AS BRASILEIRAS: Nise da Silveira

Nise Magalhães da Silveira nasceu em Maceió, AL, em 15/2/1905. Médica psiquiatra e revolucionária dos métodos de tratamento das doenças mentais. Filha do professor e jornalista Faustino Magalhães da Silveira e da pianista Maria Lídia da Silveira, realizou os primeiros estudos no Colégio Santíssimo Sacramento e ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 16 anos, a única mulher entre os 157 homens de sua turma. Foi uma das primeiras mulheres médicas do Brasil.

Na faculdade conheceu um rapaz, com quem se casou e fizeram acordo de não ter filhos, para poderem se dedicar exclusivamente à medicina. Ele, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, paralela a carreira de médico, publicava artigos, ressaltando as relações entre pobreza, desigualdade e prevenção da doença. Após a formatura, em 1926, o casal foi morar no Rio de Janeiro em busca de trabalho. Em 1933, no fim da especialização em psiquiatria, estagiou na clínica do Prof. Antônio Austregésilo, um dos pioneiros no estudo da neurologia no Brasil. Em seguida foi aprovada num concurso público para trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia do Hospital da Praia Vermelha. Nesta época, manteve contatos com a elite intelectual carioca e ingressou no PCB-Partido Comunista Brasileiro, onde encontrou a amiga Rachel de Queiroz, junto com quem assinou o “Manifesto dos trabalhadores intelectuais ao povo brasileiro”.

A militância no PCB durou pouco e acabou sendo expulsa, sob a acusação de ser “trotskista”. Durante a “Intentona Comunista” (1935), foi delatada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas e ficou presa por 18 meses no presídio Frei Caneca. Ali dividiu cela com Olga Benário e se encontrava preso o escritor Graciliano Ramos, que deixou relatado o encontro no seu livro Memórias do cárcere: “Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, em vivo constrangimento”.

Ao sair da prisão, ficou na semiclandestinidade e afastada do serviço por razões políticas até 1944. Aproveitou esse período para conhecer o filósofo Spinoza, que lhe rendeu mais tarde a publicação do livro “Cartas a Spinoza” (1995). Retomou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Dom Pedro II sempre discordando das técnicas agressivas aplicadas aos pacientes. Tais discordâncias motivaram sua transferência para o trabalho de “terapia ocupacional”, menosprezado pelos médicos. Desse modo, ela fundou uma seção dedicada a esta atividade. No lugar das tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, criou ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.

Esta experiência possibilitou um vôo maior: em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abriam novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico. Entre outros artistas-pacientes, encontramos Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emydio de Barros e Octávio Inácio etc. Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme “Imagens do Inconsciente”, mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por ela. O sucesso dessa iniciativa levou-a a criação de outro projeto revolucionário: fundou a “Casa das Palmeiras”, uma clínica voltada à reabilitação de antigos internos de instituições psiquiátricas. Este projeto constituiu-se no alicerce do movimento contra os hospícios, que chegaria ao seu ápice com a Lei Antimanicomial, de 2001.

Foi pioneira também no emprego de animais em auxílio aos pacientes, prática hoje empregada em todos os tipos de doenças. Percebeu essa possibilidade de tratamento ao observar a melhoria de um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital, tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida. Chamava os animais de “co-terapeutas”. Seu interesse pela simbologia expressa nas “mandalas” desenhadas pelos pacientes, levou-a a entrar em contato com o psiquiatra Carl Gustav Jung, em 1954, iniciando uma proveitosa troca de correspondência. Assim, foi introduzida a psicologia junguiana no Brasil. Do mesmo modo, foi introduzida a psiquiatria de Nise da Silveira na Europa, estimulada por Jung. Em 1957 ela apresentou mostra das obras de seus pacientes – “A Arte e a Esquizofrenia” – no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique. Em seguida, passou a estudar no “Instituto Carl Gustav Jung” em dois períodos: 1957-58 e 1961-62, sob a supervisão de Marie-Louise von Franz, assistente de Jung. Em 1960 participou como membro e fundadora da “Societé Internationale de Psychopathologie de l’Expression, em Paris.

De volta ao Brasil, montou em sua casa o “Grupo de Estudos Carl Gustav Jung”. Em 1974 se aposentou e fundou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, para garantir a permanência da instituição, ainda não integrada na estrutura do Ministério da Saúde. Carlos Drummond de Andrade deu uma força nesse sentido e publicou a crônica – A Doutoura Nise – no Jornal do Brasil, em 2/1/1975: “Não é comum ver-se um funcionário que se aposenta suscitar iniciativa desta ordem para preservar-lhe as realizações no serviço público. Deve ser mesmo caso único. Para se justificarem como entidade, os amigos do Museu, que são os amigos de Nise, precisam ficar atentos e ativos, não deixando que tal instituição seja roída pela indiferença burocrática”. Ferreira Gullar foi outro admirador e, na condição de crítico de arte, ficou emocionado quando conheceu o “Museu”. Adorava seu caráter rebelde e publicou seu perfil – Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde -, em 1996. Foi amiga também de Mario Pedrosa, outro crítico de arte e dizia: “Tive excelentes aliados na literatura e na imprensa. No entanto, poucos médicos foram meus aliados”. Ledora voraz de Machado de Assis, gostava de lembrar sua frase no conto O Alienista: “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, para emendar outra de sua lavra: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas.”

