CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Francisco Bayma, Gerente-adjunto do Banco do Brasil

Pouco se tem notícia de uma instituição cujos funcionários deram contributo tão significativo à vida social do Recife quanto o Banco do Brasil, sobremodo na década de 1950. O Recife os pranteou com nomes de várias ruas, praças e edifícios. Relacioná-los seria enfadonho para meus leitores.

Eu vivi esse tempo e algumas histórias das quais eles foram os atores. Estive próximo de alguns personagens. E por terem sido muitos, vou distribuir minhas louvações em várias crônicas, de certo modo cheias de graça, para que eles não fiquem, de todo, esquecidos.

Francisco Bayma, era nosso Subgerente, nos anos de 1950, tempos do “Prédio Velho”, época em que substituía o Gerente, Dr. Pedro Lima. Anos depois foi nomeado Gerente-adjunto, cargo no qual se aposentou. Ficava sob sua responsabilidade a área de administração do funcionalismo e a parte de movimentação financeira junto à rede bancária.

Era um cidadão manso, educadíssimo, mas caladão e de pouca conversa. Resolvia casos difíceis sempre com muito pensar e poucas palavras. Era um homem de ação. Mantinha as normas do Banco sobre todos nós, com rédeas curtas. Escreveu não leu a transferência para uma agência do interior acontecia.

Naqueles anos tínhamos um quadro de funcionários famosos: Capiba, Carnera, Osman Lins, Gastão de Holanda, Gilberto Vasconcelos, presidentes da Cooperativa, da AABB, da AAFBB, diretores de clubes esportivos e sociais, teatrólogos, advogados, professores, engenheiros e médicos.

Na mesa do homenageado: Luiz Gonzaga Alves de Albuquerque, Lúcio Maria Clementino Pires, Renato Machado Maia, Jorge Marques de Souza, Francisco Bayma, Luiz Marias de Figueiredo, Fernando da Silva Cunha, Lupercínio Travassos, Otacílio de Alcântara Venâncio, Agenor Nunes de Aragão, Mozart d’Olinda Campelo, Anísio do Monte Portela e outros. Abril de 1956

Em suma, pessoas que se sobressaiam em várias áreas da sociedade. E sendo destaques, naturalmente mais difíceis de serem administrados. E, como não seria infalível, ainda havia uns poucos que vez por outra peitavam as normas.

Na seriedade com a qual direciono minha homenagem àquele com quem trabalhei, lembro-me de interessante historieta.

Certa feita um funcionário conhecido por suas arbitrariedades, Numeriano topou no tapete do velho elevador Otis, que estava rasgado numa das pontas há bom tempo. Arretou-se, rasgou o resto e jogou tudo para fora, o que espantou o cabineiro, João Monteiro e outros que estavam por perto.

Foi lamentável a maneira sui-generis pela qual ele desejou chamar a atenção do administrador. Se esquecera, talvez, de que o Banco dependia de licitação ou carta-convite até para comprar papel higiênico. E mais, a compra estava a caminho e demorava porque não havia peça semelhante na Casa da Borracha, uma das poucas fornecedoras desses produtos especiais, que havia no Recife.

Passados poucos dias, quando se pensava que o fato havia esfriado, Numeriano foi chamado à Subgerência. Sua arrogância, a essa altura, já se havia pulverizado por completo.

Mas, reconhecido como funcionário eficiente, apresentou-se pensando, certamente, que iria ser prestigiado, no mínimo, com uma “Viagem de Numerário”, por seu “ato de bravura” ao danificar o patrimônio do Banco e ter saído ileso. Julgou que Subgerente iria lhe dar uma satisfação pela demora na compra do tapete.

“Viagens de Numerário” eram missões que somente beneficiavam funcionários eméritos. Havia uma gratificação sobre as quantias que levavamos. Além de ser verdadeiros passeios-turísticos. Nossa sorte era quando ocorriam para lugares distantes, porque o “passeio” era de avião.

Ser convocado para uma dessas missões, quando o deslocamento era para o Rio de Janeiro, Natal, Maceió, Fortaleza ou Salvador era o mesmo que se receber u’a medalha de bom comportamento.

Os momentos diferentes que poderíamos vivenciar nunca se assemelhavam a um dia de trabalho normal. E o Subgerente era o dono da “Caixa de Viagens”. Era dele a escolha do funcionário, após consultar as chefias. Chega o funcionário à Subgerência:

– Pronto, Seu Bayma, às suas ordens!… – Apresentou-se Numeriano, garboso como um cabo diante de um general.

– Já comprou? – Indagou o Subgerente.

– Comprou o que?

