ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Maquiavel utilizou uma analogia bem interessante ao comparar as doenças sociais e as doenças do organismo humano. Dizia ele: no início da doença, o diagnóstico é difícil e a cura é fácil. Ao evoluir a doença, o diagnóstico se torna óbvio! A cura é que se torna extremamente difícil. Esta é, exatamente, a situação que ocorre com nosso país. Hoje, o diagnóstico de sua acelerada degradação salta aos olhos, já a correção, esta deverá ser bem difícil!

Dizia Gramsci, que “Crise é quando o novo quer entrar e o velho não quer sair”. É o retrato do Brasil atual! Situação esta que já vem perdurando há, pelo menos, três décadas! Desde que os militares entregaram o poder.

Ao longo dos últimos séculos, uma quantidade imensa de mentes privilegiadas dedicou tempo e esforço à busca das causas que levariam grandes civilizações e sociedades a um processo de decadência irreversível. Seus “insights” são valiosos a fim de se entender os fatores que levaram, e levam, grandes impérios à derrocada.

Segundo Francis Fukuyama, o cara que disse que a história teria acabado, “A origem da decadência política seria a incapacidade das instituições em se adaptar às mudanças nas circunstâncias, especificamente a ascensão de novos grupos sociais e suas exigências políticas”. É verdade, mas ainda está fraco!

Já para Jared Diamond, “O problema recorrente, em sociedades em colapso, “são estruturas que criam um conflito entre os interesses de curto prazo, daqueles que estão no poder, e os interesses de longo prazo da sociedade como um todo! ” Seria difícil encontrar outra definição que enquadrasse de maneira mais clara e precisa o Brasil atual.

Para Mancur Olson, o grande fator que levaria à derrocada seria a apropriação indevida dos limitados recursos da administração por grupos de interesse particulares. A consequência seria um distanciamento cada vez maior do “Ótimo de Pareto”, situação na qual a alocação dos recursos se daria de forma a maximizar a satisfação dos governados. Quanto mais os grupos de pressão forem poderosos e atuantes, mais a sociedade se distanciaria da alocação ótima dos seus recursos. Mais uma vez, temos o retrato perfeito da atual situação vivida pelo Brasil, onde grupos de interesse açambarcaram completamente todos os recursos colocados à disposição da administração pública. Como dizia sempre meu mestre Ely Goldrat, em Colúmbia: “Ótimos localizados não fazem um ótimo global! ”

Fala-se muito em PRIVATIZAÇÃO das estruturas públicas, mas, para efeitos práticos, já foram “privatizadas” há muito tempo por grupos de interesse que se apoderaram delas. Os exemplos abundam: Bancos federais onde o lucro é sempre menor que a contribuição patronal aos fundos de pensão dos funcionários; empresas altamente deficitárias, verdadeiros cadáveres insepultos, sobrevivendo artificialmente através da abundante injeção de recursos públicos, mas sempre pagando salários nababescos a uma multidão de marajás, e por aí vai…

Podemos dizer como o grande historiador britânico Arnold Toynbee, em sua principal obra, Um Estudo da História, dividida em 12 volumes, que as “Grandes civilizações não são exterminadas, mas acabam com a própria existência. Para chegar a essa conclusão, ele explorou a ascensão e a queda de 28 civilizações diferentes.

O historiador tinha certeza que, em alguns aspectos: as civilizações são frequentemente responsáveis por seu próprio declínio. Sua autodestruição, no entanto, geralmente conta também com alguma “ajuda” externa.

Daron Acemoglu e James Robinson demonstraram de forma conclusiva que são as instituições políticas e econômicas feitas pelo homem que embasam o sucesso (ou a falta dele). A Coreia é um exemplo fascinante! É uma nação marcadamente homogênea. Mesmo assim, o povo da Coreia do Norte está entre os mais pobres da terra, enquanto que seus irmãos do Sul, estão entre os mais ricos. O Sul construiu uma sociedade que incentiva e recompensa a inovação. Permite que qualquer um participe das oportunidades econômicas. O sucesso econômico que então ocorreu foi mantido porque o governo foi responsável e respondeu às demandas dos cidadãos.