Seu trabalho inspirou a criação de instituições similares em outros estados e no exterior: Museu Bispo do Rosário (RJ), Centro de Estudos Nise da Silveira (Juiz de Fora, MG), Espaço Nise da Silveira, do Núcleo de Atenção Psicossocial (Recife, PE), Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira, do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, RS), Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira (Salvador, BA), Centro de Estudos Imagens do Inconsciente, da Universidade do Porto (Portugal), Association Nise da Silveira – Images de l’Inconscient (Paris), Museattivo Claudio Costa (Genova, Itália). Societé Internationale de Psychopathologie de l’Expression (Paris). O psicólogo Gonzaga Leal conta que ela gostaria de passar seus últimos dias num mosteiro. “Ela dizia sempre que queria morrer como um gato, que se recolhe e morre sozinho.”. De fato, seu último livro foi “Gatos: a emoção de lidar”, publicado em 1998. Pouco depois veio a falecer em 30/10/1999.

Em 2001 o Centro Psiquiátrico Pedro II, onde trabalhou boa parte da vida, passou a se chamar “Instituto Municipal Nise da Silveira”, o conhecido hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro. Foi homenageada em vida por diversas entidades: troféu “Golfinho de Ouro”, do Museu da Imagem e do Som (1971); “Personalidade Global Feminina”, da Rede Globo (1981); nina “Oficial da Ordem do Rio Branco”, pelo MRE (1987); “Prêmio Personalidade do Ano de 1992″, da Associação Brasileira de Críticos de Arte; “Ordem Nacional do Mérito Educativo”, pelo Ministério da Educação (1993) entre outras. Algumas biografias foram publicadas, com destaque para Nise Arqueóloga dos Mares (2008), de Bernardino Carneiro Horta e Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde (2014), de Luiz Carlos Mello, curador do Museu do Museu de Imagens do Inconsciente.

12 pensou em “AS BRASILEIRAS: Nise da Silveira

  1. Extraordinariamente completo esse texto sobre a Nise. Completo na biografia, completo na vivência da biografada e completo enquanto na cobertura da cultura brasileira no Brasil. É a cobertura no início na Bahia na sua Escola de Medicina e a plenitude alcançada no Rio enquanto, na época, sede do pensamento nacional.

  2. Caro memorialista Brito:
    Li com muita atenção seu AS BRASILEIRAS: Nise da Silveira, médica Psiquiátrica e revolucionária.
    Excelente relato!
    Movido pela emoção do texto, pesquisei e assisti ao filme: “Nise – O Coração da Loucura”, interpretado pela excelente atriz Glória Pires, que encarna a médica psiquiátrica com maestria, na direção do competente Roberto Berliner. O filme aborda o período em que Nise sai da prisão, onde foi parar por porte ilegal de literatura comunista nos anos 1930, e assume o Setor de Terapia Ocupacional do Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
    Excelente filme que merece ser assistido por toda comunidade psiquiátrica, que mostra como a determinação, a coragem e a inteligência de uma mulher mudaram uma realidade cruel nos hospitais psiquiátricos, que tratavam os “doidinhos” como “demônios”!
    Encantou-me o texto porque me lembrou minhas andanças, durante mais de vinte anos, pelos hospitais psiquiátricos do Recife, acompanhando meu irmão que hoje mora no município de Carpina, PE, onde vive com minha irmã.
    É inteligentíssimo!
    Tem memória de elefante!
    Sabe uma matemática da porra!
    Mas na época, se não tivesse havido minha intervenção, sempre, quando eu o visitava e o encontrava em situação degradante e o transferia para outro hospital, ele teria tido um fim trágico, como muitos tiveram e as famílias não tomavam nem conhecimento, pois era SEMPRE gente pobre vinda do interior!
    O Senado acaba de votar um PL N.º 1902/2019, que Institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, na União, nos Estados, Distrito Federal, Territórios e Municípios.
    Imaginar que tudo isso começou com a revolucionária, visionária Nise Magalhães da Silveira, é de torar a alça do corpete, como diz Zé Lezin!

  3. Vou adotar a frase de Nise: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas”. MÁXIMO!!
    Seus textos são uma aula de cultura!

    • Texto de Nise que Sancho já imprimiu, plastificou e botou na parede do quarto, pois resume Sancho, que tem “um poquito de loucura: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas muito ajuizadas”. MÁXIMO!!

        • Beleza, Fiel Escudeiro.

          Aproveitastes bem a frase de Nise da Silveira. Só não digo que “I love you” também porque sou de Garanhuns, num sabe!? Lá isso ainda é perobagem rsrsrsrrs
          No entanto apreçeio sua amizade, visse?!

          • Ô Sancho
            Quem mandou o bilhete acima foi eu e não o Caio. É que ao ver sua declaração de amor, quase caio da cadeira e cliquei errado rsrsrsrsrsrsr

            • Escreve o amigo: apreçeio sua amizade, visse?!

              E há algo melhor e mai valioso do que uma bela amizade? Fiquemos assim combinados: amigos para sempre, porque amizade é a maior forma de amar.

  4. Parabéns pelo texto, Brito! Bastante completo!
    Nise revolucionou a psicoterapia e TO. Para quem não conseguia se curar pela conversa, estruturou a “terapia não verbal”. Como ensina seu texto, foi a única profissional brasileira de saúde mental recebida pelo também inovador em psiquiatria, Carl Jung.
    Viva a boa maluquice brasileira!
    Obrigado, Brito!

  5. Fico contente em saber que estamos não apenas diminuindo a ignorância, mas também promovendo resgates valorosos da gente brasileira

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