JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Clara Felipe Camarão nasceu em princípios do século XVII, no Nordeste, às margens do rio Potengi, atual bairro do Igapó, em Natal, RN. Indígena potiguara, catequizada pelos Jesuítas junto com o marido Antônio Felipe Camarão (Poti), conhecido herói da Batalha dos Guararapes, na expulsão dos holandeses de Pernambuco. É reconhecida como uma das primeiras heroínas brasileiras, com destacada atuação na Batalha de Tejucupapo, em 1646.

Sua atuação não se dava apenas junto ao marido, que liderava um grupo de índios em batalhas em Olinda e Recife. Há registros sobre sua participação na escolta de algumas famílias de colonos, fugindo do ataque holandês, em 1637, na cidade de Porto Calvo. A história conta que ela liderava um pelotão feminino de indígenas. Conta também que naquela época, algumas tribos Tupi, incluindo os potiguares, treinavam suas mulheres nos combates.

Sua história pessoal é repleta de lendas, como todas desse período, mas seu nome consta num poema de José da Natividade Saldanha, em 1822, quando cursava Direito na Universidade de Coimbra, publicado num livro de poesias dedicado aos amantes do Brasil, exaltando a coragem de Clara Camarão. Os livros “Brasileiras célebres”, de J. Norberto de S.S, publicado em 1862 pela Livraria Garnier, e “Anno Biographico Brasileiro”, de Joaquim Manoel de Macedo, publicado em 1876 pela Typografia e Litografia do Imperial Instituto Artístico, trazem verbetes relatando seus feitos. Era uma mulher que tinha pleno domínio do arco e flecha, da lança e do tacape, e que investia contra os inimigos montada em seu cavalo.

Um de seus feitos memoráveis e comemorado até os dias atuais é a “Batalha de Tejucupapo”. O episódio ocorreu em 1646, quando a tropa holandesa decidiu invadir o povoado (próximo a Goiana, PE) em busca de comida. A vila era grande produtora de farinha de mandioca e os homens se dirigiam, aos domingos, à feira do Recife para vender o produto. Os holandeses aproveitaram a ocasião para invadir a vila. Os poucos homens que restavam formaram uma barreira de contenção, mas foram abatidos. Ao entrar na vila, a tropa holandesa foi surpreendida por um batalhão de mulheres armadas de arco e flecha e enormes tachos de água fervente misturada com pimenta, jogada nos olhos dos invasores, pelo batalhão feminino comandado por Clara Camarão e mais 3 mulheres (Maria, Quitéria e Joaquina). O elemento surpresa inutilizou os flamengos para o combate e deixou mais de 300 mortos. Pouco depois, o casal Felipe e Clara Camarão, foi agraciado com o hábito de Cristo e gozaram as regalias dos títulos de ”Dom” e “Dona”, concedidos pelo rei Felipe IV devido aos serviços prestados à Portugal.

O episódio ficou marcado na História do Brasil e vem sendo comemorado até hoje, todo último domingo de abril, no distrito de Tejucupapo, em Goiana, PE. Na festa é apresentada um espetáculo teatral, ao ar livre no Morro das Trincheiras, onde se deu a batalha, com a participação de 220 atores, num espetáculo dirigido por Dona Luzia Maria desde 1993. A “Batalha de Tejucupapo” vem sendo contada em livros, filmes e peças de teatro, bem como em teses acadêmicas. O primeiro registro histórico do episódio se deu em 1648, dois anos após ocorrido, pelo frei português Manuel Calado, que presenciou o conflito e publicou o livro “O Valeroso Lucideno”, em Lisboa, e republicado em 1987 pela Editora Itatiaia. Trata-se de uma crônica relatando a resistência portuguesa ao invasor holandês.

Em 1984, a jornalista Marilene Felinto publicou o romance “Mulheres de Tejucupapo”, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de escritora-revelação e foi traduzido em diversos idiomas. O professor de comunicação da Universidade Católica de Pernambuco, Claudio Bezerra, empreendeu vasta pesquisa e publicou o livro “Tejucupapo: História, Teatro, Cinema” pela Editora Bagaço, em 2004. Tais relatos sobre o episódio garantiu à sua protagonista Clara Camarão, a inscrição no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, através da Lei nº 13.422, de 27/3/2017, além de seu nome estampado na Refinaria de Petróleo em Guamaré, RN. Sua última luta se deu ao lado do marido na Batalha dos Guararapes, em 1648, quando ele faleceu pouco depois e ela recolheu-se à vida privada, não sendo conhecidos o local e data de sua morte.

