JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Ana Jacinta de São José nasceu em 2/1/1800, em Formiga, MG. Personalidade histórica criada em Araxá e famosa pela beleza, conquistas e fortuna amealhada em sua vivência com homens da Corte Imperial. Era uma “cortesã”, como se dizia de modo educado e antigo. Recebeu o apelido “Beja” de seu avô, comparando-a com a doçura e beleza da flor “beijo”. Filha de Maria Bernarda dos Santos e pai ignorado, chegou na cidade de Araxá em 1805 em companhia da mãe e avô, onde passou a viver, encantar os homens e causar ciúmes e inveja nas mulheres.

Ainda jovem, apaixonou-se pelo fazendeiro Manoel Fernando Sampaio, que deu em noivado, mas não chegou ao casamento. Em 1815 foi raptada pelo ouvidor do rei, Joaquim Inácio Silveira da Motta, com quem passou a viver como amante por 2 anos em Paracatu. Ao tentar evitar o rapto, seu avô foi morto no embate. Viveu com o ouvidor até 1817, quando D. João VI solicitou seu retorno ao Rio de Janeiro. De volta à Araxá, não foi tratada como vítima e sim como sedutora de comportamento duvidoso. Com alguma riqueza amealhada neste período, passou a exercer fascínio entre os homens e tornar-se conhecida personalidade na região, porém indesejada e marginalizada pela sociedade.

Construiu 2 casas: uma na cidade, que não atendia clientes em busca de sexo e outra nos arredores da cidade, um luxuoso bordel, que ficou conhecido como a “Chácara do Jatobá”. O local passou a atrair homens de outras regiões, que lhe cobriam de dinheiro, joias e pedras preciosas. Sua fama chegou ao ponto em que ela podia escolher seus parceiros. Porém, caso não pudesse evitar a recusa, criou um artificio junto com seu amigo Fortunato, o boticário local, chamado “remédio do sim e do não”. Quando não queria transar com um homem, mas não podia recusar devido a sua riqueza, colocava em sua bebida a poção do “não”. Isto fazia com que o homem brochasse, o ocorrido ficava apenas entre o casal e ela recebia o pagamento como se o fato tivesse sido consumado. No caso do uso da poção do “sim”, dava-se o oposto.

Conta a lenda que ela tomava banho diariamente na “Fonte da Jumenta”, com uma água milagrosa que proporcionava saúde e beleza, além de estar associada às virtudes afrodisíacas. Independente da lenda, o fato é que Araxá ressurgiu no século XX como cidade associada às águas locais, atraindo turistas à região. Conta-se, também, que certa vez seu antigo noivo Manoel apareceu na Chácara e tiveram um breve namoro. Engravidou e deu à luz uma menina, mas ela não aceitou viver com o antigo noivo e por isso sofreu uma emboscada de dois negros. Levou uma surra e ficou bastante machucada. Ao saber que a emboscada foi contratada pelo pai de sua filha, ordenou que o matassem.

O crime levou-a à prisão, mas logo foi libertada com a ajuda de amigos e importantes clientes. O episódio trouxe-lhe algum desconforto na cidade levando-a a pensar em mudar do local. Enquanto isso surge uma segunda filha, impulsionando o desejo de mudar de vida. Aos 53 anos, providenciou uma mudança de vida e local para morar. Montou um cortejo formado por carroças cheias de móveis, louças, tralhas etc. e partiu junto com as filhas para um vilarejo chamado Bagagem, onde se dava uma corrida pelos diamantes. O vilarejo hoje é cidade de Estrela do Sul, nome dado em homenagem ao diamante “estrela do sul”, que era farto na região.

Lá montou um grande casarão com senzala nos fundos e passou a levar uma vida pacata, dedicada à religião e à caridade. Tornou-se uma pessoa destacada no local; bem recebida no vilarejo; mandou construir uma ponte, que leva seu nome, e financiou a virada do rio Bagagem afim de colher o cascalho de diamante. Ficou mais rica ainda no ramo do garimpo e veio a falecer em 20/12/1873, devido a uma nefrite. Sua vida inspirou vários romances: Dona Beja, a feiticeira de Araxá (1957), de Thomas Leonardos; Vida em Flor de Dona Beja (1957), de Agripa Vasconcelos; O Solar de Dona Beja, de Maria Santos Teixeira (1965), Dona Beja, a flor do pecado, de Ângelo D’Ávila (1992)

Os dois primeiros romances citados serviram de roteiro para a produção da famosa telenovela Dona Beja, em 1986, exibida pela Rede Manchete de Televisão, tendo Maitê Proença como protagonista. Inspirou também uma biografia, destinada a esmiuçar sua vida e contextualizar sua trajetória no quadro da história. A pesquisa resultou no livro escrito por Rosa Maria Spinoso Montandon – Dona Beja: desvendando o mito -, publicado pela Edufu-Editora da Universidade Federal de Urbelândia, em 2004.

12 pensou em “AS BRASILEIRAS: Dona Beja

  1. Grato Adail
    pelo complemento da biografia de Dona Beja. Amanhã é o Dia da Mulher, mas o Memorial das Brasileiras sai na frente e antecipa sua biografia concisa acrescida com seu aporte

  2. Caro Brito,

    Entusiasmado com seu espírito de oportunidade – visto a antecedência em homenagear a Mulher Brasileira – divulgando a biografia de D. Beja, ofereço-lhe notas sobre o tema, já remetidas por e-mail.

    Entrevistei várias vezes e publiquei versos de Dr. Agripa Ulisses de Vasconcelos, meu colega do BB, autor do principal livro sobre aquela mulher que gostaríamos de ter conhecido..

    Abraços e parabéns.

  3. Parabéns Sr. José Domingos Brito.
    Sua coluna ” Memorial” é sempre fonte de conhecimento, de inspiração e de abrangência de horizontes.
    Quando a lemos, independente do personagem memoriado.
    Acrescenta-nos, bagagem histórica relevante e valiosa.
    Nossos cumprimentos sinceros e agradecidos.

  4. Meu caro, Professor, O Sertão da Farinha Podre ficava na região do Alto Paranaíba, atual Triângulo Mineiro. que, na época, não pertencia à província das Minas Gerais. Dona Beija em “contato” com homens influentes, conseguiu que a região fosse incorporada a província mineira. Quanto a denominação Sertão da Farinha Podre, uns dizem que, uma expedição, deixou uma certa quantidade de farinha de mandioca para que na volta fosse aproveitada, ao regressar, encontrou a farinha toda podre, daí o nome dado àquelas paragens. Outros, dizem que por ser produtora de polvilho, ao sentir o cheiro forte exalado pela mandioca em fermentação e depois ver a farinha do polvilho azedo, portugueses denominaram a região de Sertão da Farinha podre. Professor, o que falo acima, não tem nada de científico, são apenas “causos de mineiro”. PS. O polvilho azedo pode não ter um cheiro agradável, porém, permite fazer o melhor pão de queijo do mundo e biscoitos tão bons que até os deuses visitam Minas Gerais ,para consumi-los com extremado gosto. Um grande abraço.

    • Caro Paulo Terracota, você é o professor.
      A história não é uma ciência exata, nem sei se é ciência. Assim, seu “causo” é excelente e agora passou a ser história.
      Gratíssimo pela contribuição.

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