– O tapete do elevador que o senhor rasgou e jogou fora!…

Numeriano sentiu a falta de uma fralda. Até os cabelos das axilas ficaram em pé. Quase se borrou. Mas o pior viria, ao receber uma carta pronta para ser assinada, solicitando adição para Vitória de Santo Antão.

Leu o papel meio trêmulo e perguntou que se comprasse o tapete escaparia àquela punição.

– Não senhor. E se o tapete até às 18h de hoje não estiver no elevador, considere-se à disposição da Direção Geral a partir de amanhã. E saiba que esta agência foi complacente dando ao senhor uma oportunidade porque o senhor era um funcionário de escol.

Tudo isso na maior maciota. O Subgerente era uma pessoa tão querida pelo funcionalismo que ao ser nomeado Gerente-adjunto, recebeu, como homenagem, um jantar no Restaurante Leite, o melhor do Recife, com música de piano a cargo de Isnard Mariano, comparecendo 45 colegas, distribuídos em vários grupos, ocupando todo o salão.

TURMA DE VALOROSOS – Na foto acima, feita em 1941, um grupo de funcionários do Banco do Brasil-Recife: Manuel Monteiro, João Batista Campos, Cirilo Mousinho, Pedro Lima, Francisco Bayma, Anísio Portela e Alberto Falcone. Em segundo plano: Alfredo Correia, José Barreto, Pedro Cavalcanti, Clodomiro Correia de Oliveira, Almir Sother, Gilvan Azevedo, Henrique Gonçalves, Ludovico s Santos, Álvaro Arantes, Mílton Santos e Jovelino de Brito Selva.

6 pensou em “ANTIGOS E VALOROSOS III

  1. Caro Manuel,

    Agradeço a sua leitura.

    Conheço e me lembro dos nomes completos de todos que trabalharam entre 1950 e 1980, que trabalharam na Agência Centro do BB e até colegas de algumas agências lotadas no interior.

    Infelizmente não há nenhuma lembrança deste nome, que poideria estar incompleto.

    Não seria Rivaldo Carneiro da Silva?

    Ou Rivaldo de Barros Carneiro?

    Se Rivaldo Carneiro da Silva – sim conheci e muito – até e citei este nome na página 326 do meu livro: O BANCO DO BRASIL NA HISTÓRIA DE PERNAMBUCO.

    Confirme e mande me dizer para eu lhe informar algumas coisas sobre ele ou me informe o que deseja saber sobre o cidadão.

    Cordialmente,

    Carlos Eduardo

  2. Infelizmente, não sei o nome completo. Sei que era de Recife e foi transferido para Maceió. Era quem fiscalizava os financiamentos aos plantadores de cana. Fez grandes amizades por aqui, inclusive com o meu saudoso pai.

  3. Infelizmente não o conheci.

    Certamente foi Fiscal da CREAI – Carteira de Crédito Agrícola e Industrial.

    Aquele abraço,

    Carlos Eduardo

  4. Meu caro amigo Carlos Eduardo,

    Emociono-me sempre que o vejo homenagear os valorosos funcionários do Banco do Brasil, seja em seus livros, ou em suas deliciosas crônicas, que chegam a me transportar a um passado que não vivi, pois era muito pequeno.

    Contudo, de uma forma ou de outra, sinto que participei disso tudo, mesmo que de maneira indireta. Como agora, ao ver numa das fotos dos Antigos e Valorosos o meu querido e inesquecível sogro Renato Machado Maia, pai da minha queridíssima esposa Regina e avô dos meus adorados filhos num jantar no Restaurante Leite, em registro do início dos anos 50.

    Alegro-me ainda mais ao lembrar-me de que, foi graças a uma pergunta que lhe fiz sobre se o havia conhecido, após ter lido uma das suas crônicas, que tive o imenso prazer de saber que sim e que por conta de sua prodigiosa memória, você não somente se lembrou dele como do convívio de ambos no BB, e de vários episódios de sua vida profissional no Banco do Brasil.

    Agradeço a Deus por ter tido essa maravilhosa oportunidade. Renato nos deixou em 2002. Mas permanece vivo em nossos corações e mentes, sendo lembrado o tempo todo. E de uma forma muito intensa cada vez que preciosos relatos como esses nos são presenteados.

    Congratulações pelo magnífico resgate dessas passagens tão valiosas!

  5. Já disse nosso grande professor – inclusive de Jornalismo – Nilo Pereira, que a maior paga do escritor é quando sua crônica passa a fazer parte da memória descendente de algumas família.

    Assim, me sinto inteiramente gratificado ao receber um comentário tão atencioso do meu querido amigo.

    Bom domingo!

    Carlos Eduardo

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