ANOTAÇÕES DE VIAGEM

Dizem que a melhor forma de conhecer o caráter de um indivíduo é submetendo-o a uma destas três situações distintas: numa mesa de jogo com apostas, emprestando-lhe dinheiro ou como parceiro de viagem. Quanto às duas primeiras opções não possuo conhecimento de causa, porém, já comprovei, em viagens, a verdade da última teoria.

Abordo esse assunto porque dezembro é o mês de passeios turísticos de casais de bem com a vida. É impressionante a transformação que se observa no comportamento de determinados companheiros quando submetidos ao acerbo de uma viagem longa.

Não tenho o direito de prejulgar ninguém, e até entendo que tais alterações de compostura decorram das pressões contidas numa brusca mudança de hábitos, dando vazão à ansiedade, ao receio, ao estresse, à contrariedade e à necessidade de fazer valer nosso ponto de vista.

É tiro e queda. Querendo ou não, nós nos mostramos como somos numa convivência prolongada distante do nosso habitat natural. Mas aí é que reside o foco da questão, porque sem essa experiência fica difícil delinear o perfil da companhia ideal para viajar.

Para o bom convívio em viagens com amigos, ensinam que tudo se resume ao trinômio: compreensão, espírito de corpo e renúncia. A teoria não teria eficácia quando em viagens atreladas a excursões, onde o grupo é manietado por horários e tangido tal qual cordeiros obedientes ao cajado ou assobio do condutor do rebanho.

É essencial manter o espírito de corpo. Afinal você integra um grupo imbuído do mesmo objetivo: compartilhar momentos agradáveis em ambientes diferentes daqueles do dia a dia de cada um.

Outro ponto seria compreender e aceitar as preferências dos membros da excursão buscando o consenso para a manutenção da unidade do conjunto. Por último, saber quando e como renunciar aos próprios anseios privilegiando a programação da equipe para não ser tachado de estraga prazer ou roda-presa.

Isso na teoria funciona que é uma beleza. Agora leve para a prática e veja o que é bom para tosse. Existe o tal outlet capaz de desmontar qualquer planejamento elaborado durante meses de pesquisa em mapas ou vasculhando a história de cada país a ser visitado.

Mas, a quem responsabilizar pelo desmando? Ora, a quem! Àquelas adoráveis companhias com quem a vaidade melhor se identifica. Parceiras capazes de recusar qualquer excursão entediante se houver do outro lado da rua vitrines com roupas de grife ou promoções de produtos femininos de beleza.

Existe uma estratégia para o caso de amigos optarem pelas compras em detrimento de visitas a museus, por exemplo. Deixar os parceiros de viagem à vontade e, numa boa, ir satisfazer sua curiosidade em área distinta da deles estipulando um local para o reencontro do grupo horas depois.

No mundo animal, ao contrário do mundo racional, os machos são os privilegiados esteticamente. Isso desperta nas mulheres o agente patogenético causador do mal do culto à própria beleza – como se as mulheres não fossem desejáveis sem tais artifícios. Nesse caso, o melhor é não perder o humor e deixar a natureza feminina seguir o seu próprio curso.

Eu, particularmente, lanço mão de uma fórmula infalível: esquecer as mulheres nas compras e aguardá-las num barzinho aprazível, se possível, na companhia de um honesto vinho nacional.

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