cara vai demorar mais de uma hora no caixa!!!

E ouviu o tumulto que se formou contra ele. Sabia que o valor das suas compras iria dar o que falar, e deu mesmo.

A fila toda ficou sabendo, que o valor ultrapassou, bastante, o valor do salário mínimo. Os fregueses que estavam perto dele, fizeram questão de olhar de perto a tela registradora e cochicharam uns com os outros.

Martinho escutou um homem, com aparência sofrida, dizer:

– Ah, infeliz! Um homem rico desse, vem comprar aqui, só pra atrapalhar!

Sentindo a agressividade dos fregueses da fila em que estava, Martinho saiu do supermercado, mais nervoso do que estava em casa. Empurrando os dois carrinhos, e quase correndo, teve medo de ser agredido, assaltado ou linchado.

Ainda bem, que não viram seu carrão no estacionamento.

10 pensou em “AS COMPRAS

  1. Quantos Martinhos há no Brasil, que se fossem vistos pelo carrão seriam defenestrado?
    Valeu, Violante, seu texto nos conduz a várias reflexões.

    • Obrigada pelo comentário, prezado poeta Jesus de Ritinha de Miúdo! Realmente, há pessoas descontroladas, que, mesmo tendo um bom salário, compram por compulsão e gastam mais do que podem. Não passam sem um carrão do ano, mesmo atrasando as prestações. Só tem pose…..rsrs.

      Grande abraço!

  2. Prezada Violante,

    A senhora descreveu com maestria a sensação que deve sentir qualquer um dos milhares de “Ascaris Lumbricoides” que procuram, procuram, e nunca acham nada; sempre regiamente remunerados a R$ 35.000,00 por mês, fora as “Vantagens”.

    Isso, se ainda tiverem algum resquício de consciência e não apelarem para o sambado argumento de que: a) SÃO CONCURSADOS b) É TUDO DENTRO DA LEI.

    • Obrigada pelo comentário, prezado Sr. Adônis Oliveira! O consumidor compulsivo, que frequenta o supermercado, não se contenta apenas em olhar. Ele gosta mesmo é de comprar.

      Já o tipo citado pelo senhor, creio que não frequente supermercado .rsrs

      Muita Saúde e Paz!

  3. Violante,

    Excelente a crônica sobre o consumidor compulsivo. É necessário pensar que consumo é uma coisa, e consumismo é outra bem diversa. No consumo, o ato de comprar está diretamente relacionado à necessidade ou à sobrevivência. Quando se trata de consumismo, essa relação está rompida, ou seja, a pessoa não precisa daquilo que está adquirindo.
    A cada ano é maior o número de pessoas que se endividam, em geral para comprar coisas das quais não necessitam ou até mesmo para presentear amigos e parentes como uma forma de tê-los por perto. E essa situação é uma fonte inesgotável de ansiedade e depressão.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  4. Obrigada pelo gratificante comentário, prezado pesquisador e poeta Aristeu Bezerra!

    A compulsão de comprar o desnecessário pode ter sérias consequências. Compromete o orçamento doméstico e o equilíbrio financeiro. As dívidas em cartão de crédito crescem rapidamente e o comprador compulsivo se vicia em dever.. O fim da história é sempre um quadro de depressão.

    Um grande abraço!

    Muita Saúde e Paz!

    Violante

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