JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Delfina Benigna da Cunha nasceu em 17/6/1791, em São José do Norte, RS, na Estância do Pontal. Poeta destacada como uma das fundadoras da literatura gaúcha. Filha do capitão-mor Joaquim Fernandes da Cunha, responsável pela guarda do Litoral, e Maria Francisca de Paula e Cunha. Sua poesia é fundada unicamente na inspiração e espontaneidade, sem artifícios nem preocupação alguma com os processos estéticos.

Devido a uma epidemia de varíola, ficou completamente cega aos 20 meses de vida. Recebeu da família uma sólida formação cultural e aos 12 anos já ditava seus poemas para os irmãos escreverem. Em 1834 publicou o livro “Poesias oferecidas às senhoras rio-grandenses”, impresso na Typographia de Fonseca & Cia., de Porto Alegre. Foi uma das primeiras obras impressas no Rio Grande do Sul.

Seu pai faleceu em 1825 e ela passou por alguns perrengues com dificuldades econômicas em se manter. Escreveu um soneto-apelo dirigido ao Imperador Dom Pedro I pedindo auxílio e foi contemplada com uma pensão vitalícia, em reconhecimento aos serviços prestados pelo pai como capitão-mor. O fato reforçou sua adesão à Monarquia. Conforme registra o Dicionário de Mulheres, de Hilda Hubner Flores, ela odiava os liberais “Farroupilhas”, e escrevia versos ferinos contra o líder Bento Gonçalves. Como decorrência dessa intriga política, ela teve que exilar-se no Rio de Janeiro, em 1838, onde seu livro foi reeditado pela Livraria Garnier.

Não chegou a se casar, mas dizem que mantinha uma paixão secreta pelo Major Manuel Marques de Souza, o futuro Conde de Porto Alegre, que retomou a capital gaúcha das mãos dos Farroupilhas, em 15/6/1836. Há quem diga que seu amor sublimado tenha sido o motivo do desencanto gravado em seus versos. Há também quem diga que isso é bobagem e que a cegueira já seria suficiente para provocar um desencanto e melancolia com a vida, conforme se vê no soneto:

Em versos não cadentes, oh! leitores,
Vereis os males meus, vereis meus danos:
Da Primavera a gala e os verdores
Nem foram para os meus primeiros anos.

Mesmo na infância experimentei rigores
De meus fados cruéis sempre inumanos,
Que só me destinaram dissabores
Mil males revolvendo em seus Arcanos.

Sem auxílio da luz, que Apolo envia,
Versos dignos de vos tecer não posso;]
Desculpai minha ousada fantasia.

Com estes cantos meus, mortais, adoço
A mágoa que meu estro só resfria:
Se mérito lhe dais, é todo vosso.

Faleceu em 13/4/1857 e sua última obra – Coleção de várias Poesias dedicadas à Imperatriz Viúva – foi lançada em 1846 pela Tipografia Laemmert. O primeiro registro de seu nome na bibliografia brasileira se encontra no livro Mulheres Ilustres do Brasil (1899), de Ignez Sabino, onde são enaltecidos os sentimentos e a qualidade de sua poesia. Consta também um verbete incluído no livro Vozes Femininas da Poesia Brasileira, publicado pelo Conselho Estaudal de Cultura de São Paulo, em 1959, ressaltando seu pionierismo na Literatura. Foi homenageada como patrona da cadeira nº 1 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, e tem seu nome estampado numa rua do bairro Camaquã, em Porto Alegre.

Na falta de uma biografia exclusiva, temos o romance histórico O romanceiro de Delfina, de Stella Leonardo, publicado, em 1994, pelo Instituto Estadual do Livro (RS), contando a saga da poeta. Em 2011, Suzete Maria Santin apresentou na Faculdade de Letras da UFRGS, a tese de doutorado “Delfina Benigna da Cunha: recuperação crítica, obra poétca e fixação do texto”, esmiuçando a obra da poeta e apresentando vasta documentação da época. A tese em 2 volumes se propõe a fazer uma reletura da obra da poeta, “visando a uma abordagem com base na concepção de poesia lírica de Georg Wilhem Friedrich Hegel e de estilo, de Michael Riffaterre”. Recurpera a fortuna crítica sobre a obra e tem sua análise centrada no “amor em uma combinação tensa com a poesia da existência”.

3 pensou em “AS BRASILEIRAS: Delfina Benigna

  1. Pois é Miriam
    Trata-se se uma poeta antiga, que ninguém se lembra .Porém é relevante na literatura nos primórdios da literatura brasileira. E tratando-se de uma pessoa cega desde criancinha, é um dos grandes feitos de superação que merece ser relembrado.

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