JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Lygia Pimentel Lins nasceu em 23/10/1920, em Belo Horizonte, MG. Pintora e escultora reconhecida como uma das mais destacadas artistas brasileiras do século 20, Foi uma das fundadoras do Movimento Neoconcretista, em 1959, e gostava de autointitular-se uma “não artista”, ou melhor ainda, uma “propositora”. Tinha como proposta a “desmistificação da arte e do artista e a desalienação do espectador”, cuja apreciação consistia num compartilhamento na criação da obra de arte.

Filha de uma família de juristas, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1947 e iniciou estudos na área artística sob a supervisão de Burle Marx. Em seguida mudou-se para Paris, onde viveu por 3 anos (1950-1952) e teve cursos mantidos por importantes artistas: Fernand Léger, Arpad Szènes e Isaac Dobrinsky. Trabalhou com desenhos e teve suas primeiras pinturas a óleo. Realizou sua primeira exposição individual no Institut Endoplastique em 1952. No mesmo ano retornou ao Rio e expôs suas obras no MEC-Ministério da Educação e Cultura. Logo, passou a integrar o “Grupo Frente”, composto por Ivan Serpa, Aluísio Carvão, Abraham Palatik, Lygia Pape e Hélio Oiticica. Reuniam-se no MAM e na casa do crítico Mario Pedrosa, constituindo-se no marco histórico do movimento construtivo no Brasil.

Em 1954 participou da Bienal de Veneza, com a série “Composições”, onde incorporou a moldura como elemento plástico em suas obras. A partir daí passou a trabalhar com instalações e “body art”, uma manifestação da artes plásticas, onde o corpo do próprio artista pode ser utilizado como suporte ou meio de expressão. Em 1959, participou da I Exposição de Arte Neoconcreta, integrada por Ferreira Gullar, Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanudis. Sua proposta era que a pintura não se sustentava mais em seu suporte tradicional. Nas “Unidades 1959”, moldura e “espaço pictórico” se confundem, um invadindo o outro quando pinta a moldura da cor da tela. É o que ela chama de “linha orgânica”.

Em 1960 lecionou artes plásticas no Instituto Nacional dos Surdos (RJ) e criou a série “Bichos”, construções metálicas geométricas que se articulam por meio de dobradiças e requerem a coparticipação do espectador. “Caminhando” (1964) é a obra que marca essa transição, onde o próprio participante realiza a obra de arte. Tal participação passa a ser constante em suas obras, levando-a a dedicar-se à exploração sensorial e a participar do Simpósio de Arte Sensorial, em Los Angeles em 1969. No ano anterior foi convidada pela Bienal de Veneza a expor, em sala especial, toda a sua trajetória artística. Em seguida, decidiu mudar-se para Paris, onde viveu de 1970 a 1976. A partir daí sua arte tomou novo rumo, concentrando-se no desenvolvimento de experiências sensóriais e seu uso terapêutico. Acreditava que arte e terapia andavam juntas. Assim, achava que “objetos manuseáveis que criava ou recolhia da natureza, como balões de ar, sacos de terra e água e até pedras, poderiam ter o dom de curar os males da alma”.

Enquanto viveu em Paris, teve sessões de análise com o conhecido psicanalista Pierre Fédida e lecionou na Faculté d’Arts Plastiques St. Charles, na Sorbonne, de 1970 a 1975. Voltou ao Rio de Janeiro, em 1976 e intensificou o estudo das possibilidades terapêuticas da arte sensorial, trabalhando com objetos relacionais. Assumiu de vez este enfoque em suas obras e pouco depois estava proferindo palestra – “O método terapêutico de Lygia Clark” – no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1982). Dessa época em diante passou a diminuir o ritmo de suas atividades e publicou os livros Rio meu doce rio e Livro-obra (1983), uma obra aberta contendo estruturas manipuláveis, contando a trajetória de sua obra desde as primeiras criações até o final de sua fase neoconcreta.

A partir da década 1980 sua obra ganha reconhecimento internacional com retrospectivas em vários países e em mostras antológicas. Uma grande retrospectiva, com sala especial dedicada a ela e Hélio Oiticica, foi realizada em 1986, por ocasião do IX Salão de Artes Plásticas, no Paço Imperial do Rio de Janeiro. Esta foi sua última exposição em vida. Foi vitimada por um ataque cardíaco em 25/4/1988. Sua obra foi umas das mais valorizadas no mundo das artes. Em maio de 2013, a obra “Contra Relevo” foi arrematada num leilão em Nova Iorque por US$ 2,2 milhões, tornando-se a obra mais valiosa de um artista brasileiro. Em agosto do mesmo ano, a obra “Superfície Modulante” alcançou a cifra de R$ 5,3 milhões, num leilão promovido pela Bolsa de Arte de São Paulo.

Em 2014, o MoMA-Museum of Modern Art, de Nova Iorque, apresentou uma grande retrospectiva com 300 obras reunidas a partir de coleções públicas e privadas, englobando 4 décadas de sua carreira artística. Hoje ela conta com obras expostas em 18 museus do mundo. Ao longo da carreira realizou 136 exposições coletivas e 20 individuais no Brasil e no exterior. Seu legado artístico ficou registrado no livro Lygia Clark: obra-trajeto, de Maria Alice Milliet, publicado pela Edusp, em 1992. Outros livros explorando sua arte: O espaço de Lygia Clark (1994), de Ricardo Nascimento Fabbrini; Relâmpagos com furor: Lygia Clark e Hélio Oiticia, vida como arte (2004) de Beatriz Scigliano Carneiro e Lygia Clark: linhas vivas (2013), de Renata Sant’Anna e Valquíria Prates e Lygia Clark: the abandonment of art, 1948-1988, numa bela edição ilustrada contendo toda sua obra.

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  1. Artista filha de juristas, estudou arte em Paris e fez uma obra que os pobres não entendem (nem eu, que não sou tão pobre assim). Era uma elitista.

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