Paul Kennedy descreve detalhadamente, em sua obra monumental, o que seria o “mandato divino” dos mandarins chineses. Segundo ele, esta seria a base da legitimidade dos governantes. À medida em que as forças celestiais se mostrassem contrárias às ações daquela estrutura de poder, e os resultados das ações governamentais não se mostrassem propícios às aspirações da população, estes perdiam toda a legitimidade e eram logo substituídos.

Segundo Edmund Burke, quando uma sociedade é construída a partir de cima, seja pelo governo de uma ditadura revolucionária, seja pelos editos impessoais de uma burocracia inescrutável, a responsabilidade rapidamente desaparece da ordem política e da sociedade. De novo, parece exatamente o nosso estado atual.

Para mim, o total apodrecimento que verificamos nas nossas instituições políticas é a pré-condição necessária e suficiente para a revolução! Tal como as folhas de uma árvore, no outono, precisam morrer, para dar lugar à florescência da primavera. “Precisamos reformar a fim de conservar” dizia Edmund Burke

David Hume atacou a teoria do contrato social de Rousseau, argumentando que a ideia de Locke, de que “consentimos tacitamente” com o governo ao permanecer voluntariamente em sua jurisdição, é um mito! A maioria das pessoas só permanece por ser inevitavelmente forçada, por laços culturais, linguísticos e de hábito, a permanecer onde está, qualquer que seja o governo que legisla em seu nome. Embora reconhecesse a importância do consentimento popular para assegurar a ordem política, ele acreditava que esse consentimento era uma resposta à crença na legitimidade, e não sua fundação. A única base verdadeira para qualquer concepção de legitimidade ou obrigação política, argumentou ele, é a utilidade, não havendo outra justificativa para as obrigações além dos benefícios obtidos ao se aceitá-las. Assim, quando presenciamos uma estrutura de governo inepta, como a nossa, e cujos resultados são desastrosos para a população, podemos afirmar com segurança que toda a sua legitimidade já se esboroou há bastante tempo. A derrubada dessa estrutura corrompida e arcaica, agora, é imperativa e só uma questão de tempo.

Segundo Roger Scruton, é do caráter das utopias modernas ignorar todos os limites da condição humana: imaginar sociedades sem lei (Marx e Engels), sem famílias (Laing), sem fronteiras ou defesas (Sartre). Muita tinta conservadora já teria sido desperdiçada na refutação de tais visões, adotadas somente por pessoas incapazes de perceber a realidade e que, consequentemente, jamais serão persuadidas por argumentos.

Charles-Louis de Secondat, o barão de Montesquieu (1689–1755) argumentou que somente um governo aristocrático poderia criar um equilíbrio efetivo entre os poderes do Estado, evitando as tendências despóticas inerentes tanto à monarquia absoluta quanto ao governo pelo homem comum.

Segundo Engels, em seu estudo sobre a formação do Estado, a razão subjacente à queda do Império romano foi este ter se transformado em um mecanismo gigantesco e complexo, cujo objetivo exclusivo era espoliar seus súditos. Impostos e serviços obrigatórios ao Estado de todo tipo afundavam cada vez mais a massa da população na pobreza. A extorsão praticada por procuradores, cobradores de impostos e soldados aumentou a pressão até um ponto insuportável. Seu direito de existência se fundava na manutenção da ordem interna e na defesa externa contra os bárbaros. Sua ordem se tornou pior que a mais grave desordem, e até os próprios bárbaros (Brasil?)

Somos hoje, no Brasil, uma sociedade anômica e, invertebrada, no dizer de Ortega & Gasset. Não temos grupos de pressão política. Não temos as associações de moradores, as Santas Casas de Misericórdia, os gabinetes de leitura, os bombeiros voluntários, os Concelhos, NADA! Todas as formas de interação social, que dariam suporte e base à construção de uma sociedade, foram exterminadas pelo centralismo ditatorial de um bando de supostos iluminados, todos altamente parasitas e canalhas. Nossa população se vê transformada em uma imensa massa amorfa de bebês chorões, todos ávidos por mamar cada vez mais nas tetas estatais.

