RODRIGO CONSTANTINO

O que é ser de esquerda ou de direita nos tempos atuais? Definir esses conceitos levaria mais do que um texto; talvez um livro inteiro. E não vem ao caso aqui. Mas um fenômeno que embaralha tais rótulos tradicionais tem sido observado não só no Brasil, mas no mundo: gente tida como de esquerda tem concordado com conservadores em pautas relevantes, ambos contra um poder cada vez mais arbitrário.

Historicamente falando, a direita confiava mais nas instituições e pregava seu constante aperfeiçoamento, uma vez que elas são controladas por homens e estes são imperfeitos. Daí a necessidade de um estado limitado com pesos e contrapesos. Mas a direita não era contra essas instituições, tais como a polícia, os aparatos de inteligência etc. Uma ala esquerdista, por sua vez, tendia a confrontar diretamente esses instrumentos estatais, como o FBI e a CIA nos Estados Unidos.

Agora, muitos conservadores condenam o “Deep State” pois se deram conta de sua corrupção, do uso partidário dessas instituições por burocratas receosos de perder seu poder. No Sunday Special do Daily Wire desta semana, Ben Shapiro recebeu o jornalista Glenn Greenwald para conversar sobre essas questões, e foi uma conversa excelente que todos deveriam ver na íntegra.

Glenn é uma pessoa de esquerda, mas tem sido alvo de ataques de esquerdistas ao combater a mídia corporativa tradicional e o aparato estatal utilizado para fins pouco republicanos. Para Glenn, o mais importante hoje é se você é antiestablishment ou defensor desse enorme aparato estatal, não se você é de esquerda ou direita. Faz algum sentido.

Para o jornalista que vazou pequena parte dos dados obtidos por Snowden, que trabalhou na CIA e na NSA, todo grande país precisa de um aparato estatal de inteligência para espionar inimigos externos, mas o risco é grande de este poder ser usado contra adversários internos. É justamente o que aconteceu quando Trump foi eleito.

Se esse Deep State enxerga Trump como uma ameaça concreta ao seu poder, então fará de tudo para derrubá-lo e impedi-lo de voltar ao poder. Gente sinceramente imbuída da crença de que Trump é Hitler reencarnado vai fazer de tudo para tira-lo da Casa Branca, não importa muito o meio. Isso seria uma ameaça à democracia muito maior do que o próprio Trump, para Glenn.

A cultura americana sempre desconfiou do aparato estatal sem freio e transparência, em que pese Hollywood ter inspirado inúmeros heróis vindos dessas instituições para salvar a Pátria. Desde o 11 de setembro, porém, funcionários do estado utilizaram esse imenso poder para espionar cidadãos americanos também, e isso fere a cultura da nação.

É aqui que uma ala da esquerda e uma ala conservadora podem se unir, ambos contra “democratas” que passaram a ignorar a ameaça oriunda desse gigantesco poder concentrado. Como sempre souberam os liberais clássicos, o poder corrompe. Se você aceita a premissa de que está enfrentando Hitler, você vai passar pano para esse perigoso abuso de poder.

Eis um dos problemas que Glenn enxerga: na era secular, a política assumiu preponderância sobre tudo mais, muitas vezes de forma fanática. Comentando a eleição brasileira, que ele acompanhou de perto por ser casado com um parlamentar brasileiro e ter filhos brasileiros, Glenn disse que essa visão de que quem discorda de sua política é “do mal” tem sido responsável por esse clima tóxico e por muito abuso de poder.

Deveríamos lembrar que dividimos outros interesses e afinidades como seres humanos, e que política é uma parte disso, mas não tudo. E que é possível divergir em muitos pontos sendo ambos pessoas decentes. Glenn acha que a hubris está por trás de muitos problemas na postura de parte da esquerda hoje. Uma arrogância de quem se coloca acima dos demais e precisa calar quem pensa diferente.

Por mais que seja alguém com paixões políticas, Glenn alega que nunca teve uma crença tão fanática e “certa” a ponto de desejar impedir o debate e escutar o outro. Partindo desse lugar de maior humildade e falibilidade humana, preservar a liberdade de expressão e o respeito ao contraditório se tornam posturas imprescindíveis. Glenn e Shapiro discordam de inúmeras pautas, mas puderam ter uma conversa civilizada e com vários pontos convergentes, respeitando-se as diferenças, o que é sempre saudável.

Quem está “convicto” de que está do lado certo e parece disposto a utilizar um enorme e poderoso aparato estatal para impor a sua “verdade” deveria sempre se lembrar do risco de o adversário colocar as mãos no mesmo instrumento de poder concentrado e voltá-lo contra você. Ou defendemos alguns princípios inegociáveis de liberdades civis, ou vamos acabar numa guerra de todos contra todos, o que jamais foi capaz de construir uma república decente, muito menos uma civilização sustentável.

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