10 pensou em “AS BRASILEIRAS: Clara Camarão

  1. Dr. Brito. Nossos brios de pernambucanos se enaltecem quando vemos a divulgação de feitos históricos, notdmente falando-se de Guararapes, Tabocas e Tejucupapo.

    Andei por Goiana – terra de minha avó paterna – durante vários meses, sempre aos sábados, quando editei três livros do advogado e historiador, Dr. Alcides Rodrigues de Sena, que sempre comentava as ações dos goianenses, repetindo sempre tratar-se de um dos povos mais bravos do Brasil. Nas veias deles corria o sangue mais valorosos do Brasil.

    Agora vem você com Clara Camarão e se reporta às Mulheres de Tejucupapo, que representaram um dos episódios mais significativos das batalhas contra o holandês invasor. Que maravilha!

    E você o faz com a qualidade incomparável do pesquisador consciente, que descrevendo com redação primorosa deixa espelhar os meios de como a juventude atual pode conseguir dados para melhor estudar tais feitos ocorridos nesta terra de valores imortais.

    Louvo mais uma vez os escritos que tem publicado, os quais trazem para as gerações de hoje o quão tem sido nosso país, daqueles tempos, tão audaz no que diz respeito às guerras por nosso melhor destino.

    É pena o mau exemplo da atualidade, quando os políticos profissionais se perpetuam nos cargos, inserem suas famílias na comelança e defender a Nação queé bom se torna fator que logo cai no esquecimento. , necas. Aliás eles pouco sabem o que quer dizer nação. Só sabem o que é danação.

    O que temos visto é as ruas cheias de bandeiras e faixas que pouco dizem e nada valem para a nossa liberdade e bem estar do povo. Considero você como um batalhador por nossa história. Seus feitos ficarão nos anais de nossas glórias literárias.

    Aquele fraternal abraço.

    • Meu Caro Carlos Eduardo

      Muito agradecido por tantas loas. Nem sei se mereço todas elas.
      De qualquer modo, fico lisonjeado com efusivos elogios de um leitor categorizado, jornalista, historiador e “biografista” como você.

      • Meu caríssimo cronista Carlos Eduardo:

        O nobre cronista resumiu em poucas palavras o que o excelente memorialista Brito representa para a historiografia esquecida: resgatar o que está no ostracismo e fazer justiça: deixar que o povo tome conhecimento dos seus verdadeiros valores!

  2. A “Batalha de Tejucupapo” tem sido a responsável por alguma de minha noite de pesquisa. Que Brito nos brinde, sempre mais, com essa nossa história que fogem dos livros de história. Mergulhar nas coisas do Nordeste é uma aventura riquíssima. Grande Brito!!!Abraço grande!

  3. Grande e fiel escudeiro

    Nosso Pais é grande não apenas pela sua “própria natureza”. É detentor de uma riqueza humana enorme, não obstante ser esquecida por muitos na sua História

    Não podemos esquecer que o Nordeste foi a região que predominou no Pais durante uns 300 anos. Depois foi descendo em todos os sentidos até chegar ao sul maravilha. Mas a memória e a herança não se apagam .

  4. Meu caríssimo memorialista Brito,

    Mais uma contribuição extraordinária da historiografia não oficial: o resgate dessa personagem lendária: Clara Camarão, que teve um papel importantíssimo na Batalha de Tejucupapo, em 1646.

    Muitíssimo me admira sua abnegada disposição para pesquisa, esclarecendo fatos históricos que estão escondidos nos porões da História.

    Parabéns nobre memorialista. Seu nome já está grafado na Calçada da História.

  5. Caro Cicero

    Grato pelo apoio. Rapaz, ando com dificuldades para encontrar mais mulheres e estou sendo impelido a colocar mas pernambucanas. Se que vão dizer que estou puxando a sardinha pro meu brazeiro, mas o que se há de fazer?

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