Qualquer proposta de mudança na forma de nos governarmos que venha a ser implantada, caso não surja de uma aristocracia, patriótica e consciente da brutal infantilização da nossa população, estará fadada a ser apenas mais uma forma de manipulação da imensa massa de macacos metidos a humanos em que nos transformaram.

QUE VENHA LOGO ESTA BENDITA REVOLUÇÃO ARISTOCRÁTICA!

14 pensou em “ARISTOCRACIA JÁ!

  1. Adônis, com o aparelhamento estatal, o Brasil não consegue se moves pra cima. Só se rebola horizontalmente. Empresas públicas criadas sem qualquer interesse social e proibidas de vendas pelo STF.
    O número de patentes aqui é menis da metade da China. Eu entendo que Paulo Guedes mostrou como fazer: reduzir a dívida pública com privatizações e concessões, mas a classe política não pode viver sem indicação para cargos que sirvam de fonte de arrecadação para patrimônio particular

  2. Adônis, isso está superado, já atingimos o “governo dos melhores”, com a assunção ao poder da direita na pessoa de Jair Messias Bolsonaro e seus auxiliares honestíssimos (determinando o fim da corrupção no Brasil), uma vez que a etimologia da palavra “aristocracia” leva a um sentido de “o governo dos melhores” (em grego, áristos significa o melhor. Isso fazia parte de uma concepção na Grécia Antiga de que as virtudes e qualidades morais só se desenvolviam entre poucos indivíduos na sociedade, o que se realizou com a eleição do próprio e a eleição dos ministros Paulo Guedes, Damares, Ernesto Araújo, o saudoso Sérgio Moro e tantos outros fulgores fulgorantes edulcorados.
    De modo que tua Revolução Aristocrática não só já se fez como está prestes a acabar, para dar lugar ao governo do povo, pelo povo e para o povo, com gente bem povão mesmo governando, comendo frango, tomando iogurte, viajando de avião e entrando nas universidades, um nojo).

    • Goiano,
      De tudo o que escrevestes acima, é aproximadamente mais ou menos NADA DISSO!
      1o – Aristos significava VIRTUDE. Aristocracia seria o governo dos virtuosos, aí entendido como sendo possuidores de virtudes MORAIS.
      2o – Platão já escrevia (A República) que a maioria absoluta da humanidade nasceu para a escravidão e só se sente bem nela! Troca a liberdade pela segurança. Continua válido.
      3o – Esse negócio de povão eu deixo para ti. Mundiça? JAMAIS!

      É um nojo mesmo! Nesta tu acertastes.

      Foi por causa dessa invasão de anencéfalos doutrinados nas universidades que eu desisti de lecionar. Não adianta jogar pérolas aos porcos.

      • Adônis,
        1) Te apegas, não sei porque, a filigranas, pois sabes muito bem o sentido amplo dos termos; e, no caso, temos que “governo dos virtuosos” é semelhante a “governo dos melhores”, até porque, como eu escrevi no meu comentário, “na Grécia Antiga (havia a concepção de que) as virtudes e qualidades morais só se desenvolviam entre poucos indivíduos na sociedade”. Enfim, queres discordar até quando concordamos?!
        2) A escravidão, à época de Platão, nos séculos 3 e 4 antes de Cristo, podia ser concebida como a situação da maioria da população, porque só era cidadão quem fosse homem, tivesse mais de 21 anos, fosse residente nas cidades e filho de cidadão ateniense – o resto eram as mulheres, as crianças e os escravos, estes últimos sem precisarem assumir as responsabidades da organização social – o que poderia resultaqr em uma relativa comodidade…
        3) Não acertei mesmo, visto que usei da mais pura ironia ao falar do nojo, porque nós, das esquerdas, não temos nojo do povo, queremos ver os pobres ascendendo, comendo frango, filé, sucrilho, e palmito, tomando iogurte e sorvete, viajando de avião e estudando nas escolas em relativa igualdade com a classe média. Para isso, nós, das esquerdas, garantimos o mínimo à sobrevivência e fazemos políticas de inclusão social, cuidando de injetar dinheiro na economia para que empregos sejam criados, em vez de sacrificarmos aposentadorias e outros direitos do trabalhador, de modo que a pauta das esquerdas é voltada para o assistencialismo, bolsas de comida, financiamento de casas, garantia de medicina, criação de escolas, orientação conscientizadora de Paulo Freire, respeito aos dirreitos humanos, inclusive de bandidos, atenção ao meio-ambiente, essas coisas para as quais a direita torce o nariz, com nojo da mundiça, da ralé, como incrivelmente confessas ter!
        4) Será a filosofia de direita seja feita de pérolas?
        Os porcos serão os pobres que conseguiram ingressar nos cursos superiores e que entram carantes da chamada “educação do berço”, por virem de lares pobres e incultos?
        Talvez estejam em meljhor situação que nós, pois, disse Jesus, por Mateus,
        Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
        bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
        bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
        bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
        bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.

        • Goiano,
          Jogar pérolas ao porcos é tentar colocar alguma racionalidade na tua cabeça.
          Você, quando fala de economia, é um poeta!
          Quanto à frase do Mestre, “Pobre de Espírito”, Ele se referiu ao modesto, humilde, simples. Não ao medíocre, o imbecil, cheio de ideias de jumento, entupido de ideologias escrotas e interpretando tudo o que houve através desse filtro maldito.
          Para mim, chega!
          Feliz no Novo!

          • Adônis,
            quase acertas, não entendo lhufas de Economia, e realmente sou um sábio quando me calo a esse respeito, tanto quanto as pessoas que não entendem cocô de cabrito de Direito se metem a falar do que não sabem chongas, se achando.
            Eu disse “quase” porque também sou de pé quebrado em poesia, rima pobre e temática pueril.
            Enfim, assim vamos levando – pessoas que não sabem Direito metendo a colher, neófitos em Economia dando palpites e idiotas governando o País.

            • Alguns não entendem de “Direita” porque não fazem “direito”. Hoje levantei com o pé direito e fui à Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo flertar com uma caloura de Direito, pois Sancho sabe fazer direito o que o namorado dela direito não faz.

              «raios me partam»… Como o Goiano é de esquerda se ele fez DIREITO?

            • Goiano,
              Querer justificar todo tipo de patifaria sob a desculpa de que as pessoas “Não conhecem o Direito” é, simplesmente, DE LASCAR A TABACA DE CHOLINHA!!!
              Para os que pensam (?) assim, todo o aparato legar erguido a partir e sobre a “Common Law” não vale nada.
              Para mim, faz muito mais sentido ouvir um grupo de pessoas “do Bem”, que deixar a rédea solta para que alguns seres “Supostamente Iluminados” deem vazão a todos os tipos de patifarias que lhes povoam as mentes.

          • 2020/21

            Vai-se o ano velho, sem deixar saudade.

            Um outro vai rompendo a casca do ovo:

            traga saúde e paz à humanidade.

            Desejo a todos feliz ano novo.

            Anderson

  3. Muito professor de hoje em dia não consegue transmitir em dois semestres tanto conteúdo quanto você condensou nesta crônica, Adônis.

    Ao ler o primeiro parágrafo, lembrei-me de uma entrevista que assisti na tv há muito, muito tempo, onde ouvi uma frase que jamais esqueci: “O brasileiro é ótimo de diagnóstico e péssimo de receituário”. Sempre que vejo esses iluminados repetindo discursos sem conteúdo, imagino um médico discursando para o paciente sobre os perigos das infecções e a importância de combatê-las, mas sem nunca escrever no bloquinho de receita o nome do antibiótico, que é o que o paciente precisa saber.

    Chegando ao último parágrafo, encontro a síntese perfeita: somos um país infantilizado. Um país de bebês chorões. Bebês, como se sabe, não são capazes de cuidar de si mesmos e dependem dos outros para sobreviver. Assim somos nós.

  4. A tempos já desisti de jogar pérola ao Goiano. E a mesma coisa que jogar xadrez com pombo. Mas pelo menos me sinto recompensado com as aulas e opiniões de Adonis e bertolluci quando acesso está gazeta escrota.

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